Capítulo 1
O acaso flerta com o meu coração
Eu ainda sentia a mesma coisa de quinze anos atrás. Uma paixão descontrolada por aquele homem. Quando saí de Belo Vale, cidade rural de Minas Gerais para Belo Horizonte com meus pais, carreguei comigo todo aquele sentimento inesquecível de adolescente. Eu era total e completamente apaixonada por Matteo Vieira Ricci, filho dos donos da fazenda onde meus pais trabalharam. É claro que eu não sabia, se agora com vinte e três anos, eu ainda era completamente apaixonada por ele mas que eu não consegui esquecer, isso nunca. E eu estava voltando.
Eu tinha acabado de terminar meu curso de Enfermagem quando vi um anúncio na internet. Uma senhora precisava de cuidados de enfermagem e acompanhante em Belo Vale. Era tudo que eu precisava naquele momento e até que seria bom fugir um pouco da cidade grande e relembrar minha infância e adolescência na minha cidadezinha natal. Tal forte foi meu susto quando li o anunciante e o local que cheguei a me arrepiar. Matteo Ricci procurava enfermeira para sua mãe. O meu coração chegou a palpitar. A vida é uma coisa engraçada. Por mais que a gente fuja de uma situação, ela nos coloca diante dela de novo para aprender alguma coisa. Talvez ter um ganho ou uma perda, mas com certeza, ter sempre uma lição.
Era certo que eu estava com medo de me candidatar, afinal a última notícia que tive dele era de que tinha se casado aos trinta e três anos. Ele era aquele tipo de homem que não passava desapercebido por nenhuma mulher mas tinha escolhido casar tarde. E quanto a mim, tinha tido alguns namorados e me gabava de ser livre para minhas amigas sempre enroladas. Na verdade, não era bem que eu fosse livre do que eu me gabava, mas de não me apegar. Eu não conseguia me apegar porque nunca consegui esquecer minha paixão adolescente. Matteo, neto de italianos, era aquele homem tão diferente de mim que nunca me saiu dos pensamentos. Eu tinha crescido naquela fazenda, junto dos meus pais, quilombolas. Quando houve uma briga no quilombo dos pretos e meu pai foi ameaçado de morte, ele decidiu sair de lá junto com minha mãe e os filhos. A fazenda mais próxima, uma das antigas propriedades do Barão de Paraopeba, era a fazenda do senhor Giovanni. A italianadaque tinha comprado a fazenda décadas atrás, criava gado e precisava de gente para ajudar na limpeza de terreno e da casa. O senhor Giovanni era um homem afeito aos descendentes de escravos. Ele costumava dizer que todos eram iguais, brancos e pretos. Um homem e tanto, sempre disse meu pai.
O senhor Giovanni era um excelente ser humano e tinha criado um único excelente ser humano, seu filho Matteo. Eu era adolescente e não sabia porque não puderam mais ter filhos, mas o fato é que ele tinha um bonito, inteligente e amoroso filho. Eu cresci apaixonada por Matteo, mesmo com toda a diferença de idade e acredito que era por causa dessa diferença de quinze anos entre nós que me deixava fascinada por ele. Quando fomos para Belo Horizonte, no falecimento do senhor Giovanni, eu tinha quinze anos e Matteo, trinta. Eu ficava da casa da fazenda o observando pela janela desde os meus treze anos, completamente apaixonada. Eu o observava tocar o gado à cavalo no pasto e sonhava ser sua esposa. Eu nunca conheci outros negros como eu naquela época. Ele era o alvo da minha paixão mesmo sem saber o que isso significava. Só aprendi mais tarde quando comecei a poder assistir as novelas que minha mãe nunca permitia quando mais nova. Eu ainda guardava as cartas que escrevia para aquele italiano. Dezenas e dezenas de cartas de amor adolescente para um adulto que nunca me olhou. Era óbvio que ele jamais olharia, eu era negra e adolescente. Bem, talvez não por ser negra mas, com certeza, por ser uma criança para ele.
Quando amadureci em Belo Horizonte, namorei com os rapazes negros parecidos comigo. Cheguei perto da paixão que senti por Matteo mas nunca foi igual. O meu amor da adolescência, mesmo adormecido, ainda estava lá no meu peito, impossível de ser substituído. Matteo era aquele homem envolto em mistério, em experiência e em maturidade que eu não queria encontrar igual. Mas ele se casou. Voltar a fazenda talvez pudesse me fazer esquecer que ele era o único homem de valor no mundo. Dessa forma eu poderia me libertar e abrir caminho para me encantar por outros homens. Eu precisava ver sua família feliz e o anel de casamento no dedo dele que simbolizava aquele status de "e foram felizes para sempre" para me desencantar.
Conversei com meus pais então, disse que ia pegar um ônibus para Belo Vale e tentar conseguir aquela vaga de enfermeira que estavam oferecendo por lá mas não disse onde era. Eles não aprovariam o meu retorno lá, uma vez que saíram justamente para que os filhos tivessem uma vida melhor na cidade grande. Realmente tivemos. Meus irmãos estavam estudando, Mariana e Hélio. Eu, Isabela Machado, tinha concluído a Enfermagem e queria muito aquele emprego para juntar dinheiro para um curso preparatório para Medicina. Era o sonho da minha vida. Um deles. O segundo era mesmo Matteo. E eu precisava tirar aquilo da minha cabeça. Ele deveria estar com trinta e oito anos, uma vez que eu estava completando vinte e três. Era um homem maduro e com certeza devia estar ainda mais bonito.
Embarquei no ônibus para o interior, chacoalhando pelas estradas de terra, com um lenço na cabeça por causa da poeira e um frio na barriga. Eu não queria ver sua esposa e os filhos que devia ter com ela. Eu ainda sentia ciúme. Encostei a cabeça na janela e as árvores passavam lá fora enquanto minhas lembranças passavam na mente. Matteo, as vezes, voltava bêbado de Congonhas. Era longe mas sempre que ia a um leilão ou conhecer alguém, voltava alto e tropeçando nos pés. Uma única vez em que ajudei minha mãe a ampará-lo foi quando meu coração bateu mais forte. Parecia que ia sair pela boca quicando pelo chão da cozinha aos quatorze anos. Eu segurei o rosto de Matteo e ele ergueu o olhar azul para mim, dando um sorriso. Minha mãe preparou um café bem forte para ele enquanto sua mãe, dona Maria do Rosário apenas entrava na cozinha brigando com ele. Como falava alto aquela mulher! Minhas lembranças eram de uma mulher chata e rabugenta...e era para aquilo que eu iria me candidatar! As lembranças me fizeram até suar nas mãos. Mas eu veria ele, apenas para matar o que existiu dentro de mim durante tanto tempo.
Desci do ônibus na porteira da fazenda Rio d´Ouro sentindo meu estômago embrulhar.
- Você vai conseguir, Bela...Ele não é um Deus, é apenas um cara que você conhecia.
É...era apenas um Deus para mim sim. Era o homem que fazia meu coração bater acelerado aos quinze anos sem nunca ter me encostado um dedo. Quando ele se dirigia a mim era para pedir café ou para limpar as botas dele. E aquela voz nunca saiu da sua cabeça tonta. Carregava uma mala pesada, a puxando e bufando pelo terreno de pedrinhas. Que tipo de idiota usa salto alto para ir para a roça? Eu mesma. Depois de horas naquele ônibus, sentindo minhas costas arderem, era a hora dos meus pés arderem naquelas pedrinhas.
Olhei a casa enorme e ela estava tão moderna. Ainda assim tudo estava ali. Até mesmo ainda restava o balanço de madeira maçiça pendurado na imensa Sapucaia do jardim frontal. O balanço de dois bancos logo ali perto da Sapucaia. As janelas onde eu o observava lidar com o gado. Será que o tempo o tinha transformado em um velho? Porque dona Maria do Rosário estava precisando de cuidados de enfermagem? Não vi brinquedos de criança pelo jardim. Eram muitos questionamentos e meus olhos varriam o local da minha infância enquanto eu removia da frente dos meus olhos castanhos o cabelo revolto pela brisa de final da tarde. Subi os dois degraus da frente e parei em frente a imensa porta de madeira da sala. Bater era o que deveria ser feito mas minha mão não conseguia sair do lugar. Eu tremia mais que vara verde e sofria tentando fazer minha mente parar de pensar no que dizer e apenas bater, forte. Ouvi cascos de cavalo atrás de mim, no chão de pedrinhas.
- Deve ter vindo por causa do anúncio?
