"Uhhh!"
A mulher sai apressada pelo corredor fumegando, puxando os cabelos nas têmporas enquanto seus saltos ressoam.
Atrás dela um homem grande a segue em passos calmos, mas também muito irritado e com a cara fria.
Ambos terminam lado a lado esperando o elevador. Não se olham, mas é obvio o desgosto que sentem reciprocamente. No elevador o silêncio é mortal.
"Sim, venha me pegar agora, agora!", a mulher rosna no telefone ao sair do elevador.
Os dois param do lado de fora do prédio, numa manhã amena e sol brilhante, sentindo o vento fresco em seus rostos.
"Você ainda pode desistir", diz o homem da cara fria a encarando.
"Está com medo da concorrência?! Você é um fraco!", ela rebate irada.
"Sou um cavalheiro e não gosto de deixar uma 'mulher' desconfortável", ele salientou a palavra 'mulher' como se isso por si só demonstrasse fraqueza e vulnerabilidade.
A mulher ri de desdém.
"Como 'tipinhos' como você no café da manhã todos os dias", ela rebate feroz.
"Então por que está nervosa? Se está acostumada com o meu 'tipo' não haverá problemas, não é?... Mas talvez o 'meu tipo' seja um pouco mais indigesto do que você está acostumada, mas como sou um cavalheiro, posso permitir você me 'degustar' em outro horário mais favorável", o homem da cara fria fala de forma fria a provocando, salientando de propósito as palavras 'tipo' e 'degustar'.
Ela o olha com desdém, revira os olhos e balança a cabeça bufando.
Os dois são concorrentes domésticos e agora estão lutando por um contrato bilionário internacional, mas as coisas não saíram exatamente como imaginavam.
Ambos chegaram imaginando que fechariam o contrato, mas ao entrar na sala de reuniões se depararam um com o outro. Pior, o cliente estrangeiro depois de avaliar a papelada e ouvir suas propostas ficou em dúvida e lhes propôs que melhorassem os termos de forma a superar um ao outro ou então cooperassem no projeto.
Os dois se entreolharam incrédulos, mas como tal contrato não poderia ser dispensado, acataram a ordem de elevar o nível da competição e da aposta, porque cooperarem era impossível, a mera presença do outro era insuportável.
Imediatamente, após apertarem a mão do cliente, saíram para o aeroporto para por em prática tudo o que de melhor faziam... disputar palmo a palmo cada migalha do mercado, o que fazia diariamente no mercado doméstico, e agora nesse contrato...
Perder não era uma opção, para nenhum dos dois!
ÁRIA THEODOR
Olho de soslaio para o miserável ao meu lado, que nojo!
"Odeio! Odeio esse cara!", repito no meu íntimo.
O que essa coisa está fazendo aqui? Parece uma assombração que me persegue!
Já não basta ter que lidar com os problemas que me causa o tempo todo em casa e agora aqui também?
O vento traz o perfume dele. Fico mais irritada. O imbecil toma banho de perfume? E esse motorista do inferno, onde está? Para que a gente paga uma fortuna para essa gente? Bato meu pé irritada.
"Degustar esse tipo?", as palavras do imbecil voltam à minha mente e o olho de soslaio.
O imagino deitado... seu corpo douradinho...
Como um porco assado em cima de uma mesa e com uma maçã na boca!
Há, há, há, há, há...!
Um sorriso divertido me escapa.
"Posso fazer 'tudo' o que está imaginando fazer comigo se quiser, ainda temos uma hora para o voo", ele me encara estreitando os olhos e me dando um sorriso frio frisando a palavra 'tudo'.
Tudo, 'fazer tudo', há, há, há, vai sonhando ...
Tudo na droga desse homem é frio e realmente não entendo como é possível que ainda haja no mundo alguém interessado nesse bastardo!
Me repreendo internamente por me deixar levar, olhar para ele e ser pega.
"Jura?", retribuo a encarada e lhe sorrio de forma perversa.
E ele gosta ... claro que gosta ... é um cafajeste cretino!
Vejo seu olhar ficar mais intenso e os grandes olhos azuis escurecem e o vejo sorrindo de lado, aquele sorriso frio dele que eu tenho vontade de arrancar daquela cara fria.
"Acho que uma hora é pouco para 'tudo' que quero fazer com você", meu sorriso perverso fica mais intenso, relembrando a imagem do
"Porquinho Scott" reluzindo assado em cima da mesa, posso ver até a maçã na boca! Não pude deixar de ressaltar a palavra 'tudo', como ele fez.
Claro que o 'tudo' que eu queria fazer não tinha nada a ver com o 'tudo' que ele estava imaginando!
