Logan, Dylan e Tyler, os três irmãos Creed são audaciosos, rebeldes, lindos... e estão em busca do amor!
Após anos de vida errante, Logan Creed, um caubói com um empoeirado diploma de Direito, retorna ao lar. Tudo que ele quer é criar raízes, restaurar o rancho abandonado da família... e, o mais importante, ter filhos que carreguem com orgulho seu nome.
Briana Grant, mãe e divorciada, já ouviu muitas histórias a respeito do charmoso vizinho, e o modo carinhoso com que Logan trata seus filhos é uma surpresa bastante bem-vinda. No entanto, quando seu ex-marido reaparece e um inimigo desconhecido vandaliza seu lar, chega a hora de Logan mostrar a Briana e a todos o que significa ser um Creed...
CAPÍTULO UM
Rancho Stillwater Springs
A placa de madeira desgastada pelo tempo balançava sobre o portão, presa aos postes por três elos de uma corrente enferrujada. As palavras, entalhadas a mão pelo próprio Josiah Creed, mais de 150 anos antes, e queimadas a fundo com a ponta em brasa de um marcador de gado, estavam meio apagadas, quase ilegíveis.
Logan Creed, com metade do corpo dentro de sua caminhonete de segunda mão, seminova, como o vendedor anunciara, metade fora e sobre o estribo, o pé calçado com uma bota, praguejou baixinho.
Assustado, o vira-lata que ele apanhara naquela manhã numa parada para descanso nas cercanias de Kalispell soltou, do fundo da garganta, um uivo suave e aflito. Não era de se estranhar que a pobre criatura estivesse inquieta; era óbvio que aquele cachorro atravessara de um extremo ao outro o inferno dos animais perdidos.
― Desculpe, meu velho - murmurou Logan, a garganta apertada por um emaranhado de emoções cortantes como arame farpado. Ele já sabia que o rancho da família, herança dividida por igual com seus dois irmãos mais novos, Dylan e Tyler, estava malconservado. A propriedade inteira fora negligenciada durante anos, desde a desavença entre os três, ocorrida depois do enterro do pai. Ele, Dylan e Tyler haviam seguido, com teimosia e separados, seus respectivos caminhos.
O cachorro o perdoou de imediato, como cachorros costumam fazer. E pareceu solidário, sentado do outro lado da marcha, os olhos castanhos quase líquidos, enquanto olhava para quem o resgatara.
Logan sorriu, sentou-se ao volante.
― Se eu fosse metade do homem que você pensa que sou - disse ele ao vira-lata - , eu seria candidato a santo. - A idéia de um Creed ser canonizado o fez rir por entre os dentes.
O cachorro reagiu com um latido alegre, como se oferecendo-se para recomendar qualquer pessoa que tomasse decisões como aquela.
― Você vai precisar de um nome - disse Logan. - Vou arranjar um bem rápido. - Ele se virou no banco da caminhonete, olhando à frente, analisando as cercas caídas e os escombros que se desintegravam e suspirou de novo. - Já determinaram nosso trabalho. Acho melhor começarmos.
A placa se chocou contra o teto da caminhonete quando Logan passou por baixo dela, e as traves do mata-burro do século XIX sob os pneus fizeram tudo bater, menos seus dentes.
O mato cobria a longa e sinuosa estrada. Mas, de qualquer modo, ainda havia sulcos de rodas feitos pelos primeiros veículos que tinham passado por ali; as carroças.
Havia três casas em diferentes setores da propriedade e, por ser ele o mais velho da atual geração dos Creed, a maior delas lhe pertencia. Alguma herança, ele pensava. Teria sorte se o lugar estivesse em condições de ser habitado.
- Que bom que eu tenho um saco de dormir e equipamento para acampar - disse ele ao cachorro, inclinando-se um pouco à frente no banco, enquanto abria caminho através da subida coberta de mato, esforçando-se para enxergar pelo pára-brisa. - Você se incomoda de dormir sob as estrelas se faltar telhado, garoto?
Os olhos do cachorro diziam que ele estava pronto para tudo, enquanto estivessem juntos. Ele já estava cansado de ficar sozinho, procurando comida e abrigo quando o tempo ficava ruim.
Logan disse a si mesmo que se animasse e estendeu a mão para acariciar a cabeça de pelo embaraçado do animal. Nem dava para dizer qual era a cor do vira-lata debaixo de toda aquela sujeira e olhar triste. Quanto à mistura de raças, ele era provavelmente mestiço de labrador, setter e um montão de outras coisas. Suas costelas apareciam e parte da orelha esquerda faltava.
Quando chegou àquela parada de descanso para esticar as pernas, depois da longa viagem desde Las Vegas, não esperava que fosse levar para casa um caroneiro de quatro patas. Mas, quando o cachorro se esgueirou por detrás dos arbustos enquanto ele descia da caminhonete, Logan não teve como ignorá-lo. Não havia ninguém por perto. E, se houve algum dia coleira com medalhinha, ela já deixara de existir fazia muito tempo.
Logan já sabia que ele era a última esperança daquele cachorro e, como ele mesmo já estivera numa situação parecida uma ou duas vezes, não foi capaz de dar-lhe as costas. Colocou o bicho na caminhonete e dividiu com ele um café da manhã na cidade seguinte. O cachorro vomitou o lanche imediatamente, e ficou com tanto remorso depois disso que Logan nem pensou em parar num lava-jato para limpar a caçamba. Agora, muitas horas depois, quando se enchia de coragem para dar uma olhada na casa do rancho pela primeira vez em muitos anos conturbados, Logan estava feliz com a companhia, embora as conversas fossem claramente unilaterais.
Finalmente, venceram a última subida, e Logan viu primeiro o celeiro - ainda de pé, mas claramente inclinado. Ele se forçou a voltar seu olhar na direção da casa, e se animou um pouco. Parte do telhado estava cedendo, mas a estrutura de pedra de um andar - originalmente uma cabana de um quarto menor do que a maioria dos depósitos de jardim - conseguiu resistir. Nenhuma das três chaminés desmoronara, e as janelas da frente ainda tinham vidro, do antigo, com molduras verdes e pequenas bolhas aqui e ali.
Um lar, pensou Logan, com uma mistura de determinação e pura tristeza. Mesmo assim, o rancho Stillwater Springs ainda era um lar.
Ele sabia que ter o encanamento ainda funcionando era querer demais. De qualquer maneira, telefonara com antecedência, e a luz e o serviço telefônico já estavam ligados. Seu parceiro precisava urgentemente de um banho. Além disso, ficar para lá e para cá atrás de água da fonte seria levar longe demais a volta à vida rústica. Seu estilo de vida luxuoso em Las Vegas não o tinha preparado para viver sem conforto.
- Parceiro - falou Logan enquanto descia da caminhonete. - Acha que vai andar nisto durante quanto tempo?
Aparentemente muito feliz, Parceiro pulou por cima da alavanca de câmbio e sobre o console até o banco que Logan acabara de desocupar. Logan riu por entre os dentes e o colocou com delicadeza no chão. Assim que tivesse oportunidade, levaria o cachorro ao veterinário para fazer um checkup e tomar umas vacinas. Poderia haver um microchip implantado em algum lugar debaixo de sua pele, identificando-o como o cachorro perdido de alguém, mas Logan duvidava.
Era mais provável que Parceiro tivesse sido abandonado, se é que algum dia pertencera a alguém.
O cachorro farejou em volta, então levantou a perna junto à roda de uma carroça velha enterrada até a metade no chão.
Quando Logan se aproximou da casa, com sua varanda da frente inclinada, Parceiro trotou ansiosamente atrás dele.
Qualquer pessoa sensata, refletiu Logan com pesar, passaria com um trator por cima da outrora imponente choupana e começaria de novo. Mas ele não era uma pessoa sensata, já passara por dois casamentos fracassados, uma carreira em rodeios e muita dor no coração para pô-lo a prova.
Com os ombros, ele abriu a porta da frente, o que fez as dobradiças rangerem, e depois de respirar fundo outra vez, atravessou o umbral. O lugar estava imundo, é claro, entulhado de jornais, latas de cerveja e Deus sabe o que mais. Mas os pisos de tábua tinham resistido, e a grande lareira de pedra parecia tão firme como se tivesse acabado de ser cimentada.
De pé no meio do monturo ancestral, e monturo era definitivamente a palavra Logan perguntou a si mesmo, não pela primeira vez, se não havia tantas pedras em sua cabeça como havia naquela lareira. Desde que ele localizou seus primos distantes, os McKettrick, seis meses antes, e visitou o Rancho Triple M lá no norte do Arizona, perguntas sobre o estado do rancho e sobre o que fora deixado de sua família latejavam na parte de trás de seu cérebro como um hematoma gigante.
E aquele hematoma tinha nome. Culpa.
Ele atravessou o quarto grande, sentou-se no batente alto diante da lareira e suspirou, os ombros meio relaxados sob a camiseta branca básica. Ele passou a mão por seus cabelos escuros e sorriu com tristeza quando Parceiro se aproximou e colocou o focinho sobre seu joelho.
- Algumas pessoas - disse Logan a Parceiro - simplesmente não se dão por satisfeitas com a quantidade de problemas e aborrecimentos que têm. E eu, amigo velho, sou uma dessas pessoas.
Os ranchos em Montana, em qualquer grau de abandono, valiam ouro no mercado imobiliário. Principalmente se tivessem uma história turbulenta, como era o caso desse. Estrelas de cinemas gostavam de comprá-los por preços astronômicos, instalar quadras de tênis e salas de exibição e piscinas do tamanho de um quarteirão. Ele, Dylan e Tyler poderiam dividir uma fortuna se vendessem a propriedade. Cortassem as perdas emocionais e fossem embora.
A última coisa de que Logan precisava, no entanto, além de um cachorro e daquela velha caminhonete - que ele comprara porque ela serviria num lugar como o Rancho Stillwater Springs, em Montana era de mais dinheiro. E ele tinha um monte de dinheiro, graças ao site de serviços jurídicos tipo faça-você-mesmo que ele criara assim que saiu da faculdade de direito e que vendera havia pouco por muito dinheiro. E, até aquele momento, toda aquela fortuna não lhe trouxera nada exceto aflição.
Porém havia uma razão mais profunda para não vender o rancho. Mesmo malcuidado como estava, sete ou oito gerações dos Creed tinham vivido e morrido, amado e odiado, blasfemado e rezado dentro de seus limites. A família nascera nas casas, trabalhara de sol a sol com tenacidade ao longo dos anos que restavam e fora posta para descansar no cemitério que ficava para lá do pomar de macieiras.
Logan simplesmente não podia abandoná-los, tal como não fora capaz de entrar em sua caminhonete naquela parada, deixando Parceiro para trás.
Eles lhe pertenciam, aquela horda de fantasmas amaldiçoados e indisciplinados.
Depois de ver o Rancho Triple M, algo mudara em Logan. Ele decidira se fixar num canto, fincar raízes tão fundas que seria capaz de as pontas aparecerem em algum lugar na China.
O legado dos Creed não era como o dos McKettrick, não havia como negar.
Os McKettrick haviam permanecido juntos, em linhagem contínua, desde o velho Angus, o patriarca. Os Creed tinham se estilhaçado.
O nome McKettrick era sinônimo de honra, integridade e determinação.
O nome Creed, por outro lado, significava tragédia, má sorte e sofrimento.
Logan voltara para adotar uma postura, dar uma guinada. Construir algo novo, durável e bom, do começo ao fim. Seus filhos, se ele algum dia fosse afortunado o bastante para tê-los, carregariam o nome Creed com orgulho. E o mesmo fariam suas sobrinhas e sobrinhos. Não que ele os tivesse, tampouco - Dylan e Tyler, pelo que sabia, continuavam nos rodeios, ao menos em parte do tempo, perseguindo os tipos de mulher que um homem não quer engravidar, e brigando em bares caipiras.
Ele não tinha ilusão de que seria fácil mudar o rumo que os Creed haviam tomado. Mas não seria, na prática, uma questão de fazer uma escolha, tomar uma decisão, e não abandoná-la, não importando o que acontecesse?
Dylan não faria nada disso. Tampouco Tyler. E não havia ninguém que se importasse.
O que significava que Logan estava eleito, por vitória esmagadora de um voto.
Ele ficou e se dirigiu à cozinha, cujo estado era pior do que o da sala de estar. Mas quando ele abriu a torneira da pia, a boa água subterrânea de Montana fluiu, turva no começo, depois clara como a luz.