Aquela voz era conhecida. Eu me virei para o cavaleiro dos meus sonhos e quase abri a boca ao ver aquele italiano. Ele não era mesmo italiano mas eu gostava de chamar aquela família assim por influência do meu pai. Montando aquele cavalo, Matteo estava à minha frente. Ele vestia calça jeans, botas e uma camisa preta. Estava de boné na cabeça. Preto igual a camisa. Ele franziu a testa ao me ver. Eu poderia reconhecer sua voz onde quer que eu fosse, mas aquele corpo... Ele estava malhando? Não estava velho, não parecia ter trinta e oito, estava ainda mais lindo do que eu lembrava e foi ali que eu entendi que estava perdida.
- Lembra de mim, senhor Ricci?
Ele sorriu, inesperadamente. Um sorriso de fazer derreter geleiras e esquentar a pele de qualquer mulher.
- Claro! A filha da Martina!
Ele desceu do cavalo e se encaminhou em minha direção subindo os degraus. Eu era apenas a filha da Martina e do José. Legal. Mas também, Bela, ele era casado. O que você esperava que ele fizesse? Que soubesse da sua incrível paixão da adolescência e corresse para seus braços? Ele estendeu a mão a mim.
- É, Isabela.
- Isabela, isso! Como você cresceu!
O perfume dele invadiu minhas narinas me deixando inebriada. Amadeirado com toque cítrico. Segurei sua mão, sorrindo até demais. Aqueles olhos azuis postos em mim, me fizeram arrepiar. Ele me intimidava.
- Sim, vinte e três já.
- Isso tudo? Vamos entrar, vou te mostrar a mamãe. Ela vai lembrar muito de você.
A voz dele não era entusiasmada. Ele tinha algo de bastante sério e sisudo e um olhar triste mas tinha se alegrado com a minha presença. Talvez lembrasse do passado.
- Onde está sua esposa e filhos? - Perguntei, a tonta.
Ele parou de andar a minha frente e eu estanquei o passo logo atrás. Ele não se virou para dizer nada me olhando nos olhos. Ele não era homem disso.
- Eu não tive filhos e minha mulher morreu há dois anos.
Arregalei os olhos. O que? Matteo, um viúvo? E sem filhos? Ele voltou a caminhar pela casa e eu o segui. Eu conhecia bem o quarto de dona Maria do Rosário. A casa estava moderna. O pé direito era obviamente muito alto como toda casa antiga de fazenda mas os lustres bonitos e imensos de contas de vidros estavam lá ainda. A cristaleira de dona Maria. A tapeçaria cara e os quadros na parede. Tudo permanecia lá tal e qual eu lembrava. E ele estava viúvo... Eu não sabia o que sentir. Era um misto de piedade com uma mórbida alegria de saber que eu não ia esbarrar com uma esposa e morrer de ciúmes. Em todos os meus sonhos com ele, nunca poderia imaginar uma situaçao tão constrangedora e triste mas ao mesmo tempo tão propícia. Fez me sentir uma péssima pessoa.
Ao adentrarmos o quarto de dona Maria me deparei com uma senhora bem envelhecida, numa cadeira de rodas.
- Mãe? Olha quem veio te ajudar. - Ele disse.
Ela virou a cadeira e ao me ver, seus olhos encheram de lágrimas. Eu não me lembrava daquela mulher ser assim emotiva.
- Isabela?
- Oi, dona Maria. - Eu me aproximei e lhe dei um abraço ao qual ela retribuiu apertadamente.
- Como soube?
- Vi um anúncio no jornal, do senhor Ricci. - Olhei para ele.
- Ah, Matteo por favor, senhor Ricci era meu velho.
- Certo, senhor.
Eles se entreolharam e sorriram com empatia.
- Meu filho não é um senhor, Isabela. E como está sua mãe? E seu pai?
- Estão bem, em BH.
- E você fez Enfermagem? - Ela perguntou.
Matteo se sentou na cama dela.
- Sim, fiz um curso de dois anos. Sei fazer tudo que a senhora precisar.
Ela se mostrava bastante emotiva. Pelo canto dos olhos notei que Matteo baixou a cabeça.
- Eu vou fazer um café e trago para as senhoritas. - Disse ele.
Rapidamente me levantei.
- Eu posso fazer o café!
Ele se mostrou contrariado.
- Você não é empregada dessa casa há mais de dez anos, Isabela.
Ele disse e saiu do quarto rumando para a cozinha.
- Ele é um amor,não é?
- Muito.
Tive que concordar e muito. Algum defeito aquele homem tinha que ter. Eu não queria perguntar o que ela teve, pela proximidade talvez, mas tinha que saber. Fiquei esperando ela dizer alguma coisa.
- Isabela, eu tive um tumor na coluna. Os médicos combateram e eu estou bem mas não posso mais andar e você sabe...
- A higiene pessoal?
- Sim, mas outras coisas também, remédios na hora, que eu esqueço, estou hipertensa e Matteo trabalha muito.
- Eu compreendo. Se ele me aceitar, eu vou ser sua enfermeira.
Sorrimos uma para a outra. Ela tinha mudado muito, parecia uma mulher mais agradável e calma. O que o sofrimento faz a algumas pessoas... as transforma.
- Ele já aceitou, você foi a segunda a aparecer mas a outra menina fumava.
- Ahhh.... - Sorri, vitoriosa.
Conversamos sobre a casa, amenidades, meu curso até Matteo aparecer. Ele trazia uma bandeja com três xícaras de café e estava um pouco mais sisudo.
Parecia apenas preencher um protocolo enfadonho.
Senti tristeza em seu olhar e até alguma frustração. Ele nos ofereceu as xícaras e foi tão polido quanto podia ser. Sentou-se ao lado de sua mãe, na cama e me observou de cima a baixo. Eu não vi aquele gesto de maneira direta mas sim pelo canto dos olhos e aquilo me encheu de curiosidade.
- Isabela, vamos conversar agora?
- Sim, senhor Ri...Matteo. - Lembrei de sua correção.
- Me acompanha até a sala? Mãe, vou tratar de assuntos chatos com ela, está bem?
- Claro, meu filho.
Eu nem tinha sequer provado um gole de seu café. Levantei-me da cama e o acompanhei até a sala. Eu esperava que ele se decidisse por não me contratar, talvez por me conhecer e achar que sua mãe não se sentiria confortável. Ele parou na sala e apoiou as mãos na cintura me olhando. Ele parecia pensar bem, ficou mudo por longos minutos.
- Isabela, minha mãe requer cuidados constantes, acho que você notou. Eu fiquei muito magoado com seu pai quando saiu daqui nos deixando sozinhos para cuidar de tudo. - Ele estendeu a mão - Eu entendo, não pense que eu não compreendo, ele queria um ensino melhor para seus filhos, não podia voltar ao quilombo. Mas eu estou disposto a passar por cima de tudo isso porque você nos conhece desde que nasceu e conhece minha mãe muito bem.
- Sim. - Cruzei minhas mãos a frente do corpo em um gesto de submissão e nem sei porque fiz aquilo.
- Então... - Ele cruzou os braços, baixando o olhar - Acho que já podemos falar em pagamento, eu posso te oferecer três salários, tudo que você precisa está aqui e basicamente você precisa tomar conta dela, dar os remédios, fazer a higiene e levá-la para tomar sol. Ela gosta muito. E anda bem depressiva...
Ele ergueu aquele olhar lindo para mim e Deus! Como tinha ficado ainda mais bonito com a idade! Eu demorei a responder qualquer coisa notando a sua barba e alguns fiozinhos brancos que nasciam discretamente nela e nos pontos luminosos de sua íris que refletiam a luz das janelas.
- Então?
- Hã? Ah! - Idiota Isabela! - Eu aceito senhor...Matteo! Três salários? É uma oferta muito boa!
Boa? Era tentadora demais, eu jamais conseguiria isso na cidade, infelizmente os profissionais da saúde não são reconhecidos nem bem remunerados. Ele deu um discreto sorriso de lado que era sua marca registrada.
- Então - Bateu as mãos a frente do corpo - Acho que temos um acordo?
- Sim, temos.
Eu estava muito animada e ele pareceu estar aliviado de achar alguém e era só isso. Porque seria outra coisa, sua tonta?
- Eu não posso cuidar dela, estou sempre viajando e sempre no escritório, acho que ela fica deprimida e chorosa, sabe como é?
- Sim, sei.
