DARK
Minha vida nunca foi a melhor do mundo, mas sempre dei um jeito de ajeitar as coisas. Era uma merda ser mulher na minha antiga casa, isso machucava a mim, minha irmã e mãe.
Não sei se Deus estava me punindo por algum erro na vida passada. Fui uma menina de fé, apesar de tudo, mas quanto mais rezava, mais ira causava ao demônio que me aprisionava no escuro.
Quando criança, sonhava em ser medica, ajudar as pessoas e ser uma boa mãe. Claro, isso foi antes de descobri que sonhos são para os fracos ou os que têm mais sorte, pois no meu mundo, os sonhos eram pesadelos.
Depois de perder tudo, trabalho e o pouco de dinheiro que tinha, meu pai, ou progenitor, se transformou em Satanás em sua personificação. Se sucumbiu ao álcool, gastou o pouco que minha mãe ganhava com bebida, e transformou nossa casa em uma câmara de tortura.
Dizem que os pais são os heróis das crianças, o meu, era o vilão e eu tive que ser forte, ou criar algo forte para nos livrar dele.
Nos meus dez anos fui diagnosticada com TDI, transtorno dissociativo de identidade. Um dia era a Roseli, uma menina chorosa e fraca que rezava para Deus, clamando por uma ajuda divina, e no outro, era a Rose, uma garota dissimulada, que usava sua inteligência para manipular todos, inclusive aquele que tanto a machucava.
Foi uma alternativa para fugir da realidade. Enquanto minha mãe e irmã sofriam na gaiola que ele criou, Rose andava livre pela casa, o ajudando como podia, mas não por ama-lo ou por aceitar a sua nova vida, mas esperando o momento certo para atacar.
Sim, desde criança sou uma assassina, esperei muito por algo bom e glorioso, onde me salvaria e apagaria todo o mal, mas o que obtive foi uma alternativa vinda do próprio diabo. Muito antes de tudo isso acontecer, eu adorava documentários de crimes e muito mais.
Isso era demais para uma criança, mas quando se era pobre e essa era única alternativa de assistir algo, não tinha como mudar a rotina, pois era a programação que meu progenitor gostava de assistir.
O que ele não sabia era que me mostra desde cedo imagens e vídeos explicando como se torturava ou matava uma pessoa seria um perigo para ele mesmo.
O demônio que crescia dentro de mim apenas observava, ansiava pela hora de saber mais e mais só para usar esse conhecimento contra aquele que a machucava.
Viver era uma tortura, ser abusada por um nojento como ele era punição demais para alguém com tão pouca idade. E aos poucos ele foi apagando da história a menina boa e doce que nasceu no corpo que ele usava.
Talvez o pior não fosse fingir que o amava, mas esperar. Quando Rose estava no comando não existiam sentimentos bons, só ódio. Esse rancor foi usado no dia em que finalmente alguém ligou para a polícia e eles resolveram verificar como os Mendes viviam naquela pequena casa imunda.
Até hoje eu não sabia quem fez a ligação, mas me deu a oportunidade de usar isso a meu favor. O homem ficou histérico por conta do álcool, não conseguia pensar direito, porém, eu conseguia.
Quanto mais perto a polícia estava de nós, mais se aproximava da hora em que eu o mataria, e assim que minha voz pode ser audível, eu gritei, mas não para tentar fugir ou realmente pedir socorro, isso era parte do plano que bolei naquele momento.
A faca que ele usava para ameaçar minha mãe, estava em cima da mesa. Era linda e reluzente, conseguia me ver refletida nela e foi uma alegria poder mancha-las com o sangue daquele homem.
Ele resistiria e já estava esperando por isso. Apesar de ser forte, não aguentava dor. Como era pequena e ele não estava esperando por isso, então foi fácil dar os primeiros golpes no peito e na barriga. Ele tentou de defender e me fazer parar, isso deixou a minha pele marcada, mas era uma boa justificativa.
A melhor parte de tudo isso foi olhar em seus olhos de pavor e senti a sua dor, a decepção e consequência de tudo. Ele iria para o inferna, e claro que nos encontraríamos em um futuro, mas esperava que não tão cedo.
