Naquela tarde, em meio ao caos do escritório, a voz fria do Sr. Fernandes cortou o ar como uma lâmina. Ele jogou o projeto mais importante da empresa na minha mesa, arruinado por desenhos de flores e citações filosóficas. Eva, a nova estagiária, chorava e soluçava, apontando para mim: "Eu só segui as instruções da Laura! Ela disse para ser 'criativa'!"
O choque se transformou em humilhação quando Marcos, meu namorado de cinco anos, entrou na sala. Eu esperei que ele me defendesse, que conhecesse meu profissionalismo. Mas ele olhou para mim com decepção e acusação: "Laura, por que você fez isso? Você a sabotou, talvez por inveja?". A palavra "inveja" pairou no ar, venenosa.
Em questão de minutos, enquanto Marcos consolava Eva em um canto, eu estava com meus pertences em uma caixa de papelão, demitida. Saí do prédio sob uma chuva torrencial, a traição e a injustiça pesando mais que a água fria. Minha carreira, meu relacionamento, tudo desmoronou por uma mentira absurda. Distraída pela dor, não vi o carro vindo. Houve uma buzina, uma luz forte, e depois, escuridão.
Mas então, a luz do sol da manhã invadiu meu quarto. Eu estava de pé, o cheiro de café fresco vinha da cozinha e a data no meu celular era 23 de outubro. O dia antes do desastre. Eu estava viva, e eu tinha voltado. Com a memória de suas traições e uma sede ardente de vingança, eu sabia que desta vez o jogo seria diferente.
"Laura, você pode me explicar o que é isso?"
A voz do meu chefe, Sr. Fernandes, era fria, cortando o ar do escritório.
Ele jogou uma pilha de papéis na minha mesa, as folhas se espalharam como um leque de desastre.
Era o projeto do cliente mais importante da empresa, e estava completamente arruinado.
Ao meu lado, Eva, a nova estagiária, tinha os olhos cheios de lágrimas, o rosto pálido e uma expressão de inocência assustada.
"Sr. Fernandes, eu só segui as instruções da Laura," ela soluçou, a voz trêmula.
"Ela me disse para ser 'criativa' e 'pensar fora da caixa', foi exatamente o que eu fiz."
Eu olhei para ela, sentindo uma onda de absurdo e raiva.
Eu nunca tinha dito isso, não daquele jeito.
Eu tinha dito para ela seguir o modelo padrão, mas que poderia sugerir pequenas melhorias estéticas se tivesse alguma ideia.
Mas a interpretação dela de "criativa" foi remover todas as especificações técnicas do cliente e substituí-las por desenhos de flores e citações filosóficas.
O projeto, que valia milhões, agora parecia o diário de uma adolescente.
"Eva, isso não foi o que eu disse," tentei argumentar, mas minha voz saiu fraca.
Nesse momento, a porta do escritório se abriu e Marcos, meu namorado de cinco anos, entrou.
Ele olhou para a cena, para o chefe furioso, para Eva chorando e para mim, pálida de choque.
"O que está acontecendo aqui?" ele perguntou.
Eva correu para o lado dele, agarrando seu braço como se fosse sua única salvação.
"Marcos, a Laura está brava comigo, mas eu juro que só fiz o que ela mandou," ela disse, olhando para ele com adoração. "Eu estraguei tudo."
Eu esperei que Marcos me defendesse, que ele conhecesse meu profissionalismo, que soubesse que eu jamais colocaria um projeto em risco.
Mas ele olhou para mim, e seus olhos estavam cheios de decepção.
"Laura, por que você fez isso?" ele disse, em um tom de acusação. "A Eva é nova, ela não sabe como as coisas funcionam, você deveria tê-la orientado direito."
O ar saiu dos meus pulmões.
"Você está me culpando?"
"Estou dizendo que você é a sênior aqui," ele respondeu, a voz dura. "Você é a responsável por ela. Em vez de ajudar, você a sabotou, talvez por inveja?"
Inveja. A palavra ficou pairando no ar, venenosa e irreal. Inveja de uma estagiária que mal sabia ligar o computador?
O Sr. Fernandes, vendo que até meu namorado estava contra mim, tomou sua decisão.
"Laura, arrume suas coisas," ele disse, sem sequer olhar para mim. "Você está demitida."
Foi rápido, brutal.
Em menos de dez minutos, eu estava colocando meus pertences em uma caixa de papelão.
Marcos e Eva estavam em um canto, ele a consolava enquanto ela chorava em seu ombro.
Ninguém olhou para mim.
Saí do prédio sob uma chuva torrencial, a caixa ficando encharcada em meus braços.
