Dash Kavanaugh é irlandês. Mesmo não existindo mais o conceito de países e dele mesmo ter votado em uma ação Global, para a existência de um governo único, mesmo com a descoberta dos não naturais, como são chamados, os supra humanos, assim catalogados pela ciência genética, ainda assim, nasceu na região da Irlanda e assim continua se considerando. É o filho mais jovem da alcateia dos Kavanaugh e por isto um dos guardiões da floresta, e pelo rumo da apresentação, você já deve ter percebido que ele é um lobisomem. Não um lobo e não um humano, um lobisomem, nascido de mãe e pai lobisomens.
De uma longa e antiga alcateia. Uma das esperanças de seu povo para demonstrar que é tão normal quanto um humano comum. Os humanos agora, obviamente os caçam, como se fossem um perigo para a sociedade. Uma injustiça! Eles são até pacíficos demais, por isto vivem em locais encantados da floresta e cidades secretas no subsolo do planeta, não apenas os lobisomens, mas todos os tipos de criaturas existentes no mundo e que hoje se escondem nos lugares mais inóspitos possíveis. Apenas para preservar suas raças. A ONU é a maior responsável por sua preservação e é também quem detém o poder do planeta. Por causa dela a caça foi criminalizada e mesmo assim as pessoas ainda têm sociedades secretas que continuam caçando-os.
Mas os lobisomens continuam tentando mudar isso. Antes, os supra humanos uniam-se apenas com os da mesma raça, por segurança apenas, mas agora decidiram se unir com os humanos para que seus filhos sejam meio humanos e meio supra humanos. Para isto precisam ficar em uma lista de espera, apenas os que querem, óbvio e viajam para locais pré-definidos, onde terão suporte e viverão tranquilamente entre os humanos. Estudam, trabalham e conseguem se relacionar. Muitos passam a viver com suas famílias e realmente se apaixonam pelos parceiros. Hoje, Dash fará a primeira viagem para terminar a faculdade.
Entrará na nova faculdade como veterano em transferência. Terá sua própria casa e carro. Trabalhará e ganhará o mesmo que os humanos ganham normalmente nesta nova sociedade. Mas estará o tempo todo com o suporte que o programa oferece e se precisar, será retirado para proteção. Mas isto é uma outra realidade. Só retiram o participante se ele for descoberto ou se houver uma mínima ameaça. Cada casa usada pelos supra, tem uma entrada para o subsolo ultra secreta. São casas comuns mas que todos os supra conhecem, assim como algumas igrejas, secretamente, abrigam entradas para cidades de supra abaixo delas.
No momento, ele usa sua caminhonete apenas com seus pertences e a ansiedade de viver uma nova vida o invade. O relógio do painel mostra que são apenas 17h. É uma sexta feira. Segunda será o seu primeiro dia de aula na faculdade de humanos. Mal consegue esperar para conhecer e interagir com pessoas normais, para viver em uma cidade e em uma casa. Ter uma vida normal, como antes da grande revelação e subsequente caça aos supra naturais.
Passaram por tantos testes, ninguém saía da zona de proteção para viver com humanos tão facilmente. Tinham que provar que podiam se controlar.
Da mesma forma que existiam sociedades secretas de caça aos lobisomens, os supra também tinham uma parcela pequena de retaliadores, que se vingavam de humanos que haviam prejudicado algum deles. Eram tão procurados quanto os humanos que os caçam. Ambas, as sociedades têm os seus criminosos e preconceituosos, aos que chamamos suprafóbicos e humanfóbicos.
O objetivo geral é que nenhuma das duas categorias exista mais.
Dando a seta para a esquerda, Dash entrou em uma rua arborizada. O dia havia sido de pleno verão e ele estava indo a uma das melhores faculdades do continente. Havia estudado nas melhores escolas do subsolo e das florestas supra e passou com as melhores notas da turma. O programa da ONU os protegia dos humanos e protegia os humanos dos supra.