Em um momento o homem caiu sobre mim, mas nem isso me fez parar. A sensação era boa, como se tivesse provando um doce suculento ou chegado ao orgasmo, e eu não perderia o momento, mesmo que eu soubesse que não tinha volta.
Antes que os homens de farda arrombassem a porta para entrar, eu o afastei soltando finalmente a faca. Meu corpo estava coberto por sangue, como se tivesse saído de uma banheira repleta de fluido e o gosto até me atraiu um pouco.
Quando olharam para a menina amedrontada, chorando no chão, coberta de sangue, os homens se chocaram. Era obvio que pensaria em legítima defesa, assim que fosse limpa, veriam as marcas que ele gostava de deixar na minha pele.
Uma entre muitos policiais, era mulher. Ainda em lagrimas eu tentei contar como tudo aconteceu, disse onde estava a minha mãe e irmã e no fim, fomos levadas para o hospital.
Depois daquele dia, passei a ser consultada com um especialista e o pior era ter que fingir que eu não fiz tudo aquilo de caso pensando. Tinha que admitir, Gregori era um ótimo psiquiatra e era especialista no transtorno de identidade. Ele seria um problema, se eu não fosse tão boa em mentir.
O mais impressionante foi que o velho se tornou meu professor quando me formei na faculdade e quis me especializar na sua área. Nos tornamos amigos e antes de encontrar Lorenzo Mitolli, o velho era o meu psiquiatra.
Eu estava livre dela por quase vinte anos, mas nada do que vivi durante todo esse tempo a apagou da minha cabeça. Roseli era fraca, a menina chorosa, e a personalidade que mais odiava.
Eu sabia que no momento em que ela voltasse, a minha vida mudaria, e me traria problemas. Passei os últimos tempos punindo homens como o meu progenitor, frios, cruéis e pecadores. Eles mereciam o fim que os dei, mas a lei, a mesma que demorou em me salvar, pensava de outro jeito.
Para eles, esses traficantes, assassinos, pedófilos e tudo o que a de ruim no mundo, tinham que ser presos, a leis os puniria, mas isso era uma bela mentira e propagando enganosa.
Não adiantava prende-los por um tempo e os colocar na sociedade novamente, como se tivessem sido convertidos ou reiniciados, como computadores.
Eu tinha que ajudar aqueles que precisavam, como eu precisei. Talvez fosse esse o meu destino, no fim das contas, porém, um homem dentre todos eles eu não consegui matar, e o mais interessante foi que a sua chegada veio em boa hora. Eu estava péssima, iria ser pega e até aceitei esse fim, até o momento em que ele me propôs algo diferente. Mas antes, eu tinha que me concertar, pois estava em completo surto por conta das várias personalidades dentro de mim.
Como psiquiatra eu sabia que transtorno dissociativo de personalidade devia ser tratado com mais que terapia, anos de remédios e conversas intermináveis poderiam me aniquilar e dar a vida da Roseli de volta.
Eu era a dona do corpo, eu deveria viver e ela morrer, porém, o que ela não fez a anos estava se voltando a mim agora. A menina não desistiria e eu também não desistiria, por isso tivemos que chegar um mutuo acordo.
Caso ela voltasse sem mim, seria presa por todos os crimes, ou pior, ficaria em uma clínica psiquiátrica pelo resto da vida, e como eu sabia o que isso significava, ela também sabia.
Não posso dizer que sou a mais forte e nem a mais fraca, pois o acordo era que as duas coexistissem e isso nunca tinha sido possível, mas uma nova personalidade unindo o útil ao agradável sim.
Pessoas como eu são propiciais a isso. Sempre que querem fugir de uma dor elas criam algo forte o bastante para se proteger. Dark não era só a Roseli ou Rose, ela unia a assassina cruel e impiedosa com a amorosa e frágil, dando a mim uma personalidade que usa o emocional e a lógica.
