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Joca: O dono do Morro

Joca: O dono do Morro

Autor:: Rutiéle Alós
Gênero: Romance
Joca é o dono do moro. Ninguém ousa o desafiar ou contrariar. Ele é durão e não se esquiva de qualquer obstáculo. Ele o derruba! Vitória cresceu em um lar acolhedor. Tirada de sua família aos sete anos, por maus tratos. Hoje com seus dezoito, se via obrigada a sair do lar. Sem ter para onde ir, com apenas um pouco de dinheiro dado a ela, procura um lar no morro do Joca. Ela é uma menina jovem, e sonhadora. Com seus olhos grandes e inocentes encanta por onde passa. E não será diferente em uma das maiores favelas da cidade onde mora. Joca a quer. E não há o que o faça desistir. E ele a terá! Nem que precise prendê-la para isso! Vitória resistirá as investidas dele? Ninguém resiste...

Capítulo 1 Joca

Joca

Acordo cedo todos os dias. Desde a morte do meu pai, há cerca de 5 anos atrás, tomei seu lugar como o dono do morro. Meu pai era o Joca. João Carlos Alves da Silva. Agora eu sou o Joca. João Carlos Alves da Silva Júnior. Amigos próximos e família, me chamam de Juninho, mas pra maioria sou o Joca, o dono do morro.

Moro sozinho, na parte mais alta, de onde consigo ver tudo do morro. Tenho meus parceiros, a quem confio, e lhes entrego minha vida, assim como me entregam as deles. Aqui é nós por nós sempre!

Tenho uma personalidade forte, por vezes faço coisas das quais me arrependo depois. Mas não dá para evitar, e depois, não adianta chorar o leite derramado.

Minha mãe e meu pai morreram juntos. No mesmo dia.

Minha vida foi difícil, meu pai batia em minha mãe, e ela sempre o aceitava de volta. Me ensinou a amá-lo independente da relação deles, que era assim, por escolha de ambos.

Ele cresceu no morro, quando ainda era só mato, como costumava dizer. Foi fortalecendo o pessoal, protegendo as casas, e quando viu, já eram conhecidos como o Morro do Joca. Ele colocava ordem nessa bagaça. Não tinha quem batesse de frente com ele. O morro cresceu, se desenvolveu e não tinha muitas escolhas, além do caminho que tomou. O pessoal era pobre, precisava de comida. Começaram com roubos pequenos, e quando viram, eram um dos maiores traficantes da região. Meu pai fazia de tudo, era armas, drogas, mulheres.

Cresci rodeado de armas, fuzis, e drogas. Aprendi que não podia usar, ou viraria refém daquilo, e nunca confiariam em mim. Dessa forma, nunca nem mesmo provei daquilo que vendia. Surgiram outros morros nas redondezas, mas nenhum era tão grande e organizado como o nosso.

Organizávamos festas todos os finais de semana. As festas começavam nas sextas a tardinha, e se iam até domingo de manhã. Era a única bagunça permitida. Se descuidasse, não dava mais conta.

Vinhamos em tempos calmos. A polícia não entrava aqui há cinco anos, desde o dia em que mataram meu pai e minha mãe. Ele era o alvo, mas ela se jogou na frente, o que não adiantou, pois logo em seguida o abateram também. Mas foi queima de arquivo, ele sabia demais. E os corruptos, não queriam que ele abrisse a boca.

Depois disso, eu dominei. E minha vida era por ordem aqui, e planejar uma vingança descente a minha família.

Hoje cuido como posso de minha irmã, e seu filho, de apenas 7 anos. Ela foi vítima de estupro em um morro próximo, em uma festa que foi. Desse infortúnio, nasceu Cauã, um garotinho loiro de olhos verdes. Era a cara do pai, que não viveu para ver o moleque nascer. Era tratado com muito amor, afinal não tinha culpa do que aconteceu. Era a vida de Camila. Assim, era a minha também. Moravam alguns barracos a baixo, próximo a uma escola de educação infantil que tinha ali. Facilitava para Camila ir trabalhar de manhã cedo. Ela optou por mudar de vida. Disse que trabalharia e sairia dali. Não a julgo, e a apoio, apenas não é para mim. Ela trabalha como auxiliar de dentista, enquanto termina o curso, que será logo. Ela já planeja, assim que conseguir um trabalho fixo, sair do morro. Me entristece não tê-la perto sempre, mas é pelo melhor do pequeno Cauã. A vida aqui é difícil, e não é exemplo para ninguém.