Eles escolhiam locais onde a maioria era a favor da convivência harmoniosa entre as raças os intercâmbios, por precaução.
Este local, onde Dash estava, era um deles.
Avistou sua casa e sorriu satisfeito. Ele trabalhou muito por ela. Nada disso era grátis. Todos trabalhavam e conquistavam todas as coisas que usariam na transição. Estacionou em frente a garagem e desceu do carro, colocando os pés pela primeira vez na cidade que moraria, fora da floresta protegida.
O vento fresco soprou, fazendo as mechas dos seus cabelos, recém cortados, roçarem sua testa. Os cheiros vieram com a brisa e ele parou por um instante, para gravar na memória, todas as sensações dali. O aroma de pinho plantado no entorno, das aroeiras e ipês floridos, e mais ao fundo, das árvores nativas. Olhou em volta, todas as casas eram do mesmo tamanho e padrão, o local era arborizado e logo atrás de sua casa havia uma pequena floresta, onde poderia fazer as corridas... O lobo, é claro.
Ao contrário do que as lendas diziam, os lobisomens tinham total controle sobre o corpo, a não ser em casos extremos de ameaça a ele ou a sua família . Não eram psicopatas assassinos. Não atacavam a esmo e muito menos transformavam as pessoas em lobisomens, os lobisomens nasciam assim, eram imutáveis e passavam os genes apenas de geração em geração. Da forma comum, fazer amor com sua fêmea e ter com ela um bebê. E Dash havia sido alocado em um lugar propício para achar a mulher que tinha os genes que combinavam com o dele. Então, sua companheira estava por ali, com noventa por cento de certeza, nesta cidade.
Abriu o porta malas e pegou suas coisas, carregaria com facilidade suas duas malas grandes, mas colocou uma delas no chão e a outra levou até a porta de entrada. Abriu com a chave que havia pego no porta-luvas e entrou, depositando a mala no Hall de entrada. Deu uma rápida olhada e voltou ao carro para buscar o restante das coisas. Era bem final de tarde e aparentemente poucas pessoas circulavam por ali. Um rapaz veio correndo com roupas de exercício na sua calçada. Passou e cumprimentou Dash, que acenou de volta e voltou a pegar suas coisas no porta-malas. Vida normal. Era isso o que ele deveria fazer, ter uma vida normal, com amigos, vizinhos e todos tipo de outras coisas que isso acarretava. Festas, interações com humanos e humanas., trabalho, faculdade e todo tipo de coisas que os humanos faziam normalmente. Usaria o fim de semana para ir ao mercado, cinema e fazer um passeio pelo campus da faculdade para conhecer os arredores e a disposição das salas.
Entrou na casa pela quinta vez e trancou a porta, finalmente havia terminado. Depois de uma viagem extensa de avião e de carro, sem paradas longas, como foi instruído, chegava a sua casa. Caminhou pelos cômodos e sentiu-se feliz. Tudo estava como ele havia escolhido. Os móveis e a disposição deles, do jeito que ele e o decorador haviam preferido.
Colocou as malas ao lado da entrada do closet e as abriu, pegou todos os cabides com as roupas de trabalho e da faculdade, juntou as meias e sapatos e dispôs nas araras, gavetas e prateleiras, deixando tudo organizado do seu jeito.
Foi até a cozinha e colocou as poucas coisas que havia trazido na geladeira. Tomou uma copo de água e pediu comida por uma aplicativo. Ligou a TV e configurou seus apps de filmes e séries para assistir enquanto esperava o jantar.
O celular tocou e ele o pegou para verificar a notificação. Era uma mensagem de sua mãe.
- Chegou bem filho? - Ele sorriu. Ela deveria ter contado o tempo em que ele chegaria em casa.
- Olá mãe, cheguei bem. Como estão todos?
- Que bom. Estão bem mas todos com saudades já.
- Sim, também estou. Vou fazer uma chamada de vídeo para você conhecer minha casa. - Ele ligou para ela e ela prontamente atendeu. Aqueles olhos mel que ele havia herdado um, já que o outro era verde, o olharam com carinho.
