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MARCADA PELO ALFA MALDITO

MARCADA PELO ALFA MALDITO

Autor:: Pann Ludovica
Gênero: Lobisomem
Enrica passou a vida inteira fugindo. Seu cheiro não é como o de qualquer ômega-ele é letal. Onde quer que passe, alfas enlouquecem, perdem o controle e se tornam bestas sem consciência. Alguns até matam por ela. Para sobreviver, ela esconde sua verdadeira natureza, mascarando seu aroma com um colar que mantém sua existência segura. Mas tudo começa a desmoronar. Seu corpo está mudando. O colar enfraquecendo. E alfas estão começando a notar. Então, ele aparece. Um lobo negro, colossal e ferido, caído na neve como um presságio. Contra todo instinto de autopreservação, Enrica o leva para dentro de sua cabana-sem saber que acaba de salvar Caleb Vartheos, o príncipe herdeiro e Alfa Maldito de sua matilha. Um alfa puro. Um monstro temido pelo reino. Mas enquanto todos os outros alfas enlouquecem com seu cheiro, Caleb sente outra coisa. Ela o acalma. Pela primeira vez em sua vida, a fera dentro dele encontra paz. E isso só o torna ainda mais perigoso. Agora, enquanto segredos são revelados e forças maiores conspiram para separá-los, Caleb e Enrica se veem presos em um jogo mortal de desejo, instinto e poder. Ele a quer. Ele a reivindicará. Mas será que ela sobreviverá ao Alfa que ninguém jamais conseguiu domar?

Capítulo 1 O Uivo na Escuridão

POV ENRICA

O vento cortante soprava contra a cabana, uivando como uma entidade raivosa, mas foi outro som que me despertou no meio da noite. Um uivo, longo e carregado de um sofrimento que eu não sabia nomear. Não era apenas um chamado ou um aviso, era um lamento profundo, um grito de dor rasgando a escuridão.

Sentei-me na cama, ofegante. Meu coração martelava forte contra o peito, a sensação de inquietação se espalhando por minhas veias como veneno. A lareira ainda crepitava, lançando sombras trêmulas contra as paredes de madeira. Mas o calor não era suficiente para abafar o arrepio que se arrastou pela minha pele.

Outro uivo ecoou, mais fraco dessa vez, como se a própria noite estivesse engolindo sua força. Engoli em seco. Algo estava errado.

Levantei-me sem hesitação, puxando um casaco grosso e calçando minhas botas. O medo sussurrava para eu ignorar aquele chamado, mas a curiosidade sempre foi um veneno que corriam em minhas veias. E eu precisava ver com meus próprios olhos o que estava acontecendo.

Abri a porta da cabana, e o ar gélido me atingiu com violência. A neve reluzia sob a luz pálida da lua, um cenário de beleza fria e implacável. Mas o que me atraiu não foi a paisagem congelada.

E sim, a presença ali.

Avancei com cautela, os flocos rangendo sob minhas botas. O som do meu próprio coração parecia ensurdecedor no silêncio da floresta adormecida. Até que o vi.

Uma silhueta colossal jazia caída na neve, um vulto escuro contrastando contra a brancura imaculada. Um lobo. Mas não qualquer lobo.

Minha respiração ficou presa na garganta.

Ele era enorme, maior do que qualquer criatura que eu já vira. Seu pelo negro parecia absorver a luz ao invés de refleti-la, como uma sombra viva. O peito largo subia e descia com esforço, e conforme me aproximei, pude ver o tremor sutil que percorria seu corpo.

Um rosnado fraco reverberou no ar quando dei mais um passo. O som gutural e ameaçador fez meus instintos gritarem para que eu recuasse. Mas meus pés se fincaram no chão.

Ele estava ferido. Não precisava ser um especialista para perceber isso. Seu corpo se contraía de dor, e a neve ao redor dele estava manchada com pequenas marcas escuras. Sangue.

Um arrepio percorreu minha espinha. Algo ou alguém o havia atacado. Mas o quê? Ou quem?

Eu deveria me afastar. Voltar para a cabana, fingir que nunca o vi e seguir minha vida. Mas meus olhos se prenderam aos dele, e qualquer pensamento racional desapareceu.

