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Laços de Ferro

Laços de Ferro

Autor:: Any1025
Gênero: Romance
O que você mais deseja? Num país de terceiro mundo, dominado por um regime cruel, María de las Almas tem como maior sonho se tornar médica e salvar vidas. Nativo do outro lado do mundo, Zahid compartilha do mesmo sonho, mas por motivos muito mais egoístas do que María. O que mais desejam é liberdade, mas, em suas prisões, lhes resta apenas isso: desejar. Duas almas cansadas levadas a um casamento arranjado se encontram e decidem se rebelar, lutando pelo sonho de um futuro impossível. Esta é uma história arrebatadora de amor, coragem e esperança. Apaixone-se!

Capítulo 1 Entre Bebidas e Sonhos

7 de dezembro de 2004, Cuba

- À sua perfeita admissão! - Rosa ergueu a caneca de rum branco com um largo sorriso. - Eu já sabia, mas você nunca me ouve...

- Obrigada, amiga! - Brindei com ela.

Aquele foi um ano muito corrido. Trabalhei e estudei igual uma louca, nunca me empenhei tanto em meu estágio e frutificou.

Eu iria à mais conceituada faculdade de medicina de Cuba e, melhor, tinha altíssimas recomendações de professores e até médicos.

Não saberia dizer quando a medicina se tornou uma paixão, mas foi avassaladora o suficiente para nunca sair da minha mente.

- Sempre acreditei em você. - Bastou um gole e o olhar de Rosa já ficou todo caidinho.

Ela sempre foi muito fraca para bebida, nem parecia cubana de verdade. Era bem branquinha de cabelo lisinho e olhos claros.

Rosa podia, facilmente, ser modelo. Era magrinha e baixinha, usava óculos redondos, mas não parecia assim tão nerd quanto pensa.

- No meu primeiro salário, eu prometo que faço uma festa! - falei, empolgada. - Sei que o salário é péssimo, mas eu improviso.

- Agora, já pode sair, não? - Ela olhou na direção dos homens do bar. - Vai se tornar médica, não pode ficar bobeando com a saúde.

- Pois, eu me cuido! - retruquei. - Não sei se sairei, se pararei... - Dei de ombros. - O salário de médica não será assim... tanto...

Ela odiava me ver recorrer à prostituição, mas eu não tinha muita escolha. Éramos uma família pequena: apenas o pai, a mãe e eu.

Mas, o pai gastava toda sua aposentadoria com bebida; a mãe vivia mergulhada em seus sonhos e missões contrarrevolucionárias...

No fim, nada sobrava para mim e foi cedo para eu aprender que devia conseguir o meu próprio sustento para ter os meus luxos.

Funcionou... e a prostituição não só me salvou, mas me ensinou o valor do trabalho duro, me ensinou que nada nunca cai do céu.

O bar ficava há dois bairros de onde eu morava, mais perto de Havana. Apesar disso, não vou negar, ele era meio decrépito.

A tinta azul-escura das paredes estava descascando em algumas partes ou desbotando em outras. A portinhola do balcão já rangia demais e ele estava todo marcado por copos.

Eu até tentei cuidar quando comecei a trabalhar, mas o estrago já era grande demais!

Este é um bom resumo: eu era garçonete e prostituta a partir das sete da noite; na manhã, eu estudava e tinha meu estágio no hospital.

Pouco sobrava tempo e, ocasionalmente, o patrão deixava que eu ficasse curtindo minha noite - principalmente em dias calmos.

Tudo apontava para uma noite bem tranquila até um clarão no lado de fora chamar atenção de alguns bebuns, que exclamaram:

- Eita! - Outro perguntou: - O regime?

Minha amiga e eu estávamos conversando, mas silenciamos e olhamos ao redor. Não sabíamos de nenhum foragido entre os clientes.

Claro, isso sempre mudava e muito rápido!

- Vem! - Hernández, o dono do bar, se levantou do balcão e gesticulou para nós. - Não sei quem está devendo, mas podia ter avisado...