Quem vive aqui, não é por opção, todos queriam viver a beira da praia ou na serra. Ninguém quer ser morador de uma favela, com casinhas amontoadas, internet falhando, ou água faltando. Fora quando dá as enxurradas e as casas deslizam morro a baixo. Anos de trabalho e esforço se indo com o barro. Mas eu nasci para estar aqui, para ajudar quem está por perto, e fortalecer nossos irmãos.

Saio do barraco e encontro Douglas, meu melhor amigo. A quem confio as madrugadas do lado de fora com mais um 5 pelo menos. - E aí D2. - O apelido dele é o D do nome, mas o 2 porque ele quis, disse que era mais emocionante ter um número no nome. Já que ele quis, quem sou eu, pra constestar? Dali todo mundo se denomida com números e letras, melhor que nomes e codinomes.

- Bom dia Joca! - Ele limpa o nariz.

- Que isso, cara?

- Gripe, meu irmão, gripe. - Ele segura um espirro.

- No verão?

- Qual é? Gripe é um vírus, dá em qualquer época do ano, estudou não?

- Ih... qual foi a da madruga?

- Chegou gente nova no morro. - Odeio gente nova, tenho que repassar todas as regras e deixar avisados de tudo, e ainda sempre dá incomodação.

- Mas que horas chegou?

- Por volta das três da manhã.

- Há! Gente boa não deve ser, para estar na rua essa horas.

- Olha, pelo que me passaram, boa ela é. - D2 ri, segurando outro espirro.

- Eita nóis! Vai tomar um paracetamol, meu!

- Tá, escuta. É uma garota. Está na casa de dona Ivone, ela está fazendo a triagem da garota. - Olho as horas, 7 da manhã.

- Desde as três?

- Ah, a garota chegou chorando, foi duas horas para acalmar, mas uma comendo, parecia que não comia há dias, e daí que começaram a conversar.

- Deviam ter me chamado! - Pego meu fuzil e coloco no ombro.

- Olha, até pensei, mas uma garota sozinha, com uma mochila, não apresentava tanto risco. Decidi esperar amanhecer.

- É, no mais, deve estar procurando abrigo.

- O V13, tem peça pra alugar, caso ela precise. - V13 é o Vagner, estudamos juntos, é de confiança nosso.

- Vou ver com ele, e já passo para maluca. - Coço a nuca. - Ela chegou sozinha?

- Sim!

- Mas é maluca mesmo. Essa hora da madrugada, podiam ter pego ela.

- Pois é, parece que o salsicha que achou ela, na beira no morro desesperada. - Salsicha é jovem, com seus 19 anos, não se assume, mas todos sabem que é gay. Salsicha ganhou esse apelido, porque quando criança ele só comia salsicha, sua mãe quase enlouqueceu todos do morro, com medo que o menino fosse morrer de só comer salsicha.

- Sorte dela que foi ele então. - Faço sinal para que ele organize a troca de turno e desço, com dois dos meus de fé no encalço. Jerônimo, conhecido como J1 e Pierre, chamado P9. - Bora ver qual é a da garota chorona.

- Pelo que mandaram é uma gata. - J1 fala lambendo os beiços e dou risada.

- De gata nós entendemos né. - Debocho com ele.

- Amanhã tem festa né?

- Sim, já convoquei os pagodeiro pra tocar.

- Irrá, amanhã tem, ainda mais com a gatinha nova...

- Nada de drogar a menina, nem sabemos quem é. - Interrompo ele que revira os olhos. Eles tem a mania de drogar as mina e levá-las para a cama. Depois me incomodo, com os pais, não gosto disso. Se quer comer a garota, come com ela consciente.

