Isadora Alencar
A saia de courino vermelha mal cobria a minha bunda, colada demais, curta demais, perfeita demais pra ignorar. O decote cavado mergulhava fundo entre os meus seios, fazendo meu coração bater como se pedisse socorro - ou permissão. Mordi o lábio, borrando de vermelho scarllet o dente da frente. O batom, vibrante e provocante, estava pronto para ser testado. E eu também. Ou pelo menos queria estar.
Ignorei o nó na garganta. Hoje seria a noite da resposta. Eu precisava saber - sexo era mesmo aquilo? Algo mecânico, duro, chato? Ou eu só nunca tinha sentido o que devia?
As mulheres dos vídeos diziam que o prazer começava na mente, no toque, na entrega. Mas como entregar um corpo que nunca se sentiu completamente livre? Terminei a maquiagem com a mão trêmula, mas firme o suficiente para acertar o delineado. Preto, perfeito, como uma flecha apontando o olhar. Os cachos estavam no lugar, o cabelo solto, negro, ondulado até a cintura. Encarei o espelho. E por um segundo, quase não me reconheci.
Sexy. Eu estava sexy. Provocante. Quase uma desconhecida. Mas uma desconhecida que queria se encontrar. O casamento com Enzo era na próxima semana - e antes disso, eu precisava descobrir se ainda valia a pena tentar.
Ele precisava saber se eu não era um caso perdido.
E eu... precisava saber se era mesmo tão fria assim.
A buzina soou lá fora. Meu estômago revirou. - Já vou! - gritei pela janela, a voz arranhada pela ansiedade. Peguei o sobretudo preto e o vesti como uma armadura, escondendo o corpo debaixo da roupa curta, colada e quase indecente. Me vesti feito uma vadia - me senti uma mulher.
Abri a porta. Duda me esperava com um sorriso malicioso e uma long neck aberta, que me estendeu sem cerimônia.
- E aí? Como você tá? - ela perguntou, já rindo.
- Nervosa. Trêmula. Insegura. - respondi me jogando no banco do carro, como se a noite fosse me engolir.
- Impossível, Isa. Você tá linda. Ficou maravilhosa na roupa que a gente escolheu. A gente treinou, assistiu todas aquelas aulas... amiga, eu tô me sentindo profissional, imagina você! - Ela deu partida e acelerou pela rua enquanto eu virava a garrafa na boca, sentia o líquido gelado descer queimando por dentro. E não era a cerveja - era o medo.
- Lembra do que eu disse. Luzes apagadas ou olhos fechados. Finge que tá dançando pra você mesma. Você quer saber? Então só vai saber se tentar.
Tentei engolir as palavras junto com a bebida. Tentei acreditar. E, mais do que tudo, tentei não fugir.
Mas por dentro, o desejo e o pavor dançavam juntos, como dois amantes proibidos prestes a explodir.
O hotel era luxuoso, discreto. A fachada de vidro refletia as luzes da cidade e os meus próprios reflexos, borrados pelo nervosismo e pela cerveja que ainda borbulhava no meu estômago. Duda parou o carro em frente à entrada e me lançou um último olhar cúmplice.
- Vai, Isa. Não pensa demais. Só sente.
Assenti. Meus dedos apertaram com força a alça do sobretudo. Desci do carro como quem entra numa arena. Não havia mais volta.
Na recepção, respirei fundo e forcei um sorriso.
- Boa noite... Pode me informar o número do quarto do senhor Tavares?
A recepcionista, uma mulher bonita, de cabelos puxados num coque impecável, me lançou um olhar demorado - da cabeça aos pés - e depois torceu os lábios. Com um certo desprezo, pegou um cartão magnético da gaveta, o deixou pelo balcão sem dizer uma palavra.
Na hora, algo me travou por dentro.
Talvez ela tenha me confundido com uma acompanhante. Ou talvez o julgamento nos olhos dela fosse só reflexo do que eu mesma pensava de mim.
Peguei o cartão sem cerimônia, com o que restava da minha dignidade erguida como um escudo. Não seria um olhar atravessado que me tiraria do caminho. Não hoje.