- Então, pode ocupar o quarto que era dos seus pais, eu tenho outros quartos de outras funcionárias, a cozinheira e a faxineira. Você conhece todos, com certeza e não vai encontrar dificuldade de se acomodar, ou vai?
- Não, claro que não. Muito obrigada, Matteo.
- De nada, Isabela, acho que será bom para ela ter alguém conhecida por perto.
- Sim, eu entendo.
Basicamente eu estava em pânico. A minha paixão adolescente tinha acabado de me contratar para voltar a babar por ele. Bem, não era para isso mas era isso que terminaria acontecendo. A minha paixão, que era para morrer e sumir da minha mente, simplesmente tinha se reforçado a décima potência e estava latejando no meu peito e em outras partes de mim. Aquele homem exercia frenesi máximo sobre mim. De repente, o que era para acabar, estava somente recomeçando. Que imbecil você é, Isabela... Porque sonhar com ele de novo? Você é negra, bonita, mas negra, nunca será notada por ele. Você foi e sempre será uma criança para ele, mesmo com vinte e três anos. Ele te viu crescer, nunca vai te enxergar como mulher. Você já devia ter acordado para isso há quinze anos atrás!
- Você ficou uma bela moça, Isabela...
Eu já ia começar a caminhar pelo corredor para ir para o meu novo quarto na casa quando ouvi aquela frase partir daquela boca. Congelei. Engoli em seco e voltei meu corpo para ele, tentando não parecer histérica.
- Obrigada, senhor Matteo.
- O jantar é as vinte em ponto, não se atrasem.
Ele sorriu e me deu as costas para ir para fora. Como um homem joga uma granada dessas no seu colo e não repara que você vai fazê-la explodir em sua mente? Eu vi unicórnios, elefantes cor-de-rosa, algodão doces por todos os lados quando entrei no quarto. Enfm me joguei na cama com o peito explodindo de amor e com aquela frase besta na minha cabeça. Ele tinha reparado em mim.
Pela primeira vez na minha vida.
Era óbvio dizer que se ele tivesse reparado há quinze anos atrás seria um pedófilo mas agora não precisava mais, eu tinha a maioridade e ele estava soltinho. Pobre homem, viúvo... Eu não devia ter aqueles pensamentos com um homem que certamente ainda devia sofrer a morte da esposa mas era impossível deixar de me imaginar com ele. Pelo menos na minha fértil imaginação e nas minhas cartas eu podia sonhar livremente com ele.
Droga, eu estava apaixonada de novo.
Capítulo 2
Reconhecendo
Tomei um banho, vesti uma calça jeans e um cropped e fui verificar e aprender o que fazer com dona Maria do Rosário. Assim que entrei ela me olhou de cima a baixo e sua expressão facial mudou. Ela voltou seu olhar para a janela e não me deu muita atenção.
- Dona Maria, eu preciso saber quais são seus remédios. Tem alguma receita em algum lugar por aqui, nas gavetas?
- Estão na parede, minha filha.
Olhei tudo a volta e reparei em um pedaço de papel colado a parede logo acima de uma escrivaninha. Eram muitos remédios, eu os conhecia por causa do curso. Remédios para diabetes, para pressão, fortificantes, complexos vitamínicos, colírios e outros mais. Eles tinham anotado ao lado os horários e doses. Seria bastante trabalho, mas eu me acostumaria com ele. E além de tudo, ela parecia um doce de pessoa agora, muito diferente do que eu me lembrava. Então vi que havia um remédio quase na hora da tomada. Olhei o relógio de pulso e vi que eram dezoito horas já.
- Como a senhora toma os remédios, dona Maria? Só água?
Ela deu de ombros e aquilo me pareceu estranho.
- Você sempre gostou dele? - Ela perguntou.
Do que ela falava? Ela apenas precisava me dizer como tomava seus remédios. Eu me aproximei dela e Maria voltou o olhar para mim enquanto eu me sentava em sua cama. Apoiei as mãos nas minhas coxas me sentindo um tanto desconfortável com aquela pergunta que eu achei que tivesse entendido. Como e porque ela parecia achar que eu sentia alguma coisa por ele?
- Do que a senhora está falando, dona Maria?
Ela sorriu complacente e com carinho.
- Meu filho. Você sempre gostou dele?
Engoli em seco. Revelar sentimentos não estavam em minha proposta de trabalho e muito menos para a mãe dele. Ela me viu crescer na fazenda, limpando aquela casa junto com minha mãe. Eu nunca tinha sido empregada, era óbvio, era uma criança, mas minha mãe achava que eu precisava ajudá-la. Minha mãe achava que eu precisava aprender para quando me casasse ou para arranjar um emprego de empregada igual a ela ou quem sabe, talvez, se continuasse trabalhando ali.
- Eu não sei do que a senhora está falando...
Meu rosto esquentou, senti um calor repentino. Levei a mão ao cabelo e o ajeitei para trás, tentando pensar no que responder se ela fosse mais incisiva.
- Isabela... olhe para mim.
Com muito medo eu olhei e achei que aquele pânico estivesse transparecendo em meu rosto.
- Não precisa confirmar se não quiser, mas uma mulher sabe quando a outra olha um homem com sentimentos. Seu olhar quando olha Matteo é de admiração e muitas coisas mais.
Corei fortemente, eu sabia. O calor subiu e senti pequenas gotas de suor se formarem em minha fronte. Eu tinha sido pega olhando com paixão para ele? Como ela era astuta! Eu achei que sabia disfarçar muito bem, mas percebi que se eu não sabia disfarçar para ela, não saberia disfarçar para ele da mesma forma.
- Eu...eu...
Eu me levantei e fui olhar o quadro de remédios. Quando peguei uma caixa, notei que minha mão tremia muito.
- Eu quero lhe dizer, Isabela... - Ela pausou e eu voltei meu corpo para olhar para ela novamente. Fugir poderia ser pior - Que gostava muito da sua mãe, era muito amiga, uma confidente. E que se você voltou por causa dele, eu aprovo.
Arregalei os olhos. Aprova? Fui até ela e me sentei com a necessidade de me explicar.
- Dona Maria, me perdoa, eu não voltei por isso, eu só...
- Voltou por isso. - Ela sorriu, me interrompendo.
- Não, eu voltei porque vi o anúncio e vi a possibilidade de esquecer o seu filho já que estava casado.
- Gostava dele desde adolescente?
Ela queria detalhes vergonhosos dos meus sentimentos, por Deus! Talvez quisesse ser minha confidente como minha mãe.
-Sim, desde os treze anos.
Ela suspirou profundamente e me olhou com bondade.
- Você está uma moça lindíssima... Eu tinha esse corpinho bonitinho que você tem nos meus vinte anos... Mas eu preciso saber.
- Sim?
Eu ainda tremia com medo que ela dissesse algo a ele.
- Você saiu daqui com quinze anos e volta com esse corpão e essa beleza toda aos vinte e três, ainda apaixonada pelo meu filho. Se achava que ele estava casado, porque voltou?
Eu sorri, completamente encrencada e respirei fundo antes de qualquer resposta.
- Dona Maria, se eu pudesse ver o seu filho com outra mulher, cheio de filhos, eu poderia tirar ele da minha cabeça.
- Ahhh entendi. Mas quando chegou, viu que ele está viúvo e sem filhos. A chama reacendeu.
- É...
Ela sorriu sem graça.
- Meu Matteo sofreu muito, Isabela.
Logo percebi onde ela queria chegar.
- Eu acredito.
- A mulher dele morreu em um acidente de carro, meio que provocado por ele.
- Meu Deus...
- Eles discutiram no carro e Matteo perdeu a direção, o carro foi parar em uma árvore da estrada.
Eu estava realmente chocada.
- Ele se culpa até hoje mesmo que tenha sido um acidente afinal ele não discutia ao volante sozinho.
- Entendo.
- Meu filho está fechado, Isabela. Ele se fechou e não se abre para ninguém e nem para mim. As vezes vejo ele chorar no balanço do jardim à noite mas não posso fazer nada.
Como eu queria abraçar aquele homem!
- Eu sinto muito, Dona Maria.
- Ele precisa voltar a se abrir, Isabela. Não com prostitutas, voltando de Belo Vale bêbado, negando encontros com mulheres interessadas nele.
- Isso acontece? - Senti o máximo ciúme naquele momento.
- As vezes ele conhece alguém na internet. Mas talvez, alguém mais próxima possa fazer ele se abrir, se é que me entende.
Eu entendia o que ela estava pensando?
- A senhora...?
- Vejo muito potencial. Olha eu estou velha, sabe lá Deus quanto vou durar, eu queria ver meu filho feliz novamente.
