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ME APAIXONEI POR UM COWBOY ELE É O CEO

ME APAIXONEI POR UM COWBOY ELE É O CEO

Autor:: TÔNIA FERNANDES 1
Gênero: Outras
SINOPSE Elizabeth, ou apenas Liz, é uma jovem de 20 anos que viu sua vida desmoronar após perder os pais em um trágico acidente. Forçada a abandonar a faculdade e deixar a cidade grande, ela se muda para o interior do Texas para viver com sua avó doente. Sem dinheiro e com responsabilidades crescentes, Liz precisa encontrar um emprego com urgência. É assim que seu destino a leva à Fazenda Langford, uma das mais antigas e poderosas da região. Recomendação da própria avó, Liz vai trabalhar como ajudante da governanta. Ao chegar, ela se depara com um homem coberto de graxa, vestido com um macacão surrado, consertando um carro antigo. Ele é gentil, educado e simpático. Liz não imagina que acaba de conhecer Eric Langford III - o herdeiro bilionário do império automotivo Langford Motors, CEO de uma das maiores empresas de veículos elétricos dos EUA. Eric está de volta à fazenda para fugir do estresse da cidade e do desgaste com sua namorada fútil e interesseira. Mas quando conhece Liz, seus dias ganham outra cor. O problema? Ela pensa que ele é apenas um funcionário rústico da fazenda. E ele não corrige esse equívoco... pelo menos não por enquanto. Entre encontros inesperados, verdades ocultas, beijos roubados e corações em conflito, nasce um amor tão inesperado quanto verdadeiro - mas que enfrentará mentiras, orgulho, e a ameaça de um mundo onde aparências ainda pesam mais do que sentimentos.

Capítulo 1 PRÓLOGO

– Quando Tudo Ruiu

– Elisabeth

Sempre houvera algo reconfortante no som dos passos pelos corredores da universidade. O leve ranger da madeira antiga, o sussurro das páginas sendo viradas na biblioteca central, e, acima de tudo, a voz serena de seu pai explicando a estudantes atentos os arcos temáticos da literatura inglesa moderna. Para Elisabeth Anne Whitmore Carter, aquele lugar era mais do que um campus. Era um lar.

A filha do Professor Jonathan Carter cresceu entre livros e janelas altas, entre cafés silenciosos e encontros acadêmicos. Sua mãe, Helen, era uma presença vibrante - corretora imobiliária renomada, conhecida por sua elegância despretensiosa e pela forma natural com que encantava clientes e fechava contratos. O casal Carter era admirado por sua integridade, simplicidade e equilíbrio. E Liz era o reflexo de ambos.

Ela conquistara, com mérito e história, uma bolsa integral na mesma instituição onde seu pai lecionava há mais de vinte anos. Tinha orgulho disso - mas o que a sustentava, de fato, era o amor silencioso dos pais e a certeza de que pertencera àquele universo desde sempre.

Nos finais de semana, Liz costumava se perder entre as estantes da biblioteca, sentada no mesmo canto onde, décadas antes, sua mãe o esperava com livros no colo e olhos apaixonados. A história dos dois havia começado ali. E, de certo modo, a de Liz também.

Ela tinha planos, muitos deles. Queria cursar Letras, seguir a linha de pesquisa do pai, especializar-se em literatura comparada. Sonhava com uma vida entre páginas e pessoas. E, entre um seminário e outro, desejava um amor com a mesma solidez e leveza que via nos pais.

Mas o destino, caprichoso e cruel, tem prazer em interromper futuros bem traçados.

Naquela manhã de setembro, ela acordou cedo para preparar o café da manhã. O pai detestava voos matinais, mas fazia esforço porque Helen insistira em acompanhá-lo. O congresso de literatura em Chicago era importante. Ele seria o palestrante principal. A mãe, por sua vez, marcara reuniões com investidores texanos que queriam expandir imóveis de luxo na capital. Três dias. Três.

- "Fique tranquila, minha pequena." - dissera o pai ao abraçá-la no aeroporto, com aquele meio sorriso cheio de ternura.

