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Karma ou Destino?

Karma ou Destino?

Autor:: Luhmag
Gênero: Romance
Ana não sabia o que estava acontecendo com sua vida, se era karma ou piada do destino. Tudo estava dando errado. Havia terminado seu noivado às vésperas do casamento, porém ainda amava seu ex-noivo. Mas o destino colocou em seu caminho um homem maravilhoso, que a amava e faria de tudo para ter o seu amor. Será que valia a pena pôr o futuro em jogo para vingar-se do homem que a fez sofrer no passado?

Capítulo 1 Em busca de um recomeço

- Ana, venha pra cá. Aqui você verá gente nova, terá tanta coisa pra fazer e tantos lugares pra ir que se esquecerá de Pedro.

- Mas fazem apenas seis meses que fui submetida a uma cirurgia. Será que poderei viajar para tão longe?

- Não sei, mas fale com seu médico.

- Tudo bem, se não tiver problemas eu vou.

- Estarei te esperando, e confesso que estarei ansioso. Prometo te fazer esquecer que Pedro existe.

- Oh, Davi, isso será praticamente impossível, mas sua ajuda será muito bem-vinda.

Davi era um amigo de longa data, porém Ana e ele ainda não se conheciam pessoalmente, pois se conheceram pela internet, mas a amizade ficou tão forte que eles se falavam com bastante frequência.

Davi morava em Portugal e Ana era uma simples moça do sul do Brasil.

De família abastada, Ana não precisava se preocupar muito com trabalho, dinheiro não lhe faltava, porém ela fazia questão de administrar a fazenda do pai.

Aos vinte e três anos conhecera um rapaz chamado Pedro. Ele havia chegado à fazenda pedindo emprego e como o pai de Ana era um homem bom, resolveu empregar o rapaz.

Pedro era argentino e morava no Brasil há muito tempo, estava viajando quando se viu sem dinheiro e foi obrigado a trabalhar. Em Dilermando de Aguiar não havia muitos empregos e indicaram para ele que o pai de Ana poderia ajudá-lo. E lá foi ele.

Ao chegar à fazenda, foi recebido por Carmen, a mãe de Ana, que o encaminhou até o escritório onde Ana e Jorge discutiam calorosamente sobre uma nova raça de gado que Jorge queria comprar e Ana era contra.

Assim que viu Ana, Pedro se apaixonou, mas percebeu que não havia sido correspondido.

Ana, notando que o estranho a olhava insistentemente resolveu sair do escritório e deixá-lo a sós com o pai.

O tempo foi passando e Pedro, sempre que podia, se insinuava para Ana. Descobriu o número do celular dela e começou a ligar.

No começo, Ana não levou muito a sério o que Pedro dizia, pois estava apaixonada por Rogério, um rapaz que ela havia conhecido na internet há um ano. Rogério e ela conversavam todos os dias, ou por telefone ou pela internet, estavam até namorando, e isso deixava Pedro um tanto irritado.

Devido à insistência de Pedro, Ana pedia à mãe que atendesse às ligações e mentisse dizendo que ela estava muito ocupada para atender ou que ela havia saído para resolver problemas da fazenda.

Em uma dessas ligações, Ana pediu para a mãe dizer que ela havia ido até a cidade vizinha e sentou-se na varanda, no mesmo instante que Pedro chegava para falar com seu pai. Não tendo como escapar sem ser vista, Ana resolveu atender a insistência de Pedro e concordou em sair com ele.

Marcaram de sair no final de semana, porém surgiu um imprevisto e Ana não pode ir.

Ana ficou um pouco chateada, porque não gostava de deixar ninguém esperando.

Pediu para o pai avisar Pedro que havia acontecido um imprevisto e ela não pode ir e nem teve tempo para avisar, mas ele não ligou mais.

Com a aparente desistência de Pedro, Ana ficou muito chateada, pois ele insistia tanto e de repente mudou de ideia?

Ana então resolveu ir até o curral onde ele trabalhava para se explicar.

O encontrou trabalhando com outros peões. Ele estava tão compenetrado que nem a viu entrar.

- Saiam um pouco, por favor. Preciso falar com Pedro.

- O que a "senhora" deseja, dona Ana?

- Por favor, não precisa me tratar com tanta formalidade. Eu vim me explicar. Não sei se meu pai lhe deu meu recado, pois você não entrou mais em contato comigo.

- Sim, senhora, ele me disse que a senhora não pode comparecer a seu compromisso porque teve um contratempo.

- Sim, foi exatamente isso que aconteceu.

- Mas, senhora, seu telefone não funciona mais?

- Eu fiquei sem telefone, a bateria acabou, eu realmente não tive como avisá-lo que eu não poderia ir. Desculpe.

- Não tem problema não, senhora, eu sei que sou só um simples peão. A senhora não deve se relacionar com pessoas como eu.

- Deixe de besteira! Eu nunca me importei com a classe social, raça, credo ou cor de uma pessoa, e não será com você que eu me importarei. Tanto não me importo com essas coisas que vou convidá-lo para jantar comigo, amanhã, em minha residência, lá em Santa Maria.

- Tem certeza de que quer isso?

- Claro que sim.

- Eu não sabia que você morava sozinha.

- Na verdade, não moro. Eu moro aqui, naquela casa eu só vou aos finais de semana pra respirar um pouco de poluição. Eu prefiro morar aqui porque é mais viável. Se acontecer algo que precise de minha supervisão eu já estou aqui. Mas me diga, você aceita jantar comigo amanhã?

- Aceito.

- Então amanhã você pega o carro da fazenda para ir até lá. – Pegou uma caneta e um bloco que ela sempre tinha junto e anotou seu endereço – bem, aqui está. Este é meu endereço. Esteja lá às vinte horas.

- Estarei.

E assim começou o relacionamento.

Ana aos poucos foi deixando de conversar com Rogério e começou a se apaixonar por Pedro.

Ela não sabia como gostava dele, porque ele não era seu tipo preferido de homem. Ela gostava de homens altos, fortes, de preferência acima do peso, e Pedro era totalmente diferente: ele era baixo, mais baixo que ela quase dez centímetros e ele era magro, muito magro, mas mesmo assim, o relacionamento foi se estreitando cada vez mais.

Depois de oito meses de namoro, Pedro pediu Ana em casamento e foi morar na casa dela.

Ela deixou de morar na fazenda e só ia lá para trabalhar. Ele continuava trabalhando na fazenda, agora mais do que antes porque havia sido promovido a assessor dela.

Estavam muito apaixonados, era o que Ana pensava.

No começo Pedro estava sempre junto de Ana, porém semanas depois, Pedro começou a se ausentar de casa. Ficava dias fora de casa. Quando Ana perguntava aonde ele ia, ele só dizia que tinha que resolver problemas pessoais, que logo Ana ia saber de tudo.

Ana estava desconfiada das saídas de Pedro e resolveu contratar um detetive particular.

