Alex Roux
Acordei em pleno sábado com gritos histéricos ecoando pela sala da minha casa.
Gritos de pânico.
Gritos de quem ainda não entendeu onde se meteu.
- Porra...
Nem no meu dia de folga eu tinha paz naquele inferno.
O relógio marcava pouco depois das sete da manhã, e o sol de Las Vegas tentava, sem sucesso, atravessar as cortinas pesadas que eu fazia questão de manter fechadas. Luz demais sempre foi um problema. Ilusão demais também. Eu preferia a penumbra - ela combinava comigo.
Levantei da cama em silêncio, o corpo reagindo no automático, como fui treinado desde criança. Não havia espaço para sonolência ou confusão. Apenas ação.
Abri o guarda-roupa e puxei a primeira roupa escura que encontrei. Camisa preta, calça preta. O colete balístico veio logo em seguida, ajustado ao corpo antes mesmo de eu terminar de vestir a blusa. A pistola foi para a parte de trás da calça, fria contra a pele. A segunda arma, destravada, firme na mão direita.
Desci as escadas com passos calculados, o coração calmo demais para alguém prestes a atirar.
Naquele mundo, ou você reagia primeiro...
Ou não reagia nunca mais.
Quando virei o último degrau, pronto para transformar o invasor em um corpo estendido no chão da minha sala, a cena que encontrei quase me fez rir.
Quase.
A governanta da casa, Emília, estava parada no meio da sala, mãos erguidas, olhos arregalados como se estivesse diante do próprio demônio. Do outro lado, de braços abertos, expressão confusa e um sorriso torto no rosto...
Meu irmão.
- Emília, esse é Cézar, meu irmão - anunciei, destravando a arma com um movimento seco e a colocando sobre a mesinha lateral.
Ela virou o rosto para mim como quem pede socorro.
- Oh... senhor... - a voz saiu trêmula. - Me desculpe, senhor. Eu pensei que...
- Está tudo bem, Emília - Cézar interrompeu, jogando-se no sofá com a tranquilidade de quem não tinha acabado de quase ser morto. - A culpa foi minha.
Ela assentiu rápido demais e praticamente correu em direção à cozinha.
- Que recepção calorosa - ele comentou, irônico, passando a mão pelo cabelo.
- Se tivesse avisado que vinha, não teria causado esse vexame.
- Gosto de surpresas, maninho. - Ele abriu um sorriso lento. - Como as coisas estão?
- Sob controle. - Caminhei até o bar embutido na parede, peguei dois copos e servi whisky sem medir a dose. - E em Paris?
- Perfeitas. - Ele aceitou o copo. - A De La Luz nunca esteve tão sólida.
Bebi o meu de uma vez. O álcool queimou a garganta, mas não trouxe nenhum alívio.
- Recebi o e-mail ontem - continuei. - A reunião é só daqui a um mês. Achei que viria depois.
- Mudança de planos. - Cézar observou a sala. - Essa casa é escura demais, Alex. Você devia colocar mais brilho aqui.
- Não começa - rebati. - A sua casa é pior.
Ele riu, aquele riso baixo e perigoso que só um Roux tinha.
- Precisa ir me visitar na nossa querida Cidade Luz.
- Um dia. - Enchi novamente meu copo. - Agora, os negócios daqui precisam mais de mim do que nunca.
- Eu entendo. - Ele assentiu. - Há três anos eu estava exatamente assim... e você foi até lá me ajudar.
- Por isso você veio mais cedo.
- Agora é minha vez de te dar uma mão.
Me joguei no sofá ao lado dele, soltando o ar devagar.
A vida de um Roux era uma guerra constante.
Vinte e quatro horas por dia.
Sem pausas.
Sem descanso.
Sem escolhas.
Fomos criados para resistir a tudo. Para não criar laços. Para não amar. Para não sofrer. A dor fazia parte do treinamento. A frieza era obrigatória. O controle... essencial.
Às vezes - raramente, mas acontecia - eu me perguntava como seria uma vida normal. Uma família comum. Um café da manhã sem armas escondidas. Um sábado sem sangue.
Mas esse tipo de pensamento era perigoso.
- Bom dia, Alex.
