ANNA.

PRÓLOGO.
- Você vai pagar por isso sua vadiazinha! Eu falei pra você não voltar enquanto não conseguisse o dinheiro. Volta aqui... Não adianta correr, você sabe que eu vou te pegar e será pior ainda... Eu preciso beber e você não presta nem mesmo para arranjar dinheiro. Você não presta para nada por que não morreu junto com sua mãe? Eu não precisaria criar você! Garota ingrata.
Acordei mais uma vez chorando.
Odeio quando tenho esses pesadelos com meu padrasto. Já faz dois anos que ele nunca mais me machucou, mas as marcas em minhas costas parecem terem sido feitas ontem, cada vez que acordo por conta dos pesadelos elas doem como se as marcas tivessem acabado de ser feitas.
E sempre que tenho esses pesadelos é como se ele estivesse me batendo, é angustiante, doloroso, aterrorizante as imagens que passam pela minha mente. Não tenho esses sonhos sempre, mas quando tenho, o medo volta novamente. Com o tempo, os pesadelos diários foram mudando para quase nunca, mas cada vez que tenho os pesadelos, o tremor, o medo e as lágrimas estão comigo quando acordo.
Ele nunca mais poderá me machucar, mas as marcas que ele deixou irei carregar para sempre, talvez eu nunca mais conseguirei ter uma vida normal depois de tudo que passei!
Me levanto da cama tremendo, parece que meus pesadelos às vezes são reais ainda. Olhando no espelho eu nem mesmo me reconheço, uma garota pálida, branca de mais até. Meus olhos verdes não tem brilho, não mais! As olheiras profundas demonstram em meu olhar tantas noites mal dormidas. O cabelo castanho revolto, também é uma prova de que as vezes eu esqueço de cuidar de mim mesmo, apenas me assombrando com meu maldito passado!
♡
- Bem, deixa eu contar a vocês um pouco da minha história, do meu passado, para que entendam como foi difícil chegar até aqui. - Anna começa a contar sua história para as pessoas que estão ali. Um grupo de apoio que sofreram como ela, e tentam conviver com tudo o que passaram.
- Relembrar é muito doloroso, mas hoje acho que estou pronta, eu quero contar! Para que vocês entendam o meu medo, e como está sendo difícil para mim. Minha tia nunca soube o que aconteceu comigo e nem sei se tenho coragem de contar, ela cuida tão bem de mim, acho que iria se culpar pelo que aconteceu comigo depois que minha mãe morreu. Ela já se culpa por não saber nem mesmo que a irmã tinha morrido, por não poder estar ao meu lado naquele momento tão difícil. - Anna vai contando sua história sentindo seu corpo tremer e as lágrimas embaçam sua visão, mas ela não quer chorar.
- Assim que ela ficou sabendo da morte da minha mãe ela foi me buscar, mas aí eu já tinha sobrevivido ao inferno! As únicas pessoas que sabem de tudo que passei estão bem longe de mim agora. E como eles fazem falta na minha vida... sinto que não estou conseguindo mais, preciso reencontrar aqueles que sabem da minha história, parecia mais fácil quando eu tinha eles próximos a mim. - Anna vai contando sua história.
Ela já teve muitas vezes ali, até se apresentou a todos mas nunca teve coragem de contar, mas agora ela decidiu que era hora de dividir sua dor, quem sabe assim ajuda amenizar tanta dor e sofrimento.
- Eu só tinha seis anos quando meu pai morreu, não tenho muita lembrança dele e o que me lembro é muito vago. O que tenho de recordação, são as fotos de nós juntos. Ele, minha mãe e eu, era uma época muito boa em nossas vidas, não existia tristezas, pelo menos até meu pai morrer em um acidente de trabalho. Disso eu me lembro bem, foi um dos piores dias da minha vida. Acho que coisas ruins nossa mente gosta de guardar na memória. Minha mãe sofreu tanto depois da morte dele. - Anna vai contando sua história, relembrando dos momentos difíceis. Ela abraça o corpo, tentando amenizar um pouco, nunca conseguiu ser abraçada, ela queria muito saber como é ter outro corpo junto ao dela, lhe segurando nos braços com carinho.
