Estava acontecendo. Não havia mais volta.
O motorista não disse uma única palavra durante o trajeto. O silêncio parecia parte do ritual. Cada minuto era uma contagem regressiva para um destino que eu ainda não compreendia por inteiro.
Depois de longos vinte minutos, o carro freou suavemente. A porta abriu-se por fora, revelando a fachada iluminada de um hotel de luxo. Lustres de cristal cintilavam através das janelas altas, e homens de terno e mulheres de vestidos longos transitavam pela entrada principal, como se fosse apenas mais um evento elegante da alta sociedade.
Mas eu sabia que, por trás das cortinas, escondia-se algo muito mais sombrio.
- Por aqui. - A voz calma de um segurança me guiou por uma porta lateral, discreta, longe do brilho da entrada principal.
Fui conduzida até uma ampla sala onde outras garotas já esperavam. Algumas estavam sentadas, ansiosas, outras em pé, tentando disfarçar o nervosismo com conversas superficiais. Havia quem fingisse indiferença, roendo unhas ou mexendo no celular, mas a tensão era palpável.
Todas usavam variações do mesmo traje: capas que cobriam as roupas íntimas minúsculas de renda translúcida, cores claras, como se fossem fantasmas preparados para desfilar diante de predadores. Me foi entregue uma lingerie, um tecido branco que mal cobria o corpo. Quando terminei de vestir me senti exposta, vulnerável.
- Lembre-se, não fale sem ser questionada. - A coordenadora, uma mulher loira de olhar gelado, repetiu as regras. - Não olhe diretamente para os convidados, a não ser que queira chamar atenção. E, acima de tudo, lembre-se: vocês não são pessoas aqui. São "lotes".
Eu respirei fundo, endireitei os ombros e fiquei em silêncio.
Uma a uma, as garotas eram chamadas. Seus números eram anunciados por um mestre de cerimônias que falava com naturalidade perturbadora, como se vendesse obras de arte. A cada lance, números subiam rapidamente, cifras que jamais sonhei ver na vida.
Eu esperava, imóvel, até ouvir meu número.
- Garota vinte e um.
Bastou um gesto, e o tecido leve que me cobria deslizou até o chão. Senti o toque frio da seda contra a minha pele quente e bem cuidada, um arrepio que durou segundos, mas ficou marcado, como se tivesse se impregnado em mim. Antes que pudesse pensar, um toque firme nas costas me indicou para onde eu deveria ir, a passarela improvisada à minha frente.
Eu não queria, mas precisava. Precisava de um jeito quase desesperado. Dei um passo à frente, deixando para trás aquele tecido fino, que agora se misturava a outras peças caídas no chão, restos das meninas que tinham passado por ali antes de mim.
"Produto", repeti para mim mesma. "Você é só um produto". Era assim que eles queriam que eu me visse, e era assim que eu tinha que pensar. Minha virgindade, hoje, estava sendo leiloada. Condição única: ninguém poderia saber. Ninguém poderia descobrir que esse lugar sequer existia. Não era difícil manter o segredo, o que me importava, na verdade, era receber minha parte, ainda hoje, assim que tudo acabasse. Assim que eu entregasse o que vieram comprar.
Um arrepio percorreu meu corpo, mas não era pelos olhares cobiçosos escondidos atrás das máscaras de carnaval. Eu nem olhava para eles. Meu olhar estava fixo no chão. O frio do salão era o que me fazia tremer.
Eles estavam confortáveis, em ternos caros, com taças de champanhe, e nós, as meninas, estávamos praticamente nuas, expostas para que cada detalhe fosse analisado.
Eu estava congelando. Talvez fosse impossível não notar minha pele coberta de arrepios. Não era medo, como podiam pensar, era frio. Na verdade, medo eu não tinha. Eu sabia para onde tinha me metido e tinha me preparado. Antes de sair de casa, repeti para mim mesma um mantra simples: "Não é nada demais. Todo mundo faz isso". Quase todo mundo, pensei em seguida. Quase todo mundo, mas nem todos por dinheiro.
