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Luna - Até que a vida nos separe

Luna - Até que a vida nos separe

Autor:: A.bausada
Gênero: Lobisomem
Luna - até que a vida nos separe Nem todo amor sobrevive à lua Caroline sempre soube o que significava ser Luna: observar, suportar e esperar. Na Tribo Argentis, onde o lema A lua não erra governa destinos, ela ocupa o lugar mais silencioso da alcateia - o de esposa do alpha. Ao lado de Xavier Ravenn, Caroline aprendeu a medir palavras, esconder feridas e fingir que amor e lealdade ainda caminhavam juntos. Mas, meses atrás, ela descobriu a traição. Não houve confronto. Não houve escândalo. Houve planejamento. Enquanto Xavier acreditava manter seus segredos protegidos pela lua e pela tribo, Caroline começou a se preparar para partir - emocionalmente, politicamente e em silêncio. Agora, sob o peso das tradições e dos olhares que tudo julgam, Caroline está pronta para dar o passo que ninguém espera: pedir o divórcio de um alpha. Um ato que não desafia apenas um casamento, mas a estrutura inteira de uma alcateia que nunca perdoa mulheres que escolhem ir embora. Entre jogos de poder, lealdades quebradas e uma lua que tudo observa, Caroline precisará decidir até onde está disposta a ir para não se perder de si mesma. Porque talvez a lua não erre. Mas Caroline aprendeu que permanecer também é uma escolha. E ela já decidiu não ficar.

Capítulo 1 A lua não erra

Caroline

Descobri a traição de Xavier Ravenn há meses, não que meu casamento estivesse muito bom, desde que casamos ainda jovens, acreditávamos que seria questão de tempo até eu me transformar, mas a transformação não veio, ainda assim acreditava que Xavier tinha caráter, e que se manteria leal e fiel devido a nossa posição na tribo, eu sei que cumpri meu papel de Luna, de esposa perfeitamente.

O que levou tempo foi aceitar que o casamento não acabaria por causa dela - mas por tudo o que precisei me tornar para continuar.

Ser Luna nunca foi sobre amor. Foi sobre aprender a observar em silêncio, a sorrir no momento certo e a fingir que certas ausências não doem. Durante anos, cumpri cada ritual, cada dever e cada noite solitária como se nada tivesse mudado.

Enquanto ele acreditava que seus segredos estavam protegidos, eu me preparava para sair.

Dobro o vestido amarelo com cuidado excessivo e o coloco no fundo da gaveta. O som da madeira se fechando é baixo, controlado. Tudo em mim aprendeu a ser assim. Se alguém me observasse agora, veria apenas a Luna organizando pertences antes de uma cerimônia comum. Ninguém veria o que estou realmente guardando.

O tempo.

Meses de atenção seletiva. Meses ouvindo mais do que falando. Meses aprendendo quando Xavier mentia não pelas palavras, mas pela forma como evitava usá-las. Ele sempre foi cuidadoso. O erro não foi a amante. Foi subestimar o quanto eu conhecia o homem com quem me casei.

Visto o manto vinho, sinto o peso dele e deixo o quarto.

O corredor da casa do Alpha é longo demais, feito para ecoar passos e decisões. Às vezes penso que foi projetado assim de propósito - para lembrar que tudo o que acontece aqui pertence à tribo antes de pertencer a qualquer pessoa.

Xavier está à minha espera na entrada.

Bonito como sempre. Controlado como nunca. Ele sorri quando me vê, um gesto automático, treinado para quem observa. Para mim, o sorriso não chega aos olhos.

- Está pronta? - ele pergunta.

Estou pronta há meses.

Mas apenas concordo com a cabeça.

Caminhamos lado a lado até a clareira. Não nos tocamos. Isso também não é novo. O que mudou é que agora sei o motivo. Ela deve estar lá. Não preciso procurar. Aprendi que certas presenças se denunciam sozinhas.

O círculo de pedra já está formado quando chegamos. A lua cheia se impõe no céu, grande demais para ser ignorada. O símbolo da Tribo Argentis reflete a luz prateada, e o lema ecoa antes mesmo de ser dito.

- A lua não erra.

As vozes se unem. Homens, mulheres, crianças. Repito as palavras em silêncio. Não por fé. Por hábito.

"A lua não erra."

Fico ereta ao lado de Xavier. Sinto o peso do título sobre meus ombros. Luna. Esposa. Símbolo. Tudo o que aprendi a ser para sobreviver aqui.

É então que vejo.

Ela não está no centro. Não ousaria. Está à margem do círculo, próxima demais das sombras. Jovem. Segura. Uma loba que carrega no corpo a certeza de quem sempre pertenceu. O olhar dela encontra o de Xavier por um segundo - rápido demais para chamar atenção, longo demais para ser inocente.

Ele não olha para mim nesse instante.

