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Laços de Sangue

Laços de Sangue

Autor:: Diene Médicci
Gênero: Romance
No auge de suas carreiras bem-sucedidas e fortalecidos por uma amizade que resistiu ao tempo, dois médicos prósperos se veem enfeitiçados pela mesma mulher: uma enfermeira de charme delicado e comportamento reservado. Dividida entre o carinho por ambos, a jovem é envolvida por um turbilhão de emoções, incapaz de decidir qual caminho seguir no amor. Em um golpe irônico do destino, a situação se complica ainda mais quando ela descobre estar esperando gêmeos, concebidos em momentos distintos com cada um dos amigos, trazendo à tona incertezas que mudarão o futuro do trio.

Capítulo 1 1

Pérola, uma mulher forte, classe média baixa, em uma sociedade que ela percebia como conservadora e antiquada, enfrentava desde cedo olhares e comentários que a diminuíam. As pessoas ao seu redor pareciam constantemente tentar desmotivá-la, insinuando que sua origem seria um obstáculo intransponível.

Seu lar era uma casa simples em uma comunidade, deixada por seu pai, vítima de bala perdida a caminho do trabalho. Sua mãe trabalhava como diarista, e Pérola cursava a faculdade, buscando um futuro diferente. Enfermagem era sua paixão, um trabalho que realizava com dedicação em um hospital renomado, um lugar que lhe oferecia grandes oportunidades, mas também desafios. O estágio não era fácil; muitos a olhavam com preconceito, zombando de sua condição social. Sua supervisora era áspera e tornava seu dia a dia ainda mais difícil. Recentemente, Pérola cogitou desistir após uma avaliação negativa da Dra. Salete, uma médica conceituada, mas de semblante fechado, que parecia nutrir uma antipatia imediata por ela. Uma colega comentou que Salete a havia chamado de esnobe e arrogante, prometendo "colocá-la em seu devido lugar" se voltassem a trabalhar juntas, alimentando boatos sobre o preconceito da médica.

Pérola tinha 21 anos, 1,68m de altura, era magra e chamava atenção quando se arrumava, com seus cabelos longos e sua desenvoltura, especialmente no carnaval, onde desfilava desde criança, apaixonada por dançar. Ela e sua mãe eram muito unidas e se apoiavam mutuamente. Sua mãe nunca mais se envolveu seriamente com outra pessoa após a perda do marido, focando em Pérola. Para ajudar em casa e custear parte da bolsa de estudos, Pérola trabalhava em uma loja de roupas de marca. Nunca havia namorado, e sua mãe preferia a própria companhia, tendo apenas alguns relacionamentos casuais.

Um dia, enquanto trabalhava, um homem alto e elegante entrou na loja. Com cerca de 1,90m de altura, barba bem feita e porte atlético, aparentava ter uns 28 anos e atraiu a atenção de todas as vendedoras. Seus olhares se cruzaram, e Pérola, por estar mais perto, apressou-se a atendê-lo.

- Olá, boa tarde! Tudo bem? Posso ajudar? - perguntou gentilmente.

Ele respondeu sem encará-la:

- Procuro um presente, queria algo especial...

- Tem alguma referência do que ela gosta? Chegaram essas peças novas... - ofereceu Pérola, mostrando algumas blusas decotadas e transparentes.

- Ela não gosta assim, tem outra pessoa para me atender, por favor? Somos clientes antigos aqui - respondeu ele.

Pérola se sentiu desconfortável, mas as outras vendedoras estavam ocupadas.

- Desculpe, qual a idade dela para eu ter uma noção melhor? - perguntou.

- É para minha mãe, procuro algo delicado, mais sutil, menos chamativo! - respondeu ele, sério.

Pérola mostrou um vestido vinho na altura do joelho, com mangas até o cotovelo, simples, mas elegante, com um colar de pérolas, uma bolsa de mão e brincos combinando.

- Perfeito! Vou levar - disse ele.

- Só o vestido hoje? Não quer aproveitar para levar um acessório? - perguntou Pérola, aliviada.

- Não, você não entendeu. Vou levar tudo! O vestido e tudo mais que está aí junto - afirmou ele.

Pérola ficou surpresa e animada com a comissão que essa venda lhe traria.