Ambas nos levantamos. Levei minha caneca comigo, é claro, mas Rosa deixou a dela.

Passamos para trás do balcão onde uma porta meio caída de ferro levava à cozinha.

Numa troca de olhares nos perguntamos:

- Quem será e por quê? - Essas eram sempre as dúvidas quanto ao próximo conhecido que sumiria na calada da noite.

- Aqui, eles bebem rum! - dizia uma espalhafatosa voz masculina, que eu já conhecia, após os ouvirmos entrarem no bar.

- Conhece? - Rosa olhou com estranheza, provável que eu tenha revirado os olhos.

- É o tal Saif - falei baixo.

Ela já conhecia a história do mais rico amante da minha mãe. Não era ruim, mas algo nele me fazia simplesmente não gostar de vê-lo.

Era arrogante e muito confiante. Para um senhor de idade e estrangeiro, ele até se comportava como se fosse dono de Cuba.

Saif vivia em carros importados, que até pareciam máquinas do futuro; tinha até telefone celular e andava com muitas joias.

Ele parecia acompanhado de mais alguém e outro estrangeiro, dado o sotaque. Tinha voz calma e falava baixo, diferente do próprio.

Hernández foi quem os atendeu e, enquanto servia o rum, Saif decidiu perguntar:

- Cadê a lindinha?

- Na cozinha. Trabalhando! - Hernández falou, infelizmente ele era muito honesto e só mentia caso fôssemos explícitos ao pedi-lo.

- Vou lá! - Desanimada, eu suspirei. - Nem precisa vir ainda, já que ele é bem safadinho para alguém da idade dele - falei.

Rosa odiava homens assim, assentiu bem rápido com a cabeça e já se ajeitou para sentar.

Saindo, Saif estava com outros dois: um era o estrangeiro lindo, residente do hospital; o outro era o seu segurança ou motorista...

- Alminha! - Saif abriu os braços. - Vou te confessar que eu estava com saudades - sorriu largo e eu tentei forçar um sorriso.

Cumprimentei Hernández, meio sem graça, e fui às canecas para pegá-las, falando:

- Pode deixar que eu sirvo.

- Obrigado, Alma! - Hernández falou. - Ultimamente, tem sido difícil levantar desse banco! - Ele brincou, rindo. - Sabe como é...

Na real, nada eu sabia sobre como era ser um velho com sobrepeso, além de tecnicidades médicas, mas apenas assenti com a cabeça.

- Boa noite, senhores! - cumprimentei os outros dois. - Posso servi-los lá fora? É mais fresco e, tenho certeza, a visão vai apaixoná-los.

- Salaam aleikum! - O residente falou com aquele sorriso lindo que só ele tinha. Era impressionante como ele parecia feliz ao sorrir.

Tão feliz que parecia contagiante...

Seu segurança ou motorista nada disse e foi muito sutil com o cumprimento - deixando claro que ainda estava a trabalho... e bem sério!

- Este é meu quase sobrinho, Zahid. - Saif apresentou, sorrindo largo. - Aquele é seu fiel escudeiro, faz-tudo, Kareem...

- Olá! - Eu lhes acenei e segui.

Se ficasse parada por ali, as conversas constrangedoras iniciariam na frente de todos - e eu não tinha motivos para aceitar isso.

- Bella disse ser um dia especial. - Saif falou enquanto andávamos. - Por isso, decidi vir para comemorar com você... ou ajudar - riu.

- Obrigada! - sorri acanhada.

Apesar de tudo, era realmente especial e, naquele momento, eu decidi simplesmente deixar o dia continuar sendo especial.

Se ele foi ajudar a festejar, ótimo! - afinal, não tinha tanto dinheiro e precisaria ficar roxinha para pagar tudo que eu queria beber!

- Pode sentar conosco? - Saif perguntou. - Tire o avental por um instante e seja apenas a belíssima e talentosa futura médica - sugeriu.

- C-claro! - assenti e me preparei para tirar o avental, mas o segurança se aproximou.