- Oi, filho! Parece que você saiu daqui faz uma vida!
- Oi, mãe, sinto o mesmo. Eu vou mostrar a casa. Está é a sala.. - ele foi caminhando e girando o celular para que ela visse o local inteiro. Sua família já havia visto a planta da casa e o planejamento de decoração, mas ele queria mostrar ao vivo como todas as coisas ficaram. - Aqui é o hall de entrada, esta é a cozinha, e tem mais dois quartos e um escritório. - Caminhou até os fundos e abriu a porta saindo para uma varanda, viram uma piscina aquecida. Sua mãe, Elizabeth estava muito feliz por ele. Ficaram mais alguns minutos conversando e quando terminaram a conversa, Dash se despediu prometendo ligar mais vezes durante a semana. Família era algo essencial para ele e sempre mantinha suas promessas. Suspirou ao se lembrar dos seus e sorriu. Ficaria longe deles e lutaria por uma vida melhor para todos, mais digna.
Dash tomou uma ducha e se vestiu, iria ao mercado e depois a um barzinho. Precisava começar a sua procura.
Penteou os cabelos castanhos com mechas naturais de cor mel. Uma das características genéticas de sua família por parte da mãe, assim como um dos seus olhos dourados e o verde era de seu falecido pai. Ele havia nascido com os olhos díspares e desde sua adolescência era muito popular nos círculos que frequentava. Dash havia se formado e havia inaugurado sua própria empresa voltada a genética e biomedicina e depois de alguns anos resolveu fazer mais uma faculdade e terminar seu doutorado em ciências. Tinha um contingente de biomédicos que trabalhavam com ele.
A ONU havia apoiado e até dado incentivo a muitos estudantes de medicina, ciências e tecnologia, voltados ao total benefício das populações de todos os continentes. Fazia mais de um século e meio desde a Guerra Civil e a dissolução dos governos, e mesmo com as novas leis de incentivo e proteção da humanidade, fauna e flora do planeta, ainda persistiam núcleos de insurgentes fascistas tanto de humanos, quanto de supra humanos que lutavam em uma guerra oculta para se destruírem.
Dash era um líder e protetor, o alfa de seu continente e estava no programa de incentivo a mistura de raças. Por isso ele estava ali. Os cientistas haviam descoberto uma pré disposição genética entre algumas fêmeas e machos de raças diferentes para reprodução, uma parcela minúscula era compatível e já que durante a guerra civil a população da Terra diminuiu drasticamente para dois bilhões de pessoas, era viável a miscigenação. O objetivo era que não existisse mais as duas raças e sim a mistura das duas.
- Tudo pela paz e pela liberdade dos povos. - Dash murmurou enquanto caminhava para o seu carro.
Anya caminhou pela calçada larga em frente da biblioteca da faculdade.
A noite estava quente, mas uma brisa fresca e deliciosa soprava, refrescando sua pele suada. Precisava ir para casa jantar e dormir. Havia fugido do convite de festa de aniversário da melhor amiga, não gostava dos ambientes em que ela geralmente fazia a festas e nem das pessoas que ela convidava. Ao contrário de Danica, Anya não costumava ser a garota popular. Havia sido um dia, não havia dado muito certo. Então, ela abandonou as coisas supérfluas e focou nos estudos e no trabalho na biblioteca. Já havia se formado em biblioteconomia fazia um ano e agora fazia ciência da informação. Anya era uma leitora e estudiosa voraz e Danica sempre a criticou por ficar "mofando" no quarto ou na biblioteca. Ela ficava as vezes mais tempo na biblioteca do que em casa. Seu cheiro preferido era o cheiro dos livros e homens, não a atraíam. Não depois que foi encurralada por um babaca popular do colégio, havia desistido de se vestir atraentemente ou frequentar locais em que poderiam pensar que ela estava a procura de sexo. Havia sido só um beijo e iam mão boba nas suas nádegas, mas ela não queria isso e ele a deixou enojada e traumatizada. Se sentiu um objeto e não uma mulher de livre escolha. Infelizmente o machismo ainda persistia em uma parcela mínima da população, mesmo sendo crime. Anya nunca contou a ninguém sobre essa péssima experiência, nem a Danica. Somente sua psicóloga sabia, e havia feito um denúncia formal sobre. Com as tecnologias em todos os locais do planeta, tudo que acontecia nas ruas ou era falado em clínicas, era reportado. O governo pegava a gravação de câmeras do local e procedia contra o criminoso. As leis eram efetivas e condenava seriamente o contraventor.
