País Del Mar
POV SAMUEL
Ouvi quando Alexia perguntou:
- E Dom? Eu não o vi. Ele não foi convidado?
- Claro que foi. O nome dele estava sim na lista. – Respondeu Satini.
- Deve estar por aí, num beco escuro em País del Mar, tentando encontrar uma donzela em perigo. – Respondi, tomando meu lugar à mesa – Ele veio comigo, mas faz um tempinho que não o vejo...
- E você? Já encontrou sua donzela em perigo, Samuel? – Estevan questionou-me.
Às vezes eu achava que ele fazia para me provocar, exibindo sua vitória frente a todos. Me senti até mal por pensar em Satini como um troféu. E caralho, ela estava ainda mais linda naquele dia!
Encarei Satini e provoquei, revidando à altura a provocação de Estevan:
- Talvez... – Tentei um sorriso sedutor.
Satini, por sua vez, ficou um tempo com os olhos nos meus, logo em seguindo ruborizando as bochechas. Eu achava aquilo bem estranho, como se ela tivesse vergonha de mim depois de toda intimidade que tivemos no passado. Minha Satini não era o tipo de mulher que sentia vergonha ou temia qualquer coisa. Eu resistia em admitir que ela não era a mesma. E talvez eu também não fosse o mesmo Samuel.
Fazia anos que eu não era mais o garoto com uma guitarra que sonhava tomar o castelo e se tornar o herdeiro de Avalon. Parecia que a batalha era melhor do que a vitória. Eu tentava acreditar que toda emoção a adrenalina do passado era por conta da minha juventude, onde tudo era mais intenso.
- Não precisa ficar ruborizada, Satini! – saiu de forma automática – Você não é mais minha donzela em perigo. – Aliás, acho que ela nunca tinha sido uma donzela em perigo.
- Salvei primeiro. – Estevan debochou, seu hálito alcóolico chegando até mim.
Respirei fundo enquanto tentava dissipar da minha mente a vontade de dar-lhe um soco no meio da cara, quebrando seu nariz.
- Hum, isso quer dizer que realmente encontrou uma "donzela". – Kim ficou curioso, fazendo com que minha raiva momentânea (ou nem tanto) passasse.
- Não é a primeira, nem a segunda, tampouco a terceira – me exibi, sorvendo todo o champagne da taça, tentando me embriagar como todos naquela mesa – O amor é uma coisa doida. E relacionamentos, definitivamente, são para loucos.
- À loucura! – Dereck levantou a taça e todos brindamos – À esta loucura que se chama amor.
Bebi mais uma taça cheia, procurando Dom com os olhos. Com certeza o filho da puta não viria, me deixando sozinho com os casais apaixonados.
Havíamos vindo no mesmo voo, que fretei especialmente para nos levar a País del Mar a fim de participarmos do casamento de Aimê. Quando chegamos ao palácio simplesmente não o vi mais. E não tinha dúvidas de que estava com alguma mulher. E eu não queria, mas infelizmente sabia muito bem o motivo pelo qual ele fazia aquilo. Éramos dois quebrados, tentando juntar os pedaços, incertos se algum dia conseguiríamos.
Champagne não era minha bebida favorita, mas não serviam cerveja ali. E o que eu mais gostava era sentar na banqueta de um bar e tomar uma cerveja gelada pensando em nada. Claro que atualmente para eu fazer este tipo de coisa só disfarçado ou num país muito grande e populoso que nunca tivessem ouvido falar de um lugar minúsculo no mapa mundo chamado Avalon.
Fiquei ali jogando conversa fora com meu grupo de amigos dos tempos da juventude. E ri sozinho ao me dar em conta de que apesar de tudo, eu ainda sentia falta deles e de todas as batalhas que lutamos juntos.
- Você realmente vai deixar por isto mesmo o "roubo" do trono? – Dereck perguntou, ansioso.
- O que você acha? – Estevan sorriu de forma confiante e debochada.
Eu poderia encontrar mil defeitos nele, mas ser uma covarde não era um deles.
Montar uma estratégia de invasão a um castelo nunca foi um problema para nós. Claro que com o tempo passamos a tentar resolver as situações de forma amigável e menos tensa. E eu não sabia exatamente o que se passava na cabeça de cada um deles, mas eu adorava uma guerra por tomada legítima de um trono.
