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Intuição - Siga Seus Instintos

Intuição - Siga Seus Instintos

Autor:: Bernadete Estanini
Gênero: Romance
Intuição é o que a protagonista Amanda deveria ter seguido em relação ao seu ex-namorado, André, um homem charmoso, bem-sucedido e por ora controlador. Determinada a respirar novos ares a médica ortopedista, decide seguir os conselhos da melhor amiga e se refugiar por alguns dias numa pousada em um local paradisíaco. Neste mesmo lugar e hospedado com seu cão da raça pug de nome Chico está Raul, um rapaz sedutor e gentil que se mostra totalmente diferente de André. Amanda e Raul se tornam amigos e consequentemente mais tarde namorados. Apaixonados e desfrutando de um relacionamento saudável, não se dão conta do insano André e de suas artimanhas para aniquilar a felicidade do casal. André, além de espionar a ex-namorada, revela outra face, sombria e monstruosa. O cruel passa a sair pelas ruas à procura de prazer, camuflado por roupas, um veículo de cor escura e acima de qualquer suspeita, ele inicia uma série de maldades, torturando e desferindo nas mulheres que vendiam seus corpos, todo ódio que sentia atrelado ao desejo de vingança. Ao mesmo tempo em que ele atuava nas avenidas da cidade, tentava de todas as formas arrancar de Amanda sua paz e alegria, causando dor e sofrimento nas pessoas que ela mais amava. Chegando ao ponto de sabotar o carro do pai da moça, levando-o a sofrer um grave acidente e atropelando o pobre do cãozinho Chico que ela se afeiçoou tanto, afetando também Raul que era o tutor do pug. A todo instante a ânsia por retaliação pulsava nas veias do psicopata, e em uma bela noite após uma comemoração o casal fora surpreendido. André os abordou, feriu gravemente Raul, deixando-o a beira da morte, evadindo-se em seguida como um covarde que era. Raul lutava por sua vida a passo que André armava uma fuga espetacular e já em solo estrangeiro, ele assume outra identidade, faz novas amizades, enquanto o casal pleno, completamente apaixonados e prestes a se casarem, seguem adiante, torcendo para que um dia, o maléfico André seja preso e pague por todos os seus crimes.

Capítulo 1 O Rompimento

O persistente sol teimava em passar por entre as nuvens naquela manhã. Amanda acordara esgotada principalmente após a longa e fatídica conversa da noite anterior com seu então ex-namorado.

André era um homem bonito, charmoso, bem-sucedido e extremamente controlador. Os três anos que passaram juntos foram bons, mas também tóxicos e, se a balança dos relacionamentos de fato existisse, penderia para os momentos mais enfadonhos do que os prazerosos. Amanda cansou-se de relevar, de passar panos quentes; na verdade ela se cansou de tudo nele, até mesmo no que a atraía com o passar dos anos tornou-se indesejável e dispensável. O rompimento não fora doloroso pelo menos para ela, a médica ortopedista de 31 anos sabia o que desejava numa relação e passar o resto da vida em negação e pisando em ovos não fazia parte dos seus planos.

André não era agressivo, embora fosse muitíssimo ciumento, porém gostava de controlar tudo e todos a sua volta, e o que mais a irritava era a maneira absurda que tinha de responder em seu lugar, escolher o tipo de massa que iriam degustar na cantina predileta dele e até mesmo definir os roteiros das viagens que eventualmente viessem a fazer. Tudo tinha que ser conforme o senhor André desejasse. O homem fazia planos para o futuro, planejou nos mínimos detalhes a cerimônia do casamento, a festa, o número de convidados até mesmo a quantidade de filhos que teriam, assim como negar veementemente até a morte a adoção de um pet, algo que ele detestava, os animais de modo em geral.

Indiscutivelmente André Costa Milanese era um ser que regia a sua vida e a de todos a sua volta com mãos firmes de um ditador, que em nada condizia com o que Amanda acreditava e almejava.

A mulher esguia seguiu até a cozinha e preparou uma xícara de café e, no instante em que se deu conta que a cafeteira moderna que ficava sobre o balcão fora um item trazido sem consulta para o seu apartamento pelo seu ex, ela verteu a bebida quente na pia, desligou o aparelho e, após enxugá-lo, o guardou numa sacola de plástico.