Subi pelo elevador sozinha, me olhando conferindo em tudo. O silêncio metálico me engolia. A cada andar, o som do meu coração parecia mais alto. Quando a porta se abriu no décimo segundo andar, eu sabia que não tinha mais volta. Caminhei pelo corredor acarpetado, número por número, até encontrar a porta. 1207.
O cartão desIsaou, a luz ficou verde. Entrei.
O quarto estava quase às escuras, com apenas uma luz de abajur acesa. Tudo era silencioso, arrumado demais. A cama de casal feita, as almofadas perfeitamente alinhadas. Me aproximei devagar e sentei na beira. Fechei os olhos, tentando acalmar o próprio peito. O ar parecia mais pesado ali dentro.
Mas então, a maçaneta girou.
Virei de costas, instintivamente. O clique da porta fechando atrás de mim ecoou na minha espinha.
- Apaga a luz... - pedi, com a voz baixa. Uma parte de mim ainda queria fugir. A outra queria respostas.
Ele disse algo. - Por favor, não diz nada só...- Pedi, o suspiro foi fundo.
Só apagou sem aquelas perguntas.
A escuridão tomou conta do quarto. Meu corpo tremeu por um segundo. Mas a adrenalina me moveu. Desabotoei o sobretudo com um puxão, deixando-o cair ao chão, me vi exposta. A saia vermelha brilhava, o decote, as curvas. Tudo ali. Peguei meu celular, dei play na playlist sensual.
De olhos fechados, comecei a dançar, deslizando as minhas mãos pelo meu corpo, o meu cabelo.
Lenta. Provocante. Meus quadris se movendo ao som da minha própria coragem. Rebolei, girei o corpo, passei as mãos pelas pernas, pela cintura, pelos seios. Senti meu corpo aceso. A cerveja ajudava - soltava, incendiava, a luz amena do abajur, só me revelava a sombra.
Percebi a presença dele na poltrona, ao fundo. O vulto alto, largo, silencioso. Cheguei até ele com passos felinos. Subi no colo com naturalidade, como se soubesse o que estava fazendo. Como se meu corpo tivesse memória.
- Você tá gostando...? - murmurei, quase num sussurro.
Ele continuava calado, mas a respiração mais forte entregava a excitação. Era forte. Os braços firmes. O peito largo sob a camisa social.
Subi as mãos pelo seu pescoço, puxei seus cabelos com suavidade, escorreguei os lábios pelo contorno do maxilar até encontrar sua pele quente. Beijei. Chupei. Mordi. Senti um arrepio percorrer sua espinha. Um gemido abafado escapou por entre seus lábios.
- Hm... - saboreei o som como se fosse resposta.
Abri os botões da camisa, um por um. Revelei o peitoral definido, o cheiro másculo invadindo minhas narinas. Franzi o cenho. Estranhei o perfume. Era diferente do que ele usava. Mais amadeirado. Mais forte, ele havia trocado, não me lembrava.
Mas ignorei.
Subi no colo dele, roçando meu corpo contra o dele, sentindo o volume pulsante sob a calça. Sorri, embriagada pela sensação. Me movi, provocando. Ele reagia. As mãos pousaram em minha cintura, firmes, mas contidas.
Excitação. Jogo. Fome.
Suas mãos grandes me agarravam, quando neguei. - Não, hoje sou eu quem mando. - Disse escorrendo pelos os seus dedos, me agachando a sua frente, eu sabia que ele estava louco pelo o meu boquete, sempre pedia, e o segredo era, apenas pensar em coisas boas, sorvete, pirulito, aquela mulher disse no video.
Abri os botões da sua calça, o ziper devagar, quando o seu pau foi arrastado para fora da cueca, tudo que vinha a minha mente, era a voz daquela mulher, mandando chupar, lamber, me labuzar. Engoli em seco pelo tamanho, parecia maior do que eu recordava.