Minha cabeça estava leve devido ao efeito do álcool. Mas eu era ciente do que estávamos fazendo. Estevan não queria mais ser rei e não cogitava o nome das filhas para assumir Alpemburg. Alexia já tinha feito sua parte e se saiu bem como a rainha. Aimê parecia estar satisfeita na posição de rainha consorte e Pauline... Bem eu não sabia muito sobre ela, já que diferente das outras filhas de Satini, com aquela eu não tinha vínculos afetivos ou muito contato.
Estevan queria tirar o sobrinho do poder e eu faria o mesmo em seu lugar, não ficando satisfeito com alguém que levasse meu sobrenome vir a afundar um país inteiro e o nome da família ir para o fundo do poço, aparecendo em todos os livros de história no futuro. E eu já conhecia muito bem aquele tipo de batalha, que era como as de Magnus e Dereck em Noriah Sul, que deram fim à monarquia e decretaram seu país uma república democrática.
Então sim, a retomada de Alpemburg foi planejada na mesa da recepção de casamento da filha de Satini e Estevan.
Para quem nos olhasse, parecíamos um bando de homens e mulheres que riam e se divertiam falando sobre o passado. Mas o que fazíamos era rodearmos uma mesa enquanto maquinávamos destronar um usurpador que tomou a coroa a qual não tinha direito, como no passado Stepjan Beaumont fez com Avalon, onde montou um plano maligno para matar minha mãe e assumir o lugar de rei.
Os pequenos países regidos por monarquia desde sempre sofreram ataques dos mais diversos em razão da ambição pelo trono. A maioria deles, no entanto, seguiam firmes e fortes, tendo passado por todas as adversidades. Era o caso de Avalon. E até então eu achava que meu país se mantinha sob o regime da monarquia por minha competência. Até me dar em conta de que Magnus e Estevan tinha algo muito mais precioso do que uma coroa em suas cabeças ou um trono para sentarem. Aliás, eles eram o "trono", onde suas mulheres certamente sentavam por horas seguidas.
Embora eu nunca tivesse admitido, sentia sim inveja de Estevan D'Auvergne Bretonne. E sempre achei que fosse por conta de Satini. Então percebi que talvez eu também sentia inveja de Magnus e até de Dereck. Eles tinham algo que eu não tinha e não poderia comprar: família, composta de esposa e filhos.
Olhei para Satini, que ria sem controle enquanto olhava para Estevan, achando engraçado algo que não tinha graça alguma, certamente em função do álcool. Teria eu dado a ela toda felicidade que tinha ao lado de Estevan? Eu sequer sabia se podia ter filhos! Claro que Estevan queria tirar o sobrinho do poder... Mas não era só por ele ser um filho da puta traidor. Mas porque queria proteger Satini e as filhas daquilo tudo.
Declarar a independência de Alpemburg era garantir que a família D'Auvergne Bretonne estaria praticamente fora do comando do país para sempre, com liberdade para viverem como bem quisessem e financiados por qualquer tipo de governo que assumisse o poder.
Magnus? Bem, o primo de Estevan nasceu para ser rei. E ninguém tinha dúvidas alguma de que seria um dos melhores monarcas que Noriah Sul já teve. No entanto Katrina passou por tantas coisas em função da ambição pela coroa que ele também soube que ficar longe daquilo era a melhor forma de proteger o amor de sua vida. Então declarou Noriah Sul como um país republicano e democrático e levou de brinde o castelo onde morava, a mulher que amava e um filho, que por sua vez casou com uma das filhas de Satini, Alexia, que era doce como o mel e ao mesmo tempo forte como uma tempestade.
Dereck também nasceu para governar, independente de ser monarquia ou república. Poderia ser rei no lugar do irmão, mas acabou optando por ser presidente. Fez história ao lado de Dom até que decidiu "aposentar-se". O motivo? O mesmo de Magnus e Estevan... O amor. Adotou um filho e descobriu então que a política não era mais a coisa mais importante da sua vida.
A mim? Bem, a mim restava a política, a coroa e todas as responsabilidades que vinham com ela. E se eu pretendia declarar Avalon um país republicano? Não, em hipótese alguma. Um dos motivos era que eu sabia o quanto foi difícil tomar aquele lugar que sempre pertenceu a minha família por direito. Passei boa parte da minha vida num lugar perdido no meio do nada, escondido, montando estratégias desde criança de como e quando tomar o castelo de Avalon e destronar o rei Stepjan.
