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Laura: Renascida das Cinzas

Laura: Renascida das Cinzas

Autor:: Barbara
Gênero: Romance
O cheiro de tinta a óleo agora era só uma lembrança distante, afinal, fazia cinco anos que eu, Laura, a pintora promissora, trocara meus pincéis pela sombra do sucesso de Marcos, meu então namorado. Ele, um arquiteto ambicioso, retornava sempre tarde para nossa mansão, sua voz, antes melodia, agora apenas um ruído de fundo na minha cozinha, onde eu preparava jantares que ele mal notava. Naquela noite, meu mundo virou de cabeça para baixo quando vi o camafeu de safira da minha avó, minha única herança de valor, não no meu peito, mas pendurado no pescoço de Clara, a "amiga" órfã que ele acolhera em nossa casa. Marcos admitiu ter recomprado e dado o colar a ela, alegando que Clara, em sua fragilidade, o lembrava de mim em nossos tempos difíceis, e que por ela, ele conseguia fazer o que não fez por mim no passado. A dor e a humilhação me dilaceraram quando ele, ao ver meu tornozelo quebrado por um tombo "acidental" causado por Clara, se preocupou mais com o bolo de quinhentos reais do que comigo, e me levou a um pronto-socorro barato, reclamando do custo da bota ortopédica, tudo isso enquanto gastava uma fortuna em joias para ela. Eu não era mais sua parceira, eu era seu alicerce, enterrada, esquecida e substituída, e a cruel verdade me atingiu: para ele, eu não tinha valor algum. Mas aquela noite, enquanto Marcos e Clara riam e tramavam minha remoção, uma decisão se formou em mim, fria e dura como um diamante: ele não me reconhecia mais? Bom. Porque eu também não me reconhecia, e estava na hora de encontrar a mulher que ele e Clara haviam tentado enterrar.

Introdução

O cheiro de tinta a óleo agora era só uma lembrança distante, afinal, fazia cinco anos que eu, Laura, a pintora promissora, trocara meus pincéis pela sombra do sucesso de Marcos, meu então namorado.

Ele, um arquiteto ambicioso, retornava sempre tarde para nossa mansão, sua voz, antes melodia, agora apenas um ruído de fundo na minha cozinha, onde eu preparava jantares que ele mal notava.

Naquela noite, meu mundo virou de cabeça para baixo quando vi o camafeu de safira da minha avó, minha única herança de valor, não no meu peito, mas pendurado no pescoço de Clara, a "amiga" órfã que ele acolhera em nossa casa.

Marcos admitiu ter recomprado e dado o colar a ela, alegando que Clara, em sua fragilidade, o lembrava de mim em nossos tempos difíceis, e que por ela, ele conseguia fazer o que não fez por mim no passado.

A dor e a humilhação me dilaceraram quando ele, ao ver meu tornozelo quebrado por um tombo "acidental" causado por Clara, se preocupou mais com o bolo de quinhentos reais do que comigo, e me levou a um pronto-socorro barato, reclamando do custo da bota ortopédica, tudo isso enquanto gastava uma fortuna em joias para ela.

Eu não era mais sua parceira, eu era seu alicerce, enterrada, esquecida e substituída, e a cruel verdade me atingiu: para ele, eu não tinha valor algum.

Mas aquela noite, enquanto Marcos e Clara riam e tramavam minha remoção, uma decisão se formou em mim, fria e dura como um diamante: ele não me reconhecia mais? Bom. Porque eu também não me reconhecia, e estava na hora de encontrar a mulher que ele e Clara haviam tentado enterrar.

Capítulo 1

O cheiro de tinta a óleo ainda flutuava levemente no ar, um fantasma do que eu costumava ser. Cinco anos. Fazia cinco anos que eu não pegava em um pincel de verdade, cinco anos que troquei minha paixão pela dele, meu ateliê por seu escritório, meu futuro pelo sucesso estrondoso de Marcos.

Ele chegou tarde, como sempre, o som da sua maleta de couro caindo no chão de mármore ecoou pela casa vazia, ele tirou os sapatos caros, um suspiro de cansaço escapando de seus lábios, era o som familiar da minha vida atual.

"Laura, estou em casa."

Sua voz, antes a melodia que acalmava minha alma, agora era apenas um ruído de fundo, eu estava na cozinha, finalizando o jantar, um prato que ele amava, mas que eu sabia que ele mal notaria.

