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Legionário

Legionário

Autor:: Maggie Araújo
Gênero: Romance
Éveline Girauld é uma agente das forças especiais francesa. Fera da tecnologia, entre outras habilidades, sempre colocou seu trabalho em primeiro lugar, principalmente, quando mulheres e crianças estão em perigo. Servir ao seu país era seu sonho desde muito jovem. Sua beleza negra se iguala a sua dedicação e profissionalismo que lhe renderam muitas condecorações e a patente militar de um dos graus mais elevados que uma mulher jamais alcançou na história das forças especiais... Mas um problema de segurança nacional lhe tem tirado o sono. Principalmente, a hipótese de se fazer uma Força-tarefa com a Legião Estrangeira, que muito embora seja parte do exército francês, não lhe agrada combinar forças com eles. Amir Laforge tem 37 anos, ex-piloto paraquedista da aeronáutica francesa, de origem franco-arábica, viu seu sonho de vida perfeita se desfazer em uma missão mal-sucedida no norte da Argélia. O trauma, a dor da perda fizeram com que seu coração se fechasse para toda e qualquer forma de felicidade. Culpando-se por todo seu tormento, decide alistar-se na Legião Estrangeira, a fim de cumprir a promessa de nunca mais voltar a pilotar um avião em combate. Sua formação militar é herança familiar, por isso, destaca-se na Legião alcançando postos por mérito e louvor em suas missões. A segurança de seus irmãos legionários, crianças e mulheres, nessa ordem, é sua meta de vida. Nas horas vagas, não dispensa uma boa bebida e uma mulher bonita em sua cama. Mas uma nova missão se impõe e o força a enfrentar seus medos e uma possível redenção para seu sofrimento. Uma nova chance de felicidade. Duas vidas dedicadas a salvar outras vidas... caminhos que se cruzam... Poderiam eles superar seus medos e diferenças para salvar vidas e buscar a felicidade almejada? Seria o amor capaz de superar as dificuldades e obstáculos ao longo do caminho?

Capítulo 1 A agente

Éveline

Meu nome? Girauld. Éveline Girauld. Tenho 29 anos. Minhas origens? Nasci na França, sou filha de mãe brasileira e pai francês. Trabalho para o governo francês, agente das forças especiais. Um grupo seleto de agentes da inteligência francesa, responsável pelas investigações de casos que ferem os ideais do lema de nossa pátria, nossa bandeira – Liberté, Égalité, Fraternité.

Em campo, sou a Tenente-coronel Girauld, para os membros da minha equipe, sou apenas Evil – codinome que ainda não entendi direito a razão – eles dizem que para destruir o mal somente o mal. Mas nem sou tão má assim!! Ou será que sou? Deveria perguntar isso aos trastes que já neutralizei... Minha especialidade? Eletrônicos e tecnologia. Sou um arraso com um computador, smartphone ou qualquer eletrônico que se conecte à rede nas mãos. Mas não passo vergonha com armas nas mãos; aliás, trago sempre minha Jade (uma adaga de prata com uma pedra de jade no cabo, mon papa me deu após minha primeira missão bem-sucedida) sempre colada a meu corpo. Muito menos na luta corporal, faço Taekwondo desde os nove anos, participei até de competições. Era o orgulho da família.

Na rebeldia da adolescência, decidi que queria ser da polícia, militar ou qualquer outra profissão que não fosse me prender em vestidos ou saias ou ainda cheias de frufrus. Era molecona, odiava maquiagem, acessórios e afins. Tudo o que estava relacionado com moda era absolutamente repudiado por mim, para infelicidade de minha mãe e das poucas amigas que tive. Foi assim que me matriculei num colégio militar, para fazer o ensino médio e daí em diante, foi tudo uma questão de dedicação e perseverança. No começo, minha mãe não gostou muito da ideia, contudo nunca deixou de apoiar minhas escolhas.