- Ah, desculpa, eu não tinha entendido! Que bom que gostou da sugestão! - disse.

- Não precisa ficar se desculpando a cada cinco minutos, moça! - respondeu ele, antipático.

A grosseria do rapaz a deixou abalada, mas a venda compensava seu comportamento. Ela o acompanhou até o caixa, agradeceu e voltou ao seu posto. Ele pagou e, ao passar por ela, disse "obrigado" e "tchau". Aquele tipo de tratamento era comum; muitos clientes a tratavam com desdém, como se fossem superiores. A forma como aquele rapaz falou a atingiu, fazendo-a por um instante fantasiar sobre uma possível chance com alguém como ele, mas logo se conteve, mantendo os pés no chão.

Dias depois, em uma manhã em que se sentia particularmente desanimada, Pérola acordou cedo para o estágio, pressentindo um dia difícil. No hospital, foi recebida friamente pela Dra. Salete, que informou que Pérola a acompanharia em uma cirurgia simples para cobrir a ausência de uma colega. Pérola estava nervosa por ser sua primeira cirurgia de perto, e o tratamento da médica não ajudava. Salete instruiu-a a prestar atenção a cada detalhe. Na sala de cirurgia, tudo parecia calmo, mas a médica quase não lhe dava tarefas. Em um momento de breve distração, Salete a chamou rispidamente:

- Pérola?! Pérola?! Menina insolente! Aqui não é lugar para se distrair.

- Oi... Oi, doutora, desculpe! - respondeu Pérola, constrangida.

- Assim espero! - retrucou Salete, arrogante, começando um discurso sobre a falta de profissionalismo dos jovens, insinuando que qualquer um com pouca instrução se achava competente. Pérola, nervosa, deixou cair um bisturi. A médica explodiu: - Não serve mesmo para me ajudar, sua incompetente! Eu já tinha avisado ao chefe que você não ia longe, toda atrapalhada, não consegue nem pegar um bisturi corretamente! Saia agora daqui! Anda!

Pérola saiu da sala sem dizer nada, arrasada, mas segurando as lágrimas para não dar mais motivos para críticas. Sua supervisora conversou com ela e a afastou de Salete pelo resto do expediente. Depois, Pérola foi direto para a loja, que estava movimentada. Ao ver o rapaz da outra vez entrar, tentou evitá-lo, preferindo perder a comissão a ter outro confronto. Sua colega o atendeu por meia hora e, como ele parecia indeciso e exigente, pediu a Pérola para assumir a venda.

- Olá, posso ajudá-lo? Gostou de algo? - perguntou Pérola, sem muita simpatia.

- Estou em dúvida, procuro um presente, ela é exigente, é tão difícil presentear quem já tem tudo - respondeu ele.

- Verdade, é difícil. Ela gosta de algo mais básico? - tentou Pérola, sem ânimo.

- Não, ela gosta de chamar atenção, é nova - disse ele.

Pérola o levou até as novidades, mostrando algumas peças transparentes e rendadas, incluindo um vestido preto curto com um grande decote. Ele fez uma careta imediata.

- Ela não se veste assim, é muito vulgar esse tipo de roupa!

Pérola mostrou um cropped de renda com um cardigã, que considerava elegante e na medida certa.

- Gostou? - perguntou.

- Você usaria essa roupa? - ironizou ele.

- Não faz o meu estilo, mas é bonito - respondeu Pérola, já esperando algo desagradável.

- Se nem você que é assim usaria, imagina a pessoa para quem estou comprando o presente. Ela gosta de chamar atenção, roupas da moda. Acho que não vou encontrar o que procuro aqui hoje! - debochou ele.

- Desculpa. Assim como? Não entendi - perguntou Pérola, confusa.

- Você usa tênis, roupas falsas, não usa? - continuou ele, irônico. Pérola assentiu. - Fico imaginando como você se veste fora daqui sem esse uniforme. Deve ser ruim para você vender coisas boas e não poder usá-las.

Naquele momento, Pérola não aguentou. Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela começou a chorar ali mesmo, no meio da loja. Ele estava de costas, e ela tentou limpar o rosto rapidamente, mas foi inútil. Ele se virou, assustado e sem entender.