- Aposto que foi figurativo, senhorita. - Ele falou. Tinha voz bem grossa e conseguiu parecer ainda mais sério quando abriu a boca.

- Sim, figurativo! - Saif riu. - Devemos seguir às apresentações? - Olhou ao tal Zahid, que me olhou nos olhos, levemente sério.

Iluminado pela luz amarelada, o olhar logo clareou. Era formidável que, mesmo gringo, ele tivesse os melhores atributos tropicais.

A pele era bem bronzeada; os cabelos curtos tinham alguns poucos cachos, mas eram mais crespos - normalmente, ele cobria com uma espécie de turbante... muito charmoso.

Sempre bem escanhoado, com um olhar no formato perfeito para complementar o sorriso - e eu jamais saberia explicar isso.

Havia certa melancolia no fundo daqueles olhos, certo descontentamento, que ele parecia suprimir ao sorrir e foi sorrindo que ele falou:

- Sou Zahid Al-Thani, quinto herdeiro da família Thani; qatari. Tenho vinte e dois anos e, como já sabe, sou residente de medicina.

- S-sim, eu já te vi no hospital. - Sorri. - Sempre elogiam seu trabalho e principalmente o jeito como trata seus pacientes. É fantástico!

- Obrigado! - Pareceu se acanhar.

Nem foi exagero; ele era realmente muito falado no hospital. Extremamente religioso e tão simpático que os pacientes o amavam!

Todo paciente e de qualquer idade... Era um talento inato para a medicina e isso fazia muitos de nós, estagiários, o admirarmos.

As meninas, claro, ficavam loucas!

Tão reservado, calmo e sério, algo devia se esconder por trás daquele rapaz tão exemplar e, honestamente, eu até tinha medo de saber.

- Sou María de las Almas Rodriguez. Garçonete e estudante de medicina em Havana, oficialmente. - Não pude evitar sorrir largo.

- Se unirá a minha turma, então? - riu.

Capítulo 2 Sobrevivendo ao Desconhecido

7 de dezembro de 2004, Cuba

Odiava ter que fazer média com Saif, mas ele era um grande amigo do pai e, na prática, eu era o único da família em território cubano.

Sempre que queria puxar o saco de alguém para algum favorzinho, ele me procurava e eu simplesmente odiava!

Esperava precisar fazer algo pior, a expectativa caiu mais quando vi a fachada acabada do bar, mas mudou ao ver a moça.

Ele estava falando muito dessa garota, sua suposta bastarda, e eu já até imaginava que isso envolvia alguma tramoia com casamento.

Dos irmãos, eu era o único solteiro e, claro, já estava ficando difícil. Até tinha a minha vida com algumas criadas, mas no sigilo.

Publicamente, tentava ser simplesmente perfeito. Na infância, fui ensinado do meu dever de ter uma reputação ilibada.

Tudo, na prática, era pelo meu povo... para o meu povo. Éramos criados para sermos líderes e nem a radicalização mudou isso.

Enfim, a tal bastarda de Saif até era bela. Corpo farto, sinal de uma vida sexual ativa, mas eu podia relevar - afinal, eu também tinha.

Os cabelos eram longos e ondulados, castanhos-claros. Ela tinha semblante de traços finos e a boca lindamente delineada, carnuda.

Até tinha as unhas crescidas e pintadas, o que era muito atípico para a realidade cubana e só podia indicar que ela fazia dinheiro extra.

Parecia uma boa moça. A personalidade não era tão incompatível, mas eu jamais me adaptaria bem a uma mulher daquelas terras.

Nada contra, mas sua criação entraria em choque com meus ensinamentos religiosos - uniões desse tipo exigiam doutrinação e dura!

Até conseguimos conversar um pouco. Em dado momento, ela pareceu duvidar do que estávamos fazendo ali e isso me silenciou.

Provável que Saif nem tenha falado nada.

Obviamente, eu já não tinha mais saco para ficar sentado na rua e a minha ótima reputação justificou que eu me levantasse.