Neste momento, estou numa cela escura e úmida, confinada com algumas mulheres. Ao todo, são sete mulheres, que foram aliciadas ou sequestradas... estou disfarçada, me deixei capturar por uma quadrilha de tráfico de mulheres no mediterrâneo. Estamos em algum lugar do extremo norte da Argélia, último estágio do meu plano. Minha equipe já deve estar de prontidão para o resgate. Foram meses estudando, investigando as diversas pistas e provas que foram sendo descobertas. Ao que tudo indica, esse grupo pode ser apenas uma célula de algo muito maior, com atuação em toda a Europa.

Minha equipe é pequena, somos quatro agentes de patente graduada, mas a equipe de apoio de campo, com cerca de vinte soldados. Já atuamos juntos em centenas de missões por toda a França e, também, pela Europa, África, etc. Adrenalina é nosso combustível, assim como, desfazer injustiças e desmandos de homens e mulheres que só pensam em lucrar com a dor e sofrimento alheios.

Meia-noite...

Hora da troca da guarda... Nesse momento, a vigilância do cativeiro fica mais vulnerável, muitos mercenários estão dormindo, a qualquer momento começaremos a agir...

Então, eu oriento as mulheres que estão comigo neste cativeiro:

- Meninas, ao meu sinal, abaixem-se e procurem ficar calmas.

- E o que faremos em seguida? – perguntou Emma.

- Apenas mantenham a calma e sigam-me. Logo sairemos deste inferno.

Ouço uma explosão... hora da festa!!!

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A porta do cativeiro se abre num rompante:

- Benoît, você está atrasado! – falo baixo para meu atirador de elite.

- Eu nunca me atraso, chefinha! Vem, vamos logo. Você não vai querer perder a festa... – ele responde sorrindo de lado...

- E meu convite?

Ele me entrega uma Glock G17 e um mini comunicador auricular.

- Tome cuidado como a minha menina, Evil...

- Sempre... Mostre-me o caminho, vamos logo atrás de você... – ajeito o aparelho em minha orelha direita. - Quanto tempo para chegar ao ponto de extração?

- Cinco minutos, se não houver um confronto muito longo! - responde René, meu segundo melhor atirador. - Bem-vinda à festa! A propósito, Evil: Você está um bagaço!!!

- Olha o respeito, soldado!!! Retruco fingindo indignação. - Venham meninas! Barra limpa...

Sigo à frente com Benoît, as mulheres resgatadas vêm logo atrás. René e os outros soldados cobrem nossa retaguarda.

Ao longo do percurso, sons de tiros de pistolas e metralhadoras, além de algumas granadas, quebram o silêncio da noite.

- Fiquem sempre juntas, meninas! – oriento as mulheres. - Qual é a nossa situação Jeanpi?

- Em quinhentos metros, vindo pela sua esquerda, vocês terão problemas. Um grupo com mais 15 mercenários está indo na sua direção. – Informa Jeanpi.

- Oh, putains!!! Ok, rapazes. Qual o plano B?

- Plano B? – repete minha fala René. - Existe um plano B, Benoît?

- Como assim? Vocês não têm um plano B? ... Falo indignada.

- Vamos ter que improvisar!!! – responde Benoît. – Evil, pega!... Faça a sua mágica! – ele me entrega um tablet. Tem horas que penso se eles realmente passaram pelo mesmo treinamento que eu. Homens... não sabem pensar além... Não é possível, vir para um resgate como esse e não ter um plano B! Amadores!... Mas isso não vai ficar assim!

- Juro que, definitivamente, preciso de uma nova equipe. Onde já se viu não ter um plano B, numa missão de resgate!!!!... faça sua mágica!!! Estamos numa ruína, no meio do deserto, Benoît! Que tipo de tecnologia vocês acham que encontrarei aqui?

- Pare de reclamar, Evil. Você pode se surpreender, chefinha. Confia!!!! – argumenta ele dando uma piscadinha com sorriso de lado.

Aciono alguns comandos no tablet e vejo que, mesmo sendo uma ruína antiga, sua estrutura foi modificada com alguns recursos tecnológicos que compõem a segurança e infraestrutura básica do lugar, como fornecimento de água e energia.

- Merci, mon Dieu! Agora a coisa muda de figura.

- Vamos, Evil. Estamos ficando sem tempo... – me apressa Jeanpi.