Enquanto não descobria nada sobre a vida dele, Ana não fazia nenhum plano para o casamento que estava se aproximando.

Em uma das viagens dele, o detetive o seguiu e descobriu que ele ia para a Argentina e que lá ele tinha uma família, era casado e tinha filhos.

Ana, então, resolveu acabar com a farsa.

Quando ele voltou ela já tinha preparado tudo o que era dele em malas e deixado no lado de fora da casa.

Ele quando chegou, vendo as malas tentou abrir a porta, mas Ana havia mudado a fechadura.

Pegou as malas, pôs na caminhonete da fazenda e foi até a fazenda pedir uma explicação para Ana.

Ela fazia cálculos no escritório quando ele chegou.

- O que você pensa que está fazendo? Enlouqueceu? Eu cheguei em casa e minhas coisas estavam na varanda e a chave não abre a porta. O que aconteceu enquanto estive viajando?

- Aconteceu que eu descobri tudo sobre você e sobre sua esposa Rose e seu três filhos na Argentina.

Pedro corou.

- Como assim, outra família? Você enlouqueceu!

- Não adianta tentar mais me enganar. Eu contratei um detetive ele seguiu você. Aqui estão as fotos que ele tirou – entregou-lhe um envelope – veja você mesmo.

Pedro olhou as fotos dele com sua mulher e seus filhos.

- O que você pretende fazer?

- Eu? Nada. Você sim. Vai sair daqui agora mesmo. Vai deixar minha casa e esse emprego e nunca mais vai aparecer por aqui.

- E por que eu faria isso?

- Porque eu ainda não contei a meus pais e quando eu contar será melhor que você esteja bem longe ou meu pai acaba com você.

- Você acha que temo seu pai?

- Não teme? Pois deveria... Agora se me der licença, eu preciso trabalhar, eu não ganho a vida enganando mulheres como você.

- Eu não vou sair daqui.

- Vai por bem ou eu chamo os peões e eles te tiram a força. Você quem escolhe. Ah, só mais uma coisa, me dê as chaves da caminhonete, ela você não leva. Agora saia, não quero mais olhar para essa sua cara.

Pedro saiu e Ana sentiu-se muito triste. Como pudera deixar-se enganar dessa forma? Como pudera acreditar que um dia poderia ser feliz de verdade?

Se não bastasse o sofrimento que estava passando, ainda tinha que se preocupar com uma cirurgia que faria em alguns dias. Não era nada grave, era um problema comum, mas era uma cirurgia.

Depois que terminara seu noivado com o já casado Pedro, os dias para Ana perderam a cor.

Os passeios a cavalo que ela tanto adorava já não lhe traziam nenhum prazer.

Os dias eram vazios e tristes.

Como pudera deixar um homem fazer isso com ela?

Estava se entregando a depressão até que Davi lhe apontou a saída.

Capítulo 2 O passado sempre presente

Portugal era lindo e Davi maravilhoso.

Saiam juntos, iam a restaurantes, ele era perfeito como sempre.

As duas semanas que ela pretendia ficar foram se estendendo e tornando-se meses.

Havia deixado o serviço da fazenda nas mãos responsáveis do pai e tinha aceitado o convite de seu amigo virtual.

Davi era companheiro, amigo, divertido, carinhoso, nunca a deixava triste e nem sozinha.

Saia do trabalho e iam sempre a um lugar diferente.

A amizade foi se estreitando, mas Ana ainda pensava muito em Pedro.

Após três meses de diversão, Ana foi surpreendida por Davi.

Ele chegara em casa mais cedo sem avisar e ela havia ido na casa dos pais dele.

Era tudo o que ele precisava.

Arrumou a casa e pediu um jantar maravilhoso.

Luz de velas, música suave, um bom vinho e um delicioso nhoque, tudo exatamente como ela gostava.

Quando ela chegou em casa e viu a mesa posta com elegância seus olhos brilharam.

- Davi, o que significa isso?

- É pra você.

Ela aproximou-se da mesa e sorriu.

- Você fez nhoque, com vinho, como sabia que é o meu prato preferido?

- Uma vez você comentou, logo no começo, quando a gente se conheceu, e eu não esqueci.

- Você é um sonho. Por que preparou isso tudo pra mim?

- Porque tenho algo pra te falar. Mas primeiro jantamos depois eu te falo o motivo desse jantar.

- Vai me deixar morrendo de curiosidade?

- Calma, querida, calma.

Jantaram e Davi pegou as mãos de Ana.

- Agora sim eu posso falar o que esperei a noite toda. Ana faz tempo que nos conhecemos, não pessoalmente, mas faz tempo que um sabe tudo sobre o outro, certo?

- Sim, mas por que essa pergunta?

- Ana, eu nunca escondi que gostava de você. Só que agora não posso mais lutar contra esse sentimento. Eu não sinto só carinho por você, eu sinto amor. Ana eu te amo e quero que se case comigo.

Surpresa com o convite, Ana nada falou, apenas olhou bem dentro dos olhos dele e notou sinceridade.

- Davi, você sabe que eu amo outro homem e é por causa dele que estou aqui.

- Dê-me uma chance, eu vou provar pra você que posso fazê-la esquecer Pedro.

- Mas como eu posso me casar com você amando outro?

- Eu amarei por nós dois. Ana eu sei que parece uma loucura agora, mas no futuro você verá que foi a coisa certa a se fazer. Eu não sei mais viver sem você e você precisa de alguém que te faça esquecer o que aquele homem te fez. Eu sou esse alguém, Ana. Deixe-me te amar e te fazer feliz.

- Deixe-me ao menos pensar. Quando eu souber o que te responder, voltamos a falar nesse assunto. Tudo bem?

- Claro que sim, pense o tempo que você quiser, eu esperarei.

Dois meses depois Ana e Davi casavam-se.

Foi uma cerimônia simples, apenas no cartório, os pais de Ana nem compareceram, pois seu Jorge tinha medo de avião.

Nos primeiros meses de casada, Ana ligou várias vezes para Pedro, porém ele nunca atendeu.

Ana arrumara um emprego numa construtora, pois não conseguia passar o dia todo em casa sem ter nada para fazer, a ociosidade enchia sua mente de lembranças que ela queria esquecer.

O casamento já durava quatro anos, mas Ana ainda não conseguira tirar Pedro do seu coração, e Davi percebia a angústia de sua mulher, mas não tocava no assunto. A única coisa que chateava Davi era a falta de filhos. Ana não os queria.

Filhos era o motivo das tantas brigas que estavam acontecendo.

De maravilhoso e feliz, o casamento começou a tornar-se um fardo, um martírio para Ana.

Ela e Davi brigavam quase todas as noites porque ele queria filhos e ela não.

- Aninha, meu amor, já faz quatro anos que estamos casados e não temos filhos. Eu sei que você quer ter, mas porque não os quer ter comigo?

