- E então, gostou das férias na casa de sua tia?
- Ah, mãe, lá é tudo tão lindo. Sempre que vou lá fico maravilhada. Mãe vi a mana e o Breno na rodoviária. Eles logo virão pra cá, e ela está grávida. Não é ótimo?
- É maravilhoso. Faz tempo que querem um filho. Você soube que David voltará?
- Não sabia.
- Pois é. E com a volta dele, o senhor Marcelo fará um baile aqui na fazenda. David virá com alguns amigos da universidade. Todos foram convidados.
- Devem ser todos uns metidos... Se forem como a senhora Farrel. Acho que não irei ao baile, mesmo tendo sido amiga de David na infância. Lembra como Ilda Farrel me tratava? Chegou até a proibir nossa amizade.
- Lembro o quanto você sofreu quando ele partiu.
- Ilda conseguiu o que queria. Tenho certeza que ela até comemorou nossa separação. Ela foi muito cruel, éramos duas crianças, eu tinha apenas dez anos.
- Se tivéssemos tido dinheiro, você também teria ido estudar em outra cidade.
- Mas eu gosto daqui. Eu não vou. E depois, David nem deve se lembrar de mim.
- E você, lembra dele?
- Às vezes sinto falta da nossa amizade. Ele era dois anos mais velho que eu, mas sempre me tratou como se tivéssemos a mesma idade. E quando é que ele chega?
- Hoje à noite.
- Ele deve estar metido, porque nas outras vezes que veio, nem saiu de casa.
- Mas parece que agora ele quer apresentar a namorada.
- Gente rica faz festas para qualquer coisa.
- Clarice, quase me esqueci, Ilda Farrel quer ver você. Pediu-me para avisá-la que deve ir à fazenda.
- O que aquela mulher quer comigo?
- Não sei. Mas você sabe como ela é. Vá logo ver o que ela quer.
- Depois eu vou. Agora vou tomar um banho. Estou muito cansada da viagem e só um banho me fará relaxar. Mande alguém avisar que logo eu vou.
- Filha, estamos na era do telefone... E olha ali – apontou para uma mesinha onde estava o telefone – temos um telefone aqui... Vou ligar para ela e avisar que você logo irá.
Após o banho, Clarice pegou sua bicicleta e foi ver o que a "toda poderosa" Ilda Farrel queria com ela.
Ilda Farrel já a esperava na varanda da fazenda, com aquela cara de quem é dona do mundo.
- Senhora Ilda, vim assim que soube que queria me ver. Em que posso ser útil?
- Vou direto ao assunto. Você já deve estar sabendo que meu filho chegará hoje e que daremos uma festa para ele.
- Sim, eu sei. E o que quer que eu faça?
- Que não venha a festa.
- Como assim? Pelo que sei todos os moradores e trabalhadores da fazenda foram convidados, inclusive minha família e eu.
- Sim, todos foram convidados, mas eu gostaria que você não viesse.
- Por que não?
- Você e David eram muito unidos e foi um grande sacrifício tirá-lo de perto de você quando eram crianças, e, depois, foi mais difícil ainda mantê-lo longe de você quando vinha nos visitar. Portanto, fique fora da vida dele, não venha a festa.
- Mas, senhora, ele nem vai notar minha presença, ele nem deve me conhecer mais, talvez nem se lembre de mim. E pelo que soube ele está namorando que risco eu ofereço?
- Você não vai me obedecer, não é?
- Juro que quando mamãe me contou sobre a festa eu disse que não iria, mas agora, a senhora está me fazendo mudar de ideia. Não gosto que me deem ordens. Eu sempre gostei muito do David e sei que ele também gostava de mim. Éramos muito amigos. E também quero vê-lo. Nunca esqueci aqueles dias.
- E é por isso que quero que você fique longe dele.
- Eu ainda não entendi o motivo que a senhora tem para impedir nossa amizade.
- Você é burra ou idiota? Você não percebe que são diferentes? De mundos diferentes? Ele é o herdeiro de tudo isso aqui – esticou o braço e girou-o no ar apontando a fazenda – E você é a filha de um empregado, apenas uma empregadinha sem eira nem beira. Entendeu agora?
Clarice engoliu em seco.
- Sim, senhora Farrel.
- Já que entendeu, irá me obedecer?
- A senhora só saberá disso na hora da festa.
- Não se atreva a me desafiar garota. Seus pais moram e trabalham em minha propriedade e será muito fácil convencer Marcelo a demiti-los.
- Está me ameaçando?
- Está evidente, não está?
- Pois saiba, senhora Farrel, que seus "problemas" - enfatizou com ironia - comigo não tem nada a ver com o serviço dos meus pais. E saiba também, que eles ainda trabalham aqui por amor à fazenda e por lealdade ao senhor Marcelo, porque temos dinheiro suficiente para nos manter e, além disso, vários fazendeiros da região fizeram propostas muito mais lucrativas que aqui. E, tem mais, não sei se a senhora sabe, mas temos uma casa na cidade, ou seja, a senhora realmente acha que minha família precisa do seu dinheiro para viver?