- Estou invadindo o sistema dos reservatórios de água e energia. Será que esses mercenários de merda sabem nadar?

- Evil, não!!! Você não faria isto! - adverte Benoît.

- Oh sim! Tanto faria como já fiz... Prendam a respiração, rapazes e meninas! Acabo de destravar as comportas do reservatório de água dessa joça. Vamos nadar um pouco!

Em segundos, a tromba d'água surpreende os mercenários que tentavam nos encurralar. Também fomos atingidos e levados para fora do local, porém a violência da água já estava bem menor. Os poucos inimigos que sobraram, abriram fogo contra nós do lado de fora da construção. Mas conseguimos neutralizar sua ação sem muita dificuldade... Alguns mercenários foram abatidos, outros foram presos e levados para interrogatório, cerca de 35 homens faziam a guarda do local nesta noite.

Chegamos ao ponto de extração e o helicóptero de resgate já nos aguardava com motores ligados. Todos a bordo, então eu declaro:

- Bom trabalho, senhores!!! Podemos ir pra casa!!

Algumas horas depois...

Já estamos em solo francês! Missão cumprida com sucesso! Nenhuma baixa de nossos soldados, graças aos céus! Mais uma pra conta!!!!

Na câmara-observadora da sala de interrogatório, entro e me inteiro da situação:

- Quantos passarinhos pegamos? Algum deles já cantou?

- Quatro passarinhos... e cantaram em alto e bom som!!! Sou o melhor em interrogatórios. – gaba-se René.

- Mas, conforme as investigações preliminares e o que eles informaram, essa é só a ponta do iceberg; e esse, Evil, é digno de um Titanic... – pontuou Didier.

- É tão crítico assim? – questiono querendo mais informações.

- As mulheres resgatadas já foram ouvidas e enviadas para suas cidades e/ou seus países de origem. A maioria delas não tinha família ou residência fixa. – Jeanpi informa.

Nesse momento, Benoît entra acrescentando:

- Há boatos sobre a intenção do alto comando fazer uma força-tarefa. Adivinha com quem?... Nada mais, nada menos que eles, meus caros: Legião Estrangeira! – completa retoricamente.

Força-tarefa? Oh la la! Tem peixe grande na jogada. A última da qual fiz parte foi durante os ataques terroristas em Paris. Todas as forças militares francesas uniram forças para encontrar os responsáveis pelos ataques. Estou prevendo muito trabalho para os próximos dias, talvez meses. Só então saio de meus devaneios e respondo preocupada:

- Merde!!! Legionários, não!!!

- Qual sua história com a Legião? Devemos nos preocupar, Evil?

- Não, não há história nenhuma... É que alguns desses legionários têm o ego do tamanho do Saara, se acham o suprassumo do exército. Enquanto, nós juramos lealdade à França, eles juram lealdade à própria Legião...

O comandante Rosiet abre abruptamente a porta da sala, interrompendo minha fala.

"Merde dupla!" – xingo mentalmente.

- Tenente Girauld, tem um minuto? – pergunta ele que não está com o seu melhor semblante.

- Sim, comandante!

Sigo-o até seu gabinete.

Capítulo 2 Licenças revogadas

Amir Laforge

Sou o capitão Amir Laforge, tenho 37 anos. Alistei-me na Legião Estrangeira há sete anos. Faço parte da terceira geração de militares da minha família. Todavia, ser um Legionário não foi minha primeira opção. Das forças armadas, a menina dos meus olhos sempre foi a Aeronáutica, a imponência dos aviões-caça, a sensação de estar livre em pleno voo e, com isso, ter a responsabilidade de proteger os céus da minha pátria, enquanto protegia também a minha família. Era isso que me movia, que me fazia seguir em frente... Até que meu mundo foi virado do avesso, após retornar de uma missão, não fui capaz de cumprir minha missão pessoal, minha promessa, meu objetivo pessoal: proteger a minha família que mal tinha começado a se formar como tal. Desde então, culpa e sofrimento me acompanham... Por isso, encontrei um propósito na Legião, para aplacar meu sofrimento e, ao mesmo tempo, fazer justiça, ter paz.

