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Jogo do amor: Uma babá quase perfeita

Jogo do amor: Uma babá quase perfeita

Autor:: Érica Christiehh
Gênero: Aventura
Gustavo Henri, um famoso jogador de futebol, tinha acabado de flagrar a sua mulher o traindo com o seu produtor na mansão onde eles moravam. Saindo às pressas de casa para não cometer uma loucura, ele provoca um grave acidente, quando atropela Kara, e não presta socorro a ela. Mas o que Gustavo não sabia é que em menos de vinte e quatro horas sua vida mudaria completamente. Por outro lado, Kara Jimenez jamais se esqueceria daquele momento, até o dia em que arruma um emprego de babá e descobre que o seu patrão será Gustavo, o jogador soberbo que ela admirou um dia.

Capítulo 1 Capitulo 001

Gustavo Henri

Eu havia esquecido minhas chuteiras da sorte em casa e já estava alguns quilômetros longe, quando fiz o retorno. Eu não estava disposto a jogar aquela noite sem o meu amuleto da sorte e embora eu soubesse que chegaria ao treino atrasado, voltei para casa.

Quando estacionei o carro avistei um veículo estranho na porta da minha mansão. Me questionei se a Bruna, minha esposa, estaria recebendo visitas. Bem provável que não. Ainda assim não dei muita importância. Subi as escadas rapidamente, enquanto ouvia risos, vindo da suíte, e quando abri a porta, me deparei com os olhos de Bruna arregalados, como se tivesse visto um fantasma.

Ela pulou da cama, puxando os lençóis e cobrindo sua nudez, enquanto Donovan se erguia, ficando frente a frente comigo.

- Gustavo – a voz dela estava tremula – o que você está fazendo aqui?

Cerrei os punhos, mas não tentei acalmar meus nervos. As coisas ficaram ainda pior quando vi minha filha dormindo tranquilamente, no mesmo quarto que a minha mulher me traia.

- E então é isso que você anda fazendo enquanto eu saio para trabalhar? – eu percebi o quanto ela ficou assustada com a minha última palavra, quando começou a caminhar na minha direção, eu avancei em Donovan.

Bruna tentou me impedir, Donovan levantou os braços e gaguejou alguma coisa a qual eu não dei importância, quando percebi já havia batido no rosto dele e a cena daquela bunda branca caindo no chão foi a única coisa que eu jamais me esqueceria.

- Eu posso explicar – agora Bruna chorava e tentava a todo custo me segurar – eu juro por Deus, Gustavo, essa é a primeira vez que aconteceu.

- Como se uma vez já não bastasse – eu estremeci com o pensamento de que ela estava mentindo – você não tem respeito nem mesmo pela nossa filha recém-nascida.

- Me perdoa – o choro dela se intensificou, mas as suas lagrimas me causavam nojo.

Eu não a respondi, caminhei até o closet avistando minhas chuteiras, enquanto Bruna corria desesperada atrás de mim. Ela gesticulava com a voz embargada, mas eu fingia que não escutava. O único som que eu ouvia era as batidas frenéticas do meu coração e minha respiração pesada, a qual eu já não conseguia controlar.

Eu precisava sair dali imediatamente, antes que eu cometesse uma loucura. Quando sai do closet, me deparei com Donovan, agora de pé e vestido, parado na minha frente. Eu acertei precisamente o rosto dele e o sangue escorrendo do seu rosto me encheu de satisfação.

- Vamos conversar, Gustavo – ele dizia, com uma expressão assustada.

- Saia da minha casa imediatamente – eu o segurei pelo colarinho da velha camisa e o arrastei para fora do meu quarto – eu não tenho mais nada para conversar com você. Está demitido.

- Demitido? – ele vinha correndo atrás de mim enquanto eu descia as escadas – e quem vai cuidar da sua carreira de jogador de futebol?

