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Lavanda e a Nova Chance

Lavanda e a Nova Chance

Autor:: Lavinia
Gênero: Moderno
O cheiro de lavanda e o toque suave dos lençóis. Abri os olhos no que parecia ser meu antigo quarto, um luxo que o convento, onde passei meus últimos anos, nunca ofereceu. A confusão deu lugar ao pânico, pois o dia era 15 de outubro de 2023, o dia do lançamento do meu álbum "A Voz da Redenção", a data em que minha vida acabou. Lembrei-me do horror: mensagens subliminares satânicas em minha música, fãs me chamando de herética, a gravadora rompendo meu contrato e meu pai, cego, me repreendendo. E Joana, minha irmã, com suas lágrimas de crocodilo, celebrando minha queda. Passei anos tentando limpar meu nome, mas as provas sumiram, as testemunhas se calaram. Morri sozinha, aos quarenta e cinco, esquecida e amargurada, com o nome manchado. Mas, agora, aqui estou eu. Viva. De volta ao início do pesadelo. Desta vez, não haverá convento. Não haverá desolação. Desta vez, Joana não vencerá. A redenção não virá de Deus desta vez. Virá de minhas próprias mãos.

Introdução

O cheiro de lavanda e o toque suave dos lençóis. Abri os olhos no que parecia ser meu antigo quarto, um luxo que o convento, onde passei meus últimos anos, nunca ofereceu.

A confusão deu lugar ao pânico, pois o dia era 15 de outubro de 2023, o dia do lançamento do meu álbum "A Voz da Redenção", a data em que minha vida acabou.

Lembrei-me do horror: mensagens subliminares satânicas em minha música, fãs me chamando de herética, a gravadora rompendo meu contrato e meu pai, cego, me repreendendo. E Joana, minha irmã, com suas lágrimas de crocodilo, celebrando minha queda.

Passei anos tentando limpar meu nome, mas as provas sumiram, as testemunhas se calaram. Morri sozinha, aos quarenta e cinco, esquecida e amargurada, com o nome manchado.

Mas, agora, aqui estou eu. Viva. De volta ao início do pesadelo. Desta vez, não haverá convento. Não haverá desolação. Desta vez, Joana não vencerá. A redenção não virá de Deus desta vez. Virá de minhas próprias mãos.

Capítulo 1

A primeira coisa que Maria sentiu foi o cheiro de lavanda, o mesmo amaciante que sua mãe usava, um cheiro que ela não sentia há anos, desde que saiu de casa. A segunda foi a maciez do lençol de algodão contra sua pele, um luxo que a cama dura e gasta do convento não oferecia. Ela abriu os olhos devagar, a luz do sol invadindo o quarto através das frestas da persiana, e por um instante, a confusão a dominou.

Aquele não era seu pequeno quarto no convento, com as paredes de pedra fria e a pequena janela gradeada com vista para um jardim morto. Aquele era o seu antigo quarto na casa dos seus pais, o quarto de uma estrela da música gospel, com discos de platina pendurados na parede e um closet cheio de roupas que ela não usava mais. O pânico começou a subir por sua garganta. O que estava acontecendo? Teria ela morrido e isso era algum tipo de paraíso estranhamente familiar?

Ela se sentou na cama, o coração martelando no peito. Seu corpo parecia diferente, mais forte, mais descansado. Ela olhou para as próprias mãos, lisas e sem os calos do trabalho pesado na horta do convento. Foi quando seus olhos pousaram no celular sobre a mesinha de cabeceira, o último modelo, brilhante e novo. Com as mãos trêmulas, ela o pegou. A tela se acendeu, mostrando a data: 15 de outubro de 2023.

Impossível.

Essa data era um fantasma, o dia em que sua vida acabou. O dia do lançamento do seu álbum, "A Voz da Redenção" . O dia em que Joana, sua irmã mais nova, a destruiu.

As memórias da sua outra vida, a vida que ela viveu até o fim, a atingiram como uma onda violenta. A festa de lançamento, a música tocando, e então o horror. As mensagens subliminares, sussurros demoníacos escondidos na faixa principal, associando seu nome a rituais satânicos. O escândalo explodindo na mídia. As acusações, os fãs se voltando contra ela, chamando-a de herege, de falsa profeta. A gravadora rompendo seu contrato com uma cláusula de moralidade. Seu pai a repreendendo. E Joana... Joana, com seus olhos cheios de lágrimas de crocodilo, fingindo consolá-la enquanto por dentro celebrava a vitória.