- Isso é verdade? Sobre a casa e outras propostas de emprego?
- É. Então acha mesmo que suas chantagens serão levadas a sério?
Uma chama de ódio crispou nos olhos azuis da patroa, que com a voz fria levantou o braço e apontou a rua
- Fora daqui. Mas saiba que nosso assunto ainda não acabou. Você vai se arrepender por ter me desafiado. E vai se arrepender muito mais se vier a festa.
Clarice fez uma reverência, subiu em sua bicicleta e saiu furiosa.
- Como ela pode achar que manda na vida das pessoas?
Clarice praguejava e xingava a proprietária da fazenda.
Tamanha era sua raiva que havia pegado o caminho errado.
Ao invés de pegar o atalho foi pela estrada principal, demoraria bem mais, pois teria que contornar o lago.
Estava tão furiosa que só viu o carro quando este freou bruscamente e soou a buzina.
Clarice levantou a cabeça e deixou um grito escapar.
- Deus não...
Freou sua bicicleta tão rápido quanto pode, esta derrapou nas pedrinhas e tombou.
- Droga. Como posso ser tão descuidada?
Olhava desolada sua bicicleta com a roda torta.
- Você está bem?
Um rapaz loiro de olhos azuis apavorado saiu da belíssima hilux.
- Estou, obrigada. Mas minha bicicleta não.
- Você é uma louca - alguém gritou de dentro do carro - Vamos embora David, estão nos esperando.
- Cale a boca, Ana. Carlos venha me ajudar aqui, por favor. – Olhou para Clarice e com a voz meiga falou – Ele é médico. Bom ainda não, mas está estudando para isso.
- Não precisa se preocupar estou bem.
- Isso eu é que direi, sua maluquinha.
Carlos examinou-a de cima a baixo, o que fez com que Clarice ficasse ruborizada.
Nunca havia sido tocada por nenhum homem. Já havia ido a consultórios médicos, mas seus pais faziam questão de que fosse sempre a médicas e não médicos.
- Qual o veredicto, doutor?
- Sabe que ainda não sou médico, David, mas ela está bem, foi só um susto e é claro, alguns arranhões. Você terá alguns hematomas, mas nada, além disso.
- Eu lhe disse que estava bem.
- Ela está bem? – gritaram novamente do carro.
- Está. Por quê?
- Se essa descuidada está bem, então vamos embora.
- Eu já disse que quero me certificar de que a moça está perfeitamente bem.
- Não se preocupe. Estou bem. Daqui a pouco eu me recupero do susto. Não quero dar trabalho.
- Não é trabalho nenhum. Mas, posso saber seu nome?
- Por quê?
- Oras, porque você está em vantagem. Já sabe meu nome e eu ainda não sei o seu.
- Clarice. Me chamo Clarice Gusmão. – disse de cabeça baixa não querendo encarar o amigo de infância.
- Eu não acredito... É você mesmo?
- Sim. Sou eu.
- Pitty... – abraçou-a com força.
- Ai...
- Oh, me desculpe esqueci do seu tombo, mas é que faz tanto tempo que não nos vemos.
- Oito anos. Achei que você nem lembrasse mais de mim.
- Eu só lembro de você assim – pegou a carteira e dela tirou uma foto dos dois quando criança – Esse dia foi o último de nossa infância.
- É verdade.
- Pitt, como você está linda.
- Obrigada. Fazia tempo que alguém não me chamava de Pitt. E você também está muito bonito.
- Senti muito a sua falta, Clarice.
- Eu também senti sua falta, David. – Abraçou-o – Mas você precisa ir. Sua mãe está esperando por você na fazenda. E seus amigos devem estar cansados da viagem. Você não deve perder tempo com uma empregada da fazenda. Eu já estou bem. – Levantou-se – veja, até posso andar – tentou dar um passo e cambaleou sendo amparada pelos braços de David.
- Eu vejo como está bem. Vou levá-la para sua casa.
- Não. Você deve ir pra casa. Sua mãe o espera.
- Como sabe que ela me espera? Esteve com ela?
- Sim, estava vindo de lá.
- O que ela queria?
- Nada demais.
- Nada demais? Eu conheço minha mãe, Clarice. Por que não me conta o que aconteceu?
- David, não aconteceu nada. Foi muito bom rever você depois de todo esse tempo, mas eu realmente tenho que ir.
- David, querido – novamente alguém gritou do carro – estamos atrasados. Já estou cansada de esperar. Ela não disse que está bem? Vamos embora.
- Ana, se eu tiver que pedir pra você calar a boca novamente eu te juro que você volta para a cidade a pé. - Olhou para Clarice – Desculpe ter gritado, ela às vezes me tira do sério.
- Ela tem razão. Estou bem. Você deve levar seus amigos para sua casa. Não quero tomar mais seu tempo.
