Jack Voyaller
-Você acha correto Eva, casar sem amor? -Observo a ruiva a minha frente com pesar.
Seus intensos olhos verdes se voltam para mim e seus lábios marcados de um gloss suave se retorcem.
- Não posso julgar ninguém Jack, olha para mim, meu casamento com seu irmão foi arranjado mesmo antes de eu nascer. -Eva balança os ombros com um olhar preocupado.
- Eu não acho correto. -Murmuro olhando-me no espelho com desdém.
O terno cinza chumbo fazia conjunto com o colete e a calça. A pequena flor milimetricamente posicionada sobre a lapela do terno faz-me mais parecido com um noivo e o sentimento de decepção preenchia meu peito ao observar minha imagem refletida no espelho.
- Às vezes o incorreto é a opção mais correta Jack. -Eva para em minha frente arrumando a gravata que estava perfeitamente alinhada.
- Eu espero que isso seja real. -Murmuro cheio de preocupações, afinal, cada um de nós guarda segredos e os meus segredos podem ser pesados demais para Jessye Squared.
- Não se culpe tanto Jack, tente apenas seguir o que a vida está te entregando. Não veja isso como algo ruim. Tente visualizar a oportunidade que está a sua frente. - Ela arruma um pequeno fio do meu cabelo que insiste em ficar de pé.
Maneio a cabeça em concordância sem muito ânimo e por mais que eu tente esconder meu desgosto, a verdade é que tudo isso estava me matando lenta e dolorosamente.
Eu não quero me casar com uma desconhecida, gosto da minha vida de solteiro e do fardo que carrego com ela.
-Jack. -Eva segura meu rosto com as mãos forçando-me a olhar para ela. - Você foi o primeiro que acreditou em mim quando eu cheguei aqui e eu tenho um carinho muito grande por você, então por favor, tente ao menos dar uma chance para essa moça, pois ela está sofrendo assim como você. -Eva desliza as mãos por meu rosto com uma feição preocupada.
Novamente maneio a cabeça em concordância não querendo proferir palavras vazias, afinal se tem algo que a família Voyaller preza acima de tudo, são as promessas feitas.
-A tristeza explícita em seus olhos está me matando eu não queria vê-lo tão infeliz. - Eva apoia a mão em meu peito e fecho os olhos respirando profundamente na tentativa de acalmar o desesperador aperto em meu coração.
- Se Dante não fosse seu marido me casaria com você. -Acabo rindo para descontrair o momento e aliviar a tensão em seu corpo.
-É esse sorriso que quero em seus lábios. -Eva termina de arrumar o pequeno lenço em meu bolso, analisando minuciosamente minha aparência que deveria estar perfeita para aquele dia.
De fato minha aparência estava perfeita, porém não podia dizer o mesmo da desordem em meu interior.
- Vamos fingir que esse é o dia mais feliz da minha vida. -Pisco para ela e a porta do quarto se abre revelando meu irmão mais velho, mas antes vislumbro o pesar nos olhos da minha cunhada pelas minhas palavras e sinceramente não posso fingir mais do que isso.
Nesses últimos dias já havia ultrapassado todos os meus limites de encenação por um século.
-A cerimonialista está esperando. -Dante sorri ao me ver vestido de noivo, mas é visível o desgosto e preocupação em seu semblante.
Eu sei que Dante lutou o máximo que pode contra esse casamento, mas confesso que teve um momento em que o culpei por ser obrigado a passar por isso.
Contudo acabei vendo que o único culpado era o homem a quem chamamos de pai, Donatel sempre conturbou e revirou nossas vidas do avesso.
-Creio que o noivo deve esperar pela noiva e não ao contrário correto? -Brinco tentando descontrair o ambiente e de certa forma funciona ou assim como eu, eles fingem, pois aquilo não podia ser mais cômico do que já estava sendo.
Ser forçado a um casamento por mero orgulho e poder.
Não preciso deixá-los mais preocupados do que já estão. Esse fardo é só meu e eu irei carregá-lo em silêncio, afinal aceitei este casório e cumprirei minha parte do acordo mesmo contra minha vontade.
***
Expiro e inspiro profundamente tentando controlar as batidas exageradas do meu coração. Apesar da irritação que domina meus pensamentos quando os violinistas indicam a entrada da noiva, o nervosismo e a ansiedade toma conta de mim.