- Está ficando tarde e não é adequado estar num ambiente... - Olhei na direção do bar. - Considerando a minha fé! - Olhei Saif.

- Claro, claro! - Ele assentiu rápido.

- Foi ótimo conhecê-la. - Sorri à Alma. - Espero que possamos conversar mais vezes, seria ótimo conhecê-la profissionalmente.

O pensamento queria ir mais fundo...

- Seria um prazer! - Animada, ela se levantou e estendeu a mão para mim. - Você é tipo uma celebridade no hospital... me ensina!

- Senhorita. - Kareem afastou sua mão.

Ela pareceu confusa ao me olhar.

- É indelicado que troquemos contatos do tipo - expliquei e ela estranhou, curiosa. - É, precisamente, despudorado de onde venho.

- Ah! - Ela arregalou os olhos. - Perdão!

- Não se incomode. - Eu lhe sorri. - Tenha uma boa noite, Alma. Salaam aleikum! - cumprimentei e olhei para Saif, mas nada falei.

Antes de Saif falar qualquer coisa, me mantendo por ali, dei as costas e Kareem se apressou para chegar primeiro no carro.

- Obrigado! - sorri, mais aliviado.

- Disponha, sayyid! - Ele acabou rindo.

Ele era um primo distante, o homem de maior confiança que eu tinha sob minhas ordens e, claro, também um grande amigo.

Entrando no carro, só me recostei e fechei os olhos. Kareem, antes de assumir a direção, tirou a garrafinha de uísque para me dar.

- Casamento, não? - Ele falou.

- Com certeza... - Dei um generoso gole.

- A tia está sabendo? - Ele me olhou.

- Faz um tempo que não falo com a mãe... Quero ligar, mas não sei se devo - lamentei. - Ninguém dá sinal de vida... Isso me estressa!

A família agia em três frentes no Qatar: tínhamos os militares, a serviço do governo e do Islão; um servicinho com armas no submundo e um banco que servia islâmicos.

Cada novo ano significava mais expansões importantes dos negócios, falando de todos, mas... infelizmente, estávamos virando radicais.

O pai já tinha caído nessas ideias e apenas estimulava que o resto da família piorasse. Era uma guerra perdida para os moderados.

Eu só era moderado por amor à mãe, que ensinou suas ideias e princípios. Meu irmão professor, Abbas, filho dela, também era assim.

Os outros, filhos das outras esposas do pai, não alimentavam ideias do tipo... talvez nem tivessem ideias próprias, mas seguiam o pai.

Minha chegada em Cuba foi atribulada. O pai queria que eu ficasse para continuar me treinando para ser soldado, mas a mãe ganhou.

Provável que tenha subornado o coroa...

De qualquer forma, ela conseguiu me jogar para longe de todos eles, numa tentativa de preservar a minha sanidade e minha calma.

Não é como se eu nunca tivesse matado, fosse por lucro ou pelo Islão, mas a mãe não queria isso para mim e, confesso, eu também não queria estar por aí matando divergentes.

Não fazia sentido e isso, meu caro, não tem cura. Quando você entende uma burrice como burra, nada vai fazê-la parecer inteligente.

- Posso entrar em contato. - Kareem propôs após um longo período de silêncio. - Tenta relaxar e descansar, que eu cuido disso!

- Se tiver problemas por lá, quero que me notifique imediatamente! - mandei. - Hoje, eu devo me trancar com a Raja... mas pouco - ri.

- Seu pouco é sempre muito, Zahid! - Ele também riu. - Jana estava de insinuações na cozinha... devo tomar alguma providência?

- Só fala com ela. - Meneei a cabeça. - Se for algo perigoso, sabe bem como proceder - sorri. - Vai que, o que falta a ela, é isso...

Nada ele falou, apenas gargalhou.

A casa em Havana era ótima. Grande, como eu precisava que fosse. Dava para abrigar toda a penca de homens enviados pelo pai.

Enquanto estivesse em Cuba, eu era um correspondente em todos os sentidos possíveis, incluindo ajudando a família em seus serviços.