- Clarice você não toma meu tempo. Temos muito que conversar. Afinal fazem oito anos que não nos vemos.
- Outro dia, sua namorada está esperando por você. Vá David.
- Ela não é minha namorada.
- David, eu já vou indo, minha mãe deve estar preocupada.
- Deixa eu te levar.
- Não. Vá com eles. Eles são seus amigos e devem estar cansados.
Pegou a bicicleta e virou-se, mas não havia dado dois passos quando foi puxada pelo braço.
- David, eu preciso ir.
- Eu fiquei oito anos imaginando como você estava, como tinha crescido, se havia mudado muito, então, não fuja de mim, vamos conversar.
- Hoje não. Você nem chegou em casa ainda, precisa levar seus amigos e descansar e eu também preciso descansar, também cheguei hoje de viajem.
- Por que está fugindo de mim?
- Não estou fugindo, só que essa não é a hora certa para conversarmos. Seus amigos o aguardam.
- Você é minha amiga. Eles podem esperar.
- Não. Vá com eles. Por favor. Não quero problemas.
Clarice soltou-se e saiu deixando-o parado.
- Eu vou te procurar. Vamos nos encontrar de novo e então não fugirá de mim. Temos muito o que conversar.
Em resposta obteve apenas um aceno.
Sem poder subir na sua bicicleta, ela teria que andar os quatro quilômetros que faltavam para sua casa e o pior é que estava com dor no pé e tinha que carregar a bicicleta, mas não iria aceitar a carona dele.
Sem olhar pra trás, começou a caminhar com dificuldade, apoiando-se na bicicleta.
Ouviu Ana chamar David mais uma vez, e em seguida o barulho do motor do carro. Ainda pode ouvir Carlos chamá-la de caipira seguido por uma sonora gargalhada.
Não teve coragem de olhar para trás, mas sentia que, mesmo com o carro em movimento, olhavam para ela.
Clarice nunca tinha sido tão humilhada daquele jeito.
Primeiro Ilda Farrel e depois, os amigos de David Farrel.
Uma hora e meia depois ela finalmente chegou a sua casa e se deparou com o olhar preocupado da mãe.
- Clarice, querida, o que aconteceu? Por que está empurrando a bicicleta?
- Ah, mãe foi horrível. Primeiro aquela mulher maldosa me ameaçou, depois peguei o caminho errado, esqueci do atalho e quase fui atropelada por David Farrel e seus amiguinhos.
- Você se encontrou com David? E como ele está? Metido?
- Não, ele parece o mesmo de antigamente. Até me ajudou quando cai da bicicleta. Queria me trazer pra casa.
- E por que recusou a carona?
- Mãe, ele estava com uns amigos e com a namorada eu não quis atrapalhar.
- E o que Ilda queria com você?
- Adivinha? Ela ordenou que eu não fosse à festa de amanhã à noite e que fique longe de David. Ela até ameaçou demitir a senhora e o pai se eu for à festa.
- E o que você fez?
- Desarmei a bruxa. Disse que estamos aqui porque vocês são leais ao seu Marcelo, que temos uma casa na cidade, que recebemos propostas mais lucrativas de outros fazendeiros, essas coisas.
- Você ficou louca? Não deve desafiá-la.
- Mãe eu nunca tive medo dela. Só vou ficar longe de David se ele quiser isso. Não vou ficar longe dele porque ela mandou.
- Você é muito impulsiva. Isso ainda lhe trará problemas.
- Não se preocupe, mãe, eu sei me cuidar. Agora vou tomar outro banho pra tirar esse pó todo e limpar esses arranhões.
No banho, Clarice lembrou o desastroso encontro com David.
- É sua bruxa, queria me manter afastada de seu filhinho, mas não foi o que aconteceu... Pelo menos uma coisa boa tinha acontecido, ela tinha revisto David sem que Ilda pudesse fazer nada para impedir...
Ao lembrar de David, um repentino calafrio percorreu sua coluna. O que estava acontecendo? Nunca havia sentido aquilo antes.
- O que foi isso? Clarice – disse para si mesma – Não vá se meter em confusão...
Clarice sonhou muito naquela noite. Sonhou com o baile do dia seguinte, sonhou com Ilda Farrel gritando com ela e sonhou com David.
Acordou bem cedo e foi trabalhar. O tornozelo já havia melhorado.
Ela era professora na escolinha da fazenda.
Estava terminando a faculdade de língua portuguesa e ensinava as lições básicas para os filhos dos trabalhadores da fazenda, mais de trinta crianças entre seis e onze anos.
Trabalhava em dois turnos, mas como era sábado ela reunia todas as crianças para atividades extras e para tirar as dúvidas que os pequenos tinham.
Após a aula, foi até o lago e lembrou-se de quando era criança, das vezes que brincou com David ali.
Foi uma época muito feliz. Ela tinha doze anos e ele quatorze.
Sentou-se sob uma linda laranjeira e fechou os olhos.