- "Traga um presente," ela pedira, fingindo despreocupação.

- "Talvez algo com cheiro de livraria," acrescentara.

A mãe rira.

- "E eu trago algo com brilho. Sempre soube que você era um equilíbrio entre nós dois."

Ela os viu entrar no portão de embarque com passos calmos, mãos dadas. E não sabia que aquela seria a última imagem dos dois juntos.

O noticiário chegou ao celular quando Liz ainda estava no refeitório da universidade. Um avião da companhia nacional desaparecera dos radares a caminho de Chicago. Ela sentiu um frio invadir-lhe o corpo, um tipo de torpor que paralisava pensamentos. No fundo, já sabia. Horas depois, veio a confirmação. Pane elétrica, perda de comunicação, queda confirmada em área remota. Todos os passageiros mortos.

A dor não veio de uma vez. Veio aos poucos. Primeiro, o choque. Depois, a angústia das formalidades: identificar documentos, assinar papéis, liberar os corpos. O campus inteiro se comoveu. Houve homenagens, discursos, flores. Mas nada substituía o som dos passos do pai no corredor. Nada preenchia o vazio do sorriso da mãe.

Sem vínculo familiar direto com a universidade, a bolsa foi revogada por questões administrativas. Liz tentou lutar, tentou argumentar. Mas os processos eram frios, a burocracia insensível. O apartamento dos pais fora deixado com hipotecas a vencer. Os poucos bens foram vendidos. Restaram apenas lembranças - e as dívidas.

Os amigos sumiram aos poucos. Alguns por não saberem o que dizer, outros por não quererem se aproximar da dor. A cidade, antes viva, tornou-se opressora. Cada esquina lembrava. Cada árvore falava.

Foi quando decidiu partir.

A avó materna, Margaret Whitmore, morava no interior do Texas. Uma mulher de força impressionante, mas idade avançada. A relação entre Helen e a mãe nunca fora fácil. Helen fugira daquele mundo rural assim que pôde. Sempre dizia que o campo sufocava, que precisava de horizontes. Liz, porém, não tinha escolha.

Pegou o pouco que lhe restava - uma mala com roupas, uma caixa com livros e outra com cartas dos pais. Despediu-se da cidade sem cerimônia. A estação de trem era silenciosa naquela manhã cinzenta. E, ao embarcar, Liz sentiu-se pequena como nunca.

O interior do Texas a recebeu com sol e poeira. A casa da avó era grande, antiga, feita de madeira escura e janelas amplas. Havia cheiro de lavanda e bolos recém-assados. Margaret era rígida, mas acolhedora à sua maneira. Tocou o rosto da neta com delicadeza contida e disse apenas:

- "Você parece sua mãe. Só que mais cansada."

E assim começou a nova vida de Liz. Longe do campus, dos cafés, da cidade. Entre galinhas, caminhonetes e porões empoeirados. Trocou os livros por panelas, os debates acadêmicos por longas caminhadas entre árvores.

No entanto, mesmo ali, com os pés enterrados na terra e a alma ferida, Elisabeth sabia que sua história não terminaria naquela casa.

Ela ainda não sabia como, nem com quem...

Mas sentia que o destino ainda guardava algo - ou alguém - que mudaria tudo.

Quando Tudo Ruiu

– Erik

Erik James Langford Beaumont III era, aos trinta e dois anos, o homem que toda revista de negócios adorava estampar na capa.

Herdeiro de um império automobilístico com raízes históricas no Texas, criador de uma das maiores empresas de tecnologia sustentável dos Estados Unidos, fluente em quatro idiomas, com diploma em Engenharia, especialização em Gestão Internacional e uma reputação de frieza impecável no mundo corporativo.

O que ninguém sabia - e o que ele mesmo evitava encarar - era o cansaço por trás dos olhos azuis sempre atentos. O tipo de cansaço que não nasce do trabalho, mas do vazio.

