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Kendra - O Nascer da Fênix

Kendra - O Nascer da Fênix

Autor:: Maju Sadowski
Gênero: Aventura
Irina é uma guerreira que foi moldada às demandas do reino para caçar e matar bruxas. A vemos tendo vários encontros com essas e ela as mata sem piedade. O que acontece, é que descobrimos que essa guerreira é na verdade, a rainha das bruxas em uma pele humana. Essa salvadora então se livra da pele e salva as bruxas ali aprisionadas, passando a ir para seu acampamento para onde mandava essas bruxas que supostamente matava. Um príncipe humano chegou para abalar as estruturas de Irina, na verdade, esse não é seu nome, e ela o viu como inimigo por causa das suas raízes, porém numa aventura pelo reino, ela percebe que ele não é nada como o pai. Eles dois serão os famosos inimigos a amantes. E terão uma conexão inexplicável desde o início. Ao fim da obra, eles enfrentam o rei e descobrem terríveis verdades. Qual será o impacto em suas vidas?

Capítulo 1 Prólogo

Sou arrastada e atirada ao chão por um dos soldados que me trouxeram até aqui. Me levanto rapidamente e aguardo por instruções. Enquanto isso, dou um giro pelo lugar, observando os meninos e meninas que estão "treinando". Eles estão se agredindo com tanta ferocidade, que mesmo sangrando, não param.

De repente, um vulto se move ao meu lado, e então, recebo um chute totalmente gratuito, no estômago. Começo a chorar imediatamente enquanto balbucio:

- Pare, por favor - levanto a mão. - Está me machu... - a desgraçada desfere um soco em meu rosto, fazendo com que eu caia com tudo no chão.

A vejo levantar os olhos para um homem que reconheço como a autoridade máxima desse local, o Grande Mestre, que acena em minha direção. Não entendo de imediato o que o gesto significa, mas descubro rapidamente quando ela começa a desferir golpes incontáveis em minha direção. Ela chuta todas as partes do meu corpo com toda a sua força, e logo, fico inconsciente.

§§

Quando abro os olhos, acredito ser outro dia. E ao sentir dor em todos os lugares do meu corpo, percebo o quão horrível é este lugar. Eu tenho apenas sete anos. Obviamente, não sei me defender ou revidar golpes como aqueles. E pensei que, treinamento, significaria ser treinada e não espancada.

Mas com isso, aprendi uma grande lição: se não souber o que fazer, faça qualquer coisa, menos nada. Sério, eu deveria ter feito qualquer coisa para tentar me defender. Empurrar, correr, bater. Menos nada. E foi exatamente o que eu fiz: nada. Escuto uma movimentação e permaneço imóvel, mantenho os olhos fechados evitando respirar, com medo do que pode acontecer a seguir.

Um soldado entra no ambiente e arranca minhas cobertas.

- Acorde, está na hora do treinamento - um arrepio percorre minha espinha ao ouvir as palavras do homem.

Arregalo os olhos, abrindo-os de supetão e questiono:

- Mas como assim? Eu estou toda machucada - choramingo.

Ele abre um sorrisinho de escárnio.

-Não espere que por causa de sua incompetência você iria ter direito a descanso. Você nasceu para servir, a sua vida não pertence a você.

Eu apanhei muito nesse dia também. Em outros dias, eu implorava por um copo de água ou uma pausa de um minuto apenas para tomar fôlego. E minha resposta sempre era a mesma, apenas dita de formas diferentes: socos, chutes, chicotadas, para eu aprender que ainda existem dores piores do que a que eu estava sentindo. E acredite, existem mesmo.

O treinamento físico consiste em te levar ao seu limite. Nas aulas teóricas, em que, basicamente, aprendemos pelo que vamos lutar (que eu resumo em: caçar e matar bruxas pelo reino), e que eles fazem um treinamento tão pesado para nos levar ao nosso extremo, e quando chegamos lá, aprendemos que nosso corpo e mente aguentam um pouco mais.

Principalmente a sua mente. É ela que você deve trabalhar. Você se surpreenderia com quanta pancada seu corpo pode levar. Um rapazinho bondoso, chamado Tom, me deu uma "dica", ele disse para eu aprender a blindar a mente antes de aprender a defender meu corpo. Eu não entendi a princípio, mas logo ficou claro: não adianta o quanto eu choro ou peça para parar. Isso não vai acontecer.

Como eu disse, o treinamento te lapida para aguentar situações extremas. Apanhei muito antes de aprender a bater. E quando aprendi, a raiva que cresceu dentro de mim serviu de combustível para fazer todos que me desafiavam sangrarem. Até que me colocaram para treinar com os mais velhos, já que não havia mais meninos ou meninas da minha idade que fossem páreo para mim.