Capítulo 2 Vitória

Vitória

Hoje o dia amanheceu feliz, é o meu aniversário de 18 anos. O sol está brilhando lá fora, e o meu peito está explodindo de felicidade.

- Vitória Cardoso, hoje você se torna uma mulher. - Uma das responsáveis pelo Lar São Franscisco diz enquanto me entrega flores.

- Ai, Ciça, estou tão animada.

- Eu tenho certeza que será uma etapa linda da sua vida. - Cecília foi quem me recebeu, há 9 anos atrás, quando eu chegava no lar. Fui tirada de minha família por maus tratos. Tenho marcas na pele e na alma, de tudo que vi e passei. Mas isso nunca me abalou. Cheguei ali e todos me acolheram, não tinha uma pessoa lá dentro daquele lar que não fosse meu amigo.

- Vocês foram as melhores pessoas que apareceram em minha vida. - Abraço a mulher negra a minha frente.

- Pois eu digo, em nome de todos, que você foi a melhor pessoa que já conhecemos. - Todos aplaudem e me dão cartinhas, que significam muito mais que presentes caros. Era o nosso jeito de presentear, já que não tínhamos dinheiro.

Terminei a escola ano passado, sempre fui muito estudiosa, e o lar nos apoiava e incentivava. Lamentava não ter tido outros cursos, pois agora, eu teria de começar em qualquer emprego, já que não tinha nenhuma experiência ou curso específico. Mas não importa! Hoje minha vida começa pra valer!

Me despedi de cada um dos que ficavam. Prometemos nos reencontrar e manter contato. O coordenador me chamou.

- Então como se sente, Vih?

- Não sinto nada diferente ainda. - Sorrio animada. - Mal me contenho por essa vida que tanto falamos.

- Bem, hoje eu te digo, que está liberada de nossas asas. - Sinto um aperto no peito, em meio a alegria, e deixo algumas lágrimas caírem.

- Sentirei tanta saudade.

- Vem aqui! - Ele me abraça forte. Lembrando-me da garotinha assustada e machucada que eu era, quando cheguei ali. - Nós também sentiremos. - Ele volta para o lugar atrás de sua mesa, e mexe em uma gaveta tirando um envelope. - Todo afilhado que sai de nossa casa, ganha um valor, para iniciar a vida. - Ele me estende o envelope e pego-o, olhando dentro e contando que tem mais de mil reais.

- Mas é muito dinheiro! - Digo impressionada, e o vejo sorrir terno.

- Isso não durará dois meses pequena. Use com sabedoria.

- Sim, senhor! - Me levanto pronta para abraçá-lo novamente. Ele funga. - O que foi seu Nelson?

- Desde que você chegou, esse lar não foi mais o mesmo. Você ilumina tudo por onde passa. - Desabo, finalmente entendendo que aquilo é uma despedida.

- Eu posso vir para visitá-los, não posso? - Pergunto já sentindo saudades.

- Claro que pode, menina. - Ele me dá um tapinha na cabeça. - Agora voe nosso passarinho.

Saio com minha mochila nas costas. Contendo algumas mudas de roupas, uma manta que mantenho desde a época que fui tirada de casa. Era de minha irmãzinha, que assim como eu sofria maus tratos, mas ela não sobreviveu para contar história.

Pego um ônibus, e rumo a cidade ao lado. Era maior e mais movimentada. Me indicaram ir para lá, e encontrar um lugar para morar. Podia ser pequeno e simples. Apenas para não ficar na rua, e assim buscar um emprego. Para então, buscar me especializar em algo e me tornar uma grande mulher.

A viagem não demora mais que uma hora. Desço na rodoviária e começo andar pelas pessoas. Já está na hora do almoço. Passo em uma lancheria e peço um pastel e um suco de laranja. Depois continuo minha exploração pela cidade. Já é quase noite, quando decido buscar um lugar para ficar. E que erro! Devia ter começado mais cedo. Não há nada, tudo muito caro, ou duvidoso.