Eu queria estripá-lo, arrancar seus ossos e o assar no forno mais quente do inferno!
Esse imbecil era o meu tormento diário, não podia piscar os olhos porque lá vinha uma rasteira dele. Ele assediava nossos fornecedores, nossos clientes, enfim, onde estávamos, lá estava a mão dele estendida tentando arrancar alguma coisa nossa!
No começo até que era meio divertido, mas agora... depois de anos... ele era como aquelas bolhas no pé, que estouram e você ainda tem que andar muito...
Meu pai me deixou a administração da Holding e quando assumi nós éramos os maiores com amplo domínio de mercado, então, sempre tive consciência que os menores queriam tirar uma lasquinha.
Mas esse Scott Derek era outra coisa, esse cara me tirava do sério.
Já o conhecia da universidade, porque cursamos no mesmo ano, apenas em salas diferentes e ele era famoso já naquela época.
A mulherada arrastava um caminhão de 'b*st*' e encomendava mais dois para comer por ele.
Ele sempre foi um escroto e um cretino que se acha desde essa época.
Ele é bonito, não há dúvida, mas o meu asco do 'tipo' dele filtra tudo o que existe.
Lembro dele 'pegando' as menininhas, uma diferente em cada festa em que terminava encontrando sua triste figura. Uma menina a cada hora na faculdade pendurada nele, ou seja, em cada lugar que ele estava parecia uma árvore de natal, pendurado de mulheres, o típico cafajeste, além de ser arrogante e esnobe, enfim, tudo o que mais desprezo!
Tive uma surpresa ao retornar e assumir a empresa depois da formatura, quando decidi compensar meu pai pelo seu árduo trabalho que fez pela família esses anos todos, e encontrar o maldito Scott na primeira licitação que participamos.
Nunca nos demos mais do que um 'oi', na universidade, porque sempre evitei a todo custo 'tipos' como ele e todo o universo de pessoas que considero desprezíveis que o orbitam.
Naquele dia da licitação percebi que o infame Scott Derek seria uma pedra no meu sapato e desde então, ele e a D&D Corporation vem disputando cada 'vírgula' conosco.
Então, sim, durmo todos os dias com o pensamento em Scott Derek e até sonho com ele, mas não são sonhos, mas pesadelos! Maldito!
E agora mais essa!
Cheguei ontem e fiquei no hotel me preparando para a reunião o máximo que pude, nem cheguei a usar a banheira maravilhosa da suíte. Apenas trabalhei e me concentrei no projeto.
Hoje tomei meu café no hotel, que pedi que fosse preparado mais cedo e mandado para minha suíte e me dirigi ao cliente, evitando qualquer tipo de contratempo e depois de chegar fiquei um bom tempo esperando.
A porta da sala de reuniões se abriu e pensei que fosse o cliente, me virei para ver o homem grande e alto de cabelos pretos à minha frente ... mas ... esse não é o cliente !!!
Quase caí da cadeira quando reconheci o Scott Derek à minha frente me encarando com sua cara fria.
Ele tem a maldita cara de pôquer que os idiotas usam nos negócios, como se isso mandasse mais que o dinheiro ! Imbecis !
Negócio é simples ... o jargão 'mostra a grana' é o que vale.
Se as tuas condições foram melhores que as do teu concorrente e o cliente ver que vai faturar mais, tanto faz a estratégia que o outro use, você vai vencer, simples assim !
Mas a reunião terminou não sendo tão confortável quanto eu pensei, mas já imaginava quando coloquei os meus olhos no Derek, que durante a reunião ficava escutando sem dizer quase nada e girando a caneta nas mãos, enquanto olhava para longe.
Como sou uma pessoa prática, comecei logo minha apresentação e mostrei todas as vantagens exatamente no sentido almejado pelo cliente e depois foi a vez do Derek.
Ele deu um enfoque diferente do meu e apresentou oportunidades diferentes ao cliente e ambos ficamos aguardando o veredicto por alguns minutos enquanto ele olhava e analisava os papéis e fazia contas.
Depois veio a bomba !
Competir ou cooperar !
Claro que competir !
Dessa vez não daria brecha ao Derek para tirar nem uma lasquinha do meu negócio !
"Quer passar a noite aqui?", ele me encara sério, os olhos estão escuros agora, e volto da minha reflexão.
Um sorriso me escapa... o idiota acha que vai tirar vantagem de mim!
"Sonhe!", penso comigo mesma.
Minha boca se abre para lhe dar a resposta que merece, mas uma ideia me surge...
A fraqueza do Derek deve ser as partes baixas, com certeza... a criatura deve ser insaciável... então se puder fazer ele perder o foco do negócio...
