Na maior cidade dentro do território humano, chamada Valiska, localizada próxima à fronteira que separa o território dos lobos, estava presente a mais alta patente do clero na principal Basílica, todos reunidos com seus fiéis para escutarem o tão esperado discurso do Papa João César.
Aos gritos e palmas de euforia dos fiéis, ele apareceu sentado em uma cadeira de ouro sendo carregado pelos seus escravos em cada lado daquela cadeira pesada enquanto uma escrava mulata de corpo curvilíneo caminhava ao lado da cadeira luxuosa do papa com uma bandeja na mão, oferecendo-lhe frutas.
Apesar de todo luxo, euforia e alegria ao seu redor, o papa não estava contente com os acontecimentos dessas semanas e ele precisava da ajuda do seu povo para rever e reparar os absurdos causados por aqueles que antes eram seus aliados, no entanto quebraram o pacto feito há milhares de anos por seus antepassados e se juntaram com o ser amaldiçoado que não tem alma e que carrega a morte para onde quer que vá, o Dragão Vermelho Morto, ou como o apelidaram: Drácula, O Imperador Amaldiçoado.
Dentre os principais presentes e os fiéis que possuíam títulos importantes, escravos e terras, faltava somente uma pessoa que por direito deveria também estar presente e ser muito respeitado por todos, abaixo somente do papa. O mais novo nomeado rei Juliano III, filho de Juliano II que morreu da doença que foi jogada pela bruxa. A bruxa! A amante do Drácula! Oooh céus! O humor do papa tornava-se mais sombrio quando as lembranças o assombravam.
Mas o papa João César não se importava com a presença daquele rei que ele não gostava, que ele não queria e que não teria sua bênção. Aquele moleque imprestável está agora mesmo bebendo e comendo da mesma comida com aqueles demônios, seres sem luz e se ajoelhando, jurando lealdade a uma ESCRAVA! Como uma escrava se tornou rainha? Que ridículo! Inadmissível! Repugnante!
Ele olhou com nojo para sua escrava mulata que permanecia de cabeça baixa com a bandeja na mão esperando alguma ordem do seu senhor.
Daqui a pouco essa escrava vai se achar digna de sentar-se em uma cadeira ao invés do chão ou comer algo que não seja as sobras da minha comida, pensou.
Sua cadeira foi depositada na superfície e os escravos posicionaram-se atrás com suas cabeças também baixa em submissão. A vontade que o João César teve em sorrir foi muita. Esses escravos que são iguais cavalos, só servem para carregarem peso, vão querer aprender a ler? A imagem deles segurando algum livro veio à mente e nossa! Que imagem péssima!
Quem aquela mulher pensa que é para criar uma lei ridícula exigindo a abolição da escravatura? E ainda querer se meter nos assuntos dos humanos depois de matar o verdadeiro rei? Ele sabe quem ela é! E precisa alertar ao povo antes que seja tarde demais! Ela é a filha do demônio que veio dominar suas terras e corromper sua fé! Mesmo que lá no fundo o papa saiba que ela é somente uma pessoa de outra espécie, mas ele irá falar para todos o que inventou porque as pessoas nunca o questionariam e o ajudariam a pôr seus planos em prática.
"Devemos nos livrar desse mal a queimando viva na fogueira para que sua alma volte ao lugar de onde nunca devia ter saído: Do inferno!"
Ele citou uma parte do seu discurso em pensamento.
João César, carrancudo, levantou-se de sua cadeira e se posicionou atrás do altar de madeira, então todos presentes ficaram em silêncio com os olhos vidrados naquele senhor de idade usando batinas pesadas e sagradas, atrás dele estava a imagem do Senhor.
Ele puxou o ar pelos pulmões preparando-se para começar a falar seu discurso de ódio contra aquela de berço inferior que matou o rei João I na Batalha da Floresta Vermelha e que agora se denominou rainha e soberana dos humanos.
Uma mulher liderando os homens?! Patético! Uma escrava rainha?! Ridículo!
João César controlou seu mau humor, mas antes que começasse a falar, foi interrompido pelo barulho da imensa porta da Basílica se abrindo.