Se isso não tivesse acontecido, Lorenzo estaria morto hoje. Com certeza ele é o tipo de homem que não deve viver por muito tempo. Um assassino, bandido e traficante que tem um charme ainda surpreendente para mim.
Claro, não sou tão idiota, eu sei dos riscos e estou indo contra a minha moral assassina, mas algo nele me instiga a querer saber mais e testar a sua capacidade.
Quando me fez a proposta de vir com ele, eu pensei em recusar no estilo Rose, no entanto, a polícia estava traz de mim, eles tinham provas e Lorenzo era a minha passagem para outra vida.
Aquela parte idiota e sensível estava triste e amedrontada. Estávamos deixando para trás a família e mesmo que a razão odiasse sentimentalismo ou amor, ainda restava aquela parte em que sentiria falta do carinho que minha mãe tinha por nós.
Esse foi o único amor que conheci. Era pouco comparado com a dor que carrego a anos, mas ainda era algo que me confortava.
Vê-las seguir a vida, como se o passado tivesse sido apagado, era difícil, pois para mim eu ainda estava no inferno.
Sabia que nunca sentiria o que elas sentem. Nunca seria amada como uma mulher comum. Afinal, quem amaria alguém que se recusa a sentir, como se fosse uma punição por tudo o que fiz?
Eu não tinha um plano extra quando fui para Danaco. Estava em uma viagem de negócios, só isso. Mas fui surpreendido assim que o avião pousou no aeroporto da cidade onde estávamos começando a negociar com o cartel local.
Dante não foi comigo, pois não podíamos os dois sair de Drakoy. Mas ele me alertou que essa cidade era cercada de criminosos ardilosos e que a polícia estava quebrando a cabeça com um ceifador.
Além do cartel eu ainda tinha negócios com o governo, que estava planejando um contrato milionário para receber milhares de equipamentos e armas de última geração.
Minha reputação oscilava entre o bilionário solteiro e bem-sucedido de uma empresa de armas a um homem envolvido com o crime organizado.
Apesar da má reputação em alguns países, o empreendimento da família servia como um marketing e de onde tirávamos o dinheiro e poder dos Mitolli.
Ao pisar fora do aeroporto fui recebido com mais que fotógrafos e pessoas querendo entrevista, buscando tirar de mim alguma resposta sobre a notícia de que eu comandava uma organização criminosa. Era verdade, mas isso não sairia da minha boca, e mesmo com tantas desconfianças os Mitolli eram cercados de pessoas que queriam usufruir da nossa influência ou governantes em busca de bons contratos para receber nossas munições.
A reunião com o governador saiu como planejado, assinamos um contrato que me daria muito dinheiro e entregaríamos a mercadoria em partes, pois a quantidade que nos pediram levariam muito tempo, eu diria dois anos, para ser completada para entrega.
Só faltava uma coisa para que eu pudesse voltar para casa e ver a minha Giovanna, o encontro com Diego, o chefe do cartel que nos contatou para também receber algumas armas.
Nunca ouvi falar no homem, muito menos no seu negócio na cidade, mas já que estava no país não fazia mal ver o que ele tinha para falar e quem sabe sair com mais um acordo fechado, o que eu não esperava era ver um diabo vestido de seda vermelho, com olhos negros e sorriso sedutor.
A primeira vez que vi Dark ela estava com um vestido muito curto, sua pele bronzeada combinava com o tecido vermelho e a mulher não precisava de muito para ficar bonita, pois apostava que até sem roupa ela era divina.
Nunca fui de me prender a mulher alguma, mesmo já tendo dormido uma quantidade considerável para uma vida, mas tinha que confessar que aquele olhar era diferente e me prendeu e seduziu.
Eu não queria desviar a minha atenção naquela noite, mas tinha que ter aquela nos meus braços e fui novamente surpreendido pela boca venenosa dela, que mesmo a uma curta distância, me afetou como um bicho no mato.
Ela não estava ali para trabalhar e não se entregaria a mim, muito pelo contrário, era eu quem estava entregue a mulher dos olhos negros. Dark me dopou não só com seu encanto, mas também com remédios que me deixaram fora da minha zona de conforto.