- Eu contrato outro – a cada palavra meus passos ficavam mais intensos. Se eu ficasse só mais um minuto ali, eu acabaria com a vida daquele homem – há dezenas de outros empresários nessa cidade loucos para trabalhar para mim.

Eu assenti. Donovan sabia de tudo. Ele sabia que eu não estaria em casa naquele dia porque havia um jogo importante. Tinha em mãos toda a minha rotina. Frequentava a minha casa como um amigo, era o meu empresário, o homem que cuidava da minha carreira, e embora fosse um homem mais velho e casado, eu jamais imaginei que ele me trairia dessa forma.

A dor dilacerava meu coração. Olhei para a Bruna pela última vez antes de entrar no carro e dizer a ela.

- Quando eu voltar, não quero mais vê-la na minha casa – ela avançou para cima do carro – arrume suas coisas e vá imediatamente embora daqui.

- Por favor, Gustavo, vamos conversar – eu fechei o vidro do carro e liguei o motor saindo em disparada dali.

Não olhei pelo retrovisor, não suportaria ver a minha história ficando para trás. Eu engoli em seco, enquanto um nó se formava na minha garganta. Uma lagrima escorreu pelos meus olhos, mas eu a limpei e impedi que outra fosse derramada. Eu amava aquela mulher e jurei que ao seu lado eu formaria uma família.

Agora nada mais importava. Acelerei o veículo e gritei. Coloquei para fora toda a minha dor e angústia e prometi que partir daquele momento eu seria fiel apenas ao meu trabalho.

Certamente fiquei cego pelo ódio. Eu já estava em frente ao centro de treinamento, quando me dei conta que o portão estava aberto. Eu estava pronto para entrar quando o meu carro se chocou com alguma coisa. O barulho estrondoso da frenagem do carro, me assustou e lançou meu corpo para frente. Fiquei tonto e sem entender o que havia acontecido.

Quando desci do veículo, vi uma mulher de joelhos no chão. Eu mal conseguia ver o seu rosto. Ela se levantou com dificuldade enquanto a raiva me consumia. Olhei no relógio e eu estava meia hora atrasado. Caminhei em direção a ela e agarrei o seu braço sem nenhuma cerimônia.

- Você não olha por onde anda? – ela tirou os fios de cabelo do rosto e olhou para mim, enquanto um gemido de dor escapulia pelos seus lábios.

- O quê? – eu a soltei em um acesso de raiva, enquanto a garota olhava, com os olhos arregalados para mim.

- Não tenho tempo para isso – caminhei de volta para o veículo pronto para sair dali – saia da minha frente imediatamente.

Eu não me importei se ela estava ferida ou se eu podia tê-la matado. Eu tentava escapar da confusão da minha vida e não queria me envolver em outra.

- Não tem tempo? – Ela caminhou mancando na minha direção segurando na porta do carro – você me atropela e depois diz que não tem tempo?

Eu olhei nos olhos furiosos dela. Eles tinham um brilho inigualável e a voz dela, embora a alterada soasse doce aos meus ouvidos, eu a ignorei completamente.

- Olha, menina, estou tendo um dia bem ruim hoje. Eu agradeceria se você não piorasse as coisas.

- Ele teve um dia ruim! – um sorriso debochado surgiu em seus lábios – e quem paga por isso sou eu?

Franzi a testa com o modo irônico como ela agia comigo. Abaixei o olhar e vi o joelho dela sangrando. Peguei a carteira no banco do passageiro e retirei algumas notas de dentro.

- Você quer dinheiro para o táxi? - segurando as notas, estiquei o braço, jogando o dinheiro no rosto dela – está aqui. Pegue-o e desapareça da minha frente.

Eu entrei no carro, observando-a olhar para o dinheiro no chão, com uma expressão de horror no rosto. Liguei o veículo e sai dali. Quando entrei no centro de treinamento, olhei pelo retrovisor. A garota parecia paralisada. Continuava no mesmo lugar. Mas eu não tinha mais tempo para sentir culpa por aquilo, sai do veículo e fingi que nada havia acontecido.