Todos se viraram para ver quem seria essa pessoa desrespeitosa que abriu a porta atrapalhando o discurso do homem que segurava a mão do Deus dos humanos e com seu poder divino, abençoa as pessoas privilegiadas para que tenham seus lugares garantidos no céu. Oras, eles são ricos e nobres, são merecedores de tal bênção, ao contrário dos miseráveis que só prestam para servi-los.
O rosto do papa se contorceu em fúria ao reconhecer a pessoa que entrou na Basílica, aquela mulher maldita que tirou seu sono, que o atormentou até nos seus banhos aromatizados ao qual ele faz uma vez ao mês, que está causando todo o seu desgosto e caos desde o dia em que quebrou suas próprias correntes.
Maldita! Mulher Maldita! Ardilosa! Como ela ousa entrar na aqui?
Todos ficaram assustados com a presença daquela pessoa que, apesar de bela, tinha uma aparência peculiar por causa da cor dos seus olhos vermelhos, mas ao invés disso ser o maior destaque entre eles, o que mais os impressionam são suas vestes.
Calças? Uma mulher usando calças?
Sim! Ela está usando calças, botas, uma blusa com capa comprida em forma de "V", seu cabelo longo e solto e...
– Os lábios dela são vermelhos! – Uma lady arfou aterrorizada quando disse. Essa mulher dos lábios vermelhos, cabelos e roupas vermelhas, ela usa a cor do diabo!
Ninguém reconheceu essa mulher, ninguém, além do papa, sabia quem ela era e devido à cor dos seus olhos, roupas e lábios, os fiéis logo deduziram:
– UMA BRUXA! – Um homem gritou. Todos se afastaram assustados.
João César gostou dessa reação, assim seria mais fácil convencer esse povo ignorante a matarem ela.
Eu sou um homem abençoado, pensou.
Escondendo o seu semblante de alegria, ele logo incorporou o seu papel de homem protetor do seu povo.
Enquanto a mulher caminhava séria com passos pesados e lentos em direção ao papa, ele finalmente soltou suas primeiras palavras desde que tinha chegado:
– Como se atreve a entrar na casa de Deus? – Ele falou alto e autoritário.
– Casa de Deus? – A mulher perguntou num tom normal, parando antes dos degraus da escada que dava acesso ao altar.
– Aqui é um local sagrado! Nenhum seguidor do Demônio tem poder dentro da casa do Senhor!
A mulher zombou.
– Aqui não é a casa de nenhum Deus, é só um local de reuniões entre os humanos que se acham superiores e melhores que seu próprio Deus.
– ALGUÉM PEGE ESSA BRUXA! ELA DEVE SER QUEIMADA NA FOGUEIRA PELA SUA BLASFÊMIA! – Um lorde gritou.
Mas assim que se calou, a mulher virou seu pescoço para ele de forma desumana e grotesca, seu pescoço esticou-se além do normal, seu rosto quase ficou todo para trás e a lateral do rosto estava quase batendo nas costas.
De boca fechada, ela deu um grunhido demoníaco para alertar quem quer que se aproxime dela. O ódio nos olhos daquela mulher era surreal.
Todos se encolheram horrorizados, já havia algumas pessoas chorando, outras ajoelhadas orando, mesmo assim, nenhum tentou fugir daquele lugar, pois eles sabiam que tinha alguém para protegê-los contra aquele mal. O corpo do João César começou a se tremer, ele nunca viu um lobisomem contorcer o pescoço daquela forma, mas ele manteve o mesmo tom de antes.
Ela voltou a encarar o homem em pé ao altar.
– É isso que você os ensina? Utiliza sua palavra como única e verdadeira sem lhes dar o direito de questionar? De saber a verdade? Todos vocês condenam alguém pela cor de suas vestes? – Ela perguntou mais séria.
– O vermelho é a cor do Diabo! De um espírito sem luz! Não há o que questionar, eu sou a verdade, eu seguro a mão de Deus aonde quer que vá e sou abençoado por Ele!
Ela riu, mas o som de sua risada era mais grotesco e havia duas vozes rindo ao mesmo tempo.
– É mesmo? – Zombou novamente. – Neste lugar que é dito como a casa de Deus, só há um obstáculo O impedindo de entrar em sua própria casa... – Ela pausou sua fala, e suas próximas palavras saíram duas vozes, uma feminina e outra demoníaca:
– Os Humanos.