Disso surgiu uma rivalidade entre mim e Ólive, a garota que me espancou em meu primeiro dia. Ela era a favorita, a melhor. Mas eu me sobressaí de todas as maneiras possíveis, ofuscando-a. Essa garota é uma vadia desde sempre. E não se importa em criar as mais diversas picuinhas entre mim e as pessoas daqui. E quase todos me odeiam, mesmo que a estrelinha os maltrate.

Ao aprender a suportar a dor física, também deixei de me importar com tudo e todos e não me importo de ser sozinha. Eu tenho um propósito maior.

Mas tento não pensar no assunto, porque essa é a única vida que conheço e conhecerei. Ao longo dos dias, entendi exatamente o que o soldado quis dizer quando falou que minha vida não é minha. A vida de todos nós pertence ao rei de Kylanir. Que é a quem servimos, e de quem um dia, receberei a maior honraria entre nós, soldados: a de guardiã.

Capítulo 2 Bérilo

10 ANOS DEPOIS

Acordo com as trombetas tocando, um anúncio e um aviso de que todos devem se levantar imediatamente. Pulo da cama e visto minha roupa de treino: um conjunto de moletom preto e largo, que não pode e nem deve marcar minhas curvas, já que, segundo o Grande Mestre, não podemos "copular", já que somos soldados e também a escória. Nascemos para servir e não somos ninguém.

Motivacional, né?

Deixo Ólive dormindo e faço tudo o mais silenciosamente possível. Essa menina que se dane. Espero que leve chicotadas para acordar. É óbvio que as duas melhores seriam colocadas no mesmo quarto. Temos a "regalia" de não dividi-lo com mais duas pessoas e ter um banheiro em anexo. Amarro os cadarços do coturno e desço para comer.

Enquanto passo pelo corredor, as pessoas vão abrindo espaço para mim, mal olho em seus rostos, e ninguém é corajoso o bastante para encarar o meu. Afinal, eu sou a cadela do Grande Mestre. O nome dele é Ryan. Um nome de merda para uma pessoa mais ainda.

Ele me designa para as missões mais importantes que recebe porque eu raramente falho. Raramente? A quem estou tentando enganar? Eu nunca falho. E é por isso que recebi aquele apelido carinho, muitos ficam presos por semanas aqui, já que ele prefere me mandar em todas as missões possíveis, já que o êxito lhe assegura muitos e muitos louros.

Entro no salão e sou recebida pelo cheiro de mingau, pão, frutas e cervo. Meu estômago ronca de fome. Me sento em uma mesa ainda vazia – e que nunca tem mais do que as quatro pessoas que eu tolero, na verdade, Ólive nunca deveria entrar nessa conta.

Eu não a tolero, mas ela se faz ser engolida goela abaixo.

Uma das moças da cozinha traz meu café. Exatamente aquilo que farejei: mingau, pão, frutas e cervo. Sorrio para ela e agradeço gentilmente o favor. Na verdade, elas são as únicas que realmente gosto e têm meu raro e sincero sorriso. Para estar aqui, só pode haver duas opções: 1- Você foi vendido como escravo, é órfão ou foi abandonado. E 2- você se voluntariou.

Quem não tem serventia para ser soldado se enquadra no que eles chamam de ajudantes. Entre eles, estão os cozinheiros e os que cuidam da limpeza. Em suma, somos todos escravos. Já que apenas "trabalhamos" para o reino sem jamais ganhar nada em troca.

Não sei como perceberam alguma força em mim no dia em que cheguei aqui. Mas fico feliz por isso, senão estaria com a barriga na beira da pia, ou morta por arremessar a bandeja na cara desses folgados que agem com superioridade - mesmo não podendo escolher a própria vestimenta.

Mas é isso, já me conformei. Uma vez guardião, sempre guardião. As pessoas são realocadas depois de categorizadas. Temos alguma notoriedade fora daqui, somos vistos como os grandes guerreiros do rei, mas ainda assim, é redundante. Não podemos constituir família, nem nos relacionar... Não que eu queira alguma dessas coisas, mas gostaria de ter o direito de escolha.

- Oi, rabugenta – diz Tom.

Um daqueles que eu suporto.

- Oi, raio de sol – devolvo com a voz afetada.

Ele franze as sobrancelhas.

- Por que seu cabelo está solto?

Passo a mão involuntariamente sobre meus cabelos só para encontrá-los firmemente presos em um coque baixo. Tom morre de rir da minha reação. Não posso culpá-lo.

Mostro a língua para ele.

Mas realmente não me lembro de ter prendido meu cabelo antes de sair do quarto. Todos somos obrigados a cortá-los de acordo com as regras do regimento. Nós mulheres, por exemplo, os cortamos um pouco abaixo dos ombros e retos, fáceis de prender. Nunca maiores, nunca menores. Também seguindo o padrão já pré-estabelecido pelos Mestres do Rei, Tom tem seus cabelos louros em um corte baixo, raspado dos lados. Por isso eu odeio aqueles que se voluntariam.