- Depois de toda a tragédia era apenas minha mãe e eu. Não era tão bom como quando meu pai estava vivo, mas minha mãe sempre fez de tudo por mim e me dava toda a atenção que podia, ainda existia muito amor em nossa casa. Mas quando fiz dez anos, minha mãe se casou novamente, com um homem que eu julguei ser bom, mas anos depois ele mostraria sua verdadeira face. - Anna fala sentindo seu corpo estremecer, nem sua braços em volta do corpo disfarçou seu medo.
- No começo ele me tratava muito bem, não tinha o que reclamar, tudo o que eu queria ele me dava, cuidava muito bem da minha mãe e de mim. Ele amava ela, e ela o amava, e isso para mim era o bastante. Mas tudo começou a mudar quando eu tinha treze anos. Minha mãe começou a ficar doente, e em um exame foi diagnosticado que ela estava com câncer de mama. E já estava bem avançado o caso dela e o tumor era maligno. - Diz ela tentando desfazer o nó em sua garganta. - Apesar de ser apenas uma criança de treze anos, eu entendi bem o que aquilo significava, eu perderia minha mãe também! - Ela fala e sente as lágrimas caírem dos seus olhos.
- A cada dia que passava ela só ia piorando. Os remédios que ela tomava, as quimioterapias, pareciam não fazer efeito algum. Ela nunca melhorou e a cada dia que passava ela estava mais fraca. Eu via minha mãe morrendo aos poucos e não podia fazer nada para ajudar. - Anna fala num soluço de dor profunda, se lembrando de tudo que passou.
- E como se a desgraça já não fosse o bastante, meu padrasto chegou em uma tarde em casa e disse que tinha perdido o emprego. Naquele momento nosso mundo desabou de vez. Dizem que uma desgraça nunca vem sozinha, ela sempre trás campainha e eu não acreditava nisso, mas hoje eu acredito! Minha mãe já tinha feito a cirurgia, continuava tomando os remédios, ou os que podíamos comprar, já não tínhamos mais dinheiro pra quase nada. - Fala secando as lágrimas que caem por seu rosto sem parar.
- Meu padrasto, depois de procurar empregos e não conseguir nenhum, abandonou tudo e vivia sentado na frente da TV tomando cerveja, gastando o pouco que nos restava com bebida. Já nem parecia o mesmo homem que casou com a minha mãe, ou ele estava mostrando quem ele realmente era de verdade. Eu cuidava da minha mãe, e ainda tinha que ficar levando cerveja pro desgraçado que não podia levantar a bunda do sofá para pegar. Aquilo já estava me enchendo. - Diz ela com raiva.
- Os meses foram passando e minha mãe não melhorou, eu sabia que era por ela não tomar todos os remédios, mas não tínhamos dinheiro para comprar e eu nem mesmo tinha idade para procurar um trabalho para ajudar. Até mesmo a minha festa de aniversário de quatorze anos já tínhamos cancelado por falta de dinheiro, minha mãe já não trabalhava mais por conta da doença, e o meu padrasto também desempregado, nossa vida estava indo cada vez pior, descendo ladeira abaixo. - Diz ela em um suspiro profundo.
- Mas como disse, a desgraça sempre trás campainha e em um dia estava ajudando minha mãe ir até o banheiro e meu padrasto gritou pra que eu levasse uma cerveja. Eu já estava cansada daquilo... - Diz ela, relembrando aquela tarde.
MEMÓRIA ON...
- Vá você! - Respondeu.
- Eu mandei você garota!
- Agora não posso, estou ocupada.
- Deixa o que está fazendo e vai na cozinha e pega logo minha cerveja, não posso sair daqui estou assistindo jogo.