A voz feminina cortou meus pensamentos como uma lâmina.
Lety descia as escadas lentamente, usando um short curto e uma camisa larga que deixava um dos ombros à mostra. O cabelo preso de qualquer jeito, o rosto limpo, mas ainda assim... chamava atenção sem esforço algum.
Sempre chamava.
- Bom dia, Lety - respondi, sorrindo de lado.
- Irmão, essa é Lety. Uma amiga. - Olhei para Cézar. - Lety, esse é meu irmão, Cézar.
Ela analisou os dois por um segundo, arqueando a sobrancelha.
- É meio óbvio que vocês são irmãos. - Deu de ombros. - Um é o reflexo do outro.
Cézar soltou uma risada breve.
- Vou ficar na piscina - ela continuou. - Se precisar de algo, é só me chamar.
E então se foi, deixando o ambiente ligeiramente mais pesado.
- Quem é ela? - Cézar perguntou, sério agora.
- Uma amiga de muitos anos. - Pausei. - Precisou da minha ajuda.
- Claro que precisou.
- Sabe que não podemos criar apegos emocionais - ele disse, num tom que conhecia bem.
- Eu sei. - Minha voz endureceu. - Mas eu não podia deixar que ela continuasse sendo agredida e abusada todos os dias.
- Matou o infeliz?
Um sorriso frio surgiu no meu rosto.
- Garanto que ele está sofrendo cada segundo da miserável vida dele.
Cézar ergueu o copo.
- Perfeito.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
- Já que estou aqui... - ele quebrou o clima. - Que tal irmos aos cassinos?
- Vamos.
Peguei as chaves do carro e da casa, e saímos juntos.
- Está de colete? - ele perguntou antes de entrar no veículo.
- Sempre.
Ele não respondeu. Apenas fechou a porta.
Seguimos pelas ruas de Las Vegas em silêncio, os prédios brilhando como se escondessem algo muito mais sujo por trás das luzes.
Assim como anos atrás.
Assim como sempre.
Porque, no fim das contas, não importava o país, a cidade ou o império que comandávamos.
Ser um Roux significava viver entre o luxo...
e a perdição.
E aquele era só o começo.
---
Cézar Roux
Era bom estar de volta.
Era bom estar em casa.
Não que Paris não fosse meu lar - porque era. A Cidade Luz corria no meu sangue tanto quanto o sobrenome Roux. Mas Las Vegas... Las Vegas tinha história. Tinha cicatrizes. Tinha memórias que nenhum de nós dois conseguia apagar, por mais que tentássemos.
Quando éramos crianças - e ainda podíamos ser apenas isso - Las Vegas era divertida. Luzes demais, risadas demais, pessoas demais. Nosso pai nos trazia escondidos para os cassinos que ainda estavam sob domínio parcial, antes da guerra começar. Alex ficava fascinado com as mesas, os números, a lógica por trás de tudo. Eu observava as pessoas. Sempre observei.
Mesmo naquela época, eu já entendia que ninguém ali estava realmente sorrindo.
Depois... tudo mudou.
A perseguição começou silenciosa.
Primeiro, ameaças veladas.
Depois, corpos.
E então, o treinamento.
Nosso pai nunca acreditou em finais felizes. Ele acreditava em sobrevivência. E, na cabeça dele, se ao menos um de nós sobrevivesse, o império continuaria de pé.
Não havia espaço para os dois serem fracos.
- Está pensando demais - Alex disse, quebrando o silêncio dentro do carro.
Olhei para ele por um instante, os olhos fixos na estrada iluminada demais para o meu gosto.
- Você sempre percebe - respondi.
- Você sempre fica assim quando volta para cá.
Las Vegas passava rápido pelas janelas: luzes, placas, promessas falsas. O cheiro do dinheiro sujo parecia impregnado no ar.
- Esse lugar nos fez quem somos - murmurei.
- Nosso pai nos fez quem somos - Alex corrigiu, sem tirar os olhos da frente.
Soltei uma risada breve.
- Ele só terminou o serviço que o mundo começou.
Alex não respondeu. Nunca respondia quando o assunto era esse. Ele guardava as coisas para si, empilhava tudo em silêncio até virar estratégia. Eu... eu sempre fui o que encarava de frente.