Não preciso de você.

Ela acomodou a sacola no sofá.

Prefiro beber água o resto da minha vida a ter que beber o café feito por você.

Amanda riu sarcástica.

A sensação de se ver livre era o melhor dos prazeres. Há anos não se sentia tão bem, apesar do cansaço que a consumia naquela manhã, mesmo tendo noção das inúmeras tentativas de reconciliação que viriam, como; presentes exagerados e caros, convites para jantar, visitas inesperadas e tantas outras artimanhas que seriam utilizadas pelo André que a deixariam ainda mais farta. Tudo era possível tratando-se dele, o homem cujo ego dilatado era um de seus defeitos.

Amanda abriu a geladeira e com o apetite de um leão, separou alguns ovos e duas laranjas pera que estavam murchas.

É o que tem para hoje.

Ela lançou as laranjas para o alto e as pegou, rindo.

Antes de preparar seu desjejum, ligou o notebook e dedilhou pelo YouTube em busca de uma música que lhe tirasse do chão.

Hum, gostei. Que música é essa?

Curiosa, leu a descrição.

- Way Down We Go cantada por Kaleo.

A médica descompromissada colocou no volume máximo e deu algumas reboladinhas enquanto quebrava os ovos num pirex.

O suco de laranja e a omelete pareceram manjar dos deuses.

Como era agradável se contentar com refeições simples e fazer o que se gostava, Amanda pensou e caminhou até a sacada, jogando o chinelo surrado para longe e se esparramando na rede. A sensação deleitante foi interrompida pelo som do seu smartphone.

- Alô.

- Hello, amigaaa. Como você está?

Patrícia, uma amiga da época da universidade com quem Amanda mantinha a amizade e com quem se sentia bem para confidenciar, nos mínimos detalhes, todo o conteúdo do seu antigo namoro, ligou para tirar a colega do apartamento e levá-la para aproveitar a noite.

- Bem, Pati, e você?

- Ótima, amiga. É o seguinte, liguei para te fazer um convite irrecusável e não aceito um não como resposta. Me conhece, Mand. Nada melhor nessa vida do que cair na farra com a amiga, estou mega a fim de conhecer uma casa de espetáculos somente para mulheres, que comentaram comigo hoje na academia, e por tabela saber como foi a DR de ontem. Só em saber que vamos sair sem aquele cara de poucos amigos ao nosso lado, fico com dor de barriga de tanto gargalhar. - Patrícia riu e Amanda acabou rindo também.

- Foi tenso e libertador. Para ser clara e objetiva, não estava com vontade de bater pernas, afinal é minha primeira noite só, mas, pensando bem, eu topo. Onde fica e que horas passo aí?

- Uhul, é assim que se fala, mulher. As amarras não foram feitas para nós, Mand. O que acha de irmos de Uber? Depois eu durmo aí e colocamos todas as nossas fofocas em dia.

- Tirando o assunto de ontem, meu estoque está zerado com você. - Amanda riu novamente. - Uber é perfeito. Passo na sua casa às dez, pode ser?

- Combinadíssimo. Nos vemos mais tarde, beijos, amiga.

- Beijos. Ah, a noite é por sua conta.

Amanda desligou o telefone, deixando claro que não se esqueceu da promessa da amiga, referindo-se a custear uma noite de farra para comemorar o término do relacionamento com o André.

O dia passou ligeiro e como combinado, Amanda chamou um Uber e passou na casa da amiga, seguindo posteriormente para o local escolhido com afinco por Pati.

O trajeto fora rápido e logo as duas adentravam na suntuosa casa de espetáculos.

- Duas taças de vinho tinto suave, por favor - Patrícia pediu ao barman e o rapaz fez um meneio de cabeça, mostrando os dentes brancos alinhados num sorriso galanteador.

- Você não tem jeito.

Amanda deu um discreto sorriso para a amiga, que continuava flertando com o gostosão que as atendia.

O homem voltou equilibrando as taças numa bandeja cromada e piscou para ambas.

- Saúde, garotas. Se precisarem de algo, fico por aqui até as oito da manhã. - Exibindo todo seu charme, o barman voltou a atenção para um grupo de pessoas que solicitavam drinks.