Como chegou, ela saiu sem deixar pistas, mas um rio de sangue deixado para trás me fez perceber que nenhuma outra mulher era como ela e eu tínhamos que conseguir essa raridade, a questão era como faria isso.
O pior era, eu não deveria estar naquele lugar justamente no dia em que praticamente todos os homens que ali estavam, agora, eram homens mortos. Por alguma razão, ela me poupou. Não senti gratidão, só curiosidade e foi por isso que fiz de tudo para achar a diaba.
O ceifador que meu irmão havia falado era uma mulher linda e provocante. Eu precisava dela, sua experiência e corpo, mesmo que eu estivesse entrando em um poço sem volta.
Depois de conseguir as câmeras de segurança do local, foi fácil usar os meus contatos para descobri a sua identidade e por sorte, não perdi a oportunidade de estar novamente na sua presença.
Dizem que dois pontos com a mesma carga elétrica se expelem, mas no meu caso e no dela as coisas eram diferentes, pois sei agora o quanto me sinto atraída pelo demônio de Danaco.
- Isso é uma péssima ideia, você tem noção do que...
- Sei Dante, ela é volátil e pode me matar, mas se quisesse fazer isso tinha feito antes, quando eu estava drogado. - Falei ao interrompe-lo.
Estávamos de volta a Drakoy, a mulher não conhecia nada da cidade e a minha impressão era de se eu não aparecesse ela daria um jeito de chamar a minha atenção.
- Você lembra da parte em que eu disse que ela é mais que uma assassina e sim uma ceifadora de vidas criminosas, não é?
Meu irmão era mais que isso, ele era meu braço direito, subchefe e tudo mais que um bom criminoso poderia querer.
Sempre focado, sério e insuportável às vezes. Mas tudo isso protegia a nossa família de sucumbir, pois, Dante era o mais cabeça dura e pé no chão, e confesso que não tinha tanta paciência quanto ele.
- Dante, eu sei disso, foi por isso que a trouxe para Drakoy. - Falei enquanto arrumava a gravata vermelha.
- Não, você a trouxe porque é louco e deixa seu pau tomar decisões. - Apesar das palavras cheias de ódio, meu irmão estava sério, sentado em uma cadeira, tomando uma bebida e olhando para a janela que exibia uma noite fria e estrelada. - Não só você pode ser morto Lorenzo, mas eu e toda a nossa família, a de sangue e a outra, criminosa.
- Você a teme mais que qualquer outro idiota que já enfrentamos. - Falei ao me virar para olha-lo. - É tão cruel e capaz de matar quanto ela. Conhece a cidade como ninguém, somos rodeados de soldados fortemente armados, por que está dando tanto poder a uma mulher.
Calmamente, e me irritando, Dante tomou o último gole da bebida, colocou o copo em cima da pequena mesa de vidro da sala de laser e levantou-se arrumando a sua roupa. Ele era o mais velho e nem a minha posição superior a dele como dom me dava o poder de desafia-lo quando a coisa era a nossa família.
- É simples, não importa o que temos, não quero que nada ameasse a nossa família ou o bem-estar dos negócios, coisa na qual você deveria estar preocupado. Não conheço muito bem essa Dark, mas o pouco que sei me diz para ter cuidado, preservar a nossa casa e vidas. - O pior era que eu sabia bem do que ele estava falando. Dante tinha total razão, porém, algo em mim, impedia que meu cérebro raciocinasse logicamente. Na verdade, ele bolava estratégias para usar a diaba no que fosse possível. - Por que, Lorenzo, por que a trouxe?
- Porque estamos expostos. - Falei sério, sem deixar espaço para que meu irmão pensasse que eu era um simples idiota que estava fazendo tudo por capricho. - Temos três cabeças para derrubar, o deputado, a cafetã da moda e o jornalista traidor. Não podemos fazer nada contra eles, sabe disso, e também não podemos deixar que eles falem tudo para a polícia e estrague nosso bem-estar nos negócios.