E sequer olhei para ele, me curvei sobre o pau grande e volumoso, brilhando, chupei de leve a cabeça, depois baixo para cima com a lingua, segurando bem a cabeça, fiz e refiz o movimento ouvindo murmurios do homem se contorcer, proferir xingamentos baixos, a voz rouca, grossa até que ele se colocou de pé a minha frente. - Eu quero foder a sua boquinha. - Acariciou o meu rosto de leve.
A sua mão foi a minha nuca. - Tem certeza que quer, princesa? - Eu estava para jogo, a minha boceta já estava molhada só com a voz dele, me dizendo que eu estava indo bem, que quando ele começou a por na minha boca, aos poucos. - Que boquinha apertada você tem, minha delícia, ooh, isso, eu vou foder a sua garganta, princesa. - Proferria em sussurros, como se fosse uma prece.
Assenti, olhando para cima, comtemplada apenas pela penunbra na escuridão. A luz do abajur não nos alcançava, era distante, insuficiente, eu já estava enervada, a minha boca aberta, o seu pau deslizava para dentro e para fora, numa facilidade. - Hmmm...hmmm.- Eu gemia, murmurrava, aquilo era mais que delicioso.
Que quando reassumir o controle, segurando pela base e bati na lingua, a mulher do video disse que eles gostavam disso.
- Você gosta de provocar - ele murmurou, com a voz baixa e rouca, como se tivesse se contido até ali por puro prazer. Ri, mas o homem me puxou para si, suas mãos brutas foram dos meus braços a minha cintura rapidamente.
As mãos dele subiram pela minha cintura, firmes, decididas, e desIsaaram pelas minhas costas nuas, puxando meu corpo ainda mais contra o dele. O calor dele me envolvia, e eu me sentia acesa por dentro, como se cada toque acendesse um fósforo na minha pele.
Minha respiração já era ofegante, curta. O couro da saia esquestava mais.
Mas não parei.
Inclinei o corpo para trás, exibindo meus seios apertados pelo decote, passando as suas mãos por cima deles, massageando enquanto ele me apertava. Senti a boca dele me devorando no escuro,chupando cada curva que eu oferecia, pescoço, ombro, orelha.
- Hoje... eu quero saber - sussurrei, me inclinando até ficar com os lábios colados na orelha dele - se sou mesmo fria... ou se ninguém nunca soube me acender.
Mordi de leve seu lóbulo.
Ele gemeu baixo.
A penumbra deixava tudo mais intenso, até que me virei, o empurrei para a poltrona.
Sentei sobre ele, a sua mão foi rápida puxando a minha calcinha, tocou o seu sexo, me acariciou com os seus dedos, me fazendo gemer, aquilo não era bom, era uma verdadeira perdição, até que ainda me tocando, ele me pincelou com o seu pau.
Um gemido abafado escapou da minha garganta quando o senti me preenchendo devagar, centímetro por centímetro. Ele era quente, grosso, profundo. Me agarrei aos ombros dele enquanto começava a cavalgar com lentidão, sentindo cada pulsar, cada toque dele dentro de mim.
Abri os olhos devagar.
O quarto estava escuro.
Era como se não ver nos libertasse. Como se o mistério aumentasse o desejo.
As mãos dele agarraram meus quadris, guiando meus movimentos. Eu rebolava, subia e descia, o som molhado e sujo do nosso encaixe ecoando pelo quarto abafado. Meus cabelos caíam sobre o rosto dele enquanto ele lambia meu colo, chupava a curva dos meus seios, puxava meu mamilo com os dentes por cima do tecido.
- Porra... você não é fria. É lava - ele gemeu, a voz embargada de tesão.
Inclinei o corpo para frente e beijei sua boca. Quente. Molhada. Fome.
Nossas línguas se encontraram, e ali não tinha mais certo, errado, nome, casamento, promessa.
Só instinto.
Acelerei os movimentos, sentindo minha barriga endurecer, a pressão se formar entre minhas pernas como uma explosão prestes a acontecer.
Ele me virou de costas, sem sair de dentro. Me colocou de quatro sobre a cama, arrancou minha calcinha com um puxão e me penetrou por trás, com força. - Ah! -Gritei. De prazer.