- Que fofo! - Pati praticamente gritou no ouvido da amiga.

- Bonito, fofo é um pouco demais.

Amanda levou a taça à boca, saboreou seu Cabernet Sauvignon e seguiu para um dos mezaninos que se encontrava desocupado.

- Então, como foi a coisa toda? Porque aceitar pacificamente não faz muito o tipo do André. - Patrícia girou a taça nos dedos e olhou para a amiga, que continuava a beber calmamente sua bebida.

- Terminar com alguém, por mais evidente que tudo pareça, é difícil. O André é uma boa pessoa, mas temos que convir, ele precisa mudar essa maneira de querer controlar tudo que se move, é cansativo. Fui arrastando, empurrando com a barriga, supus que ele uma hora ou outra percebesse o quanto era intransigente, no entanto, nesses três anos, nunca demonstrou mudança alguma ou sequer vontade de querer evoluir.

- Você é uma heroína, Mand. Ele é, sem dúvida, o homem mais chato que eu tive o desprazer de conhecer. O que tem de bonito, tem de desagradável. Pessoas assim, deveriam se casar com o espelho. Dormir e acordar abraçados consigo mesmo. Nunca achei que era saudável esse seu relacionamento. Perdão, amiga, sempre fui sincera e não nego o quanto estou feliz por você. A ares novos. - Patrícia ergueu a taça.

- A ares novos. - Amanda repetiu o gesto da amiga e tilintou tomando um generoso gole de vinho em seguida.

- Você deveria tirar alguns dias de folga. Quando foi a última vez que viajou sozinha?

Patrícia inquiriu, embora soubesse que Amanda jamais tivesse feito algo do tipo. Bem ao contrário dela que, pelo menos uma vez por ano, viajava sozinha.

- Nunca. - A médica riu e pensou que talvez a ideia não soasse tão ruim assim. Não era ser solitária e sim se encontrar consigo mesma, fazer algo que nunca havia cogitado, fora de seus planos, mas que desta vez fazia todo o sentido.

Amanda encarou a amiga, deu um meneio de ombros e voltou ao assunto.

- O que me sugere?

- Bom. - Pati colocou a taça sobre a pequena mesa preta de granito cinza chumbo, ajeitou-se no confortável banco de couro preto e soltou a língua. - Uma pousada em Ubatuba, Praia das Toninhas, um lugar calmo, acolhedor, cercado de muito verde, café da manhã maravilhoso e... - Ela fechou os olhos recordando-se de todas as viagens que fizera para esse local. Patrícia era uma aventureira incorrigível, o oposto da Amanda, e quando se tratava de conhecer lugares paradisíacos ela os conhecia como ninguém. - Das últimas vezes que fiquei hospedada lá, foram nessa mesma pousada. Foram dias incríveis, a natureza, eu e ninguém mais. É perfeito, amiga. Recarreguei as baterias, organizei as ideias e voltei cheia de planos.

- Eu me lembro do seu entusiasmo. Era contagiante. - Amanda demonstrou total interesse. - Depois me passa o endereço, vou ver se consigo me organizar e tirar alguns dias, quem sabe um final de semana.

- Não, não. - Patrícia negou com a cabeça. - Final de semana não recomendo, é longinho, amiga. O ideal mesmo é uma semana, no mínimo. Que ser nessa Terra consegue relaxar num único final de semana? Os paraísos devem ser aproveitados ao máximo. Ajeita as coisas, há quanto tempo não saí de férias?

- Férias mesmo, de vinte dias, há dois anos.

- Então, converse no hospital, reorganize a agenda do consultório e caia na estrada, você precisa, precisamos às vezes, Mand. Tenho certeza de que voltará revigorada. Você merece, amiga. - Patrícia sorriu com ternura.

- Talvez tenha razão. - A ortopedista abriu um sorriso, começando a se familiarizar com uma possível folga.

- Eu sempre tenho. - Pati torceu os lábios num tom de gozação e pegou o smartphone na bolsa para passar a Amanda o quanto antes o contato da pousada, fez uma pequena pausa ao olhar para a frente e vislumbrar-se com um homem. - Uau! Olha aquele pedaço de mal caminho que começou a dançar no palco. - Rapidamente compartilhou o contato com a amiga e voltou a se interessar pelo parrudo que se exibia.