- Me dá licença, vou chamar alguém para te atender... - disse Pérola, com a voz embargada.

- Você está bem? - perguntou ele, surpreso.

- Não, moço, não estou. E não precisava falar desse jeito comigo. Prefiro usar roupas falsas do que ostentar uma vida que não tenho. Não sou menos que ninguém por isso! - respondeu ela, enxugando as lágrimas.

Ele se desculpou, dizendo que não havia se expressado bem. Pérola não respondeu e se afastou, deixando sua colega atendê-lo. Correu para o banheiro, sentindo-se humilhada e exausta. Pediu para sua patroa liberá-la mais cedo, alegando não estar se sentindo bem. Eram umas 18h de sexta-feira. Ao sair da loja, ele já havia ido embora. Chegou em casa exausta e não contou nada à mãe, inventando uma enxaqueca e TPM. Tomou banho, deitou-se e chorou até dormir. Acordou com a mãe chamando para jantar, mas disse que não queria. A mãe percebeu seu abatimento e perguntou o que havia acontecido, mas Pérola apenas disse que estava cansada do trabalho e do estágio, evitando compartilhar seus sofrimentos, especialmente os relacionados ao preconceito, para não preocupar a mãe, que tinha problemas de pressão alta.

No sábado, acordou um pouco melhor e trabalhou na loja pela manhã. À tarde, descansou em casa. Recebeu uma ligação de uma amiga, convidando-a para trabalhar em uma festa de aniversário de pessoas influentes. Pérola aceitou na hora, precisando do dinheiro e de uma distração. Às vezes fazia trabalhos extras como garçonete ou recepcionista, e depois sempre se divertia com os amigos. A amiga disse que seria legal e que precisavam ir bem vestidas, maquiadas e de salto alto. Pérola escolheu um vestido preto para a festa, que era em uma balada fechada. Ela ficou na portaria com a lista até a responsável chegar. As pessoas foram chegando, e ela viu o cliente mal-educado da loja. Ele sorriu e disse "oi". Pérola manteve a seriedade e perguntou:

- Qual o seu nome?

- Klaus! - respondeu ele.

Pérola procurou na lista, verificou e colocou uma pulseira no braço dele. Ele segurou sua mão e disse:

- Queria me desculpar com você!

- Imagina, eu estava tendo um dia ruim apenas. Boa festa! - respondeu Pérola, tentando ser cordial.

Ele entrou, mas logo voltou e perguntou seu nome.

- Pérola - respondeu ela.

- Vamos reiniciar? Prazer, Pérola, sou o Klaus! - disse ele, educadamente.

Capítulo 2 2

Pérola manteve a postura séria enquanto a aniversariante se aproximava repentinamente e o chamava. Klaus lhe disse, com um olhar de despedida, "a gente se vê". Logo, a moça responsável pela portaria chegou, e Pérola se dirigiu ao bar. Cerca de meia hora depois, Klaus foi pegar uma bebida; sua colega o serviu, e ele ficou a encarando, encostado no balcão. Pérola continuou trabalhando, sem se distrair ou lhe dar atenção.

Ele logo se afastou, e horas depois, quando a festa acabou, já super tarde da madrugada, restavam uns quatro convidados, incluindo a dona da festa, Klaus e o pessoal arrumando tudo para encerrar o expediente. Os convidados se foram, e o pessoal tomou alguns drinks e cervejas, mas Pérola não bebeu, pois quase nunca tinha esse hábito. Ela apenas conversava descontraidamente. Logo, ela e sua colega saíram, e Klaus estava lá fora, encostado no carro. Ele correu até Pérola e disse:

- Finalmente! Estava te esperando.

Pérola respondeu surpresa:

- Me esperando?!

Ele confirmou:

- Sim, quero me desculpar com você, sabe... Posso te dar uma carona?

Pérola respondeu indiferente:

- Você não tem por que se desculpar, falou o que pensa baseado na sua realidade. Eu estava tendo um mau dia e me exaltei um pouco.

Ele a segurou pelo braço e propôs:

- Vamos dar uma volta?

Pérola se esquivou:

- Não, olha a hora que é, preciso ir para casa.

Ele insistiu:

- Eu te levo embora, se preferir.

