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Lisana

Lisana

Autor:: mora campos
Gênero: Romance
Lisana veio ao mundo com problemas de saúde: ao nascer, foi diagnosticada com um sopro no coração. Entre seus familiares, cochichavam que ela era um verdadeiro milagre. Acostumada a que todos dessem muita atenção às suas necessidades e caprichos, tornou-se uma mulher disposta a transgredir as regras da sociedade em que vivia. Quando conheceu Lucas, sua vida mudou. Foi se afastando de seus pais e cada vez mais se tornava comum chegar em casa depois da meia-noite. Sua família fez o possível para afastá-la dele, mas seus esforços foram em vão. Ele a arrastou para um mundo sombrio, muito diferente da forma como ela havia sido educada. Em uma das muitas festas que foram como casal, aproveitou um descuido de Lucas para dar uma volta pela propriedade. Demorou o tempo suficiente para sentir muita sede e, quando se preparava para voltar ao salão, a viu. Foi naquela noite que conheceu Mateo e se obstinou a vê-lo novamente, repetidamente. Situação que foi se complicando à medida que os meses passavam. Mateo estava apaixonado por Dana, a mulher que ameaçava tirar o amor de sua vida. Ele não tinha dúvidas de que conseguiria arrancá-lo de Dana, mas será que conseguiria fazer com que Mateo se apaixonasse por ela? E Lucas ficaria tão tranquilo assim?

Capítulo 1 A Viagem

Naquela manhã, Lisana se aproximou da varanda de seu quarto, como fazia a cada amanhecer. Admirava o tapete de vegetação que se alternava com o laranja dos telhados das casas que surgiam entre tanto verde. Ao longe, seu olhar se deteve na casa de Lucas, embora ela não quisesse se lembrar dele, seus pensamentos a traíam. Romper com seu passado foi a decisão mais acertada que ela tomou em sua curta vida, colocar distância entre eles lhe daria a vantagem necessária para salvar seu casamento.

A luz do sol tinha um brilho incomum que destacava os reflexos de seus longos cabelos. Ela usava um elegante roupão de seda, embora não tivesse dormido bem, já estava maquiada e penteada, pronta para se trocar e sair em direção ao aeroporto. Estava revisando pela quarta vez a bagagem de seu marido quando sua mãe entrou no quarto.

- Eu te imaginava dormindo, seu voo é à tarde, meu amor, por que não descansa mais um pouco? Vocês dois precisam relaxar, além disso, seu pai e eu ficaremos mais tranquilos.

O olhar de Lisana se voltou para o teto, mostrando o branco de seus olhos.

- Olha, mãe, não vê que estou ocupada? Quero levar as roupas certas, principalmente quero que meu marido não fique sem nada. Preciso que ele se sinta confortável em nosso novo lar, tudo tem que ser perfeito.

- Sim, meu amor, entendo. Vou pedir para prepararem um chá para você ficar mais calma - disse a senhora Ana, sabia que, se a contradissesse, não conseguiria nada, então procurou ser paciente.

Com um gesto de sua mão e franzindo os lábios, Lisana se recusou.

- Olha, o que acha disso? Na verdade, não sei se devo levar esse vestido - disse, enquanto apontava para o vestido cinza pendurado perto do espelho -. Mas, vendo bem, combina com o traje que empacotei para ele. Que maravilha quando estivermos longe de tudo isso, longe deste pesadelo!

Sua mãe a observava, franzindo a testa, sabendo que Lisana não estava tão tranquila quanto ela tentava aparentar. Sua filha não podia enganá-la sob essa fachada de normalidade.

- Qualquer coisa que você coloque fica linda, você é tão bonita. Quando te vi pela primeira vez, soube que você seria uma verdadeira princesa, a menina dos meus olhos.

O telefone tocava incessantemente, e Lisana já podia adivinhar quem estava ligando. Sua mandíbula se tencionou, e seus olhos olharam para o aparelho enquanto desejava que ele parasse de incomodá-la.

As ideias se cruzavam em sua cabeça. Minutos antes, Mateo havia saído para o velório do avô de Dana, o que a deixou irritada e muito nervosa. Ela o havia alertado de que aquele seria o último encontro dele com aquela mulher, e agora isso, aquela inoportuna ligação. O que ela planejava era levá-lo para longe, aproveitando que Dana havia anunciado que se casaria com Adán.

- Olha, você não vai atender o telefone? Posso atender? - disse Ana.

Lisana largou bruscamente as roupas que estava segurando e atendeu a ligação.

- Alô - respondeu secamente.