- Podemos dar um jeito. - Insistiu sabendo que eu não aceitaria nada que não fosse o meu plano. - Não podemos confiar nessa mulher, mal a conhecemos e ela pode simplesmente mudar de lado ou pior, usar a moralidade duvidosa para nos atacar.
- Dark é uma fugitiva, está sozinha em Drakoy e sabe que somos mais que um simples cartel. - Falei pensando em como colocaria uma coleira naquela mulher. - Fomos ameaçados Dante, se abrirem a boca, seremos presos e tudo o que temos virá a baixo, usar essa mulher será o modo mais fácil de detê-los, depois que tudo acabar, eu mesmo atiro na vadia.
- A vadia em questão drogou você, matou sete homens em um bordel e saiu sem dificuldade, mesmo tendo quatro dos nossos com você. - Ele lembrou.
- Isso é o que mais me fascina. - Falei ao me lembrar daquele encontro. Nunca me senti tão vulnerável e tão excitado por uma mulher.
- Veja você, desejando ela! - Ele estava começando a ficar puto comigo.
- Se acalme, colocarei homens atrás da diaba, além disso, Dark não é burra a ponto de desafiar a nós na nossa casa, posso dá-lhe a diversão que tanto ama e me aproveitar disso.
Se o que penso dê errado o meu irmão ficará mais que puto pela minha ousadia.
- Espero que ela faça picadinho do seu pau se dê errado. - Ele disse visivelmente alterado. - Eu mesmo designarei homens para vigia-la, qualquer coisa fora do comum, eles atiram.
- Como quiser. - Falei com um sorriso convencido. - Agora tenho que jantar com o diabo.
Sempre fui boa em tomar decisões e me orgulhava disso. Minha vida não era fácil, quando não estava matando, estava caçando, era disso que eu gostava, me excitava e quando não fazia, era como se estivesse presa em um quarto brando como uma louca.
Danaco era o lugar da minha origem, mas minhas ações me trouxeram até aqui. Depois de matar um lugar cheio de traficantes e depois, mais dois policiais, era o fim da linha.
O destino me trouxe uma nova oportunidade e como eu não era tola, aceitei a proposta ousada de um mafioso desconhecido.
Sim, isso ia contra os meus princípios. Desde muito nova eu caçava homens como Lorenzo, traficantes, exploradores e mercenários, mas não só por prazer, porém, também por sentir a necessidade quase que louca por punição.
Muito disso vinha do trauma de infância, com o meu pai, mas com o tempo fui ganhando gosto e isso se tornou um vício. Como Rose, eu era calculista e paciente, quando estava sob o meu poder alguém tão sujo quanto eu, usufruía de cada parte como se degustasse uma boa bebido ou comida suculenta.
Agora, me encontrava presa a um apartamento lindo, grande e luxuoso, esperando ansiosamente pelo encontro com o homem de olhos negros que não só me instigou a curiosidade, mas também, me deixava muito excitada.
Eu devia ter o matado, assim que nos conhecemos, porém, como se, no fundo sentisse que não podia, e olha só o que aconteceu, foi justamente Lorenzo Mitolli, um mafioso da pior espécie que me ajudou a fugir do país.
Eu não era idiota, sabia que tinha uma boa razão. Não nos comunicamos muito sobre o porquê ainda, porém, eu via como me olhava, como se quisesse me comer, no entanto, algo me dizia que o homem não era tão burro de trazer consigo alguém como eu só para ter a oportunidade de transar.
Meu lado justiceiro gritava em meu cérebro dizendo que eu deveria mata-lo, não podia acreditar e nem confiar na palavra de um criminoso, mas outra parte, a que estava me guiando, dizia que eu deveria pelo menos ouvir a sua proposta e aproveitar essa oportunidade a meu favor.
Meu tempo para avaliar às duas situações tinha acabado no momento em que o homem serio, alto e muito forte com tatuagens onde eu podia ver, entrou pela porta, como se não precisasse de permissão.
Esse homem precisa saber o seu lugar.