- Eu compreendo totalmente, dona Maria.
- A menos ...- Ela meneou a cabeça - Que você já tenha alguém.
- Não! - Apressei-me a responder - Eu tentei tirar Matteo dos pensamentos mas nos meus sonhos eu...
- Entendo, filha. Quem sabe você possa penetrar a armadura dele? Afinal não acredito que nenhuma outra possa amar meu filho mais que alguém que sai de Belo Horizonte e volta a Belo Vale somente para olhar para ele de novo.
Finalmente eu entendi o que ela estava sentindo. Eu era uma mulher conhecida, de boa família e apaixonada por ele. Não era uma golpista, não era uma qualquer. E ela queria muito ver o filho ser feliz e ter uma família. Como eu tinha acertado ao voltar...Como eu tinha me permitido esquecer só para ter uma tentativa, uma única tentativa de ter Matteo Ricci para mim. Aquilo era surreal, era melhor que meus sonhos, era melhor que ganhar na mega-sena. Eu estava com o peito pleno de esperanças!
- Eu vou tentar, dona Maria.
- Vamos, juntas.
Ela pediu um abraço e eu levantei e a abracei apertadamente naquela cadeira de rodas. Dona Maria do Rosário era agora minha patroa e minha melhor amiga. Era tudo que eu queria na vida desde os quinze anos.
Quando eu me afastei, estávamos emocionadas mas não de uma forma chorosa, apenas embargadas. Eu estava bem mais emocionada por saber que ele sofria. O tanto que eu queria tirar aquele sofrimento do peito dele era muito. Ela estava confiando de que eu teria esse poder mas ele sequer me olhou diferente. Essa seria uma batalha afinal porque eu não seria jamais vulgar. Eu sabia que Matteo não gostava de mulheres vulgares, então tudo que eu devia pensar em fazer seria para chamar sua atenção de forma tímida.
Enfim dei o remédio dela da hora e a ajudei a trocar de roupa para o jantar. Pontualmente as vinte horas. Dona Maria tinha um pouco de timidez ao fazer aquilo afinal me viu crescer e se sentia em uma posição de fragilidade com relação a mim. Mas eu acreditava que o tempo a faria se soltar mais. Era difícil, ela estava pesada e eu sofri bastante para trocar sua roupa, imaginei como seria dar um banho na senhora outrora tão magra. Sentei na cama, bufando e ela sorria.
- É minha situação atual, minha filha.
- Nunca vou reclamar de ajudar a senhora, o que vocês fizeram pelos meus pais quando saíram do quilombo... - Respirei fundo - Minha mãe contou e eu vou ser eternamente grata. Mesmo que o senhor Ricci não estivesse me pagando, eu faria mesmo assim.
- Senhor?
Nós duas sorrimos, confidentes.
- Difícil acostumar.
- Eu sei, ele vai se sentir mais tranquilo que você está aqui e ele pode trabalhar com tranquilidade.
- Fico feliz demais.
Conversamos até a hora do jantar. A cozinheira passou por nós e bateu na porta do quarto.
- Bem vinda... - Ela se dirigiu a mim e eu a reconheci.
- Laurinda!
- Como vai, Isabela?
Dei uma corridinha até ela e a abracei. Laurinda era uma empregada branca da casa desde que estávamos ali. Eu digo branca porque ela não era da comunidade quilombola de onde saímos, ela era nordestina. Uma senhora arretada de forte, humilde mas sempre lendo pelos cantos afinal ela não tinha celular. Pelo que me lembrava, Laurinda estava sempre lendo os romances que o pai de Matteo dava de presente a ela quando voltava de outras cidades.
- Você está bonita, menina! Logo logo vai arrasar corações!
Eu sorri pensando que o único que queria arrasar estava ali, dentro daquela casa.
- Obrigada, Laurinda.
- Eu também vim avisar que o jantar está pronto e que senhor Ricci não gosta de atrasos.
Eu não me lembrava de ele ser tão regrado e rígido. Principalmente com a mãe,mas o homem estava mudado então eu poderia esperar de tudo. Empurrei a cadeira de dona Maria para a sala de jantar e me sentei ao seu lado, aguardando. À mesa havia muitos tipos de comida, feijão tropeiro, frango ao molho pardo, arroz integral, pães, torradas e taças de vinho. A mesa estava impecavelmente posta por Laurinda, que se posicionava atrás da cadeira reservada a Matteo. Ela me lançou um sorriso enquanto esperava. Logo surgiu ele fazendo meu coração acelerar, que raiva... Que espécie de emoção tão forte era aquela que ele me causava que não podia se aproximar sem que meu corpo reagisse? Ele puxou a cadeira rapidamente e se sentou.
- Boa noite, mamãe, Isabela, Laurinda. Laura está melhor?
Laura? Quem era Laura?
- Sim, indisposição de mulher, senhor. - Respondeu Laurinda.
Então devia ser uma outra empregada. Matteo estava muito diferente do homem adorável que eu reencontrei a tarde, nos levando café. Talvez tivesse sido minha primeira impressão. Ou talvez ele quisesse ser mais amigável quando me reencontrou e não precisava mais fazer isso com o decorrer do dia. Nós estávamos sentadas ao lado da cabeceira da mesa, que era o lugar dele. Logo ao seu lado sentava-se sua mãe e a sua esquerda, eu me sentava.
- Senhor? - Perguntou Laurinda - Quer seu vinho agora?
- Sim por favor.
- Boa noite. - Eu decidi dizer.
Ele mal me olhou.
- Como foi a adaptação? - Ele observava o vinho cair na taça mas não me olhou.
- Ahmm...foi boa, não é dona Maria?
Temi pelo que ela poderia dizer mas acreditava que ela era mais astuta do que eu pensava.
- Excelente, Isabela me trocou de roupa, deu os remédios. Ela é perfeita.
- Fico feliz em saber, mamãe.
Ele buscava pães e os roía sem nos olhar muito. Tomou um gole do seu vinho e então olhou a mãe.
- Bom saber que estão se dando bem.
- Está tudo indo bem, meu filho mas eu queria passea...
Ela foi interrompida.
- Eu não posso demorar no jantar, tenho uma reunião online com uns compradores.
Cerrei a testa em desapontamento. A mãe dele estava falando, oras! Que espécie de homem faz isso? Ela baixou a cabeça e começou a jantar sem falar mais nada. Fiquei um pouco irritada. Será que ele tinha se transformado em um idiota da noite para o dia? Então olhei para Laurinda, parada ali como as escravas antigas faziam, esperando o senhozinhode engenho se saciar e levantar da mesa. Assim que ele o fez, eu olhei as duas.
- Ele é sempre tão ocupado assim? - Perguntei um tanto irritada.
Laurinda começou a retirar os talheres e pratos dele da mesa, calada. Eu ainda não tinha jantado.
- Ele tem muito o que fazer, Isabela, eu não reclamo.
Jantei quieta, pensando. Ao terminar, levantei-me da cadeira e empurrei dona Maria de volta a seu quarto por aqueles corredores de tábua corrida que rangiam. Eu estava decepcionada com o tratamento dispensado a mãe dele.
- Ele é sempre assim?
- Não, Isabela. Ele é apenas atarefado.
- Ele não esperou a senhora terminar de falar.
- Eu sei mas...
Eu sentei de frente para ela em sua cama e segurei suas mãos.
- Eu vou precisar falar com ele.
- Não! Não estrague tudo, Isabela.
- Eu não vou estragar, vou falar com calma. Vou esperar a reunião terminar.
- Eu quero me deitar.
- Sim, senhora.
Eu a segurei pelo quadril e fazendo toda a força do mundo, a ergui e a coloquei na sua cama. Estava exausta daquele dia. A minha exaustão era física e agora também emocional. Eu não queria pensar que ele tinha se tornado um babaca com o tempo. Principalmente com a mãe da qual era o único filho.
- Remédios a noite, deve ter...
- Sim, para eu dormir.
Fui até o quadro de remédios e busquei com o olhar quais remédios eram os da noite. Hipertensivo, calmante. Voltei a ela e vi que sua garrafa de água na cabeceira da cama tinha terminado.
- Pode ajeitar meu travesseiro, minha filha?
- Claro, dona Maria.
Afofei o travesseiro sob sua cabeça e a cobri com a colcha de retalhos. Eu me lembrava daquela colcha. Tinha pertencido a sua mãe. Lancei-lhe um sorriso e fui buscar água.
- Eu já volto.