Ela havia se afastado ainda mais de homens. Os via como uma ameaça.
Caminhou rapidamente em direção a praça erguida em comemoração ao centenário do final da guerra civil. A praça jazia inóspita a essa hora, no final de tarde, e Anya caminhou rapidamente segurando sua arma branca dentro da bolsa. Por precaução apenas. Após o incidente, além de andar armada, ainda fez diversos cursos de artes marciais. Foram oito anos de cursos. Não se arrependia nem um pouco. Saiu de dentro da praça diretamente para a avenida Santa Lúcia que estava abarrotada de pessoas, andando para lá e para cá nas festividades de meio de ano e Anya teve que desviar de várias pessoas que dançavam a música tocada por músicos de rua. Havia igrejas, mas essas apenas serviam para ajudar pessoas que vinham de outros continentes ou regiões em busca de novos lares. Não haviam mais pastores ou padres que faziam disso sua profissão. Portanto os locais eram apenas de alento e ajuda a quem precisava. Então todos os anos, pelo menos quatro vezes ao ano, as igrejas faziam as trocas de lares, de pessoas de continentes diferentes, ou que queriam trabalhar na comunidade e comprar suas casas por ali. Era eficiente e realmente, a maioria conseguia suas casas assim. Terminou de descer a rua e entrou na Rua Madisson. A rua dos bares, discotecas e restaurantes. Era ali que iria. Apenas entraria no restaurante, pegaria seu jantar e iria para casa a duas quadras dali. Ela avistou o restaurante Shangai, viu pela vitrine que estava com uma pequena fila de oito pessoas. Teria que esperar. Mas não tinha pressa, empurrou a porta de vidro e sentiu o cheiro da comida maravilhosamente temperada, inspirou fundo com fome e se posicionou na fila atrás de uma rapaz alto, bem vestido, de cabelos lisos jogados pra trás. Ela reparou que seu perfume era gostoso mas baixou os olhos para o celular para fazer o pedido antes de chegar no caixa, daí somente pagaria, pegaria e levaria para casa, para comer tranquila assistindo algum seriado. Fez o pedido para dois dias, pagou e esperou. Abriu o arquivo no qual estava trabalhando e se concentrou nos pés do rapaz da frente, enquanto lia, se ele andasse, ela andava também mas não olhava para cima. Concluiu a leitura e correção dos erros e retirou a caneta do bolso pondo-se a escrever.
- Genética? - Ela ouviu e congelou. Levantou a cabeça e encarou os olhos dourados mais lindos que já havia visto, no rosto mais impressionante. Ele sorriu. - Desculpe, não tive a intenção de olhar. Apenas virei a cabeça e me deparei com o que eu trabalho.
- Oh, sim ? Trabalha com genética?
- Sim. Geneticista e cientista. Estou concluindo meu doutorado com os avanços atuais da ciência para levar a minha empresa.
- Tem uma empresa? Especializada em genética?
- Sim, sou Dash Kavanaugh. Prazer conhecê-la, senhorita.... - Ele estendeu a mão. Ela olhou para as mãos estendidas para ela.
- Anya, sou Anya Sklyar. - Ela disse pegando a mão dele e aceitando o cumprimento. Levou um choque tão grande que derrubou o celular.