Você já viu como um gavião caça a sua presa? Pois bem, ele parecia um gavião agora. Não tirou os olhos de mim por um segundo, como se eu fosse uma lebre que correria a qualquer momento. Sua presença era intimidadora, mas não me assustava ou preocupava, eu já enfrentei homens piores que esse.
Uma coisa eu tinha certeza, eu não sairia perdendo essa. Algo que aprendi com o tempo é que: homens, seja mafioso ou não, sempre quer algo com suas boas atitudes. Lorenzo não era uma exceção, ele sabia qual a minha capacidade e queria algo.
Apesar do pouco tempo na cidade, eu fiz as minhas pesquisas, não queria perder o habito de saber onde estava me metendo ou se o meu alvo era mais forte que eu.
- Finalmente frente a frente de novo. - Falei sem sair do sofá confortável onde estava. O homem alto, moreno, de olhos escuros e lábios carnudos, não disse nada, continuou me observando, assim como eu a ele. Lorenzo estava lindo, com um terno justo, sapato reluzente e cabelo penteado para trás. Já dormi com homens lindos assim, mas a sensualidade nos seus movimentos e seu olhares penetrantes eram uma surpresa para mim. - Achei que me deixaria esperando por muito mais tempo.
- Não sou tão mal-educado. - Finalmente se pronunciou. Eu gostava de homem com voz grossa e firme, isso me deixava molhada. - Além disso, não sou idiota de deixar uma assassina como você a solta pela minha cidade, como se fosse um animal exótico fora do seu habitat.
- Qual animal exótico eu seria? - Perguntei entrando na brincadeira.
- Eu diria que o cruzamento bizarro entre um leopardo e uma cobra muito venenosa. Ágil e letal. – Respondeu sem um único sorriso, mas algo me dizia que era para ser engraçado. - Além disso, não a trouxe aqui atoa, se estou arriscando ser picado pela serpente é por um bom motivo.
- Gosto de homens inteligentes que sabem dos riscos de lidar comigo. - Estava tediada de tanto ficar sentada, por isso me levantei. Lorenzo se serviu de uma bebida forte, que tinha no canto da sala de estar. Esse lugar era mesmo grande e bonito, com uma parede de vidro, que nos dava uma bela vista da cidade colorida. O curioso era que Drakoy não se diferenciava de Danaco, só pelo tamanho e clima, claro. Era agradável o frio. Quando se pensa em uma cidade de grande altitude e rodeada por pequenas montanhas não se imagina Drakoy. Ela era animada, grande e com muitas rotas por onde passava milhares de carros. Tinha diversas empresas, shopping, hotéis e muito mais, o problema era que essa não era a minha cidade e era comandada por Lorenzo. De um canto a outro, tinha uma marca registrada dele, seja por homens armados, empresas ou parceiros. Eu sabia disso por conta de um a conversa acalorada com uma garçonete. Apesar da desconfiança, muitos só achavam que os Mitolli eram empresários, mas as pessoas de periferia, que trabalhavam para eles, sabiam da verdade e do perigo. - Mas vamos ao que interessa, Lorenzo Mitolli, o que realmente quer comigo? - Encostado no vidro do balcão onde pegou a bebida, ele se concentrava no copo com o líquido âmbar. Eu gostava de ver observar o meu alvo de todos os ângulos, ainda mais quando ele era tão bonito quanto Lorenzo. - No pouco tempo que passei aqui eu não fiquei parada esperando você dá o ar da graça e nem foi tão difícil achar informações sobre você. O que descobri em Danaco não foi nada tão grande quanto aqui. Seu rosto está estampado na capa de revista e notícias em jornais. "O empresário envolvido com o tráfico" - Falei jogando uma das revistas em cima da bancada onde ele estava. - "O senhor do submundo veste terno e gravata, e está sentado atrás de uma mesa bonita". Não citarei mais, pois não quero estender esse diálogo.
- Você sabia quem eu era quando veio comigo, o que quer dizer com tudo isso? - Questionou ele levantando uma das sobrancelhas ao me olhar. - O que as pessoas falam de mim, nem sempre é totalmente verdade ou mentira, mas a mídia atualmente está pegando no meu pé.