"Não podemos, não é? Mas não vai faltar oportunidade!", lhe dou meu melhor sorriso sacana e mordo meu lábio.
Meu carro chega e antes de entrar o encaro mordendo o lábios de novo e sorrindo.
Depois de um tempo não contenho minha gargalhada e o motorista não entende nada.
SCOTT DEREK
Aquela secretária da Ária vale cada centavo que gasto com ela!
Conheci ela numa boate e depois de acabar com ela no hotel, resolvi tomar um banho e sem querer esbarrei na bolsa dela que derramou todo o conteúdo no chão. Nem me importei, mas meus olhos bateram num crachá escrito 'TH', em letras grandes. Voltei e peguei o crachá que dizia 'secretária executiva' e 'Theodor Holding'.
Muito melhor que estar dentro dessa mulher é ter ela por dentro da Theodor Holding!
Esperei a Lilian acordar, porque é bom que ela esteja sóbria e lhe propus um acordo.
Ela não sabe quem eu sou, apenas acenei com dinheiro, muito dinheiro, por informações privilegiadas.
No começo a Lilian era tímida, só dando alguns detalhes pequenos, porque não era da Presidência, mas da Diretoria Executiva, era secretária de um dos Diretores.
Mas como o dinheiro move o mundo, ela deu um jeito de ser subordinada a alguém de mais alto escalão e as novidades começaram a esquentar.
Daí vieram licitações, contratos e pudemos disputar muita coisa boa e ficar sabendo de forma antecipada muita coisa que correu a nosso favor.
Meus planos de assumir a empresa do meu avô eram somente um ano depois da formatura e queria tirar um ano sabático, mas minha avó pediu que antecipasse, porque ele andava cansado e tinha algumas coisas pesadas acontecendo na empresa.
Meu avô herdou a indústria de seu pai e, enfim, somos de um clã industrial desde sempre, então negócios estão no sangue e não foi difícil para mim assumir tudo.
Logo vi ao me sentar na cadeira de CEO que tinha que fazer uma faxina em casa, porque meu avô era das antigas e tinha grande apreço por colaboradores antigos e realmente tem uns caras excepcionais, que ainda ficaram comigo, mas tinha muito peso morto, que ou indiquei aposentadoria ou demissão de cara.
Arranquei as ervas daninhas, uns acionistas com meia dúzia de ações que só davam dor de cabeça e me foquei em concentrar o poder e o controle acionário nas minhas mãos e ataquei com tudo as sanguessugas e os gargalos.
Depois de pôr a casa em ordem e com a ajuda da Lilian, parti para o ataque, pegando novos contratos e diversificando os negócios completamente e agora estamos em uma posição confortável depois de uma batalha de três anos chegando ao segundo lugar no ranking da economia local, atrás do TH, e sexto no nacional.
Estou todo dia na cola do TH e direto encontro a Ária em toda parte e sei que ela me odeia, mas estou satisfeito por usar o trabalho dela em conseguir negócios para alavancar os meus!
Essa mulher é boa no que faz e todo dia praticamente está trabalhando em projetos novos e diferentes, abrindo novos mercados, ela é uma máquina!
SCOTT
Conheço a Ária de vista desde a universidade. Ela estudava na sala ao lado da minha, no mesmo semestre de Administração e nos esbarramos em várias festas e pelos corredores da faculdade de administração, como não deixar de notar essa mulher?
A Ária é linda, linda mesmo. Seus olhos castanhos enormes, a pele branquinha e os lábios grossos, além de um corpo escultural enlouquecem qualquer um e eu não sou diferente! Mas em todo o tempo de faculdade eu não vi a Ária com ninguém, apesar de sair e se divertir, nunca vi agarrando ou dando um beijo sequer, o que é muito estranho na faculdade, porque todo mundo está aqui para estudar, mas principalmente para se divertir.
Ela é muito séria e tem um ar daquelas feministas radicais e sempre que ela me via dando uns amassos gostosos ela me ignorava com cara de nojo.
Hoje ela com certeza me odeia e vai odiar ainda mais quando souber como eu consigo prever os seus passos! Eu rio internamente.
Então nesse momento provocar a Ária é uma delícia, principalmente quando ela está entrando na brincadeira.
"Acho que uma hora é pouco para 'tudo' que quero fazer com você", o sorriso perverso dela e o jeito que insinuou a palavra 'tudo'.
"Quer passar a noite aqui?", como vou perder uma oportunidade dessas de ter essa mulher embaixo de mim? Nunca!
