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MEU CUNHADO

MEU CUNHADO

Autor:: Anny Karollayne
Gênero: Romance
Malu era só uma garota. Uma garota que há alguns meses teve seu coração partido e isola-se no seu próprio mundo apenas por comodidade, e também por causa de uma coisa que ela não admite: Passou a ter medo das pessoas. Medo do que elas são capazes de fazer, do quanto podem magoar. Mas tudo muda quando sua irmã surge com o novo namorado em casa, um namorado que pelo que ela dizia, seria diferente, daria certo. Ao se deparar com seu novo cunhadinho, Malu vê suas dores serem desenterradas, e acaba resgatando mais do que dores, mas também momentos e sentimentos há muito tempo adormecidos. E Igor, seu cunhado, vê agora uma oportunidade de fazer dar certo, só que de forma errada. Será que os dois serão capazes de criar um laço de, apenas, amizade?

Capítulo 1 01

Malu narrando

Tentei me concentrar na leitura a minha frente, um livro obrigatório da escola, mas que eu não podia deixar de gostar. O livro era Capitães da Areia do Jorge Amado e ao todo eu já o tinha lido umas 5 vezes, alternando entre os livros novos que eu comprava e meus favoritos. Eu amava ler e desde que me conhecia por gente me vi rodeada por livros. Isso se devia ao fato de minha mãe, Dona Betty, já ter sido Bibliotecária quando jovem, então ela sempre trazia um livro ou outro para casa. Quando se casou, e Ceci nasceu, ela largou o emprego e dedicou-se a ser dona de casa. Mas a essa altura, a casa já estava recheada de livros; distribuídos por estantes, prateleiras na parede e em caixas de papelão, seu único bem verdadeiramente valioso. E eu amava os livros e como a minha mãe, os respeitava e os respirava. Não era boa escrevendo, mas admirava aquele mundo cheio de palavras que se tornava simples, mesmo para uma garota tão difícil e complicada como eu. E eu definitivamente amava o livro que eu estava lendo, não somente pela fala natural e ritmada do autor, mas pelos personagens e admirada com uma retratação tão fiel do ódio.

Estava na parte em que Dora chegava para se juntar aos meninos do trapiche, parte que eu tanto adorava, mas Karol não colaborava. Ela fazia barulhos balançando sua boneca, cantando cantigas que começavam a me tirar do sério. Não eram nem cantigas infantis, eram musiquinhas atuais, irritantes, que grudava feito cola na nossa cabeça. Karol era minha irmã mais nova, de cinco anos. Era bem pequena para a idade e sua voz era extremamente fina e irritante. Os cabelos curtos, escorridos, de um castanho bem claro beirando um loiro meio caramelo lhe davam um ar a­ngelical, mas ela adorava perturbar os outros. Basicamente ela era tudo em excesso, agitada demais, esperta demais, irritante demais!

– Karol! – gritei, perdendo a paciência.

– Sim?

– Porque não vai assistir um DVD?

– Porque eu não quero. – fiz uma careta pela sua resposta, mas me calei, voltando à leitura. Infelizmente ela mudou o foco de sua atenção para mim. Agora estava praticamente em cima de mim por trás do sofá, tentando ler, embora ela não saiba ler, o livro.

– Por favor, me deixe quieta. – gemi, odiava ler com alguém em cima de mim.

– São férias, posso fazer o que eu quiser. – ela disse, despreocupadamente. Sim, eram férias. E infelizmente eu não iria viajar, iria ter que aguentá-la.

– Não, você não pode!

– Posso sim.

Claro que quando decidi morar com a minha mãe em definitivo, eu sabia que teria que aguentar a filha de seu novo marido, minha meia irmã, mas a garota tinha que ser tão irritante? Eu morava com meu pai até um ano atrás, então depois dele se casar novamente eu decidi vir morar com a minha mãe. Sim, o motivo era aquele velho clichê: A minha madrasta é horrenda. Eu simplesmente não a suportava com suas manias irritantes. Eu até que gostava de ficar aqui, embora eu não tivesse tanta paz quanto antes.

