CAPÍTULO
Na mitologia grega, Andrômeda foi aprisionada em correntes, acorrentada a uma rocha como oferenda ao monstro marinho Cetus.
Miliane vivia de forma semelhante, ignorando que havia sido adquirida com uma intenção obscura. Era o sacrifício daquela família, não para um monstro marinho, mas para algo pior, o tempo, a paciência e a espera até que atingisse a idade "adequada" para ser entregue.
Aos oito anos, assistiu a seus pais serem levados diante de seus olhos.
Não viu mais nada depois daquele dia, mas ainda se lembrava dos barulhos dos tiros, estampidos secos que ecoavam em sua memória como trovões distantes.
Porém, era muito nova para entender o que realmente estava acontecendo naquele momento.
Nova demais para compreender que aqueles homens que a arrastaram para dentro de um carro não eram parentes distantes dispostos a cuidar dela.
Os anos se passaram entre quatro paredes.
Havia muitas coisas que Miliane não entendia, e uma delas era o que estava acontecendo com suas pernas.
Em uma época distante, quando ainda vivia com seus verdadeiros pais, ela corria como uma corça pelos campos.
Agora, toda vez que tentava se levantar, caía várias e várias vezes. Mesmo assim, nunca desistia. Mesmo que seus joelhos ficassem machucados, mesmo que seus pés doessem, ela continuava a erguer-se e a tentar, sem ter ideia do que estava errado. Sempre fora uma menina saudável, por que seu corpo agora a traía?
Então, começou a observar sua rotina com atenção.
Todos os dias, tinha direito a três refeições. Aos poucos, após três anos naquele cativeiro, percebeu um padrão: sempre após o café da manhã, sentia-se indisposta, tonta, sem forças nas pernas. Decidiu testar sua teoria. Passou três dias jogando secretamente a sopa de legumes no vaso sanitário, fingindo que havia comido tudo. No quarto dia, acordou e sentiu: suas pernas estavam firmes. Conseguiu levantar-se sem cair.
Um sorriso radiante formou-se no rosto da menina que, agora com treze anos, ansiava pela velha liberdade de correr.
A porta do quarto estava sempre trancada, mas havia a janela. Os vidros estavam tão sujos que ela mal conseguia ver o lado de fora, mas isso não a impediu de mover o trinco enferrujado e abri-lo. A janela, localizada no segundo andar, dava para os fundos da casa. Miliane não hesitou. Mesmo com pouca força nas pernas - ainda fracas após anos de envenenamento -, pulou.
Caiu na grama mal cuidada, levantou-se com dificuldade e correu estrada afora o mais rápido que conseguia.
O ar golpeando seu rosto a fazia sorrir enquanto lágrimas quentes jorravam de seus olhos. Não sabia para onde estava indo, nem se importava. Só se deu conta do perigo quando viu um carro aproximando-se na estrada. Sem pensar, desceu pelo barranco e adentrou a floresta que se estendia ao redor, como um abraço verde e desconhecido.
Miliane correu por entre as árvores, ainda mais sem rumo, em pânico. O medo de ter sido vista era mais aterrorizante do que estar perdida naquela selva de troncos e folhas. Foi então que avistou uma velha e grande casa de madeira, isolada no coração da mata.
Ela não tinha ideia de quanto tempo havia corrido. Observou o local e começou a contorná-lo, explorando com a curiosidade típica de uma criança que passou anos privada do mundo. Viu uma pilha de lenha, os restos de uma fogueira recentemente apagada. Alguém vivia ali.
Por um momento, Miliane esqueceu que estava fugindo. Aproximou-se das janelas empoeiradas, tentando enxergar através do vidro sujo. Esfregou os olhos, forçou a visão, mas nada.
De repente, algo zuniu próximo ao seu rosto e cravou-se na madeira ao lado de sua cabeça.
Ela levou um susto e recuou, os olhos arregalados fixos na navalha que tremia levemente, fincada na estrutura da janela.
- Intrusos não são bem-vindos! - Uma voz grave e rude soou atrás dela, a poucos metros de distância.