- Vai filha, vou ficar bem. - Sua mãe falou com a voz fraca segurando na porta do banheiro para conseguir se manter em pé.
MEMÓRIA OFF...
- Deixei ela ali e fui pegar a cerveja pro desgraçado do meu padrasto. Quando entreguei a ele, ouvi um barulho no banheiro. Corri para ver o que tinha acontecido, e minha mãe havia caído por estar tão fraca. Gritei para meu padrasto que ela precisava de ajuda, mas ele nem se mexeu. Disse que não podia perder o jogo! Naquele momento eu conheci quem ele realmente era. - Anna chora em desespero.
- Liguei para o hospital e eles mandaram os enfermeiros, eles ajudaram minha mãe. Ela quebrou o braço ao cair e bater no vaso sanitário. E o desgraçado nem se mexeu! - Diz ela com ódio se lembrando.
- Depois do ocorrido com a minha mãe, eu fingia que ele não existia. Cuidava apenas da minha mãe. Fazia a comida e cuidava da casa não ia nem mesmo a escola com medo de deixá-la sozinha. Mas os dias foram passando e minha mãe nem mesmo da cama se levantava mais. Um mês depois ela não aguentou e morreu. Aquele dia para mim foi meu fim, uma semana depois do meu aniversário tive que enterrar minha mãe, e foi horrível. Saber que as duas pessoas que eu amava agora estavam mortas. Só que o pesadelo estava só começando. - Anna vai contando sua história de vida, enquanto as pessoas ouvem com atenção. Todos ali tinham problemas com o que passaram, mas aquela garota tinha marcas profundas do passado.
- Não tinha mais ninguém, além da minha tia, irmã da minha mãe, a qual hoje eu vivo com ela. Não pude nem avisar que minha mãe havia falecido. Ela morava aqui, em outro estado distante de nós e eu não sabia nem mesmo seu telefone. Por isso o que me restava era morar com meu padrasto. A casa era do meu pai e está no meu nome, como era menor precisei de um responsável. E ele não tendo nada, então teríamos que ficar juntos. Não achava que seria tão ruim até chegar em casa do velório da minha mãe, e aquele dia foi o primeiro de muitos dos quais ele me bateu. - Anna vai contando sua história sentindo a dor angustiante ir diminuindo, parece que finalmente ela estava conseguindo respirar sem sentir aquela dor esmagadora dentro do peito.
DIA DO VELÓRIO _ MEMÓRIA ON.
Anna entrou pela porta e seu padrasto veio logo atrás dela indo em direção a sala. Ele pediu uma cerveja e ela mandou ele ir se ferrar. Esse foi um dos seus piores erros.
Ele voltou até onde ela estava e a pegou pelos cabelos, fazendo ela se ajoelhar por conta da dor.
- Quero que saiba que quem manda aqui sou eu sua coisinha insignificante. E se eu mandei você pegar uma cerveja, obedeça.
Ele falou e soltou o cabelo dela, em seguida deu um tapa na cara dela com toda a força que um homem tem. Ela gritou pela dor que sentiu, foi muito pior que o aperto em seu cabelo, um gosto metálico, de ferro, em sua boca, sangue, o tapa que ele deu tinha cortado seu lábio.
- VAI LOGO. - Gritou ele fazendo ela se estremecer de medo.
E ela saiu correndo, tropeçando nos seus pés. Ela nunca tinha apanhado, nunca tinha levado um tapa sequer da sua mãe e agora ela tinha sentido que dói, e muito.
Entregou a cerveja a ele ainda tremendo e saiu correndo pro meu quarto. Ele gritou atrás dela.
- Isso foi só o começo, agora em diante você vai me obedecer sua pirralha.
MEMÓRIA OFF.
- E aquele dia, foi quando começou o meu inferno. - Diz ela se recordando de tudo que passou, durante o tempo que viveu com seu padrasto.
Quando você pensa que não há o que piorar, mas aí você descobre que tem sim, nada é tão ruim que não possa piorar!!!