As portas da casa principal se abrem e a garota que eu nunca havia visto pessoalmente dá seus primeiros passos em direção ao altar disposto no vasto jardim das propriedades Voyaller.
Com um esplendoroso vestido branco a jovem caminha em meio as amarílis brancas e hortênsias azuis mescladas de rosa, enfileiradas em buquês, nos vasos que enfeitavam o caminho até o altar.
O corselet rendado bordado com pérolas, emolduram seus seios marcando suas curvas até a altura de sua cintura, onde o vestido cai em lindas camadas pesadas e cheias até seus pés. O buquê de flores sortidas chama ainda mais a atenção para seu corpo e confesso surpreender-me com a beleza daquela jovem.
O véu não tampava seu rosto, mas sua cabeça baixa e olhar fixo no chão impedia a visualização de sua face e, sinceramente, não lembro muito bem de como ela era, afinal, só havia visto uma única foto que não fiz muita questão de analisar na época.
Retiro aqueles pensamentos da cabeça vendo ela cada vez mais próxima do altar. A angústia forma um nó em minha garganta dificultando a passagem de ar para meus pulmões, mas continuo à tua espera com um sorriso forçado no rosto que disfarço da melhor forma possível, ainda assim, sentia-me ansioso e ao mesmo tempo irritado com meus próprios sentimentos.
Ansioso por finalmente conhecê-la e irritado pelo mesmo motivo.
Edgar guia a filha com um sorriso tão grande nos lábios que chega a ser irritante. Minha vontade era socar seu rosto até fazê-lo cuspir toda sua hipocrisia, afinal, ele era egoísta assim como meu pai, nos forçando a um casamento de aparências apenas para alavancar seu nome dentro da máfia com a nossa junção.
Quando ela finalmente chega próximo a mim -o que pareceu uma eternidade- desço do altar para recebê-la. Edgar para em frente à filha dando um beijo demorado em sua testa com todo aquele ritual ridículo de pai preocupado -o que de fato ele não era, pois se fosse não estaríamos aqui- logo em seguida entrega a mão de Jessye a mim.
Com cuidado seguro sua mão e surpreendo-me mais uma vez com sua beleza juvenil. Olhos castanhos claros marcados pela maquiagem suave, lábios cobertos por um batom rosado e bochechas levemente coradas. Pele tão alva que contrasta com o moreno natural da minha mão e seus cabelos loiros presos em um coque alto que segurava a delicada coroa de pedras a deixa ainda mais linda. Eu esperava alguém com aparência mais infantil, mas tudo isso só me faz odiá-la ainda mais e pelo seu olhar vejo que o sentimento é recíproco ou talvez eu esteja vendo o que quero que ela sinta.
Educadamente sorrio, pois não podia demonstrar sentimentos contrários em frente aos convidados e a imprensa dos dois países.
Sim, o casamento está sendo transmitido tanto na Itália, quanto na Espanha, afinal o peso do nosso sobrenome recai em nossas costas e Edgar quer elevar ainda mais os seus status sociais as nossas custas, afinal, querendo ou não, o Porto nos pertence e temos boa influência na maior parte do mundo por exportar e importar produtos legais, além dos ilegais. Já o Falcão, como é mais conhecido. Ingressou tarde demais no mercado social e isso dificulta encobrir seus rastros ilegais e aqui estamos nós, na mesma tecla do poder e, mesmo que isso beneficie as duas famílias, o único que de fato está ganhando holofotes é o meu irritante futuro sogro e sua família de merda.
O padre se ajeita à nossa frente e começa um discurso sobre fidelidade e amor. É tão engraçado ouvir aquilo que tenho vontade de rir. Não, rir não, eu queria mesmo era gargalhar, mas controlo tentando prestar atenção naquelas palavras vazias e desnecessárias.
Jessye ao meu lado, mantém uma postura ereta e olhos fixos no homem à nossa frente. Ela parecia tão concentrada que por um momento acreditei que aquilo fosse realmente importante para ela, mas esses pensamentos logo me deixam.
Seria impossível alguém preferir casar-se do que permanecer em seu país com sua família. Eu estava perdendo apenas minha liberdade. Já ela, mudaria de país, deixaria sua família e amigos para honrar o nome do pai.