Segui caminhando, até me aproximar de uma pensão. Entrei e sorri para o rapaz da recepção.

- Olá, boa noite!

- Olá, jovem moça. - O rapaz me sorri e ele é tão bonito. Os olhos verdes parecem espelhar sua alma, bondosa e alegre.

- Vocês tem quartos disponíveis? - Questiono animada.

- Claro! - Ele mexe em seu computador. - Temos 3 disponíveis, pode escolher o que melhor lhe satisfazer, 300 reais a semana.

- Ótimo! - Quase grito. Isso era bom, não estava encontrando por menos de 700,00 e isso era um absurdo. Tiro minha mochila das costas e procuro minha bolsinha, onde guardei o dinheiro. Remexo, remexo, até que coloco a mochila no chão, e começo a tirar tudo para fora. Droga, droga, onde estava?

- Não tem dinheiro...? - O homem pergunta em um tom de voz estranho. Ergo os olhos e sinto que lágrimas querem sair.

- Eu- eu tenho... mas não estou achando. - Volto a remexer a mochila.

- Bem... se não tiver... - Olho-o esperançosa. - Pode me pagar de outra maneira...

- Que maneira? - Pergunto estranhando a cara dele.

- Ah você, sabe...

- Não sei, não! - Me levanto, fechando a minha mochila.

- Com sexo. - Ele diz descarado e ergue as sobrancelhas, enquanto eu abro a boca, é como um tapa na minha cara.

- Está louco?

- Então dá o fora! - Ele franze o cenho e grita, deixando todo aquele ar feliz e bondoso para trás, trazendo somente revolta e ódio.

Saio dali quase correndo. Ando até uma praça e procuro novamente. Não era possível! Será que eu havia sido roubada? Volto o caminho, olhando para o chão, vai que eu tivesse perdido no caminho.

Nada, em lugar nenhum, nada. O desespero toma conta de mim, sigo sem rumo, por uma estrada que daria sabe-se la Deus onde. Será que eu conseguiria voltar a pé para o lar? Já passava da meia noite. A escuridão e o medo começaram a me atingir.

Aumentei o ritmo dos passos, e quando dei por mim, estava em meio a uma rua escura, ao lado de um matagal. Eu podia sentir o perigo comigo, estava esperando um carro vir, fechar minha boca e me levar. Seria estuprada e abusada, depois seria obrigada a carregar drogas no estômago e morreria na fronteira de algum país.

Era o meu fim! Me sentei na beira da calçada e aguardei por meu destino fatídico e certo. O choro vinha como uma enxurrada de lágrimas. Estava com fome, sozinha, e com medo. Abracei meu próprio corpo e lembrei dos meus amigos do lar, de como ficariam ao saber que eu havia sido vítima das estatísticas...?

- Ei! - Levanto-me em um salto. Não posso deixar me levarem assim tão fácil, tenho que lutar!

- Eu sei karatê! - Grito para o rapaz que se aproxima.

- Calma, está tudo bem com você? - Vejo que ele carrega uma bicicleta.

- Sim, por quê?

- Porque está aos berros, as 3 da manhã na beira de uma rua escura e perigosa...? - Ele diz quase me fazendo rir da loucura em que me vejo.

- Ah! - Olho para ele, e mal enxergo o seu rosto.

- Me chamo Edgar e você? - Ele aparenta ter a minha idade, pela voz e o modo de se comportar, parece um pouco malandro também. Mas pra quem está com o pé na cova, o que custa conversar?

- Vitória.

- Bonito nome, Vitória. O que faz aqui sozinha?

Resumo a história aos berros para ele, que está sentado ao meu lado no chão agora, com uma mão em meu ombro.

- Vamos fazer o seguinte. Eu moro aqui perto, conheço pessoas que podem te ajudar.

- Sério? - Meu peito dispara.

- Sério, garota! Agora vamos, que estamos brincando com a sorte. - Diz ele olhando para os lados.

Caminho a seu lado, enquanto ele empurra a bicicleta, pouco mais de dez minutos chegamos a uma entrada, com um grande carreiro, onde casinhas se insinuam. Subimos por mais uns minutos, então tomo coragem.