Uma das organizadoras me pediu algo. O quê? Ah, sim: para girar, mostrando minhas costas, minhas curvas. "As garotas tem que ser vistas de todos os ângulos". Era a regra.
Eu me virei, sentindo outro arrepio. "Que comece logo", pensei. "Que acabem logo, de preferência". A sala reservada para depois seria mais quente. Muito mais quente.
Finalmente, a primeira oferta foi anunciada. Começou.
As vozes surgiam de todos os cantos, elevando os lances cada vez mais. O valor crescia, mas não era suficiente. Com a comissão, ainda não chegava no que eu precisava. "Continuem", pedi em silêncio. "Continuem aumentando". Eu suportaria o frio até alcançarem o número certo.
Percebi que, entre todas as vozes, uma sobressaía, um único comprador, insistente, aumentando os lances com pressa, como se tivesse pressa de vencer. Um admirador? Mesmo que fosse só por hoje?
Quis erguer o olhar, mas não consegui. Minha cabeça parecia pesada, talvez pelo frio, talvez pela tensão. Mas não adiantaria: só veria uma máscara. Não teria como saber quem ele era, nem seu olhar, nem sua idade. Podia ser um executivo quarentão, um advogado de sucesso... ou um velho milionário. Riqueza não tem idade.
O valor subia cada vez mais rápido.
Duzentos mil... quinhentos mil... seiscentos.
O coração disparava junto com as vozes. Eu fingia calma, mas minhas mãos tremiam discretamente ao lado do corpo. Por dentro, eu só pensava: chega logo no que eu preciso, por favor.
E então, silêncio.
O leiloeiro repetiu o último lance, a voz ecoando pelo salão:
- Um milhão... Dou-lhe uma... dou-lhe duas...
O martelo bateu.
- Vendida!
Meu coração disparou de novo, mas não de frio dessa vez.
Um burburinho discreto se espalhou no setor indicado. O mestre de cerimônias, satisfeito, prosseguiu:
- Muito bem. A moça será preparada. Seguimos com o próximo lote.
Um segurança me tomou pelo braço com delicadeza e me guiou para fora do palco. Quase suspirei de alívio quando senti uma manta quente ser colocada sobre meus ombros. Não era o mesmo tecido ridículo que usaram antes; era macio, pesado, acolhedor. Pela primeira vez naquela noite, meu corpo parou de tremer.
O quarto onde tudo aconteceria estava ali mesmo, entre aquelas paredes. Conveniente para eles. Cruel para mim. Perguntava a mim mesma: será que ele vai tirar a máscara? Ou vai permanecer escondido até o fim?
Entramos em um cômodo iluminado de forma suave, quase intimista. Havia uma cama enorme, coberta por lençóis vermelhos como vinho. Não havia algemas, chicotes ou nada assustador, apenas o suficiente para criar o clima que eles julgavam adequado.
A porta se fechou atrás de mim. O segurança foi embora. Eu fiquei só.
Esperando.
Ele estava em algum lugar do prédio, terminando o pagamento. Daqui a pouco entraria. E, por mais estranho que fosse, a expectativa queimava mais do que o medo.
Dei por mim em pé no meio do quarto, imóvel, como uma estátua. Por que diabos eu ainda não tinha me sentado na cama? Respirei fundo e sentei.
Os minutos pareceram horas. Até que a maçaneta girou.
A porta abriu devagar. Eu virei o rosto e o vi.
Era ele.
A máscara ainda cobria parte do rosto, mas agora eu podia observá-lo melhor. O terno escuro realçava os ombros largos, a postura firme. Havia um toque de grisalho em seu cabelo, o que só o deixava mais imponente. Ele tinha a aparência de quem carrega poder, não apenas dinheiro, mas algo mais profundo, difícil de explicar.
E então, os olhos.
Castanhos tão escuros que quase pareciam negros. Quando se fixaram em mim, senti como se tivesse sido sugada para dentro de um abismo. Não consegui desviar.