– Por favor, Karol.

– Karol deixe sua irmã em paz! – Minha mãe gritou da cozinha.

Karol me mostrou a língua enquanto se afastava. Eu, bem madura, imitei. Ela foi andando para trás de costas e esbarrou em Maria Cecília, mais conhecida como Ceci. Minha mãe tinha alguma coisa com Marias, não sei se ela gostava do nome, ou de coisas repetitivas e sem graça. Todas as filhas eram Marias. Uma Maria Cecília, a mais velha. A outra Maria de Lourdes, eu, embora ninguém saiba meu nome, todos me conhecem por Malu. E a pior das Marias, a Maria Karolina. Fala sério! Todas as filhas possuindo um Maria no meio, isso sim que é originalidade e criatividade. Para o azar da minha mãe, que amava os nomes, nenhuma das filhas deixava que a chamassem de Maria. Éramos conhecidas pelos apelidos: Ceci, Malu e Karol. Eu odiava meu nome principalmente porque eu já havia conhecido uma Maria de Lourdes, uma velha que morava na rua atrás da nossa e vivia rodeada de crianças, que a chamavam de Senhora e Vovó. Me irritava o nome, o barulho. Gostava do meu apelido, era leve e rolava feito chiclete pela boca das outras pessoas. Doce e suave. Sentia que lhes fazia um favor diminuindo o meu ridículo e cansativo nome.

– Cuidado, Karol.

– Ops. – Karol se afastou, colocando as mãos nas bochechas rosadas. Ceci revirou os olhos, olhando para nós e nos analisando. Procurei me esconder pelas páginas do livro, já prevendo alguma reclamação da parte dela. Sobre qualquer coisinha. Desde roupas ao jeito de me deitar no sofá.

– Ninguém se arrumou? – Finalmente a pergunta. Procurei ignorá-la, tentando ler a mesma frase pela quarta vez.

– Como assim ninguém se arrumou? Vocês só podem estar brincando!

– Arrumou para que? – perguntei tediosamente, ainda tentando me concentrar no livro.

– Eu vou trazer meu namorado aqui hoje.

– Que namorado? – Mais um? Era isso que eu queria e devia ter perguntado.

– Aquele que ela fica falando há umas duas semanas. – Minha mãe disse, brincando. Aparecendo da cozinha. Minha mãe era bonita, alta e esbelta, infelizmente eu não tinha puxado sua altura. Ninguém lhe dava os 45 anos que possuía só de olhá-la. Já estava no seu segundo casamento e nem mesmo o tempo diminuíra sua aparência e seus atrativos, tornando-a mais madura e atraente. Mas ao conhecê-la as coisas mudavam. Ao conhecê-la viam o quão mãe ela era. Era bonita, sim... Não havia dúvidas, mas seu modo arrastado de falar, os gritos que dirigia a nós como broncas e a amargura que as brigas no divórcio e no novo casamento lhe acarretaram, a tornaram meio apagada.

– Huum, aquele tal de Adalberto?– Entrei no jogo e ouvi minha mãe começar a rir, naquele seu riso alto e fácil. Na verdade, eu havia esquecido completamente o nome do namorado da vez.

– Mãe! – Ceci gritou, nervosinha. Minha irmã se estressava fácil de mais. Não parecia ter 18 anos, mas sim 81.

– O nome dele é Igor! Igor!

– Igor? Porque Igor? Porque diabos o namorado dela tinha que se chamar Igor? -Afastei algumas lembranças inúteis da minha mente e me afundei mais no sofá.

– Porque os pais dele quiseram que o nome dele fosse Igor! Que pergunta mais imbecil, Malu. – ela disse.

– Blá, blá, que pergunta mais imbecil, Malu. – resmunguei, imitando-a.

– Não comecem a brigar. – Minha mãe avisou e Ceci bufou cruzando os braços.– Espero que esse garoto vala a pena, sério. E que você sossegue de uma vez.

