Samantha Martinez
Doze anos antes...
Me chamo Samantha Martinez, primeiro preciso dizer que nasci com síndrome de Down, isso quer dizer que ocorreu uma alteração genética caracterizada pela presença de um cromossomo extra nas minhas células, enquanto estava sendo gerada.
Esta modificação genética afeta o desenvolvimento do indivíduo, determinando algumas características físicas e cognitivas. Ao contrário de muita gente, eu afirmo, a síndrome de Down não é uma doença, sei que ela me dá algumas características físicas típicas e algum tipo de deficiência intelectual em um certo grau, mas isso não é uma doença.
Talvez seja por causa disto que minha mãe queria me abortar, mas meu pai não permitiu. Meu pai me amou antes mesmo de ter nascido, agora minha mãe não queria me ter, porque ela me falava que tentou muitas vezes me arrancar de dentro dela e meu pai sempre estava vigiando-a para isso não acontecesse.
Vamos esquecer disso, o que importa é que sou Down e me acho normal. Vou ao fonoaudiólogo todos os dias para melhorar minha dicção e faço aulas de balé, viu?
Faço muitas coisas como uma criança normal.
Além de praticar esporte como toda criança, preciso ir ao médico sempre para ver se estou bem de saúde. Meu pai fica todo preocupado se eu apresentar sintomas de um simples resfriado. Lembro-me que quando era bem pequena sempre vivia doente e meu paizinho sempre cuidou de mim.
Agora vou falar de algumas pessoas que se tornou muito importante para a minha vida. Tenho 8 anos e estou perto de completar 9 anos de idade.
Meu pai e minha mãe se mudaram para uma cidade que se chama São Paulo, ele comprou uma casa enorme e eu simplesmente amei meu quarto que é ainda maior que o da minha casa antiga. Na Alemanha aprendi a falar português, além do alemão que é minha língua materna e sempre pratico com meu pai meu idioma materno para não esquecer a minha origem.
Eu gostei muito do Brasil, só que a minha mãe parece que não gostou nada. Na verdade, ela não gosta de nada e isso inclui a mim, que sou sua única filha só porque sou diferente. Ela sempre deixa isso bem claro quando fala que eu sou horrível e que não sou nenhuma princesa.
Por esse motivo eu nunca assisti um filme de princesa e nem deixava meu pai me chamar de princesa. Não gostava da cor rosa, apesar de na escola ver as meninas amarem essa cor, a diferença é que elas tinham uma mãe que gostavam delas.
Por pior que seja, digo que minha mãe me odeia.
Teve uma certa vez que minha mãe falou muita coisa para mim e me deu um tapa que senti queimar o local de tão forte que ela bateu, ela fez tudo isso quando meu pai não estava em casa, mas Eunice viu e me tirou de perto dela.
Pedi para Eunice não falar nada para o meu pai, senão ele iria brigar muito com minha mãe e eu não quero isso.
Quem sabe ela muda um dia e venha gostar de mim...
Este é o meu sonho, que minha mãe gostasse pelo menos um pouquinho de mim, mas isso nunca acontecia, o que me deixava bem triste. Ser rejeitada pela própria mãe é muito ruim e dói no fundo do meu coraçãozinho.
Um certo dia meu pai foi trabalhar e eu fiquei em casa com uma moça muito legal, que me tratou super bem. Depois de horas brincado e me contando histórias acabei dormindo. No dia seguinte, acabei acordando em um outro lugar e não tenho a mínima ideia de como vim parar aqui.
Olhei ao redor, vi meu pai dormindo e uma linda mulher negra me olhando. Sorri para ela, me levantei e fechei a porta para o meu papai não acordar.
A moça bonita me perguntou se eu queria tomar café e respondi que sim, pois estava morrendo de fome.
Ela ainda me perguntou se tinha algo que não podia comer e respondi que não. Depois disso ela me falou que seu nome era Hadiya e passei a chamá-la de tia Hadi, pois é mais fácil. Sabe, eu gostei muito dela, ainda mais quando ela me chamou de flor e meu amor.
Tia Hadi, é uma linda moça.
Apaixonei-me por ela.
Minha mãe nunca me chamou de meu amor, ela só me maltrata falando palavras que machucam dentro do meu coraçãozinho. Eu só tenho 8 anos e ela fala coisas feias para mim.
Será que todas as mães são assim como a minha?
Espero que não, pois crianças precisam de atenção e muito amor.