Ela se lembrou da desolação, do refúgio no convento, do silêncio, da fé perdida. Lembrou-se de encontrar o diário daquela freira antiga, acusada injustamente de heresia séculos atrás, e de sentir uma conexão com sua dor. Lembrou-se de tentar lutar, de contratar um advogado com o pouco dinheiro que lhe restava, mas era tarde demais. As provas haviam sumido, as testemunhas se calaram. Ela morreu sozinha, aos quarenta e cinco anos, uma mulher esquecida e amarga, em uma cama fria de convento, com o nome ainda manchado.

Mas agora... agora ela estava aqui. Viva. De volta ao início do pesadelo.

Ela não estava morta. Ela tinha recebido uma segunda chance.

Uma raiva fria e cortante substituiu o pânico. Uma determinação de aço se formou em seu peito. Desta vez, não haveria convento. Não haveria desolação. Desta vez, Joana não venceria. Ela se levantou, o corpo vibrando com uma energia que ela não sentia há muito tempo. Caminhou até o espelho e se encarou. A mulher que a olhava de volta era Maria, a cantora no auge de sua glória, com a pele radiante e os olhos brilhando. Mas por dentro, era a alma de uma mulher que já tinha visto o inferno e voltado.

Ela sabia exatamente o que Joana tinha feito. Na noite anterior, enquanto Maria dava as últimas entrevistas, Joana foi ao estúdio da gravadora com a desculpa de pegar algo para a irmã. Lá, com a ajuda de um técnico de som que ela seduziu e subornou, trocou o arquivo de áudio master por uma versão adulterada. O arquivo original, a prova de sua inocência, provavelmente ainda estava na lixeira do computador do estúdio, ou talvez o técnico ainda o tivesse. Ela tinha poucas horas para agir.

Seu telefone tocou, e o nome "Joana" brilhou na tela. Na sua vida passada, ela atendeu com um sorriso, animada para o grande dia. Desta vez, ela sentiu o veneno subir. Ela respirou fundo, acalmando a fúria, e atendeu com a voz mais doce que conseguiu produzir.

"Bom dia, maninha. Dormiu bem?"

A voz de Joana do outro lado era puro fingimento.

"Marília! Bom dia! Ansiosa para hoje à noite? Vai ser o seu grande momento! Estou tão orgulhosa de você!"

"Você não imagina o quanto, Joana," Maria respondeu, um duplo sentido afiado em suas palavras. "Estou a caminho da gravadora para resolver uns últimos detalhes. Nos vemos na festa."

Ela desligou antes que a irmã pudesse responder. O tempo estava correndo. Ela se vestiu rapidamente, escolhendo um terninho branco, poderoso e impecável. Ela não era mais a vítima. Hoje, ela era a caçadora. Ela pegou a chave do carro e saiu do quarto, seus passos firmes e decididos. A redenção não viria de Deus desta vez. Viria de suas próprias mãos.

A festa de lançamento aconteceria em um salão de eventos luxuoso no centro da cidade. A imprensa, os executivos da gravadora, os líderes da igreja, todos estariam lá. Seria o palco perfeito. Na sua vida passada, foi o palco da sua humilhação. Nesta vida, seria o palco da sua vingança.

Enquanto dirigia, ela ligou para um número que sabia de cor, o número de Carlos, um técnico de som leal que ela ajudou a pagar a faculdade do filho. Ele tinha sido demitido logo após o escândalo na sua vida passada, por se recusar a mentir sobre a segurança do estúdio.

"Carlos, é a Maria. Preciso de um favor enorme e discreto. E preciso para agora."

À noite, o salão de eventos estava deslumbrante. Lustres de cristal pendiam do teto alto, e mesas bem arrumadas estavam espalhadas pelo local, ocupadas por figuras importantes do mundo gospel e da indústria musical. Maria chegou e foi imediatamente cercada por fotógrafos e jornalistas. Ela sorriu, posou, respondeu a perguntas com a graça de sempre, mas seus olhos varriam o local, calculando, planejando.