Os dias foram passando, meses na verdade e o sofrimento era cada dia pior. O padrasto da Anna já tinha gasto todo o dinheiro que restava com bebida.
Não tinha nem mais comida em casa, ela comia na escola ou quando a dona Lola dava a ela algo que sobrava da padaria, do contrário era sua única refeição do dia. Os fins de semanas eram bem mais complicados, tinha vezes que Anna não aguentava a dor em sua barriga pela fome constante.
Se não bastasse isso, as surras eram cada vez mais constantes. Era só ela fazer algo que ele não gostava que Anna apanhava até muitas vezes sangrar. E por conta disso acabou se afastando dos poucos amigos que tinha. Já não era muito "popular" e depois das surras ficou mais isolada ainda. Ela tinha medo que vissem as marcas em seu corpo. Sempre andava com roupas soltas e de mangas compridas para esconder qualquer vestígios das surras. Ele sempre a ameaçava. Dizia que se contasse a alguém, ela perderia a língua. Anna sabia que ele falava a verdade! Por isso nunca contou a ninguém.
Todo mundo achava ela estranha, por ter mudado tanto depois da morte da sua mãe. Todos diziam que era por isso. Mal sabiam eles, da missa a metade!
Quando Anna fez quinze anos, já não estudava na mesma escola, era outro colégio. E era mais fácil ser "estranha" já que não conhecia muita gente.
Havia um garoto que vivia se implicando com ela, chamava ela de 'estrada'. Era um pouco mais velho do que ela e, bem maior também. Andava sempre com um garoto magrelo, ruivo cheio de sardas no rosto.
A escola era bem mais longe da sua casa, e por não ter dinheiro, ia e voltava sempre a pé, não tinha outra escolha. O ônibus da escola tinha muitas meninas que não gostaram dela, então ela preferia evitar.
Ela estava voltando para casa, já era tarde, o sol já não aparecia, era crepúsculo. Tinha ficado na biblioteca lendo um livro e terminando alguns trabalhos, era o único lugar onde ela tinha acesso para poder fazer os trabalhos da escola e para se concentrar.
Quando passou por uma rua, eis que o menino implicante que vivia lhe chamando de estranha estava na rua. Ela não se lembrava muito bem do nome dele, mas acreditava ser John. Ele estava jogando bola com seu amigo. E logo percebeu a presença dela.
- Olha só, se não é a estranha. - Ele fala e segura a bola.
Anna se apressou tentando passar rapidamente, mas ele foi mais rápido parando na frente dela.
- Calma aí estranha. Que bicho te mordeu? Vamos conversar. Você fala, não? - Ele vai fazendo perguntas, segurando o braço dela.
Foi como se a mão dele estivesse pegando fogo e queimasse, ela puxou seu braço rapidamente, com toda sua força.
- Não me toque, por favor! - Implorou ela.
- Olha, ela fala! - Comenta ele sarcástico.
Anna tentou passar mais uma vez, e mais uma vez ele se pôs à sua frente.
- Já falei! Vamos conversar.
- Não tenho nada para falar. Por favor, me deixe passar.
- Ainda não. Veja só Liam até que ela é bem bonitinha.- Pega o queixo dela segurando forte. - Não é nada mal.
Seu coração bate acelerado dentro do peito. O olhar daquele garoto lhe causou medo, um arrepio e um frio em seu corpo, fez ela estremecer. O medo se apoderou dela e Anna tentou sair correndo, mas ele correu atrás, agarrando-a pela cintura. Um medo ainda maior, do que ela tinha por seu padrasto, tomou conta dela. Ela já estava tão amedrontada e aquele garoto estava piorando tudo.
- Me solta por favor! Me solta! - Ela gritava e se debatia. Lágrimas já desciam pelo seu rosto ela estava desesperada.
- Solto não! Vou te mostrar a não correr de mim, estranha. - Ele fala e puxa-a para um prédio abandonado, não tinha janelas e nem portas, deviam estar contribuindo ainda.