O cassino central surgiu à nossa frente como um templo moderno do pecado. Luxo, vidro, luzes douradas. Por fora, parecia intocável. Por dentro, era um organismo vivo, respirando crime, poder e controle.
- Ainda é estranho pensar que isso tudo responde a nós - comentei enquanto estacionávamos.
- Estranho seria se não respondesse - ele disse, seco.
Entramos pelos fundos, como sempre. Nenhum Roux entrava pela porta principal. Não era medo. Era costume.
Os seguranças nos reconheceram de imediato. Cabeças se abaixaram. Olhares desviaram. Respeito - ou terror - nunca soube diferenciar bem.
- Senhor Roux - Victor apareceu rapidamente. - Não esperávamos o senhor hoje.
- Mudança de planos - respondi. - Onde está o conselho?
- Sala privada. Estão aguardando. - Alex diz.
- Ótimo. - Olhei para meu irmão. - Vamos direto ao ponto.
Enquanto caminhávamos pelos corredores, senti aquela sensação familiar se espalhar pelo peito. Controle. Domínio. Pertencimento.
Era ali que eu funcionava melhor.
A reunião foi rápida, objetiva e brutal. Números, rotas, ameaças, um aviso velado sobre Marco Valenti tentando se infiltrar em um dos cassinos menores. Nada fora do esperado.
- Ele está testando limites - disse um dos homens.
- Quebre os dedos dele - Alex respondeu. - Se insistir, quebre algo mais visível.
Assentiram. Simples assim.
Quando tudo terminou, saímos novamente para a noite quente de Vegas.
- Precisa de algo mais? - Alex perguntou enquanto entrávamos no carro.
- Preciso entender uma coisa - respondi.
Ele arqueou a sobrancelha.
- Aquela mulher... Lety.
O maxilar dele se contraiu.
- O que tem ela?
- Você sabe o que tem - falei calmamente. - Ela mora na sua casa. Anda livre demais. Olha para você como quem esqueceu as regras.
- Ela é grata - Alex rebateu. - Só isso.
- Gratidão vira apego. Apego vira fraqueza.
- Não começa, Cézar.
- Não estou começando nada. Estou lembrando. - Suspirei. - A última secretária também era "só grata".
O silêncio se instalou pesado entre nós.
- Eu sei - ele disse, finalmente. - Por isso Helena está procurando outra pessoa para o contrato.
- Outra secretária?
- Não. - Ele me lançou um olhar rápido. - Outra... solução.
Sorri de canto.
- Então é verdade.
- O quê?
- Que vocês perderam mais uma.
- Ela se apaixonou - Alex disse, frio. - Quebrou a única regra.
- E pagou por isso.
Ele assentiu, sem emoção aparente.
- Precisamos de alguém novo - continuou. - Alguém que entenda que isso é apenas um acordo.
- Não existe "apenas" quando se mistura poder e desejo - respondi. - Você sabe disso.
- Mas existe controle.
- Até não existir mais.
Voltamos para casa em silêncio. A piscina refletia a lua quando estacionamos. A casa escura parecia nos engolir de volta.
- Vou tomar um banho - Alex disse. - Amanhã começamos cedo.
- Claro.
Fiquei na sala, servindo mais um copo de whisky. A governanta já tinha ido dormir. A casa estava quieta demais.
Foi então que ouvi passos leves.
- Não consegui dormir - Lety disse, surgindo perto da porta que dava para a área externa.
Ela usava um robe leve, o cabelo ainda úmido. Bonita demais para aquele lugar. Ingênua demais para aquele mundo.
- Não devia estar aqui - falei, sem suavizar o tom.
Ela me olhou, surpresa.
- Desculpa... eu só-
- Alex te ajudou - continuei. - Não confunda isso com permissão.
Os olhos dela se encheram de algo perigoso.
- Eu sei quem vocês são.
- Não sabe - respondi. - Se soubesse, teria ido embora.
Ela engoliu em seco.
- Boa noite, Lety.
Ela hesitou, mas se afastou.
Sozinho novamente, pensei em Helena. Na eficiência dela. Na frieza necessária para sobreviver ali.