Capítulo 2 Nas ondas do Mar

Duas semanas se passaram até que Amanda conseguisse uma folga no hospital e com a ajuda de sua recepcionista remanejasse as consultas agendadas em seu consultório. Ela passou dias tentada em aceitar de prontidão a dica da amiga e após muitas reflexões, acertos aqui e ali, a cirurgiã ortopédica conseguiu dez dias para curtir a natureza, relaxar numa rede ao som das ondas arrebentando nas pedras, o cantar dos pássaros, tudo que fosse possível para recarregar as baterias e voltar disposta a seguir adiante com alguns planos que, por falta de entusiasmo, foram adiados.

Assim que ela cruzou a porta do quarto onde passaria os próximos dias, soltou um longo suspiro. Amanda estava convicta de que tomara a decisão mais assertiva após dar um basta em seu romance nada romântico. Tomada por uma força interior capaz de fazê-la derrubar solidificadas barreiras, ajeitou seus pertences no armário de carvalho que ficava ao lado oposto da cama king size, que fora escolhida propositalmente como um teste drive para uma possível aquisição, vestiu seu biquíni surrado, o que a fez concluir que precisava com urgência adquirir peças novas, um vestidinho soltinho rosa claro com nuances lilases, uma rasteirinha e levando consigo apenas uma toalha de banho, seguiu para a área da piscina que ficava a poucos metros dali.

Havia pouquíssimas pessoas hospedadas no momento, o estacionamento estava praticamente vazio, tanto quanto o restante do local. A água convidativa da mediana piscina a atraiu de imediato e disposta a aproveitar sem moderação cada instante que lhe era proporcionado, se desfez do vestido e o colocou sobre a toalha numa espreguiçadeira.

A arte de saber viver.

Pensou e se jogou, sem grande performance, ou delicadeza no salto, pelo contrário, lembrou mais uma garotinha de férias querendo se esbaldar.

Apesar das altas temperaturas para o mês de setembro, o choque foi inevitável, mesmo assim tão prazeroso quanto, Amanda iniciou seu nado dando braçadas ritmadas para se acostumar com a gélida água e após alguns instantes, totalmente à vontade, boiou como amava fazer. As horas voaram e com o estômago roncando e a pele antes pálida, agora com um tom avermelhado, a fizeram sair.

Suas merecidas férias só estava começando e queria aproveitar cada segundo dela. Retornou ao quarto, tomou uma ducha e, como a pousada só servia o café da manhã, ligou na recepção e solicitou indicações de restaurantes que ficavam nas proximidades. Dirigir estava fora de cogitação, Amanda queria caminhar ao ar livre, fazer tudo que era privada na capital.

Com a indicação anotada no smartphone caminhou a passos lentos e olhares curiosos voltados para as inúmeras lojas de biquínis que ficavam pelo trajeto.

Já sei o que vou fazer após me fartar, compras.

A palavra "compras" a fez se lembrar de ligar para os pais, não que eles fossem um casal extremamente consumista, o que era quase verdade, Amanda como a boa filha que era precisava avisar aos pais que havia chegado e estava tudo bem.

Ela escolheu um restaurante à beira-mar, pequeno, mas muito aconchegante, com uma decoração rústica de causar inveja a grandes restaurantes famosos. Sentou-se numa mesa de frente para o mar e, enquanto comtemplava a beleza criada por Deus, se satisfez com um belo arroz branco, salada de mariscos no vinagrete e, para acompanhar, uma cerveja gelada.

- Mãe? Tudo bem? Cheguei mais cedo, mas acabei sendo sugada pela paisagem daqui e por isso estou ligando agora.

Amanda continuava no restaurante, apreciando a vista e, desta vez, se deliciando com uma taça de açaí.

- Ah, logo deduzi. Seu pai queria te ligar, não deixei. Sabe como ele é. - Estela riu.

- Extremamente preocupado.

As duas disseram em uníssono e Glauco resmungou.

- Pai, aqui é lindo, precisamos marcar uma viagem só nós três. Vocês vão amar. Acabei de almoçar e adivinha só? Comi uma salada de mariscos, que é simplesmente maravilhosa.

- Isso é ótimo, filha. Precisava dessa folga, trabalha demais.

