O cheiro de desinfetante e o zumbido fraco do ventilador me disseram que eu estava acordando, mas não era no meu leito de morte no hospital.
Abri os olhos e me vi na minha antiga cama de solteiro, o papel de parede de florzinhas amarelas me encarando.
Era 1985, eu havia renascido, voltado trinta anos no tempo, e meu primeiro pensamento de alegria foi por Lucas, meu amor da vida passada, a quem procurei imediatamente com o coração disparado.
Porém, naquele exato dia, na estação lotada, ele não apenas passou direto por mim como se fôssemos estranhos, mas se ajoelhou diante de Juliana, a "flor da fábrica", pedindo-a em casamento.
Meu mundo desabou, as promessas sussurradas em meu leito de morte ecoavam vazias, e a dor da traição me sufocou, revelando que ele não apenas me esqueceu, mas parecia ter renascido para corrigir o "erro" de não ter escolhido uma vida mais conveniente, o que me fez questionar se o nosso amor realmente existiu ou se fui apenas um degrau em sua ascensão.
A traição se tornou raiva fria quando Lucas me acusou de inveja e mesquinharia, provando que ele nunca me conheceu de verdade, e que o homem que eu amava era uma ilusão, uma mentira que ele construiu usando-me.
Mas esse mesmo Lucas, ao tentar novamente me sabotar em uma competição de música, me abriu a porta para uma oportunidade muito maior, um novo caminho que eu mesma trilharia, livre das sombras do passado e daquele que um dia chamei de meu.
O cheiro de desinfetante e o zumbido fraco de um ventilador de teto encheram os sentidos de Sofia, ela abriu os olhos lentamente, sentindo a cabeça pesada. A última coisa que lembrava era da dor no peito, do som dos equipamentos médicos e do rosto triste de sua avó, que já havia partido. Ela tinha morrido pouco depois, de coração partido e exaustão.
Mas agora, ela estava deitada em sua antiga cama de solteiro, o papel de parede com pequenas flores amarelas, que ela odiava na adolescência, a encarava. A luz do sol da tarde entrava pela janela, iluminando a poeira que dançava no ar.
Ela se sentou, o corpo jovem e ágil, sem a dor crônica que a atormentou nos seus últimos anos. Olhou para as próprias mãos, lisas, sem as manchas da idade. Um calendário na parede confirmava o impensável.
Era 1985.
Ela tinha renascido. Tinha voltado trinta anos no tempo.
Um turbilhão de emoções a atingiu, mas uma prevaleceu sobre todas as outras, uma alegria tão intensa que a fez ofegar.
Lucas.
Ela poderia ver Lucas novamente.
O pensamento dele era a única coisa que importava, a promessa que ele lhe fizera no leito de morte ecoava em sua mente. "Sofia, se houver uma próxima vida, eu vou te encontrar. Eu juro."
Ela acreditou nele. E agora, o destino lhe dera uma segunda chance.
Mas algo parecia errado, um sentimento incômodo no fundo de sua mente. Lucas, nesta vida, não deveria estar aqui. Ele deveria estar trabalhando em outra cidade, como na vida passada. No entanto, os vizinhos não paravam de falar sobre como o filho prodígio da família Silva, Lucas, tinha ido para a universidade e estava voltando hoje.
Na vida anterior, ele não tinha tido essa oportunidade.
O coração de Sofia começou a bater mais rápido. Será que ele... também renasceu? A ideia era um choque, mas também uma faísca de esperança. Se ele também se lembrava, então eles poderiam recomeçar, evitar os erros do passado.
"Sofia, o jantar está na mesa!" A voz de sua mãe veio da cozinha, familiar e reconfortante.
"Já vou, mãe!" ela respondeu, a voz mais jovem do que se lembrava.
Ela se levantou e foi até a pequena sala de jantar. Sua mãe, com o rosto ainda jovem e sem as rugas de preocupação que a marcariam mais tarde, colocava os pratos na mesa. A simplicidade da cena, o cheiro de arroz e feijão, a normalidade de tudo aquilo, era avassaladora.
Enquanto comia, sua mente estava a milhas de distância, perdida em memórias da vida que já tinha vivido.