A cada segundo que se passa minha mente distante ignora tudo o que o padre fala. Só sou puxado de volta à realidade quando meu nome é pronunciado no microfone.
-Jack Voyaller, você aceita Jessye Squared como sua legítima esposa, para amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe? -O padre aproxima o microfone da minha boca e sem titubear dou a minha resposta, pois um Voyaller não volta atrás de sua promessa.
- Sim. Eu aceito. -Deslizo a aliança no dedo de Jessye que permanece alheia a tudo que está acontecendo.
-Jessye Squared, você aceita Jack Voyaller como seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?
Aqueles olhos curiosos se voltam para mim com um pedido de socorro oculto na íris marejada. Eu não podia fazer nada, não podia ajudá-la, então apenas permaneço em silêncio esperando sua resposta e no mais íntimo do meu coração desejei que ela falasse não.
- Sim. Eu aceito. -Suas mãos trêmulas deslizam a aliança em meu dedo selando o símbolo de amor inexistente.
- Eu vos declaro marido e mulher, pode beijar a noiva.
Aquela frase nunca soou tão estranha e por incontáveis segundos nos encaramos sem nos mover.
Os olhos assustados de Jessye me analisam minuciosamente e sinto-me o lobo mal preste a atacar sua presa. Ela não toma a iniciativa e eu apenas não quero assustá-la, então permanecemos nos encarando enquanto os convidados nos olham confusos.
Por um momento desvio o meu olhar do dela e vejo Eva fazendo sinais com a mão para que eu prosseguisse. Não sairíamos dali sem o bendito beijo, então tomo a iniciativa dando um passo à frente e antes que ela possa recuar envolvo uma das minhas mãos em sua nuca e a outra em sua cintura puxando seu corpo contra o meu selando nossos lábios.
Seus lábios tocam o meu desajeitadamente, mas ela não recusa o beijo apenas segue o roteiro envolvendo nossos lábios de forma tímida.
Suas mãos pequenas se fecham em meu terno e quando afasto-me, um pouco sem fôlego por praticamente encenar um beijo por nós dois, seus olhos assustado encaram-me em desespero e naquele momento percebo que Jessye seria a quebra de todas as minhas regras, pois a inocência estampada naqueles olhos não podia ser real ou era exatamente isso que eu queria acreditar.
Jessye Squared
A imagem refletida no espelho é no mínimo deprimente e somada ao olhar brilhante e radiante da minha mãe só causa-me ainda mais repulsa e nojo.
Aquele vestido perfeitamente alinhado marcava cada uma das curvas que eu não tinha. Era pesado e as pérolas enroscadas no pano machucavam minha pele me causando uma leve coceira. A maquiagem suave deixava meu rosto mais fino, mas a realidade era que o meu rosto sempre foi oval.
Verena, minha irmã mais velha, sentada no sofá ao meu lado, olhava-me com inveja. Tamanha inveja que seus olhos castanhos idênticos aos meus fuzilam-me com ódio. Como se eu quisesse estar naquela posição. Eu daria tudo, trocaria tudo ou qualquer coisa para não ser obrigada a me casar hoje, tentei negociar com meu pai, prometi que iria para um convento, mas a resposta sempre foi a mesma, um grande não.
Eu seria obrigada a me casar com Jack Voyaller sem reclamações ou protestos. Se não teria a minha vida ainda mais restrita, como se ela já não fosse, nego com a cabeça observando a imagem cansada para uma garota de dezoito anos. As olheiras de noites em claro foram escondidas pela maquiagem, mas meus olhos não negavam meu desgosto e minha dor.
Eu não me sentia eu mesma, sentia-me uma boneca sendo controlada por meus pais da maneira que eles bem entendiam para manter suas vidas de luxo e o nome Squared no topo da Máfia e no auge da sociedade.
-Abra um sorriso garota, você irá se casar com um Voyaller. -Mayla, minha irmã do meio, rodeia sorridente. -Eles são símbolo de beleza e poder na Itália.
-Na Itália, Mayla? Por favor, quanta humildade da sua parte, eles são os donos do porto mais lindos do mundo, além de terem os nomes estampados nos maiores tabloides de vários países. -Verena desdenha e resmunga inconformada. -Onde mais você viu tamanha beleza, além daqueles velhos barrigudos e rabugentos. A família Voyaller é espetáculo e sejamos sinceras, eu odiava aquele pai deles, mas o velho caprichou.