Havia uma forte investida do Islão na América Latina, no sentido de expansão religiosa, e isso me tornava necessário demais.

Já tinha investimento da Arábia Saudita e uma mesquita seria construída. Saif até se envolvia com isso, como diplomata, mas ele era ladrão demais - e todo mundo sabia disso!

Infelizmente, o desgraçado se conectava bem com os locais e isso exigia a continuidade de sua vida - como eu já disse, infelizmente...

Com a chegada do meu carro, as lanternas dos seguranças sempre se manifestavam num silencioso sinal para alertar os criados em casa.

Quando eu chegava, eles se perfilavam na sala. Assim, eu podia não apenas os contar, mas me certificar de estarem presentes e bem.

Com um futuro médico em casa, não tinha um jeito de defender que qualquer um deles adoecesse - ao menos, sem eu saber.

- Salaam aleikum! - cumprimentei.

- Aleikum essalam! - responderam.

- Espero que tenham tido um ótimo dia. - Segui ao sofá para me sentar. - O meu foi ótimo. Algo que eu devo saber agora?

- Amina ligou. - Raja sorriu sutilmente. - Disse estar muito bem, mas gostaria de falar com você... então, retornará amanhã cedo.

Foi um alívio ouvir que a mãe estava bem.

- Sabemos do quanto tem estado cansado e estressado, preocupado com todos, então fizemos uma boa recepção. - Raja concluiu.

As outras assentiram e eu gesticulei que podiam ir. Bastou para se evadirem rápido e voltarem com um chá e alguns biscoitos.

A sala, de repente, tinha cheiro de casa. Eu não podia quantificar o quanto sentia saudade.

- Também fizemos para nós, mas nos recluiremos na cozinha para descansar da viagem, sayyid. - Raja fitou meus olhos.

- Agradeço o carinho, meninas! - sorri. - Gosto de me sentir em casa e são momentos assim que me fazem sentir em casa. Obrigado!

Nem era da boca para fora. Com todos os possíveis defeitos de cada um deles, ainda éramos uma família e eu amava cada um.

Todos já sabiam o quanto eu gostava de alguns minutos, após chegar do trabalho, sentado no sofá no mais absoluto silêncio.

A casa inteira aquietava para isso...

Eu só dava fim a esse momento quando me dirigia ao meu canto, na última oração do dia, para me pôr de joelhos e rezar a Allah.

Era conflitante ser eu, meramente por ser.

Vivia numa exótica corda-bamba, dividido entre ser o bom filho que a mãe ensinou ou ser o sobrevivente que o pai ensinou.

O único alívio para aquela maldita aflição, eu encontrava em uma situação: no trabalho. Era difícil e dolorido, mas eu amava trabalhar.

Os pacientes eram inexplicáveis extensões da família. Ajudá-los acabava significando me ajudar e eu era quase viciado nessa sensação.

Nem as criadas ajudavam tanto...

Capítulo 3 A Desordem do Silêncio

8 de dezembro de 2004, Cuba

Voltei para casa um pouco bêbada. A condução demorou, quase cochilei no ponto de ônibus, e, ao descer, caminhei sem pressa.

Bastou virar na esquina de casa e eu já desanimei. Um dos antigos carros dos amigos da mãe estava na porta - sinal de confusão.

Vivíamos numa área pobre, distante de Havana. As casas eram medianas, mas simples... nós até vivíamos com dignidade.

Meus trabalhos me pagavam quase tudo que eu precisava e a mãe, com os amantes, até arrumava um presentinho ou outro para mim.

O pai sabia de alguns casos e um carro deles na porta significava que a noite terminaria em gritaria e pancadaria.

Eu ficava apreensiva. A mãe era muito espevitada, sempre retrucava e, se o pai levantasse a mão, ela lutava como profissional.

Obviamente, o pai sempre esperava que seu grupinho de contrarrevolucionários saísse para iniciar a severa sessão de brigas.

Eles nunca se metiam, mas ele ainda era cauteloso, afinal, todo amigo da mãe andava armado e podiam cismar em atirar...