- Não é com você o problema, sou eu.

- Você ainda pensa em Pedro. É por isso que não quer filhos. Você acha que ele vai voltar. É com ele que você quer ter filhos.

- Por que você tem sempre que falar nele? Quando eu acredito tê-lo esquecido você o traz de volta. Você sabe o quanto eu amei ele, o quanto ele foi importante pra mim, que marcou minha vida, mas, se aceitei me casar com você é porque quis enterrá-lo pra sempre. Não ressuscite-o. Deixe-o lá, no meu passado. Eu não cobro seus amores do passado, portanto, não cobre os meus.

- Ana, me desculpe, não quis magoá-la.

- Ultimamente é o que você mais tem feito. Acho que devemos nos libertar.

- Como assim?

- Divórcio. Vou voltar para o Brasil. Cansei de brigar.

- Eu não te darei o divórcio, nunca.

- Eu vou embora sem ele. Não pretendo me casar novamente mesmo.

- Eu não vou te deixar ir. Eu te amo.

- Mas você sabe que eu não te amo, que nunca te amei.

- Eu sei, mas meu amor é tão grande que serve pros dois.

- Eu não posso mais fazer isso. Eu quis te amar, quis muito, mas você não deixou. Sempre falando no Pedro, me fazendo lembrar dele, você é o único culpado de eu não te amar.

- Vamos tentar de novo. Se você não mudar de opinião eu t dou o divórcio e te deixo ir.

- Davi...

- Por favor, me dê uma chance. Afinal, você nunca me disse que eu estava te magoando.

- Tudo bem. Mas você só terá uma única chance.

A tentativa de Davi de salvar o casamento estava funcionando.

Ela estava começando a apaixonar-se por ele, estava esquecendo Pedro, não pensava mais nele e nem lembrava mais do passado, estava realmente feliz. Até que uma noite, véspera do aniversário de casamento deles, Davi chegou em casa irritado, bêbado e começou a gritar com Ana. Dizia coisas horríveis.

- Você é uma vagabunda. Você está me traindo. Sua cadela, nunca esqueceu ele.

- Do que você está falando? Pare com isso. Você sabe que me apaixonei por você, que não amo mais ele.

- Sua mentirosa. Só quer meu dinheiro e mais nada.

- Seu dinheiro? Não seja ridículo. Esqueceu que tenho mais dinheiro que você?

- Você nunca me amou.

- E você sempre soube disso, casou comigo sabendo que eu ainda amava outro, foi você quem quis casar mesmo assim, lembra?

- Cale a boca! Por que, Ana, você tem brincado comigo todo esse tempo? Não fui suficiente para você? Tinha que me trair?

- Eu nunca te trai. Eu até estou apaixonada por você.

- Seja sincera comigo. Você realmente se apaixonou por mim?

- Sim, você sabe que sim. Estou feliz como nunca estive antes.

- Então o que significa isso? – mostrou um papel

- O que é isso?

- Uma carta dele, pra você.

- Impossível, ele não sabe onde moro. Deixe-me ver isso.

- Quer ver? Pois pegue – jogou a carta nela – Leia e pense, planeje bem a mentira que inventará.

- Vou ler, se não se importa.

Era a letra dele, não tinha dúvida. Mas como conseguiu o endereço? Seus pais nunca dariam e Márcia, sua melhor amiga também não. Então como é possível? Só pode ser... O número do telefone. Só podia ser isso. Mas por que escreveria somente agora? A data era recente. Por que não ligou do seu celular? Precisava ter ligado da casa? Tentou se concentrar na leitura, mas estava difícil.

A carta dizia: "oi, faz tanto tempo, nunca te esqueci, sei que está casada porque seu pai fez questão de me dizer quando fui procurá-la, mas quero seu perdão. Sei que nunca me esqueceu, que ainda me ama, suas ligações provam isso. Eu também te amo e estou te esperando. Vou atender quando você ligar novamente. Te quero de volta. Te amo, Pedro."

- Eu não entendo. Quando chegou isso?

- Há dois dias. Vai atender quando você ligar. Quando você ligou pra ele?

- Logo que casamos, eu queria que ele soubesse que eu estava feliz, que havia casado, mas ele nunca atendeu e eu não liguei mais.

- Vagabunda. – Esbofeteou-a – Eu me esforçando para fazê-la esquecê-lo e você ligava pra ele... Nunca te darei o divórcio, nunca. Sei que você correrá para ele agora que sabe que ele te quer de volta, mas nunca será livre, nunca.

- Eu não quero o divórcio, Davi, eu não quero ser livre. Não vou correr pra ele porque eu tenho você, e gosto de você. Davi, vamos ter um bebê, por que eu largaria tudo pra ir atrás de um passado que eu não quero mais?

- Você está mentindo pra mim. Acha mesmo que vou acreditar que você se apaixonou por mim? – Sacudiu-a com força.

- Pare Davi, por favor, vai machucar nosso filho, Davi, não faça isso, pare, por favor...

Ao ouvir a palavra filho, Davi empurrou-a.

Ana se desiquilibrou e caiu, sentindo uma dor forte no abdômen.

Ao ver ela caída, com as mãos na barriga, Davi recobrou os sentidos.

Ela nunca havia visto ele daquele jeito, violento, logo ele que era tão carinhoso.

- Me leve ao hospital, acho que estou perdendo nosso filho.

Assustado, Davi pegou-a no colo e foi para o carro.

Ela havia planejado contar que estava grávida no dia do aniversário de casamento. Ia fazer uma surpresa para Davi, pois tudo o que ele sempre quis era um filho.

No hospital, Ana preferiu omitir a briga, pois, apesar de estar magoada, não queria que ele fosse preso.

Saber que ela tinha perdido o bebê fez Davi entrar em desespero.

- Eu não sei se algum dia você irá conseguir me perdoar, mas quero que você saiba que passarei o resto de minha vida buscando seu perdão.

Ana nada falou, apenas olhou bem dentro dos olhos dele.

Os olhos que antes eram brilhosos agora estavam sem vida.

Davi trazia nas feições a dor, estava com olheiras, pálido, parecia dez anos mais velho, Ana até sentiu um pouco de pena, mas sabia que nada seria igual.

Davi ficou no hospital com ela o tempo todo, no corredor, pois ela não o quis no quarto. Ele só entrava no quarto quando o médico chegava.

Dois dias após o ocorrido, Ana teve alta.

- Fui um tolo. Eu sei que nada vai justificar o que fiz com você, mas quando vi a carta... Fiquei um dia inteiro decidindo se abria ou não. E quando decidi abrir e ler... Foi terrível. Só queria beber e fazê-la sofrer como eu estava sofrendo.