- Opa! Desculpe! - Ele se abaixou e recuperou seu aparelho entregando a ela. Ela estava chocada. Viu a surpresa nos olhos dele mas ao mesmo tempo achou que estava maluca, pois ele teve a mesma reação que ela e seus olhos se iluminaram como ouro líquido, suas pupilas se dilatando com o choque que suas mãos deram, mas ele apenas se abaixou e quando levantou seu olhar estava normal. Ela pensou que podia passar por doida se mencionasse o choque, que ainda passava pelo seu corpo, e ele dissesse que não sentiu nada. - Aqui senhorita.
- Obrigada. - Ela disse com um frio na barriga e a respiração acelerada.
- Você está bem?
- Claro! É... o meu pedido saiu. Com licença. - Passou por ele e pegou a sacola que Karine lhe estendia do balcão.
- Aqui está Anya. Boa noite e até quarta feira.
- Obrigada Karine. Até. Diga a sua mãe que passo mais cedo na quarta.
- Ah, não se preocupe, direi. - Ela olhou para Dash que estava no caixa dois, a três caixas de nós e sussurrou. - O que foi aquilo hein? Que homem é esse? Ele não para de olhar para você. Acho que se interessou. Sorte grande, espero que você tenha pego o telefone dele Anya.
- Ah, não, apenas conversamos brevemente. Ele é cientista. Eu... Bem você sabe, eu não costumo sair. Obrigada e boa noite Karine.
Ela saiu dando um ultimo olhar para Dash.
Viu que ele pegava a sacola para sair também e caminhou mais rápido . Desviou de algumas pessoas que estavam na calçada se apressando para não ser seguida. Apesar da beleza e do sorriso inesquecível dele, ela não queria correr o risco de se envergonhar e ter uma crise ou atacá-lo sem querer. Homens era gatilhos para ela. Traziam de volta a lembrança do abuso. Virou a esquina e atravessou a rua. Estava agora em uma área semi residencial e a próxima quadra seria a rua em que morava. Suspirou tranquila. Havia conseguido se safar de mais um rapaz. A maioria não a olhava tão intensamente, mas quando olhavam percebendo que ela era bonita, começavam a querer cortejá-la. Havia acontecido por duas ou três vezes, o que a fazia se afundar ainda mais em roupas horríveis e que escondiam suas formas. Não queria que se interessassem por ela. Só queria ser deixada em paz. Mas achou estranho o choque. O que foi aquilo? Entrou em sua rua e abriu o portão com sua digital. Tateou na calça para pegar o celular e acender as luzes e não achou. Oh droga! O celular! Ela deixou no balcão do Shangai. Ficou tão afobada para sair logo e não ter que conversar mais com Dash Kavanaugh que...
- Senhorita Anya! - Ela gritou assustada. - Desculpe assustá-la, sou eu, Dash Kavanaugh, esqueceu seu celular no balcão. A senhorita Karine me enviou para entregar. Desculpe segui-la. Eu só vim entregar seu celular. - Disse ele olhando para ela do portão. Estava parado e estendia a mão com o aparelho.
- Obrigada. - Ela respondeu e caminhou até o portão, abriu apenas uma fresta. - Eu me dei conta neste instante que o esqueci lá. Iria voltar para buscá-lo. Obrigada. Ela pegou o celular da mão dele, quando seus dedos se tocaram e ela sentiu o choque de novo. Seu coração acelerou e o choque vagou pelo seu corpo, alcançando cada nervo e cada pedacinho dela. O que era aquilo?
Ele a encarou.
- Você também sentiu isso, não é mesmo? - Ele falou olhando em seus olhos. Ela percebeu que as pupilas dele haviam se dilatado com o choque, assim como ela havia visto da primeira vez.
- Não sei do que está falando. Obrigada por ter trazido meu celular senhor Kavanaugh. - Ela disse fechando o portão aos poucos. - Estou muito agradecida. Boa noite. Obrigada, mais uma vez. Tchau.
Ele deu dois passos para trás e ela fechou o portão.