- O que você vai fazer John? Solta ela, ela tá chorando cara.
- Some daqui Liam. Se não vai ajudar, some daqui! - Ele fala e o garoto vai embora.
- Não, por favor! Volta aqui, me ajuda. -Gritou ela, implorando por ajuda ao garoto.
Ele coloca a mão na boca dela, impedindo-a de gritar. E muito mais forte do que ela, ele conseguiu lhe agarrar muito fácil. Mesmo ela se debatendo, tentando se soltar, mas era em vão.
Sua mão esquerda em volta da cintura dela, era como se ele tivesse asfixiado-a, com muito medo e, seu toque mostrava que ela deveria temer!
Ele a carrega até o prédio jogando-a no chão, indo por cima dela.
- Como não tinha reparado, você é bem bonitinha.
Ela não conseguia dizer nada, ela aprendeu que não adiantava gritar, com seu padrasto foi sempre assim, quanto mais ela gritava mais apanhava, apesar de casos diferentes naquele momento, mas ninguém nunca lhe ajudou!
Só que desta vez foi diferente!
Quando ele agarrou a cintura dela, ela não se debateu, nem tentou correr, seu coração parecia que ia sair pela boca, o medo era angustiante, mas ela tinha mais medo por tentar fugir. Ela pensava que não importava o que ela fizesse, que de nada adiantaria, ele a mantinha presa ali. E pelas tantas surras que levou do seu padrasto quando tentou fugir, que ela só se encolheu e ficou chorando, aceitando o que poderia acontecer.
Só que aí, eis sua salvação!
- Solta ela Jhon! Não tem vergonha não!? - Um garoto grita na entrada do prédio.
John não se mexe e continua parado em cima dela, passando a mão no rosto dela com carinho, era estranho mas ele tocava seu rosto com delicadeza.
- Sabia que ele iria salvar a donzela em perigo. Ele sempre vem! Liam sempre chama ele quando estou fazendo alguma coisa, ele adora me ver encrencado. - Sussurra ele no ouvido dela, mas Anna não fazia ideia do que ele estava falando.
-Não enche Herik! Some daqui.
Anna não ouviu mais aquela voz, quando achou que o garoto tinha saído, o garoto que estava em cima dela é arrancado com brutalidade e arremessado num canto.
- Já falei que é pra soltar ela! - Fala encarando o John.
- Você é um pé no saco. - Fala olhando para a Anna, dá uma picadinha e sai, fazendo assim ela respirar com alívio.
Ela não conseguia nem se mexer, estava paralisada de medo, choque, susto, pavor. Não tinha palavras para descrever o que ela estava sentindo.
- Você está bem? - O garoto se abaixa e toca seu ombro.
E como uma doida alucinada ela se afastou dele.
- Não me toca! - Falou num sussurro.
- Ei! Tá tudo bem...
Anna não esperou nem ele terminar e saiu correndo feito uma louca. Chegando em casa já era noite. Seu padrasto estava dormindo no sofá, só devia ser por estar bêbado, pensou ela.
Ela vai pro quarto, trancando a porta, não saiu aquela noite, ficou ali e chorou tudo o que estava entalado. Depois de não ter mais o que chorar, ela pegou no sono pensando em tudo o que poderia ter acontecido, o que só mostra o quão fraca ela era, nem mesmo foi capaz de se defender.
JOHN.

NO OUTRO DIA...
Anna acordou com uma baita dor de cabeça e tremia de frio por nem ter lembrado de se cobrir. Ela olha no espelho, seus olhos inchados de tanto chorar. Levanta e toma um banho na água fria, tentando amenizar a dor em seu corpo e a dor em sua cabeça, já que nem mesmo tinha um remédio para tomar.
Depois de pronta ela pega sua bolsa e sai, para sua surpresa seu padrasto não está em casa. Ela sai correndo da casa, indo para escola antes que aquele desgraçado voltasse e ficasse enchendo o saco por causa de dinheiro.