Miliane virou-se corajosamente para encarar a figura e soltou um grito abafado - um som estranho, rouco, que ela mesma não reconheceu. O homem manteve-se indiferente, cruzando os braços e observando-a por longos segundos.
- Não sabia que crianças entravam na floresta - ele disse, inclinando a cabeça. - Eu deveria te cozinhar viva e te dar para os cachorros por invadir meu território.
Aproximou-se e arrancou a navalha da madeira com um puxão seco.
As pernas de Miliane tremiam como bambus ao vento, mas ela não desviava o olhar. Em segundos, o homem percebeu detalhes que uma pessoa comum ignoraria: ela vestia uma blusa velha com manchas descoloridas, um short jeans folgado demais para seu corpo magro. Seus joelhos estavam vermelhos e arranhados, os pés descalços cobertos de feridas, e o cabelo desgrenhado parecia não ver um pente há muito tempo.
Miliane limpou o rosto com as costas da mão e o encarou com rebeldia, sem dizer uma palavra. O silêncio fez Kaleu suspirar de forma amarga.
- Quem está te mantendo em cativeiro? - Perguntou, agora com um sorriso leviano que não alcançava os olhos. - O gato comeu sua língua?
Ela continuava calada, analisando-o. Metade do rosto do homem estava coberta por curativos manchados de sangue recente. Quando gritou antes, Miliane pensara que era um fantasma ou um morto-vivo. Ainda o achava assustador, mas o sangue despertou sua curiosidade.
- Vou te jogar aos cachorros se não me disser o que está fazendo aqui! - Ele rosnou, perdendo a paciência. - Não vê os troncos de árvore cercando este local? Qualquer um que pisar neste espaço... bem, você já pode imaginar. Tem sorte de não ter uma navalha atravessada na cabeça.
Ele não sabia que ela não conseguia falar. Os remédios que colocavam em sua comida haviam roubado sua voz também.
- Saia de perto dessa menina! - Um homem gritou ao longe.
Kaleu virou-se, indiferente, para encarar o recém-chegado. O homem - Vando - Recuou até os limites dos troncos e abaixou a cabeça em respeito.
- Senhor... - Balbuciou, os lábios trêmulos.
- Como se atreve a pisar em meu território? - Kaleu deu um passo à frente, mas algo o fez parar.
Miliane agarrou seu braço com ambas as mãos, abraçando-o com uma força que ele não imaginava existir naquela criança franzina. Ele olhou surpreso para a menina, que o encarava com pânico nos olhos. Por um momento, pensou que ela temia que ele fizesse mal ao homem.
Mas não era isso.
Quando Miliane viu que seu captor demonstrava medo e reverência diante de Kaleu, algo despertou nela. Agarrou-se a ele como se fosse sua única salvação, com a força desesperada de quem finalmente encontra uma muralha entre si e o monstro que a persegue. Naquele instante, ela sentiu que ninguém poderia tocá-la se estivesse perto daquele homem de rosto mutilado.
CAPÍTULO
Kaleu engoliu em seco com a reação da menina. Vando observava a cena com evidente desconforto, enquanto Miliane continuava a puxar seu braço num pedido silencioso e desesperado.
- O que está fazendo? - Ele perguntou, tentando soltar-se, mas a menina balançava a cabeça insistentemente, negando algo que ele não compreendia.
- Ela não pode falar, senhor - Vando avisou, mantendo a cabeça baixa.
- Quem é essa menina? - Kaleu finalmente conseguiu se livrar das mãos dela. - Não vou matar seu pai - acrescentou, deduzindo que era isso que ela queria evitar.
- Ela é minha filha - Vando respondeu rapidamente. - Acabou fugindo de casa. Eu estava desesperado, procurando por ela.
Kaleu analisou a menina, que agora o encarava imóvel, os olhos marejados, mas firmes.
- Por que ela está tão machucada?
- Senhor... como pode ver, ela é uma menina transtornada. Passamos anos cuidando dela em casa, em segredo, para não causar problemas. Queremos protegê-la - explicou Vando, com um tom de voz que tentava soar preocupado, mas saía apenas ensaiado.