Escarlate.

Seus olhos eram de um vermelho hipnotizante, como brasas acesas em meio à escuridão. Profundos, intensos, e... inteligentes.

Aquela não era a expressão vazia de um animal selvagem. Havia algo ali. Algo que me fez sentir como se estivesse sendo puxada para um abismo sem volta.

Ele rosnou de novo, um som arrastado e rouco, mas sem força para me afastar.

E então, mesmo contra todo senso lógico, eu ajoelhei ao seu lado, minha respiração pesada e os dedos trêmulos se estendendo, hesitantes, para tocá-lo.

Meus olhos percorreram seu corpo e então vi. Duas flechas. Uma cravada em seu ombro, a outra entre suas costelas. O sangue encharcava o pelo negro, tingindo a neve ao redor.

- Você está ferido... - murmurei, minha voz saindo baixa, quase inaudível. Eu não sabia se ele podia entender, mas continuei. - Eu não vou machucá-lo.

Ele me observava, sua respiração arfada, quente contra o ar gelado. Seus olhos cintilavam em alerta, um animal encurralado ponderando suas opções. Talvez pensasse que eu fosse outro caçador.

- Você precisa confiar em mim. - Minha voz era um sussurro, tentando quebrar a barreira de medo e desconfiança entre nós.

Ele não reagiu com agressividade, mas também não se moveu. Apenas observou, seus olhos cravados nos meus.

Foi então que ouvi. Passos. Rápidos. Determinados. Se aproximando.

Meu coração disparou. Eles estavam vindo terminar o serviço.

Olhei para o lobo. Eu não podia deixá-lo ali. Se ficasse, ele morreria.

- Você precisa se mover. - Me inclinei, tentando convencê-lo. - Se me deixar ajudá-lo, eu posso levá-lo para um lugar seguro.

O lobo hesitou. Vi o conflito em seus olhos, o instinto lhe dizendo para fugir, mas seu corpo ferido não lhe daria essa chance. E ele sabia disso.

A decisão veio em um suspiro pesado. Com esforço, ele tentou se erguer, suas patas vacilando. Eu o apoiei como pude, sentindo a força crua em seu corpo, mesmo debilitado.

Cada segundo contava. Se não saíssemos dali agora, não haveria mais chance. Corremos. Ou melhor, tropeçamos, cambaleamos, mas seguimos em frente. Meu corpo queimava com o esforço de sustentá-lo, mas eu não pararia. Os passos se tornaram mais próximos.

- Anda! - sussurrei para o lobo, apoiando seu corpo contra o meu enquanto ele mancava.

Cada passo era uma luta contra o tempo e o medo. O lobo negro mancava ao meu lado, sua respiração pesada e quente contra o frio cortante da noite. O som dos passos se aproximava, e meu coração batia em um frenesi descontrolado. Não podíamos parar. Não podíamos hesitar.

A cabana surgiu diante de nós como uma promessa silenciosa de abrigo. As janelas pequenas e a madeira gasta mal pareciam oferecer segurança, mas era tudo o que tínhamos. A dor cravava garras afiadas em meus músculos enquanto eu forçava meu corpo a seguir em frente, sustentando o peso da criatura ferida.

Alcançamos a porta, e com um último esforço, empurrei o lobo para dentro. Girei a chave no trinco no instante em que um estalo do lado de fora me fez prender a respiração. A madeira vibrou quando algo - ou alguém - colidiu contra ela.

Segurei firme a maçaneta, como se pudesse impedir qualquer invasão apenas com minha vontade. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Depois, passos se afastando, lentamente, como se soubessem que não podiam entrar.

Meus músculos cederam, e me virei para encarar a criatura que acabara de salvar.

O lobo negro tombou no chão, ofegante. Seus olhos - predadores, mas opacos de dor - me observavam, ainda inseguros. O calor da lareira crepitando parecia um convite ao descanso, mas sua postura tensa mostrava que ele ainda não decidira se eu era um refúgio ou uma nova ameaça.

- Você está seguro agora - murmurei, sem esperar que ele entendesse as palavras, apenas a intenção nelas.

Ele piscou devagar, a respiração desacelerando à medida que a exaustão vencia sua desconfiança. Aos poucos, suas pálpebras pesadas cederam, e o corpo tenso se rendeu ao sono.