– Pode deixar, mamãe. – ela disse, sorridente. Bufei, odiava quando ela trazia os novos namorados aqui casa. Era uma encheção de saco. Ter que sorrir, ser bem educadinha, aguentar as piadas sem graça, fingir ser simpática e claro, sentir compaixão ao ver o olhar apaixonado do guri para ela, sabendo que em breve ele seria chutado por alguém mais alto, ou mais loiro, ou com um carro esportivo melhor.

– Malu?

– Eu.

– Não vai se arrumar?

– Ainda são 5 horas.

– E você demora duas só no banho. – encarei Ceci, totalmente irritada. Ela juntou as mãos, num gesto de 'por favor'. Fechei o livro e o coloquei na mesinha de centro. Derrotada. – Vai ou não vai?

– Ok. Estou indo, estou indo. – levantei irritada e minha mãe voltou para cozinha. Caminhei para a escada. – Não se tem paz nessa casa!

– Malu?

– O que é dessa vez?

– Seja boazinha. Eu gosto mesmo dele. – ri irônica.

– E quando é que eu não sou boazinha?

Eu adoraria dizer que estava arrumada com a minha melhor roupa, ansiosa e em expectativa em conhecer o novo amorzinho da minha irmã, pronta para dar todo o apoio num momento difícil como esse que é apresentar o namorado para a família. Mas seria uma tremenda mentira. Nenhum garoto valia tanto esforço. Principalmente quando eu sabia que o meu relacionamento de 'queridos cunhados' com o namorado da Ceci duraria no máximo uns dois meses, e olha que estou pensando positivo. Ou seja, namorados sendo apresentados a minha mãe; por parte de Ceci, era a coisa mais comum do mundo. Então... Eu mal me arrumei e não estava nem um pouco ansiosa, na verdade eu estava desanimada. Para irritar ainda mais Ceci estava simplesmente com um short jeans e uma bata comprida e confortável. Nos pés, um chinelo de dedo. Bem largada mesmo. E ai de Ceci se reclamasse.

Capítulo 2 02

Sentei na minha cama, olhando ao redor, enquanto penteava os cabelos úmidos. Minha cama estava desarrumada e minha mesa com o computador precisava de uma verdadeira arrumação. A pequena cômoda espremida ao lado do computador, que eu usava para guardar minhas roupas, estava cheia de pó e a televisão em cima pedia para que eu arrancasse os adesivos que Karol teimava em colar. Perto da janela, havia uma estante com meus variados livros, cadernos da escola e papéis jogados juntamente com minha mochila. Ou seja, meu quarto precisava de uma nova faxina.

O ano novo tinha acabado de passar e eu não tinha arrumado aquele quarto. Era um quarto pequeno, mas eu tinha sorte de não ter que dividi-lo. Cada uma de nós tinha seu quarto. O meu era o segundo menor e o de Ceci era maior e mais bem cuidado, benefícios em passar no vestibular de primeira. O de Karol era um antigo escritório que lhe servia de dormitório e quarto de brinquedos. O da minha mãe era no andar de baixo e era sem dúvidas o melhor. Cabia dois quartos meus dentro do dela. O meu além de ser o mais miudinho era o pior. Porque era de cara com a rua, ou seja, quando havia algum tipo de festa, ou um carro com um som alto perto do portão. Meu quarto virava uma gigantesca caixa de som. Prendi meu cabelo com uma piranha, ainda molhado e decidi deixá-lo secar por conta própria, não antes de passar um leave in nele, evitando desastres futuros.

Desci as escadas e me joguei no sofá. A sala estava assustadoramente arrumada. Minha casa seria bonita se não tivesse tanta gente bagunceira. De todos, só minha mãe era organizada, gostava de tudo no lugar, mas adorava bugigangas. E as filhas adoravam deixar as coisas espalhadas, tirar seus enfeites do lugar e isso a enlouquecia, já que sempre procurava deixar tudo arrumado. E hoje ela devia estar pulando de alegria ao ver a sala arrumada, sem os batons e revistas de Ceci, e os brinquedos de Karol haviam sumido. E os DVD's no raque de mogno? Haviam desaparecido completamente. O tapete cor de vinho da minha mãe estava bem esticado e a mesinha de centro escondia a pequena mancha de suco de laranja que Karol havia feito há algumas semanas. E além do mais tudo brilhava. Os quadros na parede, as fotografias na estante, os sofás bem arrumados, a mesinha perto da janela sem as chaves jogadas. Tudo assustadoramente organizado. Só meu livro havia sido deixado na mesa de centro, juntamente com as revistas sobre economia, política e artes que normalmente só eu e o marido de minha mãe costumávamos ler.