Minha meta agora é a Legião= Honneur et Fidelité. Não tolero crimes contra a família, principalmente, contra crianças. Embora em minha vida não tenha mais espaço para esses assuntos. Meus já se foram, sou filho único. Não me envolvo mais seriamente, prefiro encontros casuais. Adoro um belo rabo de saia.

Acabei de voltar de uma missão na fronteira do Turquemenistão com o Afeganistão. Foram seis longos meses analisando, estudando a movimentação dos soldados talibãs e montando estratégias para libertarmos o vilarejo do domínio talibã. Eles recrutavam crianças e adolescentes para seu exército.

- Oh putains!!! Crianças! Deixem-nas ser crianças e brincar em paz!...

A missão foi um sucesso. Meus homens e eu chegamos à base, estamos de volta. Agora preciso relaxar! Preciso de uma bebida e comida decentes. A comida enlatada das missões, além de escassas, não são nada saborosas. Talvez arranje um encontro casual, se rolar aquela química com uma bela mulher, não vou me fazer de rogado, afinal são longos seis meses sem sexo, preciso espairecer, me aliviar e não há nada melhor no mundo, para relaxar, do que sexo. Sexo é vida, contudo, jamais pago por sexo!

19h00...

Vou com alguns dos meus homens para um bar, nos arredores de Marselha. Estaremos de licença pelos próximos cinco dias. Depois voltaremos às nossas atividades e treinamentos na base.

- Amanhã volto pra casa. Poderei aproveitar esta folga para acompanhar minha gata em sua consulta pré-natal. Ela já está no sétimo mês. - comenta todo empolgado Sargento Legrand, meu braço direito - Esperamos, dessa vez, saber o sexo do bebê; apesar de que tenho certeza de que é ma petite princesse (princesinha em francês). Ela está esperando por mim.

- Já eu, vou surpreender minha mãe em seu aniversário... Ela ainda não sabe que já voltei da missão. Melhor presente que esse, ela nunca vai encontrar... - declara todo convencido o novato Thierry.

- Olha isso, Laforge, o novato está se achando a última bolacha do pacote!... E o capitão, para onde vai? - questiona Étienne, meu braço esquerdo. Não consigo imaginar minha vida na legião sem eles. É incrível a facilidade com que nossa sintonia em campo se formou. Eu, Legrand, Étienne e, até mesmo o novato Thierry, somos bons no que fazemos, apenas um olhar e já podemos prever o próximo passo um do outro.

- Continuarei por aqui, sou avulso... vou aonde o vento me levar... só sigo o fluxo, soldados... - respondo saindo de meus devaneios. - Santé, messieurs! - E brindamos tomando nossas bebidas.

Naquela noite, bebemos, jogamos sinuca, celebramos nosso retorno sem baixas. Os avulsos, como eu, procuraram encontros casuais ou, quem sabe, para os mais românticos, suas caras metades, encerrando a noite em grande estilo. Os demais foram pra casa, atrás de suas mulheres... Seis meses longe de casa, longe do conforto de nossas camas, da convivência com os seus familiares.

Somos uma grande família que acolhe soldados do mundo todo. Mais que formar soldados altamente capacitados para os mais variados tipos de conflito, a Legião transforma vidas, abre novos horizontes ou, simplesmente, preenche espaços vazios de pessoas quebradas como eu.

A noite foi agradável, estar celebrando com meus homens traz um breve alívio ao peso que carrego em meu peito. Eles, agora, são minha única família; os quais defendo e sempre defenderei com unhas e dentes!

Dois dias depois...

6h00

Sou acordado pelo som do toque do meu celular ecoando pelo quarto. Minha cabeça dói, ou melhor, ela pulsa como se fosse a bateria de uma escola de samba que vi no Brasil, uma vez. Com dificuldade, abro os olhos e verifico quem é o imbecil que ousa atrapalhar o meu momento de reflexão alcoólica. Cheguei em casa há menos de duas horas. "Merde!!!" É o coronel Trousseau, boa coisa não deve ser. Sem outra alternativa, atendo no quinto toque:

- Capitão Laforge, dirija-se imediatamente à sala de comandos estratégicos, precisamos conversar...