Ela viu Joana perto do palco. Sua irmã mais nova usava um vestido vermelho vibrante, uma cor ousada demais para a ocasião, como se quisesse roubar a atenção. Ela sorria e acenava para as pessoas, agindo como a anfitriã, a irmã devotada e orgulhosa. A visão fez o estômago de Maria revirar. A falsidade dela era tão palpável, tão nojenta. Joana a viu e acenou, um sorriso radiante no rosto, um brilho de triunfo mal disfarçado em seus olhos. Ela achava que já tinha ganhado.

O CEO da gravadora, Senhor Almeida, subiu ao palco para iniciar a cerimônia. Ele falou sobre o talento de Maria, sobre como o novo álbum era uma obra-prima, sobre a honra de trabalhar com uma artista tão abençoada. Maria quase riu. Ela se lembrava de cada palavra que ele usou no comunicado à imprensa que a demitiu na outra vida.

"E agora," Almeida anunciou com uma voz potente, "sem mais delongas, vamos ouvir em primeira mão a faixa principal do álbum 'A Voz da Redenção', a canção 'Ele me Guiará'!"

O produtor no fundo do palco se preparou para dar o play. Os convidados aplaudiram em antecipação. Joana, ao lado do palco, tinha um sorriso que ia de orelha a orelha. Aquele era o momento.

"Esperem!"

A voz de Maria cortou o ar, firme e alta, silenciando a música antes mesmo que ela começasse. Todas as cabeças se viraram para ela. Com passos calmos e deliberados, ela subiu no palco, pegando o microfone da mão de um Almeida chocado.

Ela parou no centro do palco, sob a luz dos holofotes, e olhou diretamente para a multidão. Depois, seus olhos se fixaram em sua irmã. O sorriso de Joana vacilou, a confusão substituindo a presunção.

"Boa noite a todos. Peço desculpas pela interrupção," Maria começou, sua voz ressoando com uma autoridade que surpreendeu a todos. "Mas antes de ouvirmos minha música, preciso informar que há um problema sério. Um problema de sabotagem."

Um murmúrio percorreu o salão. As câmeras da imprensa, que estavam prontas para filmar a audição da música, agora focavam intensamente no rosto de Maria.

Ela não tirou os olhos de Joana.

"Alguém, maliciosamente, trocou o arquivo de áudio original por uma versão adulterada, com o objetivo de destruir minha carreira e minha reputação."

A cor sumiu do rosto de Joana. O pânico começou a aparecer em seus olhos.

Maria ergueu o queixo, sua voz se tornando ainda mais forte e imperativa.

"Eu exijo que a segurança da gravadora traga imediatamente o master original que está guardado no cofre do estúdio," ela ordenou, olhando para Senhor Almeida. "E também exijo que o técnico de som que estava de plantão ontem à noite seja chamado aqui. Vamos comparar os arquivos na frente de todos vocês e descobrir quem é o traidor que está entre nós."

O silêncio no salão era total. Ninguém ousava respirar. A festa de lançamento tinha acabado. O julgamento estava prestes a começar.

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Capítulo 2

O rosto de Joana se desfez. A máscara de irmã orgulhosa caiu, revelando o pânico puro por baixo. Seus olhos correram para o Senhor Almeida, em uma súplica silenciosa, mas o CEO da gravadora estava tão chocado quanto todo mundo. Em um ato de desespero, Joana deu um passo à frente, as lágrimas já brotando em seus olhos perfeitamente maquiados.

"Maria, o que você está dizendo?" sua voz saiu trêmula, carregada de uma falsa preocupação. "Você não está se sentindo bem? Por que você faria uma acusação tão terrível no dia mais importante da sua vida? Irmã, por favor, desça daí."

Ela tentou se aproximar, estendendo a mão como se fosse para ajudar uma pessoa doente. Era uma performance digna de um prêmio, calculada para gerar simpatia e pintar Maria como uma louca instável. Na vida passada, talvez tivesse funcionado.

Mas a Maria que estava no palco não era mais a mesma.

"Pare de atuar, Joana," a voz de Maria era fria como gelo, cortando a tentativa de drama da irmã. "Sua peça de teatro acabou."

Ela se virou para a plateia, para as câmeras que agora transmitiam tudo ao vivo pela internet.

"Eu sei que isso é chocante. Mas o que minha irmã... o que essa pessoa tentou fazer," ela se corrigiu, olhando para Joana com desprezo, "não é apenas uma brincadeira de mau gosto. Adulterar uma gravação fonográfica protegida por direitos autorais é um crime. É fraude. E, no meu caso, é uma tentativa calculada de assassinato de reputação. E eu não vou permitir."