- O que me faz pensar que um mafioso com você, tão poderoso e conhecido, tem muitos inimigos e isso unido ao porquê de ter me trazido...
- Você foi ousada, fiquei curioso para saber quem era a mulher que... brincou comigo aquele dia. – Disse ele abandonando o copo e levantando de onde estava. Lorenzo tinha alguns centímetros a mais que eu, mesmo estando de salto, eu tinha que o olhar de baixo. Além do mais, seus grandes ombros cheios de músculos o transformava em um homem mais que charmoso. - Ousadia e desafiadora, um tipo raro e desconhecida por mim.
- Me poupe do seu charme barato. - Falei virando e me afastando. Esse homem não me conhecia e suas intensões não estavam tão claras, mas eu não era burra de pensar que Lorenzo era alguém que fazia boas ações tão fáceis, muito menos para alguém como eu. - Não mulher de maias palavras, de prolongar alguma coisa e também, não sou idiota, você quer se aproveitar de mim para se livrar de alguém. Estando tão exposto, depende de alguém que não esteja para fazer o trabalho sujo, e tendo tantos paparazzi ou jornalistas a sua procura, seria perigoso cuidar disso por si só.
- Gosto de mulheres inteligentes. - O sorriso safado em seu rosto o deixou ainda mais bonito, mas beleza ele tinha de sobra, coisa que mudava quando se falava em caráter.
- Vamos direto ao ponto, você é líder de uma organização criminosa, provavelmente tem milhares de pessoas trabalhando para você, outros criminosos que podem fazer esse trabalho, por que quer a mim? - Questionei cruzando os braços na frente do corpo e cerrando os olhos. - Sou alguém que não joga esse tipo de jogo, Lorenzo. Meu lance é matar homens como você, sujos e cruéis, acha mesmo que vai me convencer a mudar de lado?
- Não preciso a convencer de nada, Dark. - Ele estava seguro de si. Encostou-se no vidro, me desafiando com o olhar. Essa era a primeira vez que estava lidando com um homem como ele. Sempre fui seca quanto a homens, eles eram minhas presas ou objeto de prazer por uma noite. Porém, Lorenzo era diferente. Ele tinha um poder incomum, algo que me instigava a permanecer nesse lugar. - Você precisa de mim, precisa da minha ajuda e desse poder que tenho, e sabe disso, caso contrário, já teria ido embora. Minha intensão não é convence-la a vir para o meu lado, e sim usar o que pode fazer ao meu favor.
- Claro, mas isso terá um preço.
- Terá? - Novamente ele levantou uma das sobrancelhas grosas. O sorriso de deboche no seu rosto me encheu de raiva, eu não era conhecida por ser pessoa de paciência ou pacifica, então esse pequeno gesto parecia um desafio. - Salvei a sua pele, a coloquei em um dos mais caros apartamentos dessa cidade e você ainda quer mais?
- Há, você quer um obrigado? - Disse tão irônica quanto ele. - Não terá, um homem como você não merece tal coisa de mim, e não sou idiota, esse... luxo que esbanja é fruto de crimes e ilegalidade, você está com sorte por ainda está vivo, na verdade, acho que me ajudar a sair de Danaco foi o preço bem justo por eu ter o deixado vivo da primeira vez.
A sua gargalhada ecoou pelo apartamento me deixando furiosa. Era como se um conflito interno estivesse cutucando o meu cérebro por conta desse homem. Em outra situação, eu jogaria essa merda para o ar e mataria Lorenzo, mesmo que isso significasse ser perseguida para sempre, e outra parte me mandava ficar calma e ouvir o que mais ele tinha a dizer. O problema era quando o meu corpo agia por impulso, usando a pequena adaga guardada em minha perna por baixo do vestido.