Animado, Logan procurou uma tigela num armário. Encontrou, lavou bem e a encheu de água para Parceiro, colocando-a no chão de linóleo encardido. O cachorro bebeu fazendo barulho. Então arrotou como um caubói depois de virar uma caneca de cerveja.
Eles fizeram uma ronda pelos quartos, cachorro e homem. Logan tomava notas mentalmente, enquanto andavam. Desde que comprara a Home Depot local e contratara cerca de cem carpinteiros e um ou dois bombeiros hidráulicos, eles estavam prontos para a situação.
Briana não chegara ao cemitério até o fim da tarde. Ao chegar, perguntou-se por que tinha ido, como sempre fazia. Enquanto seus filhos, Alec, de oito anos, e Josh, de dez, corriam entre lápides que balançavam e cruzes de madeira em decomposição, ela estendeu a toalha de piquenique sobre um pedaço plano do chão e pegou o suco e os sanduíches. Sua velha cadela, Wanda, labrador preto e parrudo, observava placidamente os meninos correrem através da última e flamejante luz de sol daquele dia quente de junho.
- Eu nem conheço nenhuma das pessoas enterradas aqui - disse Briana a Wanda. - Então por que arrebentar minhas costas arrancando mato e plantando flores para um monte de mortos desconhecidos?
Wanda a observava com paciência.
Durante os dois últimos anos, desde a noite em que seu agora ex-marido, Vance, a abandonara após uma discussão interminável em frente à loja do Wal-Mart de Stillwater Springs, junto com os meninos e Wanda, Briana se ocupava com a sobrevivência.
Naquela ocasião, ela pensou que Vance daria a volta no quarteirão algumas vezes em sua velha van asmática, soltando fumaça, e depois voltaria para buscá-los. Em vez disso, deixou a cidade. Quando ele apareceu, três meses depois, magnanimamente pronto a deixar o passado para trás, Briana entrara com o pedido de divórcio, encontrando um lugar para morar e arranjando um emprego no cassino tribal, servindo refrigerantes e cafés gratuitos em troca de gorjeta. No começo, os poucos dólares que ganhava num turno de oito horas mal davam para colocar comida na mesa. Mas ela batalhara para ser promovida a recepcionista no clube dos jogadores. E depois, a carteadora. No fim, se tornara supervisora de andar, trocava dinheiro e pagava os prêmios de vez em quando.
Supervisores de andar ganhavam um salário razoável. Também tinham plano de saúde, licença médica e férias remuneradas. Ela conseguira aquilo sozinha, algo que Vance garantira que não conseguiria.
Pouco tempo depois de terem se mudado para a casa do lado de lá do riacho, Alec e Josh atravessavam o cemitério em seus passeios, e ela verificava o lugar, se certificando de que era seguro para os meninos brincarem. Briana era entusiasmada por lugares seguros, embora esses lugares tivessem, até então, escapulido a ela. Aos 30 anos, ainda procurava por um.
Nada poderia tê-la preparado, como supôs, para o efeito que a primeira visão daquele cemitério rural esquecido teve sobre ela. Abandonado, coberto de mato, impregnado de um extremo a outro de milhares de restos de festas de adolescentes movidas a bebida, o lugar dera, mesmo assim, boas-vindas ela.
Desde então, ocupar-se do cemitério abandonado era sua missão. Ela e os meninos haviam limpado o terreno, aparado e depois arrancado o mato, plantado flores e endireitado as cruzes. Os turnos de trabalho sempre terminavam com os meninos brincando de pique para descarregar o excesso de energia e, depois, com um piquenique como refeição.
Ela não esperava que aquele dia fosse diferente de qualquer outro dos dias anteriores, o que mostrou que ainda podia ser surpreendida.
Um homem esguio e de cabelos desgrenhados, jeans, botas e camiseta surgiu caminhando devagar de dentro do bosque, com um cachorro marrom avermelhado a seu lado. E ele interrompeu as passadas quando viu Briana.
Ela sentiu um estranho arrepio de alarme - e algo mais, menos fácil de definir - quando olhou para ele pela primeira vez.
Os cabelos dele eram escuros. E, embora fosse esbelto, tinha um físico forte.
Wanda soltou um rosnado baixo, mas não se moveu de seu lugar de costume sobre a toalha de piquenique.
- Psss - disse Briana, consciente de que os meninos haviam interrompido a brincadeira e gravitavam em torno dela, curiosos e talvez um pouco preocupados.
O estranho sorriu, falou em voz baixa com seu cachorro e se manteve a distância. Alec foi direto até ele.
- Oi - disse o menino. - Sou o Alec Grant. Aquela é minha mãe, e aquele, meu irmão Josh, também conhecido como Cabeça de Melão. Quem é você?
- Logan Creed - respondeu o homem, com um leve sorriso. - Prazer, Alec. - Ele observava, no entanto, Briana, com olhar curioso, mas também lânguido. Apreendeu o l,70m de altura dela, que estava vestida com um jeans gasto e uma camisetinha rosa com fitinhas. Olhos verdes, sardas, cabelos louro-avermelhados presos atrás, como sempre, com uma trança. inspecionou-a como se tivesse de reconhecê-la mais tarde numa sessão de identificação de suspeitos enfileirados, dessas que a polícia faz.
Briana hesitou, pouco à vontade ao notar o último nome, que lhe era familiar. Depois, avançou, forçando um sorriso cordial. E esticou a mão ao apresentar-se.
- Briana Grant.
- Nós conhecemos um Dylan Creed - disse Alec. Seu filho mais novo nunca vira um estranho, fato que tanto agradava como preocupava Briana. A aula sobre não-converse-com-gente-que-você-não-conhece fora um desperdício com Alec.
- Mamãe, Josh e eu cuidamos da casa dele. Ele tem um touro, também. Cimarron.
De perto, Logan Creed era até mais bonito do que parecera a distância. Seus cabelos, um pouco longos demais, tinham a cor do ébano, e os olhos eram de um castanho profundo e penetrante, cheios de inteligência e alguns segredos. Suas maçãs do rosto eram altas, sugerindo que talvez existisse sangue indígena em algum ponto de sua ascendência. Ele não parecia nem um pouco com seu irmão de olhos azuis e louro, Dylan. Mas ainda assim havia uma semelhança - talvez algo em seu temperamento, embora ela, certamente, ainda soubesse pouco sobre isso. Ou no jeito como ele ficava de pé.
- Então Dylan contratou uma caseira, não foi? - perguntou ele com lentidão. - E possui um touro? - Seu olhar passou por Briana e se fixou no cemitério. - Meu irmão mais novo também está pagando para você cuidar do cemitério? Se está, ele devia lhe dar um aumento. O lugar tem uma aparência bem melhor do que da última vez em que estive aqui.
Briana enrubesceu um pouco, insegura quanto ao que responder, e ainda se sentindo estranhamente exposta sob o olhar fixo daquele homem. Dylan não mencionara o cemitério naquela noite fatídica era que a contratara do lado de fora do Wal-Mart. Ele estivera na cidade por pouco tempo, em alguma espécie de negócio pessoal, e acabou vendo Vance jogar algumas notas de 20 dólares através da janela da caminhonete e depois arrancar com o carro, cantando os pneus.
Avaliando a situação, Dylan provavelmente sentiu pena de Briana, dos meninos e do cachorro. E passou a ela um molho de chaves, dando-lhe instruções sobre o lugar, e saiu caminhando devagar, sem olhar para trás. Advertiu-a do perigo de Cimarron, um touro branco que fora afastado da vida dos rodeios havia pouco; disse que um vizinho alimentava o animal e que Briana deveria ficar longe do bicho. Ela tomou um táxi para o rancho, furiosa com Vance e realmente desejando que ele voltasse depois de esfriar a cabeça. E não os encontrasse mais. Ele merecia.
Em vez disso, ele foi mesmo embora.
No dia seguinte, chegou uma carga de mantimentos pelo serviço de entrega, junto com um bilhete de Dylan dizendo que havia uma velha caminhonete estacionada no celeiro e que ela podia usá-la se conseguisse fazê-la funcionar. Desde então, não haviam se comunicado, a não ser pelos e-mails ou telefonemas ocasionais. Quando alguma coisa precisava de conserto, e o serviço estava além das habilidades limitadas de Briana para reparos domésticos, Dylan mandava rapidamente um cheque, e Briana tinha o cuidado de providenciar um recibo, embora Dylan nunca tivesse pedido um.
Josh deu então um passo à frente e ficou ao lado dela, bem perto. Ao contrário de Alec, Josh considerava todo mundo estranho, e portanto um problema em potencial. E agia de acordo com isso até que essas pessoas mostrassem ser de confiança.
- Ninguém nos paga para tomarmos conta do cemitério - disse ele. - Nós cuidamos porque é preciso cuidar.
O sorriso de Logan surgiu de repente e desconcertou Briana um pouco. Ela acrescentou dentes muito brancos ao inventário que fizera dele um pouco antes, enquanto ele tomava as medidas dela.
- Bem, agradeço - disse ele. - E essa é uma boa razão para fazer as coisas.
Cuidadosamente amansado, Josh serenou um pouco. Mas não sorriu. Ele queria que Briana soubesse, por sua postura retesada e punhos fechados, que ele a protegeria. E também a Alec e Wanda, se necessário. Graças a Vance, Josh era másculo demais para um menino de dez anos. E sério e triste demais.
- Onde você mora? - ele perguntou a Logan, solene. Logan indicou com o polegar por cima do ombro.
- Na casa principal do rancho - disse ele.
- Ninguém mora lá - contestou Josh.
- Josh - censurou Briana.
- Alguém mora lá agora ― respondeu Logan, afável. - Parceiro e eu nos mudamos para lá hoje.
Josh olhou o cachorro cor de cobre.
- Ele está muito magro. Você não dá comida para ele?
- Ele e eu acabamos de nos conhecer - respondeu Logan. Sua voz era tranqüila. - Ele vai engordar com o passar do tempo.
Wanda levantou seu corpanzil e se aproximou de Parceiro, cujo focinho cheirou. Parceiro também cheirou o nariz de Wanda. Então ambos perderam o interesse um no outro.
- Ainda acho que ele poderia comer um de nossos sanduíches de mortadela - insistiu Josh, sabiamente. Então, fazendo uma concessão, acrescentou: - Ele está bem limpo.
- Ele está bem exausto por ter conseguido isso - disse Logan. - E eu quase esgotei o suprimento de sabão.
Josh se desarmou e sorriu.
Finalmente ocorreu a Briana que Logan devia ter vindo ao cemitério para visitar o túmulo de alguém. E uma peregrinação como aquela, especialmente depois de uma longa ausência, poderia exigir privacidade.
- Talvez devêssemos ir embora - sugeriu ela.
Mas Logan fez que não com a cabeça.
― Não saiam daqui e continuem o piquenique - disse a ela.
Então, dirigindo-se a Josh, acrescentou: - Parceiro pode aceitar aquele sanduíche, se a oferta ainda vale. Mas vou logo avisando: ele pode vomitar. Parece que tem um estômago sensível.
Como vômito era assunto sério para um garoto de 10 anos, Josh assentiu com a cabeça.
- Comida para cachorro seria melhor - avaliou ele. - A gente pode dar um pouco da ração da Wanda se você precisar.
Logan riu por entre os dentes. Pareceu querer despentear os cabelos de Josh, mas não o fez.
- Obrigado - respondeu ele. - Mas fomos mais cedo à cidade para comprar a comida. Estamos abastecidos.
Briana sorriu, trouxe Wanda e os meninos de volta para a toalha do piquenique. Parceiro ficou com Logan, que foi se agachar ao lado de um dos túmulos.
- Posso dar mortadela pro Parceiro? - sussurrou Alec.
- Não - disse Briana, olhando para Logan. - Não agora.
- A conversa agora é particular, seu pateta - disse Josh ao irmão.
- Cachorros não têm conversas particulares, bobão - retrucou Alec.
- Fiquem quietos - ordenou Briana, perguntando-se por que suas mãos tremiam um pouco enquanto servia as bebidas e desembrulhava os sanduíches.
Os olhos de Logan queimaram quando ele correu a ponta dos dedos pela inscrição simples lavrada na lápide de sua mãe. Teresa Courtland Creed. Esposa e mãe.