- Não estou desmerecendo os espécimes masculinos mais quentes da história Verena, estou apenas tentando abrir os olhos da nossa irmã. Ela fisgou um peixe grande graças ao nosso pai e fica com essa cara de enterro. -Mayla suspira chateada. - Eu em seu lugar, agarraria a oportunidade e me afogaria naqueles mares azuis.
-Do que você está falando Mayla, eles podem ter o sobrenome rodando o mundo, mas raramente vemos fotos dos quatro imperadores.
-Quatro imperadores? -Questiono indignada.
- Ela nem sabe Verena. -Mayla balança a cabeça com descaso. -E você tem razão, raramente vemos fotos atuais deles, mas as antigas mostram aqueles incríveis olhos azuis que todos eles têm.
-Saiu nas capas das maiores revistas na última semana, eles estão sendo chamados de os quatro imperadores agora que Donatel morreu. -Mayla atualiza as fofocas que sou restrita a ver. -Pena que raramente conseguem uma foto desses homens, eles são como fantasmas, isso somente alavanca as especulações e teorias sobre eles. Eles são um verdadeiro mistério que eu amaria desvendar.
-Parem, vocês sabem que Jessye foi restrita a informações da família Voyaller e não adianta dizer isso a ela Mayla. Você sabe que Jessye nunca se importou com aparências. -Minha mãe diz enquanto termina de arrumar o véu em minha cabeça que insistia em ficar torto para direita.
Em silêncio tento manter o melhor sorriso em meu rosto, mas apenas permaneço em frente ao espelho encarando a deplorável imagem que ele refletia. A partir de hoje estarei casada e todos os meus sonhos seriam enterrados para viver uma vida que odiava. A vida que sempre desprezei, que sempre acreditei que não teria, a mesma vida da minha mãe, controlado por um mafioso que ditaria todos os seus passos e afazeres, sem livre arbítrio e sem voz.
Uma vida sem amor, sem felicidade e sem esperança. Seria obrigada a se deitar com um homem que nunca viu, seria forçada a amar um homem que odiava e preferia morrer a ter que viver tudo aquilo.
A porta do quarto se abre quebrando meus pensamentos e através do espelho pude ver meu pai com um sorriso tão grande que provavelmente doeriam suas bochechas mais tarde. Edgar era a pessoa que mais tiraria vantagem nesse casamento e para isso minha vida estava sendo sacrificada.
Meus olhos se enchem de lágrimas e mesmo que tento segura-las algumas rolaram por meu rosto borrando a maquiagem recém retocada. Rapidamente limpo os olhos e obrigo-me a caminhar em direção a porta.
-Amélia, você explicou tudo o que ela deve fazer? -Pela vigésima vez meu pai perguntou a minha mãe se ela havia passado a lista de como seriam as coisas.
-Sim Edgar. -Minha mãe diz arrumando a cauda do vestido que estava dobrada.
-Então vamos, não queremos deixar o Voyaller esperando por muito tempo. -Meu pai oferece o braço para mim e a minha única vontade é correr daquele lugar e desaparecer no mundo.
***
Quando as portas da mansão se abrem, minhas pernas parecem gelatinas e confesso que se não fosse meu pai ao meu lado cairia na frente de todos.
O aglomerado de convidados se levantando com a minha passagem causa-me agonia e desespero. Somente o fato de aproximar-me daquele altar faz meu coração bombardear meu peito de forma tão bruta que chega a doer.
Esse será meu primeiro contato com Jack Voyaller, eu nunca o havia visto pessoalmente e o medo de conhecer sua personalidade me assusta, afinal, o irmão dele, mas conhecido como o Dragão de Veneza, não era tão gentil. Lembro-me muito bem daqueles olhos impiedosos encarando-me com irá quando só queria alguns minutos de conversa com o meu provável futuro marido.
Eu sei que a família Voyaller não é conhecida por sua bondade e gentileza dentro do mundo da máfia e isso só me assusta ainda mais.
Procuro não olhar para os lados enquanto caminho, mantenho meu olhar baixo e foco apenas em trocar um pé de cada vez em direção àquele altar. Já meu pai não tinha como manter um sorriso maior se vangloriando do fato de que um Voyaller seria nosso aliado ou melhor dizendo a escada para o meu pai.