Kaleu direcionou seu olhar desconfiado para a menina, depois para o homem. Algo não se encaixava, mas naquele momento, com a cabeça ainda cheia de fantasmas e a culpa corroendo suas entranhas, ele não tinha energia para investigar.
- Vá! - Empurrou Miliane suavemente para frente. - Não é meu problema.
Miliane foi pega pelo braço com força e arrastada para fora do limite da propriedade de Kaleu. Debateu-se, mas de sua garganta saíam apenas sons abafados, inaudíveis, que ninguém parecia ouvir. Kaleu observou por um momento, mas Vando tratou de disfarçar, acariciando o topo da cabeça da menina enquanto a puxava.
- Calma, filha... Por que você está sempre se machucando e correndo por aí? Assim, o papai fica tão preocupado - Vando dizia, a voz doce contrastando com a força com que apertava o braço magro de Miliane.
Kaleu sentiu o olhar da menina fixo nele até o último momento. Desviou o rosto.
- Que se dane - murmurou, virando-se e abrindo a porta da construção de madeira. - Não é da minha conta.
A imagem daquele olhar, porém, ficou gravada em sua mente. Ele sabia que havia algo errado, mas escolheu ignorar. Naquele momento, carregava peso demais nas costas para se importar com mais alguém.
Após a partida da menina, Kaleu tentou retomar sua rotina de isolamento. As movimentações na região eram raras, e ele agradecia por isso. Mas havia sempre alguém que insistia em aparecer sem avisar.
- Soube que se mudou para esta casa velha no meio do nada! - Uma voz anunciou, acompanhada do ronco de uma moto que estacionava a poucos metros.
Kaleu franziu o cenho. Cassius aproximou-se com seu passo silencioso, quase felino.
- O que faz aqui? - Kaleu perguntou, o mau humor evidente em cada sílaba.
- Ué? Por que não estaria aqui depois de tudo que aconteceu? - Cassius revidou, analisando-o dos pés à cabeça.
- Não estou feliz em ver sua cara. Vá embora.
- Pensei que ficaria grato, pelo menos. Está com o corpo inteiro, mesmo tendo perdido metade da cara nos estilhaços.
- Cassius... - Kaleu cerrou os punhos, a mandíbula tensa. - Antes estar morto, não acha?
- Você tem uma dívida comigo. Eu te salvei, e vai pagar vivendo. Quando eu me tornar Don, será meu braço direito, não importa o que digam.
- Você acha que isso vai acontecer? - Kaleu riu sem humor. - Do jeito que está indo, vai morrer antes de chegar ao tão sonhado trono da cidade.
- Veremos. - Cassius deu de ombros. - Vim dar meus pêsames. Não pude comparecer ao enterro da sua esposa e do seu filho. Não consigo imaginar sua dor. Então sofra. Sofra até seus olhos parecerem queimar e sua cabeça explodir. Depois, levante-se.
Kaleu desviou o olhar, o silêncio pesando entre os dois.
- O que veio fazer aqui de verdade?
- Negócios. Estava na redondeza resolvendo problemas com dívidas. Acompanhando os homens do meu pai numa cobrança. - Cassius acendeu um cigarro, exalando a fumaça lentamente. - O devedor colocou a própria filha como garantia. Treze anos. O contrato venceu, e agora o período de entrega é em até dois anos.
Kaleu permaneceu imóvel, mas algo dentro dele se contraiu.
- Pensei que fosse contra esse tipo de coisa.
- Sou. Você sabe disso. Sempre odiei ver mulheres tratadas como mercadoria. - Cassius franziu o cenho. - Por isso mesmo, peguei a responsabilidade de escolher alguém para entregá-la. Já seria impossível ele conseguir dez milhões em dois anos. A máfia deixou a casa deles por causa da menina... e dessa tara maldita por menores.
- Me deixe fora desses assuntos. - Kaleu cortou, a voz fria. - Quero que todos se fodam.