- Eu não quero falar com você. Primeiro você abriu uma carta que não era pra você, depois você duvidou de minha palavra e o mais grave de tudo, você matou meu filho e com ele, qualquer chance de sermos felizes. Eu te juro, estava mesmo me apaixonando por você, mas você foi horrível. Fique feliz por eu não tê-lo denunciado à polícia pela agressão.

- Sei que o que fiz foi cruel, mas estava fora de mim, estava bêbado.

- Eu quero o divórcio. Vou voltar para o Brasil. Não tem mais como viver aqui com você depois do que aconteceu.

- Ana, por favor...

- Vou embora amanhã. Tínhamos chance de ser feliz, mas você pôs tudo a perder.

- É a sua decisão final?

- É.

- Você me odeia?

- Não. Deveria, mas não consigo, no momento só estou muito magoada com você. Quem sabe um dia passe.

- Vai procurá-lo?

- Não. Nunca mais.

- Pelo menos fique até se recuperar totalmente.

- Davi, não dá mais.

- Ana, por favor...

- Davi, não insista. Amanhã eu vou para o Brasil. Quem sabe um dia eu ainda o perdoe pelo que me fez. Só que agora não dá. Eu preciso ficar sozinha.

Davi saiu de casa sem se despedir. No dia seguinte Ana embarcou para o Brasil. Davi não havia voltado para casa e ela esperava vê-lo no aeroporto, pois por mais que ele tivesse batido nela, ela sabia que ele a amava e já havia perdoado as pancadas, só não o perdoara por tê-la feito perder o bebê, mas ele não apareceu para se despedir, e isso a deixou triste.

Capítulo 3 Descobrindo o amor

No Brasil a vida teve que recomeçar.

Dois dias depois que chegou, Davi ligou e assim recomeçou aquela velha amizade.

Ninguém questionou quando ela disse que o casamento não deu certo porque ela não queria filhos, pois ela não contou a ninguém o verdadeiro motivo de sua volta.

Não soube mais notícias de Pedro e nem procurou saber, o havia esquecido por completo.

Um ano depois de regressar ao Brasil, Ana recebeu uma ligação a deixou surpresa.

- Alô, é Ana?

- Sim, quem fala? – perguntou mesmo sabendo de quem se tratava, pois o sotaque era inconfundível.

- Maria, irmã do Pedro.

- O que quer? Como conseguiu meu número?

- Bom, eu tinha o número da fazenda, mas foi difícil de convencer seu pai a me passar seu número novo. Faz tempo que não nos falamos, e deve fazer tempo que você não fala com Pedro.

- Sim, faz muito tempo. Por quê?

- Pedro sofreu um acidente de moto, ele e Rosa. Ele está no hospital e só chama por você.

- E Rosa?

- Ela faleceu. Por favor, venha até aqui ver o que ele quer.

- E por que eu iria?

- Porque ele está sofrendo muito.

- E o que ele me fez sofrer não conta?

- Por favor, esqueça o passado. Venha vê-lo.

- E onde ele está?

- Na Argentina.

- E como foi o acidente?

- Ele soube que você havia voltado e queria te procurar, mas a Rosa não deixou. Vizinhos disseram que eles discutiram muito. Ele saiu mesmo assim e ela foi atrás dele de carro. Pararam num posto de gasolina para abastecer e o frentista disse que brigaram de novo. Ele bebeu e voltou para a estrada, ele queria chegar logo em sua casa, ela foi tentar pará-lo, ultrapassá-lo e não viu que vinha um caminhão, ela foi desviar e jogou ele contra um carro, o carro dela colidiu de frente com o caminhão. Ela morreu no local e ele foi levado mal para o hospital. Indiretamente a culpa é sua, você tem que vir vê-lo.

- Minha culpa? Não sei como poderia ser minha culpa, eu não tinha contato com ele há quase cinco anos.

- Eles não eram mais casados desde que ele escreveu pra você, ele me contou sobre a carta, e ela não queria que ele fosse te procurar porque temia que você o aceitasse de volta.

- Mas ela sabia que eu estava casada e morando em Portugal?

- Sabia, mas mesmo assim temia que ele a deixasse por você. Ele não a amava.

- Então por que ficou com ela tanto tempo?

- Por causa dos filhos. Ela ameaçou de sumir levando junto as crianças.

- E onde estão as crianças?

- Com meus pais. Você virá, não é?

- Não sei. Eu tenho seu telefone. Vou pensar depois eu te ligo.

- Sei que virá. Você o ama. Até breve.

Ana ficou chocada com a notícia e imediatamente ligou para Davi. Apesar de tudo o que acontecera eles ainda eram muito unidos.

- Davi!

- Oi meu amor. Como é bom ouvir tua voz.

- Preciso de tua ajuda.

- O que aconteceu?

Ana contou tudo, ele ficou chocado com o que ouvira.

- Você vai vê-lo!

- Não.

- Sei que vai. Você o ama.

- Davi...

- Ama! Vá, é a chance de esclarecer tudo. É sua chance de ficar com ele, já que a Rosa faleceu e ele está sozinho. Vá e seja feliz. – Ele estava triste, Ana podia sentir a amargura em sua voz e podia até ver a expressão de seu rosto, mas mesmo assim ele lhe dava apoio – Ana, você nunca o esqueceu e nunca o esquecerá. Sei que depois do que fiz, você não voltará pra mim. Vá em busca da sua felicidade.

- Mas eu não o quero mais. Só não sei o que devo fazer.

- Vá e dê-lhe uma chance de se explicar. Pelo menos servirá para você ver se ainda o ama.

- Como, se ele está delirando?

- Mas ele vai se recuperar. Só precisa vê-la.

- Não terei forças para ir sozinha. Ajude-me. Só posso contar com você.

- E o que quer que eu faça?

- Vá comigo. Como meu marido.

- Você ficou louca? Como pode me pedir isso?

- Preciso de você ao meu lado. Só você me dará a força que eu preciso. Por favor, Davi, vá comigo.

Ana chorava tanto que Davi estava prestes a ceder aos apelos dela.

- Vou pensar, depois eu te ligo.

Ainda desnorteada com a notícia, ligou para Márcia.

- E o que pretende fazer?

- Não sei. O que você faria?

- É uma situação complicada. E o que Davi disse?

- Que eu devo ir vê-lo.

- Sinceramente, eu não sei por que você terminou com Davi, se sempre que você precisa é pra ele que você corre.

- Márcia, ele fez coisas que me magoaram muito, e você sabe bem do que eu estou falando.

- Eu sei, o que ele fez foi muito errado, mas você deu motivos. E agora pede ajuda pra ele? Ana, ele te ama, como você acha que ele está se sentindo agora?

- Márcia, eu pedi pra ele ir comigo.

- Você o quê? Ana, você perdeu completamente o juízo, se é que algum dia teve. Como teve coragem de propor isso ao homem que te ama?

- Márcia, se ele não for, eu também não vou. Davi é meu porto seguro, do lado dele me sinto forte e protegida.