O juramento continua. O conselho fala sobre ordem, lealdade, continuidade, tradição. Palavras que já conheço de cor, hipócritas. Palavras que justificam tudo. Inclusive o silêncio dele. Inclusive a existência dela.

Enquanto todos escutam a lua, eu conto.

Quantos olhares ele evita.

Quantas vezes ela se insinua.

Quantos detalhes confirmam o que já sei.

Quando a cerimônia termina, Xavier se afasta para falar com os anciãos. Não me chama. Não se despede. Não percebe, que este é o último ritual que cumpro como Luna.

Dou alguns passos para fora do círculo. O ar parece diferente longe da luz direta da lua. Mais leve. Mais meu.

Não sinto vontade de chorar.

Sinto algo muito mais perigoso.

Clareza.

Porque agora sei exatamente quando vou falar.

Sei exatamente como.

E sei que, quando pedir o divórcio, será porque aprendi que permanecer também é uma escolha.

E eu já fiz a minha.

Capítulo 2 O que a lua não protege

Caroline

Anna não me chama de Luna.

Nunca chamou

- Você tem certeza? - ela pergunta pela terceira vez, enquanto espalha os documentos sobre a mesa baixa.

A casa dela é pequena demais para títulos e grande o bastante para verdades. Aqui, ninguém mede o tom da minha voz. Aqui, eu sou só Caroline.

- Tenho - respondo. - O que eu não tinha era tempo. Isso eu usei bem.

Anna cruza os braços, me observando com aquele olhar que mistura amizade e advocacia.

- Então vamos fazer direito - diz. - Porque pedir divórcio de um Alpha não é o mesmo que pedir divórcio de um humano qualquer.

Ela empurra uma pasta grossa em minha direção.

- Nós temos provas - continua. - E você tem algo ainda mais raro.

Abro a pasta, já sabendo o que vou encontrar. Registros de transferências. Contratos. Extratos. Meu nome repetido vezes suficientes para não poder ser apagado com facilidade.

- Patrimônio próprio - Anna diz. - Construído legalmente. Você trabalhou anos na empresa da tribo. Recebeu salário. Investiu. Guardou. Tudo limpo.

A empresa da Tribo Argentis. O coração financeiro da alcateia. Onde trabalhei tempo suficiente para que me vissem como útil, mas nunca poderosa.

- Isso não impede que eles tentem te enfraquecer e nem garante que vão aceitar o divórcio - ela continua. - Mas impede que te deixem sem nada.

Fecho a pasta com cuidado.

- Exatamente.

Caminho até a janela. A lua ainda está alta, como se estivesse no controle de tudo. A lua não erra, dizem. Mas ela nunca assinou contratos.

Volto para a mesa.

- As provas da traição continuam sendo nossa carta silenciosa - digo. - Não como ataque.

- Como proteção - Anna concorda. - O conselho saberá que você poderia causar danos.

- E Xavier?

Ela inclina a cabeça.

- Ele vai perceber tarde demais que você sabe e não vai aceitar isso tranquilamente

Penso nos anos em que dediquei ao nosso casamento, quanta devoção à Xavier, e com o passar dos anos o quanto ele me afastou e tive que trabalhar dobrado para provar valor. Nas noites em que fiquei até tarde enquanto ele representava a tribo. No dinheiro que guardei em silêncio, sem saber exatamente para quê - apenas sabendo que um dia poderia precisar.

- Quando posso dar entrada no pedido? - pergunto.

- Quando quiser. - Anna segura minha mão. - Mas preciso ser clara: você perde o título, o sobrenome Ravenn, a posição na empresa... e a ilusão de proteção.

- E ganho o quê?

Ela sorri, pela primeira vez.

- Independência real.

Solto o ar devagar.

- Preciso pensar.

Quando deixo a casa de Anna, a noite parece diferente. Não mais ameaçadora. Apenas aberta.

A lua ainda observa.

A tribo ainda manda.

A empresa ainda gira sem mim.

Mas, pela primeira vez, sei exatamente o que é meu.

E isso é muito mais do que eles esperam que eu leve comigo.

Capítulo 3 Desligamento

Caroline

Antes de qualquer coisa, passo na sala de Xavier, como de costume entrego vários papéis para ele analisar, alguns para assinar e entre esses nosso divórcio, a anos que Xavier não confere o que assina quando vindo de quem ele acredita que tem controle, separo o documento discretamente dos demais e guardo na minha pasta pessoal antes de sair da sala com uma doçura controlada.

Entregar o pedido de demissão foi simples. Não houve discursos nem despedidas longas. Apenas documentos, datas e a confirmação de que eu receberia apenas o que era meu por direito. Nada além. Nada que pudesse ser usado depois como favor concedido.

Trabalhar para a Tribo Argentis sempre me deu a ilusão de autonomia. Eu tinha salário, responsabilidades, decisões que carregavam meu nome.