- Quem será que ela puxou? - retrucou a mãe.

- Adoro essas nossas conversas no viva-voz - Amanda comentou, antes que os pais começassem a conversar entre si, falando dela o quanto a amavam e o quanto ela dava duro, como se ela não estivesse participando do papo.

- Sei que sim. - Estela riu.

- Prometo não me esquecer de ligar.

- Pelo menos à noite, Amanda. Está sozinha, sabe que ficamos preocupados - repreendeu o pai.

- Pode deixar, pai, ligo sim. Amo vocês, se cuidem e cuidem um do outro.

- Beijos, e fique com Deus - disse Glauco com o coração apertado.

Amanda era filha única e uma filha que jamais causou a eles desgosto, apesar de não gostarem nada do seu antigo namorado.

- Nos ligue, hein - comentou Estela e desligou o celular.

A moça terminou de saborear sua sobremesa e voltou a caminhar pela orla em busca de looks de praia. Quando ela retornou para a pousada já era começo de noite e cansada, tomou uma ducha, saboreou um sanduiche que pedira na cozinha do local e assistindo TV pegou no sono e ao acordar na manhã seguinte, notou que o dia começava com uma densa névoa encobrindo os morros que contribuíam para a beleza local e posteriormente ao farto desjejum servido na pousada, Amanda decidiu fazer uma caminhada pela praia. Passava pela recepção quando um latido vindo do lado de fora lhe chamou a atenção, a ortopedista sempre amou os animais, sempre teve um peludo como companhia, mas desde o falecimento de Luck, seu cãozinho vira-lata de pelagem escura, e a saída da casa dos pais para encarar sozinha a rotina de um lar e tudo o que o envolvia, ela optou por deixar de lado a adoção de um pet, pelo menos por enquanto.

Caminhou em direção ao cão da raça pug, abaixou-se e o acariciou.

- Oi, moço, você é muito fofo, sabia?

Continuou afagando o topo da cabeça do cachorro e sorrindo com a retribuição carinhosa dele.

Ambos se entenderam muito bem, os animais eram capazes de ler através da alma dos seres humanos, eles com sua pequena sabedoria reconheciam quando eram amados e queridos e isso não fora diferente com o pug de idade avançada que lambia uma das mãos da mulher que o enchia de carinhos.

- Own, vou levar você para mim - ela disse e uma voz vindo de cima soou grave em seus ouvidos.

Amanda ergueu a cabeça e defrontou-se com um homem alto, de pele bronzeada, cabelos castanho-escuros desalinhados e olhos do mesmo tom, olhando para a cena que se passava.

- Jamais deixaria que levassem esse meu amigo aqui. - O rapaz sorriu e se abaixou próximo da médica, que continuava a olhá-lo um tanto sem graça.

Amanda estava tão compenetrada com o faceiro cão, que nem sequer se deu conta do dono dele em questão.

- Ele é muito lindo, amo todos os cães e gatos que encontro - ela comentou e deu um giro de cabeça olhando ao redor. O que menos desejava nesse instante era uma mulher ciumenta surgindo do nada e supondo que ela estava usando o pobre cão para paquerar seu homem.

A cirurgiã ortopédica jamais gostou de exposições gratuitas, mantinha a discrição onde quer que fosse, evitava ao extremo qualquer embate, fosse ele de qualquer natureza. Por isso demorou tempo o suficiente para romper com o André. Tinha inúmeros motivos, todos plausíveis, no entanto, seguiu fazendo vistas grossas até se dar conta que não conseguia mais suportar.

- Chico é levado, adora um afago. - Se olharam profundamente e se estudaram.

- O Chico está certo. - Amanda desviou do olhar que lhe prendia e voltou-se para o pug que, a essa altura, encontrava-se deitado com as patinhas dianteiras e traseiras esticadas e com um metro de língua para fora.

- Raul, prazer, o dono desse camarada. - Mais uma vez, o moreno de olhos pertinentes sorriu e esticou a mão direita para um cumprimento amigável.

Amanda retribuiu o gesto com um sorriso contido, tocou levemente na mão de Raul e disse seu nome.

Instantaneamente, em um ato sincronizado, se ergueram.