Foi tão bom conhecer e ficar um pouco com a tia Hadi.
Queria que minha mãe me tratasse como ela me tratou...
Comecei a estudar e lá conheci meus melhores amigos Patrícia, Bia e Jack. Tem o Thiago também, só que ele não estuda no mesmo colégio que eu. Ele é muito fofo e gostei dele de cara quando o conheci em um parque de diversão e descobri que ele é filho do tio Matheson.
Eu tenho quatro amigos maravilhosos e isso é ótimo, não é?
Ter amigos verdadeiros é muito importante.
Hoje eu tenho uma mãe que me ama.
Sim, eu tenho.
Tia Hadi, virou minha mãe.
Ela veio morar em casa e eu sabia que ela e meu pai estavam namorando. Eles acham que sou besta, mas vi os dois se beijando e fingia que nada via, pois estava feliz demais.
O tempo foi passando e aconteceu uma coisa muito estranha, minha mãe biológica uma vez apareceu na minha casa ou melhor no meu quarto falando que gostava de mim e depois desse dia ela foi embora e nunca mais vi Magda, minha mãe biológica.
Na verdade, não sinto falta da minha mãe biológica e Deus me perdoe por isso. Tentei fazê-la gostar de mim de todo jeito, mas ela nunca me aceitou do jeito que sou e não tinha mais o que fazer para Magda gostar de mim.
Só desejo que onde ela esteja seja pelo menos feliz, pois eu sou.
Sim, eu sou muito feliz!
Sou uma criança feliz e amada!
Não ligo mais para as pessoas de coração ruim que sempre me olham de forma estranha.
Sabe o mais importante na minha vida é sempre ter meus pais e meus amigos ao meu lado. O que mais importa para mim é a felicidade das pessoas que amo e amo muito minha mãe Hadiya, meu pai Kevin e os melhores amigos do mundo, os únicos no meu colégio que me receberam muito bem, já os outros sempre me olhavam de caras feias.
Essas crianças precisam ser educadas pelos pais e professores para aceitar qualquer tipo de pessoa. O preconceito começa dentro de casa pelos próprios pais que em vez de mandar seus filhos tratar todos bem, nos chama de doente. Se os adultos nos chamam de doentes, lógico que algumas crianças vão achar que temos problemas. O pai de Jack é um desses, tão diferente do filho que é um amor. Tive esses dias na casa dele e percebi como o homem me olhou. Jack me defende de tudo, inclusive de um menino que sempre fica enchendo meu saco pelo meu modo de falar ou pelo formato do meu rosto. Devo dizer que eu gosto muito do formato do meu rosto e não sei o motivo de tanta implicância.
Coisa maluca, viu?
Jack só falta bater nas outras crianças por mim.
Bia e Patrícia também me defendem muito, uma vez elas chegaram a bater em uma garota porque ela falou que eu era muito feia e tinha olhos puxados. Cheguei a falar que não precisavam fazer isso, mas elas disseram que amigas se defendem sempre.
Sou muito grata a Deus por ter uma família abençoada e amigos maravilhosos. Eu sou uma pessoa muito abençoada.
É bom demais ser amada!
Eu não tive o amor da minha mãe biológica, mas tenho o amor da minha mãe Hadi, do meu pai, da tia Lara, do tio Matheson, da minha querida avó Alabar...
Tenho o amor de muita gente e amo cada um deles...
Eu sou muito feliz e sempre espero ser assim.
Samantha Martinez
Dias atuais...
A vida é extremamente bela e maravilhosa! Tenho uma saúde de ferro, mesmo tendo síndrome de Down.
Amigos amados por mim, assim como sou amada por eles e uma família maravilhosa.
Amo a todos mais que tudo na vida!
Estou gostando muito de alguém só que ele não é um homem qualquer, ele é meu melhor amigo.
Ele é um ano mais velho que eu, tem um peito musculoso e barriga reta, além de ser forte e viril. Seu cabelo liso dá um charme e tanto nele. Realmente, meu amigo é uma tentação de tão lindo que é.
Estou com um grande problema ao pensar no Jack deste jeito e reparar naquele corpo.
Jesus Cristo, nunca pensei nisso...
Só que quando ele está aqui sem camiseta na piscina, eu não consigo tirar meus olhos dele.
Fico hipnotizada por aquele corpo e rosto lindo. Ele é branco, tem o cabelo castanho e os olhos verdes mais lindos que já vi na vida.