- Onde estamos?

- Morro do Joca.

- Não conheço... - Penso que já ouvi falar desses morros, rola muita droga, crimes e prostituição, mas também tinham pessoas boas, que ajudavam umas as outras. Recomeço a chorar.

- O que foi Vitória? - Vejo Edgar me olhar compadecido, pelas fracas luzes das ruas e vielas.

- Só estou triste, em como o dia do meu aniversário terminou.

- Dezoitou, garota, deixa disso. Aqui é legal, logo você acha um trabalho e se recupera dessa rasteira da vida.

- Qual é Salsicha? - Dois homens armados aparecem e quase me mijo nas calças, ergo os braços e fecho os olhos.

- Não me matem por favor, eu recém fiz 18, eu preciso viver... - Não sei dizer o que disseram, mas Edgar cochichou com eles, e nos encaminharam até uma casa próxima.

Uma senhora aparentando ter um 60 anos abriu a porta, de camisola e descabelada.

- Essas horas? - Ela brada com os homens armados.

- Dona Ivone, a garota precisa de ajuda. - Sinto minhas pernas amolecerem e me prosto de joelhos, agradecendo a Deus por essa oportunidade de vida. A mulher me junta do chão e me leva para dentro da casa.

Ela me serve um chá, enquanto choro e conto partes da minha vida, que nem mesmo eu lembrava. Ela me abraça e me convence a tomar um banho. Quando saio do pequeno banheiro, ela me serve de café com leite, pão e rosquinhas doce.

- Já está amanhecendo, é melhor você descansar um pouco. Depois resolvemos, onde você pode ficar, e como fará para pagar e achar um emprego.

- Obrigada dona Ivone, a senhora e o Edgar são uns anjos mandados por Deus para me ajudar! - Me abraço a ela, enquanto ela alisa minhas costas.

- Melhor chamar ele de Salsicha.

- Salsicha? Do ScoobDoo? - A mulher ri.

- Não, porque ele amava comer salsichas. - Franzo o cenho.

- Ele me disse que se chamava Edgar.

- Tudo bem, minha jovem, agora durma um pouco.

Pego a matinha de minha irmãzinha e me encolho no sofá de dois lugares. Estava exausta mesmo. Nem devo ter demorado dois minutos, peguei no sono.

Capítulo 3 Primeiro encontro

Joca

Chego em frente ao barraco de dona Ivone e bato na porta, não espero nem dois minutos ela surge.

- E aí, ... - Mal começo a falar a mulher me interrompe, me pedindo silêncio.

- Não grita! Acabei de fazer a menina dormir! - Ela me diz fazendo uma cara feia. Espio para dentro da casa, e ela me dá espaço para ver. Vejo uma garota deitada, encolhida em seu pequeno sofá.

- Cobriu a menina nesse calorão? - Pergunto vendo-a coberta com uma mantinha, aparentemente de criança.

- Ela mesma que se cobriu. - Dona Ivone me diz, olhando com ternura para a garota.

- Descobriu quem é ela? - Pergunto desviando o olhar.

- Se chama, Vitória. - A mulher suspira compadecida, e sei que é mais uma com a vida ferrada. - Cresceu em um lar para crianças retiradas dos pais, ou órfãos. Ela chegou lá com 7 anos, tirada dos pais, por maus tratos.

- Eita...

- Ontem foi o aniversário de 18 anos dela. Foi roubada, não tinha para onde ir, e Salsicha a encontrou chorando na beira da estrada, ali perto do matão.

- Situação complicada. - Coço a nuca. - Vou fazer uns corre, antes do almoço, lá pelo meio dia, venho falar com ela.

- Está bem, a chamo um pouco antes, para te esperar.

- Fechou, obrigado, dona Ivone.

- Juízo, meu filho. - A senhora de por volta dos 60 anos me diz, dando um tapinha em meu ombro. Aceno e saio.

- Gurizada, tenho que checar umas mercadorias. Vou pegar minha moto, me sigam! - Os caras concordam e seguimos para o nosso trabalho de todo dia.