"Não podemos, não é? Mas não vai faltar oportunidade!", ver o sorriso dela me excita e acende um sinal vermelho no meu cérebro... porque isso está completamente fora do cardápio do que eu conheço dela.
De qualquer forma, a Lilian vai me dizer o que ela planeja, então...
Logo após a Ária partir, meu motorista encostou e fomos ao hotel pegar as malas e para minha surpresa, encontro a Ária descendo com as malas também.
"No seu carro ou no meu?", pergunto sendo gentil, afinal ela insinuou pouco antes que me queria.
"Tanto faz", ela me dá um olhar vazio.
Puxo a mala dela de suas mãos e entrego toda nossa bagagem ao concierge do hotel. Pego a mão de Ária e a conduzo para a saída, abrindo a porta do carro para ela tão logo ele para junto à calçada e me junto a ela no banco de trás.
No caminho para o aeroporto examino a mulher ao meu lado discretamente. Seus cabelos escuros presos em um coque com alguns fios soltos, sua pele branca e delicada, lábios cheios e grandes olhos castanhos claros como o mel me tiram o fôlego. Ela cheira a sabonete ou um perfume muito leve e tem uma corrente fininha de ouro no pescoço que escorrega por dentro da blusa dela.
Ária é uma mulher conservadora na total acepção da palavra. Hoje ela está com uma calça social de risca vertical fininha azul e branca e uma blusa ombro a ombro branca, que deixa seus ombros levemente à mostra e esconde os seios perfeitamente.
Seu pescoço é perfeito e longo como o de uma bailarina e a correntinha de ouro caindo por dentro da blusa me faz querer ver onde ela vai parar... mesmo sendo uma roupa tão séria e sem graça, nela parece delicada e tentadora, como os brincos de diamante que ela usa, completamente simples, mas que a deixam sofisticada.
Com certeza ela está brincando comigo, mas eu quero brincar com ela...
O voo sairá logo e nós temos que nos preparar para nossa batalha pelo contrato, o que não impede que eu conheça os encantos da Ária, afinal nada melhor do que desestressar nos braços de uma mulher linda como ela.
Embarcamos e em todo o trajeto tento ser um perfeito cavalheiro. Nossas poltronas estão juntas na primeira classe e vejo o olhar que ela me dirige quando descobre o lugar dos nossos assentos e sorrio para ela.
Destino, baby!
Depois de nos acomodarmos, ela reclina a poltrona e está procurando por alguma coisa há algum tempo.
"O que você quer?", pergunto solícito.
"Máscara para dormir", seu rosto parece mesmo cansado.
Me inclino e procuro nos acessórios da minha poltrona e estendo para ela.
"Obrigada!", ela me diz com um leve sorriso e vira de costas para mim, tentando se acomodar na poltrona.
"Vem aqui", fecho a divisão das poltronas e a puxo para os meus braços a acomodando de forma a que se apoie em mim para dormir.
Ela recua, arrancando a máscara e me olhando com seus grandes olhos dourados.
"Não precisa, estou bem", ela diz depois de um tempo.
"Eu não mordo Ária", digo e a puxo de novo.
Ela se deixa vir e deita no meu ombro, enquanto a abraço.
Logo ela está dormindo, ressonando de leve, enquanto sinto o cheiro leve e perfumado de seus cabelos e já me sinto feliz, antecipando possuir a mulher delicada que está dormindo nos meus braços, tão tranquila...
Horas se passaram e também pego no sono, embalado pelo ressonar leve e a fragrância de Ária que já me envolveram por completo.
Acordo assustado com a turbulência e Ária se mexe preguiçosamente no meu ombro, abrindo os lindos olhos castanhos e me encarando surpresa.
Sorrio para ela... "Sim Ária, você dormiu no meu ombro, acho que vai fazer isso muitas vezes...", penso.
Ela tenta se organizar, levantando o banco e se endireitando no momento em que o comandante faz ouvir sua voz grave nos alertando para colocar as poltronas em posição vertical, afivelar os cintos e nos prepararmos para uma emergência que pudesse vir a ocorrer, porque houve um problema com uma das turbinas.
Meus olhos encontram com os da Ária porque nunca passei por uma situação dessas, mas ela não está impaciente ou nervosa, pelo menos não deixa transparecer.
As comissárias de bordo passam correndo por nós e sinto que algo grave está para acontecer.
"Ária, vamos cair", digo com calma para ela.
"Imagina...não seja dramático, é só uma turbulência", ela me diz olhando para frente.
Puxo o seu queixo e a olho nos olhos. "As comissárias estão apavoradas, vamos cair".
Ela para um segundo, me encara e então ri. "Boa tentativa Scott Derek!"
O que ela está pensando? Essa maldita mulher burra!