Pérola recusou, agradecendo. Sua colega conversava com o ficante, que também trabalhava ali, e comentou que eles iriam estender a noite, perguntando se o "amigo" de Pérola a levaria. Convidou Klaus para ir junto. Pérola disse que estava cansada e precisava ir para casa, mas Klaus a interrompeu, respondendo à amiga:

- Eu levo ela, pode deixar.

Se Pérola pedisse, sua amiga e o ficante a levariam para casa sem problemas, mas ela sabia que seria um incômodo. Por outro lado, Klaus estava sendo gentil e educado, embora fosse um desconhecido. Um pouco insegura, Pérola aceitou a carona. Enquanto se despedia da amiga, enviou uma mensagem com todos os dados de Klaus, do carro e o que sabia sobre ele, por segurança, caso algo acontecesse. Ela sempre fora um pouco paranoica.

Eles entraram no carro, um carrão de luxo, o que já era de se esperar. Pérola, envergonhada, permaneceu em silêncio. Klaus perguntou:

- E aí, Pérola, nome bonito. Me fala um pouco mais sobre você?

Pérola respondeu séria:

- O que quer saber?

Ele disse "tudo", e Pérola falou:

- Tenho 21 anos, moro com a minha mãe, Lucinda. Perdi meu pai quando eu era pequena, vítima de bala perdida, era de se esperar já que moro na favela. Estudo enfermagem, tô quase me formando. Uso roupas do camelô, mas isso você já sabe. Gosto de pagode, funk, sei lá, não tenho nada muito interessante pra te dizer. Fala de você aí.

Pérola foi afrontosa, testando a gentileza dele, e Klaus não foi ogro nem esnobe. Ele respondeu:

- Eu não quis te ofender, me desculpa por aquele dia. Sou médico, moro perto da praia, tenho 28 anos e gosto do seu senso de humor, mesmo que um pouco negro.

Pérola respondeu:

- Médico? Que legal.

Ele perguntou, colocando a mão na perna dela:

- Você não quer dar uma parada em algum lugar? Pra gente poder se conhecer melhor!

Pérola tirou a mão dele da sua perna e respondeu séria:

- Não, se você não quiser só me levar pra casa, pode me deixar aqui mesmo, que eu me viro.

Ele respondeu sem graça:

- Não, que isso, vou te levar em segurança para sua casa.

Eles conversaram pouco, e Pérola não se sentiu à vontade ao lado dele. Ele a deixou na porta de casa, e quando ela foi beijar seu rosto, ele a beijou na boca. Foi um beijo intenso. Pérola agradeceu a carona, desceu do carro, e eles nem sequer trocaram números. Dias depois, Pérola estava trabalhando na loja, atendendo uma cliente, quando Klaus entrou, sorriu para ela de longe, e ela retribuiu o sorriso, dizendo "oi". Ele ficou vendo algumas peças, e quando a cliente de Pérola se foi, ele disse à colega que gostaria de ser atendido por Pérola, porque ela conhecia seu gosto. Pérola se aproximou e disse:

- Olá, boa tarde, tudo bem? Posso ajudar?

Ele respondeu que estava ótimo, e Pérola perguntou:

- O que você procura hoje?

Ele respondeu baixinho:

- Você deve me achar estranho, né?! Sempre vindo comprar presentes femininos.

Pérola respondeu, mexendo nas roupas:

- Não, imagina. O que você tem em mente hoje?

Ele disfarçou:

- Conseguir o seu contato, eu não sabia como te encontrar, fiquei pensando em você.

Pérola respondeu apreensiva:

- Você não pode falar essas coisas aqui, para, por favor, se não você pode me prejudicar.

Ele respondeu:

- Calma, Pérola, ninguém ouviu nada!

Pérola começou a mostrar algumas peças para ele, suas mãos ficaram geladas e trêmulas. Ele pegou discretamente na mão dela e perguntou:

- Você tá nervosa?

Pérola ignorou a pergunta:

- Qual a idade dela? Você tem preferência de cor?

Ele respondeu:

- 21, 22, acho que pode ser cores quentes, algo colorido, ainda não sei do que ela gosta.