Somos bem divididos e organizados aqui. Eu sou o "Dono" mas também gosto de estar por dentro de tudo, sou considerado o gerente geral também, administro o tráfico geral, de drogas, sendo as principais, cocaína e maconha, e armas. Também temos um esquema com roubo de carros. Mas só de luxo. Não roubamos de pobres. Somos estilo Robin Hood, sem a parte de dar aos pobre. Até dividimos um pouco, ajudamos aqui e ali, mas sabem como é, não dá pra dar demais, ou ficam mal acostumados.

Caco, é o gerente do Branco, responsável apenas pela parte do tráfico de cocaína no morro. Cereja, é o gerente do Preto, responsável pelo tráfico de maconha no morro.

Jacu é o responsável pelo armamento do morro, é tipo um subgerente. É meu de confiança.

Como soldados temos vários. Todos estão sempre bem armados, e instruídos a se manter atentos. Eles são quem dão o sangue se necessário por todos nós. Faço o que posso pelos meus soldados. Só admito acima de 18 anos. Não pego criança. Primeiro por respeito aos pais, que desejam que os filhos menores ainda tenham uma chance de vida melhor, depois porque são distraídos e sem preparo. Depois dos 18, brotou aqui, treinamos e botamos pra dentro. Quanto mais melhor!

O Clau, é o vapor, vende drogas aqui dentro da boca. Junão, é o avião, vende para quem vem comprar de fora.

Olheiros temos vários também, fazemos revezamento, e são os que vigiam as entradas principais do morro, e avisam à toda rede, por meio de rádio comunicador, se tem polícia ou inimigos chegando. E os empacotadores ou enroladores, são os responsáveis por embalar as drogas.

Tenho um contador direto que trabalha comigo, porque se não, não dou conta sozinho, é o Roberto. Ele não usa codinome, e nem mora no morro. Mas confio em seu trabalho e índole. Ele gera as planilhas e pagamentos, claro que nada sem antes passar por mim.

A grana varia de semana pra semana, mas difícil acontecer de receber menos de 50 mil semanais. Pagamos os caras, o que não chega a metade disso, e o resto é meu. Eu poderia facilmente sai daqui e viver de luxo, só comandando. Mas eu gosto da adrenalina. Gosto de ver o medo nos olhos dos outros quando me veem, do respeito que demonstram. Fora, que daqui consigo ajudar os mais necessitados. Não me considero bandido, talvez um anti-herói. Aqui a vida é o que é. Alguém precisa manter a casa de pé, e segurar as pontas. E eu faço isso com maestria. Assim giro a renda da favela, e ninguém aqui passa fome. Pelo menos isso, consigo garantir!

- E aí, Gardene!

- E aí, Joca! - Gardene parece que está sempre de mau humor.

- O que tem pra mim hoje?

- Primeira qualidade, chegou essa madruga... - Ele abre as malas que estão a seus pés.

- De onde veio?

- Bolívia.

- Hummm. - Faço sinal para um dos meus, que passa o dedo e lambe o pó.

- Dos bons.

- Fechou, então! Faz a nota e te mando o pix. - Sinalizo para o Caco, que finaliza a compra. Saio da sala de serviço, e subo na minha moto, Yamaha R6, black, não sou de ferro também, né, preciso de um luxo.

Mantenho uma sala só para recebimentos, depois passam para o interior do morro, nas salas mais acima. Assim ninguém, além de quem trabalha comigo diretamente, sabe onde estão as armas, e drogas.

Subo para o meu barraco e Juliana, minha empregada, já está ajeitando a casa.

- O café tá feito?

- Sim, na cozinha, com pão fresquinho. - Ela me responde com um sorriso simples no rosto. Contratei Juliana já faz 3 anos. É uma mulher vivida, com seus 35 anos, já fez de tudo. Desde ser estagiária em loja, até prostituta. A vida não foi fácil com ela.

Ela limpa aqui em casa, e finge que não vê nada do que acontece. Pago um bom salário, e ela consegue manter a educação e boa vida de seus 4 filhos, mesmo sem um pai para eles.