E pensei na tal amiga.
Elisa Martins.
Um nome simples demais para alguém que ainda não fazia ideia de onde estava prestes a entrar.
- Um novo brinquedo - murmurei para mim mesmo, sem qualquer prazer real nas palavras.
Porque eu sabia.
Sabia que o problema nunca era o contrato.
Nunca era o dinheiro.
Nunca era o desejo.
O problema sempre começava quando alguém acreditava que podia sair ileso.
E ninguém sai ileso do mundo dos Roux.
Las Vegas piscava do lado de fora, viva, perigosa, sedutora.
Assim como ela seria.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti algo que não deveria:
antecipação.
E isso...
isso era imperdoável.
{...}
Elisa Martins
Levantei da cama pesada, com o corpo cansado e a mente em frangalhos. O relógio marcava cinco da manhã. Eu não tinha dormido. Na verdade, fazia dias que dormir tinha se tornado um luxo distante, algo que pertencia a outra versão de mim - uma Elisa que já não existia mais.
As preocupações se empilhavam na minha cabeça como contas atrasadas sobre a mesa da cozinha. Minha mãe no hospital. As despesas aumentando a cada dia. Medicamentos que não podiam ser interrompidos. Exames que surgiam do nada. E, para completar, o visto dela expiraria em uma semana.
Uma semana.
Eu nasci aqui. Esse era um problema a menos. Mas minha mãe não. Se a imigração descobrisse, ela seria mandada de volta para o Brasil imediatamente. Doente. Fraca. Sem tratamento. E eu sabia, no fundo do peito, que se isso acontecesse... eu a perderia.
Não ficaria aqui sem ela. Nunca.
E trazê-la de volta depois seria ainda mais impossível.
A doença já sondava o corpo dela como um predador paciente.
Respirei fundo, passando a mão pelo rosto, sentindo a pele quente e os olhos ardendo. O silêncio do apartamento era cruel. Pequeno, apertado, com cheiro de café velho e preocupação. Era tudo o que eu tinha.
As batidas na porta vieram secas, impacientes.
Meu coração disparou.
Levantei devagar, arrastando os pés pelo chão frio, e abri a porta.
Era o síndico.
Ele não sorriu. Nunca sorria.
- Senhorita Martins - disse, consultando algo no celular. - Vim avisar que a senhora tem até o fim do mês para quitar os aluguéis atrasados.
Engoli em seco.
- Caso contrário - ele continuou, sem emoção -, terá que desocupar o apartamento. Arrumar suas coisas e ir embora.
Assenti em silêncio. O que eu poderia dizer? Que minha vida estava desmoronando? Que eu estava perdendo tudo? Que não havia mais de onde tirar?
Ele se virou para sair, mas algo - ou alguém - surgiu logo atrás dele.
Helena.
Meu coração afundou ainda mais.
Ela estava impecável como sempre. Roupa social, postura reta, olhar sério. Mas havia algo diferente em sua expressão. Pena. Preocupação. Culpa.
- Bom dia, Elisa - ela disse, baixo.
O síndico se afastou, deixando o corredor silencioso demais.
- Desculpa por isso, Helena - falei rápido, sentindo vergonha queimar no rosto. - Eu não sabia que ele viria tão cedo.
- Não se desculpe - ela respondeu, entrando no apartamento sem ser convidada. - Eu sei pelo que você está passando.
Fechei a porta atrás dela.
- Você não devia ter vindo aqui - murmurei.
- Eu devia, sim. - Ela suspirou, passando a mão pelo cabelo. - E eu preciso ser direta com você.
Meu estômago se contraiu.
- Eu sei que você está passando por necessidade. - Ela me encarou. - E precisa de dinheiro. Muito dinheiro.
Não respondi. Apenas a encarei.
- Eu tomei a liberdade de te indicar para meus patrões - ela continuou. - Para ser a assistente pessoal deles.
Meu coração deu um salto de esperança.
- Assistente? - perguntei. - Mas você não é a...
- Não, Elisa. - Ela me interrompeu. - Eu sou a secretária pessoal. Cuido de tudo no ramo trabalhista. Contratos, reuniões, acordos. Você seria... outra coisa.