Anna trabalha aos fins de semana para dona Lola, uma simpática senhora que tem uma padaria a uns seis quarteirões da casa dela. E o pouco que ganha, é obrigada a entregar ao seu padrasto, consegue pegar apenas o suficiente para pagar a conta de luz e água, ou teria que morar no escuro. É entregar o dinheiro ou apanhar, mas as vezes não é suficiente ele quer sempre mais e sem ter de onde tirar ela acaba apanhando!
Ela chega ao colégio com receio de encontrar aquele garoto, olhando pelos lados preocupada em vê-lo novamente, mas ela precisava entrar estava com fome e faltar aula não era bom também.
E se ele me atacar de novo? Pensou ela preocupada, sentindo suas mãos trêmulas.
Ela estava com medo de entrar, quando ela vê ele chegando com o seu amigo todo feliz e sorridente. Anna começa a tremer ainda mais e queria correr, mas suas pernas não obedeceram, mas para sua surpresa, ao ver ela, virou o rosto e entrou no colégio como se nada tivesse acontecido.
Seu coração alivia um pouco, fazendo ela respirar aliviada, mas o receio de que ele possa fazer algo contra ela novamente, não lhe deixa em paz.
Era hora do recreio, e como sempre Anna sentou em uma mesa sozinha afastada de todos. Começou a comer seu lanche, distraída, mas notou um garoto distante, sentado embaixo de uma árvore.
Ela conhecia aquele garoto! Ficou pensando e lembrou de onde o conhecia.
É ele! Foi ele quem me ajudou ontem. Pensou ela.
Ela nunca viu aquele garoto antes, mas nunca reparou em nada, então isso não lhe espantava.
E como se ele soubesse que ela estava olhando para ele, ele se vira e encara ela.
Anna abaixou a cabeça envergonhada. Começa a comer sua comida novamente, tentando fingir que não estava olhando para ele.
De repente alguém chega e senta no banco à sua frente. Anna levantou seu olhar rapidamente, assustada, mas é o garoto que ela estava olhando.
- Oi. - Ele fala, mas Anna não respondeu nada.
- Você não é muito de falar. Não é mesmo?
Anna continuou calada, estava com medo dele, ela não o conhecia, apesar dele ter lhe ajudado ontem. Não sabia quem ele era e além do mais ele conhecia aquele garoto de ontem.
- Vamos ficar aqui em silêncio?
- O que você quer? - Anna perguntou querendo que ele fosse embora logo.
- Na verdade nada. Só queria ver a garota que saiu correndo feito um foguete ontem.
- Convenhamos que a situação não era das melhores.
- Sim, é verdade. E sobre isso, queria pedir desculpas pelo meu irmão.
Anna jogou todo o suco que estava tomando com a surpresa das palavras dele.
- Irmão? - Perguntou meio que gritando espantada.
- Sim! Mas não faz uma dedução errada sobre mim.
- E o que você quer que eu pense?
- Sei lá. Só não pense que sou igual a ele. Somos irmãos apenas por parte de pai. Sou muito diferente dele!
- A é? - Perguntou curiosa.
- Sim! Meu pai tinha se separado da minha mãe quando eu era recém-nascido, mas a separação durou pouco. Eles se acertaram e voltaram, mas aí a mãe do John apareceu dizendo que estava grávida. Minha mãe aceitou bem a história e meu pai não largou da minha mãe. E quando o John nasceu a mãe dele não aguentou o parto e morreu. Ai meu pai e minha mãe cuidam do John até hoje. - Explica toda a história a ela.
Anna gostou de ouvir a história dele, pareceu sincero.
- Vocês não parecem ter tanta diferença de idade. - Comentou.
- Um ano. Eu tenho dezessete e ele dezesseis.
- Humm.
- E sobre ontem, não se preocupe, o John não vai te encher novamente. Se ele tentar falar com você, você me avisa. Eu falei pra ele que se tentar chegar perto de você vou contar pro nosso pai. - Ele fala rindo.