Ele também me estudava, com calma, como se me pesasse em cada detalhe. A cabeça inclinada de leve, um gesto que me deu vontade de sorrir à toa. Quase perdi o controle, quase deixei escapar uma risada nervosa. Mas me segurei.
O silêncio entre nós parecia ter peso.
- Levante-se - ele ordena.
Faço exatamente como disse.
De cabeça baixa, reparo no carpete sob meus pés. Pergunto-me há quanto tempo foi colocado. Parece velho, quase vintage. Talvez seja parte do charme do lugar. Lembra algo que eu veria em um filme antigo, onde a garota era colocada à venda.
Ok, estou tentando fingir que minha fantasia não é tão fodida. Mas isso não é uma fantasia. Longe disso.
- Tire a roupa.
Eu nem sequer sei o nome dele.
Não que importe. Não vou dizer o meu também.
Dou-lhe as costas ao soltar o fecho do sutiã. A voz dele me paralisa:
- Não. Quero ver. Vire-se. Mostre para mim.
Meu rosto arde.
Nunca ninguém falou comigo assim.
Sem olhá-lo, tiro o sutiã devagar, sentindo meus seios saltarem livres. Quando chego à calcinha, hesito.
- Tudo
De repente, me senti mais firme, mais pronta para fazer o que precisava ser feito.
Deslizo a calcinha para baixo e entrelaço os dedos, torcendo para que meu cabelo comprido cubra ao menos parte do meu corpo.
O quarto, pelo menos, está bem aquecido.
- Vire-se.
Devagar, faço uma volta, deixando que ele me veja por inteiro.
- Venha aqui
Eu não sou totalmente inexperiente, apesar de ainda guardar minha virgindade. Muitas das minhas colegas, com a mesma idade, já eram mães, enquanto eu, por escolha ou acaso, sempre soube me preservar. Ainda assim, não era a primeira vez que via um homem nu, nem que ousava tocá-lo. Ao menos, eu tinha uma ideia do que fazer.
Mordi o lábio, observando enquanto ele se desfazia da última peça de roupa. O corpo à minha frente era forte, bem cuidado, e mesmo com sinais de maturidade, transmitia uma virilidade que me arrepiava inteira.
Respirei fundo, reunindo coragem. O silêncio da sala era quebrado apenas pela nossa respiração. Eu sabia o que esperavam de mim, e sabia também o quanto esse gesto mudaria tudo.
Quando finalmente me inclinei para tocá-lo, senti a mudança no ritmo da respiração dele. Mais pesada, mais densa. Um sinal claro de que meu toque o afetava. Ele interrompeu o momento com um sussurro grave, entrecortado:
- Já está bom... - disse, arfando. - Guarde um pouco pra depois.
De repente, ele me empurra para trás.
Caio sobre a cama e o encaro quando ele abre minhas coxas com força, firmando-se entre elas.
- Muito bom. Eu sabia que você teria uma bocetinha deliciosa. Dá para ver o quanto está molhada.
As mãos dele deslizam das minhas coxas pelo meu corpo. Ele aperta meus seios, juntando-os, e segue até minha intimidade.
Abre meus lábios íntimos, e ouço o gemido escapar dele.
- Isso, sim, é uma surpresa.
Solto um gritinho quando ele me toca. Um dedo no meu clitóris, e arqueio inteira.
- Tão sensível, tão molhada. Vamos nos divertir muito esta noite.
Quando finalmente está diante de mim, nu, não consigo pensar nem sentir direito.
Estou em pedaços.
Feliz, assustada, excitada, em pânico.
Acima de tudo, excitada.
Isso eu não esperava.
Como poderia estar excitada? Este homem é um completo estranho
O mundo pareceu se dissolver. Nada mais existia além do calor dele me dominando, da firmeza de suas mãos me mantendo no lugar, e do prazer que se multiplicava dentro de mim.