- Sou eu, quero que você venha agora.

Seus olhos se abriram ainda mais ao ouvir aquela voz. Algo se estremeceu dentro dela ao confirmar que era Lucas.

- Não, eu não vou. Não vai me ver nunca mais - gritou, enquanto suas mãos tremiam.

- O que você está dizendo? Você não sabe o que está falando. Você precisa do meu carinho, assim esses nervos vão embora.

Ela pensava tão rápido que ficou muda, não queria que aquele homem destruísse seus planos, e muito menos que ele suspeitasse que ela estava indo embora para outro país para sempre.

O tom dele era suave e melodioso, seguro de cada palavra que dizia.

A mãe de Lisana pegou o telefone, enquanto caminhava pelo quarto visivelmente preocupada.

- Olá, aqui é a mãe de Lisana, por favor, deixe minha filha em paz. Não ligue mais - disse, bastante alterada.

- Senhora, é melhor você não se meter nos nossos assuntos. Sua filha e eu ainda temos muito o que conversar. Nossa história precisa continuar.

- Não a incomode mais, deixe-a tranquila, não vou permitir que destrua ela - disse, com a voz entrecortada.

A senhora estava disposta a defender sua filha daquele homem.

- Diga a ela que estou esperando, que em meia hora ela tem que estar aqui em minha casa.

- Ela não vai. Já disse que não vai. Não insista, eu proíbo.

- Ela virá, senhora, porque Lisana sabe do que sou capaz, se não me obedecer; se não, pergunte a ela, ela vai confirmar. Esse segredo que ela tem escondido vai ser revelado, eu não tenho por que me calar.

- Não, você não pode ameaçá-la, ela não está sozinha.

- O que não posso? - disse, com uma risada sarcástica tão insuportável que provocou náuseas na senhora -. Claro que posso, senhora. Não me importa que se saiba, mais ainda, seria muito divertido contar a verdade na cara de Mateo.

A verdade é que Lisana queria se afastar de tudo, especialmente da influência que Lucas exercia sobre ela, só desejava ser feliz com seu marido em um país distante.

Ana caiu na cama e largou o telefone, seu rosto estava pálido, e a atenção de Lisana se voltou para seu bem-estar.

- Você está bem? Mãe! Responde!

O rosto de Lucas brilhava ao ouvir o mal-estar que causava nelas e ele se deleitava imaginando o que estava acontecendo naquela sala.

Lisana pegou o telefone e o atirou contra a parede enquanto gritou:

- Basta! Fora da minha vida! Eu te odeio!

As lágrimas escorriam por suas bochechas e ela as secou bruscamente com as duas mãos.

- Eu vou ter que ir, caso contrário ele pode aparecer aqui e será pior. Não vou correr o risco.

- Não se arrisque, falta tão pouco, pense, filha, pense.

- Eu sei como lidar com isso, não vai demorar muito. Fique atenta a tudo, eu volto logo.

Balançando o cabelo diante do espelho, ela vestiu um macacão da cor de sua pele e colocou os acessórios que estavam na gaveta de sua cômoda.

- O que eu digo se seu marido perguntar onde você está?

- Nada, não diga nada. A casa de Lucas está a poucas quadras, vou e volto rápido. Ele deve estar acordando depois de uma noite de excessos, sei lá. Estou acostumada a entrar e sair ilesa de seu mundo turbulento; deixe que eu resolva.

Com movimentos bruscos, terminou de se arrumar, pegou a bolsa e as chaves do carro, saindo do quarto.

Enquanto atravessava o corredor para descer para o andar inferior, as palavras de sua mãe ecoavam em sua cabeça. Lucas se recusava a sair de sua vida, ele se tornara um obstáculo no caminho de sua felicidade. Seus pais haviam avisado desde a primeira vez que ele foi à sua casa, e agora ela carregava o peso de uma decisão errada. No entanto, não podia deixar de admitir que, sem a ajuda dele, ela não seria hoje a esposa de Mateo.

A cumplicidade dos dois ultrapassou os limites na juventude, e no começo se ocupavam com pequenas travessuras. A adrenalina tomou conta de seus corpos e, cada vez, queriam mais. As reclamações dos vizinhos alertaram para suas loucuras, sem solução. Suas ações irresponsáveis escalaram até o ponto de cometer um crime que os amarraria, um segredo que juraram levar até a tumba e do qual se vangloriavam quando estavam a sós.