Capítulo 2 Capitulo 002

Kara Jimenez

Já havia se passado cinco minutos desde que o Gustavo entrou no carro e partiu, ainda assim eu continuava parada no mesmo lugar, olhando para o dinheiro que ele fez questão de jogar no meu rosto.

Eu abaixei com dificuldade para pegar o dinheiro que o vento quase levou embora. Depois da humilhação que ele me fez passar e das feridas nos meus dois joelhos, pagar um táxi era o mínimo que ele poderia fazer.

Me ergui e olhei para dentro do centro de treinamento. Os meus joelhos nem se comparavam ao meu coração estraçalhado. Gustavo não estava mais ali, me provando que ele não havia se importado com os ferimentos que causou em mim.

Um suspiro longo e profundo escapou dos meus pulmões quando me lembrei o quanto eu o admirava antes mesmo de o conhecer. Embora a sede do clube estivesse vazia, eu sabia que os imperadores fariam um jogo importante naquela noite, e eu queria estar ali para passar eles toda a minha energia positiva.

Acho que estou exagerando um pouco, na verdade, eu vim parar aqui por pura casualidade do destino. Sai de casa às escondidas após comer um pedaço de torta que eu sabia que não deveria comer, e para não ouvir os gritos da minha mãe me avisando que as coisas que o Sebastian comprava eu não devia tocar, eu saí antes que ela chegasse.

Peguei um ônibus até o centro da cidade e quando eu avistei o centro de treinamento, não conseguir evitar. Conhecer aquele time de futebol era o meu grande sonho. Eu passava noites imaginando o dia em que eu conheceria o Gustavo Henri e pediria a ele um autógrafo.

Mas as palavras despudoras dele foi como uma desilusão sobre a minha cabeça. A julgar pelas atitudes estupidas dele, era obvio eu havia me iludido demais com aquele rosto bonito.

Soltei um grunhido quando dei um passo à frente. Sentia tanta dor que não conseguia fazer nada além de chorar em silêncio. Se eu tivesse ficado em casa nada disso teria acontecido, eu só suportaria as delongas da minha mãe, defendendo o seu marido abusador. Por outro lado, se minha blusa não tivesse ficado presa no arame da cerca e eu não tivesse a puxado com força e perdido o equilíbrio, certamente não teria sido atropelada.

Olhei para minha blusa rasgada e percebi que eu só estava tentando arrumar uma desculpa para o meu fracasso. Peguei meu velho celular do bolso e chamei um motorista por aplicativo.

Embora eu não tivesse morrido, eu me sentia como se tivesse prestes a ser enterrada viva. Sai do carro quase não suportando a dor e a demora no atendimento só piorava ainda mais minha situação. Senti o tempo se arrastando como uma eternidade, até finalmente eu ser atendida.

Com os dois joelhos enfaixados e andando com bastante dificuldade, eu saí do hospital com a certeza que não queria voltar para casa naquele dia. Também pensei em uma pessoa de muito bom coração chamada Rosa. Ela era a vizinha que sempre me salvava quando eu estava em apuros, e eu tinha certeza de que ela não me negaria ajuda naquele momento tão difícil. Meia hora mais tarde ela já estava ali, dirigindo seu carro velho que caia aos pedaços. Tinha um semblante preocupado quando me avistou.

- Como isso foi acontecer, menina? – me ajudou a sentar no banco e eu só respondi quando ela também entrou no veículo.

- Eu fui atropelada – disse, com um nó se formando em minha garganta – por um jogador de futebol.

Rosa arregalou os olhos abismada com o que eu contava. Parecia absorver minhas palavras e sua preocupação se intensificou.

- Quando sua mãe souber disso – meu coração congelou com as palavras dela.

- Por favor, Rosa, deixe-me dormi na sua casa essa noite – juntei as duas mãos, implorando por mais um favor – eu comi uma torta vencida do Sebastian que estava na geladeira. Imagine a confusão que isso dará.