Raul a princípio gostou da genuína beleza da mulher que surgira em sua frente, mas o que mais lhe chamou a atenção, fora o fato de se encantar com o seu cão, foi o brilho no olhar. Olhos que encantariam uma serpente, num tom vivido na cor âmbar, ou olhos cor de uísque como ouvira algumas vezes.

O silêncio tomou conta das ações, apesar do barulho das ondas estalando nos ouvidos e uma conversa paralela vindo da parte interna da pousada. Raul e Amanda se entreolharam uma dezena de vezes e depois saíram do arroubo.

- Hospedada aqui? - ele inquiriu por fim.

- Cheguei ontem. - Amanda desconversou, deu um ligeiro aceno de cabeça para uma senhora que passava por eles e resolveu cortar a conversa pela metade, antes que a coisa começasse a ficar estranha. - Vou indo, até qualquer hora. - Rapidamente ela girou nos calcanhares e seguiu em direção às areias do mar.

Quanto a Raul, ficou estático como se tivesse sido arremessado de um penhasco, ele era bom com as mulheres, sempre foi, mas desta vez perdeu parte da essência que o transformara num galanteador. Na frente da mulher de olhos caramelados, sua hegemonia ruiu como um castelo de cartas golpeado com fúria por uma ventania descontrolada.

Amanda queria tudo com as curtas férias, menos um caso amoroso. Trocar olhares, achar alguém atraente, não significava envolvimento seja de que espécie fosse.

Ela acelerou os passos como uma atleta nata e se refrescou ao sentir o toque da água salgada indo de encontro com as solas dos pés. Caminhou por alguns instantes e resolveu sentar-se em meio as pedras, observar as ondas indo e vindo num balé cadenciado era acalentador. Contemplando a natureza, pensou em tudo que havia vivido e experimentado até ali e, mais uma vez, concluiu que os anos passados ao lado de uma pessoa que destoava completamente dela foi um dos maiores erros cometidos e jurou, vislumbrando o horizonte, que nunca mais cometeria algo sequer próximo disso.

Quando ela resolveu regressar, estava quase na hora do almoço, optou em pedir uma massa e passar a tarde lendo um livro, o que amava fazer em seus tempos livres.

Só achou estranho que, ao passo em que se deliciava com a história esparramada na rede que ficava na varanda de seu quarto, ouvia em alto e bom som a voz do Raul conversando com o Chico.

Totalmente previsível, ela admitiu. O homem e seu cão estavam hospedados no quarto ao lado e se esticasse um pouco o corpo, poderiam até se ver e trocar breves palavras.

A médica meneou a cabeça e voltou a atenção para o romance policial que a instigava, sem deixar de ouvir o timbre grave de alguém que acabara de conhecer e que, de certo modo, a fizera recordar episódios dos quais ela desejava com todas as forças apagar.

Raul, assim como André, era a combinação perfeita de homem bonito, charmoso cheio de atrativos e que possivelmente poderia mostrar mais à frente quão tóxico poderia ser quando estava numa relação.

Talvez, Amanda nunca mais se envolveria, ou talvez se envolveria rápido demais, o que a deixou assustada.

Capítulo 3 Olhar Penetrante

Como de costume, Raul acordou antes das seis, frequentador assíduo da academia de seu condomínio resolveu se exercitar correndo pela orla marítima. Ao contrário do dia anterior, o sol começava a despontar e com a energia saltando pelos poros, correu por quase duas horas, retornando à pousada com a regata ensopada de suor e gotículas deixando sua pele ainda mais chamativa.

Ao cruzar pela recepção esticou os ombros olhando precisamente em direção ao refeitório tentando encontrar a mulher com quem se esbarrara no dia anterior. Sua especulação foi em vão, Amanda ainda dormia, e dormia como uma pedra, e quando ela acordou e abriu a porta balcão da sacada, amou ver que o dia prometia. Rapidamente tomou um banho, se recompôs e desceu para tomar o café da manhã.

Se servia de uma fatia de queijo branco, no instante em que o homem e seu cão adentraram o ambiente.

Os olhos de Raul chamuscaram e os de Amanda fingiram indiferença.

- Bom dia - Raul cumprimentou de modo geral, no entanto, olhando fixamente para a moça, que se divertia com seu pug.