- Bom dia, coronel! Sim, estou muito bem aproveitando meus dias de folga, senhor.

- Deixe as amenidades para depois Laforge! A situação é crítica!

- Sim, senhor! Estou a caminho! – minha intuição me diz que a minha dor de cabeça pode atingir proporções estratosféricas, somente pelo seu tom de voz do velho Trousseau ao telefone.

Merde! Que dor de cabeça desgraçada!!! Sabia que aquela última garrafa de tequila ia dar ruim, mas não sou de fugir de desafios, mesmo os mais estúpidos, como aquela competição de shots de tequila. Sem contar a loiraça que cruzou o meu caminho... Tomo um banho gelado, preciso eliminar a ressaca do meu corpo, faço minha higiene matinal, coloco meu uniforme. Admiro a visão do deus do ébano, refletida em meu espelho. Oh la la! E então, flashs da noite passada me fazem sorrir satisfeito. É inacreditável o poder de sedução que um uniforme militar tem sobre algumas mulheres. As famosas Maria-coturnos fazem fila pra ter seu momento com um certo capitão da Legião Estrangeira. Saio de meus devaneios, tenho que ser rápido. Tomo um café forte para me despertar de vez. Que droga!!! Acabaram-se os analgésicos, preciso de um com urgência, tenho que me livrar dessa dor lancinante. Entro no carro e dirijo apressado para encontrar o comandante. Essa ligação repentina, me preocupa. Ele nunca, nesses sete anos servindo à Legião, interrompeu uma licença pós-missão dos nossos homens. Antecipando a gravidade da missão, envio uma mensagem para o meu esquadrão:

Cap. Laforge - Licença revogada, senhoritas! Estou indo coletar informações. Preparem-se e encontrem-me na base, sala de assuntos estratégicos, em duas horas! Não se atrasem!

Legrand - sim, chefe!

Étienne - sim, chefe!

Thierry - sim, capitão!

Soldados - sim, capitão!

Ao entrar no prédio, sou saudado e saúdo com continências os soldados e oficiais que entram e saem do local. Estou apreensivo e prenunciando a piora da minha dor de cabeça. Por isso, abro meu melhor sorriso, para a bela estagiária que trabalha na recepção, a fim de que ela me arrume um comprimido analgésico:

- Bom dia, Mademoiselle Bélier, como está? - ela me olha acanhada e eu continuo: - Vim atender um chamado urgente do coronel Trousseau. Mas antes disso, você poderia me fornecer um comprimido analgésico, que você providencialmente deve ter em sua bolsa?

Ela abre um sorriso encabulado, mas os olhos brilham de antecipação. Ela prontamente vasculha sua bolsa, até encontrar a salvação da minha dor de cabeça. Num gesto cavalheiresco, beijo-lhe o dorso da mão, ela fica com a face enrubescida. Sorrio de lado... "pelo amor de Deus, foi só um beijo de agradecimento pela gentileza, nada mais que isso." - Mulheres! Tão fáceis de agradar...

- Obrigada, senhorita! Você me salvou da minha dor de cabeça! - ela continua sorrindo.

- Laforge, pare de se engraçar com a nova recepcionista e me acompanhe! - o comandante me chama irritado.

Sigo seus passos até a sala de guerra, parando no bebedouro do corredor para pegar água e tomar o comprimido que vai salvar o meu dia. Enquanto isso, começo a imaginar as possíveis situações que levaram a este chamado, perdido em meus pensamentos me questiono: - Quem será o puto de merda que teremos que neutralizar desta vez? Seja lá quem for, está com seus dias contados...