A mulher com o rosto contorcido de ódio e desprezo começou a subir os degraus lentamente em direção ao João César.
– Vocês destruíram tudo o que me pertencia! – Ela falava com suas múltiplas vozes. – Corromperam a fé e os ensinamentos do seu Deus em busca de riqueza e poder! Nada que fiz para detê-los foi o suficiente! Nada! – Disse entredentes. – Nem as mortes que causei com a doença foram capazes de destruir vocês! Vocês são as verdadeiras pragas! Que destroem e corrompem tudo por onde quer que passam!
Ela parou em frente ao papa, com apenas o altar entre eles.
O papa viu algo no rosto daquela mulher e subitamente percebeu uma coisa, ele ficou estupefato! Aquilo não era normal!
– O... o que você é? – João perguntou, horrorizado.
Ela curvou seus lábios para cima dando um sorrisinho.
– Eu sou aquele que trará paz novamente para este mundo! Que governará novamente! Eu sou a sua extinção!
– Oooh Meu Deus... – Ele sussurrou.
– Usando o nome Dele em vão? Em sua própria casa? – A mulher riu e foi dando a volta ao altar se aproximando. Ela parou em frente a ele com agora nada os separando, ambos estavam de lado para o resto das pessoas que não escutavam as conversas entre aqueles dois, então com um sorriso no rosto a mulher disse:
– Seu deus não está aqui hoje, João, mas eu sim!
Ela o segurou, e com sons grotescos, começou a abrir sua boca lentamente, até que sua mandíbula deslocou-se, seus dentes pareciam ser de tubarões, e sua boca ficou maior que qualquer boca jamais vista. De repente, a mulher mordeu a face daquele homem que gritava desesperado se debatendo, até que ela puxou a carne e os ossos do rosto, matando-o.
Todos gritavam e começaram a correr desesperados para a porta de saída, no entanto ela estava trancada. A mulher ainda ao lado do altar com o rosto cheio de sangue estava rindo dos humanos que tentavam fugir.
Horas antes...
Todos estavam se divertindo no grande salão de festas dentro do castelo, a maioria eram vampiros, depois dos lobisomens que após a junção das duas tribos, os companheiros escolhidos pela Deusa da Lua finalmente se encontraram, o que era algo raro de acontecer, agora se tornou natural. Trazendo muitos benefícios, pois os maridos infiéis serão mais devotos por causa do vínculo, e nossa raça iria se evoluir.
No meio da pista de dança estavam meus casais favoritos: princesa e futura Gama Clara dançando com seu companheiro Marcus e do outro lado vi Maria Elena com o Drakon, ela pode até negar, mas o ama demais para conseguir evitá-lo.
– Você me daria esta hora para dançar comigo? – Um sorriso genuíno se formou no meu rosto quando escutei a voz dele, Alec.
Segurei sua mão estendida, peguei na lateral do meu vestido longo, levantando um pouco a bainha para caminhar no centro da pista. Ficamos de frente um para o outro, senti sua mão na minha cintura enquanto eu depositava a minha no seu ombro.
Alec me puxou para mais perto do seu corpo e eu senti seu cheiro de almíscar preto com baunilha, cheiro esse que ficou dias impregnado no meu corpo antes de sumir. Esse cheiro me trouxe lembranças agradáveis das noites no jardim.
Começamos a dançar e eu me permiti relaxar um pouco nos seus braços depois de mais de um mês tensa. Nunca entendi como o Alec sempre me fazia sentir segura, em como ele conseguia me transmitir confiança, coragem e afeto. Ele é um verdadeiro cavalheiro, tão gentil, tão romântico e lindo. Lindíssimo!
– Parece que não te vejo há meses. – Ele sussurrou no meu ouvido. Nessas últimas semanas nos afastamos, só nos víamos para falar sobre negócios e eu nunca estive tão ocupada na vida depois que assumi a supremacia.
– Também tenho a mesma impressão.
– Muitas obrigações? – Perguntou.
– Sempre tenho algo para resolver, não paro nunca...
– Você sabe que aquele jardim ainda lhe pertence, pode ir lá sempre que quiser. – Sorri.