Ele tinha 3 anos quando sua mãe perdeu a luta contra o câncer de mama. Desde então havia um enorme buraco em sua vida. Seu pai, Jake Creed, que nunca fora, para começo de conversa, um cidadão confiável, iniciou uma bebedeira que durou dez anos, começando pelo dia do funeral. Seu pesar, no entanto, não o impediu de se casar com a mãe de Dylan seis meses depois. A pobre e doce Maggie morreu num acidente de carro quatro dias depois do aniversário de 7 anos de seu filho. De acordo com seu padrão, Jake casou-se de novo antes do fim daquele ano - desta vez com Angela, uma professora jovem e idealista sem outra idéia senão casar-se com um bêbado violento com dois filhos selvagens. Sem dúvida, ela pensava que tudo de que Jake precisava era do amor de uma mulher. Ela foi uma boa madrasta para Logan e Dylan, e logo deu à luz Tyler.
Ela resistiu por cinco anos. Sim, resistiu.
Mas as bebedeiras de Jake simplesmente a exauriram. Um belo dia de verão, ela preparou uma porção de frango frito, disse a Logan, Dylan e Tyler que não deixassem de fazer suas tarefas e rezar. E partiu.
Jake virou a área rural toda pelo avesso procurando por ela. Furioso, estava convencido de que ela o deixara por outro homem. E tinha a intenção de trazê-la de volta pelos cabelos, se fosse preciso.
Em vez disso, Angela arranjou para si mesma uma crise de nervos muito séria. Foi para um hotel de beira de estrada nas redondezas de Missoula, tomou um frasco de tranqüilizantes e morreu.
Tal era, pensou Logan, a gloriosa história dos Creed.
Depois disso, Jake desistiu de casamentos. Quando Logan era calouro na faculdade, o velho morreu num acidente inusitado no corte de árvore.
Lembrar o enterro embrulhou o estômago de Logan. Por mais absurdo que parecesse em retrospecto, levando-se em conta os estragos que o alcoolismo de Jake causara na vida de todos eles, os três bebiam uísque, metiam-se nas maiores pancadarias e terminavam as noites em celas separadas de delegacias, como convidados do xerife Floyd Book.
Eles não se falavam desde então, embora Logan se informasse sobre os irmãos, principalmente pela internet. Dylan, vaqueiro tetracampeão mundial, era aparentemente uma celebridade na profissão, agora que ele pendurara seu equipamento de rodeio para sempre. Chegara a aparecer em alguns filmes, embora, até onde Logan soubesse, Dylan fosse famoso por não fazer nada em especial.
Só nos Estados Unidos.
Tyler, cuja modalidade era montaria em cavalo xucro, ainda continuava nos rodeios. Ele se envolvera em algumas enrascadas românticas bem conhecidas, investira seus ganhos consideráveis em imóveis e assinara contrato como porta-voz nacional de um fabricante de botas. Embora o mais novo, Tyler era o mais selvagem dos três filhos de Jake. Ele fazia muitos questionamentos, desde o modo como Jake os educara e até sobre a morte de sua mãe.
Mas as histórias de seus irmãos não passavam disso: histórias deles. Logan sabia que estivera ocupado, endireitando sua própria vida. E, embora lamentasse, o fato era que os irmãos Creed eram desunidos. E a desunião podia ser permanente. Dado o orgulho da família, para não falar na teimosia inata.
Logan estava quase pronto para ir embora - tinha muitos outros lugares aonde ir. Briana e as crianças dobravam a toalha do piquenique. O menino mais novo, Alec, se aproximou com uma fatia de mortadela para Parceiro.
- Você é caubói? - perguntou, reparando na bota gasta de Logan enquanto o cachorro se banqueteava com a carne do almoço.
Logan passou uma das mãos pelo cabelo. - Fui, um dia - respondeu ele, consciente de que Briana o observava.
- Meu pai é caubói - disse Alec. - A gente não o vê muito. - Que pena - respondeu Logan.
- Ele participa de rodeios - explicou Alec. - Mamãe se divorciou dele pela internet depois que ele largou a gente na frente do Wal-Mart e não voltou para nos buscar.
Logan sentiu uma fisgada na boca do estômago. Sentiu fúria, certamente - que tipo de homem abandona uma mulher com dois meninos pequenos e um cachorro? Mas também uma dose de alívio perturbadora. Mais uma vez, seu olhar se desviou até Briana, que abria a boca para censurar Alec. Nossa, como ela era sensual! As curvas, o brilho nos cabelos, a pele macia e levemente sardenta.
- Mas mamãe toma conta da gente muito bem - continuou Alec quando Logan parou de... não conseguiu... falar. O velho Jake tampouco fora pai do ano. Mas, apesar da luxúria, do alcoolismo e das brigas, ele trabalhara pesado e sem parar nas florestas, derrubando árvores. Mesmo em seus piores dias, ele não teria largado mulher e filhos, deixando que se virassem sozinhos.
- Aposto que sim - Logan conseguiu responder enquanto Briana se aproximava.
- Ela é supervisora lá no cassino - afirmou Alec, falando mais rápido enquanto sua mãe se aproximava. Briana chegou, pousou a mão levemente sobre o ombro de Alec, que estava de camiseta. Os dois meninos tinham cabelos e olhos escuros, em contraste com o colorido claro de sua mãe. Uma imagem de seu ex-marido formou-se na mente de Logan. Ele era provavelmente um sedutor, um daqueles tipos ciganos, de boa linhagem e história triste.
- Basta, Alec - ordenou Briana com calma. Seus olhos evitavam o rosto de Logan, como se tivesse ficado tímida de repente. - Agora temos de voltar para casa. Vocês têm tarefas para fazer e matéria para estudar.
Alec franziu o nariz.
- Mamãe dá aula pra gente em casa - contou a Logan. - A gente nem tem férias de verão. - Logan arqueou as sobrancelhas, colocou as mãos na cintura. Resistiu ao desejo de coçar o queixo com barba de alguns dias por fazer.
- Isso - disse Briana, apertando gentilmente o ombro do menino - porque você brinca tanto que precisa se dedicar um tempo extra.
- Eu queria que a gente pudesse ir à escola em Stillwater Springs, como as outras crianças - lamentou Alec. - Eles jogam beisebol. Andam de ônibus, fazem excursões no campo e tudo mais.
O rosto de Briana ficou tenso de modo quase imperceptível e aquele rubor sob as maçãs do rosto reapareceu.
- Alec - disse ela com firmeza o sr. Creed não está interessado nos seus assuntos pessoais. Vamos embora para casa antes que os mosquitos apareçam, tudo bem?
Sr. Creed estava, de fato interessado, sim - além de qualquer medida de bom-senso.
- Logan - disse ele.
Briana conferiu no relógio de pulso. Assentiu com a cabeça.
- Logan - repetiu distraidamente.
- O Josh e eu também podemos chamar você de "Logan"? - perguntou Alec com voz otimista.
Uma mulher que ensinava os filhos em casa podia ter algumas noções bem rígidas de etiqueta. Como não queria se intrometer, Logan disse:
- Se sua mãe não se incomodar.
- Vamos ver - disse Briana, ainda confusa. Então, como uma galinha, mas sem o cacarejo, juntou a prole e a conduziu em direção ao riacho. A casa de Dylan ficava logo do outro lado de uma instável pontezinha de madeira, que era invisível por trás de uma sebe de bétulas cobertas de folhagem. O cachorro preto foi atrás deles, andando feito um pato.
Logan sentiu-se estranhamente abandonado, observando-os partir. Parceiro também, porque soltou um pequeno ganido de protesto.
Logan deu meia-volta, tranqüilizou o cachorro com um afago na cabeça.
- Vamos para casa, garoto - disse ele. - A essa altura, a notícia de que voltei já se espalhou e é certo que teremos companhia.
Mas nenhum dos dois se mexeu até que Briana, os meninos e o cachorro sumissem de vista.
Logan estacou, pensando que deveria parar diante do túmulo de Jake antes de ir embora. Mas teve medo de cuspir sobre ele se o fizesse. Assim, dirigiu-se, em vez disso, ao pomar, com Parceiro se apressando para segui-lo. Como era de se esperar, o carro horroroso de Cassie Greencreek estava ao lado da casa. Ele meio que elevava o nível do lugar, o que era um comentário triste segundo os padrões de qualquer pessoa. Cassie estava esperando por ele. Ela se sentara no último degrau da escada da varanda. Estava resplandecente num vestido de poliéster púrpura, grande o bastante para esconder um Fusca. Seus cabelos, que iam até a cintura, tinham agora reflexos grisalhos, e seus olhos castanhos brilhavam numa combinação de boas-vindas e mau humor.
- Logan Creed - declarou ela, acolhendo o cachorro gentilmente quando ele foi lhe fazer festa. - Nunca pensei que você teria coragem de voltar aqui depois de tudo o que aconteceu no enterro de Jake.
Logan sorriu timidamente, parando no caminho coberto de mato. Estendendo as mãos no gesto tradicional de "aqui estou".
- Quando foi que você se barbeou pela última vez? - quis saber Cassie, abrindo espaço para Parceiro no degrau. - Você está parecendo um vagabundo.
Logan riu daquilo, aproximou-se e se curvou para beijar o rosto que a velha senhora lhe oferecia.
- Eu também amo você, vovó - disse ele.
A casa que abrigara Briana Grant, seus filhos e a cachorra por mais de dois anos tinha a mesma aparência de sempre, sob a poeira acumulada. Mas, apesar disso, estava diferente.
Uma pequena e estranha excitação, nem um pouco desagradável, dançou no fundo do seu abdome quando ela olhou ao redor.
A mesma geladeira barulhenta e amassada.
Os mesmos pisos de linóleo gasto.
O mesmo telefone de parede, antiquado e dourado, com o fio de plástico enrolado. Embaixo dele, sobre o aparador empenado, a luz vermelha da secretária eletrônica piscava sem parar.
O que havia mudado?
Não era a casa, claro. Ela é que estava diferente, mudada de algum modo. E no nível quântico também, como se a própria estrutura de suas células tivesse sido destruída por alguma nova energia perigosa.
Que diabo é isso?, ela se perguntou, mordendo com força o lábio inferior, enquanto os meninos estavam no seu costumeiro caos na volta para casa: Josh ligando o computador na mesinha junto à janela da cozinha; Wanda latindo e girando em círculos em torno de sua bacia de água; Alec correndo até a secretária eletrônica quando via a luzinha vermelha piscando.
- Talvez papai tenha ligado! - gritou Alec, apertando os botões.
- Talvez o presidente tenha ligado - zombou Josh, com amargura.
- Cale a boca, bobalhão!
- Calem a boca os dois - disse Briana, puxando uma cadeira até a mesa e desabando sobre seu assento de vinil vermelho rachado, sentindo-se estranhamente deslocada, como se tivesse, por acidente, tropeçado em outra dimensão.
A voz de Vance, que se avolumava dentro da secretária eletrônica como um gênio enfumaçado prometendo realizar três desejos - nenhum dos quais se realizaria, claro - soou gutural e bajulatória.
Wanda parou de latir.
- Alô, família - disse Vance, e Briana olhou na direção de Josh, viu suas costas atléticas se retesarem sob a camiseta listrada. - Desculpe por aquele cheque da pensão alimentícia, Bri. Pensei que teria fundos antes de ser compensado, mas não consegui.
Briana fechou os olhos. Vance adorava lançar no ar a palavra família, como se, apenas por usá-la, pudesse reescrever a história e desfazer a verdade - que ele praticamente jogara fora sua mulher e seus filhos, como se fossem invólucros de barras de chocolate ou as embalagens de hambúrguer que se acumulavam no assoalho de sua van.
- Devo passar por Stillwater Springs dentro de uma ou duas semanas - arrastou-se a voz incorpórea. - Vou dormir no sofá, se você não se incomodar. E ver o que posso fazer com relação àquele cheque. - Pausa pequena. - O sofá é sofá-cama, certo?
A refeição de mortadela e suco no cemitério embrulhou no estômago de Briana.
Alec vibrou de alegria, pulando pela cozinha inteira como um daqueles vermes mexicanos presos dentro de uma casca seca.
- Se ele vier - bufou Josh, os dedos sobrevoando o teclado do computador vou fugir de casa!
- Vejo vocês em breve - cantarolou Vance. - Amo todos vocês.
Clique. Vejo vocês em breve. Amo todos vocês. Certo. Briana praguejou baixinho. A sensação quase mística de mudança profunda desvaneceu-se no fundo de sua mente, sendo imediatamente substituída por uma dor de cabeça por estresse, que latejava forte entre suas têmporas. - Vá em frente e fuja - Alec provocou o irmão. - Eu ia gostar mesmo de ficar com a cama de baixo no beliche! Briana suspirou.