Capítulo 2 A Despedida

No dia anterior, o avô de Dana estava em seu leito de morte e havia pedido para vê-las. Precisava pedir perdão a Vicky e à sua querida neta. Insistiu tanto com seu filho Ángel que ele não pôde se negar a cumprir seu último desejo, apesar de saber que talvez elas não aceitassem ir vê-lo. Seu pai havia conquistado o desprezo de ambas, pela maneira como se comportou no passado.

- Desculpa pela hora, filha. Meu pai está muito mal, muito grave. Te peço para vir, te imploro, Dana. Vicky já está a caminho, embora seja tarde, duvido que consiga passar a noite. Amanhã já será tarde demais.

Embora surpresa com a terrível notícia, Dana não hesitou em cumprir com seu dever. Poucas vezes havia se negado a ajudar os outros e menos ainda poderia permitir que ficasse com um remorso tão grande. Seu coração era nobre, sempre disposto a esquecer, e há muito tempo já havia perdoado os desprezos de seu avô paterno.

- Sim, sim, claro, pai, já vou para lá, avise que em alguns minutos estarei com ele.

- Obrigada, filha, você não sabe o quanto fico feliz por você estar comigo nesta noite tão deprimente para mim.

Adán se levantou ao observar o que estava acontecendo.

- Vamos! Eu te levo, nesta hora tem pouco tráfego e chegaremos rápido, fique calma.

Dana havia feito o possível para conter as lágrimas, deu alguns passos e se aproximou de seu avô, sem tirar os olhos de Vicky, que a olhava fixamente. Se apoiou na cama para poder ouvir as palavras que ele falava com dificuldade.

- Quero ir em paz. Você precisa me perdoar, promete, faça isso - essas foram suas últimas palavras.

Emocionalmente abatida, Dana acabara de descobrir que seu coração ainda tinha muito amor por ele, e ao mesmo tempo, lhe restava tão pouco tempo para se despedir. Estendeu a mão, lamentando os anos que passou longe de seu avô, desprezada por um pecado que não cometeu.

Adán a ajudou a se levantar, estava ali como sempre ao seu lado, disposto a tudo por ela.

Ángel e Vicky trocaram olhares, ela altiva, com um traço de emoção no rosto, e ele tão apaixonado quanto quando a conheceu.

Quando voltaram para casa, já era de manhã, por isso Dana descansou um pouco antes de ir ao funeral.

Sua irmã Zoraida estava se preparando para ir trabalhar quando recebeu a notícia. Imediatamente se ocupou de avisar amigos e familiares sobre a morte de seu avô.

Mateo, ao saber, não hesitou em correr para se despedir de sua amada.

O telefone não parava de tocar e Zoraida atendia com muita paciência às perguntas dos familiares.

- Não, meu amor, ela não foi sozinha. Adán a acompanhou. Sim, eu também acho, você vai ver que essa relação nunca vai dar certo. Dana está descansando um pouco e me disse que a senhora Vicky esteve lá ontem à noite.

- Onde? - perguntou Becky.

- Na casa do avô dela, não sei os detalhes.

- Não pode ser -. Vou ver como está a Vicky.

- Sim, e elas se perdoaram, deixe que ela te conte.

Vicky chegou em casa e pediu para a empregada preparar um café bem forte. Sem parar, foi tomar um banho, enquanto se lembrava das palavras de sua filha.

Quando saiu de seu quarto, encontrou Becky sentada no sofá, esperando para lhe dar os pêsames.

- Amiga, obrigada por vir me fazer companhia, imagine, Becky, tudo aconteceu tão de repente, que tragédia para a família. Te juro que era o que eu menos podia esperar.

- Eu sei, me surpreendeu tanto que aquele homem que te odiou tanto a vida toda tenha te chamado ao seu leito de morte, que impressão.

- Eu estava imóvel, tanto que quando cheguei lá e o vi na cama tão indefeso, tão quebrado, não pude falar, fiquei sem palavras. Sempre foi tão forte e implacável. Nunca se deu por vencido.

- Eu acho que no fundo ele te queria, afinal, você é muito parecida com ele. Talvez por isso ele te culpou pela fraqueza do filho.

- Se não fosse por Ángel, jamais teria colocado um pé naquela casa, você sabe disso. O pobre sempre foi tão fraco, não sei como pude me interessar por ele, claro, eu era muito jovem na época.

- O mais importante é que você se reconciliou com sua filha, não quero te ver tão deprimida, tão pessimista. Vocês têm uma vida para corrigir tudo o que aconteceu.

- É a minha razão de viver, a única coisa que me sustenta, Becky, é a fé. Finalmente, depois de tantos anos, Ángel, Dana e eu, poderemos sentar à mesma mesa, como uma família. Não perco a esperança de conseguir as coisas que desejo com todo meu coração.