Logo notei que Ceci queria realmente impressionar o carinha e que seria interessante e divertido conhecê-lo, o tanto de piadas que eu podia fazer e como envergonhar Ceci como uma boa irmã mais nova que eu sou era catastrófico e adorável. Talvez o jantar não fosse tão desastroso, tedioso e cansativo assim, pensei.

No andar de cima eu podia ouvir a algazarra de Karol no banheiro, na cozinha minha mãe cantarolava e infelizmente, ela não tem uma voz muito doce... E Ceci andava de um lado para outro pela casa. Subindo e descendo pelas escadas, tirando os chinelos espalhados pela casa, mudando a posição dos anjinhos de porcelana da minha mãe na estante e quase furando o chão com tanta agitação. Procurei pegar meu livro e me distrair de toda a barulheira e ansiedade de Ceci, mas foi impossível.

– Dá pra pelo menos ficar parada?– comentei, já tonta com sua agitação. – Ou eu vou pregar seus pés no chão!

– Você parece irritada.

– Se eu estivesse irritada, você não estaria entre os que são desse mundo. Traduzindo, morta.

– Minha vida tornou-se emocionante desde que você veio morar conosco, as ameaças me emocionam.

Eu não podia dizer que havia sido tão emocionante, para mim. Eu havia decidido deixar meu quarto grande e confortável, a liberdade e frieza que meu pai me proporcionava e a irritante e monstruosa madrasta nova para trás quando me mudei para cá. Ganhando de brinde duas irmãs calorosas e irritantes. Uma mãe superprotetora, um padrasto indiferente e cheio de frescuras e dengos com a minha irmã mais nova e colegas de escola que dariam tudo para me ver cair do skate, de preferência com a cara no chão, todo dia quando me viam chegar à escola. Era uma troca bem divertida, é claro. Vivendo perigosamente e tudo o mais.-

– Também te amo irmãzinha. – sorri ironicamente e voltei a ler o livro.

– Malu...? – olhei para ela que havia sentado na escada, olhando para mim entre os vãos do corrimão. – Estou atrapalhando?

– Imagina. Você atrapalhar? Que isso! – disse irônica.

– Sorte a minha. – ela sorriu, a olhei com cara de assassina.– Tudo bem, leia seu livro em paz.

– Obrigada. – voltei a ler. Então percebi que Ceci batia o pé no chão no ritmo de alguma música sertaneja (de quebra, a mais irritante) que ela gostava. Isso começou a me irritar. Bufei, vencida. – Ta legal! Fala logo o que você quer.

– Ahhh obrigada! – Ela sentou-se no sofá graciosamente, mas ainda assim animada. Seu sorriso era resplandecente, a pele não possuía qualquer traço de alguém que morava na praia, Cecília abusava de filtro solar. Os olhos castanhos amendoados pareciam sorrir também. Diziam que nossos olhos eram iguais, a mesma cor, mas os de Ceci pareciam imensamente maiores, mais bonitos e destacados pela maquiagem bem feita. Era uma moça bonita e irresistível a minha frente, não era a toa ela viver rodeada de rapazes apaixonados. Suspirei e abracei os joelhos, juntamente com o meu livro. Preparada para o tédio.

– Ele é perfeito.

– Eles normalmente são.

– Não, ele é diferente. Realmente diferente. – ela quase suspirou e eu pude ver como seus olhos brilharam. E meio que me assustei com isso. – Ele é engraçado, sexy, trabalha pouco, ganha muito dinheiro. É bonito... Muito bonito. Não que eu me importe tanto com o trabalho e a beleza dele.