As estocadas eram profundas, ritmadas, deliciosamente sujas. O som dos nossos corpos colidindo se misturava aos gemidos dele, aos meus. As mãos dele apertavam minha cintura, minha bunda, uma delas subiu pelas minhas costas e puxou meu cabelo, me fazendo olhar para trás.
- Quer saber o que é sexo de verdade? - ele rosnou. - Então sente.
E estocou mais fundo.
Eu senti. O corpo todo. O grito preso. A explosão. Gozei com um tremor que me fez perder a força nos braços, meu corpo inteiro se contraindo ao redor dele. Senti quando ele também gozou, logo depois, com um gemido abafado, quente, marcando minha pele.
Silêncio.
Respiração ofegante.
Ainda dentro de mim.
Caímos de lado. Meus olhos estavam fechados. Meu coração ainda batia como se quisesse sair pela boca. Quando recobrei a razão, senti a pele dele contra a minha. O cheiro dele. O suor. O perfume... que ainda não era o do Enzo.
O céu acinzentado de Serra das Águas parecia anunciar o caos que meu dia já havia se tornado. Meu jatinho particular fora desviado por causa de uma tempestade, e o aeroporto de Belo Horizonte estava um pandemônio. Acionei minha equipe, pedi silêncio, discrição e uma reserva em algum lugar que me permitisse respirar longe dos Tavares - pelo menos por essa noite. A última coisa que eu queria era lidar com as chantagens emocionais da minha cunhada, ou com as cobranças veladas do meu irmão mais velho.
O nome do hotel era Golden View Boutique, na parte mais alta da cidade. Luxuoso, silencioso, elegante, do jeito que eu gostava, já não tinha as contas daquele lugar a anos. Entrei de óculos escuros, camisa preta semiaberta no peito. O cansaço dos últimos dias estava me esmagando as costas. Negócios em São Paulo, uma crise envolvendo meu nome em uma fusão mal explicada, escândalos que precisavam ser abafados. Eu só precisava de uma noite. Uma cama, um banho quente e silêncio.
A recepcionista me olhou com aquele ar profissional demais, como se quisesse disfarçar um julgamento implícito. Me entregou o cartão-chave do quarto sem sequer me desejar boa noite. Estranhei. Mas ignorei.
Subi. O corredor do oitavo andar estava mergulhado numa penumbra elegante. Tapetes grossos, aroma de lavanda no ar. O quarto era amplo, com uma cama king-size, lençóis perfeitamente esticados, luzes de cabeceira acesas em tom âmbar. Eu estava pronto para me jogar naquela cama e esquecer que o sobrenome Tavares pesava tanto.
Mas, assim que abri a porta, escutei a voz.
- Apagar a luz...
A voz era feminina, suave, mas firme. Como um pedido ensaiado. Fiquei parado por um segundo, tentando entender se era um trote, uma armadilha, ou só o meu cansaço me pregando peças. Não vi seu rosto, só suas costas. Ela estava de frente para a janela, os cabelos pretos escorrendo pelas costas, o corpo envolto por um sobretudo prestes a cair.
- Você...? - Tentei perguntar, mas parei.
- Por favor, não diz nada só...- Ela pediu.
A curiosidade me venceu. Apaguei a luz.
O que se seguiu parecia um sonho turvo, pela musica sem voz, abafado pelos cheiros, pelas sombras e pela respiração entrecortada dela. A mulher tirou o sobretudo como quem se desfaz de um segredo, e o que revelou por baixo era simplesmente... luxúria pura. A saia vermelha em couro colava na pele como um convite indecente, o top afundava entre os seios, deixando claro que ela sabia o que estava fazendo.
Ela começou a dançar. Sensual, provocante, lenta. Cada rebolado me deixava mais hipnotizado. O quarto, agora envolto na penumbra, se transformava em um palco privado, e eu - exausto, estressado, com a cabeça cheia de ruídos - fui tragado pelo silêncio que ela trazia.
Ela se aproximou, subiu em meu colo como se aquele lugar fosse dela por direito. Seus quadris rebolavam sobre minha calça como se soubessem exatamente onde tocar, quando apertar. Eu não disse uma palavra. As mãos dela invadiram minha camisa, abriram botão por botão. Meus músculos tensionaram sob seu toque.