E então, finalmente, meu corpo se rendeu por completo. E quando deixei a vergonha de lado, os sons que antes tentei conter se transformaram em ondas de prazer ecoando pelo quarto.
- Vai doer um pouco... - sussurrou contra minha pele, os lábios roçando no meu pescoço. Logo depois, senti o impulso.
Ele me penetrou lentamente, firme. A dor veio aguda, rasgando-lhe um gemido entre os lábios, mas foi logo seguida por uma onda de calor que me deixou sem ar.
Ele não desviou os olhos. Observava cada reação, cada arrepio.
- Isso... - murmurou, aumentando o ritmo aos poucos. - Agora você é minha.
Os movimentos tornaram-se mais intensos, mais profundos. O quarto enchia-se com o som de nossas respirações ofegantes, gemidos contidos, o ranger suave da cama.
Quando o clímax chegou, foi como uma explosão dentro mim. Um grito abafado escapou de seus lábios, enquanto o corpo inteiro se arqueava em prazer e dor entrelaçados.
Ele segurou firme, enterrando-se uma última vez antes de se desfazer em um gemido grave, abafado contra meu pescoço.
Ele a olhou por um instante, o rosto ainda sério, sem ternura, mas com algo novo nos olhos - talvez curiosidade, talvez respeito.
Depois levantou-se, vestindo a calça de volta com a mesma calma meticulosa de antes.
- Seu dinheiro está com os organizadores - disse, num tom seco, quase sem vida. Então desapareceu dentro do banheiro.
O mundo parecia suspenso, preso ao som da respiração lenta dele, que, agora, em completo contraste com a intensidade de antes, apenas ajeitava a manga da camisa diante do espelho.
Ele não me olhou de imediato. Movia-se com calma, precisão, como se cada gesto fosse calculado. Pegou o relógio sobre a mesa, ajustou-o no pulso, vestiu o paletó. Parecia estar se preparando para uma reunião de negócios, não para sair de um quarto onde acabara de destruir a inocência de alguém.
Eu observava em silêncio, com coração apertado. Esperava alguma palavra, qualquer coisa, um elogio, um conforto, até mesmo uma ironia. Mas ele permanecia distante, inatingível.
Finalmente, quando já parecia prestes a ir embora, ele se virou. Seus olhos encontraram os meus. Não havia ternura, mas também não havia indiferença completa.
- Vista-se. - disse, a voz firme, neutra. - Há roupas limpas no armário.
Abri a boca, mas nenhuma palavra saiu. O nó na garganta me impedia de falar. Apenas assenti.
Ele caminhou até a mesa, pegou uma garrafa de água ainda cheia e a deixou sobre o criado-mudo, ao lado da cama.
- Beba quando acordar. Vai ajudar. -
Depois, sem mais explicações, abriu a porta e saiu.
E foi só isso. Nenhum "obrigado", nenhum elogio, nem sequer uma palavra suave que aliviasse aquele vazio repentino.
Permaneci deitada, o corpo trêmulo, os olhos fixos no teto. Não sabia se chorava ou sorria. Me sentia vazia e ao mesmo tempo preenchida de algo que não sabia nomear.
Respirei fundo. Precisava sair dali. Precisava me recompor. Ainda assim, ao me levantar, não resisti a lançar um olhar rápido para a cama. E lá estava a prova, quase invisível: um pequeno ponto vermelho no lençol escarlate. Discreto, mas impossível de ignorar.
Tentei me vestir depressa, mas minhas mãos tremiam tanto que até colocar minha própria roupa parecia uma tarefa impossível. Cada peça voltava ao corpo devagar, e no meio desse gesto mecânico percebi algo diferente. Algo havia mudado dentro de mim.
Eu me sentia... mulher. Não mais uma menina de vinte anos, perdida, mas alguém que havia atravessado uma linha invisível e não poderia voltar atrás.
Se alguém me perguntasse se eu me arrependo de ter vendido minha honra para um completo desconhecido, a resposta seria simples: não. Não me arrependo.