Aproveitei o momento para agir. A luz tremulante da lareira iluminava os ferimentos abertos em seu pelo negro, o sangue escorrendo em filetes espessos. Precisava cuidar disso antes que a infecção fizesse seu trabalho.

Peguei minha caixa de primeiros socorros, os dedos ágeis trabalhando com a familiaridade de anos lidando com agulhas e tecidos. Não era muito diferente.

Ajoelhei-me ao lado dele e passei os dedos com cuidado sobre sua pele quente, identificando as flechas alojadas em seu corpo. Ambas exigiriam precisão para serem removidas sem causar mais danos.

Respirei fundo e agarrei a haste da flecha do ombro, sentindo a rigidez da madeira sob meus dedos.

- Isso vai doer...

Ele dormia, mas sua respiração se alterou quando comecei a puxar. O som da carne se rasgando sob a pressão da retirada me fez prender o ar, mas continuei. Um último puxão, e a flecha deslizou para fora, trazendo consigo um fluxo quente de sangue.

Imediatamente pressionei um pano limpo contra o ferimento. O lobo se mexeu, soltando um rosnado baixo, mas não acordou. Continuei, removendo a segunda flecha com a mesma precisão e, com mãos firmes, limpei cada ferida. O cheiro metálico do sangue misturava-se ao aroma amadeirado da cabana, impregnando o ar com um peso difícil de ignorar.

Após desinfetar os ferimentos, enfaixei-os com tiras de pano limpas, amarrando-as com destreza. Minha vida como costureira me ensinara mais do que bordados e bainhas. Havia algo de tranquilizador no ato de remendar algo partido, mesmo que esse algo fosse um ser vivo de presas afiadas.

Quando terminei, afastei-me um pouco, observando meu trabalho. O lobo negro respirava fundo, sua forma colossal relaxada diante do fogo. Meu olhar deslizou pelo seu corpo poderoso, agora vulnerável, e uma estranha sensação se enraizou em meu peito.

Ele parecia... mais humano assim.

Sacudi a cabeça, afastando pensamentos insensatos. Eu estava exausta, e o medo do que aconteceu lá fora ainda pulsava em minhas veias.

O calor da lareira lançava sombras oscilantes pela cabana, preenchendo o espaço com uma atmosfera morna e reconfortante. O lobo negro respirava de forma pausada, mas seus músculos ainda carregavam a tensão de quem desconhecia o verdadeiro descanso.

Meus olhos correram pelo corpo dele, analisando cada detalhe com atenção. A ferida do ombro já não sangrava tanto, e sua respiração parecia mais controlada. Ele estava melhor. Pelo menos, fisicamente.

Ajoelhei-me para recolher os panos manchados de sangue, cuidando para não fazer barulho. Foi quando senti o peso do olhar sobre mim.

Ergui os olhos e encontrei os dele. Um vermelho profundo e atento, brilhando sob a luz vacilante do fogo. Não havia ameaça ali, apenas uma curiosidade cautelosa.

- Você está se recuperando. - murmurei, sem esperar resposta.

Ele apenas piscou devagar, como se processasse minha presença. Depois, fechou os olhos novamente, permitindo-se afundar outra vez no sono.

Suspirei, aliviada. O fato de ele ter despertado, ainda que por breves segundos, indicava que não estava tão fraco quanto antes.

Continuei a organizar os suprimentos, tentando ignorar a sensação de estar sendo observada, mesmo que seu olhar já não estivesse sobre mim. Foi então que, ao afastar um dos panos, algo frio e metálico roçou contra meus dedos.

Franzi o cenho e segurei o objeto, erguendo-o para examiná-lo sob a luz do fogo. Era um pingente, preso a uma corrente de prata. O rubi e o ônix incrustados nele cintilavam com um brilho quase hipnótico. Mas foi o brasão gravado no metal que fez meu estômago se revirar.

Uma coroa de espinhos dourada entrelaçada com um sol negro e asas de ferro.

Engoli em seco.

Eu conhecia aquele símbolo. Era do Reino Vartheos.