- Não tem como escapar, você sabe. Uma vez dentro, só sai morto. - Cassius jogou o cigarro no chão e o esmagou com a bota. - Os homens que tentaram te matar vão voltar para terminar o serviço. Estamos investigando, mas enquanto não houver um Don definitivo, cada líder age por conta própria. Os ataques vão continuar.
- Boa sorte com seu sonho de ser Don. - Kaleu sorriu com malícia, virando-se para entrar em casa.
- Desgraçado! - Cassius gritou, indignado. - Pensei que pudesse contar com você por gratidão! Não fique surpreso se eu mesmo te ferrar, cara de retalho!
Kaleu fechou a porta com força, isolando-se novamente em seu silêncio.
Fazia exatamente um mês que ele havia perdido sua família. Menos de dois anos de casamento, um filho recém-nascido... tudo destruído por uma execução que saiu errado. Kaleu trabalhava na limpeza da cidade, eliminando organizações não autorizadas, recrutando ou. executando. Em uma dessas missões, algo deu errado, e sobraram pessoas para a retaliação. Sua esposa e seu filho pagaram o preço.
A culpa o consumia todas as noites, quando fechava os olhos e via os rostos deles.
Por isso se isolara naquele lugar. Por isso todos na região o temiam - O homem de rosto mutilado que carregava uma aura de perigo iminente, que certa vez saíra da floresta com um corpo morto nas costas e o jogara na estrada como aviso.
Os boatos correram como fogo: não se aproximem da casa na floresta.
E agora, contrariando todos os boatos, havia uma menina que desejava voltar. Uma menina que, mesmo após ser arrastada para longe, mantinha nos olhos a chama de quem não desistiria.
Vando arrastou Miliane escada acima, ignorando seus tropeços e quedas. Quando chegaram ao topo, ele a empurrou para dentro do quarto e trancou a porta com ferrolhos múltiplos.
- Onde ela estava? - Tônia, sua esposa, perguntou ansiosa lá embaixo.
- Espere. Vou descer em alguns minutos.
Tônia esperou no andar inferior enquanto os sons abafados de choro chegavam até ela. Não sentia pena. Ao seu lado, no sofá, Karmélia - sua filha legítima, de cabelos castanhos e olhos vazios - também parecia indiferente. Mas se alguém observasse com atenção, veria Karmélia engolir em seco, tremer levemente, apertar as pálpebras com força.
Mantinha-se indiferente por fora.
Por dentro, sabia que seu destino não era muito diferente do de Miliane.
No quarto, Miliane encolheu-se no canto, os joelhos abraçados contra o peito. Apoiou a cabeça na parede fria e fechou os olhos. Não chorou. Já chorara tudo o que podia nos últimos cinco anos.
Em vez disso, concentrou-se na imagem gravada em sua mente: o homem de rosto mutilado, a navalha cravada na madeira, a forma como Vando tremia diante dele.
Ele tinha medo daquele homem.
E se o homem da floresta tinha o poder de fazer Vando tremer, então talvez... talvez ele também tivesse o poder de libertá-la.
Miliane abriu os olhos e, pela primeira vez em cinco anos, algo além da sobrevivência acendeu em seu peito.
Esperança.
CAPÍTULO
- Onde você esteve? - Tônia perguntou, aflita, assim que Vando colocou os pés dentro de casa. - Aqueles homens estiveram aqui!
Ela batia o pé com força, os braços cruzados sobre o peito.
- Eles viram nossa filha? - Vando perguntou, temeroso.
- Claro que não! O plano é justamente que não a vejam, mas... eles vão ficar vigiando nossa casa! E Tônia precisa ir para a escola! - O desespero vibrava em sua voz.
- Eu vou levá-la todos os dias. - Vando passou a mão nos cabelos, pensativo. - Essa menina ainda não pode sair. É muito nova para a idade que eles sabem que minha filha tem.
- O que vamos fazer, então?
- Mantê-la presa até o momento adequado.
Ele seguiu para a cozinha, Tônia atrás como uma sombra. Abriu uma gaveta e retirou vários frascos de comprimidos, colocando-os sobre a mesa. Cruzou os braços.
- O que pensa em fazer? - Tônia inclinou a cabeça, curiosa.