- Por que temos que crescer? Por que nos separaram? Senti tanto a sua falta. Nunca tive outro amigo como você.
- Eu também não.
Clarice assustou-se e virou tão depressa que até derrubou um de seus livros na água.
- Droga era meu melhor livro.
- Eu pego pra você.
Pegou o livro e entregou-o pra ela.
- Obrigada. Mas, o que faz aqui?
- O mesmo que você: matando a saudade. Não sei como nunca nos encontramos aqui. Eu sempre vinha aqui na esperança de que você lembrasse que esse era nosso lugar favorito e viesse pra cá.
- Eu não saia de casa com medo de você aparecer por lá e não me encontrar. Hoje me deu uma saudade daquele tempo e tive que vir aqui.
- Que bom que hoje você veio. Como está o tornozelo?
- Está bem. E seus amigos?
- Estão conhecendo a fazenda com meu pai. Podemos conversar sem sermos interrompidos.
- Conversar sobre o quê? Não somos mais aquelas crianças. Crescemos, nossos mundos são diferentes agora, na verdade já eram naquela época, eu é que nunca havia percebido. Eu sou uma caipira e você um homem rico da cidade.
- Sempre fui rico e nunca se importou com isso. Por que se importa agora?
- Eu ouvi ontem você e seus amigos me chamarem de caipira e rirem de mim.
- Eu não fiz nada disso. Se tivesse prestado atenção teria me visto brigar com eles. Se você pensa que me tornei um playboy só porque fui para a cidade está enganada. Ainda sou aquele garoto que você conheceu.
- Eu não disse que você virou um playboy. Olhe lá vêm seus amigos.
- Droga! Nosso sossego acabou.
Uma ruiva estonteante chegou e abraçou David pela cintura.
- Se encontrando às escondidas, querido? Não é cortês de sua parte deixar seus convidados sozinhos, podemos nos perder.
- Vocês não estavam sozinhos, estavam com meu pai. Onde ele está?
- Dissemos a ele que podia voltar para a fazenda.
- Vocês são loucos? Sabem o tamanho disso aqui? Se por acaso se perdessem demoraríamos muito para achá-los.
- Você deveria estar conosco e não com uma caipira fedendo a porcos e galinhas. – Agrediu Ana.
Carlos e a outra moça começaram a rir.
- Não sou uma caipira fedendo a porcos e galinhas. Só porque moro aqui e amo este lugar não sou pior que vocês.
- É sim – disse Ana – É uma caipira que está se oferecendo para o filho do patrão através de uma amizade de oito anos atrás que nem existe mais.
- Olha moça, não vou discutir com você porque sou educada. Mas para encerrar nosso assunto, quem está se oferecendo para David é você. Você quer o dinheiro dele, eu não quero e nem preciso. Agora, se me derem licença, estou cansada porque trabalhei a manhã toda, coisa que vocês nem devem saber o que significa e preciso ir para casa. Tenho um baile para ir hoje à noite.
- Uiiii, a caipira tem vida social. Ela tem um baile. Me diga uma coisa, está falando do baile que os pais de David estão organizando?
- E se estivesse?
- Você tem roupas para ir a um evento como esse?
- Não tão caras e extravagantes como as suas, até mesmo por que eu tenho um gosto mais refinado e menos chamativo, mas sim, tenho roupas de festas, não que isso seja de sua conta. Para lhe informar, eu sou uma pessoa bem sociável, nas fazendas vizinhas fazem muitos bailes e sempre sou convidada. Não que isso também seja de sua conta. Até mais, e David, obrigada.
- Pelo quê? – David não estava entendendo o agradecimento.
- Por provar pra mim quem sou na sua vida, o que realmente significo pra você. Sua namorada tem razão, nossa amizade já não existe mais. Sua defesa foi valiosa.
- Clarice, eu...
- Não precisa falar mais nada. Agora eu tenho certeza David, de que nunca mais será como foi naquela época. Eu ainda acreditava que poderíamos ser amigos como fomos há oito anos, mas me enganei o tempo muda as pessoas. E você se tornou um rico homem da cidade e eu uma caipira fedendo a porcos e galinhas. Não sirvo mais para ser sua amiga, na verdade nunca servi por isso sua mãe te mandou pra longe daqui. E sabe, se você quisesse mesmo ter me visto nas outras vezes em que esteve aqui, teria ido até minha casa, mas nunca fez. Por isso, não me venha com essa baboseira de que vinha para o lago esperando que eu também viesse por que essa não cola. Eu demorei tempo demais para ver quem você realmente é. Foi um prazer revê-lo e foi triste saber que nosso passado não significa mais nada pra você, se é que algum dia significou alguma coisa. Bem eu já vou, não quero mais poluir o ar com meu fedor de porcos e galinhas. Meu fedor pode fazer mal para sua namorada.
- Clarice, espere, não é nada disso. Você está enganada.
Mas ela não parou.
Saiu de cabeça erguida e passos firmes, mesmo tendo lágrimas nos olhos e o coração destruído.