Ao sair do quarto, me dirigi a cozinha da casa, que era imensa. Laurinda já estava por lá, lavando as panelas e terminando de guardar tudo. Ela me sorriu. Reparei que a mesa de madeira maçiça tinha sido trocada por uma de granito e que os fogões estavam mais modernos. O velho fogão a lenha estava ali somente para enfeitar ou quem sabe para uma emergência. Enchi a garrafa no filtro de vidro e voltei ao quarto mas antes ouvi vozes que vinham do quarto dele.
A voz dele não estava baixa, eu consegui ouvir algumas palavras. Mas o quem me ferveu o sangue foi ouvir a voz de uma mulher marcando um encontro com ele. Reunião de trabalho? Ele pode ter tido uma reunião muito rápida de trabalho mas naquele momento estava marcando um encontro com alguma vagabunda que faria tudo para colocar as mãos naquele rico e belo homem de negócios agropecuários. Quanto a sua mãe? Estava jogada em um quarto, numa cadeira de rodas, tomando muitos remédios e pedindo para dar um passeio... Voltei ao quarto de dona Maria e ela já cochilava. Eu a acordei para tomar os remédios. Ela resmungou muito. Assim que os engoliu, voltou a dormir. Foi então que senti minhas costas. Não era porque só tinha vinte e três anos que aguentava uma senhora de oitenta quilos com facilidade e sem sentir dor. Eu fui treinada para aplicar injeções, fazer curativos, administrar remédios mas não para o cargo de cuidadora. Aquilo arrebentaria minhas costas. Mas enfim, fui para meu quarto desistindo de falar qualquer coisa com ele, afinal estava exausta e triste.
Ao fechar a porta atrás de mim, vi a porta dele se abrir e tentei ser rápida para sair dali e não o ver mas ele me chamou.
- Isabela? Ela dormiu?
Parei, sem conseguir fugir. A voz, mesmo que não fosse do meu atual patrão, e teria que me fazer parar, era de Matteo. Aquela voz me faria congelar onde fosse.
- Sim, dormiu.
- Uma pena, não consegui dar meu beijo de boa noite.
Ele ia já se afastando com essa frase, o que me confundiu demais. Primeiramente foi extremamente grosseiro interrompendo a mãe para depois me dizer que lamentava ter perdido o beijo de boa noite? Meus pés não conseguiram mais andar, eu precisava falar, precisava entender o que estava acontecendo e quem ele era agora.
- Senhor Matteo?
Ele se voltou para mim.
- Sim?
- Sua mãe na hora do jantar ia pedir um passeio e o senhor a impediu de falar, mas queria dar um beijo de boa noite? - interroguei.
Ele ergueu uma sobrancelha e começou a se aproximar de mim. Era hora de eu me arrepender. O cansaço não deixou que meu coração acelerasse tanto mas ainda assim sua aproximação me causava medo e excitação. Ele parou diante do meu corpo e olhou para minhas roupas.
- Bem, foi um erro, eu sei, mas eu precisava mesmo me apressar e mamãe quando começa a falar não pára mais. Mas uma coisa que reparei é que anda com essas blusas minúsculas no trabalho?
- Blusas...
Eu olhei para meu corpo e estava mesmo usando um cropped, que deixava meu abdome desnudo e isso não era apropriado. O cansaço tinha confundido minha cabeça.
- Peço desculpas, senhor, amanhã estarei usando meu jaleco de enfermeira.
- Perfeito. Diga a ela que me desculpe e que vamos passear assim que possível.
Porque ele não dizia a ela? O que estava acontecendo? Ele rumou para seu quarto, cansado, passando a mão pela nuca e de longe me acenou.
- Boa noite, Isabela.
- Boa noite, senhor.
Eu jamais perderia a mania de chamá-lo de senhor, eu sabia disso. Fui para meu quarto com a sensação de carregar cem quilos nas costas. Estava triste e cansada. Deitei na cama com a mesma roupa, me jogando pesadamente no colchão e o senti afundar. Droga. Dormi no péssimo colchão assim mesmo.
Acordei com o despertador do celular gritando no meu ouvido. Olhei a hora, sete e trinta. Era hora de dar remédios a dona Maria. Levantei e tomei uma ducha rápida já que o meu quarto tinha banheiro. Lembrei da ordem dele na noite anterio, roupas discretas e jaleco. Arrumei meus cabelos para o alto, fiz um coque no topo da nuca, deixando alguns fios encaracolados soltos na frente do rosto e procurei uma roupa discreta. Se é que eu tinha alguma. Achei um vestido floral creme e compus com meu jaleco da enfermagem. Ao chegar ao quarto de dona Maria me deparei com ele me olhando.
- Bom dia! - Cheguei afobada.
- Bom dia? Minha mãe está cansada de esperar pelos remédios! - Disse ele em tom áspero.
- Matteo, ela está cansada de ontem, vá com calma....
- Senhor, me desculpa, eu não vou mais perder a hora, o meu alarm...
- Eu não gosto de desculpas, é bom melhorar!
Ele saiu do quarto dela, me largando com vontade de chorar. Dona Maria me olhava com dó. Era óbvio, naquele momento para mim, que ele jamais iria me tratar como alguém que foi tão íntimo da família. Ele era o patrão. Nada mais que isso.
- Releva minha filha, ele anda com um gênio horrível depois do acontecido.
- Eu estou percebendo. Já tomou seu café?
-Sim, Laurinda me trouxe no quarto. Não é sua incumbência.
- Mas eu deveria estar aqui. Vamos tomar os remédios?
- Matteo me deu, filha.
Então me sentei, bufando na cama dela a olhando.
- Dona Maria, eu peço mil desculpas, eu estava exausta ontem, carreguei minha mala pelo caminho do ônibus todo até aqui, fiz uma viagem cansativa e demorada. Não justifica, eu sei, mas pensei que...
- Que teria mais um dia para se acostumar, eu entendo.
- Sim! - Ela me compreendia - Eu não ouvi o alarme tocar, eu peço muito desculpas!
- Nesse momento deve desculpas a ele mas ele não vai ouvir mesmo. Ele só vive para o trabalho e não perde horários, não vai querer entender, melhor deixar isso para lá. Vamos para a varanda? Pode me deixar lá com meu sino e vir tomar café.
- Sino?
- É, Matteo me deu um sino para tocar quando eu quisesse sair do lugar.
- Um sino?
Eu nem queria fazer comparações a uma vaca mas aquilo estava além do aceitável. Ele tratava a mãe como um peso, um estorvo e aquele não era o Matteo pelo qual eu era apaixonada desde a adolescência. Olhei em volta e vi um sino do outro lado da cabeceira. Fui até ele um pouco revoltada e o peguei, o colocando no bolso do jaleco. Empurrei a cadeira de dona Maria até a varanda do casarão enquanto ouvia Matteo em ligações telefônicas, trabalhando.
Quando já estávamos na varanda, eu me sentei no banco de madeira ao lado de dona Maria e ficamos olhando aquelas terras e tomando o fraco Sol da manhã. Ao longe o mugido de vacas podia ser ouvido. Fechei um pouco os olhos e lembrei de como era estar ali há anos atrás. Eu observava o filho do meu patrão a distância, domando cavalos, sem camisa, sujo de lama. Ele era perfeito. Aquele tórax nú em cima dos cavalos, segurando a rédea com apenas uma mão junto com o chicote era a visão da perfeição máscula. Eu suspirava pelos cantos da casa, enquanto arrumava sofás, batia tapetes e varria. Ele nunca tinha aparecido com namorada então a minha paixão estava segura, longe das investidas femininas que me ameaçavam. Eu já tinha quinze anos e sabia bem o que era o sexo e o que sentia por ele era um imensurável tesão. Eu era virgem mas sabia onde tocar para sentir prazer lembrando do sorriso dele. Era involuntário, quando dava por mim eu já estava gemendo com minha mão e Matteo na cabeça. Fazia o mínimo de barulho a noite para não deixar escapar o menor gemido que saísse da minha boca no prazer solitário. Mais tarde na vida conheci homens brancos parecidos com ele e homens pretos parecidos com os do quilombo mas Matteo nunca saiu da minha imaginação sexual.
De repente fui tirada das minhas lembranças por ele. Ouvi os passos da bota no assoalho de madeira corrida da sala e logo ele apareceu na varanda nos procurando. Só então me lembrei que não tinha tomado café da manhã ainda. O cheiro de broa de milho da Laurinda me invadiu as narinas.
- Mãe, a senhora quer passear?