- Sua mãe continua proibindo você de comer as coisas que aquele homem compra? – perguntou com uma expressão de ódio no rosto – alguma coisa precisa ser feita contra isso, menina.

- E será feita, Rosa – disse e ainda que parecesse que eu estava animada, eu não tinha ideia do que fazer – mas antes eu preciso descansar. Você entende, não é?

- Como eu não entenderia? – disse Rosa – afinal, quem era o tal jogador de futebol que causou todo esse acidente?

A pergunta dela fez meu coração congelar. Me lembrei então do belo rosto do Gustavo cheio de ira, quando olhava para mim. Eu já não conseguia vê-lo como antes. Agora ele parecia ser um homem cruel, arrogante e mesquinho. Eu realmente esperava nunca mais encontrá-lo em minha vida.

- Ele não é ninguém – as sensações ao falar dele eram desconfortavelmente avassaladoras – ele é um jogador qualquer, ninguém o conhece.

Rosa ficou confusa com a minha resposta. Me observou por alguns segundos e percebeu certamente o quanto eu não queria falar mais daquele assunto. Deu de ombros e voltou sua atenção a estrada.

Quinze minutos depois chegamos a sua casa. Observei a minha residência de longe, todas as luzes estavam apagadas. Olhei para a tela do meu celular, não havia nenhuma ligação da minha mãe. Eu sabia o que isso significava, eu estava encrencada.

Deixei um bilhete na cama da Rosa agradecendo o seu afeto comigo e sai antes do sol nascer completamente. Caminhei com dificuldade até o portão da minha casa. Eu tinha chaves extras e tentei fazer o menor barulho possível para não acordar ninguém.

Meus esforços foram em vão. Assim que entrei pela porta, aquela voz surgiu logo atrás de mim. Em meus olhos, uma breve pontada de horror se revelou.

- Com quem você passou a noite, vadia? – o meu coração quase parou com a voz de Sebastian

Eu me virei para olhá-lo, mal conseguia ver o seu rosto com a pouca luminosidade da casa, mas percebi que ele se aproximava, chegando bem perto de mim.

- O que eu faço da minha vida, não o interessa.

Eu o vi apertar os punhos e com a outra mão agarrar o meu rosto, segurando minhas bochechas com os dedos.

- Se você mora na minha casa, me interessa sim – me soltou com brutalidade e eu tive que me esforçar bastante para me manter de pé.

Eu gemi de dor. Ele observou meus joelhos enfaixados, quando a luz da sala foi acessa.

- O que está acontecendo aqui? – Minha mãe olhava para mim com horror.

- A vadia da sua filha dormiu fora de casa, Celeste – apontava o dedo no meu rosto – além e ter roubado a minha torta, ela acha que pode chegar na minha casa a hora que bem-quiser.

- Eu não roubei a sua torta – meus olhos lacrimejaram e eu levantei a voz para respondê-lo – e eu sou maior de idade, não me lembro ter que dar satisfação a você.

- Não trate o Sebastian dessa maneira, Kara – algo sinistro brilhou nos olhos da minha mãe. Era claro que ela defenderia o marido inescrupuloso – diga logo onde você passou a noite e o que aconteceu com os seus joelhos.

- Eu fui atropelada – mas não havia comoção nenhum no rosto dela ao ouvir minha confissão - eu estava no centro de treinamento dos imperadores quando tudo aconteceu.

Minha mãe não conseguiu ocultar o desgosto em seu rosto ao me ouvir confessar aquilo.

- Você deveria estar arrumando um emprego – o rosto do meu padrasto escureceu ao falar comigo – ao invés disso fica atrás de jogador de futebol. Nenhum deles vai querer alguém tão desprezível como você.

Ele não tinha o direito de ser tão insolente assim comigo. Tive vontade de pular no pescoço dele e esganá-lo. Contudo, foi a presença da minha irmã mais nova, que correu para me abraçar, que me impediu de cometer uma grande loucura.