Quando paramos em frente ao altar meu pai beija minha testa e sinto que vou desmaiar, mas procuro manter-me firme não mostrando fraqueza para o homem que me esperava ao lado dos vasos de flores luxuosos e brilhantes com a mão estendida.
Jack Voyaller segura delicadamente minha mão, o toque suave me surpreende e quando ergo o olhar para o seu rosto sinto meu mundo desabar.
Como todos diziam, Jack é lindo, na verdade, eu não sei se lindo se encaixa naquela categoria, seus olhos incrivelmente azuis se fixam nos meus tão intensos e vivos que fazem minhas mãos suarem. Os cabelos negros penteados perfeitamente para trás o deixa com um ar mais sério e velho, mas era visível que sua alma jovem gritava por liberdade assim como a minha.
Ele odiava tudo aquilo e isso era mais do que visível em seus olhos por mais que ele tentasse transparecer calma e felicidade.
Coisas que nenhum de nós dois tínhamos no momento.
Procuro não focar minha mente em tudo o que se passa à minha volta, as palavras do padre a nossa frente eram irrelevantes para mim. Na verdade, eu não prestei atenção em exatamente uma vírgula que ele pregava, estava apenas concentrada em permanecer em pé e fingir felicidade.
Minha atenção só se volta para Jack quando o padre profere aquelas palavras desesperadoras. Na alegria e na tristeza? Na saúde e na doença? Tenho vontade de rir, pois não havia amor, não havia paixão e muito menos uma simples amizade, só havia aparência, poder e ódio naquela união como poderias jurar algo tão sagrado e nele como amor em meio a tanto caos e podridão?
Minha mente conturbada enlouquece meus pensamentos e no fundo da minha alma eu desejo que sua resposta seja não. Que ele me deixasse plantada ali e fosse embora, eu não importaria, não ligaria e o agradeceria pelo resto da minha vida, mas sua resposta rápida, certeira e direta baqueia-me de tal forma que por incontáveis segundos esqueço como respeitar enquanto encaro o homem à minha frente sem saber o que fazer.
O padre volta sua atenção para mim e quando vejo já estou aceitando aquela desesperado vida comprada.
O padre diz mais algumas coisas e a única coisa que consigo fazer é encarar o Voyaller atônita e quando menos espero sua mão envolve minha nuca puxando meu corpo contra o seu, seus lábios macios pressionam os meus em um beijo suave e lento e por um curto período de tempo senti-me segura em seus braços.
Segura de toda a dor que meus pais infligiam a mim para ser a garota perfeita.
Mas segurança é um sentimento ridículo, supérfluo e ilusório, ainda sim, bem lá no fundo, através daquele beijo desajeitado e esquisito, Jack Voyaller, acendeu uma pequena chama de esperança em meu coração e confesso que sentir um toque tão íntimo ao qual nunca havia tido com ninguém fez-me por um momento desejar mais, pois minha vida era extremamente controlada e isso fez-me querer viver um verdadeiro amor, um amor que nunca tive e acredito que nunca terei.
***
O restante da festa passou como um borrão, Jack fez seu papel e permaneceu ao meu lado a maior parte do tempo, saindo apenas em momentos realmente necessários, como quando a belíssima ruiva de olhos verdes o tirou para dançar e quando meu pai o chamou para terminar os contratos entre as duas máfias.
Fiz meu papel de noiva feliz e também se não fizesse minha mãe certamente arrancaria minhas tripas na frente de todos os convidados, pois eu bem conhecia aquele olhar pesado e irado destinado a mim.
Diferente das minhas irmãs que haviam crescido e se engraçado com empresários por toda a vida, acho que meu pai garantiu e preservou a caçula para tirar seus proveitos vendo que minhas duas irmãs só queriam curtição.
Encosto minha cabeça no banco do carro luxuosos esperando meu noivo se despedir dos irmãos e da ruiva estonteante que acompanhava um deles, pelo pouco que sei, ela é esposa do Dragão e confesso que seria a mulher mais feliz do universo se cresce com tamanha saúde igual ela, afinal era belíssima e dona de um sorriso verdadeiramente simpático e gentil.
Não tivemos tempo de conversar adequadamente, foi apenas cumprimentos e poucas palavras, afinal muitos convidados queriam parabenizar os noivos e em certo momento já sentia-me cansada de tanto fingimento não aguentando mais manter o sorriso forçado no rosto.