Ela abriu um sorriso. Eu entendi que ele tinha repensado.
- Eu ia adorar ir ver o padre Francisco e comprar um presente para a Isabela.
Eu ergui o olhar para ele e era muito estranho estar há poucos minutos sonhando com ele nu.
- Presente?
Ele sorriu e parecia menos carrancudo do que de manhã, mas eu ainda estava magoada.
- Sim, ela está sendo muito boa comigo e estava cansada ontem, Matteo, você deve desculpas a moça.
Eu arregalei os olhos e me levantei.
- Não, não é preciso.
Ele coçou a nuca e parecia envergonhado. Depois virou o rosto lindo para a plantação. O perfil daquele homem era lindo, aquela barba por fazer, um pouco desleixada, o nariz não tão afilado mas que compunha uma simetria perfeita com as sobrancelhas espessas e os olhos azuis de cílios longos. Eu podia ver a luz do sol perpassando sua íris do lugar onde estava. E aquela combinação de azul com amarelo da luz tornou seu olho âmbar naquele momento. Então ele me olhou, um pouco sério.
- Me desculpe, Isabela. Obviamente você estava cansada da viagem e eu fui um grosso.
- Não, não, eu devo desculpas, apenas não ouvi mesmo o alarme tocar, não vai se repetir.
Ele sorriu de canto, quase incompreensivelmente e eu virei a cabeça um pouco de lado, como os cachorros fazem quando não entendem alguma coisa. É, a mãe dele era uma vaca com aquele sino e eu agora era a cadela. Não me importava que ele me chamasse assim no momento certo.
- Ela é caxiasigual a mim, mãe está vendo?
- Estou vendo.
- Isabela, vá se trocar se quiser, você vai conosco a cidade, minha mãe precisa de ajuda.
- Ahmm está bem.
Ele desceu as escadas da varanda e foi em direção ao estábulo. Corri para o quarto de dona Maria enquanto ela falava alto na cadeira de rodas.
- Isabela, está correndo porque?
- Não quero decepcionar ele de novo.
- Calma minha filha, ele não vai fugir com outra!
Ainda bem que quando ela disse aquilo já estávamos no quarto dela. Eu corri tanto que a cadeira de rodas dela parecia um carro de Formula 1.
- Dona Maria, por favor, - Segurei as mãos dela - Não diga mais isso em voz alta.
Ela sorriu.
- Eu estou bem vestida, como uma entrevada deve estar, você é que precisa se trocar.
- Não fale assim de si mesma! Vou brigar com a senhora! Vou ao meu quarto bem rápido colocar uma calça jeans.
- Vai,vai filha.
Eu fui correndo para meu quarto que era em frente ao dela, no térreo e comecei a trocar de roupa. Escolhi uma calça jeans, tênis e uma camiseta branca de alcinhas finas, afinal tinha seios grandes mas não precisavam de sutiã. Uma das vantagens dos vinte e poucos anos. Quando estava pronta com uma mochila de uma alça com maleta de prontos socorros e meus pertences pessoais, fui para a cozinha e preparei um café preto para comer com um pedaço de broa da Laurinda.
- Come direito, menina. - Avisou ela.
- Não tenho tempo, preciso correr.
Matteo já estava abrindo a porta lateral de uma van que tinha só para levar sua mãe ao médico ou a cidade. A porta se abria e uma espécie de elevador de cadeira de rodas saía pela porta e descia para buscar a cadeira de dona Maria do Rosário. Eu a ajudei, levando sua bolsa e fui sentada ao seu lado, em uma pequena cadeira ao lado dela. Ao entrar no carro, Matteo olhou para mim, virando o corpo para trás.
- Tudo bem ai?
Senti que parecia nua no momento em que ele olhou meus seios por cima da blusa. Aquele instante foi muito rápido mas em seguida ele olhou meus olhos e sentiu-se desconfortável de ter olhado daquela maneira.
- Tudo bem, filho, podemos ir.
A voz de Maria do Rosário me tirou do transe que o olhar dele sobre meu corpo tinha me proporcionado. Eu não sabia o que sentir, desejei aquele olhar de macho curioso por anos, anos... Naquele momento eu tive e não sabia o que sentir. Estava nervosa e feliz. Ele tinha me reparado. Ele tinha reparado que eu não era mais uma menina mas eu sentia que ainda tinha uma longa caminhada pela frente até que eu me tornasse visível como mulher aos olhos dele.
Capítulo 3
A mais linda opção
Belo Vale era uma cidadezinha bonita, bem pequena porém tinha seu comércio. Fomos com Maria do Rosário a igreja e ela insistiu em comprar um rosário para mim. A mãe de Matteo escolheu logo um terço belíssimo de contas de pedra, que custou bem caro, mas como ajudaria a igreja também, Matteo não se importou. Bem, quem se importaria com o dinheiro que ele e sua mãe tinham, em gastar trinta reais em um rosário? Eu agradeci e fiquei muito feliz. Ao saírmos da igreja, ele colocou a mão no meu ombro, como que de costume para encaminhar as pessoas para fora de um recinto. Mas aquele gesto...Ele nunca me tocou na vida. A sensação dos dedos quentes no meu ombro desnudo me provocou um arrepio. Seria bom se ele não tivesse reparado em nada daquilo.
- Onde quer ir agora, mãe?
- Vamos a loja de roupas, quero dar um vestido a Isabela.
- Dona Maria, não precisa!
Eu estava ficando muito ressabiada e sem jeito de aceitar presentes. Só que a única coisa que eu não esperava jamais é que Matteo, andando ao nosso lado, se aproximaria do meu ouvido e diria aquelas palavras.
- Quando ela gosta, procura agradar. Obrigado por ter me alertado que eu fui um idiota com ela...
Aquelas palavras sussurradas ao pé do meu ouvido, repercutiram em todo o meu corpo. Eu pude sentir o hálito do chiclete de menta que ele mascava, quente, tocar em minha pele do pescoço. Era certo que eu ia sofrer. Quando aquele homem não notasse que eu era uma candidata ao seu amor e aparecesse com outra mulher a tira colo, eu ia sofrer. Talvez fosse melhor desistir de tudo e ir embora, desaparecer numa cortina de fumaça tal e qual eu tinha chegado e deixar aquele amor insano de adolescente para trás. O problema é que eu nem era mais adolescente e aquele amor estava tão vivo bem como andando ao meu lado. Como eu iria viver o resto dos meus dias o abandonando e à sua mãe? Como ia viver se praticasse esse ato egoísta de abandono? Não só ele não sairia da minha cabeça como também não ia entender nada. Era melhor tentar. Tentar a todo custo me fazer visível, me fazer adulta, me fazer mulher.
Entramos na loja de roupas e dona Maria escolheu um vestido de alças finas, de comprimento acima do joelho, de cor creme. Eu achei lindo mas não poderia vestir aquilo no trabalho.
- Melhor experimentar minha querida.
Eu olhei para ele de relance. Ele não me olhava, apenas se sentou no banco da pequena loja e pegou o celular. Aquilo me aborreceu. Peguei o vestido da mão dela e entrei em uma das cabines para experimentar. Eu teria que ser mulher, teria que ser visível. Teria que ser muito diferente da garotinha que ele conheceu. Eu precisava ser uma opção aos olhos do homem que ele era. Apertei bem o vestido, suspendi os seios para ficarem marcados no vestido e saí da cabine. Os homens são primeiramente visuais. Era o que eu tinha aprendido. Primeiro reparam em nós e depois querem nos conhecer mais a fundo. Eu precisava mostrar que eu era uma adulta. Dona Maria sorriu ao me ver. Eu tinha um corpo bonito, bem marcado, seios grandes, coxas grossas e uma barriguinha chapada da juventude. Os cabelos estavam soltos em cachos bem dispersos ao longos dos fios. Mexi nos meus cachos negros que desciam até pouco acima dos meus cotovelos. Matteo falava ao telefone e parou quando me viu. Um instante de sincronicidade. Dois ou três segundos decisivos que o fizeram perceber que eu não era mais uma garota e sim uma mulher. E uma mulher linda. Nossos olhos se cruzaram depois que ele atentou para meu corpo naquele vestido mas decidiu virar o olhar e voltar a conversa no celular. Olhei para dona Maria e sorri.
- Eu amei, é lindo!
- Eu achei mesmo a sua cara, não é Matteo? - Ela piscou para mim.
- Sim, mãe, é sim.