À noite, ficou em dúvida se deveria ou não ir ao baile.
Seus pais já estavam prontos para ir e ela ainda não se decidira
- Você vai ou não, filha?
- Ainda não sei, mãe. Estou em dúvida.
- Mas nós já estamos prontos.
- Vão indo, se eu resolver ir, eu ligo para o João, sei que ele vem me buscar.
- Tudo bem.
O baile já havia começado, pois ouvia as músicas.
Ainda em dúvida, foi até o quarto e abriu a porta do guarda roupas. Olhou todos os vestidos e escolheu um vermelho de seda que havia usado na formatura de sua amiga Cláudia.
Sabia que este vestido lhe caia muito bem.
Olhou-se no espelho e decidiu. Iria ao baile.
Ligou para seu amigo João e foi tomar banho.
No baile, David viu os pais de Clarice chegarem sozinhos e foi falar com eles.
- Seu Paulo, dona Maria, quanto tempo.
- Olá rapaz. Você está um belo rapagão.
- Que bom que puderam vir ao meu baile. E Clarice, não vem?
- Não sabemos. Ela ficou em casa decidindo se viria ou não.
- E se ela quiser vir, como virá? Ela tem um carro?
- Não. Até hoje ela não quis ter seu próprio carro, disse que não precisa.
- E como ela virá então?
- Se ela decidir vir, ela vai ligar para um amigo. Ele certamente a buscará, afinal ele quer namorá-la. Não perderia a oportunidade de ficar a sós com ela por nada.
- Que amigo é esse? – David ficou nervoso.
- João. Um amor de pessoa.
- João? Eu não me lembro dele.
- Ele veio morar aqui depois que você partiu. O pai dele é o capataz da fazenda. Ele e Clarice são muito amigos.
David não sabia o porquê, mas ficou com ciúme de Clarice sozinha com João.
- Se o senhor quiser, eu a busco.
- Não precisa David – disse Maria – Se ela resolver vir, o João traz ela e também você não pode deixar sua namorada sozinha. Aproveite sua festa.
- Dona Maria, Ana não é minha namorada é apenas uma amiga da faculdade.
- Sei...
- É verdade. Não sei por que todos acham que ela é minha namorada.
- Talvez por que sua mãe tenha dito que esse baile seria para apresentar sua namorada a todos.
- Ela fez isso?
- Sim.
- Mas não é verdade.
- Isso não é de nossa conta. Você é maior de idade e namora quem quiser. Não precisa ficar nos dando explicações. Agora vá se divertir olhe lá, sua namorada parece estar chateada por estar sozinha.
- Eu já disse que ela não é minha namorada. Mas deixa pra lá. Divirtam-se vocês também. Espero que Clarice venha.
Sem obter resposta, David foi até outro grupo de trabalhadores que acabavam de chegar.
Do outro lado da fazenda, Clarice acabava de se arrumar para o baile.
Havia feito uma cuidadosa maquiagem e prendera o cabelo em uma trança. Estava linda.
João a esperava na sala e quando a viu sair do quarto ficou boquiaberto.
- Posso saber pra quem você se arrumou assim? Pra mim certamente é que não foi.
- Deixa de ser bobo. Eu nem estou tão bem assim.
- Garota, não há espelhos em seu quarto? Você parece um anjo de tão bela.
- Pare com isso João, assim me deixa encabulada.
- Mas Clarice, o que posso fazer se você está radiante? Devo mentir?
- Se você está dizendo que estou bem, eu acredito. Agora vamos ou perderemos o baile. Obrigada por ter vindo me buscar eu ainda não havia decidido se iria ou não.
- É um prazer poder ter você do meu lado nem que seja por alguns minutos.
- Oh João, você é sempre tão amável comigo, não mereço isso tudo.
- Você merece isso e muito mais. Você sabe como me sinto a seu respeito.
- João, não vamos falar sobre isso hoje. Vamos nos divertir como sempre fizemos quando saímos juntos.
- Tudo bem.
Cerca de dez minutos depois, João estacionava sua Toyota na frente do salão de festas da fazenda.
Desceu rapidamente e abriu a porta para ela, dando a mão para ajudá-la a descer.
- Um perfeito cavalheiro.
- Para uma perfeita dama eu não poderia ser menos que isso.
Clarice deu um tapinha carinhoso no braço dele que pegou sua mão.
Ter a mão dele na sua a deixava segura, pois sabia que iria enfrentar os comentários maldosos dos amigos de David e as grosserias de Ilda.
- Você parece nervosa. Posso saber por quê?
- Você sabe que eu e David fomos muito amigos e a mãe dele me proibiu de vir ao baile hoje, por isso a minha dúvida quanto a vir ou não e depois, eu conheci os amigos dele, um bando de gente esnobe que se acha superior a todos nós.
- Não se preocupe, você estará segura comigo.
- Obrigada por estar me dando essa força. É bom saber que posso contar com você.
- Pronta?
- Sim.
- Então vamos lá.