Naquela noite de gala em Nova York, tudo seguia o roteiro. O salão, ornamentado com candelabros de cristal e orquestra ao fundo, parecia tirado de uma peça de teatro sobre a alta sociedade. Os convidados sorriam, trocavam taças e fingiam acreditar em tudo que diziam. No centro do salão, Erik mantinha a postura perfeita, com a noiva ao lado - Charlotte Prescott Winslow.

Seu nome era um peso antigo. Filha do magnata Richard Winslow, dono de uma das maiores siderúrgicas do hemisfério norte, Charlotte cresceu entre carruagens de luxo e convenções de etiqueta. Era bela, esguia, sofisticada, e absolutamente conveniente.

O acordo fora costurado com exímia precisão. Uma fusão entre a Langford Motors International e a Winslow Steel Corporation significaria a conquista de novos mercados, redução de custos de produção, acesso privilegiado a matéria-prima e, principalmente, solidez política. O casamento entre os filhos dos dois impérios simbolizaria essa união.

Charlotte sabia. Erik também.

- "É como uma joint venture emocional," dissera Richard, ao brindar com os dois.

- "A paixão pode até não vir agora, mas com o tempo, o respeito se constrói," acrescentara Vivienne, a mãe de Erik, com um sorriso diplomático.

Erik apenas sorriu. Não por concordar, mas por saber que, naqueles círculos, o silêncio valia mais do que qualquer objeção. E ele aprendera, desde cedo, a ser um Langford: controlado, estratégico, funcional.

A aliança brilhava no dedo de Charlotte como um selo de contrato. Os jornais noticiaram como o evento do ano. Fotos foram distribuídas à imprensa. Os acionistas celebraram. E naquela noite, ao erguer sua taça de champanhe, Erik sentiu-se mais só do que jamais estivera.

Ele não odiava Charlotte. Longe disso. Ela era inteligente, articulada, previsível. E previsibilidade, para um CEO cercado por riscos e apostas diárias, podia ser uma bênção. Mas faltava algo. Algo que ele sequer sabia nomear, mas cuja ausência fazia com que tudo ao redor parecesse feito de vidro - bonito, mas frágil e frio.

No dia seguinte ao anúncio oficial do noivado, Erik acordou antes do amanhecer, ignorou os compromissos da agenda e cancelou reuniões com investidores de Hong Kong e Dubai. Pediu que preparassem o jato particular e, para surpresa da governanta, apareceu no Rancho Silver Oak com a barba por fazer, o terno amassado e um olhar que não escondia o cansaço da alma.

A fazenda era seu único espaço de verdade.

Ali, o som dos cavalos no pasto e o cheiro da terra lhe traziam lembranças do avô - o primeiro Erik James, homem duro, mas íntegro. Foi ali, nos verões da infância, que aprendeu a montar, a limpar os estábulos, a entender que a natureza não se dobra a vontades humanas. Era o único lugar onde podia tirar os sapatos, esquecer o relógio, e ser apenas ele.

A governanta, senhora Evelyn Grant, abriu a porta com olhos arregalados.

- "O senhor não avisou que viria."

- "Nem eu sabia que viria," ele respondeu, entrando sem cerimônia.

A casa era silenciosa, como sempre. Os móveis antigos contrastavam com a imponência das janelas. O piano ainda estava ali, coberto com o lençol branco que a mãe insistia em manter. A lareira, intacta. O retrato do avô, no mesmo lugar.

Erik subiu para o quarto que ocupava desde adolescente. Tirou o paletó, jogou-o sobre a poltrona e respirou fundo. Ali, entre paredes de madeira e lembranças com cheiro de feno, permitiu-se existir.

Horas depois, vestiu um macacão velho, foi para o celeiro e começou a trabalhar em um dos carros antigos que o avô restaurava nos dias de folga. A graxa sujou-lhe os dedos, a testa, o peito. E pela primeira vez em semanas, não pensou em balanços trimestrais, nem em alianças de diamante. Só ouviu o som do motor, e o próprio coração.

Foi nesse estado - sujo, livre, exausto - que ouviu a caminhonete da senhora Margaret se aproximar da entrada da fazenda. Acompanhada de uma jovem que desceu do banco do passageiro com olhos que carregavam o peso do mundo.