- Ela já sabe que estamos dando remédios para que não ande nem fale. - Vando tamborilou os dedos sobre os frascos. - Vou suspender os medicamentos por agora. Precisamos que ela melhore para começar a se adaptar à substituição. Não podemos deixar que levem nossa filha, então... Miliane vai ter que estar pelo menos aceitável até o dia da entrega.
- Mas ela pode fugir se não tomar os remédios.
- Já resolvi isso. - Um sorriso frio curvou seus lábios. - Não vai fugir de novo. Mudei-a para o porão. Ninguém pode saber da existência dela, ou estaremos com problemas. Mas se descobrirem... tenho documentos que comprovam que é nossa filha. Invento uma desculpa para tê-la escondido. Vai dar certo.
No porão, Miliane descobriu o significado de um novo tipo de prisão.
Vando prendera seus pés com correntes grossas, trancadas por um cadeado enferrujado, mas resistente. Os elos de ferro estavam tão apertados que ela mal conseguia mover os tornozelos sem que a pele raspasse no metal. A corrente tinha comprimento suficiente para permitir que chegasse ao balde improvisado como vaso sanitário, mas cada passo era uma agonia.
A cabeça girava. As lágrimas escapavam silenciosas.
Dias se passaram - ela perdeu a conta de quantos. Sentia os pés sendo lentamente dilacerados pelo ferro. O desespero a consumia como fogo lento, mas não a paralisava. Encontrou um grampo esquecido num canto e passou a tentar abrir o cadeado. Tentativa após tentativa. Seus dedos minúsculos doíam, sangravam, mas ela continuava.
Todos os dias, as mesmas três refeições. Nada além. Privada de tudo: medicamentos, roupas que servissem, dignidade. Apenas vestidos antigos, estranhamente longos, como se tivessem pertencido a outra pessoa em outra época.
Numa manhã em que os raios de sol conseguiam penetrar a pequena janela do porão, Miliane sentiu uma energia diferente. Pegou seu grampo - já desgastado de tantas tentativas - E inseriu na fechadura do cadeado com a precisão de quem aprendeu na dor.
Seus olhos se arregalaram.
O cadeado cedeu.
Ela pensou que era um milagre. Não hesitou um segundo sequer. Libertou os pés daquela dor familiar e colocou-se de pé. Andou de um lado para o outro, tentando aliviar o incômodo e se familiarizar novamente com a caminhada sem correntes. Os pés estavam machucados, a vermelhidão dos ferimentos abertos era visível, mas ela não sentia nada além de um único pensamento:
Fugir.
Sabia que, depois do café da manhã, ninguém desceria ao porão. Esperou o momento certo, deslizou pela pequena janela rente ao chão - dessa vez não precisou pular nenhum andar - E correu.
Seus pés a levaram para o mesmo lugar. Para o mesmo homem.
Kaleu estava sentado num tronco em frente à sua casa, um espelho quebrado apoiado no colo. Retirava os curativos do rosto com cuidado, revelando um corte profundo que atravessava um dos lados, passando sobre o olho. A visão daquele lado era apenas um borrão cinzento agora, mas o ferimento finalmente começava a cicatrizar - Cassius trouxera medicamentos dias atrás.
Miliane observou de longe, escondida atrás de uma árvore. Via cada detalhe: a extensão da cicatriz, a expressão de dor ao higienizar o ferimento, a forma como seus dedos tremiam levemente ao passar a pomada.
Sem querer, pisou num graveto.
O estalo seco ecoou no silêncio da mata.
Kaleu ergueu o olho bom e fixou-o na direção do som. Miliane recuou, assustada, mas ele desviou o olhar e continuou o que estava fazendo, como se não tivesse visto nada.
Ela ficou imóvel por longos minutos, o coração batendo descompassado. Depois, decidiu voltar ao porão. Ainda não tinha forças para fugir sozinha, nem coragem para pedir ajuda a ele. Mas, pela primeira vez em muito tempo, acreditava em algo com todas as suas forças: que aquele homem poderia, de alguma forma, salvá-la.