Minhas mãos apertaram o pingente, o coração disparando. O que um lobo como aquele fazia com algo tão precioso? A única explicação lógica era a pior de todas.

Ele era um animal de guerra. Ou, pior... um pet real.

Meus olhos voltaram-se para a criatura adormecida. Sua respiração serena contrastava com a onda de inquietação que agora tomava conta de mim.

Se ele pertencia à realeza... Alguém viria atrás dele. E eu estava condenada.

Capítulo 2 O Rei e a Costureira

POV CALEB

A escuridão sempre foi minha aliada. Nela, eu caçava, matava e sobrevivia. Mas agora, ela parecia diferente. Densa. Sufocante. Como se tentasse me arrastar para um vazio do qual eu não poderia escapar.

Então, algo cortou a escuridão.

Um cheiro. Doce, quente. Nada como o sangue ou a terra molhada que eu estava acostumado. Era reconfortante, mas, ao mesmo tempo, errado. Um erro que me fazia querer me afundar nele.

Meu corpo protestou ao mínimo movimento, a dor queimando por cada fibra dos meus músculos. Mas o cheiro persistia, se infiltrando em minha mente, me puxando para longe da inconsciência.

Meus olhos se abriram.

A visão ainda estava turva, mas clara o suficiente para perceber que eu não estava mais na floresta. O calor envolvia meu corpo, uma luz branda tremulava nas sombras. Pisquei algumas vezes, tentando me situar.

E então, eu a vi.

Os olhos verdes.

Os mesmos que me fitaram antes da escuridão me consumir. Agora, estavam ali de novo. Observando. Medindo. Seu olhar era intenso, cheio de algo que eu não sabia nomear.

Por que ela ainda estava aqui?

Minha mente começou a encaixar os fragmentos de lembranças. Neve. Sangue. Uma voz sussurrando promessas de que eu estaria seguro.

O toque de mãos humanas. O toque dela.

Meus instintos gritaram para que eu reagisse, que me movesse, que tomasse controle da situação. Mas eu apenas permaneci ali, a observando.

Ela se movia pelo cômodo com uma calma absurda. Como se eu não fosse uma fera ferida capaz de matá-la em segundos.

Cada passo dela parecia ecoar dentro de mim de uma maneira estranha, desconfortável. Eu nunca me importei com presenças antes. Mas agora...

O que era essa sensação?

Por que minha mente se fixava nela?

A vigiei silenciosamente, analisando cada traço, cada expressão. Seu rosto demonstrava cansaço, mas ela não parecia hesitar em continuar. Por quê? O que a fazia cuidar de algo como eu? Não havia medo nela. Nem repulsa. Apenas aquela calma estranha que me confundia.

Mas logo algo dentro de mim se agitou. Um incômodo. Uma inquietação desconhecida.

Por que eu me importava com onde ela estava?

Meus sentidos se aguçaram quando sua presença desapareceu do cômodo. Minha respiração se tornou pesada. O cheiro dela ainda estava ali, mas seu calor, não.

Onde ela foi?

Um rosnado baixo escapou de minha garganta. Meu corpo ainda estava fraco, mas a necessidade de encontrá-la se sobrepôs à dor. Me obriguei a me mover. Cada músculo queimava. Meu peito protestou, minhas pernas tremeram.

Mas eu não poderia simplesmente ficar ali.

O piso rangeu sob meu peso quando consegui me erguer. Minha cabeça girou. Meu focinho captou um rastro fraco, e eu já estava pronto para segui-lo quando-

A porta se abriu. Lá estava ela.

Os cabelos ligeiramente desalinhados pelo vento frio. O olhar fixo em mim. O cheiro dela tomou o ar, afogando meus sentidos, preenchendo cada espaço vazio dentro de mim.

Eu relaxei sem perceber.

Ela voltou.

- Eu trouxe frutas para você. - A voz dela era suave, mas hesitante. - Não tenho mais nada... Me desculpe.

Ela se desculpava?

Apenas a observei. Comida não era o que eu queria. Mas deixei que se aproximasse, sentando-se ao meu lado, oferecendo um pedaço da fruta.

Seus dedos hesitaram antes de tocarem meu focinho. E quando finalmente tocaram... meu corpo inteiro reagiu.