– Amanhã então. – Disse.
– Talvez eu me perca na aldeia e sem querer apareça no jardim também. – Rimos.
– Tomara que se perca ao menos com alguma comida na mão. – Falei. Rimos novamente.
Ainda seguindo o ritmo da música, nos abraçamos mais forte.
Nossa dança foi interrompida depois que pediram minha presença para tratar sobre alguns assuntos com o irmão da Clara, o novo rei Juliano III. Não conversei com ele, pois quem ficou responsável por tudo foi o Betha Marcus, mas agora os líderes religiosos do território dos humanos estão exigindo explicações minhas, eles não aceitam que eu esteja na liderança e também me acusam de quebrar o pacto feito pelo antigo Supremo Alfa e sua companheira humana. Além disso, eles estão revoltados por ter o Drakon ao meu lado liderando junto com o Alec, eles dois são os segundos no comando.
Todos já estavam me esperando quando cheguei a uma sala privada que tinha uma mesa oval gigante no centro. Todos baixaram a cabeça como reverência enquanto eu caminhava para a principal cadeira depositada na ponta da mesa.
– Podem se sentar. – Autorizei quando já estava sentada de pernas cruzadas.
Augusto, me conselheiro, estava do meu lado direito, Alec e Drakon logo e seguida um de frente para o outro, o rei Juliano III permanecia ao lado de Marcus, da posição oposta que a do Drakon. Os outros Bethas, um amigo importante do Drakon em seus devidos lugares e um representante da igreja, pois o papa se recusa a vir aqui para conversar comigo.
Ainda calada, olhei para o Augusto, afirmei um pouco com a cabeça dando-lhe autorização de começar a falar.
– Os boatos são verdadeiros. – O Bispo, representante do papa, disse sarcasticamente olhando para mim. – Vocês realmente se juntaram com o filho do Demônio. – Falou encarando o Drakon com desprezo.
– Por favor, vamos ter uma conversa em paz, sem nenhuma acusação ou insulto. – Augusto falou.
– Insulto são vocês se juntarem com o mal e ainda exigirem que nos ajoelhemos a uma escrava, permitindo que ela aplique leis infundadas. – Todos ficaram surpresos com as palavras dele contra mim, mas ninguém se atreveu a dizer ou fazer nada. Peguei meu cálice e tomei um pouco do meu vinho enquanto observava de canto de olho o rei Juliano. Ele estava muito tenso.
Drakon continuava sério focado em algo e de braços cruzados, parecia estar desligado da reunião.
Balancei a cabeça novamente para que Augusto continuasse a conversa.
– Todos nós juramos lealdade à Suprema Karolina, o rei Juliano III também se ajoelhou e a declarou sua rainha e soberana após ele ter sido libertado com a nossa ajuda, pois um usurpador estava ocupando seu lugar e vocês não fizeram nada para detê-lo. – Augusto falou num tom mais alto, indicando seu início de raiva por terem me insultado.
O bispo engoliu seco com essa afirmativa, todos sabíamos que eles não queriam o Juliano como rei.
– Mas isso não justifica a união dos lobisomens com os seres sem luz. – Ele encarou novamente o Drakon que permanecia distante de tudo.
– O que vocês consideram como seres sem luz? – Perguntei depositando o cálice de ouro na mesa, todos me olharam, até o Drakon prestou atenção na conversa.
– Isso é algum tipo de piada? – O bispo perguntou ironicamente.
– Não tenho tempo para brincadeiras, bispo. – Continuei séria e falando normalmente.
Ele limpou a garganta.
– Seres sem luz são aqueles que não têm a bênção do nosso Deus, que corromperam sua fé e agora trabalham para o Diabo.
– Como sabem quem é um ser sem luz?
– Não preciso me explicar para você, eu sou um bispo e posso lhe garantir que percebo quando alguém é corrompido.
Drakon deu um sorrisinho de lado, encarando a mesa.
– Huummm... Entendo... – Falei. – Então, de acordo com vocês estamos ao lado dos vampiros que são seres sem luz o que nos torna corrompidos também, e que eu não tenho direito de usar essa coroa por ter sido escrava durante cinco anos, quer dizer que só quem é digno de bênção são os de classes mais altas!?