Capítulo 3 Voto de confiança

Éveline

Caminho pelo longo corredor do centro de operações da inteligência que me leva até o gabinete do Comandante Charles Rosiet. Meu oficial superior e mentor é um homem na casa dos seus cinquenta e oito ou sessenta anos, um metro e oitenta de altura, ainda está em forma, mas a idade começa a cobrar o seu preço começando pela barriguinha que começar a ficar saliente e por seus cabelos que estão esbranquiçados e as entradas da calvície já são mais profundas que há três anos. Homem austero, justo e que já serviu em inúmeras missões defendendo as pessoas de nosso país. Bato à porta, solicitando permissão para adentrar:

- Deixe de formalidades Girauld, afinal de contas fui eu quem te chamei.

- Certo, comandante. Então, em que posso ajudá-lo? O senhor me parece preocupado...

- Recebi os relatórios preliminares da sua última missão e, também, acompanhei alguns dos interrogatórios que os membros da sua equipe conduziram. As informações são preocupantes. A cúpula do Conselho de Segurança Nacional está me cobrando medidas drásticas. Eles querem uma ação imediata, estão até mesmo cogitando a possibilidade de uma força-tarefa. Mas confesso que ainda não me sinto à vontade com essa opção. Precisamos ir com cuidado, pensar uma estratégia bem articulada, não podemos falhar, pois muitas vidas estão em jogo...

- Entendo e compartilho de sua preocupação. Se me permite dizer, essas informações ainda estão um pouco desencontradas. Não há provas que sejam consistentes o suficiente para justificar a formação de uma força-tarefa, principalmente por não termos o essencial para tal...

- E isso seria?... O que está sugerindo, tenente? - ele me questiona interrompendo a minha fala.

- Ora, comandante, até agora só pegamos os peixes menores. Nossa meta deve ser os tubarões. É necessário agir com cautela, conhecermos nosso inimigo.

- Você realmente é uma excelente estrategista! Sabia que não estava enganado sobre você.

O comandante Rosiet foi um dos meus treinadores durante minha formação militar. Sempre foi muito exigente e sabia reconhecer o esforço e as habilidades de todos os seus recrutas. Apesar de todo o rigor dos treinamentos, sempre tinha uma palavra de consolo ou motivação para todos. Suas condecorações e medalhas de honra ao mérito são reflexo de toda sua dedicação e profissionalismo.

- Ouvi os rumores de que o alto escalão já quer formar uma força-tarefa. É sobre isso que deseja falar?

- Você é a favor da força-tarefa?! - pergunta ele chocado. - Nunca pensei que você aceitaria isso numa...

- Nem pensar... - interrompo sua fala, mostrando todo meu desespero sobre essa situação. - Digo... perdão, comandante. Muito pelo contrário.

- E qual seria sua proposta de solução?

- Permita-nos iniciar as investigações com as pistas e confissões que conseguimos. Precisamos, ao menos, saber o nome do suposto chefe do crime.

- Não será nada fácil convencê-los disso. Tem certeza que isso trará resultados?

- Um mês, chefe. É tudo o que peço. Se, depois deste prazo, não avançarmos nas investigações, criamos a força tarefa e que Deus nos ajude!!!

Ele sorri assentindo com a cabeça e completa:

- Estou apostando todas as minhas fichas em você e sua equipe, Tenente Girauld. Se tudo der certo, após esta missão finalmente me aposentarei.

- Farei o meu melhor, senhor!

- Não espero menos que isso. - diz sentando-se em sua cadeira e acendendo seu famoso charuto. - Já vou começar a planejar minhas férias, Edith ficará muito feliz.

- Bien sûr, comandante! - bato continência me despedindo dele e saio de seu gabinete.

A conversa com o comandante até que foi bem produtiva e menos difícil do que imaginei. Pelo visto Rosiet também não é muito fã de forças-tarefas, foi muito fácil convencê-lo a adiar tal medida. Agora, é arregaçar as mangas e mãos à obra. Preciso reunir-me com a equipe há muito trabalho a ser feito. Alcanço meu celular no bolso e envio uma convocatória de reunião emergencial:

Éveline: - Reunião estratégica da nova missão. Sala de guerra, em trinta minutos. Preparem-se! O bicho vai pegar!

Benoît: - A caminho!

René: - A caminho!

Didier: - A caminho!

Jeanpi: - A caminho!