- O que está acontecendo comigo? - ela sussurrou enquanto entrava na casa. - Luzes. - Falou e encostou na porta fechada. Flexionou a mão, ainda sentia o choque correr pelo seu corpo. Olhou na tela do celular. - Câmeras externas.
A tela abriu nas câmeras da garagem e da rua. Ela o viu caminhando devagar pela calçada, não havia reparado mas ele carregava uma sacola também. Antes de virar a esquina ele parou e olhou mais uma vez na direção de sua casa. Ela tirou print da tela, aproximou e pintou mais uma vez. A rua era bem iluminada e os olhos dourados dele estavam brilhantes. Ele voltou a caminhar e desapareceu, atravessando para o outro lado, fora da visão das câmeras. Sinceramente, o homem era lindo e sexy e obviamente iria esquecê-la logo que chegasse em casa, ou nem isso. Mas não estava interessada que ele se lembrasse dela. Não mesmo!
Durante a semana, Dash foi a faculdade, reuniu dados para sua pesquisa e trabalhou muito e não se encontrou mais com ela. Anya. Que tipo de lobo ele seria se a perseguisse? Sentiu que ela tinha medo dele, por isso se manteve um pouco afastado dela, apesar de tê-la visto diversas vezes quando caminhava na avenida principal, próximo ao restaurante onde a encontrou a primeira vez. Sempre que sentia seu cheiro ele se distanciava um pouco. Não queria que ela achasse que ele estava cercando ela.
Karine, sua mais nova amiga, falava muito sobre Anya para ele, mas ele nunca perguntava a ela coisas específicas. Ele pensava que ela falava apenas porque era um assunto no qual ela ficava tranquila de falar com ele, ou para ter sobre o que conversar, já que ela havia enviado ele para entregar o celular de Anya no outro dia. Perguntou a ela porque fez isso, porque confiar nele e ela disse que viu bondade nos olhos dele. Dash achava que ela estava bancando a cupido, ela e a mãe dela, a chef de cozinha do restaurante. A senhorinha mais fofa que ele já havia conhecido, e que fazia uma comida muito saborosa. Dash estava viciado na culinária do restaurante e ia todos os dias após o trabalho lá.
Hoje era sábado e resolveu sentar e bebericar um café na cafeteria de uma biblioteca que ele achou ali perto. Era um prédio enorme, tão grande quanto o do campus e embora fosse antigo, era o prédio mais arquitetonicamente lindo que ele viu na cidade. Suas colunas eram impressionantes, com pé direito alto de mais ou menos oito a dez metros de altura, até o andar de cima, onde havia outra coluna e em cada uma delas uma estátua de alguns deuses e deusas segurando o teto, e o teto, era uma abóbada com vidros curvados para fora e intrincados galhos e flores esculpidos com algum metal dourado, entre um vidro e outro. Aos fundos, via-se um outro paredão envidraçado com vitrais transparentes e dourados formando imagens de deuses e deusas de diversos panteões.
Uma enorme escada circular no centro e um elevador bem no meio dela subia e descia do térreo até o sexto andar. E isso ele só havia visto de dentro do café que era no mesmo prédio, um pouco antes da entrada. Iria entrar, fazer o cadastro para retirar livros e estudar e aproveitar a magnífica arquitetura de um prédio tão antigo.
Pagou o café e levantou-se caminhando distraído até a entrada da biblioteca. Sentiu o cheiro dela, sua companheira. Onde ela estaria? Seguindo o cheiro, parou em frente do balcão de atendimento da biblioteca. Olhou para frente e viu atrás abaixada alguém, falando algo baixinho. O corpo inclinado para frente, a cabeça de baixo do móvel onde havia duas máquinas com luzes azuis, uma delas piscando em vermelho, o traseiro redondo de Anya estava inteiramente marcado pela calça preta naquela posição e Dash não conseguiu não olhar.
- Olá. - Ele disse. Ela levantou a mão, o dedo em riste sinalizando para que ele esperasse.