– Não foi isso que disse.
– Mas é o que está pensando. E, assim como vocês sabem quem é corrompido ou não, eu também sei quem está mentindo. E ao que eu me informei, na sua religião mentir é pecado.
Todos ficaram calados.
– Avise ao seu líder que irei para Valiska daqui a duas semanas e é melhor ele comparecer ao meu chamado ou não serei tão gentil assim. – Continuei séria, o encarando.
– Você está nos ameaçando? – Ele perguntou zangado.
– Não espere que uma rainha que foi insultada dentro da sua própria casa aceite essas ofensas de cabeça baixa apenas por ser mulher e ex-escrava. – Me levantei. – Volte agora para Valiska e faça os preparativos, e é bom que meu povo seja bem tratado ou mandarei o líder dos seres sem luz fazer uma visitinha pessoalmente ao papa com seu exército de vampiros. – Drakon alargou o sorriso.
– Você não pode fazer isso! – O bispo falou estupefato.
– E quem vai me impedir? Você? – Perguntei.
Comecei a caminhar para a saída em passos apressados.
– Juliano e Marcus para o meu escritório agora! – Ordenei sem levantar o timbre da minha voz, não preciso disso.
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Sentada na cadeira atrás da mesa na minha sala privada, eu respirava fundo controlando minhas emoções que me atormentavam desde a coroação. Essa raiva... Estou com muita raiva! Meus olhos começaram a brilhar um pouco.
– Não tenha medo, ela vai perceber... – Marcus sussurrou atrás da porta antes de entrar, mas eu escutei. A porta se abriu e os dois que convoquei pararam no meio da sala de frente para mim.
– Desculpe pelas ofensas do bispo, minha rainha. – Juliano se ajoelhou enquanto dizia. Ele se tremia todo e o Marcus permaneceu calado, mas seu coração acelerou quando ele viu minha raiva no brilho dos olhos.
– Por que está me pedindo desculpas se não foi você quem me ofendeu? – Mantive-me calma, mas meus punhos estavam fechados embaixo da mesa.
Continuei falando antes de ele responder.
– Levante-se e sentem-se. – Eles obedeceram. Juliano ficou de cabeça baixa.
Ri baixinho dando um pequeno suspiro.
– Você se parece com ela. A Clara também costumava ficar de cabeça baixa enquanto falava comigo e teimava em me chamar de senhora, mesmo eu odiando esse nome. Diferente de quando a conheci, eu não estava com tanta pressão como estou agora e a minha única responsabilidade era em cuidar de uma criança com apenas cinco anos. Sem marido, sem um companheiro para nos proteger e cuidar de nós duas. – Alarguei meu sorriso. – Ao contrário, o pai da minha filha era o homem que eu mais temia e fazia de tudo para fugir dele, mas aquele homem era tão teimoso, louco e não pensava antes de agir, nem uma estaca no seu coração fez com que eu me livrasse dele. – Engoli seco. Marcus ficou triste e o Juliano escutava de cabeça baixa.
Ri ironicamente.
– Vocês chamam de seres sem luz aqueles que seguem o Diabo, estou começando a achar que o Lúcius é pior que o próprio Demônio, já que nem o inferno o quer.
Meu sorriso falso morreu. Fiquei encarando o Juliano cabisbaixo. Depositei minha mão direita na mesa, aberta.
– A próxima vez que você continuar de cabeça baixa enquanto eu falo com você, arrancarei sua cabeça do pescoço. – Falei num tom mais zangado. Ambos olharam para mim assustados. Marcus nem tanto porque já era acostumado com isso, claro, passou anos servindo ao Lúcius, mas ele franziu o cenho, confuso com a minha reação, nem sei por que disse isso.
– Des-Desculpe, minha rainha. – Gaguejou. Respirei fundo.
– Eu sei que você está com medo já que passou anos preso sem ver a luz do dia, não consigo imaginar toda a dor que sentiu nas mãos do seu tio traidor, mas agora você é um rei e precisa se comportar como tal. Você passou a maior parte da sua vida na corte como um príncipe estudando e aprendendo, quero que ponha em prática todos os ensinamentos do seu pai e traga paz e união ao seu povo. Com a minha ajuda, você conseguirá ter o respeito e amor das pessoas novamente, assim poderemos criar um mundo melhor para todos, sem que elas sejam apedrejadas ou criticadas por pessoas que se acham santas.