Naquela vida, Sofia e Lucas eram o casal de ouro do bairro. Namorados desde a infância, todos assumiam que eles se casariam e viveriam felizes para sempre. Lucas era gentil, atencioso, e a amava, ou pelo menos era o que ela acreditava. Ele era a âncora dela, o centro do seu universo. Eles enfrentaram dificuldades juntos, a pobreza, as longas horas de trabalho na fábrica, mas o amor deles parecia inabalável.
Ela lembrou do fim, da doença que a consumiu lentamente. Lucas ficou ao seu lado, segurando sua mão até o último suspiro.
"Não se preocupe, Sofia," ele sussurrou, com lágrimas nos olhos. "Eu vou te encontrar. Não importa como, não importa onde. Espere por mim."
Essa promessa foi a última coisa a que ela se agarrou, a razão pela qual, ao acordar nesta nova realidade, seu primeiro pensamento foi ele. A esperança de que ele também se lembrasse, de que ele estava esperando por ela, era a única coisa que a impedia de pensar que estava enlouquecendo.
A mudança na trajetória de vida dele era a maior prova. Lucas, que na vida passada se ressentia por não ter estudado, agora era um universitário. Ele tinha mudado seu destino. Ele deve ter renascido.
E hoje, ele estava voltando. O trem da capital chegaria à estação da cidade no final da tarde. O bairro inteiro estava em alvoroço, preparando uma recepção para o primeiro jovem da comunidade a se formar em uma universidade de prestígio.
Sofia sentia um frio na barriga, uma mistura de ansiedade e excitação. Ela vestiu seu melhor vestido, um simples vestido de algodão azul que sua mãe tinha costurado. Ela queria estar bonita para ele. Para o reencontro deles.
A praça em frente à estação estava lotada. Balões e faixas decoravam o local. Quando o trem apitou, um rugido de aplausos e gritos ecoou pela multidão.
Lucas desceu do vagão.
Ele estava diferente. Mais alto, mais confiante. O terno bem cortado o fazia parecer um homem de negócios, não o garoto de fábrica que ela conhecia. O cabelo estava penteado para trás, e ele tinha um sorriso polido no rosto enquanto acenava para as pessoas.
O coração de Sofia disparou. Ele era ainda mais bonito do que ela se lembrava. Seus olhos o procuraram na multidão, e por um instante, ela pensou que ele a tinha visto. Ela levantou a mão, um sorriso trêmulo se formando em seus lábios. Este era o momento. O momento em que ele a veria e tudo recomeçaria.
Ele começou a andar em sua direção, o sorriso se alargando. O mundo de Sofia pareceu parar. Era isso. Ele estava vindo.
Mas ele não parou.
Ele passou direto por ela, como se ela fosse uma estranha, um rosto qualquer na multidão. Seus olhos estavam fixos em outra pessoa.
Sofia se virou, confusa, e viu para onde ele estava indo.
Juliana, a garota mais bonita da fábrica, conhecida por todos como a "flor da fábrica", estava parada ali, com os olhos brilhando.
Lucas parou na frente dela. A multidão ficou em silêncio. Diante de todos, dos vizinhos, dos amigos, dos pais de ambos, Lucas se ajoelhou. Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso.
"Juliana", disse ele, a voz clara e alta para que todos ouvissem. "Você quer se casar comigo?"
O mundo de Sofia desabou.
O "sim" de Juliana foi quase inaudível, abafado pelos gritos e aplausos ensurdecedores da multidão. As pessoas empurravam, parabenizavam, celebravam o casal perfeito. Lucas colocou o anel no dedo de Juliana e a beijou, um beijo de cinema que arrancou mais suspiros e aplausos.
Sofia ficou paralisada, o sorriso congelado no rosto, a mão ainda levemente erguida no ar. O som ao seu redor se tornou um zumbido distante, como se ela estivesse debaixo d'água. Cada detalhe da cena se gravou em sua mente, o brilho do anel, o tom vermelho do batom de Juliana, o sorriso triunfante no rosto de Lucas.
O mesmo rosto que, em outra vida, chorou em seu leito de morte e prometeu encontrá-la.
A dor era física, uma pressão esmagadora no peito que a deixou sem ar. Ela se virou e correu, abrindo caminho a força pela multidão, ignorando os olhares confusos e as pessoas que esbarrava. Ela só precisava fugir, ficar sozinha.
Ela correu até chegar em casa, entrou em seu quarto e trancou a porta. Deslizou até o chão, as costas contra a madeira, e finalmente se permitiu desmoronar. As lágrimas que ela segurou vieram em uma torrente silenciosa, molhando seu vestido azul.