Mas Erik ainda não sabia.

Ainda não sabia que aquela jovem - com o luto silencioso de quem havia perdido o chão - mudaria a estrutura de tudo.

Ainda não sabia que o amor, o verdadeiro, não se anuncia com flashes nem contratos, mas com um olhar que silencia o resto do mundo.

E que às vezes...

É preciso perder tudo o que se construiu - para finalmente descobrir quem se é.

Capítulo 2 PERDAS

– A Chegada

O vento do interior soprava mais seco do que Elisabeth lembrava. Não que tivesse alguma memória real daquele lugar. O pouco que sabia da Fazenda Silver Oak vinha das histórias desconexas que a mãe contava - sempre com um misto de nostalgia e amargura. Para Helen, o rancho simbolizava tudo o que ela havia superado: limites estreitos, rotina rural, ausência de liberdade. Mas para Liz, agora, aquele lugar era a única porta que restava.

A caminhonete da avó subia lentamente a estrada de terra, sacolejando ao passar pelas pedras. A paisagem era ampla, aberta, e o céu se estendia como uma promessa ainda não cumprida. Campos dourados avançavam até onde a vista alcançava, e o casarão da fazenda surgia ao longe como uma relíquia solitária, erguida entre o tempo e o silêncio.

Margaret Whitmore dirigia com a firmeza de quem nunca deixou que a idade lhe roubasse o comando. Calada desde a saída da estação, só falara para oferecer um lenço quando percebeu que os olhos da neta insistiam em se encher de lágrimas.

- "Você está mais pálida do que sua mãe era quando chegou a Boston."

Foi tudo o que disse.

Liz permaneceu quieta. Não era falta de palavras. Era excesso de dor.

Tudo nela doía - o corpo, a alma, as lembranças recentes. Cada ruído da cidade, cada cheiro, cada rua... eram lembranças do que perdera. Agora, até as cores pareciam mais opacas. Como se o mundo tivesse perdido o brilho no mesmo instante em que o avião deixara de responder.

Ao se aproximarem do pátio principal, o casarão mostrou-se em toda sua imponência. Madeira escura, colunas coloniais, varandas espaçosas e um telhado antigo, porém firme. Era um lugar que, apesar da idade, exalava força. Como Margaret. Como a linhagem Whitmore.

Liz desceu da caminhonete com passos hesitantes, observando tudo ao redor. O silêncio ali não era igual ao da cidade. Era mais profundo. Um tipo de silêncio que parecia conversar com os pensamentos.

Carregava apenas uma mala, um casaco dobrado no braço e uma pequena caixa de madeira - o que restara da vida anterior. Ao colocar os pés na varanda da casa, sentiu uma vertigem breve. Mas antes que pudesse reagir, algo - ou alguém - chamou sua atenção.

Do lado oposto do pátio, sob a sombra de uma antiga figueira, um homem estava abaixado, com as mãos mergulhadas até os cotovelos no motor de um carro antigo. O capô estava aberto, e a carroceria enferrujada denunciava que aquele modelo não via asfalto há muitos anos. O homem usava um macacão cinza, manchado de graxa e terra. Os cabelos estavam presos em desalinho na nuca, e a camiseta branca por baixo deixava entrever um físico firme, trabalhado - como alguém que trocava reuniões por ferramentas.

Liz não pôde evitar o olhar prolongado. Não por vaidade, mas por curiosidade. Ele parecia tão deslocado quanto ela se sentia. Um detalhe, no entanto, a surpreendeu: ele sorriu. Um sorriso limpo, inesperado, como se a presença dela ali não fosse apenas percebida - mas, de algum modo, bem-vinda.

- "Você deve ser a Liz," disse ele, levantando-se e limpando as mãos com um pano. A voz era grave, clara, com um sotaque leve demais para um trabalhador rural típico.

Ela assentiu, confusa.

- "Sou. E você... trabalha aqui?"