– Ah ta... – tentei não rir de sua 'piada', mas foi difícil. Ela me cutucou.

– É sério! Ele é tão legal e divertido. Ele me trata bem e tudo o mais.

– Já ouviu falar que é sempre assim no começo, não é? Mas os cafetões se tornam violentos depois de um certo tempo...

– Malu! – ela começou a rir, bem humorada do meu comentário jocoso. É, eu estar arrumada, ou seja com os cabelos penteados, surtia efeitos bons no humor dela. Ceci não suportava eu viver sempre de shorts, vestidos fora de moda, e blusas compridas. Sem contar as roupas que eu usava quando ia andar de skate, coisa que a deixava completamente horrorizada. Onde já se viu uma menina viver com arranhões, hematomas, bonés e rodeadas de garotos que falam gírias incompreensíveis? Eu era um caso sério, muito sério para ela que queria que eu usasse saias plissadas, blusinhas apertadas e os cabelos sempre presos em penteados elaborados, ou simplesmente soltos. Sem contar os malditos arquinhos que Ceci tentava de todo jeito empurrar para mim. Ela amava arquinhos e eu odiava-os. Eram irritantemente meigos, e viviam espalhados por aí. E ela ainda tinha a mania ridícula de pedir minha opinião sobre eles. E isso não tinha nada a ver comigo. Eu gostava de roupas leves, os cabelos presos em um rabo de cavalo frouxo e andar de sandálias por aí. Vivia cheia de machucados nos joelhos e com a pele queimada de sol por viver na praia. Eu não trocava meu livro por qualquer pessoa no mundo e tinha abominação por maquiagem. Não sabia usar. Eu era um desgosto para toda a espalhafatosa feminilidade da família, principalmente por parte de Ceci.

– E esse maravilhoso emprego de trabalhar pouco e ganhar muito é como? Quem sabe posso mandar meu currículo.

– Bem... Ele trabalha com a tia.

– Em que exatamente? – ela fez uma careta. A olhei indignada. – Vai dizer que não sabe?

– Quando ele pagou tudo que comemos no passeio que fizemos ao shopping, eu só queria que ele me beijasse. E ele beija super bem. Rá!

– Claro, típico! Está namorando algum Miss Perfeição da vida. – Sinceramente... Não me admirava ele ser 'perfeito'. Ceci normalmente pegava os caras mais legais. O problema é que chutava eles depois de algumas semanas, repito. Eu a achava meio insensível com isso. Tanto que até tentava consolar os idiotas que acabam ficando na porta de casa por alguns dias, jogando-lhes um balde água fria, literalmente. Para aplacar o fogo da paixão deles, que droga. Mas sabe como é... Mesmo não gostando da conduta da Ceci com seus relacionamentos, já havia desistido de discutir com ela sobre isso há um longo tempo. Eu era ignorante nessa matéria.

– Você acha mesmo que estou exagerando?

– Acho.

– Foi uma pergunta retórica!

– Desculpe. – eu ri de leve. Olhei para ela, que olhou para a porta pela milésima vez. – Tudo bem, entendi. Você gosta mesmo dele. Prometo me comportar.

– Sem piadinhas sem graça?

– Eu nunca conto piadas sem graça.

– Era uma vez um pato que nunca ria. Aí um dia ele tropeçou e rachou o bico. – ela ficou séria olhando para mim. E sem querer eu desatei a rir, muito alto! Logo ela estava me acompanhando. Embarcamos juntas numa gargalhada a lá mamãe. Alta e sem parar, quase nos engasgando. Ceci se recuperou antes de mim e eu respirei fundo, limpando algumas lágrimas que escaparam no esforço do meu riso. Ceci me olhava em expectativa, um sorriso brincalhão no rosto:

– Sem piadas sem graça, então?

– Promete?

– Fala sério, Ceci. Não duvide de mim, ok?