- Basta - disse ela, levantando-se sem força da cadeira e agindo mecanicamente. Encheu as tinas de água e de ração para Wanda, mas seu olhar continuava voltado para a secretária eletrônica. Vance não deixara um número de telefone e ela não tinha identificador de chamada, já que seu telefone era de época. - Algum dos dois tem o celular do pai de vocês?
Vance usava na maioria das vezes telefones baratos de lojas de conveniência. Para ele, tudo era descartável - incluindo gente e um cachorro que ele criara desde filhote.
- Como se eu fosse ligar pro idiota - resmungou Josh. Ele até disfarçou, mas havia lágrimas sob todo aquele desdém.
Briana entendeu. Ela mesma chorou um rio de lágrimas por causa de Vance, embora a choradeira tivesse secado há muito, junto com todo o resto que ela já sentira por ele. Assim ela terminou com ele - de fato, procurou uma saída bem antes de ter sido abandonada do lado de fora do Wal-Mart.
- Por que você quer o celular de papai? - perguntou Alec, vermelho por trás das sardas, praticamente fulminando Briana com o olhar. - Você não vai ligar para ele e dizer para ele não vir, vai?
Era exatamente aquilo o que Briana pretendia fazer, mas, olhando o rostinho sério de Alec, percebeu que não poderia. Não com ele e Josh por perto.
- Seja como for, ele provavelmente não vai dar as caras - observou Josh, ainda navegando com animação pela internet. O que, exatamente, estaria ele fazendo naquele computador? - Com a palavra dele e um pedaço de papel higiênico, daria para você limpar o bumbum.
- Joshua - disse Briana.
- Eu odeio vocês! - gritou Alec. - Odeio vocês dois! Wanda ganiu e se estatelou ao lado da tina de água num abatimento de cão. Quando Alec entrou no quarto fazendo barulho, deixando a cozinha que ele e Josh haviam compartilhado, Wanda não foi atrás dele, o que era raro.
Briana suspirou de novo, tirou o pequeno bule da cafeteira e foi até a pia enchê-lo, enquanto olhava fixo e com raiva para a secretária eletrônica. Dane-se, Vance, pensou com severidade. Por que você não nos deixa? É essa sua especialidade, não é?
- Ele é um caubói, tudo bem - disse Josh, soando quase triunfante. Os diques no teclado haviam parado, o que era temporário, certamente. Josh ficava muito tempo na internet e era muito habilidoso em apagar seus rastros, para não preocupar Briana.
Ela franziu o cenho, sentindo-se ainda desconectada, fora do compasso. Continuou a fazer o café, embora não precisasse de cafeína. Depois da bomba que Vance acabara de lançar, ela não conseguiria mesmo dormir aquela noite.
- Seu pai? - perguntou ela.
Josh repetiu o suspiro que ela dera um pouco antes.
- Logan Creed - disse ele, com a paciência exagerada de um professor de Rhodes Oxford falando a um idiota falastrão. - Fiz uma pesquisa sobre ele. Ele foi Caubói do Ano duas vezes. Foi casado duas vezes também. Não tem filhos. Nem meios visíveis de sustento.
- Ele é caubói? - repetiu Briana, estupefata. Num certo sentido, achava essas notícias até mais desconcertantes do que a ameaça da chegada iminente de Vance.
- Ele tem diploma de direito - disse Josh, projetando os ombros à frente para conseguir enxergar a tela do computador. - Talvez ele seja rico ou coisa assim.
Os Creed eram lendários dentro e ao redor de Stillwater Springs. Mesmo para uma recém-chegada, Briana já ouvira muita coisa sobre suas proezas. Mas se o estado do rancho indicava algo, eles não só não eram ricos, como tinham dado sorte de escapar de uma execução hipotecária.
- Por que você está pesquisando sobre o sr. Creed? - perguntou Briana com uma indolência que ela não sentia, enquanto tirava uma caneca do armário e despejava dentro dele adoçante artificial e creme desnatado.
Creed é caubói, disse uma voz em sua cabeça. Considere-se avisada.
- Ele disse que a gente podia chamá-lo de Logan - lembrou-lhe Josh.
- Então, Logan - disse Briana, enchendo a caneca antes mesmo de o café todo ficar pronto. A coisa tinha aquele gosto forte de fundo de bule, bom para deixá-la arrepiada, mas a acalmava um pouco. - Por que fazer uma checagem dele na internet?
- Foram as botas - lembrou Josh, evitando ou mesmo ignorando a pergunta de Briana inteiramente. - Elas não eram bonitas, como aquelas que aquele cara da loja da Ford usa, com estrelas e cáctus e ursos gravados nelas.
- Cacti - corrigiu Briana automaticamente, professora como sempre.
- Tanto faz - disse Josh, que se virou para encará-la. - As botas de Logan estão muito gastas. Qualquer pessoa com botas como aquelas provavelmente monta cavalos e dá duro para viver.
Briana pensou nas botas de Vance. Ele mandou fazer meias-solas nelas muitas vezes, e estavam sempre arranhadas.
- Talvez ele seja simplesmente pobre - sugeriu ela. - Eu me refiro a Logan.
Josh fez que não com a cabeça.
- Ele é formado em direito - repetiu.
- E "sem meios visíveis de sustento", como você disse. Pare de fugir de minha pergunta, Josh. Por que pesquisou sobre nosso vizinho?
- Para ter certeza de que ele não é um assassino em série ou algo assim - respondeu Josh.
Briana escondeu um sorriso. Em poucos minutos, ela iria atrás de Alec. Naquele instante, suspeitava, ele precisava de um tempo para ficar sozinho.
- E qual é sua avaliação, detetive? O vizinho oferece segurança para pessoas decentes?
Josh sorriu. Seus sorrisos eram tão raros naqueles dias que mesmo os mais fugazes eram motivo para celebração. Algo de sua luz interior se apagara dentro de Josh depois da partida de Vance. E às vezes Briana temia que essa luz sumisse por completo.
- Pelo menos até que papai chegue aqui, oferece - disse Josh.
Sem notar aquela observação, Briana acendeu as luzes do teto, expulsando as sombras do crepúsculo.
- Você não ia realmente fugir, ia? - perguntou ela com cuidado, fazendo as obras de arte tremularem como as penas eriçadas de algum pássaro grande quando abriu a porta da geladeira de novo. Nada de sanduíche de mortadela; os meninos iam precisar de uma refeição de verdade. - Quer dizer, se o seu pai vier nos visitar. Houve um silêncio insuportável entre a pergunta de Briana e a resposta de Josh.
Ainda sobre a cadeira, diante do computador, ele olhou para o chão.
- Eu tenho 10 anos, mãe - disse. - Para onde eu iria? Briana colocou de lado a embalagem de coxinhas de galinha que acabara de tirar da geladeira e se aproximou do filho.
Ia colocar a mão sobre o ombro dele, mas desistiu.
- Josh...
- Por que ele simplesmente não nos deixa em paz? - interrompeu Josh com tristeza. - Você se divorciou dele. Eu quero me divorciar dele também.
Briana dobrou os joelhos, sentou-se sobre as ancas e fitou Josh nos olhos. Ele era um menininho muito preocupado, esforçando-se para ser um homem.
- Sei que está zangado - disse ela - , mas seu pai sempre será seu pai. Ele não é perfeito, Josh, mas a gente também não é.
Uma lágrima escorreu pela bochecha de Josh, uma pequena trilha prateada de sujeira feliz que tinha valido a tarde.
- Ainda desejo que a gente pudesse dá-lo de entrada e pegar alguém diferente - retrucou ele.
O riso entre os dentes era em parte soluço. Sua vista escureceu, e seu sorriso deve ter parecido frágil a Josh, até mesmo forçado.
- Lei cardeal cósmica número um - disse ela. - Não se pode mudar o passado, ou outras pessoas. A verdade é que, embora as coisas tenham sido muitas vezes bem difíceis, não me arrependo de ter me casado com seu pai.
Josh choramingou, perplexo. - Não?
Briana fez que não com a cabeça.
- Por que não? Ele está sempre desempregado. Quando ele manda a pensão alimentícia, o cheque é sempre devolvido. Você nunca preferiu ter se casado com outro tipo de homem? Ou até ter ficado solteira?
Briana levantou-se, passou a mão pelos cabelos bem curtos de Josh.
- Eu nunca quis isso - disse ela - porque se não tivesse me casado com seu pai, eu não teria tido você e o Alec. E nem consigo imaginar como seria isso.
Josh matutou. Haviam tido essa conversa antes, mas ele precisava ser lembrado disso, até com mais freqüência do que Alec, pois, por ele, ela enfrentaria monstros, atravessaria o fogo. Durante um ano depois que Vance os deixou, Josh tivera pesadelos, acordava gritando pela mãe. Alec sofrera também por fazer xixi na cama muitas vezes durante a semana.
- Nós somos um problemão - constatou finalmente Josh.
- Quer dizer, Alec e eu. Brigamos o tempo todo e deixamos de fazer as tarefas.
- Vocês são as melhores coisas que aconteceram a mim - disse Briana com sinceridade, levantando-se imediatamente.
- Mas seria mesmo bom se você e seu irmão se dessem melhor. E fizessem as tarefas.
Entreaberta, a porta do quarto de dormir dos meninos rangeu e Alec botou a cabeça para fora.
- Cansei de ficar zangado - disse ele. Seu olhar deslizou até Josh. - Quase totalmente.
Briana riu.
- Bom - respondeu ela, pegando a frigideira elétrica para fritar as coxinhas de galinha. - Vocês dois precisam se limpar.
Josh, você vai primeiro. Desligue esse computador e chispe pro banheiro. Alec, você pode se lavar aqui na pia da cozinha, e depois vou repassar com você a tabuada.
Como exceção à regra, Josh não discutiu.
Alec arrastou um banquinho até a pia, subiu nele e esfregou o rosto e as mãos.
- Estamos no verão, mãe - protestou Alec. - Aposto que as crianças que vão a escolas de verdade não estão se importando com tabuadas velhas e estúpidas.
- Alec - disse Briana.
- Um vez um é um.
- Alec.
Alec se atrapalhou com seus seis, setes e oitos, as seqüências em que ele costumava ter problemas, antes de descer do banquinho. Então ficou em pé diante de Briana, mãos e rosto pingando.
- Eu sei o número do celular de papai - confessou ele.
O coração de Briana ficou apertado. Alec vivia em função de algum contato com Vance, não importava quão breve ou limitado. Ele provavelmente esperava que ela cancelasse a visita como a um passarinho de argila numa prova de tiro ao alvo, mas, de qualquer modo, ele estava disposto a dar-lhe essa informação.
- Tudo bem - disse ela, meio engasgada. Alec tinha apenas oito anos. Mesmo depois de todas as decepções, e de todas as tentativas cuidadosas de Briana de explicá-las, ele simplesmente não entendia por que eles quatro mais Wanda não constituíam mais uma família. - Você sabe, claro, que seu pai... muda muito de opinião? Com relação a visitas e coisas como...
Alec a interrompeu, com um olhar de desalento e um aceno de cabeça.
- Eu só queria vê-lo, mãe. Mas sei que ele pode não vir.
Briana sentiu um nó na garganta. Vance estava sempre perseguindo um grande prêmio qualquer, alguma vitória que lhe escapava, com uma venda emocional sobre os olhos, tropeçando no chão áspero, tentando pegar vaga-lumes só com as mãos. O casamento deles não dera certo, mas ele ainda tinha os filhos. Eram garotos espertos, maravilhosos. Por que estavam sempre no fim da sua lista de prioridades?
- Eu sei - disse ela finalmente. - Eu sei.
Cassie acariciou o cachorro enquanto observava Logan com atenção, olhando-o lá dentro. Ela parecia completamente à vontade, sentada no degrau da varanda. Ao contrário da maioria das mulheres que Logan conhecia, Cassie não parecia afligir-se com seu peso - simplesmente era parte dela. Para ele, ela sempre fora bonita, uma árvore frondosa e de raízes profundas, abrigando-o e a seus irmãos sob os galhos cheios de folhas quando eles eram jovens, junto com a metade dos outros rapazes do condado. Dando a eles espaço para crescer, com seu afeto constante e sereno.