Chegou à porta do salão e de cara viu David num canto tomando cerveja com Carlos.
Eles ainda não a tinham visto quando ela entrou no salão, mas ao ouvir o comentário maldoso de Ana, ambos olharam para a porta e viram Clarice.
Ambos ficaram sem ação ao ver como ela estava bela. Ana olhou-a com ódio e Ilda Farrel foi furiosa cumprimentá-la.
- Você não devia ter vindo eu lhe avisei o que poderia acontecer se você viesse.
- Não tenho medo de você.
- Pois deveria.
- Ilda – disse João – Ela é minha acompanhante, portanto, cuidado como fala com ela.
- Você não deveria falar assim comigo, sou patroa de seus pais.
- Você disse bem, de meus pais, não minha. Você é quem deve ter cuidado ao falar com Clarice, pelo menos enquanto eu estiver por perto.
- Vocês me pagarão por essa afronta.
- Estaremos esperando. Vamos ver quem vence esse jogo. Só lhe aviso, Ilda Farrel, você não vai magoar Clarice, eu não deixarei. Agora, nos dê licença, vamos dançar.
Saiu levando Clarice consigo.
- Obrigada João, mas você não deveria ter enfrentado a bruxa.
- Eu não tenho medo dela. Não se preocupe ela nada poderá fazer contra meus pais e te explico o motivo. Meu pai é sócio da fazenda, só que ninguém sabe. Ele tem quarenta e nove por cento disso aqui. Marcelo pediu para ele não contar por que sabia como Ilda iria reagir e ele tinha razão. Então, não se preocupe, você está segura comigo.
- Você não existe – abraçou-o – Que bom que é meu amigo.
- Eu queria ser bem mais do que isso e você sabe disso.
- João, este não é o lugar e esta não é a hora para falarmos sobre isso.
- Tudo bem. Vamos dançar.
Dançou uma sequência de três músicas com João e foi em direção a um grupo de amigos.
Olhou de relance onde David e seus amigos estavam, ele estava magnífico, com um jeans verde abacate e uma camisa polo creme, bem diferente do seu amigo que vestia uma calça social azul escuro e uma camisa branca também social.
- Mas – pensou – Ele nem me notou.
Quando chegou ao grupo de amigos, foi recebida com um caloroso assovio.
Márcio, um de seus melhores amigos e namorado de Daiane, sua melhor amiga, foi ao seu encontro.
- Você está linda. Pra quem você se produziu assim? Não foi pro João, isso eu tenho certeza.
- Foi o que eu falei a ela.
- Parem seus bobos. Eu só quis me arrumar um pouquinho mais. Veja a Daiane, ela está linda também, até mais linda que eu.
- Mas ela tem pra quem se arrumar: eu.
- Ei, você vai deixar de monopolizar minha amiga?
- Ela diz isso, mas na verdade está com ciúme de mim...
- Como você é bobo, Márcio. A Daiane sabe que não precisa e nem deve ter ciúme de mim. Ela sabe que não sou do tipo que rouba namorado de amiga.
- Todos sabemos quanto você é fiel com seus princípios.
- Que bom.
- Mas escutem vocês dois – disse Daiane – Vocês vieram aqui pra conversar ou pra se divertir? Vamos dançar?
Mauro e Pamela, o outro casal de amigos foi dançar e Daiane ficou na dúvida se deixava ou não Clarice sozinha.
- Ei, podem ir dançar, daqui a pouco eu e João iremos também. Não se preocupem comigo, podem ir tranquilos.
Enquanto os amigos foram para a pista, João viu um grupo de amigos do outro lado do salão e foi até eles, Clarice não quis ir.
Ao se ver sozinha, Clarice não conseguiu se controlar e olhou para onde David estava. Ele também olhava para ela.
Vendo que ela estava sozinha, David começou a ir na direção dela quando foi interrompido por Ana.
- Aonde pensa que vai?
- Vou cumprimentar Clarice, por quê?
- Mas não vai mesmo. Você tem que ficar aqui comigo.
Clarice viu tudo e sorriu para David, acenando a cabeça.
A música acabou e os amigos de Clarice voltaram.
- A próxima eu danço com você.
- Só se eu permitir – disse Daiane – E é claro que eu permito.
- Puxa, viu só? Eu tenho que pedir permissão para dançar com uma velha amiga.
- Ei – disse Clarice – Amiga sim, velha não.
Todos riram.
Uma nova música começou a tocar e Márcio parou na frente de Clarice, fez uma reverência e pegou sua mão.
- Me concede a honra desta dança, senhorita?
- Com um pedido desse jeito, não tem como recusar.
Saíram rodopiando pelo salão.
Mesmo dançando, Clarice não conseguia desviar os olhos de David.
Quando a música parou, o casal voltou para junto dos demais.
- Eu vi bem. Não gostei da proximidade dos dois. – disse Daiane com uma careta. – Não permitirei mais que dance com ela.