Pérola imaginou que ele pudesse estar falando dela. Eles foram para o balcão com perfumes importados, e enquanto Pérola mostrava as fragrâncias, escreveu seu número em um papelzinho e entregou a ele sem que ninguém visse. Klaus disse, achando graça:

- Eu não posso sair sem levar nada, já que tomei seu tempo!

Pérola respondeu:

- Imagina, pode sim, sem problemas.

Ele a fez mostrar mais algumas coisas, escolheu uma bolsa linda de R$300, pediu para embrulhar e foi embora. Quando Pérola saiu do trabalho, havia uma mensagem dele dizendo que gostaria de sair com ela. Pérola respondeu que estava sem tempo, com muito trabalho, mas na verdade não queria. Ele respondeu que tudo bem, que quando ela estivesse mais tranquila, era para avisar. Ele começou a puxar assunto, e eles conversaram durante aquela noite e nos dias seguintes, trocando várias mensagens, nada demais, apenas se conhecendo melhor. Ele mandou uma foto dele no trabalho, e Pérola, que também estava no hospital, mandou uma foto sua de enfermeira. Ele respondeu que achava legal ela estudar e trabalhar, mas que achava uma pena ela não ter tempo para sair com ele. Como a conversa deles estava agradável há dias, Pérola aceitou sair. Havia muito tempo que ela não ficava com ninguém, e estudando tanto, era difícil ter tempo. Klaus se mostrou paciente por dias, então eles marcaram para sábado às 21h. Pérola ficou muito ansiosa, sem saber o que esperar. Por mensagem, ele não disse nada sobre onde iriam ou o que fariam. Ela estava acostumada a sair com gente como ela, mais humilde, e raramente teve um encontro de verdade. Começou a revirar o guarda-roupa, achando que não tinha sido uma boa ideia, mas seria chato desistir em cima da hora.

Capítulo 3 3

Seria uma grosseria da parte dela, pensou Pérola. Ela havia ficado um pouco insegura com o que vestir, mas não se deixou levar pela pose de playboy de Klaus. Pérola entendia de moda, e mesmo sem muitas condições, sabia se vestir bem. Para o encontro, escolheu uma calça jeans escura flare, salto alto plataforma nude, uma blusa larguinha cor neutra por dentro da calça, com cinto e um casaquinho cardigã. Deixou o cabelo solto, com todo o volume que tinha por ser lavado no dia, e gastou um bom tempo arrumando as madeixas.

Seu cabelo era naturalmente cacheado, longo até a altura do sutiã, com cachos largos que, esticados, quase alcançavam o bumbum.

Eles combinaram de se encontrar diretamente no barzinho. Pérola sugeriu o lugar e ainda foi com o coração apertado pagar a condução. O dinheiro era contado, e qualquer volta custava entre vinte e trinta reais. Ela achou melhor assim, para não dar trabalho a ele. Chegou primeiro, no horário combinado, e foi sentar sozinha. Nem pediu nada para economizar. Começou a pensar que talvez levasse um bolo, ou que tudo fosse uma brincadeira de mau gosto.

Klaus chegou depois de uns trinta ou quarenta minutos. Beijou o rosto dela, sendo simpático e educado. Estava cheiroso, barba feita, vestido num estilo social esporte.

- Oi, Pérola, tudo bom? Desculpa o atraso, me enrolei com umas coisas. Você está muito linda! Diferente, não sei dizer.

Pérola respondeu, lisonjeada:

- Oi, Klaus, tudo bem e você? Imagina, está cedo ainda. Tranquilo! Obrigada. Deve ser a maquiagem, não costumo usar assim no dia a dia.

Sentaram-se à mesa, um de frente para o outro. Ele pediu o cardápio e criticou o atendimento, sendo que acabara de chegar. Pérola discordou e ainda riu da situação. Klaus perguntou o que ela gostaria de pedir, e ela, sem jeito, falou:

- Ahhh, não sei. Está com fome? Você gosta de beber, né?!

Ele disse que não estava com muita fome. Pediram uma torre de chopp e uma porção de fritas especial. Klaus comentou que esperou ansiosamente pelo encontro e que estava achando que ela não apareceria. Conversaram bastante sobre trabalho e estudos. Pérola falou muito, toda tagarela, ainda mais bebendo, o que não era um hábito seu. Ela era muito fraca para bebida. Ele colocou a mão sobre a dela enquanto conversavam e começou a fazer um carinho, iniciando um contato físico.