– Obrigada. – A campainha tocou nesse momento, então ela arregalou os olhos. Olhei para trás do sofá e vi uma silhueta parada na porta, mãos no bolso. Cabeça baixa. Antes que Ceci se levantasse Karol desceu correndo as escadas, os cabelos castanhos claros úmidos balançando atrás de si e o vestidinho levemente amassado. Ceci tentou impedi-la, mas ela abriu a porta.

– Ei, você é o namorado da minha irmã?– Ouvi uma risada grave e meio rouca, falhando quando chegava ao final... Paralisei.

– Sim. – ele disse docemente para minha irmã e eu paralisei no sofá. Meus dedos gravados na capa do livro. Não. Não pode ser. Era impossível!

– Vamos, entre. – Ceci chamou. Olhei para baixo, para o livro. Ouvi quando Ceci apresentou ele, a porta ainda aberta, para Karol e minha mãe. – Ei, Malu. Venha cá.

Tentei controlar aquele medo ridículo dentro de mim. Essas coisas não podiam acontecer. Com as pernas tremendo me levantei. Me convencendo que eram só vozes parecidas e nomes parecidos. Caminhei ainda de cabeça baixa para perto da porta. Então levantei os olhos.

Eram eles, aqueles mesmos olhos castanhos. Vi que ele espelhou a expressão do meu rosto. Assustado, incrédulo, perdido. A garganta secou, sem saber o que fazer continuei parada, xingando mentalmente a mim mesma e meu maldito carma.

– Vocês já se conhecem?– Ceci perguntou, desconfiada.

– Não! Claro que não! – eu disse alto. Nos olhamos assustados novamente. Senti o rosto corar e vi que suas bochechas também coravam sob a pele bronzeada.

– Certo... – Ceci sorriu, animada. Agarrou o braço dele, o puxando para perto. – Igor, esta é minha irmã Malu. E Malu este é o Igor, meu namorado.

Ela lançou um olhar para mim, esperando que eu dissesse algo. Engoli em seco. Sem saber como assimilar tudo. Eu queria rir, gargalhar!, dessa grande ironia e ao mesmo tempo queria chorar de tamanha falta de sorte. Eu queria estapeá-lo e a Ceci, e ao mesmo tempo queria puxá-la para longe dele. Eu era cheia de vontades, mas meus pensamentos estavam vazios, ocos... A única coisa que eu realmente conseguia pensar enquanto Ceci me olhava orgulhosa e exibia Igor que essa situação era horrível e insana. Como uma piada de humor negro, eu não conseguia rir ou sorrir diante daquela situação. Tudo o que eu conseguia pensar era quando eu o chamava de meu.

O jantar foi extremamente desconfortável para mim. Igor mostrou-se calmo e controlado. Fazendo todos da mesa rir, menos eu. Eu apenas olhava a comida, sabendo que seria uma tarefa de Titãs digeri-la. Percebi que Ceci me olhava com desaprovação, querendo que eu me soltasse mais, embarcasse na conversa com o namorado e o entretesse com minhas observações irônicas, coisas que eu sempre fazia. Eu costumava ser bem soltinha no jantar, porque não conseguia calar a boca quando tinha uma situação constrangedora dessa na minha frente. Mas isso aqui era um absurdo. Eu simplesmente não conseguia, principalmente porque Igor não parava de me encarar.

– Como vocês se conheceram?– Karol perguntou animada. Ela gostava dessa coisa de casaizinhos, mesmo sendo tão novinha.

– Karol... – Ceci ficou vermelha e me perguntei porque ela estava se fazendo de tímida. Quis bater na cara dela, um tapa bem forte a ponto de fazê-la cair da cadeira. – Bem, foi na praia. Ele ficou me encarando... Aí... Fui falar com ele, e bem... Foi divertido. Trocamos telefone e mantemos contatos. Bem rápido. E lindo.

– Legal. – Karol disse, não tão animada com a conversa agora. Ela gostava de coisas épicas, como esbarrões em corredores de escola ou algo semelhante, flores no dia dos namorados, papéis de carta e amor à primeira vista como nos filmes que ela gostava de assistir. Essas bobagens enganadoras, que teimavam em dizer que o amor era lindo. Blérgh!