Avalon era feliz com sua forma de governo. Minha família era feliz e orgulhosa de carregar o sobrenome Beaumont. Éramos os legítimos Beaumont's e não precisávamos mais se esconderem sob o sobrenome "Leeter". E se eu dissesse que não gostava de todo conforto e prazer que o dinheiro trazia, estaria sendo um hipócrita.
Mas eu tinha saudade de Samuel Leeter. No entanto sabia que trazê-lo de volta era impossível. Ele havia ficado perdido num bar na Travessia, onde com sua guitarra se apresentava para a meia dúzia de meninas que gritavam seu nome e só queriam que ao final da noite as levasse em casa e lhes desse beijos e fizesse promessas de amor eterno.
Samuel Beaumont só se envolvia sexualmente e algumas vezes ainda fodia uma mulher enquanto sua mente lhe pregava peças, fazendo-o ver Satini. Eu era ciente de que qualquer pessoa que se envolvesse comigo queria muito mais do que amor ou promessas de felizes para sempre. O sonho de usar a coroa na cabeça era bem maior do que qualquer coisa. Então todas sentavam no "trono", mas nenhuma era apta a usar a coroa.
Eu era diferente dos meus amigos. E feliz do meu jeito. Certamente não sonhava como eles ou compartilhávamos os mesmos interesses a não ser de uma batalha como há muito tempo não tínhamos. De tudo que vivemos, Dom foi o que me sobrou. Nunca imaginei que fôssemos ficar amigos, mas a solidão nos uniu. Tínhamos muito em comum e sinceramente não nos orgulhávamos daquilo. Compartilhávamos tristezas, perdas e rejeições. Ainda assim seguíamos firmes e fortes, em busca de algo que sequer sabíamos o que era. Ou talvez soubéssemos... Tentar tapar um buraco no coração que jamais seria coberto. Mas nunca falamos abertamente sobre aquilo, embora mencionássemos vez ou outra alguma coisa, como se já soubéssemos e dizer as palavras não fosse necessário.
Era claro que Dom ainda sentia algo por Katrina. Mas eu não conseguia entender como ele teve esposa e filha e seguiu com sua vida de rebeldia e devassidão. E aquilo era só mais um dos assuntos dos quais ele fugia.
ALPEMBURG
DIAS DEPOIS...
- Avalon lutará ao lado de Estevan, pela queda do rei Brendon e pela nova ordem de governo do país. – Bradei subindo numa mesa, retirando minha máscara, deixando claro àquelas pessoas que imploravam por ajuda de que eu, o rei de Avalon, estava disposto a lutar ao lado delas, oferecendo o que pudesse.
Sobre Magnus ter libertado Noriah Sul da monarquia... Sua mãe era uma rainha maquiavélica, como as vilãs de contos de fadas. Os primos de Estevan lutaram contra a própria mãe em nome do povo. Então sim, não era só o poder de um amor que os levou a fazer aquilo. Mas a consequência foi uma vida fora dos holofotes (ao menos eram menos visados do que quando tinham o poder da coroa), quase um "felizes para sempre".
Estevan havia agido como um estrategista. Fingiu aceitar a derrota e a forma como Alpemburg foi tomada de sua filha enquanto arquitetava um plano desde sempre pela retomada do país, ou melhor, livrá-lo das garras de Brendon D'Auvergne Bretonne, o rei mais fanfarrão e caricato que o mundo já viu. Ele podia simplesmente aceitar. Mas daí não seria Estevan, tampouco Satini, já que sempre lutaram lado a lado, fosse numa invasão a um castelo ou num hospital pela vida da filha.
Sim, aqueles eram os mais corajosos homens e mulheres que eu já tinha conhecido. Naquele momento poderiam estar em suas confortáveis casas sem se preocuparem com nada. No entanto estavam ali, fingindo serem pessoas comuns, usando máscaras que encobriam seus rostos, lutando uma luta que não precisavam... Mas a aceitaram porque acreditavam em seus países.