- Bom dia. - Amanda retribuiu o cumprimento e evitou contato visual com o moreno, continuou a afagar o cão e se fingir de durona.

Raul ficou ligeiramente desapontado, serviu-se de um copo de suco de laranja, uma banana, uma fatia de mamão e voltou a se aproximar dela.

- Posso me sentar? - ele perguntou, mas, antes que ouvisse uma resposta negativa, sorriu e fez cara de compaixão.

- Claro - Amanda respondeu educadamente, embora seu desejo fosse saltar da cadeira e fugir dali.

Os feromônios falavam por si só, a atração era mútua, querendo ou não eles formavam um bonito casal. E estavam fazendo um esforço hercúleo para não baixarem a guarda, não de primeira.

Raul a observava compenetrado e atraído e Amanda tentava disfarçar o fascínio que ele despertava nela.

- Enquanto você termina seu café da manhã, posso levá-lo para dar uma volta? - ela perguntou segurando a guia do cachorro.

Raul a olhou com curiosidade. Sentia que deveria avançar, mas ao mesmo tempo pensava que recuar as vezes era a melhor decisão. Amanda estava cautelosa e ele só queria conhecê-la melhor, saber mais dela e não a colocar para correr.

- Pode. - Decidiu ousar. - Preciso comprar o sachê de carne que ele gosta, se quiser podemos ir juntos.

Amanda pensou em dizer "NÃO", por fim topou.

O moreno bebeu tão rápido o suco de laranja que a ortopedista pensou que talvez tivesse que fazer um boca a boca para conter um eventual engasgo. Amanda esperou que ele terminasse de comer do lado de fora e assim que ele se juntou a ela e ao Chico, seguiram em direção ao mercado que ficava a duas quadras dali.

No começo as passadas foram desiguais e silenciosas, depois de alguns instantes caminhando lado a lado, quebraram o silêncio. Na verdade, Amanda rompeu.

- Como você e essa fofura de cão se conheceram?

Ela supôs que seria uma história como tantas outras: Num belo dia um homem decide comprar um cãozinho de raça. Vai até um local especializado e escolhe o mais quietinho. No minuto seguinte em que Raul começa a relatar a história, Amanda se vê ainda mais atraída por ele.

- Costumo fazer doações para um abrigo de cães que fica perto de casa, confesso que sempre gostei de cachorro, mas nunca tinha tido um, até ir levar alguns sacos de rações nesse lugar e conhecer o Chico. Chicão foi abandonado numa rodovia, por sorte foi resgatado e levado para essa instituição, quando olhei para esse cão foi instantâneo. Entrei com rações e saí de lá carregando o Chico. Ele foi descartado como lixo, porque é velho e está ficando cego, para os antigos donos ele não tinha mais serventia, como se um cão fosse um utensilio velho, em contrapartida para mim, Chico é da família. Meus pais, irmã , todos o amam e esse carinha sabe bem disso. Não é, seu folgado? - Raul olhou para o cão e ele abanou o rabo. - Chico e eu estamos aqui porque ele tem uma missão importante no sábado.

- Sério? E qual é?

- Um casal de amigos vai se casar e o Chico foi encarregado de levar as alianças.

- Ah, não acredito, que lindo. - Amanda deu um largo sorriso e esse sorriso deixou Raul ainda mais fascinado. - Muito fofo, sua adoção, seu amor por ele e o dele por você. Merecido essa incumbência designada a ele. Chico vai arrasar, com toda certeza. - Amanda inclinou-se para o cão. - Não é, Chico? Aposto que você está muito orgulhoso dessa função. - Ela o beijou e Raul desejou ser seu cachorro só para sentir os lábios rosa dela tocando sua pele.

A moça voltou-se para o homem que a olhava e no mesmo instante ele sentiu como se tivesse sido pego em flagrante, o que era notável. Raul não costumava ocultar seu interesse por mulheres que lhe chamavam a atenção, pelo contrário, ele ia com tudo, investia, no fundo o moreno era romântico, porém, com o tempo, Amanda deixou de lado essa parte da vida que costumava causar frisson, saiu a mulher doce e romântica e entrou a prática e objetiva.

- Uma colega do trabalho se casou em Ilha Bela, foi maravilhoso, as alianças vieram penduradas num drone. - Ela sorriu. - Muito moderno, não? No entanto, entre o Chico e o drone sou mil vezes o Chico. Ele será sem dúvida a atração da cerimônia.