Sua mãe bateu na porta.
"Sofia? Filha, o que aconteceu? Você está bem?"
Sofia não conseguiu responder. As palavras estavam presas em sua garganta, sufocadas por soluços.
"Filha, abra a porta. Fale comigo."
Mas ela não podia. Como ela poderia explicar? Como poderia dizer que o homem que ela amou por toda uma vida, o homem que prometeu esperar por ela, tinha acabado de pedir outra mulher em casamento na frente de toda a cidade, como se ela nunca tivesse existido?
Ela ficou ali, encolhida no chão, até que a exaustão a venceu.
Nos dias que se seguiram, Sofia se tornou uma sombra. Ela mal comia, mal falava. Sua mãe a observava com preocupação, mas não a pressionava. Ela apenas ficava por perto, um apoio silencioso e constante.
Na solidão de seu quarto, as memórias da vida passada a assombravam. Ela começou a reexaminar tudo, a olhar para o passado com os olhos abertos pela dor do presente. E, lentamente, um padrão terrível começou a surgir.
Ela lembrou do dia em que Lucas conseguiu uma promoção na fábrica. Ele disse que foi por causa de seu trabalho duro. Mas agora, ela se lembrava de Juliana, filha do gerente, sorrindo para ele naquele mesmo dia.
Ela lembrou das vezes em que Lucas falava sobre o futuro, sobre querer uma vida melhor. Ele sempre mencionava como a família de Juliana era influente, como eles tinham "sorte". Na época, ela pensou que era apenas um comentário casual. Agora, soava como um plano.
Cada memória, cada momento que ela considerava uma prova do amor deles, agora parecia manchado. O que ela pensava ser amor, talvez fosse apenas conveniência. Ela era a garota segura, a que sempre estaria lá por ele. Mas Juliana... Juliana era a oportunidade.
A verdade a atingiu com a força de um soco.
Lucas não renasceu para ficar com ela. Ele renasceu para corrigir os "erros" de sua vida passada. E o maior "erro", aos olhos dele, era não ter ficado com Juliana, a mulher que poderia lhe dar a vida de sucesso que ele tanto desejava. A universidade, a volta triunfal, o pedido de casamento público, tudo fazia parte de um plano calculado.
A dor se transformou em uma raiva fria. A tristeza deu lugar a uma sensação avassaladora de ter sido enganada, usada, por duas vidas inteiras.
Depois de uma semana trancada, Sofia finalmente saiu do quarto. Ela estava mais magra, com olheiras profundas, mas havia uma nova determinação em seus olhos. Ela olhou para sua mãe, que estava sentada à mesa da cozinha, com o rosto cansado.
"Mãe, desculpe."
Sua mãe apenas a abraçou.
"Está tudo bem, minha filha. Tudo vai ficar bem."
Na segunda-feira, Sofia voltou ao trabalho na fábrica. O lugar estava fervilhando com a fofoca do noivado. Em cada canto, as pessoas sussurravam sobre o casal do momento.
"Você viu o anel? Dizem que custou uma fortuna!"
"Ele a trata como uma rainha. No outro dia, ele comprou para ela um rádio importado, só porque ela disse que gostava da música que estava tocando."
Sofia ouvia tudo em silêncio, cada palavra uma nova facada. Ela se lembrou de uma vez, na vida passada, quando pediu a Lucas um simples par de sapatos novos porque os seus estavam furados. Ele reclamou do preço, disse que ela precisava ser mais econômica, que eles estavam guardando dinheiro para o futuro.
Ele não era incapaz de ser generoso ou romântico. Ele simplesmente não queria ser com ela.
Essa percepção foi a última gota. Ela não sentiu mais tristeza, apenas um vazio gelado. A imagem do Lucas que ela amava, o homem gentil e carinhoso de suas memórias, se despedaçou completamente. No lugar dele, restou apenas um estranho egoísta e manipulador.
A fofoca sobre o noivado continuou por semanas, mas gradualmente, o barulho diminuiu. A vida na fábrica voltou ao normal.
E para Sofia, aquilo foi um alívio. Ela começou a se concentrar em si mesma, no trabalho, em pequenas coisas. O futuro que ela imaginava com Lucas se foi, e no lugar dele, havia um espaço em branco. Assustador, mas também... livre.