- Você quer que seu marido, o homem que te ama, te leve para os braços do seu ex, do homem que você sempre disse ser o "amor da sua vida"? Eu não entendo você.

- Márcia, você tem que me entender.

- Não, Ana, eu não consigo te entender. Mas a vida é sua e eu não posso vivê-la por você e nem mudar as coisas erradas que você fez, o que eu posso é tentar não te deixar errar mais.

- Você vem comigo?

- Eu? Pra quê? Só se for para esbofeteá-lo por tudo o que ele fez.

- Se o Davi for, eu vou, mas continuo achando que é loucura.

Ana estava ansiosa esperando a ligação de Davi. Não sabia qual seria sua resposta. Queria que ele fosse, mas temia que ele não aceitasse seu convite.

Eram quase vinte horas quando Davi finalmente ligou para Ana. Ela já não suportava a espera.

- Você demorou para ligar eu já não aguentava mais esperar.

- Boa noite pra você também. Sabe que horas são aqui? É assim que atende seu marido, que está no aeroporto pronto para ir te socorrer?

- Você virá? Sério? Ai, Davi, muito obrigada.

- Sei que estou assinando minha própria ruína, mas eu te devo isso, depois do que eu te fiz.

- Davi, você sabe que já esqueci tudo. Que aquilo está no passado. E você sabe que sou apaixonada por você. Quem sabe um dia eu te am...

- Não termine a frase. Ana, eu vou sim, te ajudarei, mas sem falsas esperanças. Eu já me conformei com essa situação. Eu fui, sou e sempre serei somente seu amigo, não é o que eu queria, mas me contento com isso, desde que possa falar contigo.

- Oh, Davi querido. Você não sabe o quanto é especial para mim.

- Ana, até amanhã. Daqui a alguns minutos estarei embarcando, quando eu chegar no Brasil eu te ligo.

- Vou esperar ansiosa pra te ver.

Foram nove horas de voo de Portugal a São Paulo, lá, ele teve que pegar outro voo para Porto Alegre, demorando mais duas horas. Depois, percorreu cerca de 290 km até chegar à Santa Maria.

Cerca de quinze horas depois ele chegava à casa de Ana.

- Davi! Que bom vê-lo. Achei que você havia desistido de vir.

- Ana, você sabe quanto tempo passei viajando, só para te entregar para aquele cara?

- Davi, você não vai me entregar a ele e você sabe disso. Eu já cansei de lhe dizer que eu não o amo mais. Mas venha, deixe de conversa e venha descansar um pouco eu imagino como você deva estar cansado dessa viagem.

- Sim. Estou louco por um banho e um uísque.

Ana levou-o ao banheiro e foi preparar o uísque pra ele, ela ainda lembrava-se de como ele gostava do seu uísque.

Meia hora depois Davi estava mais relaxado, sentado no sofá de Ana, com seu uísque em mãos.

- Eu não acredito que vou fazer isso.

- Se não fosse por você eu não iria vê-lo.

- Ana, eu sei que você daria um jeito e iria, mas quero estar com você nesse momento. Quero ver sua reação ao vê-o após esses anos todos. Quero ver se o ódio que você sente é maior que o amor.

- Eu não o amo mais.

- Isso eu vou saber depois de amanhã quando formos vê-lo.

- Depois de amanhã?

- Sim, eu não posso me ausentar por muito tempo nessa época do ano, você sabe como é corrido pra nós fazer a publicidade de todos os clientes no Natal. Eu vou ficar por aqui apenas quatro dias, não mais do que isso.

- Pensei que iríamos matar um pouco da saudade.

- Ana, você sabe que eu não posso. Ficar do seu lado e não poder te tocar é um martírio para mim. Não me torture mais. Não vê que eu já estou sofrendo com essa situação?

- Tudo bem, faremos como você quiser. Eu preparei o quarto de hóspedes pra você. Venha que vou mostrar onde fica.

- Não, eu vou ficar num hotel. Não há a menor possibilidade de eu ficar aqui, na sua casa.

- Por quê?

- Você sabe muito bem o motivo, não me faça repetir tudo o que eu falei até agora.

- Eu não aceito que você fique num hotel. Se não ficar aqui, não precisa nem ir comigo a Argentina.

- Ana...

- Não. É uma ofensa muito grande pra mim você ficar num hotel se tenho essa casa imensa.

- Tudo bem. Eu fico.

- Que bom. Agora, o que você prefere fazer hoje? Ir jantar com meus pais que não sabem que você viria ou ficar em casa descansando da viagem?

- Agora vou descansar um pouco e podemos sim jantar com seus pais.

À noite o jantar foi divertido e agradável. Toda família de Ana estava reunida e surpresa com a visita de Davi.

Difícil foi convencer o pai que ela precisava viajar. Davi até tentou explicar, mas Jorge estava furioso.

- Como depois de tudo o que ele fez você ainda vai procurá-lo?

- Pai, ele está muito mal e quer me ver. Devo ir.

- Não deve nada. E você não vai.

- Pai, não sei se o senhor lembra, mas eu já sou maior de idade e tomo minhas próprias decisões.

- Você vai procurar encrenca filha.

- Por isso chamei Davi para ir comigo. Assim eu não estarei só quando o encontrar novamente.

- Meu filho – olhou para Davi – não sei como você ainda corre pra ajudar essa maluca, eu no seu lugar nunca mais a procuraria, eu não sei de quem você herdou esse seu teimosismo.

- Não se preocupe Jorge, ela estará muito bem protegida comigo. Não deixarei aquele homem fazer nada contra ela.

- Já que não tem outra saída, tudo bem. Eu não vou mais me opor. Vá e resolva tudo de uma vez. Mas depois não venha chorar porque é isso que vai acontecer.

No caminho pra casa, Ana não conseguia parar de olhar para Davi. Como ele estava bonito. Parecia um pouco mais velho, cansado, mas continuava o homem lindo que sempre fora. Por que não se apaixonou por ele quando o conheceu? Por que não o amou como ele a amava? Teria sido tão mais fácil... Mas agora tinha a certeza que havia se apaixonado por ele, se não fosse o desastroso episódio, ainda estariam casados e com um lindo filhinho. Será que eles ainda teriam uma chance de ficar juntos?

"Eu não quero mais o Pedro, será que você não percebe isso, Davi? Será que não vê que eu estava quase te amando quando brigamos? Será que um dia ainda poderei estar do teu lado de novo? Ah, como eu queria voltar no tempo e não deixar aquele dia existir..."

- Um dólar por seus pensamentos...

- Hã?

- Seus pensamentos, um dólar por eles.

- Não. Eles são bem mais valiosos que isso.

- Estava tão pensativa que fiquei com ciúme.

- Ciúme de meus pensamentos? – riu – Pois te contarei sobre o que eu pensava. Eu pensava em nosso casamento.

- Como assim?

- Como eu poderia ter sido feliz se na época eu tivesse conseguido tirar de mim aquele homem.