- Melhor com ela do que com uma maluquinha qualquer. E, amor, você sabe que só tenho olhos para você... Para ela – apontou uma moça que passava – Para ela, para todas.
- Tem certeza?
- Tenho sim. Ai! Assim você me deixa todo marcado.
- E de onde veio esse tem muito mais se você não se comportar.
Todos riram.
- Sabe pessoal, eu me arrependeria muito se tivesse deixado de vir. Estou me divertindo muito.
- Por que você deixaria de vir ao baile?
- A bruxa ordenou que eu não viesse, tem medo de uma reaproximação minha e de David, mas ela não tem o que temer, ele nem sabe que eu existo. Já estou aqui há algum tempo e ele nem veio me cumprimentar.
- Mas a noite é longa e ele ainda pode vir te cumprimentar. Ei olhe, lá está vindo ele.
- Por favor, Márcio vamos dançar, não quero falar com ele - o amigo negou o convite – E você Mauro, dança comigo?
- Clarice, você tem que enfrentar seus temores.
- Mas eu não o temo, eu só não quero falar com ele agora.
- Tudo bem. Vamos.
Passaram por David já dançando. Ele fez menção de falar alguma coisa, mas desistiu. Colocou a mão na cabeça desolado. Foi então falar com Daiane.
- Oi, não lembro muito bem de você, mas deve ser a Daiane.
- Sim, sou eu. Já faz tempo que não nos vemos.
- É. Será que você pode me explicar por que a Clarice está fugindo de mim?
- Ela não está fugindo, está dançando com um amigo.
- E parece-me que este amigo tem namorada. – Olhou para Pamela – Você não se importa?
- Claro que não. Quando saímos juntos, sempre trocamos de parceiros para as danças. Além disso, confio muito nela e nele. Somos amigos há muitos anos.
- A música está acabando. Agora falo com ela.
Clarice, vendo que David estava conversando com Daiane, pediu a Mauro para dançarem mais uma música.
- Me conduza até aquele grupo – apontou com a cabeça o lado oposto ao salão – É minha prima e alguns amigos dela. E o João também está lá. Deixe-me lá.
- Você sabe o que está fazendo?
- Sei. Ainda não quero falar com David.
- Por quê?
- Ele me magoou muito ontem e hoje de manhã.
- Vocês já se encontraram antes? O que ele fez?
- Ele deixou seus amigos rirem de mim, me chamarem de caipira fedida a porcos e galinhas.
- Ele fez isso?
- Ele não riu de mim, mas não impediu que os outros rissem.
- Tudo bem. Vamos lá.
- Diga para o pessoal virem pra cá conosco.
- Vou falar com eles, mas não lhe garanto nada.
- Tudo bem, assim que der eu volto pra lá.
- Bem chegamos. Agora vou lá.
- Obrigada Mauro.
Clarice chegou ao grupo que conversava animadamente.
- Oi, não tinha visto vocês.
- Não faz muito que chegamos.
João se aproximou dela e sussurrou:
- Terei a chance de dançar com a moça mais linda do baile mais uma vez?
- Claro que sim.
No grupo, além de sua prima, alguns amigos e João, havia também Pedro, seu ex-namorado.
- Cla, você quer uma cerveja?
- Adoraria. João, você busca pra mim?
- Claro, minha princesa.
Assim que João saiu, Aline, sua prima, foi falar com ela.
- Você viu quem veio para lhe ver?
- Está falando de Pedro?
- Sim.
- Acho muito difícil ele ter vindo para me ver. Não o vejo há dois anos. Ele já deve estar até casado.
- Claro que não. Deixa de ser boba. Aproveita para relembrar os velhos tempos.
- Aline, ele é passado. Se eu for dar uma chance para alguém, será para o João. Ele anda me pedindo uma chance há muito tempo.
- Você que sabe. Olhe quem vem vindo aqui. O anfitrião em pessoa.
- Não me diga que David está vindo aqui?
- Se você não quer que eu diga, eu não digo, mas ele está vindo.
Clarice olhou para o bar e viu João conversando com um amigo.
Seu salvador não estava por perto teria que enfrentar David.
Ou não.
Chegou perto de Pedro e abraçou-o.
- Olá. Quanto tempo. Você está bonito.
- Digo o mesmo sobre você.
- Quer dançar?
- Adoraria.
Quando estavam indo para a pista, David parou bem na frente deles.
- Olá David. Como você está? – tentou ser o mais natural possível – E seus amigos, como estão?
- Bem.
- Devem estar sentindo muito cheiro de porcos e galinhas aqui, já que a maioria aqui são caipiras fedidos.
- Clarice, precisamos conversar.
- Bem, acho que notou que íamos dançar. Depois conversaremos.
- Por que está fugindo de mim?
- Eu, fugindo de você? Não, está enganado. Seu problema é que você chega quando estou indo dançar.
- Tudo bem. Vá dançar. Pode dançar uma, duas, dez músicas que eu te esperarei aqui, e, se voltar a fugir, vou atrás de você até parar e conversar comigo.