Ele hesitou, mas apenas por um segundo. Depois, deu de ombros, com um meio sorriso.

- "Algo assim."

Antes que pudesse perguntar mais, a senhora Evelyn surgiu na porta principal, abrindo os braços.

- "Senhorita Elisabeth, finalmente. Bem-vinda."

A governanta tinha um semblante firme, mas acolhedor. Não havia nela espaço para demonstrações excessivas de emoção, mas o tom da voz denunciava cuidado.

Margaret aproximou-se sem cerimônia.

- "Evelyn, ela está exausta. Mostre o quarto e a ajude com o que for necessário. Não preciso dizer que essa casa agora também é dela."

Liz assentiu, agradecida em silêncio.

Enquanto Evelyn recolhia sua mala, Liz lançou um último olhar ao homem de macacão. Ele já havia voltado ao motor, como se a presença dela fosse apenas mais uma entre as muitas que passavam por ali. Mas algo em seus olhos - azuis, intensos, estranhamente serenos - permaneceu com ela mesmo depois que entrou na casa.

O quarto de hóspedes ficava no andar superior, com vista para o celeiro e os campos. A cama era grande, os lençóis impecáveis, e a janela deixava entrar uma brisa quente, perfumada de lavanda e feno.

- "Se precisar de algo, estou no final do corredor," disse Evelyn.

- "Obrigada."

Liz sentou-se na beira da cama e só então percebeu como estava cansada. Mas antes que pudesse deitar, caminhou até a janela e olhou mais uma vez para fora.

O homem ainda estava lá, trabalhando no carro como se o tempo não existisse.

Ela não sabia seu nome.

Não sabia que ele era o verdadeiro herdeiro de tudo aquilo - do rancho, da casa, da fortuna que sustentava metade do Texas.

Para ela, era apenas um homem coberto de graxa...

Que a havia olhado como se ela ainda fosse inteira.

E por ora, isso bastava.

Capítulo 3 LUTO

A Nova Rotina e a Segunda Imagem

Na manhã seguinte, o céu do interior parecia um quadro. Azul límpido, com pinceladas esparsas de nuvens alvas. O aroma do café fresco misturava-se ao da madeira envelhecida do casarão, e um feixe de luz atravessava as frestas da janela, banhando o chão de tábuas gastas com um dourado delicado.

Elisabeth despertou devagar, como se seu corpo ainda resistisse à ideia de que aquele era o novo mundo. Custou alguns segundos até lembrar onde estava - e por quê. Sentou-se com suavidade na cama, os cabelos desgrenhados caindo sobre os ombros, o olhar perdido na tapeçaria da parede.

Vestiu-se com simplicidade: calça jeans clara, camisa branca de algodão e um suéter azul que pertencia à mãe. Era largo nos ombros, mas trazia conforto - e memória.

Ao descer as escadas, encontrou a avó sentada na ampla sala de refeições, já com o jornal em mãos e a xícara de chá posta à frente.

- "Dormiu bem?" perguntou Margaret, sem desviar os olhos da coluna de opinião.

- "O suficiente para não ter pesadelos," respondeu Liz com honestidade contida.

A avó assentiu, sem exageros de emoção, mas com uma presença firme que dizia mais do que as palavras. Evelyn trouxe o café em silêncio. Pães caseiros, frutas frescas, mel, leite morno. Tudo simples, mas preparado com cuidado.

- "Você vai começar hoje," disse Margaret, como quem entrega uma decisão já tomada.

Liz ergueu os olhos.

- "Começar o quê, exatamente?"

- "Ajudar Evelyn com a casa. Ela está ficando sozinha há tempo demais. Já avisei que você não ficará trancada naquele quarto como se a dor te bastasse. Aqui, todos fazem sua parte."

Liz não discutiu. Sabia que, de certa forma, aquela exigência era um gesto de carinho disfarçado de disciplina. Respirou fundo e assentiu com um leve movimento de cabeça.