O calor percorreu minha pele como eletricidade, despertando algo primitivo e perigoso dentro de mim.

Seus olhos deslizaram para minhas presas, refletindo a luz da lareira como lâminas. O medo brilhou em seu olhar por um instante. Ela sabia. Eu poderia acabar com tudo ali, arrancar sua mão, tomar o que quisesse. Ela compreendia isso.

Mas, ainda assim... continuou. E eu deixei.

Ela me alimentou. E eu apenas observei.

Seus gestos eram lentos, delicados, mas determinados. Havia algo fascinante na forma como não recuava.

Por que ela fazia isso?

Ela terminou, e então seus olhos desceram para meu corpo. O cenho franziu.

- Suas ataduras... - murmurou. Havia sangue. - Eu preciso trocá-las.

Seu toque deslizou sobre minha pele. Quente. Suave. Inesperado. Minha mente dizia que eu deveria afastá-la. Mas meu corpo se recusava a obedecer.

Apenas observei enquanto suas mãos deslizavam com delicadeza, desfazendo as ataduras encharcadas de sangue para substituí-las por novas.

A sensação foi indescritível. Um calor, um arrepio. Como algo ancestral dentro de mim respondendo ao toque dela.

A noite caiu, e antes que eu percebesse, o sono me venceu. Mas quando despertei... algo estava diferente.

O ar ainda era frio, mas meu corpo estava quente.

Meus sentidos dispararam. Meu olhar encontrou a razão imediatamente.

Enrica.

Seu corpo pequeno estava encolhido ao meu lado. A respiração suave. Os fios de cabelo bagunçados contra a madeira.

Mas o que me fez travar não foi isso.

Foi a coberta sobre mim. A única coberta que existia ali.

Ela cedeu seu próprio calor para mim.

Meu peito se contraiu com algo estranho. Um impulso primitivo gritou dentro de mim. Algo que eu não reconhecia, mas que rugia com força.

Minha mão se moveu antes que eu percebesse, puxando a coberta de volta para ela. Ela não deveria passar frio.

Foi quando vi. O colar.

Minha visão estreitou.

Uma corrente de camurça desgastada pelo tempo. Um colar simples... para olhos desatentos. Mas eu sabia exatamente o que aquilo era.

Um colar de Ômega.

Meus pulmões travaram. O que diabos isso significava?

O fecho bem preso, a camurça marcada... ela o usava há muito tempo.

Para um humano comum, não significaria nada. Mas para um Alfa como eu...

Aquele colar gritava segredos.

Ele escondia um cheiro. Um cheiro que... agora escapava pelas frestas da camurça.

Minha respiração se tornou pesada. O aroma dela se infiltrava em cada célula do meu corpo.

Suave. Doce. Perigoso.

Meu instinto rugiu. Voraz. Exigindo que eu me aproximasse. Que eu a tomasse.

Minhas presas pressionaram contra meus lábios. Meus músculos se contraíram. Isso não podia estar acontecendo.

Meu corpo se inclinou para frente, movido por algo que eu não podia controlar.

O lobo dentro de mim despertava. Feroz. Faminto. Possessivo.

Eu precisava sair dali.

Me afastei bruscamente, quase tropeçando. A distância era necessária.

O ar frio ardeu em meus pulmões, enquanto eu lutava contra algo que eu não entendia, mas que queria me consumir.

O desejo latejava dentro de mim, pulsante e perigoso. Nunca havia sentido algo assim antes. Algo tão profundo, tão avassalador.

E isso me aterrorizava.

Eu tinha que partir. A decisão deveria ter sido simples. Racional. Mas não era.

Porque ao olhar para ela ali, dormindo, vulnerável, com o cheiro dela grudado na minha pele...

Uma única certeza se cravou dentro de mim.

Se eu partisse agora... jamais conseguiria esquecê-la.

Mas eu precisava voltar para Vartheos. Meu reino me chamava, minha alcateia esperava. Eu não pertencia àquele lugar, e cada minuto que passava ali era uma afronta ao que eu conhecia como ordem.

Mas por que era tão difícil simplesmente me virar e ir embora?

Algo me prendia. Um peso no peito. Uma força invisível que se recusava a ser ignorada. Eu não queria nomear aquilo. Mas ele estava ali, me ancorando naquela cabana.