Sim, eu tirei proveito disso, mas não me entreguei a qualquer garoto inexperiente da vizinhança. Foi um homem. Maduro. Seguro de si. Um estranho escondido por trás de uma máscara, mas ainda assim, um homem que parecia saber exatamente o que fazia. Melhor assim do que passar o resto da vida me perguntando se teria sido diferente, se outro faria melhor. No meu coração, eu sabia: ninguém faria melhor do que ele.
Desci até a recepção. O próprio homem ainda estava no salão, observando o leilão que continuava, mas no balcão quem me atendeu foi um dos assistentes. Ele me devolveu o documento e um envelope lacrado.
- A senhorita pode abrir aqui, se quiser conferir - disse ele, num tom insistente demais.
- Não, obrigada. Confio em vocês. Se houver algum problema...
- Se houver algum problema - ele me interrompeu, firme, a voz cortante -, nós não sabemos de nada. Nunca vimos você. E qualquer coisa que decidir contar sobre o evento de hoje será considerada invenção da sua cabeça.
Claro. Confidencialidade absoluta. Eu lembrava bem do contrato que assinei: muitas cláusulas, mas a de silêncio era clara e dura. Com punições detalhadas caso eu resolvesse abrir a boca.
Peguei o envelope. Dentro haveria um cheque. Pelo que calculei, mesmo descontando as comissões, o valor parecia maior do que eu esperava. Ainda assim, uma dúvida queimava dentro de mim.
- Posso perguntar uma coisa? - minha voz soou tímida, até para meus próprios ouvidos. - Esse homem que me comprou... como ele se chama?
O rapaz me olhou como se eu fosse louca. Eu já esperava.
- Se o cliente não quer tirar a máscara ou revelar o nome, é direito dele.
- Eu sei, mas...
- Moça, nossos clientes não nos dão dados pessoais. Ele pode ter dito que se chama João, mas no passaporte estar como Marcos, Paulo... ou até como Jesus Cristo. Não é nosso problema.
Assim que terminou, voltou para a papelada em cima da mesa, deixando claro que a conversa tinha acabado. Dei de ombros e segui para a saída.
Uma tentativa vale a pena, mesmo quando dá errado. Afinal, eu só tinha dezoito anos. E loira ainda por cima. Ninguém poderia me culpar por fazer perguntas bobas.
Eu não descobri nada sobre ele, mas pelo menos sabia onde encontrá-lo: ali, naquele circuito secreto. O mistério era só descobrir quando aconteceria o próximo leilão, e onde. Talvez aqui. Talvez em outro hotel de luxo qualquer.
Na garagem, um motorista me aguardava. Um dos carros de plantão, usados para levar discretamente os participantes de volta para casa. Entrei no primeiro disponível e logo estava no meu apartamento. Guardei o envelope em um lugar seguro e, sem nem me despir, mergulhei debaixo das cobertas. O sono me venceu rápido.
Passaram-se alguns dias... na verdade, duas semanas e três dias, quando pensamentos completamente insanos começaram a me atormentar. Eu queria voltar. Queria de novo me arriscar naquele leilão clandestino. Claro, não teria mais minha virgindade para oferecer, mas isso não importava. Eu ainda tinha o que dar. E, se fosse sincera comigo mesma, a última coisa que me movia era o dinheiro. O que eu queria, de verdade, era ele. O homem da máscara. Durante esse tempo, usei parte do valor que recebi para a cirurgia do meu irmão. O resto, coloquei em uma conta.