Eu não tinha para onde ir.
Eu andava sem rumo, a humilhação e a traição pesando mais do que a chuva fria.
Eu me sentia vazia, oca.
Tudo o que eu construí, minha carreira, meu relacionamento, tudo desmoronou em uma única tarde por causa de uma mentira absurda.
Distraída pela dor, não vi o carro vindo em alta velocidade.
Ouvi a buzina, uma luz forte cegou meus olhos.
Depois, escuridão.
E, de repente, eu estava de pé.
O sol da manhã entrava pela janela do meu quarto, o mesmo quarto que eu dividia com Marcos.
Eu estava confusa, o cheiro de café fresco vinha da cozinha.
Olhei para o meu celular na mesa de cabeceira.
A data era 23 de outubro.
Um dia antes do desastre.
Um dia antes de eu ser demitida.
Eu estava viva. E eu tinha voltado.
Meu coração batia descontroladamente no peito, uma mistura de pânico e euforia.
Eu me levantei da cama, minhas pernas ainda trêmulas.
Fui até o banheiro e me olhei no espelho.
Era eu, sem nenhum arranhão, sem a dor fantasma do impacto do carro.
Eu estava realmente de volta.
O som do chuveiro parou e, alguns minutos depois, Marcos saiu do banheiro, uma toalha enrolada na cintura.
"Bom dia, amor," ele disse, sorrindo, e me deu um beijo na testa.
O mesmo beijo que, na minha memória, ele me daria antes de me trair.
Um calafrio percorreu minha espinha.
"Você está bem? Parece que viu um fantasma," ele comentou, enquanto se vestia para o trabalho.
"Só um pesadelo," murmurei.
O telefone dele tocou. Ele atendeu, e a voz do outro lado era inconfundível, mesmo abafada. Era Eva.
Ele conversou com ela por um minuto, com uma paciência que ele raramente tinha comigo.
Quando desligou, ele se virou para mim com um pedido.
"Laura, a Eva está com dificuldades no projeto do cliente X, aquele grande. Você poderia dar uma força para ela hoje? Ela é nova e está se sentindo um pouco perdida."
Era exatamente como tinha começado na vida passada.
O mesmo pedido, a mesma armadilha.
Naquela época, eu concordei sem hesitar, querendo ser uma boa colega e ajudar meu namorado.
Desta vez, a resposta foi diferente.
"Não," eu disse, a voz firme e clara.
Marcos piscou, surpreso.
"Não? Por quê? É só uma ajuda, você é a melhor nisso."
"Estou com muito trabalho acumulado," menti, mantendo minha expressão neutra. "E além do mais," acrescentei, com um sorriso calculado, "você parece se dar tão bem com ela, por que você mesmo não a ajuda? Seria uma ótima oportunidade para vocês se conhecerem melhor, criar um vínculo."
Eu enfatizei a palavra "vínculo".
Ele pareceu pensar por um momento.
"É, talvez você tenha razão," ele disse, coçando a nuca. "Pode ser uma boa ideia. Mostra que eu sou um cara legal e prestativo."
Ele pegou o celular e ligou de volta para Eva.
"Eva? Sou eu, Marcos. A Laura está super ocupada hoje, então eu mesmo vou te ajudar com o projeto. Sim, claro que posso. A gente se vê no escritório."
Ele desligou, sorrindo para mim.
"Pronto, resolvido. Obrigado pela sugestão."
Um sorriso frio se formou no meu rosto quando ele se virou.
A primeira peça do dominó tinha sido empurrada.
Naquele mesmo dia, no escritório, eu solicitei formalmente uma transferência para o departamento de marketing, um pedido que eu já vinha considerando há meses, mas nunca tive coragem de fazer.
Com a desculpa de querer "novos desafios", meu pedido foi aprovado rapidamente.
No final do dia, Marcos me encontrou perto da minha nova mesa.
"Então, passei o dia com a Eva," ele disse, parecendo um pouco cansado. "Ela é... intensa. E um pouco estranha. Não entendi nada do que ela fez no relatório, tive que refazer tudo."
Eu apenas dei de ombros.
"Bem, você queria ajudar," eu disse, com simplicidade.
"É, mas não sei se entendi por que você me empurrou para isso," ele admitiu. "Ela não parece entender coisas básicas."
Eu olhei para ele, um sentimento de desprezo gelado crescendo dentro de mim.
Na minha mente, uma voz dizia: "Estranha não é a palavra. Você não faz a menor ideia no que está se metendo, Marcos. E desta vez, eu vou adorar assistir de camarote você descobrir."