- Você tá gostando...? - ela sussurrou no meu ouvido, roçando os lábios no meu pescoço antes de chupar com intenção, como se quisesse deixar uma marca.
- Sim - Mal consegui responder.
Era como se aquela mulher desconhecida tivesse o mapa do meu corpo. Eu não transava com alguém há meses, e o que vivi com ela foi além do sexo: foi um exorcismo. Como se ela tirasse de mim toda a amargura, a exaustão e as dores que eu carregava.
Ela sentou em mim, me provocou até me deixar duro como pedra, depois subiu e desceu com um controle que beirava a crueldade. Seu prazer parecia sincero, e o meu... inevitável, me chupava como se eu fosse algo bem doce, bem gelado num calor insuportável no deserto, e quando eu senti a sua boceta quente.
O gozo veio com um grunhido abafado na garganta. Eu fechei os olhos, pressionando seu quadril contra mim como se ela fosse minha âncora, até cairmos contra a cama, os seus olhos escuros se abriram como duas onix, ela era linda, seus traços finos bem marcados, a sua boca pequena como quem pedia um beijo a cada segundo, somente por sua existência, ela me observou tempo o suficiente para me fazer recuperar o juízo.
Mas então, num movimento brusco, ela se afastou. Pulou da cama como se tivesse acordado de um transe. Ficou de pé, ofegante, os olhos arregalados, os braços cruzando o peito nu em um gesto de vergonha - ou talvez pavor.
- O que você está fazendo aqui?! - ela perguntou, a voz embargada, quase rouca. - Esse não é o... Meu Deus.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela correu até o chão onde havia jogado o sobretudo. Vestiu com pressa, sem olhar pra mim.
- Espere, me escuta... - levantei da cama, tentando alcançá-la, confuso, ainda processando o que havia acontecido.
- Não! - ela rebateu, erguendo a mão como uma barreira invisível. - Isso foi um engano! Um grande engano.
E então saiu, descalça, de cabelos bagunçados, com a vergonha grudada na pele como perfume.
Fiquei parado. Nu. Sem entender o que diabos tinha acabado de acontecer. Olhei para a cama. Os lençóis amarrotados, meu peito ainda arfando. A pele dela ainda quente na memória.
Eu não sabia seu nome. Não sabia por que estava ali. Mas sabia de uma coisa.
Aquela mulher... havia me dado algo que eu não sentia há anos. Tesão de verdade. Entrega. Um prazer que ia além do físico.
E ela fugiu. Me deixando com mais perguntas do que respostas. E uma certeza crescente:
Eu precisava vê-la de novo.
A água quente caía com força sobre meu corpo, escorrendo por cada músculo tenso, como se pudesse lavar as marcas que ela deixou. Mas não lavava. Fecho os olhos e tudo volta: o som abafado dos gemidos dela, a forma como seus quadris se moviam como se pertencessem à noite, não ao mundo real. A respiração arfante, o gosto da pele no meu lábio, o cheiro de perfume adocicado misturado à provocação do couro vermelho que ainda me queimava a retina.
Mas o que me corroía por dentro não era o prazer.
Era a forma como ela fugiu.
Ela olhou pra mim como se eu fosse um intruso. Como se eu tivesse cometido um crime por estar ali, naquela cama. Como se tudo que vivemos tivesse sido... errado. E isso me incomodava. Eu não era um homem que costumava ser deixado assim. Muito menos por uma mulher que gemia meu nome segundos antes de me olhar como se eu fosse o diabo.
Passei as mãos no rosto, esfreguei os olhos sob o jato da água e respirei fundo. Era apenas uma mulher, eu repetia a mim mesmo. Só mais uma noite, um engano. Mas meu corpo não concordava. E minha mente, menos ainda.
Na manhã seguinte, vesti uma camisa branca dobrada nos punhos, calça social escura e sapatos italianos. Cabelos levemente molhados, barba por fazer. Apanhei meus óculos escuros e a pasta de couro que levava sempre comigo.