- Valeu! - Faço um certo para ela e vou para a cozinha comer. Aqui em casa mesmo, pouca coisa acontece. Mantenho a sala de serviço para recebimentos, mais algumas salas escondidas e disfarçadas pelo morro, onde embalam, retiram, enviam e por aí vai. Aqui mesmo, só ficam os meus soldados confiáveis, para conversas e festinhas particulares. Entre eles o D2, o V13, o J1, e o P9. De resto, os caras que separam os soldados e organizam as escalas. E os subgerentes, Caco, Cereja e Jacu. O Clau e o Junão também vem, mas, mais por amizade. Roberto vem só uma vez por semana, e olhe lá. Por vezes trabalha Home Oficce. É chique o homem! Nunca participa de nossas festas ou bailes.

- Fiquei sabendo que chegou uma garota nova no morro. - Juliana chama minha atenção.

- Ahaam. - Respondo já pegando um pão e mordendo.

- Disseram que é muito bonita. - Paro de mastigar e a encaro de cenho franzido. Juliana nunca é muito de papo, estranho seu interesse.

- E daí? - Vejo-a engolindo seco. - Qual foi, Ju? - Largo minha xícara de café preto, forte e amargo, como eu gosto, e fixo meus olhos nela.

- Sabe o que é...

- Hummm? - Já começo a me irritar com essa mulher!

- P9 disse que quase babou quando viu ela.

- Qual é Juliana? - Falo sério com ela. - Onde quer chegar?

- Tem baile amanhã, os caras vão cair matando em cima dela...

- E eu com isso? - Pego meu café de novo, antes que esfrie, porque pelo jeito, Juliana bateu com a cabeça hoje de manhã.

- Salsicha falou que ela só tem 18, saiu de um orfanato.

- Mas caramba, hein! Tão fofoqueiros nesse morro. Pelo amor de Deus! nem falei com a garota, nem sei se ela ficará aqui, e já tão fazendo o mapa astral da guria.

- Eu só queria pedir que ficasse de olho. - Franzo o cenho.

- Na menina?

- É, e nesses seus caras aí... - Ela vira o rosto falando.

- Vomita logo, já to pensando em te demitir Juliana. - Ele me olha de olhos arregalados. E fico feliz, afinal ainda tenho respeito nessa joça.

- Ouvi eles falando em boa noite cinderela. Um de cada vez, virar ela do avesso... - Reviro os olhos, mas sei que Juliana sofreu muito na vida de prostituição, e hoje tenta salvar quem pode desse caminho.

- Pode deixar, ficarei de olho e avisarei ela, para não aceitar bebida, nem comida de ninguém.

- Obrigada, chefe. - Ela sorri e volta ao seu habitual silêncio e serviço. Balanço a cabeça. Ela podia ter me economizado, falando o que queria de uma vez.

Termino o café, e desço o morro, chegando 11:30 na casa de dona Ivone. As redondezas estavam calmas, está até me sobrando tempo, para chegar adiantado. Bato na porta e dona Ivone me olha atravessado.

- Vai dizer que ainda está dormindo?

- Não, está no banheiro, acabei de acordá-la. Você disse que viria meio dia.

- Pois é, mas já cheguei. - Entro no barraco dela e me jogo no sofá. - Inclusive... - Fungo o aroma de suas panelas no fogão. - Vou ficar para almoçar. - Vejo a senhora sorrir de lado. Ela me amava, eu sabia disso.

- Vou cuidar das panelas, então. Seja simpático! - Mando um beijo para ela, e ela sai feliz. Uma das poucas que não tem medo de mim, e me trata como um filho. Ouço o barulho da porta do banheiro ranger e viro-me de costas, pra direção de onde viria a garota e que merda... merda... merda... merda...

Ela é linda, bem mais que linda, maravilhosa, deusa, gostosa... Deve ter 1,60 de altura, cabelos longos e ondulados, até quase a cintura, o corpo esculpido a mão, porque não era possível! Os seios empinados, a cintura mais fina e as pernas torneadas.