O ar pareceu faltar.
- Outra coisa como?
Ela demorou a responder. Isso foi o que mais me assustou.
- Assistente pessoal - repetiu. - De assuntos pessoais.
Meu corpo gelou.
- Assuntos... entre quatro paredes.
As palavras ecoaram na minha cabeça.
- O quê? - perguntei, incrédula. - Do que você está falando?
Meu coração começou a bater descompassado.
- Helena... - minha voz falhou. - Você está me oferecendo para os seus patrões como uma prostituta? É isso?
- Não fala assim - ela disse, incomodada. - Eu só juntei o útil ao agradável.
- Útil ao agradável?! - minha voz subiu. - Você enlouqueceu?
- Eu já te indiquei - ela continuou, ignorando meu tom. - Eles vão te procurar. Vão te oferecer um contrato.
- Contrato de quê?
- Um ano. - Ela foi direta. - Exclusivo. Depois disso, pode se tornar algo casual, se ambas as partes quiserem.
Meu corpo começou a tremer.
- Você precisa assinar um contrato de confidencialidade, consentimento... tudo formal.
- Não. - Balancei a cabeça. - Não, Helena. Você está maluca.
- Elisa, escuta bem. - Ela se aproximou. - Eles querem alguém sem envolvimento emocional. Um objeto sexual.
As palavras me cortaram por dentro.
- Eles pagam bem - ela continuou. - Muito bem. Um dinheiro absurdo.
- Eu não sou um objeto! - gritei.
- Você é maior de idade. - O tom dela endureceu. - E precisa do dinheiro.
- Eu posso arrumar outro trabalho!
- Não a tempo. - Ela rebateu. - O visto da sua mãe está para vencer. O tratamento não pode parar.
Senti lágrimas queimarem meus olhos.
- Você não tem escolha.
- E a minha dignidade? - perguntei, com a voz quebrada. - Onde ela fica?
O olhar de Helena mudou. Endureceu. Ficou frio.
- Você escolhe - ela disse, sem hesitar. - Sua dignidade... ou sua mãe em um caixão.
O mundo girou.
- Não fala isso...
- É a realidade. - Ela se virou em direção à porta. - Vou pagar seus aluguéis atrasados como demonstração de boa-fé.
Abri a boca para falar, mas nenhum som saiu.
- Assim que sua mãe finalizar o tratamento, ela pode voltar para casa. - Ela parou na porta, sem olhar para mim. - Enquanto você...
Ela fez uma pausa.
- Bem, você estará nas mãos dos irmãos Roux.
A porta se fechou.
O silêncio caiu pesado sobre o apartamento.
Eu continuei ali, parada, sentindo minhas pernas fracas demais para me sustentar. Minhas mãos tremiam. Meu coração doía como se estivesse sendo esmagado.
Isso não podia estar acontecendo comigo.
Não comigo.
Mas estava.
E, pela primeira vez desde que minha mãe adoecera, eu percebi algo ainda mais assustador do que perder tudo.
Eu estava prestes a me perder também.
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Alex Roux
Ter meu irmão ali comigo era, sem sombra de dúvidas, consolador.
Não porque Cézar fosse gentil - ele nunca foi. Mas porque ele entendia. Entendia o peso. O sangue. As escolhas que não eram escolhas. Um ano. Apenas um ano em que dividiríamos tudo outra vez. Negócios, decisões... e a mulher. Assim como quando fui para Paris assumir o que era dele enquanto ele sustentava o império daqui.
Nada de novo sob o sol.
- E ela, Helena? - perguntei, apoiando o corpo na poltrona de couro. - Aceitou de bom grado?
Helena permaneceu em pé, postura impecável, mãos cruzadas à frente do corpo. Nunca demonstrava emoção quando falava de trabalho. Aquilo era essencial para sobreviver ao nosso lado.
- Não, senhor. - A voz saiu firme. - Ela relutou. Ainda não aceitou formalmente, mas vai aceitar.
- Tão certa assim? - Cézar perguntou, girando o copo de whisky entre os dedos.
- Sim. - Helena respondeu sem hesitar. - Ela precisa do dinheiro mais do que precisa da própria dignidade.