Depois desse comentário, Davi nada mais falou até chegarem em casa.

- Eu sei que grande parte da culpa de você não tê-lo esquecido foi minha, e me arrependo dia após dia por ter feito você sofrer ao meu lado.

- Eu não quis dizer isso.

- É melhor nós dormirmos. Estou muito cansado.

Ana não imaginou que ele reagiria dessa maneira a um simples comentário. Não queria que ele pensasse que ela o culpava pelo fracasso do seu casamento.

Ele foi para o quarto e ela o seguiu.

- Podemos conversar um pouco?

- Acho melhor não. Vamos acabar discutindo e eu não quero isso.

- Eu preciso falar com você ou vou enlouquecer.

- Ana, qualquer assunto por mais importante que for terá que esperar até amanhã. Certo?

Delicadamente ele fechou a porta do quarto e a deixou do lado de fora.

Dentro do quarto, foi até a cama e sentou-se. Exausto, passou a mão pelo cabelo e suspirou.

- Eu não vou aguentar ficar perto dela sem poder tocá-la. E ela parece não perceber meu desejo, pois me provoca. Ana, Ana, se você soubesse como está sendo difícil pra mim... Mas vou até o fim, te devo isso. Do lado de fora, Ana não conseguia entender por que ele estava tratando-a com tamanha frieza. Mas resolveu deixá-lo descansar, não devia exigir nada dele, afinal ele já estava ajudando-a.

Ambos passaram a noite praticamente em claro. Ana pensando em como fazer para reaproximar-se de seu marido e Davi pensando em como iria ser seu futuro dali por diante sabendo que Ana, seu grande amor, estaria nos braços de outro.

Amanheceu e Ana levantou cedo para preparar o café. Iria fazer tudo o que ele gostava.

Preparou ovos, fez torradas e suco de laranja, café com leite e biscoito de chocolate, uma fatia de mamão e levou ao quarto onde Davi dormira.

Bateu à porta e esperou. Nada. Bateu novamente e nada. Encostou-se na porta para ver se conseguia ouvir alguma coisa e nada. Resolveu ver se a porta estava trancada. A porta estava aberta.

Entrou e pode ouvir com nitidez o som do chuveiro, ele estava no banho. Depositou a bandeja com o café no criado mudo e ia sair quando a porta do banheiro abriu e Davi saiu nu.

Constrangida, virou-se apressadamente.

- Desculpe, eu bati e você não respondeu, resolvi entrar. Trouxe o seu café.

- Não precisa ficar constrangida, há algo em mim que você não conheça mais?

- Não é isso, é que não estou mais acostumada a ver homens nus.

- Eu já resolvo esse problema. Alcance aquela toalha, por favor.

Ainda de costas ela alcançou a toalha, mas assim que ele pegou, ela virou-se e deparou-se com aqueles ombros largos que ela tanto admirava, com aquele peito forte que muito lhe aninhou quando chorava, aqueles braços longos que a abraçaram e aquela boca... Nossa! Aquela boca, que saudade sentia daqueles lábios macios e quentes.

Suspirou.

- O que houve?

Tirada de seus sonhos, ela corou.

- Nada não. Esquece. Olhe aqui está seu desjejum. Fiz tudo o que você gosta.

- Você ainda lembra-se do que eu gosto?

- Nunca vou me esquecer...

Ficou tão perto dele que chegou a sentir o calor do seu corpo.

- Ana...

- Não fale mais nada, só me beija...

Prontamente ele atendeu seu pedido. Abraçou-a e beijou-a com tanta força que Ana perdeu o fôlego.

Mas, de repente ele a soltou.

- Não faça isso comigo. Eu lhe imploro. Não brinque assim com meus sentimentos.

- Não estou brincando. Eu te quero e você sabe disso. Sempre nos acertamos muito bem na cama. Estou com saudade do seu corpo.

- Eu também sinto saudade, mas não podemos, eu não posso.

- Por que não?

- Porque depois você vai ficar com o Pedro e eu terei que partir sem você, tendo mais uma lembrança. Ana eu prefiro que continuemos assim, sem nos tocar.

Frustrada, Ana saiu do quarto.

- Como pude deixá-la sair? Sou mesmo um idiota. Devia tê-la amado, talvez assim ela desistiria daquele cara e voltasse comigo pra Portugal. Por que a deixei sair daqui?

Ana foi para seu quarto e lá deixou-se chorar.

- Ele não me ama mais, se me amasse teria feito amor comigo. Eu tentei mostrar a ele que Pedro não significa mais nada pra mim, mas ele não percebeu... Perdi ele...

Depois do acontecido, nenhum dos dois teve mais ânimo para conversas.

Resolveram que iriam de carro para economizar tempo.

Afinal não era tão longe assim, apenas mil e quinhentos quilômetros.

Cerca de seis horas depois eles chegavam em frente a um edifício verde. Era o hospital.

Na recepção pediu por Pedro Almodobar e a recepcionista lhe indicou o quarto.

Chegaria sem fazer barulho, pois ninguém a esperava naquele dia.

Foram para o quarto onde Pedro estava. A porta estava fechada. Ela parou e olhou para Davi e Márcia.

- Vamos, abra a porta.

- Não consigo.

- Então eu abro.

Davi abriu a porta e esperou Ana entrar, mas ela não se moveu.

- Não vai entrar?

- Não quero.

- Deixa que eu vou. – disse Márcia – Enquanto você se acalma um pouco.

Márcia entrou e Ana se jogou nos braços de Davi.

- Calma, agora que estamos aqui não há como desistir. Você tem que ir até o fim.

- Eu sei, mas não quero. Eu não quero mais vê-lo.

- Estou aqui do seu lado. Não vou deixá-la sozinha. Vamos abra a porta.

Ana suspirou e abriu a porta. Secou as lágrimas e respirou fundo. Pegou a mão de Davi com força e entrou.

No centro do quarto havia uma cama vazia. Olhou ao redor e viu próximo a janela uma cadeira de rodas, e Pedro sentado nela. Ele estava de costas de modo que não pode ver sua reação com a entrada dela.

Davi continuava segurando a mão dela, e isso não passou despercebido por Maria, que chamou Ana para um canto.

- Como você pode vir aqui com ele?

- Ele é meu esposo, por que viria sem ele?

- Você quer magoar meu irmão.

- Não. Agora, se me der licença, vou vê-lo, afinal não viajei até aqui para falar com você.

Ana chegou perto dele e chamou-o.

- Olá Pedro. Quanto tempo.

- Faz tempo, muito tempo – disse sem se mover. – O que faz aqui?

- Maria pediu que eu viesse. Ela disse que você queria me ver. O que quer?

- Será que todos podem sair e nos deixar a sós?

- Eu não vou deixá-lo sozinho.