Ele tornou a olhar para agradar a mãe mas não voltou a fazer contato visual comigo. Já tinha sido demais por um dia. Ele estava percebendo aos poucos que eu era mulher. Ao sairmos da loja de roupas, ele quis ir até a loja de ferragens comprar algumas coisas. Nós duas ficamos na pracinha. A mãe dele me olhava com um olhar felino atento.
- E então?
- O que?
- Ele olhou?
- Olhou mas não foi aquiiiilo tudo.
- Já é alguma coisa, só quero que ele pare de beber agora. Isso anda aumentando.
Fiquei preocupada.
- Com que frequência?
- Todo fim de semana e as vezes durante a semana.
- Vamos precisar fazer isso parar.
Ela riu e apontou a si mesma.
- Isso agora é com você. Vá até a mãe das águas e peça que ela te dê esse homem.
- Iara? - Fiquei abismada, não sabia que ela acreditava em lendas e sabia que Iara não concedia desejos. - A mãe d'agua não nos dá nada, dona Maria.
- Então peça a Deus...
Ela estava realmente desesperada de medo de morrer e deixar o filho se acabar no álcool e sozinho. Mas eu desconfiava que Matteo era bem mais esperto que isso.
- Já tem outra pedindo. - Sussurrei para ela.
- Como assim?
- Eu ouvi uma conversa ontem a noite, no escritório, ele marcou um encontro com uma mulher. - Baixei a cabeça tristemente.
- Mas não podemos permitir isso! Isabela, nós não vamos deixar isso!
- Vamos fazer o que?
- Eu vou passar mal no dia em que ele for sair.
Nós rimos. Gargalhamos. Ela era astuta e usaria as armas que podia para afastar desconhecidas do filho.
- Ele está vindo. - Eu disse - Trazendo sorvetes.
- Quantos?
Não deu tempo de responder. Matteo trazia três sorvetes, ora ele tinha lembrado que eu existia! No braço também trazia uma sacola de compras da loja. Quando ele se curvou para entregar meu sorvete, este caiu um bocado que já derretia na minha blusa. No seio.
- Meu Deus, me desculpa!
Eu segurei a casquinha do sorvete e ele riu.
- Está tudo bem, Matteo.
Ele se afastou, me observando limpar a blusa com o guardanapo que enrolava a casquinha, sem sucesso. Aquela mancha tinha deixado molhado o meu seio e feito grudar a blusa na minha pele. Quando olhei para ele o flagrei olhando para a forma do meu mamilo sob a blusa. Quase sorri para mim mesma e tratei de começar a tomar o sorvete. Maria do Rosário gargalhava da situação e Matteo gostou de ver a mãe rir.
- Há muitos meses a senhora não se diverte assim, minha mãe.
- Verdade, é que ela está com a blusa manchada bem no peito.
Eu queria rir mas não podia, até que nós duas explodimos em risadas e ele ficou sem entender nada, ali de pé tomando o sorvete. Aquele italiano lindo devia estar achando que a mãe encontrou uma perfeita idiota para rir com ela, tal como minha mãe e ela faziam antigamente. Mal sabia ele que nós estávamos rindo mancomunadas para que ele me notasse.
A volta para casa me deu mais algumas respostas. Ele me olhou pelo retrovisor do carro umas três vezes no trajeto. Eu fingi que não vi duas delas mas ele buscava olhar a blusa discretamente. Mal sabia ele que a minha vontade era tirar tudo com ele e deitar no estábulo, sobre o feno, sentindo seus beijos quentes e gostosos. Mas isso estava apenas nos meus sonhos. Eu precisava traçar um plano para deixar ele louco de desejo e não somente pelo meu corpo, mas também pelo meu intelecto.
Assim que chegamos a casa, levei dona Maria para o quarto. Ela estava bem cansada e queria tirar uma soneca antes do almoço. Eu a ajudei a ir para a cama e fui trocar de blusa. Optei por uma alcinha preta dessa vez. A outra blusa eu levei para a máquina de lavar e foi nesse momento que vi Matteo passar para a sala com um copo de whisky na mão. Estava bebendo. Já que dona Maria estava dormindo, cansada do passeio, decidi ir ver o que Matteo estava fazendo. Quando cheguei à sala, ele estava parado, olhando o piano com uma das mãos sobre ele enquanto a outra mão segurava o copo de whisky. Eu nem tinha reparado que ali existia um piano. Não me lembrava que alguém na casa tocasse piano. Ele me viu e me lançou um sorriso tímido.
- Lembra bem dessa casa?
- Sim, lembro senhor.
Ele apertou os olhos como se tivesse ouvido um palavrão.
- Matteo - Eu sorri e consertei.
- Ah me desculpa pelo que eu fiz...é... com o sorvete.
Ele estava sendo o Matteo que eu conheci novamente. Talvez eu tivesse o pego um dia cheio, talvez estivesse estressado no jantar.
- Tudo bem, não há o que se desculpar, essas coisas acontecem.
Ele ficou um tempo em silêncio e eu achei que deveria me retirar para que ele pudesse aproveitar sua privacidade sozinho. Eu já ia me levantar quando ele me olhou.
- Sabe? Ah... Perdão, você já ia.
- Não! Eu... - Pausei com vergonha - Não ia. Ia, sim mas era para lhe deixar em paz.
- Ah, estou bem, na verdade ia perguntar se acha que devo me livrar desse piano.
Fiz uma expressão de interrogação.
- Era dela, da Claúdia.
- Ahh, da sua esposa...
O que dizer? Ele estava ensaiando deixar seu luto e eu não podia dar uma resposta errada. Se eu desse uma opinião que o influenciasse e depois se arrependesse? Pensei bem.
- Eu acredito que deve fazer isso na hora certa, se o senhor sente que essa é a hora certa... Eu entendo que é difícil.
- Não faz ideia do quanto mas já faz três anos. Eu ouço minha mãe falar todo dia sobre isso, mas...- Ele se sentou no sofá, com aquele copo na mão - Me sinto culpado.
Eu me aproximei e sentei no sofá perto dele mas não tão perto a ponto de sentir vontade de pular no seu colo. Estrategicamente falando, eu sentei de forma a não ficar tão próxima.
- Não é culpado, senhor... Acidentes acontecem, é terrível mas acontecem e precisamos seguir em frente. Onde quer que ela esteja, já está seguindo seu propósito.
- Propósito? Ela não está no colo do senhor?
Oras eu havia me encrencado de novo. Ele era católico enquanto minha família era umbandista. Como falar daquilo para ele?
- Sim, propósito de estar com nosso senhor Jesus.
- Ah sim. Talvez, as vezes duvido das minhas crenças.
Estávamos conversando? Que inacreditável! Eu estava feliz por ele estar se abrindo comigo mas acredito que só estava fazendo aquilo porque eu era muito conhecida.
- As vezes, senhor, é melhor deixar os mortos descansarem. O que acha?
Ele baixou os olhos para o copo.
- Acho que sim. Vou amadurecer essa ideia e quando estiver pronto vou dar esse piano a quem saiba tocar.
Olhei o bonito piano. Era uma peça que para nós, umbandistas, não deveria pertencer aquela casa pois era uma ligação muito forte com o espírito da falecida. Quanto mais ele se agarrasse a imagem dela, mais ele sofreria e mais ela sofreria. Mas como eu ia explicar isso a quem não era da minha religião? Resolvi fazer isso quando fosse o momento certo. O piano me deu arrepios.
Laurinda apareceu na sala na hora certa, antes que eu pudesse dizer algo de que me arrependeria. Vi uma outra empregada aparecer. Eu ainda não a tinha conhecido. Era mais nova, parecia muito com Laurinda.
- Senhor, minha filha já se sente muito melhor. Não é Laura?
De trás de Laurinda saiu a moça, bonita por sinal, aparentando uns trinta e dois anos. Então ela era a faxineira?
- Bom dia, senhor Matteo, ontem eu estava muito indisposta, coisas de mulher.
Ele ergueu as sobrancelhas e deu um sorriso envergonhado imaginando coisas.
- Tudo bem, não vai ser descontada se é por isso que veio me falar.
- Obrigada, senhor. - Ela sorriu para ele e eu conhecia aquele tipo de sorriso e olhar.
Logo em seguida ela me olhou. Uma rival reconhece a outra. Eu não me lembrava dela. Sabia que Laurinda tinha uma filha mas que sempre morou com o pai em Goiás. Aquela sim era uma ameaça, uma péssima rival porque além de bonita, tinha mais de trinta anos e era branca. Eu e minha mania de que Matteo fosse se encantar mais por uma branca do que por mim ou de qualquer maneira fosse se encantar por qualquer outra e não por mim. Ele sequer olhava para os lados. A sua preocupação era com a mãe e com aquele piano da falecida e não em olhar para outras mulheres. De qualquer forma, ela estava de olho nele e era um perigo.