- E aí, lindinha. - Era um novinho que estava no banco do motorista e acenou para mim. - Como foi a viagem? Teve problemas?

Emilio era seu nome. Devia ter vinte e alguns anos. Era baixinho e bem atlético. Tinha um sorriso bonito, mas era um rebelde.

Eu não achava rebeldes atraentes. Nunca.

- Nenhum. Boa noite! - Eu lhe sorri.

Ele estava despreocupado no carro - era impressionante que só o pai e eu tivéssemos ideia do perigo de ter aquele carro ali na porta.

Se o regime resolvesse vir atrás deles, eles acabariam lidando com toda a minha família, sem nem perguntar quem era e quem não era.

Todo rebelde e sua linhagem deviam cair; viraríamos mais um número numa estatística pequena devido a coisas que não fizemos.

Segui para casa, contando os tijolinhos improvisados no caminho pelo pequeno jardim que a mãe conseguia - e adorava! - manter.

- Cheguei... Boa noite! - falei num tom relativamente baixo ao entrar em casa. Tudo estava atipicamente silenciado e eu estranhei.

A sala já tinha traços do quebra-quebra; um abajur caído, um jarro de porcelana, que a mãe adorava, estava quebrado num canto...

O velho sofá tinha gotas de sangue e ainda parecia recente. Suspirei, deixando a mochila perto da porta para começar a arrumar tudo.

Nem me demorei tanto na sala.

Até ouvi um ruído na cozinha, pensei duas vezes se devia ir, mas meneei a cabeça, peguei minha mochila e fui ao meu quarto.

Nossa casa tinha dois andares: sala, cozinha e uma área de serviço no primeiro andar; dois quartos e o banheiro no segundo.

Apesar de pequena, os espaços eram até bem distribuídos, o que diminuía a sensação claustrofóbica de estar num lugar tão curto.

O corredor também tinha sinais da briga e eu cuidei de devolver os quadros às paredes ou recolher estilhaços do que parecia um copo.

Meu quarto era, provavelmente, o único lugar daquela casa que nunca sofreu com a destruição daquele relacionamento violento.

Eu tinha só a minha cama e uma pequena cômoda. Nunca tive muitas roupas e sempre que ganhava uma nova, eu doava uma antiga...

Assim poupava espaço para os livros.

Minha maior preciosidade naquele quarto era uma pelúcia que o pai me deu quando eu era pequenina, fruto de uma viagem que ele fez.

O pai foi um funcionário do regime por muitos anos, mas se aposentou após ser alvejado num conflito com rebeldes.

Ele e a mãe eram muito incompatíveis; dona Bella era uma rebelde e muito apaixonada pela causa contrarrevolucionária - louca!

Era até estranho lidar com o silêncio.

Tirei tudo que precisava da mochila, peguei uma roupa e tomei um banho. Precisava descer para cozinhar, então não pude evitar.

Arrumei um pouco mais, descendo.

Na cozinha, a mãe estava sentada na mesa enquanto um homem, que eu desconhecia, enterrava o rosto em seu pescoço.

De costas largas, era um homem muito forte e, com a pele vermelha pelo sol, muito provavelmente se tratava de algum estrangeiro.

Abraçada nele, ela gemia baixo e bastou para eu dar o passo atrás e voltar à sala - "cadê o meu pai?", foi a pergunta que me restou.

Voltei ao quarto para mergulhar em qualquer um dos meus livros - a mãe conseguiu desviar ótimos materiais de estudo!

Não era normal que o pai estivesse fora àquela hora, fiquei preocupada. Até tentei estudar, mas a cabeça não estava boa para isso.

Deitei, deixando o livro de lado. Cochilei.

- María! - A mãe subiu, me chamando.

- Oi, mãe. - Eu me sentei na cama.

- Chegou e não falou nada... - Ela abriu a porta para me olhar. - Como foi o dia? - sorriu, me olhando com certa empolgação.