Nada de roupas caras, joias ou maquiagem importada. Só o necessário: a operação dele, alguns mantimentos e um jantar decente depois de tanto tempo vivendo de restos. Ver meu pai satisfeito, comendo bem, já pagava tudo. Mas nem por um segundo aquele homem saiu da minha cabeça. Sempre que tinha um instante sozinha, voltava mentalmente àquele quarto vermelho. Revisitava cada detalhe: o toque dele, o cheiro da pele, a voz firme que soava como música, o peso do seu olhar por trás da máscara. Sinais vagos, eu sei. Mas era tudo o que eu tinha dele. E foi assim que me vi, dias depois, na minha própria sala, vigiando o celular como uma adolescente apaixonada. Tentava, em vão, ligar para os organizadores do leilão. Nem eu sabia o que diria se alguém atendesse. Minha desculpa parecia ridícula até para mim. Mas precisava tentar. Dois dias seguidos de silêncio. Só a gravação de uma secretária eletrônica no fim da linha. Meu desespero crescia. Como descobriria a data do próximo leilão? Como teria outra chance de revê-lo? Na terceira tentativa, quando já pensava em desistir, uma voz atendeu do outro lado: - Alô. Meu coração disparou. Fiquei muda, a garganta seca. - Alô! - repetiu, impaciente. - Vai falar ou vai desligar? Engoli em seco. Não era hora de vacilar com gente como eles. - Boa noite... eu queria saber quando será o próximo evento. - E de onde você tirou esse número? - o tom era calculado, frio. - Eu estive com vocês... duas semanas atrás. Consegui o contato por uma... amiga. Um suspiro baixo, e então a voz feminina retornou, mais firme: - Imagino que o mais valioso você já não possa oferecer. - Vendi na última vez. - E o dinheiro já acabou? O sarcasmo dela me cortou como faca. Respirei fundo antes de responder: - O dinheiro não era pra mim. Mas sim, você tem razão. O mais valioso já foi. Não espero grandes quantias. Silêncio por alguns segundos, até que a mulher voltou a falar: - Podemos aceitar você como... um aperitivo. Se houver espaço. - Entendido. - O próximo leilão será em menos de duas semanas. Você receberá um SMS com endereço e instruções. Até lá, providencie todos os exames e documentos necessários. Espero que se lembre da lista. Precisa que eu repita? - Não precisa repetir, eu lembro. - respondi. - Então aguarde. - A ligação caiu, deixando só o som frio dos sinais de linha. Continuei parada, celular colado ao ouvido, como se a qualquer instante fosse ouvir de novo aquela voz. Claro que eu lembrava da lista de documentos, não eram muitos. O principal era o laudo médico comprovando meu estado de saúde, em especial os exames ginecológicos. Fácil de conseguir. Mas, enquanto pensava nisso, um medo me atravessou: e se ele não estiver lá? E se, naquela noite, ele simplesmente escolher outra? E se eu passar despercebida? Eu sabia que as garotas nunca tinham contato prévio com os compradores. Nada de cruzar com eles no corredor ou na rua. Até mesmo dentro do hotel tudo era mantido em sigilo absoluto. Então, se o homem da máscara não estivesse lá... eu seria comprada por qualquer outro milionário qualquer. Foi aí que a dúvida me corroeu. Eu havia conseguido o que queria: uma nova chance. Mas queria mesmo voltar? Queria me arriscar a ser de outro, que não fosse ele? Talvez fosse burrice, talvez fosse típica ingenuidade da minha idade. Mas havia uma centelha de esperança que me impedia de recuar. Duas semanas se passaram. E lá estava eu de novo, preparada. Corpo limpo, depilada, cada detalhe impecável. A única diferença é que não era mais virgem, e ainda assim, não me sentia menos pura. Depois daquela noite, não procurei outros homens, nem mesmo uma distração. Minha vida foi tomada pela preparação para o vestibular, as idas diárias ao hospital e, aos poucos, o dinheiro guardado começava a se esgotar. Eu até pensei em procurar um emprego compatível com o curso que queria fazer. Não havia espaço para namoros. Até que o celular tocou. Número privado. Meu coração quase parou. Chegou a hora, Isabele . A noite estava escura quando me levaram novamente. O