- Você se parece tanto com a Teresa - disse ela em voz baixa. - Principalmente ao redor dos olhos.
Logan não respondeu. Cassie estava pensando alto, não conversando. Ela nunca entabulava uma conversa, nem mesmo um bate-papo.
Teresa, a mãe dele, era filha adotiva dela; portanto não eram realmente parentes, ele e essa avó. Ainda assim, ele a amava. E sabia que ela o amava.
Cassie olhou ao redor, suspirou.
- Este lugar é um naufrágio - observou ela, ainda fazendo festa em Parceiro, que chamava sua atenção aconchegando-se a seu lado. - Você devia vir e ficar em meu quarto de hóspedes até que os empreiteiros terminem o serviço.
- Seu quarto de hóspedes - disse Logan - é uma cabana, Cassie riu.
- Você não se incomodava de dormir lá quando era menino - lembrou ela. - Você costumava fingir que era Gerônimo, e Dylan e Tyler sempre me importunavam porque você não os deixava ser chefes.
A lembrança - e a menção a seus irmãos - doeu nas partes mais brutas de Logan.
- Você algum dia teve notícia deles? - perguntou, em voz baixa e muito lentamente.
- Você teve? - retrucou imediatamente Cassie.
Logan passou a mão pelo cabelo. Ele ainda precisava de um corte de cabelo, mas havia tanta coisa para um homem fazer em seu primeiro dia em casa.
- Não - disse ele. - E você sabia disso. Então por que perguntou?
- Queria ouvi-lo dizer - replicou Cassie. - Talvez você se dê conta da seguinte maneira. Dylan e Tyler são seus irmãos, Logan. São os únicos parentes de sangue que você tem no mundo. Você joga rápido, e com isso perde, como se você tivesse todo o tempo para acertar as coisas entre vocês três, e você vai se arrepender.
Logan aproximou-se finalmente, sentou-se no degrau de baixo. Seu primeiro desejo foi levantar-se, perguntar por que era tarefa dele acertar as coisas, mas a pergunta teria soado uma bobagem retórica.
Ele sabia por que dependia dele. Porque era o mais velho. Porque ninguém mais começaria um diálogo. E porque foi ele quem começou a briga, no dia do enterro do pai deles, quando falou mal do morto.
Tudo bem, ele estava bêbado.
Mas quis mesmo dizer as coisas que disse sobre Jake - que não sentiria falta dele, que o mundo seria um lugar mais tranqüilo sem ele, quando não um lugar melhor.
De qualquer forma, foi o que ele quis dizer na época.
Cassie estendeu a mão e mexeu nos cabelos dele.
- Por que voltou para cá, Logan? ― perguntou ela. - Acho que sei, mas, como antes, gostaria de ouvir você dizer.
- Para tentar um recomeço - respondeu ele, após hesitar mais uma vez.
- Parece um trabalhão - observou Cassie. - Manter boas relações com seus irmãos faz parte disso?
Logan anuiu com a cabeça, mas não falou. Não confiava em sua voz para frases com mais de três palavras, justo as que ele tinha para oferecer na época.
- Vou lhe dar os telefones deles - disse Cassie, movendo-se o suficiente para tirar sua bolsa de entre sua coxa direita e o balaústre da varanda, extraindo de dentro dela um bloquinho de anotações e uma caneta.
- O que vou dizer?
Apesar de todos os cálculos que fez, de todo o planejamento, das decisões, ele nunca arranjou um jeito para acabar com a distância abissal entre ele, Dylan e Tyler.
Cassie riu entre os dentes.
- Comece com um olá - sugeriu ela - e veja no que vai dar.
- Eu não preciso dizer a você no que isso poderia dar - respondeu ele.
- Você nunca vai saber se não tentar - disse-lhe Cassie. Ela rabiscou dois números no bloquinho, rápido e de memória, Logan percebeu. Então arrancou a página e entregou a ele. Depois de ter feito isso, ela se levantou com a graça elegante que sempre o surpreendera um pouco, dada a altura dela. Acarinhou Parceiro de novo e desceu os degraus no movimento lento e resoluto de uma geleira, deixando que Logan saísse do caminho dela ou então corresse.
Parceiro permaneceu atrás, sobre o degrau da varanda, mas deu um suspiro curto, triste de ver Cassie ir embora.
Logan abriu a porta do carro dela, como um cavalheiro. Por que motivo Cassie não comprara algo mais decente para dirigir estava além do seu entendimento - ela recebia um bocado do lucro do cassino local duas vezes por ano, assim como os outros 40 e tantos membros de sua tribo.
- Da próxima vez que eu vir você - disse ela, apontando o dedo para ele - é bom que me diga que falou com Dylan e Tyler. E não seria má idéia barbear-se e vestir algo com colarinho e botões. - Ela parou para puxar a camiseta dele. - No meu tempo, essas coisas eram roupa de baixo.
Logan riu.
- Senti falta de você, Cassie - disse ele, inclinando-se para beijar-lhe a bochecha. - Amanhã, Parceiro e eu vamos lhe fazer uma visitinha. Vou levá-lo ao veterinário e tenho uma reunião com meu empreiteiro. Posso prometer barba feita e uma camisa abotoada até embaixo, até mesmo um corte de cabelo. Mas, se vou ligar para meus irmãos ou não... Bem, isso veremos.
- Quanto mais você adiar, mais difícil vai ficar - disse Cassie, sem se mover para entrar no carro. - Você veio para ficar, Logan, ou está apenas de passagem para cuspir no túmulo de seu pai, ou vender sua parte no terreno a algum ator?
- Espero que você não fique aí parada, fingindo ser a presidente do fã-clube de Jake Creed - implicou Logan.
- Nós tivemos nossas rusgas, Jake e eu - admitiu Cassie. - Mas ele era seu pai, Logan. Do jeito doido dele, Jake amava vocês.
- Sim, era bem "família Doriana" o jeito como a gente vivia - caçoou Logan. Havia uma nota de respeito em seu tom de voz, mas era por Cassie, não por Jake. - Acho que você se esqueceu do dia em que ele cortou a árvore de Natal ao meio com uma motosserra. E aquele maravilhoso dia de Ação de Graças, quando decidiu que o peru estava queimado e o arremessou pela janela da cozinha?
Cassie suspirou, pôs a mão sobre o ombro de Logan.
- E aquele dia em que você e Dylan decidiram fugir de casa e se perderam lá na floresta? Foi em novembro, e o moço do tempo previa recorde de temperaturas baixas. O xerife suspendeu as buscas quando o sol se pôs. Mas Jake... Ele continuou procurando. Encontrou vocês e os trouxe para casa.
- E nos arrastou para a cabana de madeira.
- Se ele tivesse desistido, vocês teriam sido arrastados para o necrotério. Sei que ele deu uma coça em vocês, e eu o teria impedido se estivesse lá. Mas não foi a raiva que o fez bater em vocês, Logan Creed. Foi o simples e velho medo de sempre.
- Hoje, chamam isso de maus-tratos contra criança - assinalou Logan.
- Hoje - contrapôs Cassie - há tiroteio nas escolas e, na hora de se formar, as crianças não podem fazer provas porque isso poderia causar danos a autoestima delas. Chamam os assistentes sociais se a tela de TV no quarto delas é muito pequena, ou se o computador não é rápido o bastante. Não estou bem certa se uma boa surra não seria um favor que se faria a alguns desses jovens marginais que passam o tempo atrás do ginásio da piscina quando deveriam estar em sala de aula.
- Isso é tão politicamente incorreto - disse Logan, embora no íntimo concordasse.
- Eu não tenho de ser politicamente correta - retrucou Cassie, fungando.
Era verdade. Não precisava. E não era. Ela afundou no banco do motorista. - Bem-vindo de volta, Logan - disse ela, observando-o através da janela aberta. - Estou vendo que você vai ficar.
Ele pensou em Briana Grant, em seus filhos espertos e na cadela gorda e preta. A idéia de ficar não pareceu tão desanimadora como antes.
- Acho que Dylan está de volta - arriscou ele. - Há tempo o bastante para contratar um caseiro, de qualquer forma.
Cassie apenas assentiu cora a cabeça, enquanto esperava.
- Ele está... Dylan e Briana estão...?
Os olhos castanhos de Cassie se aqueceram com humor e compreensão.
- Juntos? - disse ela. - Foi isso que você quis dizer?
- Sim - resmungou Logan, pois sabia que ela o deixaria ali esperando se ele não respondesse. - Foi isso o que eu quis dizer.
Ela encolheu um ombro.
- Você conhece Dylan. Quando ele está atrás de uma mulher...
As articulações de Logan doeram quando ele agarrou a extremidade inferior da janela do carro de Cassie. Cassie sorriu e acariciou uma das mãos dele.
- Se você quiser saber algo sobre Dylan e Briana - disse ela com doçura deveria perguntar a um deles. Sou apenas uma velha senhora, às voltas com meus próprios problemas. Como poderia saber o que está... ou não está... acontecendo entre esses dois?
- Você sabe de tudo - rebateu Logan. Se ele não estivesse de camiseta, estaria suando no colarinho. - Sobre todo mundo em Stillwater Springs e num raio de oitenta quilômetros em todas as direções.
Cassie suspirou. Engatou a marcha à ré.
- É melhor você se afastar - disse ela - se não quiser que eu passe por cima dos seus dedos.
Como não era bobo, Logan deu um passo para trás.
Ele observou Cassie fazer com rapidez a curva e, veloz, voltar para a estrada com o pequeno carro de motor barulhento, que soltava uma fumaça azul pelo cano de descarga e chacoalhava peças frouxas. Quando ela chegou ao topo da subida e sumiu de vista, ele olhou para o papel que ela lhe dera.
O telefone de Dylan. O de Tyler.
Parceiro desceu os degraus da varanda e roçou a perna de Logan, como que insistindo para que ele resolvesse logo aquele problema.
Cassie estava certa, claro. Não ia ficar mais fácil.
Ele pegou seu celular e discou o número de Dylan, torcendo para que caísse na caixa postal.
- Alô - disse Dylan, ao vivo e em pessoa. - Dylan Creed. Logan sentou no degrau da varanda, exatamente no lugar onde Cassie sentara antes. Limpou o pigarro da garganta.
- Você conferiu o identificador de chamadas antes de falar? - perguntou ele.
Silêncio.
- Logan?
- Sou eu - disse Logan, precavendo-se contra o que viesse. Preparado tanto para uma reação violenta, com xingamentos, como para que lhe batessem o telefone imediatamente na cara.
Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Dylan pareceu aturdido, tão sem palavras como Logan.
- Quem diria! - disse Dylan finalmente. - Onde você está?
- No rancho - respondeu Logan, aliviado.
- O que está fazendo aí? - Agora havia irritação no tom de voz de Dylan, ele parecia ligeiramente suspeito.
- Nada demais, no momento - disse Logan, coçando a orelha de Parceiro. - O lugar está caindo aos pedaços. Pensei em ajeitá-lo um pouco. A minha parte dele, pelo menos.
Houve outro silêncio, pulsando com todas as coisas que nenhum deles ousava expressar.
- O que andou tramando, Logan?
Era interesse fraterno, aquela pergunta, ou uma acusação? Logan decidiu conceder a Dylan o benefício da dúvida.
- Larguei os rodeios, me casei e me divorciei algumas vezes, abri um negócio. E você?
- Coisas parecidas - revelou Dylan em voz baixa. - Também parei de participar de rodeios. Não tenho esposa, nem atual nem ex. Mas tenho, sim, uma filha de 2 anos. O nome dela é Bonnie... ou era, da última vez que ouvi. A mãe dela o mudou uma dezena de vezes desde que a criança nasceu.
Logan fechou os olhos. Seu próprio irmão tinha uma filha, sua sobrinha, e ele nem sabia que a menininha existia.
- Da última vez que você ouviu? Você não vê a Bonnie, Dylan?
Por um instante, a ligação pareceu cair, então Dylan tomou fôlego.
- Não muito - admitiu. - Era para Sharlene compartilhar a guarda, mas ela não compartilha.
- Talvez eu possa ajudar você nisso - Logan se ouviu falando.
- Sim - retrucou Dylan, e a irritação voltou a sua voz. - Você é advogado. Sempre esqueço.
Também sou seu irmão.
- Olhe, se você resolver ter aconselhamento jurídico, é só me ligar. Mas, se não quiser, tudo bem. Só liguei porque...