O silêncio que se seguiu foi denso.
- Pobre moça - Cézar murmurou, com um meio sorriso que nunca significava piedade. - Espero que ela seja tão apegada à dignidade quanto diz ser... e que escolha não se apaixonar. Que pense apenas na mãe.
Inclinei levemente a cabeça, observando a dança lenta do líquido âmbar no meu copo.
- Ela ficará durante esse um ano - Helena continuou. - Pelo dinheiro do tratamento da mãe. Pelas dívidas. Por tudo que tira a paz dela.
- Que assim seja - Cézar concluiu, como se estivesse selando um acordo qualquer.
Helena fez menção de sair, mas parou no meio do caminho.
- Só há um problema, senhores.
Levantei o olhar imediatamente.
- Continue - ordenei.
Ela respirou fundo. Pela primeira vez desde que entrara naquela sala, pareceu hesitar.
- Elisa é virgem.
A palavra caiu como uma lâmina afiada no ambiente.
Cézar arqueou a sobrancelha, claramente surpreso, antes de soltar uma risada baixa.
- Interessante.
- Peço que não sejam brutos com ela no início - Helena disse, firme, encarando-nos. - Não a façam sofrer.
Olhei para meu irmão de soslaio. Ele apenas deu de ombros.
- Alex, isso é com você.
Suspirei devagar.
- Eu cuidarei disso - respondi. - Com toda a delicadeza possível.
Helena assentiu, aliviada.
- Porém - continuei, sem suavizar - depois disso... você sabe, Helena. Nós não fazemos amor.
Ela engoliu em seco, mas concordou.
- Uma virgem - Cézar comentou, inclinando-se para frente. - Os primeiros dela serão nós dois.
O sorriso que surgiu em seus lábios era perigoso demais para ser chamado de simples provocação.
Conhecia Cézar como conhecia a mim mesmo. Ele sempre fora o mais cruel. Impulsivo. Capaz de ir longe demais apenas para testar limites. Eu era o oposto. O estrategista. O que pensava antes de agir.
Na maior parte do tempo.
- Envie o contrato para ela - falei, encerrando o assunto. - Hoje.
- Sim, senhor. - Helena se retirou, fechando a porta atrás de si.
O silêncio voltou a tomar conta da sala.
Cézar caminhou até o bar, serviu dois copos de whisky e me entregou um deles.
- Então... - ele disse, sentando-se à minha frente. - Uma virgem desesperada, um contrato bem redigido e um ano inteiro.
- Não confunda desespero com fraqueza - respondi.
- Ah, maninho... - ele sorriu. - Toda necessidade cria uma brecha.
Levei o copo aos lábios, sentindo o álcool descer queimando.
- Só não ultrapasse limites - adverti.
- Desde quando nós respeitamos limites? - ele retrucou.
- Desde que eles nos mantêm vivos.
Ele riu.
- Você mudou.
- Não. - Encarei-o. - Eu aprendi.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Minha mente, no entanto, já trabalhava. Eu não conhecia Elisa Martins, mas já sabia o suficiente para entender que aquele acordo não seria simples.
Uma mulher pressionada pelo mundo.
Uma mãe entre a vida e a morte.
Um contrato que prometia salvação... ao custo de algo que não se recupera.
- Você acha que ela vai quebrar? - Cézar perguntou, mais sério agora.
- Não sei - respondi com honestidade. - Mas sei que não devemos subestimá-la.
- Toda mulher quebra.
- Nem todas. - Apoiei os cotovelos nos joelhos. - Algumas apenas aprendem a sobreviver melhor.
O nome dela ecoou na minha mente.
Elisa Martins.
Ainda não nos conhecíamos. Ainda não tinha assinado nada. Mas, de alguma forma, ela já estava ali. No centro das decisões. No centro do risco.
E eu odiava admitir isso, até para mim mesmo.
Porque quando uma peça começa a interferir no tabuleiro...
ela deixa de ser apenas uma peça.
- Um ano - Cézar repetiu. - Depois disso, cada um segue seu caminho.
- Um ano - concordei. - E depois disso, Cézar. Você não pisa mais os pés aqui.
- Nossa maninho, achei que me amasse.