carro era o mesmo tipo: vidros pretos, ninguém podia ver para fora. Pelo menos dessa vez não me vendaram. Mas pouco importava. Eu não queria saber para onde ia. Se fosse para o meio de um bosque, não faria diferença, contanto que fosse ele. Eu só desejava uma coisa: que o homem da máscara estivesse lá. Não importava se me escolheria ou não... eu precisava cruzar com aquele olhar mais uma vez. O carro parou diante de um hotel luxuoso. O porteiro de uniforme exagerado abriu a porta com pressa, como se eu fosse alguma princesa mimada. Entrei no saguão e quase perdi o fôlego: o lugar fervia. Luzes, gente apressada, vozes por todo lado. Percebi rápido: ali, na entrada principal, só passavam as garotas. Fazia sentido. Nada de misturar "mercadoria" e clientes antes da hora. Ou seja, eu não teria como encontrar meu comprador ali, por mais que meu olhar buscasse por ele. Restava apenas seguir o fluxo. Fui até a recepção. Outras mulheres chegavam também, algumas tão lindas que pareciam modelos de passarela. Diferentes de mim no primeiro leilão, muitas já vinham com experiência estampada no jeito de andar, no olhar seguro. Algumas até aconselhavam as novatas, passando palavras de encorajamento ou impondo hierarquia. Eu não tive tempo para isso. Apareci quase em cima da hora, com a respiração presa no peito e a sensação de que, a qualquer instante, poderia desmoronar. O espaço reservado para nós ficava afastado, num canto do saguão, como se quisessem nos esconder dos outros hóspedes do hotel. Mas, pelo barulho que fazíamos, eu tinha certeza de que já estávamos incomodando. As garotas falavam sem parar, gargalhando alto, como se aquilo fosse apenas mais uma festa. Na recepção, entreguei meu RG e os documentos exigidos. Em troca, me deram formulários para assinar. Havia mesas por todo lado para preenchermos, mas confesso que preferia ter chegado atrasada de novo. O barulho era tanto que eu mal conseguia me concentrar. Pouco depois, chamaram uma das mais falantes para outro setor e, enfim, consegui terminar meu formulário em paz. Entreguei para a recepcionista, recebi um número e fui me sentar num sofá afastado da confusão. Foi aí que a sorte resolveu brincar comigo: a garota mais tagarela, agora sem companhia, veio direto se instalar ao meu lado. - Oi! - disse com um sorriso enjoativo. - Acho que nunca te vi por aqui. - Estive há um mês atrás - respondi seca. Não exatamente naquele hotel, mas não ia me explicar. - Ah, então você deve ter chegado atrasada, por isso não te notei. Vendeu a virgindade? E aí, como foi? Fingi que não ouvi. Mas ela não parecia se importar com meu silêncio. - Qual é, pode contar pra mim. Eu sou praticamente veterana aqui. Suspirei. Estava claro que não se calaria. Então decidi cortar de vez: - Escuta - minha voz saiu mais dura do que eu pretendia. - Nós não somos amigas, nem conhecidas. Assim que eu sair daqui, vou esquecer que você existe. Então, faz um favor: desaparece da minha frente e tenta baixar o tom, porque a minha cabeça já está latejando. - Tá bom... - ela respondeu, tentando esconder a mágoa. Mas não demorou a ir despejar sua tagarelice em cima de outras meninas, provavelmente contando o quanto eu era grossa. Paciência. Finalmente, apareceu o mesmo rapaz da última vez, chamando meu número. Não sei como organizavam a ordem, mas não parecia ter lógica nenhuma. Também não importava. Eu só queria sair daquele saguão o mais rápido possível. A sequência era a mesma: trocar de roupa, esperar nos bastidores, e então subir no palco improvisado. O leiloeiro já estava em ação, voz firme, repetindo valores que subiam rápido, até bater o martelo e encerrar mais uma venda. Era isso. Ela tinha saído. Agora era minha vez. A garota passou por mim e, no mesmo instante, senti o sobretudo deslizar até meus pés. Eu já sabia o caminho, não precisava que ninguém me guiasse. Dessa vez, não havia medo. Nem vergonha. Ao contrário: meus olhos vasculharam o salão sem descanso. Até que encontrei. Quarto corredor, última poltrona à direita. Ele estava lá.