Foi Evelyn quem conduziu o primeiro tour. O casarão tinha dois andares e mais alas do que Liz imaginava. Cozinha ampla, despensa com estrutura de restaurante, lavandaria nos fundos, sala de estar com móveis que pareciam ter pertencido a outra era. Tudo ali era antigo, sólido, bem cuidado. Havia até uma biblioteca - discreta, porém surpreendentemente rica. Livros empoeirados repousavam em prateleiras altas, esperando que alguém voltasse a tocá-los.

- "Era o refúgio do senhor George, seu avô," explicou Evelyn.

- "Ele e o senhor Langford liam aqui quando pequeno. Mas há anos ninguém entra."

Ao ouvir o nome, Liz ergueu o olhar.

- "Langford?"

- "O neto da senhora Vivienne, que de tempos em tempos vem à fazenda. Mas você já o viu ontem, no pátio. É ele."

Liz sentiu o coração bater mais rápido - não por romance, ainda não - mas por confusão. O homem coberto de graxa, o mecânico que consertava carros velhos ao lado do celeiro... era um Langford?

- "Ele é... da família?"

Evelyn sorriu, sem dar margem para muitas interpretações.

- "É o dono de tudo isso, minha querida. O herdeiro. Mas gosta de se esconder na simplicidade, quando o mundo o sufoca."

Liz manteve o silêncio. Por dentro, uma centelha de inquietação crescia. O homem que ela confundira com um funcionário era, na verdade, o homem mais poderoso daquela propriedade.

No final da manhã, Liz pediu para ajudar na arrumação do celeiro. Queria se ocupar, distrair-se, não afundar na memória como fizera tantas vezes desde a tragédia. Evelyn a encaminhou até um dos empregados, um homem mais velho chamado Joel, responsável pelos estábulos.

- "Pode ajudar a varrer e organizar as ferramentas do canto leste," orientou ele, gentil mas objetivo.

Liz arregaçou as mangas. Era bom fazer algo com as mãos. O cheiro do feno, o som das ferraduras batendo suavemente no chão, o murmúrio distante de bois e cavalos. Tudo era novo - mas tinha algo de purificador.

Foi quando o viu novamente.

Erik havia trocado o macacão por uma camisa jeans de mangas dobradas e calça de brim escuro. Estava de costas, debruçado sobre uma pilha de madeira, organizando pranchas. Mas mesmo assim, Liz o reconheceu instantaneamente.

Ele virou-se devagar ao notar a presença dela. Os olhos azuis estavam ainda mais intensos sob a luz do meio-dia. Não sorriu desta vez, mas também não pareceu surpreso.

- "Então você decidiu explorar mais do rancho," disse, com uma voz que tinha algo de ironia sutil, mas sem arrogância.

- "Decidi ajudar," respondeu ela, firme, embora a pulsação lhe denunciasse o nervosismo.

- "Boa escolha. O celeiro costuma ser mais honesto do que muita gente na cidade."

Liz arqueou uma sobrancelha.

- "É mesmo? E você costuma filosofar entre fardos de feno?"

Ele riu. Um riso baixo, contido, mas verdadeiro.

- "Às vezes. Mas hoje só estou tentando organizar essa madeira antes que o tempo vire."

Ela hesitou por um momento.

- "Descobri que você é um Langford."

- "Aham." Ele pegou um prego, como se a informação não exigisse resposta.

- "E não acha estranho deixar que os outros pensem que você é apenas... um funcionário?"

Erik olhou diretamente para ela pela primeira vez.

- "Às vezes é exatamente isso que eu quero ser."

Silêncio.

Não um silêncio desconfortável, mas aquele tipo raro de silêncio que dois desconhecidos compartilham quando, por algum motivo, sentem que ali há mais do que o óbvio.

Liz desviou o olhar, voltando à vassoura em suas mãos. Ele também retornou ao trabalho. Mas algo, naquela troca aparentemente banal, havia se estabelecido.

Um fio invisível.

Uma tensão que ainda não era paixão - mas que já era algo além da casualidade.

E naquele celeiro antigo, sob o cheiro de madeira, terra e promessas veladas, o destino começava, com delicadeza, a traçar um novo roteiro.

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