- Podemos almoçar. - Disse Laurinda.
- Vamos?
Ele me olhou, perguntando a mim e naquele momento me senti triunfante sobre ela. A mulher saiu a passos pesados da sala, começando a prender os cabelos no topo da cabeça. Eu pigarreei sorrindo.
Ele foi logo atrás.
- Minha mãe dorme ainda?
- Sim, senhor.
Pobre homem, refém das mulheres daquela casa e de algumas delas bem sedentas, como eu. Ele se sentou primeiro e eu me sentei depois. Mania dos tempos de infância.
Matteo ficou olhando o celular enquanto eu aguardava, ao lado da cabeceira da mesa. Laura, a filha de Laurinda começou a ajudá-la a por os pratos à mesa. Ela me olhou e sorriu com sarcasmo. Cerrei os olhos sem entender nada. Se ela tinha seus objetivos, que trabalhasse por eles mas não ficasse me olhando com aquele olhar de deboche e desafio. Sustentei o meu olhar a desafiando. Ninguém me olhava daquela maneira, eu sabia muito bem me defender e ser maldosa o suficiente com quem era comigo. Matteo atendeu o celular e se levantou da mesa. Laurinda decidiu esperar enquanto ele se afastava para falar animadamente com alguém. Olhei para Laurinda.
- Vamos esperar pelo jeito, não é?
- Não gosta de esperar pelo seu patrão? - Perguntou a tal Laura.
Eu sorri olhando para o lado. Laurinda não entendeu a animosidade da filha e cutucou seu braço.
- Laura, que é isso?
- Tudo bem, Laurinda, eu gosto de esperar sim afinal eu cresci nessa casa e conheço muito bem suas regras. Eram regras do senhor Giovanni a quem eu ...
Matteo voltou a mesa e nos olhou.
- Que tem meu pai?
Ele deu um último gole no whisky e o abandonou sobre a mesa. Os olhos azuis mais lindos do mundo agora nos inquiria, confusos.
- Eu dizia a Laura, que é nova aqui, que eu cresci nessa casa e que sei as regras do senhor Giovanni.
Matteo colocou os cotovelos sobre a mesa, sorrindo amigavelmente.
- Ah sim, eu peguei muito dos modos do meu pai. O que temos hoje?
- Ah senhor Matteo, temos uma galinhada especial.
- Delícia... Preciso almoçar e voltar a trabalhar logo.
Todos almoçamos em silêncio, mas ele olhava o celular muitas vezes. Aquilo me irritava. Enfim, terminei e sendo a primeira, logo me levantei e fui deixar meu prato sobre a pia.
- Não! Deixe aqui. - Disse Laurinda me advertindo para voltar a mesa pois ele não tinha terminado.
Aquela subserviência estava começando a me sufocar. Eu era acostumada a fazer tudo por mim mesma e trabalhar sozinha. A cidade fazia isso por nós. Esperar Matteo terminar era educado e subserviente porém nada prático. Ele demorou a terminar por ficar respondendo pessoas ao celular e eu precisava ir ver sua mãe. Então decidi pedir licença.
- Licença, senhor, preciso ver sua mãe.
- Claro!
Levantei e agradeci a Laurinda.
- Estava uma delícia minha amiga. Você sempre arrasa nos seus pratos.
Ela apenas sorriu, orgulhosa.
Fui para o quarto de dona Maria e ao entrar ela ainda dormia. Devia estar morta de cansaço a pobrezinha. Só que era hora de um remédio e ela devia almoçar. Eu toquei em seu braço com calma e ela piscou os olhos várias vezes me olhando.
- Isabela? Quanto tempo dormi?
- Umas duas horas, mas não importa, a senhora estava cansada. Vamos almoçar e tomar seu remedinho? Primeiro o remédio da pressão que já passou da hora.
Ela tentou puxar o corpo para cima e tentou se sentar mas não conseguia. Minhas costas ficariam acabadas de puxá-la sempre. Aquela era uma conversa que eu teria que ter com Matteo, sobre uma cuidadora, eu não ia aguentar muito tempo sendo cuidadora e enfermeira. Por fim, levei o almoço até o quarto já que ela estava cansada e ela manifestou o desejo de continuar almoçando e jantando em seu quarto. Eu era contra mas não podia contrariar suas ordens. Quando já descansávamos do almoço, resolvi perguntar.
- A Laura também gosta dele?
Dona Maria, que estava usando óculos para ler um livro, retirou os óculos e me olhou com fúria.
- O que ela fez agora?
- Ela fez alguma coisa?
Remexi-me na cadeira, incomodada.
- Ela se esfrega na cara do meu Matteo essa ordinária.
- Como assim?
Ajeitei meu corpo, chegando mais para perto dela, com um ciúme inexplicável de intenso.
- Ela veio para cá, perto da mãe, quando o noivado lá em Goiás terminou. Eu... - Falou mais baixo - Ouvi algo delas sobre um aborto. Então ela veio para cá tem uns seis meses e anda se engraçando para cima do meu filho.
Eu tinha que ser complacente e até chamar dona Maria a razão.
- Mas só porque ela teve um noivado e um aborto? Qualquer mulher pode ter essa falta de sorte.
Ela sorriu para mim.
- Ainda tão inocente, Isabela... Você nunca vê a maldade nas pessoas?
- Vejo e vi nela mas não vi uma maldade assim, eu só notei que ela olha diferente para Matteo.
- Ela não olha só diferente para Matteo, ela olha diferente para todo mundo. - Ela se arvorou.
- Sshhhh...
- Está bem, está bem.
- Eu não gostei dela, ela fala comigo com deboche. Eu odeio deboche.
- Se reparar bem, ela usa saias mais curtas, decotes maiores, cabelos soltos, ela usa todas as armas para que ele repare nela.
- Mas ele não repara. - Eu sorri.
- Mas pode começar. Cuidado com ela, é do tipo sonsa.
- Eu notei. Se ele se interessar por uma mulher dessas, eu nem ia saber mais quem é o Matteo porque ela é muito vulgar. Sabe, não é sobre ex-noivo ou aborto mas é a respeito de como ela se porta com a gente.
- E você vai esperar que ela tome seu lugar? Vamos agir!
Eu comecei a rir da cara de dona Maria. Estava sempre querendo armar confusões. Ela e minha mãe devem ter armado muitas confusões quando mais novas porque o senhor Giovanni também era de aprontar. Ela riu. Matteo entrou no quarto e paramos.
- Eu estava passando para pegar um café, do que tanto vocês duas estão rindo?
Ele sorria aquele lindo sorriso dos Ricci. Estava parado com as mãos na cintura e nos olhava curioso.
- A gente estava pensando como seria bom dar uma festa de rodeio!
Olhei para ela com cara de horrorizada e caí na gargalhada. Matteo começou a rir junto, sem entender nada.
- Uma festa? Eu?
- Meu filho, seu aniversário está chegando, até quando vai ficar sem receber os amigos, só preso no passado?
Ele baixou a cabeça e eu fiquei séria. Aquilo deve ter mexido com ele. Se já faziam três anos, sua mãe estava certa.
- Eu trabalho muito, mãe.
- Meu filho, uma festa de aniversário pode reunir até parceiros, negociadores, é uma forma de mostrar a qualidade da nossa fazenda e do nosso gado.
De onde ela tirava tanta criatividade de repente? Ela não lia aqueles livros, ela devia ficar disfarçando e matutando que coisas mirabolantes ia inventar para arrumar uma esposa para o filho.
Ele ficou um tempo pensando.
Eu o observava de cima a baixo. Era minha oportunidade de reparar em seu belo rosto e corpo sem que ele conseguisse reparar. Mas ele me pegou. Ao me olhar de repente, Matteo me pegou correndo os olhos por seu corpo.
- Acha a mesma coisa, Isabela?
Eu olhei para dona Maria com ar cúmplice. Ela sabia o que estava passando pela minha cabeça. Ele estava me consultando. Isso era muito positivo e me dava um frio no estomago.
- Eu acho uma ótima ideia, comemorar aniversário é sempre uma ótima ideia.
- Então vou pensar sobre isso... Vou buscar meu café.
Ele saiu e nós duas nos entreolhamos rindo.
- Seja a mais linda opção nessa festa, minha querida.
Nós gargalhamos de novo.