Assim que meu suposto marido ocupou seu lugar ao meu lado fechando a porta o motorista ocupou o seu lugar também.
De relance o vejo passar as mãos pelos cabelos e afrouxar a gravata borboleta soltando um pesado suspiro.
-Pode seguir para o meu apartamento Luigi. -Ordenou ao motorista que logo acelerou.
Não trocamos meia dúzia de palavras na festa e depois disso o silencio caiu sobre nós, o Voyaller ao meu lado permanece imparcial e quieto e faço mesmo voltando minha atenção para o vidro escuro do carro.
O espaço fechado e abafado começa a me deixar inquieta e mesmo tendo o ar-condicionado ligado sinto-me sufocada e desesperada.
Odeio lugares fechados.
Tento desviar os pensamentos.
Odeio com todas as minhas forças lugares fechados.
Aqueles pensamentos começam a assustar e quando vejo os olhos de Jack estão sobre mim analisando minha falta de sossego ao seu lado.
-Por favor poderia abrir os vidros, só um pouco, não gosto de lugares fechados. -Não escondo o desespero em minha voz.
Suas sobrancelhas se arqueiam e ele fecha os olhos soltando o ar com calma.
-Abra os vidros traseiros Luigi. -Ordena voltando sua atenção para a janela.
-Obrigada! -Agradeço por educação e encosto minha cabeça no banco de couro que cheirava a novo, sentindo o vento da noite bater contra meu rosto e os pesado cílios artificiais.
Uma paz preenche meu peito e seguimos em silêncio por todo o caminho, pois acredito que nem ele saiba o que dizer diante da nossa constrangedora situação.
Jessye Squared
Acordei com o chamado de Jack ao chegarmos em seu apartamento, a noite estava tão bela que dormi ao sentir o vento bater contra meu rosto e diferente do que pensei o apartamento de Jack é lindo.
A decoração é clara, com móveis planejados e bem organizados, um lugar aconchegante que ao meu ver era pequeno, mas para duas pessoas seria o suficiente. A cozinha moderna com moveis planejados, fica bem à frente da sala em um conceito aberto e uma grande ilha de centro separa os dois locais, ao lado as portas de vidro dava a vista de uma bela sacada com vista para cidade e na parte superior provavelmente seriam os quartos.
O apartamento, na verdade, é um Loft pequeno e bem aconchegante e eu gosto disso.
-Fique à vontade. –O Voyaller limita-se em dizer passando por mim enquanto desabotoa o terno.
Meu coração se acelera e sinto-me uma presa fácil. Seria o prato da noite para o homem que vem ignorando minha presença e sinceramente não sei como reagir a isso.
Não que eu fosse tão santa, já havia beijado alguns garotos e rolado mãos bobas, mas nunca cheguei aos finalmente com nenhum deles, afinal minha vida era minuciosamente controla por meus pais e as poucas escapadas que tive renderam-me claustrofobia.
Edgar não é tão gentil quando o assunto é desobediência.
-Suas roupas foram organizadas juntos às minhas no closet, temos apenas um quarto e um banheiro. –Desabotoa a camisa com calma.
Meus olhos correm rapidamente por seu corpo e constrangida abaixo o olhar. Meu coração bombardeia meu peito e permaneço estática sem saber o que fazer ou falar.
-Você está bem? –Ele se aproxima e dou um passo para trás assustada.
Jack recua erguendo as sobrancelhas com um olhar confuso.
-Bem... eu nunca... –Sinto minhas bochechas queimarem com a vergonha. –Eu nunca fiz nada assim antes, estou nervosa. –Confesso mais do que envergonhada e o vejo arregalar os olhos em espanto.
-Por de Deus, eu não vou tocar em você. –Eleva o tom. –E eu sei sobre esse fato, a sua virgindade foi algo exigido pelo idiota do meu pai. –Jack passa as mãos nos cabelos e sinto vontade de me jogar pela janela.
Minhas bochechas estavam tão quentes que acredito que a qualquer momento poderia hiperventilar e entrar em curto circuito ou simplesmente ter uma síncope bem no meio da sala tamanho constrangimento.