Quem em sã consciência iria querer isso?

Em contraste com o cabelo de Tom, os meus cabelos são pretos como nanquim, bem como meus olhos. É impossível ver a pupila. Acho que me confere a aparência de implacável e filha do diabo, como me chamam pelas costas. Como se eu não soubesse. Não que digam isso para mim, eles não têm coragem para isso. Mas Ólive adora me contar.

O rapaz à minha frente devora o café da manhã, idêntico ao meu. Tom gosta de homens, o que torna a vida dele mais difícil do que o normal, já que sua tentação dorme sob o mesmo teto. E só por isso, eu quase gosto dele. Já ouviram aquela expressão: o que os olhos não veem o coração não sente?

Os olhos de Tom veem até demais, e esse é o problema.

- Irina – me viro a contragosto em direção à voz. - Você vai sair em missão hoje, se apronte.

Que novidade...

- Sim, senhor – digo ao Grande Mestre. Que apenas me olha de cima a baixo e vai em direção à sua mesa. Seu olhar parece me despir. E toda vez que vejo esse homem, tenho vontade de enfiar minhas unhas em seus olhos.

Unhas que não posso deixar crescer – a instituição não permite. Engulo meu mingau e uns pedaços de carne. Sara e Cam aparecem a essa altura, mas nada de Ólive. Abro um pequeno sorriso, deve estar dormindo ainda.

- Tom, você sai em missão comigo hoje.

Sara e Cam me lançam olhares de súplica, doidos – como qualquer um em sã consciência – para sair desse lugar. Mas minha decisão foi tomada. E a coisa que mais odeio é ser questionada. Odeio ainda mais do que a submissão. Levanto e vou vestir minha armadura.

Bom... Hoje, ao invés de treinar, irei colocar minhas habilidades em prática.

§§

Fomos mandados para a floresta de Bérilo. Eu amo e odeio esse lugar.

Amo porque a paisagem é exuberante, e acho que não existe nada que se compare à floresta das águas. Há rios e riachos para todos os lados, vegetações rasteiras e azuladas se espalham por todo o terreno, pequenas árvores que batem, no máximo, em meu ombro e uma variedade de arbustos que chegam até minha cintura. Tenho um metro e setenta.

Não entendo por que alguém se esconderia aqui. Há peixes, anfíbios e uma infinidade de cobras. Quase todos venenosos, então, nada de alimentos. Não há cavernas e é quase impossível fazer fogo, nuvens de chuvas passam de um lado a outro pelo território, a cada quinze minutos. E é por isso que odeio esse lugar: é impossível ficar seca. Resumindo: sem comida, sem fogo e sem abrigo.

Por que uma bruxa se esconderia aqui? A não ser que seja uma que tenha afinidade com esse elemento. Mas para sobreviver aqui, teria que ter um poder considerável, e não acredito que uma bruxa desse porte possa ser encontrada aqui. Na verdade, não sei se ainda existem bruxas fortes assim.

- Encontrei uma pegada – diz Tom.

Entediada e um pouco incomodada de ter sido tirada dos meus devaneios, vou analisar a "pegada". Inflo as narinas e o olho com raiva.

- Essa pegada é sua, Tom, por favor, não me faça perder tempo.

Ele encolhe os ombros e tem a decência de parecer se sentir culpado, e com um pouco de medo.

- Desculpa, Erin, eu não me lembro de ter passado por aqui - ele diz.

Capítulo 3 Morgana

Pisco para clarear a mente e olho em volta. Sim, nós passamos por aqui. E como eu deixei Tom liderar o caminho, nos perdemos do rio principal, que corta toda a Bérilo. Ele serve de bússola para não se perder nesse lugar. Não posso nem ficar com raiva, já que fui eu que me esqueci de que ele tem um senso de direção ridículo e sou a líder da missão.

Farejo o ar para tentar me situar. Nada do cheiro das árvores frutíferas da Floresta de Adamina. A floresta que estamos fica na extremidade oposta à de Noor, então é mais gelada e úmida. Se a vegetação estiver mais esverdeada do que azulada, significa que estamos nos aproximando do Leste, que infelizmente, não é o caso, já que quase posso ver os galhos acinzentados de Zéfiro. Se a bruxa entrou lá... Teremos um pequeno problema.

Não viemos preparados para o frio da Floresta do Ar, nem com sapatos apropriados, com garras para fincar no chão para o caso de sermos pegos por um vento mais agressivo. Não, nem ela seria doida o suficiente para se enfiar lá, com certeza foi para o Leste, mas já que estamos aqui, não custa checar o córrego mais próximo antes de dar meia volta.