- Onde fica Alejandro com tudo isso?

Um suspiro cheio de melancolia precede suas palavras.

- Olha, com Alejandro a cada dia estou mais desiludida, não sei o que pensar, acho que ele tem uma amante e com Dana ainda não consegui me aproximar completamente dela. Não consegui nem que ela me perdoasse, muito menos que me chamasse de mãe. O que aconteceu ontem à noite foi produto das emoções, veremos se nossa relação tem alguma solução, não acredito nessas reconciliações apressadas.

Ela sabia de Alejandro, mas não ousou dizer nada a Vicky.

- Dê tempo, Dana está um pouco traumatizada devido aos complexos do abandono na infância e o que aconteceu com Mateo. Aproveite que a vida as uniu no leito de morte daquele senhor, as coisas acontecem por algum motivo.

- Naquele momento, Dana se desabafou em lágrimas e buscou consolo nos braços de Adán, não nos meus. Como você acha que eu me senti? Sou mãe dela.

- Você e eu sabemos que ela teria preferido se jogar nos braços de Mateo, só que ele estava em casa com sua esposa Lisana. Adán é para ela um bom amigo, nunca vai amá-lo, é alguém que está ali, só isso.

Fez-se um longo silêncio, enquanto a empregada retirava a louça e os restos do café da manhã. A ampla sala se iluminou ainda mais depois que a moça puxou as cortinas.

- Veremos o que acontece, amiga. Agora nos espera o mais difícil: comparecer ao funeral e cumprir com o que as pessoas esperam de nós neste momento. Se fosse por mim, eu me deitaria e dormia o dia inteiro, estou exausta. Não tenho vontade de nada.

- Força, amiga, vamos no meu carro. Não vou te deixar sozinha agora que sei que você precisa de mim.

Vicky apertou a mão de Becky suavemente e sorriu.

- Nunca duvidei da sua amizade e agradeço por estar ao meu lado até que esse momento amargo termine.

Os olhos de Becky se encheram de lágrimas, ouvir as palavras da amiga provocou essas emoções nela. Ver uma mulher tão forte e altiva pedindo ajuda era algo que ela não esperava.

Capítulo 3 A Confissão

Dana entrou na funerária e foi até a sala de descanso para deixar suas coisas. Parou diante do espelho, aparentando estar confusa e com falta de sono, mas impecável em sua aparência: vestida com um conjunto preto, estava muito elegante.

Zoraida sempre sentiu uma certa inveja ao ver que sua irmã era magra e linda da cabeça aos pés. Os comentários sempre foram os mesmos, machucando-a profundamente. Não faltava quem, ao conhecê-las, dissesse que não pareciam nem um pouco parecidas. No entanto, Zoraida encontrou seu próprio espaço para se destacar. Vivia com um livro debaixo do braço e construiu uma imagem de mulher inteligente e culta, o que fazia com que seus comentários e opiniões fossem respeitados.

-Irmã, como você está? Sei muito bem que este não é o momento para fazer reprovações, mas a verdade é que você precisa decidir sua vida. Não é bom que esses dois homens fiquem atrás de você. Só de pensar que a qualquer momento eles podem se cruzar naquela porta, brigando, te chamando e vindo te ver ao mesmo tempo, fico nervosa.

O tom suave e pausado provocou em Dana um pouco de vergonha. Ela sabia que precisava tomar uma decisão o quanto antes.

-Não se preocupe, isso vai acabar -disse com determinação.

-Bom, acredito que sim, isso tem que acabar -repetiu Zoraida, sentindo um alívio que disfarçou o melhor que pôde.

-Pensei muito sobre isso e finalmente tomei uma decisão -disse Dana, olhando para ela.

-Desculpe, mas é o certo, querida. Não é nem questão de ser certo ou errado você ter dois pretendentes, ainda mais um deles sendo casado. Não, não é isso. É que essa disputa entre Adán e Mateo por você não te faz bem. Isso te deixa perturbada, te angustia, te deixa nervosa, não é verdade? Eu não te vejo bem.

-É verdade, não me sinto bem. Tenho dificuldade de me concentrar. É difícil esquecer. Minha vida está um caos.

-Por isso, te aconselho a se casar. Assim, você poderá organizar sua vida e suas emoções.

-É o que vou fazer. Não vou quebrar a palavra que dei a Adán, mesmo que isso não seja o que todo mundo espera. O problema é que a situação está ficando cada vez mais complicada. Acabei de ser informada que os trâmites vão demorar muito. Faltam alguns documentos, e pedem tantas coisas.