Sempre muito confiante em tudo que fazia ou até mesmo no que eu fazia, aquela era uma cara de comemoração pela minha admissão.

- Passei. - Meu sorriso alargou e a mãe, sempre muito jovial, se aproximou pulando e me abraçou. - Já até comemorei com a Rosa...

- Sua mãe disse que passaria! - Ela ria bastante. - Pequena sonhadora... - Fitando meus olhos, notei uma ferida em seu rosto.

- Não quero desanimar, mas cadê o pai? - Tentei não soar preocupada, mas não conseguia parar de olhar à ferida. - Seria bom... tê-lo...

- Saiu para ver amigos... ou para tomar uma pinga sozinho, sei lá. - Ela deu de ombros. - Provável que ele volte logo para dormir.

"E você não estará", lamentei comigo.

Não vou mentir, eu adoraria só fazer um sanduíche para jantar e comemorar com eles...

- Já precisamos planejar a festa. Fará dezoito anos enquanto aluna da melhor universidade de Cuba, meu amor! - Ela falou.

Até me deixou acanhada.

- Não tem como, mãe. - Meneei a cabeça.

- Claro que tem. Sua mãe sempre dá um jeito! - Ela falou baixo. - Vou me organizar e logo dou notícias de como será a sua festa...

- Encontrei aquele homem... Saif - falei e ela me olhou de canto, um pouco séria. - Foi lá no bar... acompanhado de outros dois.

- E o que ele queria? - Ela estranhou.

- Soube da minha admissão e queria me ajudar a comemorar. Até pagou rum. - Ri. - Estava com um garoto lá do hospital, residente.

Toda a animação dela falhou e a mãe me olhou com preocupação. Nada falou, mas ficou claro que algo estava errado.

- O garoto é muito bonito. Zahid é o nome. Famoso nos corredores do hospital, todo educado... ele chega a ser um pecado...

Diferente da habitual risada ou gargalhada, a mãe apenas sorriu amarelo.

- E ele falou o quê? - Ela perguntou.

- Ele quem? Zahid ou Saif?

- Saif. - Ela já se levantou.

- Nada... só isso mesmo. - Dei de ombros.

- Entendo. Sua mãe está saindo. - Beijou minha testa e seguiu à porta. - Voltarei pela manhã, como sabe. Tente descansar, tudo bem?

- Falei algo errado, mãe? - Eu estranhei.

- Não, meu amor. Nunca! - Ela conseguiu dar um sorriso melhor, mas o estrago já estava feito e eu não tiraria aquilo da cabeça.

- Bom trabalho! - Eu a desejei.

- Será... Mais uma noite de guerra! - Saiu. - E mais uma noite em que voltarei com vida...

A mãe era uma mulher linda. Lembro de, na infância, sonhar em ser como ela. Ter aquele corpo e os cabelos tão bonitos e cheirosos...

Estava sempre maquiada e as roupas eram provocativas, parava o trânsito em qualquer lugar de Cuba - os turistas amavam vê-la.

Apesar de ser facilmente confundida com uma prostituta, a mãe era um pouco mais astuta e preferia apenas o título de amante.

Pelo que eu já conhecia, seja por ela e o pai falarem ou por eu descobrir na rua, ela não tinha relações casuais e cobrava muito caro!

Numa realidade onde ela fosse apenas gananciosa, teríamos uma vida de muitos luxos e de muita riqueza, mas ela era sonhadora.

Não sei com quem aprendeu ideias de um país livre e essas coisas, mas cresci com a mãe engajada na política, tentando combater.

Era impressionante que ainda vivesse, dado o fato de o regime ser sempre tão pontual e implacável com os seus inimigos.

Provável que um amante ajudasse...

Com sua saída, eu desci à cozinha. Ela foi cuidadosa e deixou o lugar bem cheiroso e limpo, sem nem vestígios de outro homem.

Preparei os sanduíches. Deixei ambos servidos, pensando nos meus pais, e comi ali...

Era uma pena comemorar sozinha.

Mas, era ótimo ter o que comemorar!

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