Durante muito tempo, acreditei que aquilo me tornava menos dependente do título de Luna - quase invisível à sombra do Alpha. Mas autonomia vigiada não é liberdade.

É concessão temporária.

Enquanto meu nome estivesse ligado à empresa, qualquer movimento meu seria lido como extensão da vontade de Xavier.

Saindo antes, eu mudo a pergunta.

Não é mais por que ela quer ir embora.

É como não vimos isso antes.

Quando deixo o prédio, não sinto perda.

Sinto alívio.

Xavier

Eu descubro pela empresa.

Não por Caroline.

Não pelo conselho.

- Alpha... - o diretor financeiro começa, com o cuidado habitual. - Caroline solicitou desligamento formal.

A frase não provoca choque imediato. Provoca confusão.

- Desligamento? - repito, mais para ganhar tempo do que por não ter ouvido.

Ele desliza o documento pela mesa. Tudo em ordem. Assinatura firme. Nenhuma justificativa além do necessário. Um pedido limpo demais para ser impulsivo.

- Ela abriu mão do cargo - continua. - Pediu apenas o que é legalmente dela.

Legalmente dela.

Fico olhando para o papel por alguns segundos a mais do que o necessário. Caroline gosta desse trabalho. Não como quem se apega a poder, mas como quem encontra sentido. Ela é boa. Meticulosa. Respeitada.

- Quando isso foi decidido? - pergunto.

- Algumas semanas atrás. Só agora foi formalizado.

Semanas.

Dispenso o diretor e fico sozinho na sala ampla, cercado por relatórios, mapas e símbolos da Tribo Argentis. Tudo segue igual. Nada parece ameaçado. Ainda assim, algo não se encaixa.

Caroline trabalhou ali por anos. Conhecia cada engrenagem da empresa. Sabia como as decisões eram tomadas, onde havia margem, onde não havia. Não era o tipo de pessoa que abandona algo que construiu sem razão.

Então por quê?

Caminho até a janela. Vejo o pátio interno, a rotina intacta. Pessoas entrando e saindo. A empresa está funcionando como sempre. Ela não precisava sair para provar nada. Não precisava se afastar para ser ouvida.

A menos que... - A porta se abre antes que eu conclua o pensamento.

Lucca entra sem anunciar, como sempre fez. Beta. Braço direito. O único que raramente mede palavras comigo.

- Fiquei sabendo - ele diz, indo direto ao ponto. - Sobre a Caroline.

- Já correu rápido demais - respondo.

- Coisas assim sempre correm. - Ele cruza os braços, observando meu rosto. - Ela amava aquele trabalho.

Assinto.

- Era boa no que fazia, não é o tipo de coisa que se abandona por impulso - Lucca continua. - Nem por birra.

O jeito como ele diz birra me incomoda. Não porque esteja errado, mas porque Caroline nunca foi isso.

- Você falou com ela? - ele pergunta.

- Ainda não.

Lucca franze o cenho.

- Estranho.

- Por quê?

- Porque, se fosse algo simples, ela teria dito. - Ele faz uma pausa curta. - Caroline sempre foi direta quando se tratava do que importava.

Isso também é verdade.

Volto o olhar para o documento sobre a mesa. A assinatura firme. O pedido sem adornos.

- Talvez ela só queira mudar - digo, mais para mim do que para ele.

Lucca inclina a cabeça, avaliando.

- Talvez. - Depois acrescenta: - Mas mudar o que?

Não respondo.

Porque não sei.

Lucca não insiste. Ele nunca insiste quando percebe que estou tentando encaixar peças que não fecham.

- Seja qual for o motivo - ele diz -, isso não parece uma decisão pequena.

- Não é - concordo.

Ele se aproxima da mesa e olha o papel por cima do meu ombro.

- Ela não pediu exceções - observa. - Não negociou. Não deixou margem.

- Não - confirmo. - Apenas decidiu.

Lucca me encara por um instante longo demais para ser casual.

- Caroline nunca faz movimentos vazios.

Ele se vira para sair, mas para na porta.

- Quando entender o porquê - diz, sem olhar para mim -, talvez já seja tarde para perguntar.

A porta se fecha.

Fico sozinho outra vez.

Caroline não precisava abrir mão daquele emprego. Sempre disse que era o único espaço onde sentia que suas decisões tinham peso real.

Por que alguém deixaria justamente isso para trás?

Não vejo pressa.

Vejo cálculo - mas não consigo enxergar o objetivo.

Fecho o documento e o deixo sobre a mesa.

Seja qual for o motivo, ainda não chegou até mim.

E talvez seja isso que mais me intriga.

Caroline não está reagindo a algo recente.

Não está pedindo nada.

Não está explicando.

Está apenas... retirando peças.

Não sei por quê.

Ainda não.

Mas sei que Caroline nunca faz movimentos vazios.

E, pela primeira vez em muito tempo, percebo que estou observando alguém agir - sem saber qual jogo está sendo jogado.

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