- A senhora não vai dizer nada mãe? – mas ela virou as costas para mim deixando claro o lado que iria ficar – vai deixar esse verme ofender a sua filha?

- O Sebastian tem razão – ela deu de ombros e eu não deveria me magoar pela atitude da minha mãe, mas ela aumentou o buraco que havia em meu coração.

- Quer saber de uma coisa – ele sacudia o dedo na direção e eu percebi que ele planejava algo – isso acaba agora mesmo. Como você mesmo disse, já é de maior e certamente consegue se cuidar sozinha.

- O quê? – observei o Sebastian caminhando na minha direção e com um único gesto me agarrar pelo braço me arrastando para fora – o que você acha que está fazendo?

- Expulsando você da minha casa – eu apenas ouvir o ranger do portão, quando fui lançada com força contra o asfalto gelado.

Meus joelhos arderam com o impacto. Aquilo não podia estar acontecendo. Ergui o rosto lentamente, agora encharcado pelas lagrimas e olhei nos olhos da minha mãe. O que realmente estraçalhou o meu coração foi ver Olivia, minha irmã, chorando e chamando pelo meu nome.

Os olhos de Celeste eram frios e sem compaixão.

- Mãe, eu não tenho para onde ir – eu mal vi o momento em que Sebastian saiu dali e só voltou com minhas roupas em um saco de lixo – por favor, mãe, não permita que ele faça isso.

Mas minhas súplicas foram em vão. Eu apenas vi minha mãe virar as costas para mim, agarrando na pequena mão de Olivia, antes do portão se fechar. Agora eu olhava para o portão bem fechado, sentindo-me completamente entorpecida.

Eu não vi o momento em que Rosa me alcançou em seus braços e me levou de volta para a sua casa. Ela tentava me consolar, enquanto eu me sentia perdida, sem saber o que fazer da minha vida.

Capítulo 3 Capitulo 003

No ritmo do jogo, corri na direção do gol, só eu e o goleiro, e chutei, vendo a bola passar distante. Ouvi a voz do preparador físico gritar de longe o meu nome.

- Hoje você está muito distraído, Gustavo. Precisa se concentrar mais – Deu um leve tapa nas minhas costas e se afastou novamente.

Estávamos apenas no aquecimento e todos já haviam percebido que algo estranho acontecia comigo. Os torcedores logo perceberiam também, quando eu, o artilheiro do time falhasse no jogo que valeria a nossa vaga para final. Eu tentava não pensar nisso, esvaziar a mente e me focar no real objetivo daquela noite, mas todas às vezes que eu buscava um caminho diferente, minha mente me levava de volta à cena em que minha mulher estava me traindo.

- Droga! – esbravejei, quando senti a presença do Allan logo atrás de mim.

- Está de mau-humor porque foi punido pelo atraso, ou por que errou aquele chute no gol?

- Um pouco dos dois – menti, mas eu sabia que o Allan não acreditaria naquilo – o dia está bem ruim hoje.

- O que aconteceu? – ele jogou a toalha ensopada de suor em cima de mim e eu pensei se deveria contar toda a verdade a ele – eu sei que não está distraído só por isso.

Suspirei quando Allan lançou o olhar até mim, ficando ainda mais intrigado. Se eu contasse tudo a ele naquele momento, perderia o foco completamente, meu peito se encheria de angústia e raiva e perderíamos o jogo. A última coisa que eu queria agora era prejudicar o time devido aos meus problemas pessoais.

- Quando o jogo acabar e vencermos, eu contarei tudo a você – forcei um sorriso, jogando a toalha de volta – agora eu só quero a nossa classificação para final.

Allan não disse nada, apenas concordou em silêncio com a minha decisão. Ao chegar no campo observei aquela torcida lotando o estádio. O canto deles me fez esquecer o resto e jogar futebol, que era o que eu, mas amava na vida.