- Maria, saia agora. Eu quero ficar sozinho com Ana. Temos muito que conversar. Você se importa se eu ficar sozinho com ela, Davi?

- De maneira alguma. Pode ficar, se ela quiser. – Você quer, meu amor?

- Sim, pode ir tranquilo, eu vou ficar bem.

- Sim, veja eu não farei mal nenhum a sua mulher – riu – E nem a mulher alguma pelo resto da vida.

Todos saíram. Ana pegou uma cadeira perto da cama e sentou na frente dele.

- Por quê?

- Por que, o quê?

- Por que você fez isso comigo? Por que mentiu, me enganou se tudo o que eu fiz foi te amar?

- Você ainda me ama?

- Não, mas muito tempo eu te amei e sofri e magoei muitas pessoas por isso. Faça-me entender por que você fez isso comigo.

- Eu precisei.

- Por que disse me amar se era tudo mentira?

- Meu amor por você nunca foi uma mentira.

- Foi. Você não imagina o que sofri.

- E você acha que eu não sofri? Eu dormia com ela pensando em você.

- Então por que ficou com ela?

- Chantagem. Ela me chantageou o tempo todo.

- E você foi fraco pra aceitar as chantagens dela?

- Sim, eu tinha que pensar em meus filhos. Eu não podia ficar sem vê-los. Você tem que entender.

- Não, eu não tenho que entender nada. Você deveria ter me contado. Eu teria ajudado você.

- Mas eu me cansei dela e sai de casa, até escrevi pra você.

- E por que nunca atendeu quando eu liguei?

- Não queria que soubesse que eu era um fraco.

- E por que escreveu pra mim depois de tantos anos se sabia que eu estava casada e fora do Brasil?

- Precisava fazê-la saber que eu ainda te amava e que estava livre pra você. Mas você não me quis mais.

- E por que você acha que eu voltaria pra você?

- Porque você também me amava.

- Mas você sabia que eu estava casada?

- Sim.

- E mesmo assim acreditou que eu largaria tudo pra viver um romance sem futuro com você? Você é um idiota.

- Mas consegui mexer com você, não consegui?

- O que você conseguiu foi arruinar um casamento de cinco anos e me fazer sofrer um aborto.

- Você se separou?

- Não. Só sai da casa dele e voltei a morar no Brasil.

- Mas estão juntos de novo, ou ele não viria com você.

- Estamos tentando nos entender de novo, ele me ama e eu gosto dele.

- Então, por que veio aqui se não me ama mais?

- Precisava te ver e ouvir da sua boca o motivo pelo qual você me enganou há sete anos atrás.

- E agora que sabe o motivo, consegue me perdoar?

- Não sei. Isso só o tempo poderá dizer. E você, por que pediu que eu viesse?

- Eu precisava vê-la. Quando soube que você havia voltado para o Brasil tentei te procurar, mas Rosa me ameaçou com meus filhos e eu novamente não fui. E agora me tornei esse fardo. Dependo dos outros pra tudo. Eu não queria que você me visse assim. Queria ter te encontrado quando eu ainda podia te fazer feliz.

- Você não pensa que estar assim pode ser seu castigo por tudo o que me fez sofrer?

- É pode ser. Mas me arrependo de tudo o que eu fiz, isso não conta?

- Pra mim não. Mas Deus é o único que poderá te ajudar.

- Você perdeu mesmo um filho?

- Perdi. No dia que recebi sua carta. Davi achou a carta e leu e nós brigamos e eu abortei.

- E você amou seu marido?

- No começo não.

- Ele sabia de mim?

- Sim, e sabia também que eu não o amava, mas sempre foi fiel e nunca mentiu pra mim.

- Vocês ainda se falam?

- Quase todas as noites.

- E você foi feliz enquanto casada?

- Até certo ponto fui. Só não fui mais feliz por que eu não deixei. Não conseguia te esquecer. E você, foi feliz com Rosa?

- Não. Por isso pedi que te chamassem. Vou entender se recusar meu pedido porque agora não sou um homem inteiro, não posso mais satisfazer uma mulher, mas, fique comigo até eu morrer.

- Será que eu escutei bem?

- Sim, fica comigo. Eu te amo e você acabou de me dizer que não ama seu marido.

- O que eu disse é que não amava meu marido, porém agora eu o amo, amo muito e é por isso que estou lutando para reatar nosso casamento. E tem mais – levantou a mão esquerda e mostrou a grossa aliança de ouro no dedo – Eu ainda sou casada.

- Mas não mora mais com ele.

- Sim, mas isso logo vai acabar, porque eu voltarei com ele pra Portugal daqui a uns dias.

- Se você não me queria mais porque veio até aqui?

- Para mostrar pra você que eu sou feliz, que demorei, mas consegui reconstruir minha vida. Pedro eu não quero mais você. Não te amo mais, e isso é pra valer.

- Você está falando isso da boca pra fora, eu sei que no fundo você está louca pra se atirar em meus braços e ser beijada por mim.

Ana riu.

- Você é mesmo um louco se acredita que eu queira isso. Escute o que eu vou te falar agora por que eu não pretendo repetir nunca mais. Eu não te amo e não pretendo ficar com você, nem por amizade nem por piedade porque você não merece minha piedade. Você não merece nada de mim. Agora eu vou embora. Já fiz o que vim fazer.

- Você deve estar muito feliz por me ver assim, sofrendo.

- Você está muito enganado. Eu nunca quis o seu mal, mas se você está assim, você é o único culpado por isso. Eu te dei o melhor de mim, o que de melhor eu tinha pra te dar, o meu amor e você só mentiu pra mim.

- Eu também te amei muito e ainda te amo.

- Pedro, não quero mais saber do seu amor. Seja feliz e me deixe ser feliz também.

Ana saiu do quarto aliviada. Como precisava ter falado tudo isso com ele.

No corredor, Davi a esperava ansioso.

- E então, como foi?

- Difícil. Mas tudo acabado. Vamos sair daqui?

- Tem certeza?

- Tenho, só preciso antes falar com os pais dele e depois podemos ir embora. Você tinha razão eu precisava ter vindo. Muita coisa foi esclarecida e agora enfim posso seguir minha vida sem olhar para trás.

- Que bom que você está assim, tão aliviada e tranquila.

Na recepção encontrou os pais dele.

- O senhor me mantém informada. Qualquer coisa, me ligue. Eu quero saber tudo o que acontecer com ele, eu vou ajudar no que for preciso, porém nem ele nem Maria podem saber.

- Certo, iremos precisar mesmo de ajuda. Você está sendo muito gentil em ajudá-lo depois de tudo o que ele fez.

- O senhor sabe de tudo?

- Sim, ele contou assim que recobrou a consciência. Não entendo como ele pode fazer isso com você.

- Isso agora é passado, eu não o amo mais, mas isso não significa que quero seu mal. Veja, este é meu esposo, e é graças a ele que hoje estou aqui, ele me incentivou a vir ver como seu filho está, e será ele que vai me ajudar a ajudar vocês.