- Por que você ligou, Logan? - Um desafio. Aquilo era bem de Dylan: supor que Logan tinha de estar tramando algo para entrar em contato depois de tanto tempo.
- Acho que voltar para casa me deu um pouco de nostalgia, só isso - disse Logan.
- Para casa? - repetiu Dylan, de pavio curto. - Onde ela fica?
Logan não disse nada.
- O que você quer?
As palavras magoaram Logan bem mais do que ele admitiria.
- Nada - confessou. - Só achei que podíamos conversar.
- Você está planejando vender sua parte no rancho, não está? É por isso que está contratando empreiteiros e comprando tábuas. Para poder afanar uns milhões de algum tipinho de Hollywood?
Ah, as fofocas, pensou Logan. Dylan sabia que ele estava ajeitando a casa do rancho, porque ainda tinha suas fontes na cidade. Perguntar onde Logan estava fora uma mera formalidade.
- Não estou vendendo - disse ele sem alterar o tom da voz. ― Vim para ficar. E se você está pensando em liquidar sua parte do lugar, cubro a oferta de quem quer que seja. - Essa linha de raciocínio levou-o a Briana Grant, já que ela estava morando na casa de Dylan. E seguir esse raciocínio criou problemas para Logan. Demorou o tempo de uma pulsação para que ele percebesse que havia dito a coisa errada.
- Se eu fosse vender meus quatro mil hectares... e não vou... é certo como o diabo que não deixaria você comprar minha parte.
Vai começar, pensou Logan.
- Por que isso?
- Você sabe. Por causa das coisas que disse do nosso pai.
- Eu estava errado, certo? Eu devia ter sido mais respeitoso, devia ter guardado minhas opiniões para mim mesmo. Desculpe, Dylan.
Mais silêncio. Dylan estava preparado para um contra-ataque, mas o pedido de desculpa inesperado o desconcertou um pouco,
- Dylan? Você ainda está ai? Dylan suspirou alto.
- Estou aqui.
- E "aqui" fica onde?
- Los Angeles - disse Dylan. - Tive uma reunião com meu agente e um pessoal do estúdio. Estou trabalhando como dublê num filme. Vão filmar lá em Alberta, a partir da semana que vem.
- Você gosta desse tipo de trabalho? - perguntou Logan. Ele não conseguia imaginar como alguém podia gostar.
- É um jeito de ganhar a vida - respondeu Dylan. - E paga a pensão alimentícia.
Logan foi fundo, embora soubesse que a profundidade pudesse ser grande.
- Estou pensando em criar gado no rancho. Em comprar alguns cavalos também. Talvez você queira ser meu sócio.
- Nós não nos entenderíamos nem por dez minutos - sentenciou Dylan, mas havia algo de nostálgico no modo como ele disse essas palavras.
Logan riu.
- Nós nunca nos entendemos - respondeu ele. - Mas nos divertimos muito entre uma briga e outra.
Mais silêncio.
Então Dylan também riu.
- É mesmo - admitiu ele.
Foi a primeira coisa em que eles concordaram numa década.
- Você vai ligar para o Ty? - perguntou Dylan.
- Em algum momento.
- Bem, vá devagar quando ligar. E não dê meu nome como referência. No momento, ele está bem irritado comigo.
- Por quê? - quis saber Logan, embora pudesse imaginar mil motivos.
Mas Dylan o cortou.
- Assunto pessoal - disse friamente. Isso é entre mim e Ty. Você fica do lado de fora, olhando para dentro. - Veja, Logan, foi bom ter notícia de você, mas preciso desligar. Tenho um encontro.
- Certo - respondeu Logan. Ele e Dylan haviam sido corteses um com o outro. Quando visse Cassie na manhã seguinte, Logan podia dizer, honestamente, que tentara. - Boa sorte no filme.
Dylan agradeceu e desligou.
Logan olhou para Parceiro, que o olhava com sentimento.
- Um já foi, falta o outro - disse ele ao cachorro. Parceiro choramingou.
Logan consultou de novo as anotações de Cassie, então discou o número rabiscado ao lado do nome de Tyler. Um toque. Dois. Três.
Depois, a mensagem gravada.
- Aqui é Tyler Creed. Estou ocupado agora, mas retorno a ligação, a não ser que você esteja vendendo algo. Nesse caso, você está sem sorte. Aguarde o bipe e desembuche.
Logan riu entre os dentes, aguardou o bipe.
- Aqui é Logan - disse ele. Deixou seus dois números de celular e o novo, do rancho. - Me ligue. Não estou vendendo nada. Uma ova que não estava!
Solenemente, Alec presenteou Briana com um pedaço amassado de papel de bloquinho de anotação. As marcas a lápis que formavam o número do telefone de Vance estavam marcadas com força, como se Alec tivesse tido medo de que desaparecessem se ele não anotasse com toda a sua força.
A tristeza sentida por Briana naquele momento pesou em seu coração. Mesmo Alec, o fã mais leal de Vance, sabia que os algarismos naquele número de telefone eram esquivos. Como seu pai.
Lágrimas esquentavam o fundo de seus olhos, e ela tocou o pingente que ela sempre trazia em volta do pescoço - ela mesma o fizera, escaneando uma velha foto de seu pai, redimensionando-a, moldando-o em resina. Ele também fora um viajante, um famoso palhaço de rodeio que fazia o circuito dos rodeios durante a temporada, estacionando seu trailer na casa da irmã dele em Boise quando não havia rodeios onde se apresentar. A diferença era que ele levava Briana nas viagens depois da morte da mãe dela. Tinha então a idade de Alec, 10 anos.
Sua tia Barbara se opunha, claro, às viagens e ao fato de Briana fazer seus trabalhos escolares por correspondência em vez de ir a uma escola de verdade. Uma menina precisava de amigos, argumentava Barbara. Precisava de aulas de dança, de catecismo aos domingos e de estabilidade.
Sempre que voltavam a Boise, a tia de Briana, amável ainda que autoritária, a empurrava para testes na escola. Briana sempre provava estar bem acima do nível de sua série. De fato, ela terminou o ensino médio aos 15 anos. Imediatamente, Bill a inscreveu em cursos para ingressar na universidade. E ela tirou nota máxima nestes também, com a ajuda dele.
Ela guardava como um tesouro a lembrança deles dois sentados junto à pequena mesa dobrável no trailer, com a luminária lançando por sobre suas cabeças uma auréola dourada, os dois curvados sobre um ou outro manual de estudo.
Agora, com os filhos otimistas diante dela, ela sentia a falta do pai mais pungentemente do que nunca. Certo, ele a arrastara pelos Estados Unidos naquele velho trailer, mas fora firme como uma rocha também. Estava lá ao lado dela, não importava o que viesse.
Seu maior arrependimento, no que dizia respeito aos filhos, era não ter dado a eles o tipo de pai que Bill fora para ela. Em vez disso, ela fora arrebatada pela boa aparência, o charme e a fala macia de Vance.
- Você vai ligar para papai? - perguntou Alec, com voz miúda.
Briana sorriu.
- Sim - disse ela. - Mas só para perguntar quanto tempo ele vai ficar.
Alec ficou incrivelmente aliviado. Seu olhar se desviou para o pingente, para o cordão de couro simples e a imagem de Bill McIntyre, o Louco, com roupa de palhaço.
- Você tem saudade do vovô, hein?
- Um bocado - admitiu Briana. Seu pai se afastara dos rodeios logo depois de ela se casar com Vance, trocando seu amado trailer por uma casa modesta a uns poucos quarteirões de Barbara e da família dela, dizendo que estava totalmente preparado para pescar todo dia e esperar seus netos aparecerem.
Um mês mais tarde, ele morreu de repente, depois que um caso grave de gripe que se transformou em pneumonia.
A ironia do caso ainda aborrecia Briana. Seu pai levara chifrada de touro, fora pisoteado por cavalos xucros durante sua longa carreira de palhaço de rodeio, e no fim morrera de um desconforto que uma simples injeção poderia ter evitado. Alec inclinou-se e deu um beijo no rosto de Briana.
- Boa noite, mãe - disse ele - e obrigado. Briana esperou até que Alec e Josh entrassem em casa, mantendo-se ocupada com a arrumação da cozinha, lavando a louça que deixara na pia desde aquela manhã, fazendo uma lista do supermercado, checando mais de uma vez sua escala de trabalho da semana seguinte. Finalmente, com as mãos molhadas de suor, tirou o telefone do gancho e ligou para Vance.
- Este número - respondeu um operador automático, depois de três toques - está fora de serviço.
Claro que estava, pensou Briana, colocando o fone no gancho com uma leve pancada. E sentindo-se ao mesmo tempo aliviada e contrariada. Vance tinha de ter comprado mais minutos para manter aquela linha particular funcionando. Em vez disso, simplesmente comprara outro telefone numa outra loja de conveniência, com um número novo que ele não se preocupara em informar a ela.
Briana raramente tinha algo a dizer a Vance. Mas e se um dos meninos ficasse doente, ou se machucasse? Como é que ela iria encontrá-lo?
Resignada, Briana suspirou e conferiu no relógio sobre o fogão. Cedo demais para ir dormir, ainda mais com toda aquela cafeína correndo por seu corpo. E ela não estava a fim de ver televisão ou navegar na internet.
Passando pela sala de estar, se esforçou para olhar através da cortina de renda em direção à casa principal do rancho. Viu suas luzes através das árvores do pomar pela primeira vez desde que se mudara para a casa de Dylan como caseira residente.
A vista era reconfortante, fazia com que se sentisse menos isolada, menos sozinha. Não que pensasse em tornar-se simpática demais com Logan Creed - ele estava bem à vista, e ela gostara dele desde que o viu, mesmo a tendo deixado nervosa. Mas ele era um caubói. Como Vance.
Ele fora trazido por um vento vadio, como um daqueles tufos de arbustos secos que rolam ao léu no velho oeste. E era provável que ele sumisse com o vento de novo, quando a brisa certa chegasse.
Mordendo o lábio inferior, Briana saiu da janela. Na distância, o telefone tocou.
Ela correu para atender, batendo com a canela numa das cadeiras da cozinha. Com um gesto de dor, agarrou o fone e disse:
- Alô? Vance? Silêncio.
- Alô? - repetiu Briana. - É Logan - disse seu vizinho em voz baixa.
- Oh - disse Briana.
- Vou ser rápido, já que você está esperando uma outra ligação - respondeu Logan afavelmente. - Verifiquei a cerca do pasto de Dylan e não acho que ela segure aquele touro se ele resolver atacar. Como já estou planejando fazer um bocado de serviços naquele lugar, vou colocar novos moirões e sarrafos. Apenas pensei em avisar a você antes de as equipes de trabalho chegarem.
Não estou esperando outra ligação. Foi o que Briana quis dizer. Mas não conseguiu revelar que estava contente por ele ter telefonado, contente por ouvir a voz de outro adulto numa noite escura de verão. Ele iria pensar que ela estava carente se o fizesse. Disponível no mercado.
- Você pediu a autorização do Dylan? - perguntou ela em vez disso, massageando a canela machucada. Foi então que quis ter ido pelo caminho da carente, sem se importar. Teria sido melhor do que o modo impertinente como levantou a questão.
Logan esperou o tempo de uma pulsação antes de responder, para que ela notasse que ele registrara o tom dela:
- Não vejo como ele se oporia, já que estou pagando a conta. Se aquele touro escapasse e causasse algum estrago, o Dylan é que teria de se esconder dos advogados, não eu.
A imagem de Cimarron fora de si, correndo atrás de Josh e Alec afastou imediatamente da mente de Briana todas as preocupações com o modo como suas palavras teriam soado a Logan. Como assistira a centenas de rodeios, ela testemunhara touros jogarem caubóis e palhaços para o alto, em saltos-mortais, e furarem suas caixas torácicas quando eles aterrissavam.
- Você acha mesmo que ele poderia se soltar? Refiro-me ao Cimarron.
- Sim - respondeu Logan.
- Ai, meu Deus - murmurou Briana, fechando os olhos. Era difícil encontrar quem cuidasse de crianças em Stillwater Springs. Assim, quando ela não podia levar os meninos consigo para o trabalho, onde os deixava estudando ou jogando videogame na lanchonete do cassino, ela os deixava brincando, estudando ou fazendo as tarefas em casa. Eles tinham ordens estritas para telefonar a qualquer sinal de problema, mas eram garotos, afinal de contas. Espertos e aventureiros. Ela sabia que eles provavelmente exploravam a maior parte do rancho quando ela não estava por perto.