Naquele cheiro. O cheiro dela. Minha mandíbula travou. Aquilo era irracional.

Eu nunca havia sentido tristeza ao deixar algo para trás.

Minha mente gritava que ela não era minha, mas meu corpo queimava com uma verdade primitiva. Meu lobo discordava. Meu instinto exigia que eu garantisse que ninguém jamais a tocaria em minha ausência.

E então, um pensamento me atingiu como um soco no estômago.

Ela poderia já ter um alfa. Alguém que a reivindicasse.

O fogo em minhas veias se acendeu, abrasador, insuportável. O simples pensamento de outro macho tocando-a, respirando o cheiro dela, reivindicando-a...

Minha respiração ficou pesada. Minha visão turvou em vermelho.

Se isso fosse verdade, eu o mataria.

Rosnei, os músculos tensos com uma fúria que não deveria estar ali. Eu não era um alfa jovem e impulsivo, dominado por emoções. Eu era um rei. Meu dever era comandar, não me perder em algo tão insignificante quanto uma mulher.

Mas meu corpo discordava.

Eu não podia partir sem garantir que ela estaria protegida. Sem deixar claro para qualquer um que se atrevesse a cruzar este território que ela já estava marcada.

Me aproximei da entrada da cabana, erguendo a perna e impregnando minha essência ali. o Mijo quente respingou o suficiente para deixar meu cheiro na madeira do lado de fora.

Um aviso silencioso, uma sentença invisível. Ela não podia ver, mas qualquer alfa sentiria.

Mas não bastava. Eu precisava de mais.

Girei sobre minhas patas e pressionei meu corpo contra a madeira, esfregando cada centímetro de mim contra as paredes externas da cabana.

Meu lobo rugiu, satisfeito. Meu cheiro agora estava nela. No abrigo dela. No único espaço que era só dela.

Cada célula do meu corpo vibrou com satisfação. Minha presença estava ali.

Minha sombra pairava sobre ela.

Ela ainda não sabia. Mas qualquer um que ousasse cruzar este território sentiria a ameaça no ar.

Dei um passo para trás, inspirando fundo. A cabana estava impregnada com meu cheiro. Nenhum alfa ousaria se aproximar sem hesitar.

Era irracional, mas eu me sentia melhor.

Sem olhar para trás, corri para a escuridão da floresta. Meu destino era Vartheos. Meu dever me chamava.

Mas enquanto eu me afastava, o cheiro dela ainda estava em mim.

E uma certeza se cravou em minha mente.

Eu voltaria.

E não sabia dizer se isso era uma promessa ou uma ameaça.

Capítulo 3 O Retorno do Príncipe Sombrio

POV CALEB

O castelo surgiu no horizonte como uma sentinela silenciosa, um farol sombrio na vastidão gelada de Vartheos. As torres perfuravam o céu acinzentado, e as bandeiras negras tremulavam com o vento cortante, carregando o brasão do reino como um aviso.

Eu deveria me sentir em casa. Mas não me sentia.

Cada pedra, cada sombra naquele castelo deveria me ser familiar. Mas agora, parecia estranho. Como se eu fosse um estrangeiro em minha própria terra.

O frio me recebeu como um golpe de lâmina quando pisei dentro dos portões. Meu corpo protestou contra a transformação, músculos enrijecidos queimando com a dor da mudança abrupta. Minha pele nua se arrepiou, e o vento cortante me lembrou de que eu ainda estava ferido, exausto e marcado pela batalha.

Um dos guardas hesitou antes de retirar seu próprio manto e me estender, sem dizer uma palavra. Peguei a peça de roupa e a vesti rapidamente, cobrindo os cortes e hematomas que ainda latejavam. Meu corpo pulsava de dor, mas aparecer diante da corte como um lobo ensanguentado causaria uma comoção desnecessária.

Atravessar os corredores do castelo foi como cortar um mar de murmúrios sussurrados. Os olhares dos guardas e criados se cravavam em mim. Os rumores já se espalhavam enquanto eu avançava até o salão principal, como fogo consumindo madeira seca.

Eu não me importava. Mas então, vi minha mãe.