Falando em equipe, faço uma anotação mental: não posso deixar passar em branco o papelão do meu resgate no deserto. Desta vez tivemos sorte. Mas não podemos nos dar ao luxo de contar com ela o tempo todo, é inadmissível um resgate sem um plano B. Somos um grupo de elite da inteligência nacional, temos um padrão de excelência para honrar. Além disso, fomos treinados para sermos os melhores.

Chego ao local da reunião primeiro. A Sala de Guerra é uma sala ampla equipada com computadores e softwares de última geração, que vão desde monitoramento das câmeras de trânsito das principais cidades do país até programas de reconhecimento facial e análise de impressões digitais e DNA. No centro da sala, há uma mesa inteligente, onde projetamos dados e informações relevantes aos casos e missões que nos são confiadas. É o meu habitat. Enquanto esperava o horário de nossa reunião e a chegada do resto da equipe, fui preparando meus brinquedinhos para fazer o briefing desta nova missão, além de já ir coletando os dados dos relatórios da missão de resgate e as informações dadas pelos mercenários interrogados. Precisamos checar a veracidade de cada informação dada por eles. Eles "cantaram" muito facilmente, não desmerecendo as técnicas de interrogatórios dos meus homens. Mas já dizia minha avó: "Quando a esmola é demais o santo desconfia."

Reunimo-nos e os coloco à par das informações que Rosiet compartilhou comigo. E começamos a montar o enorme quebra-cabeça que as informações que foram coletadas, nos indicavam. Precisamos encontrar nome que sejam mais relevantes e significativos para as investigações, eliminando qualquer tipo de armadilhas. Ficamos tão envolvidos com os preparativos das investigações e a elaboração de estratégias, que não percebemos o tempo passar. Ficamos cerca de cinco horas fechados na sala de guerra. Então, Benoît quebra nossa concentração dizendo:

- Bom, mes amis, acho que avançamos bem na montagem da nossa estratégia de investigação. Agora, só nos resta sair às ruas, observar movimentos suspeitos, falar com nossos informantes, ver o que se fala à boca pequena.

- Oh, sim. Évil tem que ser casca-grossa com os inimigos e não com sua equipe. Se eu ficar mais meia hora nessa sala, vou me fundir a esse software. Meu corpinho precisa de um agito, Evil. - René fala se esticando todo em sua cadeira.

- Ok, ok, rapazes! Confesso que até mesmo eu estou precisando de um descanso. - confesso meu cansaço.

- Falando em descanso, não se esqueçam que no sábado é o aniversário de minha irmãzinha, ela conta com a presença de todos, sem exceção. – Jeanpi nos lembra da festa de aniversário de Sandrine, sua irmã caçula.

Quem o ouve falar de Sandrine imagina uma menininha de 8 a 10 anos. Contudo, Sandrine é uma jovem mulher prestes a completar vinte e três anos. Ela é linda. Morena, olhos esverdeados, corpo curvilíneo, possui uma inteligência admirável, está no último ano do seu doutorado em Direito Internacional. Arrasa corações por onde passa, mas seu coração já foi capturado por Benoît, mas talvez o agente ainda não tenha se dado conta disso. De qualquer maneira, a troca de olhares entre os dois fala por si só.

- Ora Jeanpi, acha que perderia uma festa na boate mais badalada da cidade? Nem morto!!!! - responde René, todo empolgado. - Tomara que ela tenha umas amigas gatinhas para nos apresentar...

- Dessa vez, você vai, não é, tenente? Precisa se distrair também, Evil. Não se vive só de trabalho! - cobra-me Benoît.

- Oh, sim. Jamais decepcionaria Sandrine. Ela se tornou uma boa amiga.

E a conversa segue com os três homens fazendo planos para o fim de semana. Eu faço uma nota mental pra correr comprar o presente e a roupa para a festa... afinal além de ser uma festa no local mais badalado de Marselha, é também um baile de máscaras. Não faço a menor ideia de como combinar minha roupa com a máscara...

Nesse clima, nos despedimos e cada um seguiu seu caminho. Preciso de um bom banho e minha cama bem quentinha, para repor as energias e alinhar os pensamentos.

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