"Bem-vindo de volta," eu disse, sem me virar. "O jantar está quase pronto."

Ele me abraçou por trás, seu queixo descansando no meu ombro, o cheiro do seu perfume caro misturado com a exaustão do dia.

"Cheira bem," ele murmurou. "Tive um dia infernal. Mas fechei o contrato. O projeto do Litoral Plaza é nosso."

Eu me forcei a sorrir. "Isso é incrível, meu amor. Eu sabia que você conseguiria."

Seu sucesso era meu sucesso, era o que ele sempre dizia, era o que eu repetia para mim mesma no espelho todas as manhãs, uma mentira que eu tentava desesperadamente transformar em verdade.

Mas a verdade era uma ferida antiga, uma que eu cutucava nas noites solitárias, a verdade estava guardada em uma pequena caixa de veludo vazia no fundo da minha gaveta de joias.

"Sabe o que isso significa?" ele disse, virando-me para encará-lo, seus olhos brilhando com uma ambição que eu conhecia bem. "Significa que estamos mais perto. Mais perto de ter tudo o que sempre sonhamos."

Nós. A palavra soava oca. Os sonhos eram dele, eu era apenas uma espectadora.

"Eu sei," eu disse suavemente, tocando seu rosto. "Estou tão orgulhosa de você."

Naquela noite, enquanto ele dormia profundamente ao meu lado, eu me levantei e fui até a varanda, o ar frio da noite me envolveu, mas não acalmou a inquietação dentro de mim.

Minha mente voltou no tempo, para um pequeno apartamento apertado, o cheiro de tinta e terebintina era a minha realidade, não a dele, Marcos era apenas um arquiteto sonhador com um portfólio cheio de projetos que ninguém queria financiar.

Eu era uma pintora, com um futuro promissor, recém-saída da faculdade de Belas Artes, com uma exposição solo agendada.

"É o meu grande projeto, Laura," ele me disse um dia, seus olhos desesperados, os papéis de mais uma rejeição espalhados pela nossa pequena mesa de jantar. "Preciso de um capital inicial, só para começar a maquete, para mostrar a eles que é real."

Eu não tinha dinheiro, nenhum de nós tinha. Mas eu tinha uma coisa, o colar da minha avó, uma peça única, um camafeu de safira esculpido à mão, passado por gerações na minha família, era a minha única herança de valor.

"Eu vou conseguir o dinheiro," eu disse a ele, meu coração apertado.

No dia seguinte, vendi o colar, o rosto do joalheiro era uma mistura de pena e ganância, ele sabia que eu estava desesperada, ele me deu uma fração do seu valor real, mas era o suficiente.

Quando entreguei o dinheiro a Marcos, ele chorou, ele me segurou com força e jurou.

"Eu vou te devolver, Laura. Eu juro. Vou comprar de volta cada grama de ouro, cada pedaço daquela safira. Um dia, vou te dar um império, e esse colar será a joia da coroa."

Ele usou o dinheiro para construir sua maquete, a maquete que lhe rendeu seu primeiro investidor, o primeiro tijolo no império que ele construiu.

A minha exposição foi cancelada, eu não tinha mais o foco, a energia, o coração, eu me tornei sua assistente, sua gerente de projetos, sua parceira silenciosa, e a pintora dentro de mim foi morrendo lentamente, até que tudo o que restou foi o cheiro fraco de tinta em um ateliê trancado.

Eu olhei para a cidade cintilante abaixo, as luzes dos prédios que ele projetou, nosso sucesso.

Mas o gosto era de cinzas na minha boca, a promessa dele, a jura que ele fez, se tornou uma piada cruel que só eu entendia.

Capítulo 2

A semana seguinte começou com a chegada dela, Clara.

Marcos a trouxe para casa numa tarde de terça-feira, ele a apresentou como a irmã mais nova de um amigo de faculdade, uma garota que passava por dificuldades.

"Ela precisa de um lugar para ficar por um tempo, só até se reerguer," ele explicou, seu tom casual demais. "Os pais dela faleceram, ela não tem ninguém."

Clara era pequena, frágil, com olhos grandes e tristes que pareciam carregar o peso do mundo, ela se encolhia atrás de Marcos, como um animal assustado, suas roupas eram simples, gastas.