Para que tanta beleza em um homem só?
Ele é meu amigo, só meu amigo!
Desde sempre tenho que repetir isso a todo momento para ver se paro de pensar no meu amigo de forma diferente.
Não é possível isso!
Não posso amar meu querido e adorável amigo que conheço desde que tinha oito anos de idade.
O menino que esteve ao meu lado quando algo ruim aconteceu ou melhor meu pai me contou que foi alguma coisa que comi na época. Eu tinha nove anos de idade e quando acordei ele estava lá com seu sorriso doce na beirada da minha cama, segurando a minha mão.
As meninas também estavam no hospital comigo. Passei alguns dias internada por causa do alimento que me fez mal, sentia muita falta de ar e foi horrível. Pensei que fosse partir dessa para melhor, mas sou muito forte, estou aqui até hoje e espero estar por muitos anos.
Graças a Deus, deu tudo certo e eu não esqueço meus amigos que estão perto de mim em qualquer momento, mas Jack é especial e posso afirmar que estou completamente apaixonada por ele.
Meu pai não sabe que amo meu amigo e se ele sonhar com isso acho que ele me tranca dentro de casa. Meu pai acha que eu ainda sou uma criança.
Ele é muito protetor, ainda mais por eu ser Down e acho que ele sempre vai me tratar assim. Já a minha mãe sabe que amo o meu Jack, pois conto tudo para ela, afinal ela é minha melhor amiga.
Meu pai é muito ciumento e morre de ciúme de mim e de minha mãe. Eu nunca vi igual, ele falta morrer de tanto ciúme que sente da minha mãe.
O amor dos dois é o sentimento mais lindo que já vi na minha vida e olha que já tem muitos anos que os dois estão casados, mesmo assim o amor deles continua intacto e será sempre assim...
Isto é o que sempre desejo.
Minha mãe biológica está presa há muitos anos e só sei disso porque meus pais falaram. Eu nunca quis saber de nada dela, já que ela me odeia desde que nasci.
Minha mãe Hadiya é tão linda e tão amorosa!
Ela sim é a minha mãe.
Eu tenho síndrome de Down, mas sou perfeita e só o formato do meu rosto é diferente, mas eu me acho linda.
Amo os animais, meu irmão, meus amigos e o Jack. Sei que já falei isso, mas não me canso de repetir. Eu gosto do som que sai da minha boca ao falar que o amo loucamente. Amo o Jack tanto que até sinto uma coisa em todo o meu corpo só em pensar nele.
Sei que isso vocês já sabem e vão me ouvir falar muito sobre isso ainda. Sei inclusive que muitos devem pensar que uma pessoa down não pode amar alguém que seja perfeitamente lindo e normal.
Agora me digam...
Por que não posso se me acho tão normal como qualquer um?
Sei que existe muito preconceito com pessoas como eu.
Um dia quero me casar e ter filhos, mas aí já não sei se vou poder ter algum dia. Eu vou fazer o possível para ser mãe e ter uma linda e maravilhosa família. Eu sei que sou capaz de formar uma linda família e se for possível com meu grande e único amor.
Ainda não fui ao médico ainda saber sobre esse assunto, mas pesquisei e li uma reportagem sobre um rapaz que contava que tudo que ele aprendeu devido seu pai ter a síndrome.
O rapaz não tinha a síndrome e puxou geneticamente a sua mãe que também não possuía. Fiquei muito feliz quando vi a matéria desse homem falando todo orgulhoso sobre seu pai.
Viu, então posso ficar com meu amor tranquilamente, se uma mulher "normal" se casou com um homem com a síndrome, por que eu não posso ficar com meu Jack?
Às vezes gosto de pesquisar sobre a genética das pessoas com a síndrome. Pesquisar é sempre bom e acabamos aprendendo muito sobre nós mesmo.
A internet ajuda muito nas pesquisas e claro a minha curiosidade por assuntos relacionados a síndrome. Um dos assuntos que mais pesquiso é sobre expectativa de vida de pessoas como eu, afinal quero estar preparada para tudo.
Só porque sou uma mulher "especial" como muitos falam ao invés de falar deficiente e com muito orgulho, não significa que somos incapazes de algumas coisa. Mesmo com minhas limitações eu posso fazer tudo que quero, por isso digo e repito amo a minha vida e amo meu amigo.
Mesmo me tornando repetitiva afirmo que ele é lindo e muito fofo. Jack não sabe sobre meus sentimentos por ele, pois não tenho coragem de falar sobre isso com ele.