A Rainha Amelia, imponente como sempre, sentada no trono de obsidiana, trajando um manto escuro que refletia seu domínio absoluto sobre este reino.

Mas, dessa vez, seu olhar carregava algo além da frieza habitual.

Preocupação. Alívio. E, logo depois, fúria.

- CALEB!

Sua voz ressoou como um trovão. Seus olhos percorreram meu estado deplorável, e sua mandíbula se contraiu de pura indignação.

- Desaparecido por quatro dias e volta desse jeito? - Seu tom era afiado, cortante. - Eu estava prestes a enviar um destacamento inteiro atrás de você!

Soltei um suspiro pesado. Já prevendo a tempestade.

- Não foi nada.

- Não foi nada?

Ela se ergueu do trono, descendo os degraus com a autoridade de quem não aceita desculpas. Sua mão deslizou sobre os cortes ainda abertos na minha pele, e meu corpo se retesou ao contato.

- Então esses ferimentos são o quê? - Sua voz era fria. - Marcas de um passeio pela floresta?

Eu sabia que esconder a verdade seria inútil. Minha mãe não era ingênua e, além disso, tinha um faro aguçado para detectar mentiras.

- Caçadores me encurralaram - admiti. - Eram habilidosos, mas eu dei um jeito neles.

Um silêncio cortante preencheu o salão. E então... ela rosnou.

- Idiota. - Sua voz veio como um sibilo. Os olhos queimando de fúria. - Você se colocou em risco desnecessariamente! Se tivessem te capturado? Se tivessem conseguido te matar?

Minha mãe nunca demonstrava emoções assim. Não à toa. Sua fúria mascarava algo mais profundo. Medo de perder um filho. Um alfa real.

- Eu sobrevivi, não foi? - tentei aliviar a tensão, mas seu olhar me perfurou como lâminas.

- Você sempre acha que é invencível, Caleb. Um dia essa sua arrogância vai te matar.

Ela inspirou fundo, tentando recuperar a compostura. Seus olhos, ainda cheios de raiva, percorreram meu rosto em busca de mais respostas.

- Como escapou? - sua voz saiu mais baixa, mais calculada. - Como conseguiu sobreviver com esses ferimentos?

Meu corpo ficou tenso. O nome dela se formou em minha mente antes mesmo que eu percebesse.

Eu poderia mentir. Poderia esconder. Mas minha mãe não soltaria esse assunto tão fácil.

- Uma ômega.

A palavra ecoou no silêncio do salão.

- O nome dela é Enrica.

A reação foi imediata. Os olhos da Rainha se estreitaram.

- Uma ômega desconhecida?

O ceticismo em sua voz me irritou.

- Quem é essa ômega, Caleb? - sua voz cortou o ar como uma lâmina. - Como ela sabia como tratar seus ferimentos? Onde ela mora?

- É apenas uma desconhecida - respondi, cruzando os braços. - Ela me encontrou. Me ajudou.

Minha mãe não disse nada por um momento. Mas seu olhar me analisava como um caçador diante da presa.

- Nada mais?

- Nada mais.

Meus punhos se cerraram.

- Então não se importará se eu enviar alguns guardas para encontrá-la. Pelo menos para recompensá-la pelo que fez.

Meu peito se inflamou com um ódio irracional.

- NÃO! - O rosnado escapou de mim antes que eu pudesse impedir. - Ninguém vai encostar um dedo nela!

Minha mãe travou. O salão ficou tão silencioso que até a respiração parecia alta demais. Ela se endireitou, estreitando os olhos.

- Interessante.

Minha respiração estava pesada.

- Você nunca se importou com ômegas antes. - Ela inclinou a cabeça, avaliando-me como se tivesse acabado de descobrir um segredo perigoso. - E agora está pronto para proteger uma com unhas e dentes. Por quê? O que aconteceu entre vocês, Caleb?

Me calei. Eu não sabia o que dizer.

O nome dela ainda queimava em minha mente. Seu cheiro ainda estava impregnado na minha pele.

Mas admitir isso? Nunca.

Minha mãe percebeu minha hesitação.