- Uma coisa não tem nada haver com a outra, esse um ano será o último desse acordo.
- Okay, ano passado em Paris, esse ano aqui em Las Vegas e depois acabou .
- Sim! - Digo.
Mas algo dentro de mim dizia que nada ali seria tão simples.
E eu nunca ignorava esse tipo de pressentimento.
{...}
Elisa Martins
Meu aluguel estava pago.
As contas estavam quitadas.
Minha mãe continuava internada.
E eu... eu não dormia.
O silêncio do apartamento parecia gritar mais alto do que qualquer sirene de hospital. Estava sentada no sofá desde que o sol se pôs, encarando o envelope sobre a mesa de centro como se ele fosse uma sentença de morte - ou de sobrevivência. Talvez os dois.
Respirei fundo antes de abri-lo.
Helena não faria isso comigo... faria?
Quando li as primeiras linhas, o ar simplesmente deixou meus pulmões.
Contrato de trabalho e confidencialidade.
Meu coração começou a bater tão forte que temi que os vizinhos ouvissem. Minhas mãos tremiam enquanto meus olhos desciam pelas páginas, palavra por palavra, como se cada letra estivesse sendo cravada na minha pele.
Um ano.
Um milhão por mês.
Um valor final que eu sequer conseguia processar.
- Isso é uma piada... - murmurei para o nada.
Não era.
Era frio. Jurídico. Cruel.
E absurdamente tentador.
Meu nome estava ali, completo. Como se eu já tivesse aceitado. Como se minha vida já tivesse sido decidida por alguém além de mim.
Alex Roux.
Cézar Roux.
Os nomes pareciam sair do papel e se espalhar pelo ambiente. Eu não os conhecia pessoalmente, mas Helena falava deles com um respeito quase temeroso. Homens poderosos. Donos de impérios que não apareciam nos jornais.
Homens que não aceitavam recusas.
Meu estômago revirou ao chegar às cláusulas finais.
Em hipótese alguma deve se apaixonar.
Soltei uma risada sem humor.
Como se fosse tão simples assim.
Fechei os olhos com força, tentando pensar na minha mãe. Nos tubos. Nos aparelhos. Na forma como ela apertou minha mão mais cedo, fraca, mas sorrindo.
- Vai ficar tudo bem, filha... - ela disse. - Você sempre dá um jeito.
Abri os olhos sentindo as lágrimas queimarem.
Dar um jeito.
Sempre.
Contrato de Prestação de Serviços e Confidencialidade
Contratada: Srta. Elisa Sandrini Martins
Contratantes: Alex Roux e Cézar Roux
Intermediária: Helena Vaper
O documento era extenso. Frio. Impessoal. Escrito em uma linguagem jurídica que tentava, sem sucesso, suavizar o peso do que estava sendo proposto.
Tratava-se de um contrato de prestação de serviços exclusivos, com duração de um ano, em regime integral, firmado entre as partes acima citadas.
A remuneração vinha destacada logo nas primeiras páginas - valores tão altos que pareciam irreais, quase ofensivos de tão generosos. Pagamentos mensais garantidos e uma quantia final ao término do contrato, condicionada ao cumprimento integral de todas as cláusulas.
Havia um capítulo inteiro dedicado à confidencialidade absoluta.
Nada poderia ser mencionado.
Nada poderia ser registrado.
Nada poderia ser compartilhado.
Nem agora. Nem depois.
Nunca.
Qualquer violação implicaria em penalidades severas, descritas em números que faziam o estômago revirar. Não havia espaço para erro. Nem para arrependimento.
Outro trecho deixava claro que o contrato era irrevogável durante o período estipulado. Uma vez assinado, não poderia ser rompido por nenhuma das partes, salvo mediante consequências financeiras devastadoras.
A contratada teria dedicação exclusiva aos contratantes, com direito a apenas um dia livre por semana, destinado a resolver assuntos pessoais previamente comunicados.
Então veio a cláusula que me fez parar de respirar por alguns segundos.
Uma página inteira dedicada às restrições emocionais.
Era expressamente proibido o envolvimento sentimental.
Apego.
Dependência.
Qualquer forma de vínculo que ultrapassasse o que estava descrito como "relação contratual".