- Um minuto por favor senhor! - abaixou a voz de novo, sussurrando - O que está acontecendo com você hoje? Funciona impressora maldita. - Ele riu
- Ok. - Ele disse e ela se virou para ele ao ouvir sua voz.
- Pois não senhor. - ela ficou séria e ele sorriu para ela, que se levantou alisando a roupa amassada pela posição em que estava.
- Olá, tudo bem? Gostaria de fazer o cadastro para usufruir da biblioteca. - Dash murmurou.
- Olá senhor... Dash Kavanaugh, não é? O senhor me levou o celular no outro dia.
- Sim, eu me lembro disso. Não a vi mais no Shangai.
- Oh, eu.. Estava um pouco ocupada... Bem vindo a Biblioteca municipal. - Estendeu o Omini para que colocasse a digital de sua mão. - Coloque sua mão no Omini por favor. - Ele estendeu a mão direita e colocou a mão na tela do aparelho. - Agora olhe para a tela.
- Sim, senhorita. - Ele olhou a tela que imediatamente já o conectou com a biblioteca, o identificando. - É um prazer revê-la. Ele olhou cada pequeno detalhe de seu rosto. Os olhos amendoados e levemente arqueados para cima nos cantos externos, os cílios curvados dourados e longos emoldurando e dando mais beleza a eles. A cor da íris era incrível, mesclada de verde e marrom claro, salpicada de pintinhas marrom escura. E quando ela levantava o olhar e encontrava o seu, sua pele dourada do sol e cheia de sardas, ficava corada e então ela baixava novamente o olhar. Extremamente profissional e séria ela falou.
- Está pronto senhor Kavanaugh, pode entrar e se precisar basta chamar pela tela que fica na mesa que você escolher. Boa leitura e tenha um bom dia. - Ela se virou para sentar na cadeira, o olhou e esperou que ele se afastasse, quando ele não o fez ela perguntou. - Alguma dúvida senhor?
- Não há dúvidas. Obrigado Anya - Ele sorriu para ela e caminhou até uma mesa próxima para que pudesse ficar de olho nela. Não no sentido de vigiá-la, mas sim de apreciá-la, ver todos os seus movimentos mesmo que fosse de longe. Não sabia porque estava evitando encontrá-la antes, agora que estava no mesmo local que ela, suas razões para lhe dar espaço, se tornaram ridículas. Sentiu saudade de olhar para ela. Os movimentos delicados que fazia com o corpo, como se ela pensasse diversas vezes antes de fazer qualquer coisa, o cuidado que ela teve para não tocá-lo nas mãos enquanto fazia o seu reconhecimento e cadastro. O jeito que ela se vestia ocultava seu corpo mas a beleza natural dela era tão atraente que de nada adiantava o esforço. Ela era a mais linda mulher que ele havia visto.
Deixou suas coisas na mesa, nela havia um dispositivo IA que o ajudaria a localizar os livros que queria. Ele pesquisou, achou os arquivos digitais e físicos e caminhou até as estantes especificadas para retirar os livros que precisaria. Voltou com todos empilhados nos braços e se sentou na poltrona confortável. Dash desviou o olhar para ela novamente, Anya estava tentando fazer a máquina voltar a funcionar. Levantando, ela deu uma olhada disfarçada para ele e teclou algo no aparelho de IA em sua mesa. Após dez minutos um rapaz entrou na biblioteca e se dirigiu a ela, que mente abriu a porta e o deixou entrar no espaço em que estava. Ela voltou a se sentar na cadeira e continuou a atender as pessoas que entravam ou saíam enquanto o rapaz retirava a máquina defeituosa e recolocava uma nova máquina no lugar. Ele sorriu para ela, falou algo e ela testou a máquina. Sorriu para ele e ele ficou olhando a boca dela, ela parecia amigável com ele mas ele a desejava. Dash ficou tenso. Ele seria ou pretendia algo com ela? Anya pertencia a ele. Mesmo que ela ainda não soubesse disso.