- Há algo errado? - perguntou Logan com sensatez.
- Preocupações - disfarçou Briana tentando sorrir, embora não conseguisse entender por que, já que estava sozinha na cozinha e Logan não podia vê-la. - Coisa de mãe.
- Vou cuidar da cerca ― assegurou-lhe Logan. - Enquanto isso, cuide para que os meninos fiquem longe de Cimarron. - Pausa. - Dylan não avisou você sobre os ursos, avisou?
Briana engoliu em seco.
- Ursos?
- Eles gostam de invadir o pomar de vez em quando - revelou Logan.
- Em dois anos - disse Briana, com o estômago revirando lentamente - não vi um único urso.
- Eles estão por aí - respondeu Logan. - Na maioria, ursos pardos ou negros. Mas de vez em quando aparecem também os cinzentos, e eles são desagradáveis.
- Os Grandes Cinzentos? - repetiu Briana, estupefata. Logan suspirou.
- Dylan deveria ter contado a você - disse ele.
Briana mal conhecia Dylan Creed, mas tinha toda razão para ser grata a ele, já que lhe dera um lugar para ficar quando ela mais precisou, além de um estoque generoso de mantimentos e uma velha caminhonete. E a nota ligeiramente crítica na voz de Logan colocou-a na defensiva.
- Acho que o assunto nunca veio à baila - disse friamente.
- Com Dylan - retrucou Logan secamente - os assuntos mais importantes freqüentemente não vem à baila.
- Vou tomar cuidado com o Cimarron e com os ursos - falou Briana.
Havia mais coisa que Logan queria dizer, ela podia sentir, mas ele devia ter aplacado o impulso.
- Bom - disse ele, depois de muitos segundos. Nada mais, apenas Bom.
Um homem de poucas palavras, portanto. Chamada em espera ligada. Como Briana não tinha identificador de chamadas, e como seus anjinhos bons haviam sussurrado que Logan a avisara e que ele não tinha razão de ser hostil, ela ignorou os bipes.
- Talvez você queira se juntar a nós para o jantar amanhã - sugeriu ela, para compensar seus maus modos.
Um rubor subiu por seu pescoço enquanto ela esperava pela resposta de Logan.
- Posso levar alguma coisa? - perguntou ele de pronto.
- Não precisa - disse ela, estranhamente exultante por ele ter aceitado tacitamente o convite. Era apenas um jantar, uma cortesia de vizinho para vizinho. Não era grande coisa. - O Parceiro também é bem-vindo, claro. Seis e meia? Chego do trabalho por volta das cinco e quinze e vou precisar de tempo para tomar uma ducha, cozinhar e tudo mais.
Mais informações do que ele precisava, pensou Briana, ficando ainda mais ruborizada. O que havia com ela?
- Seis e meia - concordou ele, com um sorriso na voz. Era como se ele soubesse que ela estava vermelha da garganta até a raiz dos cabelos.
Eles se despediram e desligaram. E, no instante em que a ligação terminou, o telefone tocou de novo.
- Alô - atendeu Briana. Será que Logan já mudara de idéia quanto ao jantar? Teria lembrado um compromisso anterior?
- Oi - disse Vance. - Acabei de tentar falar e... Briana soltou um longo suspiro.
- Eu estava numa outra conversa.
- Você ouviu minha mensagem?
- Sim. Você está pensando em fazer uma visita. - Baixou a voz, já que o quarto dos meninos ficava perto, e ela não botava a mão no fogo por eles, que bem poderiam estar colados do outro lado da porta com os ouvidos ligados em banda larga. - Alec vai ficar seriamente desapontado se você não aparecer.
- E quanto a você, coração? - disse Vance com voz arrastada, caprichando no número de caubói que a sugara para a órbita dele da primeira vez. - E você ficaria desapontada se eu não aparecesse?
A pressão sangüínea de Briana subiu repentinamente. Ela esperou que a pressão fosse à máxima e baixasse antes de responder:
- Nem um pouco. Estamos divorciados, Vance. D-I-V-0-R-C-I-A-D-O-S.
De modo atípico, ele recuou. Estava pegando leve, o que significava que ele queria algo.
- O que há, Vance? - perguntou ela, tão calmamente quanto pôde. Se chegasse forte demais, ele iria simplesmente bater o telefone na sua cara. Mas ela também não ia aturar. - Você não veio a Stillwater Springs quando Josh operou as amídalas no outono. Você não deu as caras no Natal, no dia de Ação de Graças e nos aniversários dos meninos. O que há de tão importante para você se dispor a viajar para tão longe do circuito para dormir no sofá da minha sala?
Por debaixo da resposta de Vance, ouviu-se um suspiro longo e reticente de paciência muito sofrida. Ele era tão mal compreendido...
- Eu só quero conversar com você cara a cara, só isso. E ver os meninos.
E ver os meninos.
Como sempre, as observações atrasadas.
- Sobre o quê? - Briana quis saber, ainda lutando para manter a voz baixa. - Vance, me poupe, espera livrar-se de pagar a pensão alimentícia de novo...
- Não se trata disso - ele interrompeu, fazendo-se de vítima. - Por que tudo sempre acaba em dinheiro com você, Bri?
- Se comigo tudo "acabasse em dinheiro", Vance Grant, você estaria na cadeia neste instante. Josh e Alec são seus filhos. Não se sente responsável por eles?
- Eu os amo - disse, passando de vítima a profundamente magoado.
- Falar é fácil - replicou Briana.
- Você quer que eu vá ou não? Posso chegar no sábado.
- Eu trabalho no sábado.
- Está bem - respondeu Vance, então magnânimo. - Posso passear com os meninos até você chegar em casa.
Briana pensou em Alec, seu rosto tão cheio de esperança. Depois era Josh, que ameaçara fugir se Vance cumprisse a promessa de visitá-los.
- Alec vai ficar excitado - disse ela, a bem da verdade. - Boa sorte com Josh, no entanto.
- O que há com meu camarada Josh?
- Eu diria que ele vê você por dentro, Vance - respondeu Briana. Josh não precisava de um companheiro, precisava de um pai, conceito este bem além da capacidade de compreensão de Vance.
- E isso quer dizer o quê? - perguntou Vance, furioso. Esse é o Vance que conheço, pensou Briana. Acabou o sr.Rapaz Simpático.
Pare de atiçá-lo, disse seu anjo da guarda.
Às vezes, tinha vontade de estrangular o anjo da guarda.
- Descubra - disse ela.
- Olhe, não preciso disso. Talvez fosse melhor se eu simplesmente permanecesse afastado.
Briana fechou os olhos, mas a imagem de Alec continuava presente, ansioso por uma visita do pai que ele adorava. Ela teve de parar de pensar sobre o que ela mesma queria - nunca mais ter de olhar de novo para Vance - e levar em conta as necessidades de seus filhos. Certo ou errado, Vance era o pai deles, e assim como protestava, Josh queria uma relação com o pai tanto quanto Alec.
- Desculpe - disse ela, quase engasgando com a palavra.
- Sabe o que há de errado com você? - retrucou Vance. Ele mudara de tática de novo, girando o botão até a posição "charme". - Você precisa de sexo.
Imediatamente, Logan Creed veio à mente. O peito dele seria peludo ou macio, quando ele tirasse a camiseta? Briana deu uma sacudida em si mesma, por dentro.
- Talvez eu precise - admitiu. - Mas não com você. Portanto, não me venha com idéias. Você vai dormir no sofá.
- Meus planos eram esses mesmo - disse Vance. - Isso me faz lembrar... o sofá é dobrável?
Ele fizera a mesma pergunta na mensagem que deixara na secretária eletrônica. Briana ficou confusa. E um pouco assustada.
- Sim - confirmou devagar. ― Por que a pergunta? Vance riu entre os dentes, o que soou falso.
- Fui jogado do lombo de muitos cavalos nos meus tempos - respondeu, - Preciso pensar nas minhas costas, agora que estou ficando velho.
- Certo - disse Briana, ainda curiosa, mas sem querer levar o assunto adiante. Ela já havia, por assim dizer, conversado demais com Vance. Vinte minutos de sua vida jogados fora, e ela nunca mais os teria de volta.
- Vejo você no sábado - despediu-se Vance com alegria, como se ela estivesse ansiosa com a chegada dele, em vez de apreensiva, com todas as fibras de seu ser.
- Vejo você no sábado - repetiu ela, com desalento. Então desligou o telefone.
- Eu devia lhe dar um soco - disse Jim Cavalo Selvagem na manhã seguinte, quando Logan foi atrás dele no Cassino Council Fire. Logan sorriu.
―Também fico muito feliz em ver você de novo, amigo velho - ironizou ele, puxando uma cadeira junto a uma das mesas da lanchonete e fazendo sinal para que a garçonete trouxesse um café. Como Parceiro ficara do lado de fora, na caminhonete, ele não estava pensando em demorar muito tempo. Ia tomar o café e partir. Deu uma olhada no fino terno preto de Jim. - Você subiu na vida - disse Logan. - Gerente geral. Quem ia imaginar?
- Quem ia imaginar - repetiu Jim, suavizando um pouco, mas não muito - que você deixaria a cidade sem dizer "adeus" a seu melhor amigo? Não telefonou. Não mandou e-mails. Nada.
- Quando o juiz relaxou minha prisão depois da briga com Tyler e Dylan, ele disse que eu não desse as caras em Stillwater Springs antes de me acalmar.
- Levou 12 anos para você se acalmar?
- Filho de peixe... - disse Logan, enquanto aprovava com a cabeça o café, servido numa xícara descartável, e pegava a carteira.
Jim fez sinal com a mão, dispensando a garçonete e o dinheiro.
- Você pode dizer isso de novo. - Jim franziu o cenho, ainda ameaçador. Ele ficou em pé ao lado da mesa, sem dar sinal de que iria sentar-se, os grandes punhos fechados na cintura, como se fosse levar a cabo a ameaça inicial. - Você é tão louco quanto seu pai foi.
- Estou de volta - anunciou Logan, depois de um gole cauteloso da infusão fumegante. - E exceto pela compra da comida no supermercado e por levar meu cachorro ao veterinário, para fazer um checkup, esta é minha primeira parada.
- Será que há algum elogio escondido aí? - perguntou Jim, franzindo o cenho.
- Sente-se. Você está projetando uma sombra do tamanho de uma montanha com o sol atrás de você.
- Estou trabalhando - frisou Jim. Mas puxou uma cadeira e sentou.
- Você é prioridade. Eis um elogio a você.
- Nossa, obrigado. Casei-me, nenhum parceiro do jardim de infância para ser meu padrinho. Divorciei-me, ninguém com quem encher a cara para esquecer. E sou uma "prioridade"?
- É pegar ou largar - disse Logan. - É o melhor que posso fazer.
Jim cedeu, afinal. Um sorriso escapou e iluminou de lado a lado seu rosto de índio esculpido a cinzel.
- Você está apenas de passagem, talvez procurando briga com um de seus irmãos? Ou finalmente caiu em si e decidiu que alguém deveria voltar para cá e cuidar do rancho?
Logan deixou sobre a mesa uma gorjeta para a garçonete, que, do lado de lá do balcão, os observava atentamente. Durante a fração de segundo que levou para que ele colocasse o dinheiro sobre a mesa, o rosto de Jim mudou. Ficou novamente sombrio.
- Você não vai vendê-lo a algum caipira do cinema, vai? Logan fez que não com a cabeça.
- Vou ficar para sempre. - Esse refrão estava se tornando familiar, como um anúncio que se ouve com muita freqüência no rádio ou na tevê.
De novo, o sorriso deslumbrante. Aqueles dentes brancos e todo aquele papo de beleza selvagem certamente haviam funcionado com as mulheres quando eles eram jovens e saíam atrás delas. Talvez ainda funcionassem, pensou Logan.
- Você está falando sério? - perguntou Jim.
- Estou falando sério.
- Você também falou sério quando prometeu ser padrinho em meu casamento - observou Jim.
- Eu estava no Iraque - disse Logan.
- Você esteve no Iraque?
- Não foi o que acabei de dizer?
- Só porque você diz algo, Creed, isso não significa que seja verdade.
- Quando minhas tralhas chegarem aqui, vou mostrar a você a documentação. Dispensa honrosa. Até algumas medalhas.
Jim assobiou baixo.
- Então foi por isso que abandonou os rodeios. Você sempre aparecia no canal de esportes na tevê. Então, de repente, sumiu. Você foi convocado?