Vestia um vestido rosa, que ia até o meio da coxa. Mas o que mais me destruiu foram os olhos. Grandes, tristes e amendoados. Lembravam o mel escorrendo de um favo, brilhante e jovial. Os cílios longos davam um ar de inocência a ela, que explicava o morro estar em alvoroço com a sua chegada.

- Joca! - Levanto-me e estendo a mão para a garota assustada.

- Morro do Joca? - Ela fala com a voz baixa e suave, e meu pau acorda, ao ouvi-la dizer meu nome.

- Meu morro no caso. - Dou o meu melhor sorriso, e ela da um sorriso sem mostrar os dentes, e aparecem duas covinhas em suas bochechas. E por um milagre consigo engolir minha própria saliva, prestes a escorrer pelos cantos da boca.

- Vitória. - Ela pega a minha mão que estava estendida a ela.

- Bonito nome.

- Obrigada. - Ela fica me olhando e demoro para reagir.

- Bem, sente-se. - Indico o sofá, onde estava agora pouco. - Precisamos conversar um pouco. - Vejo-a caminhar encolhida até o sofá e sentar-se. Sento-me a seu lado e a encaro. - O que faz aqui? - Vejo os olhos dela marejarem, mas ela engole o choro.

- Eu saí do Lar São Francisco, ontem pela manhã.

- Longe pra caramba! - Deixo escapar.

- Vim de ônibus, até a cidade, e acho que fui roubada, então comecei a andar, e quando me dei conta, estava no meio do nada...

- E Salsicha te encontrou... - Completo sabendo bastante da história já.

- É... - Ela baixa os olhos. - Não tenho para onde ir. Não queria ter de voltar para o Lar. Eles confiaram em mim, me deram dinheiro, e... - Vejo-a engolir o choro novamente.

- Tudo bem, pode ficar aqui no morro. Vou te passar as regras, e consigo um mês fiado em um barraco para você até encontrar emprego.

- Sério, Joca? - Ela me pergunta, e sinto que vou mijar nas calças.

- Seríssimo. - Digo com os olhos grudado nos dela. E para minha imensa surpresa, ela pula em cima de mim. Em um abraço de urso. Daqueles que quase sufocam. Seguro em sua cintura e meu corpo estremece. Essa garota vai ter que ser minha!

Explano minhas mãos em suas costas e a aperto em meus braços, afundando o rosto em seu pescoço, sentindo o cheiro suave de seus cabelos.

- Obrigada! - Ela se afasta, com um enorme sorriso nos lábios. E que lábios, meus amigos... que lábios! As covinhas no sorriso eram um chame extra. - Ai, meu Deuszinho, obrigada! - Ela junta as mãos e olha para cima. - Achei que ontem mesmo seria o meu fim. - Solto uma risada.

- Você ainda tem muito para viver, Vitória. - Digo seu nome de maneira sensual, e vejo os olhos dela brilharem. - Amanhã tem baile aqui no morro. Te convido a ficar no camarote comigo, para conhecer o pessoal.

- Baile.. - Ela morde o lábio inferior, e por Deus, eu vou agarrar essa mulher! - Daqueles em que as mulheres usam mini saias, e rola drogas e bebidas, e todo tipo de baixarias? - Mordo a língua para não rir.

- Mais ou menos por aí.

- Humm... - Ela parece pensar. - Se o seu Nelson, ou Cecília descobrirem, me matam! - Não aguento e solto uma risada, chamando sua atenção.

- Agora você é adulta, ninguém te proíbe de nada gata.

- É, mas minha mãe era usuária de drogas, meu pai alcóolatra, a chance de eu ser viciada em algo é grande, então nunca vou me arriscar a usar nada. - Ela me diz como se estivesse oferecendo a ela.

- Eu também não uso. Nunca. - Digo sério, fisgado por seus olhos grandes.

- Então ok. Eu vou. - Ela sorri, e se nesse momento, se Ivone não entrasse nos chamando para o almoço, eu a teria agarrado!

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