Quando desci para fazer o check-out, meus olhos foram direto para a recepção. Parte de mim, idiotamente, esperava vê-la ali. Quem sabe de novo, de vermelho, cruzando o saguão como uma miragem latejante da noite anterior.
Mas em vez disso, encontrei algo que me fez endurecer por completo - e não no bom sentido.
- Tio Dante?
A voz veio hesitante, e quando virei, lá estava ele. Enzo Tavares. Meu sobrinho.
Estava elegante demais para uma manhã qualquer. Camisa social azul clara, calça de linho, aquele sorriso culpado que ele sempre usava quando sabia que estava onde não devia - ou com quem não devia.
- Enzo - respondi com uma sobrancelha erguida, retirando os óculos. - Que agradável surpresa.
Ele tossiu, ajeitando a gola como quem tentava ganhar tempo.
- Eu... eu não sabia que você estava na cidade.
- Nem eu - retruquei, seco.
O silêncio entre nós pesou. E foi então que percebi: ele parecia nervoso. Mais do que o normal. Olhava para os lados, como se procurasse alguém - ou temesse que alguém o visse comigo.
- Bom - ele pigarreou -, agora que você tá aqui... vai ser bom, sabe? Todo mundo sentiu sua falta.
Eu revirei os olhos mentalmente.
- Não vai dar pra escapar dessa vez, é? - murmurei, mais pra mim do que pra ele.
Enzo forçou um sorriso e, de repente, tirou um envelope do bolso do paletó. Era creme, com uma fita dourada amarrando-o com delicadeza. Eu o encarei sem estender a mão.
- Convite? - perguntei, já adivinhando a resposta.
- Vou me casar, tio.
A frase caiu como chumbo nos meus ouvidos. Ele parecia animado, mas o olhar dele ainda trazia uma sombra de desconforto. Como se algo ainda não estivesse certo.
Peguei o envelope sem romper o lacre. Apenas o segurei entre os dedos.
- Com quem?
- Com a mulher da minha vida. - sorriu, mas seus olhos vacilaram por um segundo. - Você vai gostar dela, tenho certeza. Ela é incrível.
Incrível.
A palavra ecoou dentro de mim enquanto uma suspeita lenta, de que incrivel dele, não fosse para mim.
Enzo continuava falando, mas eu já não o ouvia. As imagens da noite anterior invadiam minha mente com força. O vermelho. Os cabelos pretos. A forma como ela sussurrava. A forma como ela fugiu.
Minha garganta secou, quem era aquela mulher?
- Quando? - perguntei, tentando parecer neutro.
- Semana que vem. No sítio da família, vai ser íntimo. Minha mãe está enlouquecida com os preparativos... e bom, meu pai quer que você vá, nem que seja por poucas horas.
Assenti devagar, tentando manter o controle.
- Claro. Não perderia por nada. - Disse ao garoto que sorriu.
A mentira saiu suave. Mas por dentro, meu corpo inteiro latejava de um jeito que não acontecia há anos. Porque uma dúvida se enraizava em mim. - Por acaso, você dormiu aqui esta noite?
Perguntei, mas Enzo apontou para si, negando. - Eu? - Olhou para trás receoso. - Não, tio, porque? Dormi na minha noiva, sabe como é... - Coçou atrás da orelha tentando se explicar.
- ...vamos nos casar em breve, né e...
- Já entendi, garoto, era apenas uma duvida.
As portas do elevador mal se abriram, já corri. O salto batia apressado no chão de mármore do saguão do hotel, abafado pelas batidas do meu coração. As lágrimas ardiam, represadas no limite. Apertei o sobretudo contra o corpo, ainda sentindo os dedos daquele homem marcados em minha pele, ainda sentindo o gosto daquele homem na minha boca.
Não sabia seu nome, e nem queria saber.
Só sabia que ele era tudo que não deveria ter acontecido.
Entrei no táxi tremendo.
As mãos agarradas no tecido da saia curta de courino vermelho. Eu me odiava. Odiava minha confusão, meu corpo suado, meu desejo tão entregue, minhas carnes trêmulas.
Odiava ter gostado tanto.