Sou muito tímida para falar sobre o que eu sinto, até porque e se ele não sentir o mesmo e deixar de ser meu amigo por causa desse sentimento. Não posso arriscar e perder sua amizade.
Jack é perfeito e sei que o pai dele não gosta de mim. Às vezes temos que fazer coisas da faculdade juntos, vou para a casa dele e percebo como o pai dele me olha com nojo como se eu tivesse uma doença contagiosa, já até o ouvi uma conversa entre o pai e meu amigo sobre ele não poder ter amizade com uma doente como eu, mas graças a Deus meu amigo nunca deu ouvido a ele.
Isto é um absurdo!
Sou Down, mas não sou louca e muito menos possuo algum do tipo de doença contagiosa.
Poxa vida, tem muito preconceito no mundo, sei disso através da minha mãe que já passou por muitas injustiças só pela sua cor, mas ela é a mulher mais forte do mundo.
Mesmo com tudo que passou na vida desde criança, trabalhando com apenas onze anos de idade ela é muito forte e alegre. Minha mãe é uma guerreira e a amo tanto como se eu tivesse nascido de dentro dela. Para mim, ela é e sempre será minha mãe biológica.
Estava me esquecendo tem outro ciumento na minha vida, o Kelly morre de ciúme de mim e da mamãe. Amo este pirralho de paixão que detesta quando o chamo de pirralho. Ele só tem dez anos, mas acha que é um homem.
- Mamãe cheguei.
Ela apareceu vindo da cozinha.
- Oi meu amor como foi a faculdade hoje?
- Foi ótimo mamãe como todos os dias.
E como está seu amigo Jack? Vamos chamá-lo esse sábado para almoçar, aqui com suas amigas e o Thiago, pois se não o chamar já sabe que ele fica com ciúme, assim como ele tem das pobres irmãs. Coitadas das minhas queridas quando virarem adolescentes. Engraçado que do Bernardo ele não tem... Pelo que vi na previsão do tempo será um dia de muito calor, assim vocês ficam na piscina - falou minha mãe com um sorriso no rosto.
- Mamãe não inventa... Jack e eu nunca vamos ficar juntos. Ele não gosta de mim dessa maneira. Tenho até a impressão de que ele está gostando de alguém da faculdade - falei triste. - É lógico que vou chamar o Thiago, você sabe que todos sempre estamos juntos. Ainda bem que Thiago conseguiu entrar na mesma faculdade que a nossa, assim não nos separamos. Eu amo estar sempre com meus amigos.
- Meu amor, não muda de assunto e nem fique triste. Olha eu acho que ele também gosta de você e vejo como ele é todo carinhoso com você. Lembra no meu almoço de comemoração há três anos, eu vi como ele te olhava, tenho certeza de que ele sente alguma coisa por você.
- Mamãe, acabei de falar que acho que ele está gostando de alguém, então pode esquecer. Ele não gosta de mim... Não como eu gosto dele... Ele só gosta de mim como amiga mesmo. - Falei triste.
Subi para o meu quarto para tomar um banho e ela não parava de falar. Essa minha mãe parece um cupido, fez que fez até tia Lara se casar com o tio Matheson. Minha mãe é uma romântica incorrigível e está sempre querendo ajudar a todos ao seu redor.
Ela ajuda meu pai na clínica dando aula de reforço para as crianças carentes que estão com dificuldade. Meu pai fez uma sala para ela dar suas aulas, ela ama aquelas crianças e as crianças amam minha mãe e meu pai.
As crianças conversam muito com eles e alguns contam que em suas casas não tem o que comer. Pensando nisso meus pais preparam todos os dias refeições para essas crianças, além da distribuição de cestas básicas. Inclusive fizeram uma matéria sobre a clínica com eles.
Esses dois são meu orgulho!
Minha mãe já tinha descido e já estava pronta para esperar meu pai que deve estar para chegar. Eu amo esperá-lo junto com minha mãe. Ele fica todo bobo e fala que ama ver a rainha e a princesa esperando por ele. Eu o espero desde pequena.
Quando minha mãe não está aqui espero os dois e Kelly fala que eu pareço uma criança ainda por fazer isso até hoje, mas quer saber eu sempre quero ser criança para poder esperar meu pai e minha mãe chegarem.