– Sim, minha rainha. – Falou ainda com medo.
– Juliano, eu já fui escrava antes e sei como é ter medo de alguém, mas o seu mestre está morto e ironicamente quem o matou foi o Lúcius, o mesmo homem que me escravizou por cinco anos, que teve uma filha comigo e que me amava, até agora nunca entendi o motivo. – Marcus levantou as sobrancelhas e olhou para baixo como se soubesse da resposta. – Você não está mais sozinho, tem o meu apoio, mas preciso que pare de acatar ordens desses homens, preciso que seja corajoso e que os enfrente do mesmo modo como enfrentou seu tio quando tentou ajudar a Clara na fuga dela.
Ele me deu um pequeno sorriso genuíno. Sua aparência era bonita, igual a da Clara.
– Marcus irá liderar uns lobos-soldados acompanhando vocês de volta para a cidade, já que seu exército está enfraquecido. Daqui a duas semanas irei visitá-lo pessoalmente, aumentando a segurança. Agora vão. – Eles se levantaram. – Mais uma coisa: não quero festas extravagantes de boas-vidas, somente um banquete para os que me acompanharem. E Juliano... – Falei quando eles estavam quase saindo. – A próxima vez em que te ver, eu quero olhar para um rei e não para um garoto assustado.
Ele balançou a cabeça afirmando e respirou fundo saindo.
Fiquei sozinha e finalmente pude relaxar a postura deixando os ombros caírem. Esfreguei minhas mãos no rosto, uma tentativa inútil de diminuir o cansaço.
Em apenas algumas semanas me tornei líder de todos, enfrentei uma batalha, tive que tratar de vários assuntos enquanto cuidava do Lúcius que não vive e não morre, aboli a escravidão com a Lei Tâmara que não está sendo bem vista por muitos, mas permaneço de pulso firme e não vou voltar atrás com essa decisão. E eu pensando que a coisa mais difícil era cuidar de uma filha sendo mãe solteira.
Cruzei os braços em cima da mesa, encurvei as costas, fechei os olhos para poder pensar.
Lidar com os humanos vai ser mais difícil, eles são muitos tradicionais e não vão aceitar uma mulher comandar os homens, pior ainda é a presença dos vampiros.
A raiva aumentou.
Culpa do Marcus! Eu deveria arrancar seu coração por me fazer passar por isso! Eu não ia me envolver com aquelas pessoas, mas permiti que o Juliano fosse solto em troca de lealdade, agora tudo ficou péssimo! Nunca fui ao território dos humanos, mas todos que vão, voltam com uma má impressão.
Bati na mesa de punho fechado, ela se rachou.
Franzi o cenho.
Tudo bem que é chato resolver esses assuntos, mas não há necessidade de ficar tão zangada ao ponto que querer a cabeça do Marcus como troféu.
Levantei-me para voltar à festa, mas cambaleei um pouco para frente me segurando na mesa, cansada. Aquilo estava estranho, eu me alimento bem, não devia ficar com meu corpo fraco.
Arfei e arregalei os olhos.
Essas emoções que estou sentindo desde que cheguei ao castelo não são minhas... São do...
– Lúcius!
Sai apressada do castelo passando pelas pessoas enquanto adentrava na floresta em direção à cabana.
– Droga! – Esbravejei quando tropecei em algo, mas me segurei em uma árvore antes de cair. Tirei meus sapatos e continuei correndo segurando o vestido dos dois lados para não tropeçar na bainha. Meus cabelos soltos voavam com a coroa em cima da cabeça sem sair. Eu enxergava a floresta com o reflexo do luar que batia nas árvores e no chão. Minhas emoções se intensificavam: raiva, medo, cansaço, confusão...
Vi as tochas da aldeia que estava praticamente vazia por causa da festa de coroação, corri para a cabana em que o Lúcius encontrava-se, abri a porta e arfei quando vi que a cama estava vazia.
Cadê o Lúcius?
Sai do quarto e olhei ao redor o procurando, mas não vi nada além das casas e da floresta ao redor.