Assim que cheguei em casa, larguei o sobretudo no chão e me joguei no sofá, chorando com a alma. O espelho na parede me refletia: olhos borrados, cabelo bagunçado, o batom vermelho manchado nos cantos da boca. A mulher que me encarava não era eu.
Eu traí Enzo.
Mas... não era ele.
Eles eram parecidos, tão parecidos. Corpo forte, braços largos, perfume amadeirado... Eu pensei que era ele. Eu juro.
Era pra ser uma surpresa.
Mas aquele homem...
Toquei os lábios, ainda quentes. Lembrei da forma como minha boca o explorou, como ele deixou que eu o dominasse por um instante - só para depois me tomar como se eu fosse dele.
Lembrei do silêncio dele. Não perguntou meu nome, não questionou minha dança.
Apenas apagou a luz.
Obedeceu como quem já sabia o que queria.
E quando me teve... me atravessou como se me conhecesse por dentro.
Meu corpo inteiro respondeu a ele. E agora, ele era um fantasma quente, agarrado aos meus ossos, me lembrando do prazer que eu nunca conheci com ninguém - nem mesmo com Enzo.
O celular tocou. Duda. Claro que seria ela. A cúmplice de tudo. Mas eu não atendi.
Não conseguiria explicar. Não conseguiria dizer que, na ânsia de surpreender meu noivo com uma noite ousada, eu entreguei meu corpo ao homem errado, tomei um banho para me lavar de tudo aquilo, mas o meu corpo persistia, eu sentia o seu toque em minhas entranhas, elas não eram as mesmas, deitei na cama, rolei o resto da noite.
Liguei para Enzo, mas como sempre, deixe o seu recado.
Engoli o choro, enxugando o rosto. Mas ele voltava, insistente, sufocante.
Entrei no banheiro, me sentei diante do espelho e tentei me maquiar para o trabalho.
Hoje deveria ser um dia feliz. Mas o rímel borrava com as lágrimas, o batom tremia na minha mão. E no reflexo, o que via era apenas uma mulher partida ao meio: o corpo queimando por um estranho, e o coração preso a um homem que agora parecia tão... pálido diante da memória daquela noite.
Fui para o trabalho, apesar de não estar em condições, eu precisava estar lá. O restaurante estava agitado, como sempre. Passei entre as mesas, desviando de garçons, tentando manter a compostura. Meus olhos procuraram Enzo. Nada. Pelo menos por agora. Me joguei no trabalho como se isso pudesse calar a bagunça dentro de mim. Mas no início da tarde, como num roteiro calculado pelo destino, ele apareceu. Enzo.
- Amor - disse ele, abrindo um sorriso bonito, mas... não era o sorriso dele que me feria. Era o vazio que me causava.
- Vamos lá em cima um poucor? Quero você um pouco pra mim. - Concordei com a cabeça. Eu precisava contar. Eu precisava libertar aquela culpa antes que ela me esmagasse. Subimos ao terraço do prédio da família dele - um lugar secreto nosso, onde ele costumava me levar para conversar sobre o futuro.
Lá em cima, o céu estava claro, e o vento bagunçava meu cabelo.
- Senti sua falta - ele disse, me puxando pela cintura, colando nossos corpos.
- Enzo, eu... - Suspirei buscando me afastar do seu beijo, quando apertou o meu nariz, rindo.
- Que dia você vai fazer a tal surpresa, hein? - ele riu, me dando um selinho.
- Fiquei esperando algo essa semana... - Meus olhos se arregalaram. Ele nem sonhava que já tinha acontecido. Ele não era o homem daquela noite. Eu sequer conseguia organizar as palavras, diante dos seus olhos escuros nos meus. - Amor...eu...- Eu buscava dizer.
Senti as mãos dele descerem pelas minhas coxas, me apertando contra o parapeito de concreto. O vento soprava forte. Os carros pareciam formigas lá embaixo. Ele me beijava o pescoço. Me tocava. Mas tudo que eu sentia era... nada. Nada. Nenhuma faísca, nenhuma vontade. Eu estava ali, com o homem que eu amo, mas meu corpo... meu corpo ainda queria outro.