Como eu, eles respiravam adrenalina e precisavam dela para sobreviver. Não sei se novamente lutaríamos as mesmas batalhas ou se para sempre estaríamos lado a lado. A única coisa que eu sabia era que jamais gostaria de estar em lado oposto a um Chevalier ou um D'Auvergne Bretonne. Eu confiaria minha vida a qualquer uma daquelas pessoas com as quais eu estava naquele momento.
Foram várias madrugadas com encontros às escondidas e criação de táticas para detonar Brendon D'Auvergne Bretonne, todas lideradas por um certo doutor Domênico, ou "Dom", para os mais íntimos. Ele havia nascido para aquilo: convencer as pessoas de que a luta valia qualquer sacrifício. Aquele homem poderia estar em qualquer lugar do mundo, exercendo sua profissão, na qual era respeitado e requisitado. Mas em seu sangue parecia correr ainda o mesmo que a anos atrás fez com que montasse um grupo rebelde anti-monarquista que aderiu pessoas de toda Noriah Sul, fazendo a rainha Anne Marie Chevalier acabar num caixão, sendo que oficialmente nunca se soube quem deu o tiro que causou a sua morte.
Eu ficava entre os encontros secretos noturnos em Alpemburg e o governo de Avalon. Mas prometi a minha mãe que assim que Brendon D'Auvergne Bretonne perdesse a coroa, não lutaria mais batalhas que não fossem as do nosso país. Mas bem sabia que não era pelas batalhas que Emy Beaumont reclamava e sim pela minha ausência em nosso país, que eram constantes.
Minha aliança com os Chevalier e os D'Auvergne Bretonne era indestrutível. Eu sempre os ajudaria em qualquer situação e eles fariam o mesmo por mim. Então talvez fosse hora de finalmente voltar para "casa" e buscar novas alianças políticas, que não precisavam ser tão intensas e duradouras como a que eu tinha com as pessoas daquele momento, mas que pudessem trazer benefícios ao meu país.
Estando Brendon D'Auvergne Bretonne enfim fora do poder, nos reunimos para comemorar num bar em Alpemburg, longe da capital. Ficava num bairro pequeno e com poucas casas residenciais.
Finalmente pude sentar e tomar uma cerveja gelada sem ouvir críticas. Porque estar com eles era poder ser eu mesmo, já que conheciam minhas fraquezas, fragilidades assim como a minha força e bravura.
Satini e Katrina eram praticamente inseparáveis. E embora fôssemos um grupo, sempre que podiam elas ficavam juntas. E não demorava muito Magnus e Estevan se juntavam a elas. Então ficavam ali, esfregando felicidade na cara dos outros.
Eu ri sozinho enquanto sentia o amargor da cerveja barata descendo pela minha garganta, gelando até me cérebro.
- Que bom que ri da própria desgraça! – Ouvi a voz de Dom sentando-se ao meu lado, virado para a mesa onde eles estavam, observando-os.
- Sinta pena de si mesmo, não de mim! – Debochei da minha própria condição.
- Acabou! – ele disse enquanto batia o copo no meu, brindando – E digo que "acabou" tudo... Não só a guerra.
O olhei, percebendo que seus olhos não estavam nem pensando em se fixarem em mim. Eu conseguia ver Katrina em suas íris, como se estivessem ali tatuadas para sempre.
- Por que acabou? Não estamos mortos... E nem me sinto velho. Pelo contrário, ouvi dizer que depois do quarenta os homens ficam mais sexys e melhores de cama.
- Não tenho problema com meu pau... Ele ainda dá conta do recado. Mas já cansei de esperar, entende? – ele bebeu toda a cerveja do copo, ainda com os olhos fixos nela.
- Por ela?
- Pela morte de Magnus – riu e balançou a cabeça – Porque acho que mesmo se ele morresse, ela não ficaria comigo.
Eu ri e dei um tapa no ombro dele:
- Caralho, a sua pena de si mesmo é patética! Se quiser posso botar uma máscara e uma calça de couro e ficar sexy como ela.
Enfim consegui a atenção dele, que me encarou seriamente.
- Você só pode estar brincando! – pareceu preocupado.
- Claro que não! Eu fico lindo com calça de couro.
Começamos a gargalhar e eu já nem sabia se era por conta da bebida ou porque o riso vinha mesmo fácil quando estávamos juntos.