-Desculpe a indelicadeza. –Ele apoia a mão na testa. –Estou tão confuso quanto você Jessye. Não sei como agir, o que falar ou o que esperar, mas pode ficar tranquila, não tocarei em você dessa maneira sem o seu consentimento e acho que não tocarei nem com ele. –Murmura as últimas palavras pensativo.
Maneio a cabeça em concordância literalmente agradecida e extremamente envergonhada. Naquele momento a única coisa que eu queria era simplesmente sumir.
-Achei que seria necessário consumar o casamento, essas foram as ordens da minha mãe. –Confesso constrangida.
-Não sei como as coisas funcionam na Alemanha, mas aqui é diferente. Você está casada comigo, faz parte da minha família e seguirá as nossas e as minhas regras.
Um grande alívio percorre meu peito e sinto-me mais relaxada diante daquela confissão. Achei que eles seriam piores que meus pais, mas pelo visto estou completamente enganada e bem lá no fundinho gostei um pouquinho dele.
- Fique tranquila, sei que temos apenas um quarto e uma cama, dormirei no sofá, mas terei que usar o mesmo banheiro que você. –Ele confessa. –Talvez acabe comprando um apartamento maior se isso for um problema.
-Obrigada, mas eu gosto desse apartamento é aconchegante. –Agradeço.
-Então é isso, eu acho. –Ele franze o cenho analisando meu corpo. –Esperarei você tomar banho e se trocar para subir e fazer o mesmo, pode ficar tranquila, irei subir somente quando você descer. –Um pequeno sorriso surge em seus lábios.
-Você é gentil. –Confesso e vejo a surpresa em seus olhos.
Ele está visivelmente desconcertado com minhas palavras e no automático leva a mão para coçar a nunca permitindo que eu veja parte da tatuagem estampada em seu peito.
Não consigo visualizar direito, mas sabia que tinha a ver com máfia, eu também levava o brasão da família Squared nas costas, um falcão estampado entre as escápulas, leis a serem seguidas quando se completa dezoito anos.
-Não confunda gentileza com dever. –Balbucia incomodado.
Sem saber o que dizer apenas maneio a cabeça em concordância extremamente envergonha, antes que a situação fique ainda mais constrangedora corro para o andar de cima a procura do banheiro, erro a porta entrando no closet e volto minha atenção para o único local que sobrou.
Respiro profundamente ao trancar a porta e conferir se ela realmente estava trancada e sigo para o centro do banheiro na tentativa de retirar meu vestido.
Sabia que ele havia prometido não entrar e sei bem que não voltaria atrás de suas palavras, mas prefiro garantir deixando a porta bem trancada.
Observo-me no espelho e vejo minhas bochechas coradas devido as minhas palavras impensadas, mas de certo modo assusto com a maquiagem já derretida pedindo socorro.
O batom já não existia mais, os cílios postiços e volumosos do olho esquerdo estava meio torto e o delineado levemente borrado por coçar meus olhos mais do que deveria.
Meus Deus, isso é realmente vergonhoso, ele me viu assim e nem para fazer um leve gesto indicando a situação caótica.
Desfoco minha mente daquela situação e parto para a grande luta que seria desamarrar meus cabelos e retirar os três milhões de grampos escondidos entre os fios para segurar o penteado e a coroa. Depois de minutos finalmente consigo desprender meu cabelo e soltar os fios que caem em castas cacheadas e loiras, somente a parte de cima fica parecendo um ninho de pássaros devido à alta quantidade de laquê usado pelo cabeleireiro.
Suspiro pesadamente observando meu vestido e agradeço a Deus por finalmente poder tirar aquele pano insuportavelmente incomodo do meu corpo.
Tento alcançar o zíper atrás das minhas costas e sofro mais do que gostaria na tentativa falha de retirá-lo, tento todos os malabarismos possíveis, mas paro um momento para ofegar e recuperar o fôlego chegando à conclusão que morreria presa ali dentro.
Recusando a absurda ideia de cogitar a possibilidade de pedir ajuda ao Voyaller do andar de baixo, tenho a certeza que arrancaria aquela coisa do meu corpo nem se fosse na tesoura e depois de quase quebrar o braço finalmente desço o infeliz do zíper completamente cansada.
Vejo alguns pequenos arranhões e marcas vermelhas em minha cintura, bustos e costas pelo espelho bem a minha frente e sei que foram efeitos dos brilhantes e da renda, mas ignoro finalmente entrando embaixo da água morna que relaxa meu corpo instantaneamente.