Klaus foi ao banheiro e, quando voltou, sentou-se ao lado de Pérola. Enquanto conversavam, pegou na perna dela algumas vezes, por baixo da mesa, como se ninguém estivesse vendo nada. Na primeira oportunidade, beijou-a de língua, grudou no cabelo dela e enfiou a língua em sua boca. Pérola não conseguiu definir de zero a dez o quanto gostou; achou o local desconfortável, com muita gente perto. Ela nunca gostou de exibicionismo.

Começaram a falar de faculdade e de política, e deram muita risada. Não deu meia hora após o primeiro beijo, e Klaus disse que ia pedir a conta. Deu um selinho nela. Pérola falou que queria pagar a metade e foi abrindo a bolsa para pegar a carteira. Tinha só uma nota de cinquenta reais e ficou com medo de não ser suficiente. Klaus disse que não precisava, que havia bebido mais que ela e que era um prazer para ele pagar. Pérola insistiu, dizendo que ficaria chateada. Tomou a frente com o garçom, e ele não teve opção. Racharam a conta e foram saindo. Klaus meio que a abraçou e falou:

- Vamos dar uma volta? Está cedo ainda!

Pérola concordou. Beijaram-se no estacionamento, duas vezes. Entraram no carro, e ele a levou para um lugar mais afastado. Deitou um pouco os bancos e ofereceu chicletes. Ela aceitou, pensando no perfume delicioso dele. Ele se aproximou, tirou o cinto de segurança dela e deu um beijão. Começaram a ficar, e ele rapidamente avançou o sinal, pegando nos seios dela e colocando a mão no meio de suas pernas por cima da roupa. Estavam naquele amasso todo, e ele a apertava. Pérola recuou discretamente, tirando a mão dele mais de uma vez, e foi dando uma pausa nos beijos. Então, ele a surpreendeu e disse:

- Quero ficar mais à vontade com você, aqui não é muito legal. Vamos para um motel? O que acha?

Pérola respondeu, tentando agir naturalmente:

- Hoje não, quem sabe um outro dia...

Klaus respondeu, afastando-se completamente dela e ficando sério:

- Belezinha, vou te levar para casa então...

Ela não gostou da atitude dele. Sentiu que ele só havia saído com ela com a intenção de levá-la para a cama e achou que seria muito fácil. Ficou quieta, e ele a levou para casa, calado boa parte do caminho. O clima mudou completamente. Ele atendeu uma ligação e combinou de encontrar alguém, deixando bem claro o que estava acontecendo, pelo menos para ela. Pérola se sentiu muito idiota por ter aceitado o convite daquele arrogante metido a besta.

Ela nem ia se despedir com beijo, tirou o cinto, e ele falou:

- Curti muito sair com você hoje, Pérola. Não vai me dar um beijo?

Ela deu um beijinho sem muita vontade e respondeu:

- Obrigada por me trazer em casa, Klaus.

Desceu do carro, chateada porque havia gostado dele durante a noite, pelo menos em parte. Mas ele a fez abrir os olhos. Quando entrou em casa, sua mãe, Salete, perguntou como tinha sido a noite. Pérola tentou disfarçar sua cara péssima. Salete comentou que ela havia chegado cedo, e Pérola disse que tinha sido legal e divertido, mas que o rapaz não tinha nada a ver com ela, com ideologias e gostos diferentes, além de ser um pouco mais velho.

Logo foi deitar e ficou olhando o celular para ver se ele havia mandado algo. Depois da meia-noite, ele mandou uma mensagem perguntando se ela ainda estava acordada e falou que ela havia esquecido o casaco no carro e que ele ficaria sentindo o perfume dela a noite toda. Pérola só viu a mensagem de manhã e respondeu:

"Bom dia, Klaus rs nem lembrei de pegar o casaco"

Ele respondeu:

"Bom dia, linda, quando podemos nos encontrar para eu devolver?"

Pérola disse que ia ver um dia, mas que não tinha pressa e não queria incomodar. Ele voltou a falar do cheiro e disse que ficou com o gosto dela em sua boca.

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