Fechei os olhos e tentei farejá-lo, mas seu cheiro estava muito fraco. Fiquei frustrada.
Então usei a ligação de sangue que temos para procurá-lo do mesmo jeito que usei quando eu briguei com o Betha Lucas e procurei o Lúcius em frente à fronteira das duas tribos.
Abri os olhos e olhei para o lado da cabana, corri entrando na floresta novamente.
Ele estava indo em direção à minha casa que morei com o Dindo que era próxima ao castelo.
– Droga! – Xinguei de novo por ter perdido meu tempo vindo até a aldeia.
Correndo novamente, minha vontade era de me transformar em loba para correr mais rápido, mas não quero ficar nua.
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Já ofegante, olhei ao redor do jardim de rosas vermelhas que construí, mais a frente estava a casa do meu tio reformada, arregalei os olhos quando olhei entre o jardim e a porta de entrada.
– Lúcius? – Sussurrei incrédula vendo-o em pé na minha frente, de costas para mim.
Aproximei com passos lentos e os olhos fixos nele, parei do seu lado que continuava olhando para a casa. Ele foi se virando lentamente na minha direção e olhou para mim com o semblante neutro, não esboçava nenhuma emoção, mas estava estranho.
– Karolina... – Falou meu nome baixinho. Quando escutei sua voz, me emocionei e no impulso dei um sorriso genuíno de felicidade e o beijei.
Nossos lábios estavam colados e meus braços estavam em volta do seu pescoço, mas... Espera...
Abri meus olhos para saber por que ele não me correspondia.
Lúcius olhava para mim com ódio! Seu rosto magro estava contorcido de fúria. De repente senti sua mão na minha garganta impedindo a passagem do ar. Arregalei meus olhos.
– Como ousa usá-la contra mim?! – Ele falava entredentes. – Como ousa aparecer com o rosto dela? Estou farto dos seus joguinhos, das suas alucinações! Como ousa aparecer aqui com o rosto da Karolina? Desrespeitá-la! Quem você pensa que é? – Grunhiu. Em seguida, senti meu corpo no ar sendo arremessada por ele.
Mesmo magro e fraco, Lúcius ainda possuía a força de um Alfa, um líder, uma fera.
Gemi com o impacto nas costas, e as sobrancelhas franzidas em confusão. O que diabos está acontecendo?
Ouvi seus passos se aproximarem, mas ele parou e começou a respirar de forma irregular, com a boca aberta, como se estivesse cansado, e de fato, estava, além disso, ele ainda estava fraco.
– Lúcius, sou eu, a Karolina. – Falei enquanto me sentava. Lúcius me encarou com os olhos brilhando de ódio e sorriu para mim com desdém.
– Você precisa muito mais que isso para me enganar. – Ele continuava falando baixo e grosso.
Enganá-lo? Ele pensa que eu sou outra pessoa se passando por mim? E por que o Lúcius não acredita que sou eu? O que fiz para ele achar isso?
Pensa, Karolina, pensa...
Claro! O beijo! Eu nunca tinha a iniciativa de beijá-lo, sempre era ele, eu só o correspondia. Levantei a cabeça para encará-lo novamente.
– Lúcius, eu te beijei por euforia, você ficou em coma mais de um mês, então tive o impulso de te beijar, principalmente depois da nossa última conversa, lembra?
Levantei-me devagar, com as mãos na frente tentando me aproximar, ele permanecia na defensiva.
– Na cabana, onde você dizia que era nosso quarto, você estava bebendo cerveja e eu me sentei ao seu lado. Eu te dizia que não gostava da sua nova versão, você se lembra disso?
Ele me olhou rapidamente, quase imperceptível, da cabeça aos pés e estreitou os olhos, seu semblante era de raiva, desprezo e nojo. Senti-me péssima em vê-lo me encarando assim. Olhei para meu corpo e não tinha nada demais, só meu vestido.
Vestido... Sim! Claro! Ele sabe que eu não gosto de usar vestidos.
– Lúcius, eu não gosto de usar vestidos, mas esse aqui é por causa da minha coroação. – Falava com as mãos na barriga.
Ele franziu o cenho um segundo antes de voltar ao normal, provavelmente ficou confuso por eu saber o que ele estava penando.