- Seu pai?
- Sim! Ele sempre faz umas idiotices, parece até que gosta de levar bronca, mas ele sabe que nosso pai vai dar um corretivo daqueles nele e vai tomar o jogo favorito dele.
- Ah sim. E obrigado por ter me ajudado ontem. Se não fosse por você...
- Aquilo não foi nada. É o mínimo que eu podia fazer o Liam me contou o que estava fazendo com você, na verdade ele sempre me chama quando o John está fazendo alguma burrada. Eu não podia deixar ele machucar você. Nem sei se ele seria capaz de fazer algo assim, mas eu precisava impedir ele. - Fala ele triste.
Anna não queria ficar lembrando daquela história, então falou.
- Vamos esquecer esse assunto. Tudo bem?
- Pra mim está tudo ótimo. - Ele falou sorrindo.
Anna pediu para que ele esquecesse o assunto, mas a verdade é que aquilo lhe assombrou por muito tempo ainda, talvez não fosse pelo que aconteceu naquela noite, mas sim por tudo o que ela vinha passando, só serviu de lembrete.
♡
Os dias se passaram e o Herik sempre sentava com a Anna no intervalo. A amizade foi crescendo entre eles. E como ele tinha lhe prometido, seu irmão nunca mais mexeu com ela.
Herik era a única coisa que fazia a Anna pensar em futuro. Sempre que ela apanhava, o que lhe fazia não desistir, era ele! Herik estava se tornando muito importante para ela.
Mais uma vez seu padrasto queria dinheiro. Dizia que ela tinha essa obrigação, já que ele cuidava dela. Irônico não? Cuidar dela? Se a única coisa que ele fazia era lhe bater. Nem mesmo tinham o que comer, e ele vinha dizer que cuidava dela.
Mas dessa vez ela não conseguiu correr, ele trancou a porta da cozinha e não teve como escapar. Como sempre, ele batia mais nas costas dela. Onde não dava para ver as marcas.
- Ingrata, você tem obrigação de trazer dinheiro, já que eu tenho que te suportar.
Dava para ver que ele já estava embriagado. Depois que ele se cansou de bater nela saiu como se nada tivesse acontecido, com a cinta na mão. E mais uma vez Anna estava ali no chão, humilhada, sem ter para onde correr ou alguém para lhe socorrer. Ela apenas chorava, sentindo suas costas arderem por causa das tantas cintadas.
Com dificuldade ela se levantou e seguiu pro seu quarto, se arrastando por causa da dor. Olhando no espelho em seu quarto percebeu que havia sangue sobre sua blusa branca. Mais uma vez ficaria marcas no seu corpo, cicatrizes que levaria por toda sua vida.
Ela toma um banho deixando a água lavar todo o sangue. Troca de roupa e saiu pela janela, não queria ver aquele monstro.
Andando sem saber para onde ir, Anna só caminhava tentando esquecer sua dor. Ela não queria voltar para casa. Suas costas doem muito e se aquele idiota lhe bater de novo ela era capaz de acabar com a vida dele e assim destruiria a sua também, se tornaria uma assassina!
Ela seguiu caminhando até chegar em um parque, sentando em um balanço. Percebeu que o Herik está jogando bola com alguns garotos em uma quadra de areia. Ele percebe ela ali e sorrindo vai até ela.
- Oi. Não achei que encontraria você aqui. Ele fala sentando-se em um balanço ao seu lado.
- Nem eu. - Anna falou sincera.
O silêncio toma conta do local. Só os gritos dos garotos ao longe jogando bola é ouvido, apenas ouvia o ranger das correntes dos balanços perto deles.
- Tá com fome? - Herik quebra o silêncio.
- O que?
- Perguntei se está com fome. Na verdade vamos comer, eu tô cheio de fome. - Diz ele se levantando. - Tem uma lanchonete aqui perto.