- Então vai se calar como uma criança teimosa? - ela bateu os olhos em mim, sua postura rígida como aço. - Muito bem, se não quer falar sobre essa ômega, falaremos sobre outra coisa. Algo muito mais importante.

Eu já sabia para onde isso ia antes mesmo que ela abrisse a boca.

- A escolha de sua Luna, Caleb. - A palavra soou como uma sentença. - Você já adiou essa responsabilidade por tempo demais.

Meus punhos se cerraram. Já sabia que isso viria.

- Já falamos sobre isso - murmurei. - Eu escolho minha parceira quando for o momento certo.

- Não tem momento certo! - ela cortou. - Você é um Alfa Real. Sua Luna não pode ser escolhida por capricho ou instinto. Ela deve fortalecer nossas alianças, garantir o futuro da matilha e do reino. E isso significa uma fêmea de linhagem real.

A frieza em suas palavras fez meu sangue ferver. Eu não queria uma aliança forçada. Eu não queria ser atado a alguém por um pedaço de papel e acordos políticos.

Mas o que eu queria... também não era algo que eu pudesse ter.

Meus músculos estavam tensos, meu peito subia e descia em um ritmo contido pela raiva. Minha mãe me olhava com frieza, esperando que eu simplesmente aceitasse minha sentença como um bom príncipe deveria.

Mas eu não era um bom príncipe.

- Você quer que eu me case por obrigação? - minha voz saiu baixa, mas carregada de fúria contida. - Nenhuma fêmea real aceitaria um Alfa como eu.

Amelia estreitou os olhos.

- E por que não aceitaria?

Soltei uma risada amarga.

- Porque metade do reino me teme e a outra metade sussurra que eu sou um predador de ômegas. - Cruzei os braços, sentindo a irritação queimando dentro de mim. - Você sabe disso. Você sabe o que dizem sobre mim.

- Rumores - Amelia rebateu, sua voz carregada de impaciência. - Palavras de covardes que falam demais e sabem de menos.

- Mas que se espalham como veneno. - Passei a mão pelo rosto, exausto. - Você acha que alguma família real me entregaria uma de suas filhas para ser minha Luna, sabendo o que sussurram pelos corredores? Sabendo que eu perdi o controle mais vezes do que deveria?

Minha mãe me estudou em silêncio por um longo momento antes de soltar um suspiro cansado.

- Vá descansar, Caleb. - Sua voz perdeu um pouco da rigidez, embora sua expressão ainda fosse dura. - Você está ferido, instável. Mandarei um médico examiná-lo melhor.

Eu ia protestar, mas o olhar dela me fez desistir. Não valia a pena discutir agora.

Sem dizer mais nada, virei-me e deixei o salão, meus passos ecoando pelos corredores frios do castelo.

Assim que entrei no meu quarto, fechei a porta e me encostei contra ela, soltando um suspiro pesado. O cheiro ainda estava ali.

O cheiro dela. Enrica.

Aquele aroma adocicado e quente pairava ao meu redor, impregnado em minha pele, nos meus pulmões.

Eu podia senti-la mesmo onde ela não estava. Como se me assombrasse. Como se fosse parte de mim.

Meus ferimentos haviam sido tratados com habilidade, e eu sabia que não precisava de mais remendos. Quando o médico apareceu minutos depois, dispensei-o sem cerimônias. Eu não queria que ele apagasse o que restava dela em mim.

Mas era esse o problema. A presença dela ainda estava ali, mesmo à distância. Meu lobo sabia. Ele sentia.

Eu caminhei até a lareira acesa, observando as chamas dançarem, tentando ignorar a inquietação crescente dentro de mim. Mas a sensação só piorava. Meu peito se apertava, minha pele formigava.

Meu corpo ansiava por algo. Não. Não algo. Alguém.

A floresta. A cabana.

Minha mandíbula se travou quando percebi o que estava acontecendo. O desejo de voltar para Enrica me consumia, irracional e incontrolável. Eu podia sentir minha besta interior já decidindo por mim.

Minha mãe queria me prender dentro dessas paredes, me forçar a um casamento conveniente, a ignorar o que rugia dentro de mim.

Mas meu lobo estava acordado agora. E ele não aceitaria ser ignorado.

E se eu não tomasse logo uma decisão racional... Ele tomaria por mim.

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