Lúcius tem passado todo esse tempo se apegando aos mínimos detalhes para não ser enganado por quem?
– Cale a boca! Você não é ela! – Aumentou o volume da voz. Parei de tentar me aproximar. Fiquei angustiada.
– Lúcius, me escuta! – Minhas mãos estavam levantadas em súplica. – Eu sei que te desprezava, que te odiava, mas...
– Me odiava? – Ele zombou. – Então quer dizer que essa outra Karolina não me odeia? Hahahahaha... Você é muito patético tentando imitá-la!
Suspirei e baixei meus braços.
– Lúcius... sou eu... a Karolina... – Ele continuava com o mesmo semblante. – E-Eu te odeio... – Falei derrotada. – E vou te odiar pelo resto da vida... – Murmurei e olhei para o chão. – Mas eu também me odeio... – Engoli seco. – Me odeio porque te amo...
O Lúcius está completamente conturbado e eu não sei lidar com essa situação.
– K-Karolina? – Levantei o rosto e o vi com as sobrancelhas franzidas, confuso.
– Sou eu, Lúcius. – Falei apontando as mãos para mim.
– É você mesmo? – Perguntou. Balancei a cabeça afirmando. – Me prove.
– M-Minha comida favorita é churrasco... – Comecei a falar várias coisas aleatórias. – A primeira vez que me beijou eu o mordi que tirei sangue dos seus lábios... éééé... Quando você tentou transar comigo pela segunda vez dormimos juntos na cabana e mesmo sem conseguir fazer nada comigo, você passou o dia inteiro acordando entre risos e murmurando porque eu te perguntei o que era transar... Q-Quando a Ayla fugiu do Bruthus, ele ficou arrasado e você ao invés de dizer alguma palavra de consolo, o chamou de cão sem dono na frente de todos e eu que estava servindo-o não consegui controlar o riso, pensei que fosse me repreender, mas você riu junto comigo, foi a primeira vez que o vi sorrindo... Eu sou a única pessoa que acha engraçado seu humor negro, Lúcius... – Disse.
– Desgraçado! Como você consegue imitá-la tão bem? – Seus olhos voltaram a brilhar de raiva. Lúcius avançou para mim novamente.
Respirei fundo controlando o choro que queria sair.
– Lúcius! Por favor! Sou eu! – Dizia angustiada enquanto dava passos para trás, eu não queria ter uma luta com ele. – E-eu amo a Lua. Amo admirar a Lua. Eu passava noites chorando escondida no escuro enquanto admirava o luar. Por favor! – Minhas sobrancelhas estavam franzidas de tristeza e ele mesmo fraco tentava me golpear.
– CALA A PORRA DESSA BOCA, SEU FILHO DA PUTA! – Ele gritava quase chorando desesperado, tentando me acertar.
Eu sabia que ele não ia parar, então pensei na noite da cabana, na noite em que ele se ajoelhou diante de mim e jurou lealdade depois de eu ter dito que o amava.
Segurei seus dois pulsos que estavam no ar tentado me acertar, o olhei com os olhos brilhando minha cor vermelho escarlate e falei num rugido:
– Ajoelhe-se perante a mim, Alfa! – Tentei ter autoridade com ele, assim como tenho com os demais.
Lúcius ficou paralisado, sua boca estava aberta e ele olhava para mim perplexo.
– Seus olhos... – Murmurou. – Eles estão brilhando... Brilhando... Ninguém consegue fazer brilhá-lo... só... só ela... a Karolina... – Lúcius sussurrava para ele mesmo.
– Lembra-se da noite em que você estava chorando por ter matado as pessoas que gostava quando tinha dez anos e eu apareci com meus olhos brilhando te trazendo paz naquele mar de sangue e pessoas mortas? – Soltei seus pulsos e coloquei as mãos no seu rosto. – Você pensou que eu fosse um demônio e você tem razão, eu sou um demônio, sou seu demônio do bem. – Dei um pequeno sorriso para ele.
– Karolina... – Murmurou. Eu balancei a cabeça confirmando.
Lúcius começou a relaxar os músculos tensos, então eu o abracei e senti seus braços passarem pela minha cintura lentamente. Dei um suspiro de alívio.