- Eu me alistei - disse Logan. - Será que podemos deixar de lado a conversa sobre o Iraque, agora mesmo?
Jim franziu o cenho, claramente confuso. Ele mesmo era um veterano de guerra, e entre parceiros, os rapazes trocavam histórias de guerra.
- Por que não?
- Porque preciso beber muito até mesmo para pensar em combate, que dirá falar sobre isso. E, dada minha gloriosa história, para não mencionar a alta incidência de alcoolismo no clã dos Creed, tento me limitar a uma cervejinha de vez em quando.
- Oh - disse Jim. - Ruim, hein?
- Ruim - admitiu Logan.
- Você era das Forças Especiais, certo?
- Isso mesmo. E isso é falar sobre o Iraque. Estou sóbrio como uma pedra e gostaria de continuar assim.
- Tudo bem - concordou Jim rapidamente, levantando ambas as mãos, com as palmas viradas para fora. - Tudo bem.
Logan levantou-se.
- Só dei uma passada para dizer "olá" e que voltei. Meu cachorro está na caminhonete e tenho de me reunir com alguns empreiteiros. Além disso, prometi passar na casa de Cassie antes de tomar o rumo de casa.
Jim sorriu, levantando-se também.
- Você tem um cachorro e uma caminhonete? Você está virando mesmo um caipira.
- Não - disse Logan, acenando para a garçonete quando ela se virou para ir embora. - Ainda tenho meus dois dentes da frente.
- Não por muito tempo - brincou Jim - , se um de seus irmãos estiver se coçando para voltar, como você voltou.
Jim estava apenas zombando, mas as palavras acertaram um lugar ferido de Logan. Era demais esperar que os caminhos pessoais de Dylan e Tyler fizessem a volta e ventassem no rumo de casa, e que os três pudessem chegar a algum tipo de acordo, mas Logan tinha esperança de que isso acontecesse, apesar de tudo.
Seu amigo o acompanhou até a porta de entrada do cassino. Máquinas caça-níqueis piscavam e tilintavam ao redor deles. Logan perguntou a si mesmo como alguém conseguia trabalhar naquele lugar, com todo aquele barulho.
- Saio do trabalho às seis - disse Jim. - Quer jogar bilhar, tomar uma cerveja e recuperar o tempo perdido?
- Esta noite não - respondeu Logan, lembrando o convite inesperado para jantar na casa de Briana. Ela ficara obviamente irritada quando ele mencionou Dylan. Depois, mudou de assunto e ofereceu-lhe um jantar. Mulheres eram imprevisíveis. - Já tenho planos.
- Até logo, então - despediu-se Jim. - Prometo: nada de papo sobre guerra. Isto é, a não ser que você considere meu divórcio uma história de guerra.
Logan riu e deu um tapinha nos ombros de Jim.
- A qualquer hora depois de hoje à noite - disse. - Você sabe onde moro. Passe por lá quando der.
Jim anuiu com a cabeça. Então Logan dirigiu-se à caminhonete. Jim voltou para o cassino para fazer o que gerentes gerais desses lugares faziam.
Então, Brett Turlow pensou, logo ao entrar em seu carro depois de uma noite inteira de um pôquer feroz no qual perdeu as calças: ele não era o único a retornar à velha cidade natal depois de uma longa ausência. A diferença era que ele voltara com o rabo entre as pernas. Logan Creed parecia um pouco animado demais para se achar que o caso dele fosse o mesmo.
Brett afundou no banco do motorista do Corolla amassado que pegara emprestado com sua irmã. Observou quando Creed subiu numa caminhonete consideravelmente maltratada, fez festa nas orelhas de seu cachorro e ligou o motor.
O mais provável era que Logan tivesse a intenção de vender o rancho, já que ninguém se importava com o lugar, e levar a vida.
Isso seria uma coisa boa, se ele fosse embora. Se, por outro lado, ficasse, seria um problema, pura e simplesmente.
Com cara de sono, quase doente porque estava há doze horas sem comer e porque torrara no jogo grande parte de seu seguro-desemprego, Brett pensou em fazer algumas perguntinhas. Para descobrir quais eram as intenções de Creed. Enquanto isso, precisava dormir.
Briana não se aproximou da lanchonete até que Logan tivesse ido embora. Então entrou lá bem relaxada, para dizer um olá a Millie, que era a única garçonete no serviço, e tomar um café com leite desnatado para manter-se firme durante a manhã.
Ela ficara acordada até tarde na noite anterior, tomando um café atrás do outro, preocupada se Vance apareceria no sábado, preocupada se não apareceria. Precisava de cafeína, rápido. Para rebater, por assim dizer.
Os meninos ainda estavam em casa, advertidos, sob pena de morte, a se manterem afastados de Cimarron e do pomar, onde poderia haver ursos.
- Você viu aquele sujeito conversando com Jim? - entusiasmou-se Millie, começando mecanicamente o preparo do café com leite. - Muito lindo.
Briana sentiu uma irritação de dona contrariada e um estímulo a seu estado de ânimo, as duas coisas de uma só vez.
- Os lindos são mortais - filosofou com leveza.
- Sim ― respondeu Millie, de costas para Briana e olhando para ela por cima do ombro, enquanto o leite espumava sob o bico de vapor da sofisticada máquina de café - mas que jeito de ser. Vou perguntar ao Jim o nome dele.
- Não precisa - disse Briana. - É Logan Creed. Millie arregalou os olhos.
- O do rancho Stillwater Springs?
- Ele mesmo - confirmou Briana. Assim como ela, Millie estava na cidade fazia pouco tempo. Ela ouvira sobre os irmãos Creed, no entanto. Eram quase heróis do povo.
Famosos por criarem confusão, principalmente, pelo que Briana sabia.
- Então você o conhece? - perguntou Millie, passando o café com leite.
- Eu moro no rancho - lembrou Briana à amiga. - Isso faz de nós vizinhos. - Ela resumiu bem o resto da história, que Logan iria jantar com ela e os meninos naquela noite, como se fosse um delicioso segredo de adolescente.
Tola.
Naquele instante, o rádio de Briana, preso a seu cinto, deu sinal de vida. Uma voz incorpórea a informou de que alguém acabara de ganhar uma bolada nas máquinas caça-níqueis - hora de ir até o trabalho.
Ela agradeceu a Millie pelo café com leite e partiu apressada.
O prêmio acumulado era dos grandes. Uma senhorinha de cabelos azuis que viera no ônibus dos idosos tirara a sorte grande numa máquina, e Briana passou os 45 minutos seguintes tratando da papelada.
Na condição de gerente, Jim pagou o prêmio em notas de cem dólares estalando de novas, sorrindo para a câmera bem à frente com a sortuda ganhadora.
Depois que tudo terminou, Briana puxou seu chefe de lado para uma conversa.
- Preciso de uma folga no sábado, se for possível - disse ela.
Jim franziu o cenho. Ele era um homem bom, levava o trabalho a sério e era focado em seus objetivos. Havia até um boato de que concorreria ao cargo de xerife, se o velho Floyd Book se aposentasse antes da hora por causa de problemas cardíacos.
- Os sábados são bem movimentados - lembrou Jim a Briana.
- Eu sei - disse ela.
Ele então abriu para ela aquele sorriso que fizera muitas mulheres caírem de joelhos. Jim e Briana haviam saído algumas vezes, depois de seus respectivos divórcios, mas não houve aquela faísca. Assim, quando ele foi promovido ao posto mais alto, os dois decidiram parar de se encontrar e ser amigos.
- Ei - disse ele eu conheço você. Se está pedindo uma folga, é porque é importante.
Era importante? Vance chegaria no sábado, e ela estava nervosa com o fato de ele passar o dia com os meninos, sem ela. Não havia perigo físico - Vance nunca levantara a mão para ela ou para os filhos mas Alec e Josh podiam ser magoados tão facilmente de outras maneiras.
- Meu ex-marido vai voltar nesse dia - confidenciou. O sorriso de Jim desapareceu.
- Oh.
Percebendo o que ele estava pensando - que havia uma reconciliação para um futuro próximo - , Briana ruborizou.
- Não é nada disso - apressou-se em dizer. - Só estou preocupada com o fato de os meninos ficarem sozinhos com ele o dia inteiro. Alec está sofrendo de um caso grave de adoração a um herói, e sabe Deus que idéias Vance poderia enfiar na cabeça dele. E Josh me disse que preferiria fugir...
Jim levantou uma das mãos.
- Você pode tirar folga no sábado - interrompeu. - Eu mesmo vou substituir você. Mas você fica me devendo um turno extra.
Briana assentiu com a cabeça, profundamente aliviada.
- Obrigada, Jim.
Ele sorriu, mas seus olhos escuros estavam preocupados.
- Josh ameaçou fugir?
Jim conhecia os filhos de Briana, já que eles iam à lanchonete do cassino com tanta frequência, e fora notavelmente tolerante com a presença deles. Muitos chefes não teriam sido tão compreensivos, mas Jim também tinha um filho. Sam, de 4 anos, morava com a mãe em Missoula, e não o visitava com freqüência.
Briana acariciou os braços dele.
- Não acho que Josh vá realmente cair na estrada por conta própria, mas prefiro não dar chance.
Jim soltou um longo suspiro, passou a mão nos longos cabelos negros.
- Crianças fazem bobagens às vezes - disse ele.
Briana lembrou-se do touro no pasto de Dylan, e os ursos que aparentemente se alimentavam no pomar de vez em quando. Ela olhou de relance seu relógio. Era quase hora do almoço, ia telefonar para casa da sala de estar dos empregados, que ficava atrás de um dos três restaurantes do cassino, para certificar-se de que Alec e Josh estavam seguindo suas ordens.
- Sim - concordou ela, com atraso - , às vezes, elas fazem.
Ela e Jim saíram, ela rumo à sala de estar, direto para o telefone público. Ela precisava de um celular, mas isso não estava no orçamento.
Josh atendeu ao terceiro toque.
- O Alec é um bobalhão - disse ele, sem preâmbulo.
- Mesmo se fosse verdade - respondeu Briana, acostumada às discussões intermináveis entre os filhos ele é seu irmão. O que vocês estão tramando?
- Alec está fazendo o doce de matemática, e eu estava na internet até você ligar. A Wanda comeu uma toupeira, ou coisa parecida. E está soltando uns peidos nojentos.
- Sinto seu sofrimento, Josh - disse Briana bem-humorada. - E como foi que a Wanda conseguiu comer uma toupeira?
- Eu disse "coisa parecida" - frisou Josh. Briana sorriu.
- Joshua?
- Tudo bem, foi o salsichão que sobrou de anteontem - disse Josh. - Não foi idéia minha dar a ela. Foi Alec quem deu.
Tudo na mesma.
- Você vem pegar a gente? perguntou Josh. - Fica chato aqui, quando a gente nem pode ir lá fora.
- Sem tempo - disse Briana. - Vocês vão ter de agüentar até eu chegar em casa. Vou dar uma parada no supermercado depois do trabalho. Então, pode ser que eu me atrase alguns minutos.
- O Alec está pensando mesmo que papai vai vir no sábado. Briana fechou os olhos.
- Talvez - alertou ela, sem alterar o tom da voz. - Talvez ele venha no sábado.
- Com papai é sempre "talvez" - disse Josh.
- É bem verdade. Mesmo assim, me faça um favor. Evite os comentários. Isso realmente aborrece o Alec.
- Ele vive no mundo da fantasia.
- Você é o irmão mais velho - disse Briana. - Seja gentil com ele.
Josh suspirou, fazendo drama.
- Tudo bem, mas só até você chegar em casa - respondeu ele. - Depois, a sorte está lançada.
- Muito justo - disse Briana com um sorriso. Josh reagiu com um gemido de nojo.
- O quê? - perguntou Briana, com ansiedade, pensando que a casa tivesse pegado fogo, ou que um assassino estivesse tentando arrombar a porta dos fundos.
- A Wanda acaba de soltar um - reclamou Josh.
- De novo! - Ao fundo, Alec gritou com prazer frenético.
- Bobalhão! - berrou Josh.
- Sem xingamento, Josh - ralhou Briana. - Você prometeu.
- Está bem - retrucou Josh - , mas se você não estiver aqui às cinco e meia, vou ter de matá-lo.
- Só tenho uma palavra para você, Joshua Grant.
- Qual?
- Babá - respondeu Briana. Então ela disse tchau e desligou o telefone.