Anna estava com muita fome, mas não tinha nenhum centavo para pagar por alguma coisa.
- Na verdade estou bem. Não quero nada, obrigado. - Agradeceu ela educadamente.
- Para com esse negócio de regime, vamos comer, eu pago! - Falou ele olhando para a Anna, achando ela tão magra.
Não existia regime, mas era melhor ele pensar daquela forma.
- Tudo bem. Da próxima eu pago então. - Diz ela sentindo seu estômago nas costas de tanta fome. Não sabia qual dor era pior a das suas costas ou do seu estômago pela fome.
Depois que lancharam, foram andar, e o Herik levou ela a um lugar lindo da cidade. Ela nunca tinha visto aquele lugar antes. Um lago muito bonito em meio a um grande parque, repleto de árvores e mais ao fundo dava para ver que começava a mata. As estrelas estavam reluzentes no céu tornando a noite ainda mais perfeita.
Anna chega na beira do lago, admirando aquela imagem tão linda. Ela nunca esteve naquele lugar. Perdeu de ver aquela paisagem linda antes. A lua enorme refletindo sobre o lago era apaixonante.
- Esse lugar é lindo!
- É mesmo! Sempre venho aqui. Eu acho o lugar maravilhoso.
Eles ficam mais um tempo em silêncio admirando o lugar até que Herik falou.
- Sei que parece estranho, sou mais velho que você e por isso pode parecer não ser certo, mas eu gosto de você, de verdade.
- Eu também gosto de você. Você é meu amigo.
- Você não entendeu. Eu gosto de você de verdade, não apenas como amiga, mas sim como um garoto gosta de uma garota.
Anna ficou paralisada. Ela nunca pensou nele dessa forma, mas agora pensando, não viu nada de errado duas pessoas, se gostarem. Ela sabia que gostava dele, mas não sabia o que era exatamente seu sentimento.
- Por favor, fale alguma coisa. - Pede ele um pouco nervoso.
- Confesso que nunca pensei em você de outra maneira, mas não creio que isso seja errado por nossas idades.
Ele abre um sorriso lindo e chega mais perto dela.
- Posso te dar um beijo então? - Pergunta ele sorrindo docemente.
Anny confirma com a cabeça. Ele chega mais próximo e encosta seus lábios nos dela, um beijo calmo, carinhoso, mas quando ele chega mais perto do seu corpo e vai lhe abraçar Anna o empurra para longe.
Ela não sabia o que estava acontecendo, mas um medo gigante do seu toque, fez ela fazer aquilo. Não queria seu toque. Ela não queria ele perto assim. Algo gritava dentro dela e ela começou a tremer, estava apavorada.
'O que está acontecendo comigo? Se perguntava ela.'
- O que aconteceu? Eu fiz algo de errado? Você não queria o beijo? Me desculpe por favor. - Ele fala e pega a mão dela, preocupado por ver ela tão assustada.
Seu toque pareceu doer, foi estranho, pareceu machucar assim como quando John segurou ela. E sem pensar, puxou sua mão ligeiro.
- Não me toque! - Falou com medo.
E ao olhar para ele, ver sua cara de assustado, a dor e a mágoa transparecendo em seu rosto, ela ficou ainda pior.
Anna saiu correndo sem saber para onde ir. Ela ouvia ele gritar seu nome, mas ela só queria fugir. Não sabia do que estava fugindo na verdade, mas ela queria fugir.
As lágrimas desciam em seu rosto, mesmo que ela não quisesse derrama-las.
'O que está acontecendo comigo? Por que eu fiz aquilo? Ele não merecia! Foi tão legal comigo esse tempo todo. E eu o que eu fiz, fugi feito uma doida. Anna pensava enquanto corria sem rumo.'
Correndo no meio do nada, acabou se perdendo e caiu. Sem forças para levantar, ela ficou ali mesmo, apenas passou os braços em volta do corpo e chorou. Chorou até pegar no sono e dormir sem ao menos saber onde estava.
Herik.