No apito final eu caí de joelhos no gramado e chorei. Senti as mãos dos meus companheiros me agarrando. Todos estavam felizes, nós vencemos o jogo. Alguma coisa de boa tinha que acontecer naquele dia, e a vitória foi como um alívio ao meu coração.

Pela primeira vez naquele dia eu me senti feliz. Cantávamos no vestiário e imaginávamos a gente na final. Definitivamente aquele era um momento importante na minha carreira como jogador.

- E como está a pequena Jasmim? – a pergunta do Allan me fez voltar a realidade. Ele certamente percebeu quando o sorriso desapareceu dos meus lábios.

Minha garganta deu um nó e tudo o que eu sentir foi um imenso ódio invadir o meu coração.

- Aconteceu algo com a Jasmim? – Allan segurou no meu ombro, quando me viu abaixar a cabeça.

- A Jasmim está ótima – levantei a cabeça para me certificar que ninguém escutaria a nossa conversa, quando voltei a olhar nos olhos da Allan e confessei – eu voltei em casa essa manhã para pegar as minhas chuteiras da sorte, quando me deparei com a Bruna me traindo com o Donovan.

Allan estava atordoado.

- Filho da mãe – ele sussurrou – diga-me que você arrebentou a cara dele?

- Eu poderia ter matado ele – eu percebi como ele tinha ficado espantado com a minha última palavra – tive que sair de casa às pressas para não cometer uma loucura. Acabei até atropelando uma garota no meio do caminho.

Quando a imagem do belo rosto da garota invadiu minhas lembranças, a culpa me consumiu.

- Não me diga que a matou? – ele perguntou, embora parecesse obvio que nada grave havia acontecido.

- Se eu tivesse matado alguém hoje, eu estaria preso – Allan soltou um longo suspiro – mas a garota está bem, arranhou apenas os joelhos.

Eu desejei que ela estivesse realmente bem e que não me processasse por não ter lhe prestado socorro.

- O que vai fazer agora? – meu rosto se contorceu ao ouvir essa pergunta.

- Vou pedir o divórcio – abaixei a cabeça novamente e fechei os olhos – eu não posso ficar ao lado de uma traidora.

Eu mal havia fechado os meus lábios e levantado a cabeça, observei o vice-presidente do clube se aproximar de mim. O rosto gorducho dele parecia preocupado. Ele suava sem parar e parecia cansado, como se carregasse um enorme peso sobre as costas.

- Precisamos conversar, Gustavo – como se as coisas já não estivessem ruins o suficiente, ele parecia trazer péssimas notícias para mim.

Enquanto o acompanhava para fora do vestiário, indaguei a mim mesmo o que de mais errado eu teria feito naquele dia. Será que a garota havia me denunciado? Eu sei que o meu rosto ficou pálido quando o vice-presidente olhou para mim, eu podia sentir o sangue parar de correr pelas minhas veias.

- Eu não tenho boas notícias – ele soltou um longo suspiro e abaixou o olhar. Certamente pensava na melhor maneira de me contar o que acontecia – houve um acidente com a Bruna.

Foi como se o mundo parasse de girar. Eu prendi a respiração enquanto a minha mente criava centenas de possibilidades.

- Ela vinha em direção ao centro de treinamento quando o carro dela capotou – eu ouvia atentamente o que ele dizia e nada mais, além disso, apenas esperando a bomba explodir – ela foi levada para o hospital em estado grave. Lamento não ter informado antes.

No primeiro momento eu fiquei sem reação, como se os meus pés estivessem grudados no chão. No segundo seguinte eu apenas virei as costas e corri para longe dali. Eu só conseguia pensar em Jasmim e orar para que ela não estivesse dentro daquele carro. Senti uma mão me agarrar e me colocar no veículo. Eu e o Allan ainda vestíamos o uniforme do time quando chegamos ao hospital.

A notícia impactou Cassandra Sanches, a minha sogra, como um raio caindo do céu. Toda coragem que eu havia reunido momentos atrás, havia desaparecido completamente quando eu olhei nos olhos chorosos dela.