O silêncio daquele homem, a presença dele, o toque que me devorava em silêncio, aquilo sim havia me marcado. E agora eu estava presa em um noivado com um homem que não me acendia. A culpa me rasgava. Mas pior que ela, era o desejo que ainda me queimava por outro. Por um homem que nem sabia meu nome.
- Enzo, Enzo...- Tentei dizer enquanto erguia a minha saia, o vento bagunçava os meus cabelos, eu a segurei a saia para baixo, ele a movia para cima, entre beijos em meu pescoço, chupadas.
- Estamos sozinhos aqui, ninguém vai subir...- Sussurou contra a minha pele. Engoli em seco, nós precisavamos saber, mas eu já tinha descoberto. Enzo sequer esperou qualquer resposta, quando contra o parapeito, se colocou entre as minhas pernas.
- Tô louco para te sentir de novo, não vejo a hora de estarmos juntos para sempre, nossa já é semana que vem. O olhei em seu rosto, sem ter tanta certeza, o amor era importante, mas havia mais, eu queria mais tanto para receber, quanto para dar, e isso, eu não estava dando. - Enzo, nós precisamos conversar. - Pedi tentando me afastar, mas ele segurou a minha cintura.
- Fala, estou aqui a todos ouvidos, estou sonhando com você usando o vestido de noiva, esta tudo...Ah! - Ele me penetrou, franzi o cenho pelo incomodo, ainda estava dolorida do outro, sem sentir porra alguma, exceto incomodos.
- Já! - Menti em sussurro, eu não estava pronta, nenhum um pouco pronta, eu queria que ele terminasse, que ele parasse, que tudo aquilo logo acabasse, que o seu pau molhado parasse de entrar e sair, que ele parasse de ofegar contra a minha orelha, de beijar o meu pescoço, morder o meu ombro, me cheirar... Não era ele, era eu, que ainda estava lá, naquelas mãos, sem aqueles excessos de gemidos altos, excessivos.
- Essa boceta é minha, não é? Diz que eu sou o dono dela. - E sem essas perguntas idiotas, eu era dele, ao menos me sentia assim.
- Claro...claro que é, meu amor. - Mas tudo mudou quando olhei para a escada, o homem ali de pé, de blusa preta, óculos escuros, cabelos pretos, forte, barba por fazer, semblante fechado nos olhando com as mãos nos bolsos, nos assistia, e eu o reconheci, ele nos assistia em silêncio, tentei empurrar Enzo que me segurou mais firme, falando sem parar. O Homem de semblante fechado, retirou os óculos, nos olhando como se me reconhecesse, e a semelhança era imensa, talvez mais fiel, como Alvaro Tavares, o meu sogro, porém mais cuidado, engoli em seco, os seus olhos escuros se fixaram aos meus de imediato.
O olhei por inteiro de cima para baixo, e quando os meus olhos encontraram o seu pau, aquele pau, as lembranças dele, saindo e entrando na minha boca, deslizando, escorregando, seus xingamentos prosmicuos, a maneira como ele segurou a minha nuca, como me dominou naquela cama.
- Ah! Ah!- Enzo me olhou de lado, sem parar de se mover, enlacei a sua cintura rebolando nele com vontade, mas não era ele que eu queria, era insano, profano, eu nunca me senti assim. - Gozei querida! - O homem dentro de mim, disse enquanto o jato quente escorria, e o seu pau amolecia, se apoiando no parapeito quase me derrubando nele.
Não desci, saltei do seu colo, vendo ali aquele homem nos olhar, Enzo se recuperava em mim, quando se afastou, que o percebeu.
- Ah merda, tio Dante - Disse nervoso, o sorriso amarelo. - Quê?- A pergunta não saiu, escapou quase em grito, enquanto um jato de gozo escorria pelas minhas pernas, o olhar do homem de preto para mim depois para o meu noivo, me fez engoli em seco. - Tio? O que faz aqui?
Enzo ainda buscava se ajeitar, eu disse para ele que não dava. Tio? Eu não sabia onde enfiar a minha cara de vadia, suja, era como eu me sentia.