Joana começou a soluçar, um choro alto e desesperado.

"Eu não fiz nada! Eu juro! Maria, por que você está me odiando tanto?"

O ódio de Maria, contido por anos de repressão e uma vida inteira de dor, finalmente explodiu. Ela não conseguia mais se segurar. Em um movimento rápido e fluido, ela desceu os degraus do palco, caminhou diretamente até sua irmã e, na frente de centenas de testemunhas e dezenas de câmeras, ela deu um tapa forte no rosto de Joana.

PLAFT!

O som ecoou pelo salão silencioso. O choro de Joana parou instantaneamente, substituído por um olhar de puro choque e humilhação. A marca vermelha dos dedos de Maria brilhava em sua bochecha.

"Isso," Maria disse, a voz baixa e cheia de fúria contida, "é pela vida que você tentou roubar de mim."

O caos irrompeu. Os fotógrafos avançaram, os flashes disparando sem parar. As pessoas na plateia se levantaram, cochichando e apontando.

"Maria! O que diabos você pensa que está fazendo?!"

A voz furiosa do Senhor Almeida cortou a confusão. Ele desceu do palco apressado, seu rosto vermelho de raiva. Ele não olhou para Maria, mas foi direto para Joana, colocando um braço protetor ao redor dela.

"Você está bem, querida? Meu Deus! Marília, você enlouqueceu de vez? Peça desculpas para sua irmã agora mesmo!"

Maria olhou para a cena com um sorriso amargo. O protetor. Era exatamente como ela se lembrava. Na sua vida passada, Almeida foi rápido em descartá-la e ainda mais rápido em oferecer um contrato para Joana, aproveitando o vácuo que o escândalo de Maria deixou. Eles provavelmente já tinham um acordo.

"Pedir desculpas?" Maria riu, um som sem humor. "Eu não vou pedir desculpas por me defender. Você, como CEO desta gravadora, deveria estar mais preocupado com a segurança dos seus ativos do que em proteger uma criminosa."

Almeida se virou para ela, os olhos fuzilando-a.

"Chega dessa sua fantasia paranoica! Você está humilhando sua família, a gravadora e a si mesma! Se você não parar com este circo agora, eu juro que você não só vai perder o seu contrato, como vou garantir pessoalmente que você nunca mais cante em nenhuma igreja ou gravadora deste país!"

A ameaça pairou no ar, pesada e feia. Era a mesma chantagem, a mesma pressão que a esmagou na vida passada. Mas desta vez, não causou medo. Causou desprezo.

Ela se lembrou de cada porta que se fechou na sua cara. De cada "amigo" que se recusou a atender suas ligações. De como Almeida e Joana riram juntos em uma premiação meses depois da sua queda, celebrando o sucesso do primeiro single de Joana, uma música que Maria tinha escrito. A memória era como querosene em uma fogueira.

Seu queixo se ergueu. Ela olhou para Almeida, depois para Joana, que se encolhia em seus braços, e depois para a multidão que a observava.

"Pode tentar," ela disse, a voz calma, mas com um fundo de aço. "Mas a verdade tem um jeito de aparecer, Senhor Almeida. E hoje à noite, todos aqui vão conhecê-la."

Ela pegou o celular do bolso.

"Eu já acionei meu advogado. E o técnico de som que eu mencionei? Ele está a caminho com uma cópia do arquivo original, que ele, por sorte, salvou em um backup pessoal por segurança. Então, podemos esperar a polícia chegar, ou podemos resolver isso aqui e agora. A escolha é sua."

O blefe sobre o advogado e o técnico era arriscado, mas ela precisava ganhar tempo. Ela sabia que a prova real estava no estúdio. Mas a menção de advogados e backups fez Almeida hesitar. Seu rosto passou da raiva para a incerteza. Ele olhou para Joana, cujos olhos agora estavam arregalados de puro terror. A semente da dúvida havia sido plantada. A performance de vítima de Joana não era mais tão convincente. O tapa tinha sido um ato de agressão, sim, mas também um ato de convicção. E a calma de Maria diante das ameaças de Almeida era a coisa mais assustadora de todas. Ela não estava agindo como uma mulher em um surto psicótico. Ela estava agindo como uma mulher que tinha a verdade do seu lado. E isso era perigoso para eles.

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