- Faça qualquer coisa para salvar a vida da minha adorável filha, Gustavo – ela me agarrou em prantos e eu já não sabia mais como reagir.

Eu tentei consolá-la, esperando impacientemente o retorno do médico para nos informar sobre o estado de saúde da Bruna. Embora Bruna não merecesse minha compaixão, eu jamais desejaria a sua morte.

O corpo de Cassandra tremeu quando ela viu o médico se aproximar.

- Como está a minha filha, doutor? – desequilibrada emocionalmente para conseguir pensar direito, eu tomei a frente da situação.

- Eu sou o Gustavo Henri, marido da Bruna Sanchez – estendi a mão e recebi um aperto caloroso. O médico parecia feliz em me ver.

- Parabéns pela classificação – ele abriu um sorriso e eu não soube se ficava agradecido ou constrangido pelo momento em que ele me parabenizava – minha filha é torcedora dos imperadores. Está muito feliz com o resultado.

Eu ofereci a ele um sorriso forçado, enquanto Cassandra chorava ainda mais.

- Diga-me doutor, como a Bruna está? – ele limpou a garganta e o seu semblante mudou drasticamente. Eu não gostei do que vi nos olhos dele.

- As notícias não são boas – a expressão no rosto de Cassandra escureceu – a Bruna sofreu traumatismo craniano e está em coma. O seu estado é gravíssimo.

A atmosfera no hospital ficou tensa e eu me afundei em um silêncio mortal. Como era possível tantos desastres acontecerem no mesmo dia? Eu desabei no banco que havia logo atrás de mim. Mas nenhuma lagrima escorreu do meu rosto. Se posso confessar algo, seria que meu coração estava vazio por dentro. Eu nem ao menos conseguia sentir pena da minha mulher. Pensava na minha pequena filha, que agora não tinha a mãe para cuidar dela. Quando me lembrei de Jasmim, meu coração se apertou instantaneamente. Levantei-me alterado, olhando nos olhos de Cassandra e indaguei o obvio.

- Onde está a Jasmim? – segurei nos dois braços dela, imaginando que minha filha estivesse no mesmo carro que Bruna sofreu o acidente.

- Ela está na minha casa. Bruna a deixou antes de ir atrás de você – Cassandra limpava as lagrimas apenas deixando um enorme borrão de maquiagem em seu rosto – mas não poderei ficar com ela por muito tempo. Eu já não tenho mais jeito com crianças.

Eu lancei um olhar gélido até Cassandra. Era claro que ela não poderia cuidar da própria neta e nem eu mesmo iria querer tal coisa. Talvez não fosse o momento de pensar em quem cuidaria de Jasmim, quando me lembrei que dali a dois dias eu viajaria com o meu time para outro importante jogo.

Eu não podia deixar Jasmim sozinha. Minha mãe estava ocupada cuidando da saúde da minha irmã, que passava por um severo tratamento de câncer. Eu não tinha parentes por perto, ninguém de confiança que eu pudesse entregar a vida da minha filha.

- Contrate uma babá para cuidar de Jasmim até que a Bruna se recupere – a própria Cassandra sugeriu. Por minha vez, eu fixei Cassandra com um olhar severo – Sinto muito, Gustavo, mas eu não posso ajudá-lo.

A ideia de Cassandra ia contra tudo o que Bruna havia planejado. Ela não queria uma estranha cuidando da nossa filha, quando ela podia estar em casa cumprindo o seu papel de mãe.

Mas eu não tive outra alternativa. Quando retornei para casa naquela noite, contatei o meu advogado e pedi para que ele contratasse uma babá em menos de vinte e quatro horas , sem revelar que seria eu o patrão.

Com a minha identidade preservada, me restava apenas esperar, enquanto as notícias sobre o grave acidente de Bruna se espalhavam como pólvora por todos os meios de comunicação.

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