- Saiba que meu filho amou você de verdade.

- Eu também o amei, muito, mas agora como o senhor está vendo, eu tenho minha própria vida e ele não se encaixa mais nela. Não posso ficar vivendo no passado, até mesmo porque eu já não amo mais seu filho faz tempo.

- Pode ir tranquila que eu vou mantê-la informada de tudo. Obrigada por ter vindo.

No caminho de volta Ana estava triste.

- O que aconteceu?

- Ah, Davi, eu não o amo mais, mas também não gostei de vê-lo naquela cadeira. É triste. Eu ficaria assim por qualquer pessoa que eu conhecesse.

- Eu sei Ana. E entendo se precisar, podemos parar e você toma alguma coisa.

- Não, quero ir pra casa. Estou bem. Foi bom ter vindo. Enterrei de vez meu passado e isso é bom. Só uma coisa me deixou intrigada, ninguém comentou sobre a morte de Rosa.

- Como assim?

- Não sei, parece que tem algo que não se encaixa nessa estória toda. Mas pode ser só cisma minha.

- Agora que você falou, eu também estranhei uma coisa, quando eu bati na porta, alguém pediu quem era e não era nem a irmã nem a mãe dele, era voz de outra mulher. E quando entrei, eles estavam um pouco nervosos.

- Sério? Então eu não estou errada. Tem alguma coisa que eles estão me escondendo. Mas eu vou descobrir.

Chegando em casa, Ana procuraria o número do telefone do detetive particular que a havia ajudado no passado. Ele descobriria tudo o que ela queria saber.

Deixaram Márcia em casa. Chegaram em casa já era alta madrugada. Ambos cansados.

- Vou tomar um banho e vou dormir. Foi um dia exaustivo.

- Vou fazer o mesmo. Eu sabia que o dia hoje ia ser difícil, mas não imaginei que ia ser tanto assim.

- Você está bem?

- Estou. Parece que acabei de sepultar um ente querido, mas estou em paz. Estranho isso.

- Vai ver como sua vida vai mudar de agora em diante. É bom quando se resolve assuntos pendentes. Mas agora, amor, eu preciso mesmo dormir. Amanhã eu viajo de novo e preciso estar descansado.

- Você volta para Portugal amanhã?

- Sim, o voo é à noite.

- Por favor, Davi, fica aqui mais uns dias.

- Ana, você sabe que eu quero, mas não posso. Nós já falamos sobre isso.

- Por que você não me dá uma chance de te mostrar o quanto eu te quero aqui?

- Porque você precisa pensar no que quer realmente. Eu estarei te esperando, mas só quando você tiver certeza absoluta de que sou eu quem você quer. Antes disso, não.

Foi para o quarto e sentou-se na cama.

Novamente teve que lutar contra o desejo de abraçá-la, mas sabia que havia feito a coisa certa. Ela ainda estava confusa. Podia dizer que não, mas ele sentia seu coração agitado.

Ana, decidida a não deixá-lo ir embora foi até o quarto onde ele estava.

Chegou no quarto e ia bater na porta quando decidiu entrar.

O quarto estava vazio. Ana ouviu o barulho da água do chuveiro, ele estava no banho.

Decidida, foi até o banheiro, e como sempre, a porta estava aberta, ele nunca tomou banho com a porta fechada. Entrou.

Ele ainda não tinha visto ela, quando a porta do boxe abriu e ela entrou nua.

Nada falou, simplesmente abraçou-o e beijou-o.

- Não vou deixá-lo ir embora, não dessa vez.

- Ana, o que você está fazendo aqui?

- Eu vim pra te mostrar o quanto eu te quero, o quanto estou certa do que quero, e o que quero é ficar com você.

Abraçada a ele, Ana colava cada vez mais seu corpo ao dele.

- Davi, você já se esqueceu de como fomos felizes?

- Não. E também não esqueci o quanto te fiz sofrer. Ana, por favor, não faça isso comigo...

- Você não me quer? Se não me quiser eu saio agora. É só dizer.

- Você sabe que não é isso, sabe que eu te quero muito, que te amo muito, mas...

- Então deixa os medos e me ame, como só você sabe.

Sem poder mais resistir ao calor do corpo dela, Davi sucumbiu à paixão. Se iria sofrer depois, não importava, o que ele queria era tê-la em seus braços mais uma vez.

Sentia falta do corpo dela, dos beijos dela, dela toda. E agora, após um ano, iria acabar com toda essa saudade.

- Você é linda, não sabe como esperei por esse dia. Saí com várias mulheres durante este ano, mas nunca aconteceu nada, eu só pensava em você.

- Agora você está aqui comigo. Vem amor, eu quero você.

Davi não resistiu mais e levou-a para o quarto. Deitou-a na cama e começou a beijar-lhe os seios.

A cada nova carícia Ana sentia milhões de explosões em seu peito.

Não lembrava ter sentido isso quando ainda era casada com ele. O que teria mudado nesse um ano?

Sem resistir mais ao desejo, Davi a possuiu. No começo, foi selvagem, como se precisasse do corpo dela para viver, aos poucos foi se acalmando e tornando-se carinhoso, o que levou Ana ao delírio.

O cansaço da viajem desapareceu e ficaram a noite toda se amando.

Quando adormeceram já era dia claro.

Quando acordou, a cama estava vazia, Ana sentiu uma sensação de abandono, procurou-o pelo quarto, mas ele não estava. Olhou para o relógio no criado mudo, já passavam das quatorze horas. Onde ele estaria? Que horas seria o voo dele? Ela não lembrava, mas ele não iria viajar, depois da noite que tiveram, sem se despedir. Ou iria?

Ana ficou agitada. Chamou-o, mas ninguém respondeu.

Chamou mais duas vezes e nada.

Levantou-se, vestiu-se apressadamente e foi para a cozinha. Percorreu cada cômodo da casa e n ao o encontrou. Onde ele estaria?

Foi até o telefone e resolveu ligar para ele.

Estava discando o número quando a porta se abriu e ele entrou sorrindo.

- Acordou, dorminhoca? Achei que iria passar o dia todo na cama.

- Onde você estava? Eu estava apavorada achando que você tinha ido embora.

- Eu fui fazer compras. Temos que comer. Não podemos viver só de amor.

- Ah, Davi, por que não me avisou que sairia?

- Achei que fazia hora voltar antes de você acordar. Desculpe amor se te deixei preocupada.

- Tudo bem, já passou. Enquanto você cozinha, eu vou tomar um banho. Certo?

- Certo, vou fazer tudo o que você gosta. Vá lá e fique cheirosa pra mim.

Foi até ela e beijou-lhe a testa. Em resposta, Ana abraçou-o e beijou-lhe os lábios.

- Estou feliz que esteja aqui.

- Estou feliz por estar aqui.

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