Vou olhando em volta, atenta a todo e qualquer movimento. Antes de me aproximar da água, percebo que tem algo errado. O cheiro de peixe podre invade meus sentidos de tal maneira que fico tonta e automaticamente enjoada. Dou cinco passos à frente e posso avistar pedaços de peixe espalhados por toda a extensão à beira do pequeno rio. Ela deve estar tentando disfarçar seu cheiro, porque os peixes estão apenas eviscerados, com parte alguma faltando.

Então a nossa linda bruxa não é burra e provavelmente conhece a área. Já que pelas faixas vermelhas percebo que essa espécie de peixe é extremamente venenosa. Como eu suspeitava, a bruxa deve ser poderosa e dominar um desses elementos – água ou ar, se não os dois. Já que sabe que poderia ser identificada pelo cheiro. Mesmo por humanos.

Tom mantém uma distância segura de mim e do córrego, o cheiro de seu medo preenche o ar.

- Cadê você, bruxinha... – murmuro.

Que seja eu a encontrá-la. A ansiedade e a adrenalina começam a aquecer as minhas veias. Meu coração bate loucamente pela ansiedade, mas não encontro nada. Caminho lentamente até a água e vejo pequenas sereias nadando por ali.

Coloco a mão em minha espada, apenas para me certificar de que ela está ali e me sentir segura. Eu só confio em minhas habilidades e nessa espada, que nunca falhou comigo. Me agacho para testar a água e as sereinhas se aproximam para pegar minha mão.

Seus dedinhos gelados têm garras que cortam mais do que se pode imaginar com essa delicadeza disfarçada. Elas são predadoras, e se as criaturas do rio não mexem com elas...

Mas elas nada fazem a mim. Pelo contrário, uma, que não deve ser maior que meu braço, me encara com olhos violeta grandes demais para seu rosto delicado e aponta de forma sutil para minha esquerda. Quando eu olho para a direção que apontou, tenho um segundo antes de perceber os olhos azuis cobalto brilhantes.

A bruxa salta da água com uma força impressionante e cai sobre mim, em um baque surdo quando atingimos o chão. Enquanto rolamos pela margem, finalmente consigo sentir seu aroma: menta, algas marinhas e pinha. Ela é uma dez. Pelo cheiro, é evidente que ela domina tanto a água quanto o ar.

A Dez tem uma pequena vantagem ao pular sobre mim, me pegando de surpresa. Uma vantagem que não permitirei que ela aproveite. Lhe dou um chute no estômago e rolo por cima dela. Seus braços são magros e fracos, mal parecem ter força para qualquer coisa. No entanto, a adrenalina lhe dá forças, e mal consigo contê-la enquanto ela se debate e grunhe como um animal selvagem.

Desfiro um soco em sua têmpora, o que parece desconcertá-la por um momento. Estico o braço para alcançar minha espada, mas ela agarra meu pescoço e começa a sacudi-lo com força. Isso dói pra caramba e também me irrita profundamente. Puxo seus braços com uma força exagerada, o que parece machucá-la.

Prendo seus braços debaixo dos meus joelhos e dou um grito de raiva em seu rosto. Ela para de se debater apenas para dar uma cabeçada na minha testa. Minha visão escurece, e acabo rolando para o lado, o que acaba sendo uma sorte, já que desembainho minha espada. Tenho que admitir, o esforço vale a pena.

Quando ela avança novamente sobre mim com unhas e dentes, cravo minha lâmina em sua barriga. Quando nossos olhares se encontram, há reconhecimento e algo mais neles. Algo que me recuso a interpretar.

- Sou Morgana – diz ela com a voz fraca e rouca, e isso é tudo que ela consegue pronunciar antes de se transformar em cinzas.

Tenho pesadelos com olhos cor de cobalto e essa única frase por semanas. O que me deixa mais mal-humorada do que já sou normalmente. O que é muito. Tipo, muito mesmo.

Treinei 10 vezes mais até estar exausta o suficiente para apenas me jogar na cama e apagar na mesma hora. Queria que o cansaço fosse suficiente para me ajudar a não ter sonhos, mas não é. O que é frustrante. Por que ela foi me dizer que seu nome era Morgana? É tão mais interessante matar desconhecidos.

Algo me desperta, e demoro alguns segundos para me situar, ainda não é de manhã. O que me acordou não produziu som. Meu coração está batendo tão forte que a impressão que tenho é a de que vai sair pela boca a qualquer momento. O pânico que percorre meu corpo é surreal.

Quando consigo controlar minha respiração, finjo virar de lado e tiro devagar a coberta de cima do meu corpo. Conto até três, e então me levanto, fingindo estar grogue de sono. Tenho que ser rápida agora, antes que ela perceba o que está acontecendo.

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