Meu pai me amou desde o ventre da minha mãe, mesmo quando soube que eu seria uma criança especial. Já a Magda logo quando soube já queria me abortar. Não entendo como uma mãe pode querer tirar um serzinho de dentro de si. Uma pessoa dessa não merece ser mãe.
Apesar que tem gente que precisa fazer isso, uma vez li na internet que uma mulher quando engravida depois de ter relação sexuais forçada, melhor dizendo sendo estuprada. Esta mulher sim pode optar pelo aborto.
Magda que saiu perdendo por não querer uma filha como eu ao seu lado.
Eu não sinto ódio de Magda não, minha mãe me ensinou a não guardar mágoa e muito menos rancor, por isso não tenho raiva dela. Foi ela que perdeu por não me querer como filha.
- Meu amor, você está em que mundo? Estou aqui falando com você e você não me ouviu. O que essa cabecinha está pensando? - Pergunta meu pai.
- Ah papai estava só pensando que eu tenho a melhor família do mundo.
- Ah minha linda e você é a melhor filha do mundo, tenho muito orgulho da garota que você se tornou.
- Papai eu não sou mais uma garota, já sou bem grandinha e tenho 20 anos de idade, sabia? Só preciso arrumar um namorado para tudo ficar melhor. - Falo só para deixá-lo louco.
Meu pai vai surtar se eu falar sobre namorado, olho para minha mãe e ela estava segurando a risada com a cara que meu pai fez. Eu também estava me segurando para não rir com a cara que os dois homens da minha vida fizeram. Kelly também não gostou muito do que falei.
Agora vê se pode, se for pelos dois vou ficar para titia para sempre.
- Você não vai namorar ninguém, viu dona Samantha? - Falou Kelly.
- Nem pensar nisso... Nunca! Você ainda está muito jovem para pensar em namoro, me ouviu minha filha? Se estiver pensando nisso pode esquecer, pois minha bebê não vai namorar ninguém. - Fala meu pai.
- Papai uma hora isso irá acontecer, então é melhor você se acostumar logo com essa ideia, me ouviu? Os dois homens da casa podem aceitar isso. Eu hein papai, sou uma mulher de 20 anos de idade.
Meu pai iria falar, mas minha mãe foi mais rápida.
- Vocês dois olham aqui, minha filha já é uma mulher, então os dois podem se acostumar com a ideia. Samantha pode aparecer com um namorado de repente por aqui. Ela pode namorar a hora que quiser e você meu amor não vai fazer nada, me ouviu Kevin? - Falou minha maravilhosa mãe que tanto amo.
- Eu não quero falar sobre isso e não quero ver minha filhinha com ninguém e pronto. Espero não ver tão cedo uma cena dessa. Que eu saiba você nem gosta de ninguém, pois se gostasse eu já estaria sabendo há tempos. Tenho amigos na sua faculdade Sam, então quando você estiver com alguém lá eu vou saber.
- Papai! Você colocou pessoas para me vigiar na faculdade foi? Eu não acredito nisso!
Dai-me paciência com meu pai!
Ele tem sorte que eu amo Jack e só quero namorar com ele. Já teve outros garotos querendo ficar comigo, mas nunca quis. Meu coração já tem dono, um certo moreno com os olhos verdes mais lindos que já vi na vida, na minha humilde opinião.
Já estou deitada na minha cama, só pensando nele...
No meu amor!
Como queria estar com ele agora, agarradinho, ouvindo uma música linda e bem romântica.
Droga, eu não paro de pensar no meu amigo!
Sabe, isso não é uma coisa que eu posso controlar...
Minha melhor amiga, a Bia, falou que eu tenho que ser rápida antes que ele arrume uma namorada e pensando bem é um milagre ele ainda não ter aparecido com uma namorada.
Já piro só de ver uma garota olhando para ele, imagina namorando. Não posso pensar nisso que já fico nervosa.
Será que se eu me declarar, ele vai me odiar?
Só tenho medo de perdê-lo para sempre ao falar o que sinto. Prefiro tê-lo como amigo do que o perder de vez ao me declarar.
Droga, isso é um saco!
Eu só queria ter a coragem da minha amiga Bia que se quiser ficar com um homem, ela chega e já vai logo falando que gosta dele. Agora se não quiser ela vai logo falando que tem um namorado que é louco por ela.
Sei que sou diferente e não sei se ele vai querer namorar alguém como eu. Eu me acho bonita, mas tem muitos que não acham e falam que sou feia, muito baixa, com o rosto com o formato feio e meus olhos puxados são ridículos. Eu deixo esses comentários de mau gosto para lá.