- Deixe-me em paz. Vá ficar com Ana, ela parece perdida em meio a tantos caipiras fedidos.
Clarice e Pedro saíram dançando.
Dançaram várias músicas até que não aguentaram mais e voltaram rindo.
Para surpresa de Clarice, David estava esperando por ela.
- Ainda está aqui?
- Eu disse que esperaria até você cansar. Eu preciso mesmo falar com você. Venha comigo.
- Tudo bem.
Ele pegou em sua mão e ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Levou-a até o outro lado do salão onde estavam Ana, Carlos e uma moça que ela não sabia o nome, mas sabia que havia vindo com David.
- Por que está me levando lá? Para rirem de mim novamente?
- Não. Logo você saberá.
Parou na frente dos amigos, mas não soltou a mão de Clarice, o que fez Ana lançar-lhe um olhar de ódio.
- Pronto – disse – Ela está aqui. Agora desculpem-se pela grosseria de ontem e de hoje de manhã. Você primeiro Ana.
- Não temos que nos desculpar. Ela é uma caipira fedida mesmo.
-Ou começa a se desculpar ou mando você de volta para a cidade amanhã bem cedo.
- Só me desculpo se ela me der um beijinho. Está muito sexy neste vestido. Está se oferecendo pra quem?
- Carlos, desculpe-se por essa grosseria.
- Não precisa me defender. – Clarice aproximou-se de Carlos – Se eu pretendo me oferecer, certamente não é para você, um playboyzinho fútil e bêbado que se acha o centro do universo só porque cursa Medicina e mora na cidade grande. Você não merece nem olhar para mim. E, tenho certeza que se saíssemos daqui agora, você dormiria antes de abrir a calça.
- Escute aqui sua caipira fedida...
- Escute aqui você, seu metido a esperto. Não olhe pra mim, não me dirija a palavra e se estivermos na rua, na mesma calçada, mude de direção. Você não passa de um nada. – Virou para David. – Valeu a tentativa, mas você não merece mais minha atenção.
Virou-se e saiu em direção ao grupo de amigos.
David olhou furioso para o amigo.
- Você não devia ter falado com ela daquele jeito. Ela é uma moça maravilhosa. Sim, ela é daqui da fazenda, mas isso não a torna uma pessoa diferente de nós.
- David, você prefere ela a nós, seus amigos?
- Quando eu conheci vocês, ela já era minha amiga, e não vai ser agora que vai deixar de ser.
- Se você prefere a amizade dela à nossa, tudo bem. Vá lá com ela que partiremos ainda hoje.
- Carlos, não é isso que eu quero. Eu quero que vocês a conheçam e percebam o quanto ela é maravilhosa, o quanto ela é querida.
- Quer introduzi-la no nosso mundo?
- Que nosso mundo? Há um mundo só, e ela faz parte dele.
- David, ela é de outro nível social.
- Carlos que bobagem é essa? Você nunca foi assim.
- Não meu caro, eu sempre fui assim e você também era até ver essa caipira.
- Você tem toda razão. Somos de mundos diferentes. Eu pertenço ao mundo dela, e não ao seu.
Virou as costas e saiu em direção ao grupo de Clarice.
Ana ainda chamou-o, mas ele acenou um tchau sem sequer se voltar para ela.
Ilda Farrel viu tudo e foi até o filho.
- O que você pensa que está fazendo?
- Indo falar com uma velha amiga.
- David, volte para seus amigos.
- Eles não são meus amigos, na verdade eu nem os conheço.
- Como assim?
- Pensei que eles fossem diferentes, mas vi que estava enganado.
- Meu filho, não se atreva a ir falar com aquelazinha.
- Aquelazinha, mãe, é minha melhor amiga, ou melhor, foi. Não sei se ela ainda vai querer falar comigo depois do que eles fizeram com ela.
- David, eu te ordeno que pare.
- Mãe, eu sou bem grandinho. Acho que já posso escolher minhas amizades. Agora, por favor, me deixe em paz, e faça o mesmo com Clarice.
David deixou a mãe falando sozinha e foi até Clarice.
- Clarice, podemos conversar?
- David, não insista.
- Por favor. É importante. Venha dançar comigo. Depois eu juro que te deixo em paz.
João que estava próximo pegou na mão de Clarice.
- Você só sai daqui se quiser. Quer que eu o tire daqui?
- Não João. Eu vou falar com ele. Não se preocupe. Se eu precisar eu te chamo.
- João, não se preocupe, não vou roubar sua namorada. - Olhou para Clarice – Vamos dançar?
Clarice pegou a mão que David lhe estendia.
- Tudo bem – olhou para João – Não se preocupe.
Saíram juntos de mãos dadas, dançando pelo salão.
Subitamente, para Clarice o tempo parou, só via David, naquele momento não havia mais ninguém no salão. Nem reparou os olhares que Ilda Farrel e Ana lhe lançavam.
Ela estava extremamente feliz.