***
Após um longo e demorado banho agradeço pela brilhante ideia da minha mãe de colocar um creme de pentear em minha mala. Jack tinha apenas shampoo e aquilo dificultou um pouco a minha situação, mas com o creme de pentear consegui domar a fera sobre a minha cabeça.
Termino de me trocar e desço as escadas vendo o Voyaller esparramado sobre o sofá com uma mão atrás da cabeça e a outra sobre o peito nu.
Mordo os lábios observando seu corpo mais do que deveria e noto sua respiração calma, o abdômen bem trabalhado e cheio de gominhos me surpreende, mas a camisa meio jogada sobre seu corpo tampa exatamente a tatuagem que eu queria ver.
Sempre ouvi muitas histórias sobre os quatro animais e a curiosidade de ver aquela tatuagem era maior do que eu. Aproximo-me um pouco mais e observo seu rosto sereno enquanto ele ressona calmamente com uma expressão de cansaço. Acredito que da mesma forma que não tenho dormido direito esses últimos dias ele vem passando pela mesma coisa.
Mordo os lábios mais fortemente ao voltar a analisar seu corpo e meus olhos se demora sobre a mão jogada em cima do abdômen, observo atentamente sua aliança e volto minha atenção para meus dedos soltando um pesado suspiro que faz ele se remexer.
Tampo a boca com as mãos e prendo a respiração fazendo um silêncio mortal com medo de que ele me pegue analisando minuciosamente seu corpo.
Jack é lindo, não tem como negar e entendo perfeitamente porque ele e seus irmãos são símbolo de beleza, sejamos sinceros, os homens sabem arrasar e puta merda o pai deles caprichou.
Aquele rosto esculpido e másculo coberto por uma leve barba marcante e bem aparada tiraria o fôlego de qualquer mulher, sem contar o tom intenso de azul daqueles olhos incríveis. Confesso que o homem não era de se jogar fora, mas eu nem devia estar aqui o analisando com tanto vigor.
Que merda acho que estou fazendo?
Para quem odiava o bonitão com unhas e dentes estar aqui toda embasbacada pela beleza dele não ajuda em nada meu estado crítico e lastimável, apesar de que agora ele é meu marido, suposto na verdade, não, de fato ele é meu marido, assinamos papéis e tudo mais, não há como negar, bem isso não vem ao caso, o fato é que posso admirar sua beleza o quanto eu quiser já que isso não fará diferença nenhuma e ele não precisa saber.
Jack se remexe mais uma vez e sei muito bem que o sono de pessoas como ele, que foi treinado para liderar e ser um dos melhores no que faz é leve. Até mesmo eu que não tenho a funções tão complexas fui treinada, imagino ele que nasceu homem e mesmo sendo o mais novo ainda leva grandes responsabilidades sobre os ombros.
Conheço bem o seu mundo, também vivo nele e as sobras às vezes não são a melhor opção. Controlar tamanho poder não é fácil e sei que meu casamento com ele lhe trouxe muitos outros problemas que lhe renderão noites sem dormir.
Tiro pelo meu pai, que apesar de não ser um homem gentil e tão presente, sempre fez o máximo que pode para demonstrar seu amor por mim e minhas irmãs, mas isso não foi o suficiente para salvá-las do caos que as tomaram, talvez por isso o pulso ainda mais firme comigo e tentativa de não deixar que eu me perca em meio ao poder e ódio que nos cercam.
Respiro profundamente cogitando a possibilidade de acordar o Voyaller a minha frente, penso nos prós e contras, mas ele dormia tão serenamente que opto por não lhe acordar, afinal, mal nos conhecemos e ainda sinto raiva dele.
Com esses pensamentos sigo para o quarto esparramando-me na grande cama de casal que leva um leve cheiro do seu perfume cítrico e levemente amadeirado.
Era uma fragrância maravilhosa que combinado com sua pele, deveria ter um cheiro mais marcante e especial, mas o leve cheiro sobre os lençóis indica que ele não vivia muito naquele apartamento o que me deixa com certa curiosidade para saber mais sobre sua vida pessoal, não que ela de fato me interessasse, mas bem lá fundinho eu queria de alguma forma me dar bem com ele, o que acho meio improvável e impossível de se acontecer.