-Quanto tempo?

-Bom, dois ou três meses, não sei.

-Tanto assim? Como pode ser?

-Sim, é o que estou dizendo. Acho que dá para acelerar o processo, não sei. Vamos para o salão, depois continuamos falando sobre isso.

Mateo se encontra com Vicky e entram juntos no velório.

-O que você faz aqui? Então, quando vocês vão viajar?

-O voo sai em algumas horas. Lisana queria que fosse hoje mesmo, você sabe como ela é, com suas loucuras de sempre.

-Então, você definitivamente desistiu de Dana. Ela sabe disso?

-E o que mais eu poderia fazer? Lutei, esgotei todos os recursos para resolver essa situação e não me resta outra opção a não ser desistir: aceitar que o que havia entre mim e Dana é definitivamente impossível.

-Que triste é se conformar. É mais doloroso do que sofrer. Sei o que sente, Mateo. Também cheguei à conclusão de que não há mais nenhuma esperança.

-Quem dera houvesse alguma esperança, mas não há. E o que vou fazer? Me torturar? Ou, pior, torturar Dana? No final das contas, eu a perdi por minha culpa. Sou o único responsável. O que me resta é ir embora, aceitar as consequências, ir para longe, onde não possa saber de nada do que está acontecendo.

»Lisana já está com tudo pronto e deve estar sentada na sala de casa me esperando. E eu aqui -murmurou, passando a mão pela cabeça.

A verdade é que Lisana já estava de volta. Ela havia resolvido seu problema com Lucas e chegou um pouco desarrumada. Sua mãe percebeu imediatamente que algo mais havia acontecido entre eles.

-Você voltou tão rápido? Não sabe o quanto estava angustiada. Fico tão feliz que finalmente vá para longe com Mateo. Acho que isso é o melhor para todos. Esse canalha desconfiou de algo? Você contou algo a ele?

-Não, nem fale disso. Viu? Viu como consegui? Ai, estou tão feliz e empolgada com essa viagem! Acho que agora sim poderei reconquistar Mateo. Quando estivermos lá, só nós dois, em outro lugar, outro ambiente, longe de tudo isso... Sim, sim, acho que seremos felizes.

Enquanto isso, na funerária, Mateo decide falar com Dana, apesar de ela não ter ficado sozinha nem por um instante. Aproximando a boca de seu ouvido, ele sussurra:

-Preciso te dizer algo muito importante. Venha comigo.

Seus olhares se cruzaram, e Dana se afastou um pouco para que pudessem estar a sós por alguns minutos.

Zoraida não tirou os olhos deles até que o telefone começou a tocar dentro de sua bolsa.

-Sou eu, saia um momento, por favor.

-Não posso, estou no meio de muita gente, o que vou dizer?

-Saia, estou no café da esquina, a poucos metros da entrada.

-Tudo bem, espere, já vou.

Os presentes estavam atentos ao que acontecia entre Dana e Mateo, e poucos notaram que Zoraida saiu para falar com Adán.

-Dana, você está acompanhada? -perguntou, olhando ao redor e se referindo ao noivo.

-Se você está falando de Adán, ele deve estar chegando, e este não é o lugar para uma cena. Por favor, mantenha o controle de suas ações.

-Só um momento, quero te dizer algo importante, você precisa ouvir isso da minha boca. Não quis passar na sua casa mais cedo para não incomodá-la.

-O que foi? Qual é o mistério, Mateo?

-Vim me despedir. Estou organizando tudo para uma viagem e vou ficar longe por um tempo.

O coração de Dana acelerou com a notícia; dessa vez, ela sentiu que o havia perdido para sempre.

-Pois é, é o melhor que você pode fazer -disse, enquanto se arrependia das próprias palavras.

-Sou um covarde, eu sei. Na verdade, não quero estar aqui quando você se casar com Adán. Embora eu saiba que você tem todo o direito de refazer sua vida.

Dana o olhou nos olhos com determinação e, sem hesitar, disse:

-Eu não vou me casar com Adán, é isso que você quer ouvir?

-O que você está dizendo? Por que essa mudança? Vocês anunciaram o casamento, o que mudou na sua vida?

Mateo a olhou incrédulo, muito confuso; as palavras dela mudaram tudo para ele. Devolveram-lhe a esperança.

-Não vou me casar com Adán. Essa é minha palavra final. Acho que não há muito mais a dizer sobre isso.

-Dana, você está falando sério? Está brincando comigo?

-Não, é muito sério. Pensei bem e não posso me casar com outro homem amando você.

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