"Muito prazer," eu disse, estendendo a mão, mas ela apenas acenou com a cabeça, evitando meu olhar.

"Ela é um pouco tímida," Marcos disse, colocando um braço protetor ao redor dos ombros dela. "Ela passou por muita coisa."

Eu senti uma pontada de algo que não consegui nomear, uma mistura de pena e um desconforto profundo, a casa era grande, tínhamos quartos de hóspedes de sobra.

"Claro, ela pode ficar o tempo que precisar," eu respondi, a anfitriã perfeita.

Nos dias que se seguiram, a presença de Clara era como uma sombra na casa, ela era silenciosa, quase invisível, mas eu a sentia em todos os lugares, no jeito que Marcos baixava a voz quando falava com ela, no prato extra que ele pedia quando jantávamos fora, nos pequenos presentes que apareciam no quarto dela.

"Ela precisa de um pouco de alegria na vida," ele dizia quando eu o questionava. "É o mínimo que podemos fazer."

O desconforto crescia, se transformando em uma suspeita feia que eu tentava ignorar, eu me sentia culpada por desconfiar de uma garota tão obviamente quebrada.

Até o dia em que vi o colar.

Eu estava passando pelo corredor e a porta do quarto de Clara estava entreaberta, ela estava em frente ao espelho, e pendurado em seu pescoço, brilhando sob a luz, estava ele.

O camafeu de safira.

Não era parecido, não era uma cópia, era ele, eu conhecia cada detalhe daquela peça, a pequena imperfeição na borda dourada, o jeito como a luz atingia a face esculpida da safira.

Meu sangue gelou, o ar ficou preso nos meus pulmões, eu me apoiei na parede para não cair.

Tudo girava, o som do meu próprio coração batendo era um tambor furioso nos meus ouvidos, a promessa de Marcos, sua jura sagrada, agora era um adorno no pescoço de outra mulher.

Eu esperei ele chegar em casa naquela noite, a caixa de veludo vazia na minha mão, meu corpo tremendo com uma raiva fria e cortante.

"O que é isso?" eu perguntei, minha voz um sussurro perigoso, quando ele entrou pela porta.

Ele olhou para a caixa, depois para mim, e pela primeira vez, vi um lampejo de pânico em seus olhos sempre tão confiantes.

"Laura, o que foi?"

"O colar," eu disse, cada palavra um esforço. "O colar da minha avó. Eu o vi. No pescoço dela."

Ele empalideceu, ele abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu, ele parecia um homem pego em flagrante, despojado de todas as suas desculpas.

"Não é o que você está pensando," ele finalmente conseguiu dizer, sua voz tensa.

"Não?" eu ri, um som amargo e quebrado. "Então o que é, Marcos? Uma coincidência cósmica? Ou você achou que eu era tão estúpida que não notaria?"

"Eu comprei para ela," ele admitiu, sua voz baixa. "Ela... ela me lembrou de você naquela época, tão vulnerável, tão necessitada. Eu só queria... dar a ela um pouco de esperança."

A desculpa era tão patética, tão insultuosa, que por um momento eu fiquei sem palavras.

"Você pegou a minha esperança, o meu sacrifício, a minha história," eu disse, minha voz subindo. "E você a deu para ela? Como se fosse um doce? Como se não significasse nada?"

"Significa tudo!" ele gritou de volta, sua defensiva se transformando em raiva. "Significa que eu pude fazer por ela o que eu não pude fazer por você na época! Você não entende? Isso não tem nada a ver com você!"

"Não tem nada a ver comigo?" eu repeti, incrédula. "Aquele colar era a única coisa que eu tinha da minha avó! Eu o vendi por você! Para o seu sonho!"

"E eu te dei um império!" ele retrucou, gesticulando ao redor da casa luxuosa. "Isso não é suficiente? Você ainda vai se apegar a um pedaço de metal velho?"

A crueldade de suas palavras me atingiu como um soco no estômago, ele não via, ele não entendia, ou pior, ele não se importava.

Ele havia pegado meu maior sacrifício e o profanado, transformando-o em um gesto de caridade para uma estranha, e ao fazer isso, ele me mostrou exatamente qual era o meu lugar em seu império.

Eu era o alicerce, enterrada, esquecida e substituída.

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