A leitura deixava claro:
aquilo não era sobre afeto.
Nunca seria.
As últimas páginas tratavam da natureza dos serviços, descritos de forma vaga, propositalmente ambígua, mas suficientes para que eu entendesse exatamente o que estava sendo exigido de mim. Não havia romantização. Apenas termos técnicos, frios, objetivos.
O encerramento era ainda mais cruel.
Uma linha única, em letras destacadas, parecia gritar da folha:
Ao assinar este contrato, a contratada declara estar ciente de todas as cláusulas, abrindo mão de qualquer contestação futura.
O local da assinatura estava ali.
Esperando.
---
Meu celular vibrou sobre o sofá. O nome de Helena piscava na tela.
- Você enlouqueceu? - atendi sem rodeios.
- Você leu. - Ela afirmou, não perguntou.
- Levei cinco minutos pra ler e uma vida inteira pra processar.
Silêncio do outro lado.
- Elisa... - a voz dela perdeu a frieza habitual. - Eu não ofereceria isso se não fosse a única saída.
- Você está me vendendo.
- Não. - Ela respirou fundo. - Estou te dando uma escolha. Cruel, eu sei. Mas ainda assim... uma escolha.
Fechei os olhos outra vez.
- Eles não são homens comuns, Elisa.
- Eu percebi.
- Se assinar, nada poderá ser quebrado. Nem por você, nem por eles.
- E se eu disser não?
Helena demorou.
- Então eu sinto muito pela sua mãe.
Aquilo doeu mais do que qualquer palavra.
Quando a ligação terminou, fiquei ali, imóvel. O contrato ainda aberto sobre a mesa. Como se estivesse esperando apenas uma coisa: minha assinatura.
Não assinei naquela noite.
Mas também não rasguei.
---
O prédio em Las Vegas era ainda mais intimidador pessoalmente. Vidro, aço e silêncio. Tudo ali gritava poder. Eu me sentia pequena atravessando aquele saguão gigantesco, com um vestido simples e o coração disparado.
Helena me esperava.
- Ainda dá tempo de desistir - ela disse, séria.
- Não dá - respondi.
Ela assentiu e me conduziu até o elevador privado. Cada andar parecia me afastar mais da mulher que eu era antes.
As portas se abriram para um andar inteiro. Um escritório que mais parecia um trono moderno.
Eles estavam ali.
Alex foi o primeiro que notei. Postura calma. Olhar atento. Perigoso de um jeito silencioso.
Cézar... Cézar era outra coisa. O sorriso torto, o olhar que parecia atravessar minha alma.
- Srta. Martins - Alex disse, levantando-se. - Obrigado por vir.
- Eu não vim - respondi com a voz firme apesar do medo. - Eu fui chamada.
Cézar sorriu.
- Gosto dela.
Alex lançou um olhar breve ao irmão antes de voltar-se para mim.
- Sente-se, Elisa.
Meu nome na boca dele fez algo estranho acontecer no meu peito.
Sentei.
O contrato estava ali, novamente. A caneta repousava ao lado, como um desafio.
- Antes que assine - Alex disse -, preciso que entenda uma coisa.
Ergueu-se, caminhando lentamente ao meu redor.
- Nada aqui é sobre força. É sobre escolha. Você está aqui porque quer salvar alguém. Nós... oferecemos o meio.
Cézar se inclinou para frente.
- Mas uma vez dentro, não existe meio-termo.
Engoli em seco.
- E se eu me arrepender?
Alex parou atrás de mim.
- Arrependimento não muda contratos.
Havia algo na voz dele que não era ameaça. Era verdade.
Peguei a caneta.
Minhas mãos tremiam.
Minha alma gritava.
Minha mente implorava por racionalidade.
Assinei.
Quando terminei, Cézar bateu palmas lentamente.
- Bem-vinda, Elisa Martins.
Alex inclinou-se e sussurrou, próximo demais do meu ouvido:
- A partir de agora... sua vida nunca mais será simples. - Senti seu hálito quente e ele continuou. - E seu corpo...bem, seu corpo é nosso.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, eu soube.
Eu tinha acabado de atravessar uma linha sem volta.
{...}