Esse povo não pensa para falar e acaba só falando bobagens, inclusive tem umas garotas que falam que não sabem como um homem como o Jack anda para cima e para baixo comigo. São todas umas sem noção que não sabem o que falam e ficam inventando motivos para falar que sou horrível.
Eu não sou horrível, eu sou linda!
Quero ir à boate do meu pai, mas ele não deixa de jeito nenhum eu ir. Só que eu vou e ele que me desculpe. Ele tem que saber que já sou uma mulher e preciso sair para me divertir em outro ambiente.
Ele não me deixa sair para lugar nenhum que não seja faculdade ou casa de amigos, fala que eu sou muito nova. Agora vê se pode, já sou de maior e ele acha que sou uma criança ainda.
Acho que vou chamar meus amigos da faculdade para ir a famosa boate do meu pai e do tio Matheson. Aposto que quando me ver irão surtar. Já com Thiago eles não ligam se estiver lá e não posso de jeito nenhum falar nada que lá vem o sermão, o Thiago já é um homem e sabe se proteger e eu não, pois sou muito inocente e blá blá blá...
Lembro-me de uma vez que estava na piscina com minha mãe e tia Lara e perguntei quando poderia ir à boate e ela falou que apenas com 30 anos. Quando completei 20 anos, conversei com ela e ela me deixou ir.
Agora é convencer meu pai, essa é a parte mais difícil da história. Eu sei que sou adulta e não precisa pedir e tal, mas gosto de obedecer aos meus pais. Só preciso descobrir como fazer para o meu pai perceber que já sou adulta e que posso sim me proteger sozinha.
Ele tem que me deixar fazer as coisas, não pode ficar querendo me proteger para sempre. Preciso começar a sair e ver o mundo para poder crescer cada vez mais na vida.
Além da escola só posso ir para um grupo de apoio a pessoas com síndrome de Down e já percebi que lá os outros passam pelo mesmo que eu, ou seja, os pais não os deixam fazer nada sozinho e com toda essa proteção não crescem e criam asas para voar. Sei que tem alguns que precisam de mais cuidados que outros, é saber as limitações e tentar.
Se os pais não confiarem respeitando as limitações essas pessoas nunca irão crescer.
Caramba, somos down e não doentes!
Agora imagina se um dia falar que estou namorando meu Jack, meu pai vai surtar, pois ele tem ciúme do meu amigo desde que éramos criança. Vai ser um problemão o pai dele me odeia só porque tenho síndrome e agora me diga o qual o problema de eu ser down.
Gente, por favor, será que até quando esse povo vai ter maldade e preconceito nos seus corações?
Quero um mundo melhor e se um dia tiver filhos quero que o mundo esteja melhor para receber meu filho e não cheio de maldade e preconceito de todo tipo.
Ainda tem tantas pessoas que olham torto para a minha mãe quando saímos juntas. Eu a chamo de mamãe e sabe qual é o motivo pelo qual eles olham para nós?
Não é porque tenho síndrome, mas sim porque minha mãe é negra e eu branca e ruiva de olhos azuis.
Dá vontade de ser grossa com todos, mas se eu quero um mundo melhor tenho que ignorar esse povo ignorante. Só espero mesmo um dia esse preconceito mudar ou melhor acabar e que o ser humano tenha mais humanidade e amor dentro de si.
Que a hipocrisia acabe!
Eu tinha uma amiga e ela era bem legal comigo, mas um dia a ouvia falar coisas muito feias sobre mim e ainda falou que só falava comigo porque tinha pena de mim. Só não sei pena de que, já que não preciso da pena de ninguém.
Minha avó paterna nunca quis me conhecer, pelo que soube ela é pior do que minha mãe.
Já minha avó materna ainda de vez em quando me liga. Pelo que escuto dos meus pais, minha avó paterna não mudou em nada seu preconceito e só piorou por meu pai estar casado com a com a minha mãe que é negra e ainda foi empregada dela.
Foi nessa época que meu pai conheceu minha mãe, se apaixonaram e minha avó separou os dois.
Isto tudo é um absurdo...
Minha avó era muito ruim e ainda é. Agora minhas tias são ótimas e elas se dá muito bem com minha mãe e com minha avó Alabar. Somos uma família muito feliz, deixamos o preconceito de lado e vivemos nossas vidas a cada dia com muito amor.