- Você é engraçada. - Disse piscando para mim. - Mas chega de brincadeira, vamos direto ao assunto. - Finalmente. Achei que o mataria antes de chegarmos ao ponto certo. - Você está certa quando diz sobre meus inimigos e que eu não posso me livrar deles pessoalmente, e quanto aos meus homens, eles podem até fazer isso por mim, porém, quem quero matar não são pessoas comuns que podem ser mortas de qualquer jeito.
- Diga o que quer, que falo o meu preço. - Falei impaciente.
- Três pessoas. - Disse depois de me observar de cima a baixo como se quisesse algo mais. - Seria fácil se os três imbecis não fossem pessoas da mídia, era só armar uma emboscada e acabar com todos, mas infelizmente os três que me desafiaram e traíram são um deputado, uma cafetina que é dona de uma agência de modelos e um jornalista que está colocando a merda no ventilador.
- Fascinante. - Falei querendo mesmo ser irônica. - Um homem perigoso como você foi desafiado por três pessoas diferentes?
- Eles acham que me expor na mídia e cooperar com a polícia pode me colocar na cadeia e livra-los da morte, mas a verdade é: eu não vou para a cadeia, sou alguém com contatos e muito dinheiro, faço isso a anos e minha família não ergueu um império de armas para brincarem de empresários.
- Por que não usa esses contatos para livra-los dos ratos?
- Você é bem curiosa.
- Se vou entrar nessa e ajudar um mafioso quero saber de tudo, até mesmo onde estou me metendo. - Falei dura e forme. - Não faço trabalho sujo para pessoas como você, Lorenzo Mitolli, muito pelo contrário, eu mato pessoas assim e só estou aceitando esse acordo porque realmente preciso.
- Claro, você não está sob a minha proteção e poder. - Debochou. - Meu irmão está comendo o meu sono por sua calma, Dark, se sair da linha eu mesmo a mato.
- Se me provocar, você vai primeiro, nem que morra depois de você. - Falei me aproximando dele. - Se realmente precisa de mim, vai aceitar os meus termos, assim como vou fazer perfeitamente esse trabalho sujo, Lorenzo.
- Quais seus termos?
Estávamos frente a frente, encarando um ao outro. Ele poderia me matar com algumas das armas que tinha em seu coldre, ou eu a ele, com as minhas. Eu não era mais uma criança, fazia isso a tempos e ele me escolheu porque sabe disso, mas era divertido o desafio. Como se ele realmente quisesse me eliminar.
- Você vai me ajudar a sair desse pais, recomeçar em outro lugar sem o perigo de ser deportada para Danaco. Faço o que for preciso, mas não pode me limitar. – Exigir.
- Não posso deixar que uma assassina de criminosos perambule pela minha cidade sem alguém da minha confiança.
Meu corpo estava animado com essa pouca aproximação, seu perfume me excitava, assim como seus olhos vorazes.
- Não preciso de babá, mas acho que posso precisar de ajuda, caso algo saia fora do planeja. - Falei sabendo que essa seria a parte que me traria dor de cabeça. - Diga aos seus capangas que não sou de obedecer, mas acho que já viu isso.
- Não pode se expor, ou alguém pode descobrir a nossa ligação.
- Não me diga o obvio querido, não sou uma novata. - Falei colocando as mãos na cintura. Estava difícil me controlar. Um desejo safado dentro de mim, brotou no meu corpo, o desejo e a temperatura estavam altas e a qualquer minuto eu podia jogar toda a resistência e moral de lado só para beija-lo novamente. Ainda conseguia sentir os lábios carnudos apertando os meus, suas grandes mãos pervertidas, explorando o meu corpo e aquele instrumento magnifico, testando a minha resistência. - Terá que me passar uma boa quantidade de informações sobre quem e como são os seus alvos, assim como equipamento, como já sabe, a única coisa que tenho em mãos é essa linda adaga de estimação. - Falei subindo o tecido do corpo e mostrando onde ficava o objeto.
- Terá tudo o que desejar. - Disse sedutor.
Por um breve momento, nos encaramos. O desejo era mutuo, mas não seria idiota de esquecer tão facilmente quem era esse homem.
- Então comece logo, quero quanto antes sair desse lugar.