- Meu cão tem um papel importante, venho treinando ele há dias.

- E como ele vem se saindo? - A moça inquiriu curiosa e por um segundo conseguiu visualizar a cena, o que a fez achar lindo e engraçado também.

- No começo, ele não entendeu nada, o que é normal, depois sentou-se no chão e tentou comer a fitinha que estava amarrada a ele com a caixinha das alianças.

Amanda não conseguiu se conter e explodiu numa gargalhada gostosa, sacolejando o corpo que deixou Raul impactado com a leveza com que a mulher ria, se divertia com a história, como se fossem velhos amigos.

- Perdão, não aguentei. Só de imaginar... - Ela riu novamente, levando a mão à boca, como quem estivesse tentando esconder um sorriso natural, e que sem sequer se dar conta estava deixando o moreno que caminhava ao seu lado boquiaberto.

Raul gostava de mulheres lindas, curvas tentadoras, entretanto, gostava ainda mais quando elas eram espontâneas.

- Chico e eu agradecemos, conseguimos arrancar de você boas risadas.

- E tem mais. Há tempos não ria com algo tão engraçado. Meu cérebro construiu a cena toda.

- E gostou do que ele reproduziu?

- Muito, se o Chico fizer isso durante a celebração, filme, posso garantir que esse rapaz fará um enorme sucesso. - Amanda riu, desta vez mais contida.

- O que você faz? - Raul queria saber tudo dela, principalmente por que uma garota como ela fazia num lugar daqueles sozinha?

- Sou cirurgiã ortopedista, sou especialista em ortopedia e traumatologia. - Amanda sentia-se orgulhosa de sua profissão, deu duro para chegar aonde estava e, pelo menos nesse quesito, a médica não era humilde. - Perita em joelho, pé e tornozelo.

- Caramba, isso é muito legal, vou me lembrar da próxima vez que torcer meu tornozelo batendo uma bola.

- Posso garantir que será bem atendido - ela disse e acabou se arrependendo, o moço poderia levar o comentário por outras vias e Amanda não desejava isso, não agora. E você, o que faz?

- Cientista político de um jornal, tenho uma coluna semanal.

- Uau! Posso imaginar o quão complicado é ser um cientista político dentro do cenário em que vivemos atualmente.

- Obscuro. - Raul entoou a voz e arrancou um sorriso de Amanda.

- Qual o jornal? Vou começar a ler a sua coluna.

Ele gostou e como gostou do interesse dela.

- Cidade e Comércio de São Paulo.

- Uau, novamente. Um jornal de grande alcance. Meu pai é assinante, continua recebendo o impresso, detestou o virtual.

- Um homem de bom gosto.

- Papai é. - Amanda nesta ocasião sorriu com ternura, afinal ainda via seu pai como seu herói.

- Atende em hospitais, consultórios?

- Nos dois lugares. Não consegui me desvincular dos atendimentos na emergência. Amo muito o que faço e trabalhar na emergência é a dose perfeita de adrenalina que preciso e gosto. Faço parte do corpo clínico do Hospital Santo Agnelo e possuo um consultório particular na Alameda Santos.

- Conheço, nunca entrei, é hospital de referência. Pela estrutura, você deve ter inúmeras cirurgias diárias para realizar.

- Em determinadas épocas, a coisa ferve, e então, o caos se instaura. Em outras, apenas atendimentos corriqueiros.

- Olhando para você, jamais poderia imaginar que enfrenta torções, fraturas expostas e tantas outras coisas. - Raul a olhou com uma incógnita saltando de suas íris. Ele estava quase pedindo o endereço do consultório, ou pelo menos o nome completo dela. Essa era chance que ele precisava para não perder o contato da mulher que o havia deixado extasiado.

- Idem, poderia supor tudo, professor universitário, personal trainer, menos possuir uma coluna num jornal de qualidade e, detalhe, de âmbito político.

- Parece que fomos surpreendidos - o moreno comentou olhando para ela de forma intensa e até um pouco descarada.

- É, parece que sim.

Amanda concordou e desviou os olhos do dele que a faziam cativa e a deixavam exposta.

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