Meros mortais, sempre pensando positivo sobre coisas que estão fadados ao fracasso apenas por serem baseados em ilusões. Eu não entendia como podiam acreditar que esbarrar em uma pessoa e dividirem o gosto por economia e gastos, somente isto, poderia levar uma relação adiante. Tinha que ter uma coisa inexplicável no meio também, e afinidades; é claro, já que são elas que levavam o trem para frente, trilhando os trilhos com anos de casamento e companheirismo. Infelizmente, a minha família possuía um histórico impressionante de trens fora dos trilhos, divórcios e separações. E claro, troca de namorados constante. Ou seja, os relacionamentos amorosos estavam fadados ao fracasso, comigo não poderia ter sido diferente.

– Então Igor, no que trabalha?– Minha mãe perguntou, direta e rápida.

– D. Betânia, eu trabalho... – ele parou ao ver a careta da minha mãe. Me olhou confuso e eu me perguntei porque não olhou para Ceci, mas procurei deixar para lá.

– Ela não gosta de Betânia, se quiser chame de Tia Betty. Nunca Betânia. – expliquei.

– Ah, me desculpe.

– Tudo bem. – Minha mãe sorriu, parecia cada vez mais encantada.

– Pois bem... Eu trabalho no planetário no centro da cidade, meio período. Das 10 as 6 e depois tenho faculdade. Mas estou de férias e tudo o mais. Consegui o trabalho porque minha tia é astrônoma, já trabalhou lá e arranjou um trabalho para mim.

– Sério? Nossa, isso é ótimo. Mora com seus pais?

– Não... Eu tenho meu próprio apartamento.

– Tão jovem?

– Quando meu avô morreu, eu tinha 16 anos, ele me deixou um bom dinheiro. Nessa época meus pais já haviam me emancipado por... me acharem maduro o suficiente. – O olhei curiosa, não conhecendo esse detalhe sobre a família dele. Ele nunca falou sobre os pais, ou algo semelhante. – O dinheiro foi o exato para comprar uma casa para mim e pagar minha faculdade de Astronomia. Com meu emprego, paguei um carro para mim.

– Você parece um garoto decidido. Ao contrário da minha filha, Maria de Lourdes.

Capítulo 3 03

– Malu, mãe. Meu nome é Malu. – remexi meu arroz com o garfo nervosamente, já prevendo um desastre.

– Não sei por que não me deixa te chamar pelo seu nome verdadeiro, Maria de Lourdes. É um nome tão bonito.

– Por favor, mãe. Malu, você sabe disso. – controlei o impulso de cerrar os dentes e cruzar os braços irritada. – Já se acostumou.

– Malu é assim, a única coisa que sabe da vida é que odeia o próprio nome. – Minha mãe comentou se dirigindo a Igor. Pronto, começou, pensei. Minha mãe se indignava por eu não escolher qual faculdade fazer e por não me interessar por nenhum cursinho, além do de inglês que eu havia terminado a algum tempinho. Não era minha culpa não ter descoberto minha vocação ainda, oras. Eu não me preocupava tanto porque tinha tempo para pensar. E não tinha culpa se nenhuma profissão se encaixava ao meu perfil atual.

– Mãe... Eu sei o que vou fazer na vida. Faculdade.

– Mas não sabe do que.

– Tenho tempo pra decidir. Já conversamos sobre isto. – A olhei esperando que ela se tocasse que não era hora para ouvir seus sermões. Ela voltou a olhar para Igor e sorriu.

– Faculdade de Astronomia? Que diferente.

– Nem tanto... – ele sorriu e olhou para mim, desviei os olhos. Irritada com a minha mãe, que babava por Igor, com Cecília, por exibi-lo toda orgulhosa, com Karol, por olhar meiguinha para ele e ser receptiva. Raiva de mim por... Por tantas coisas! E raiva dele, principalmente e inteiramente dele. Eu sentia um ódio ferver dentro de mim, misturado com o turbilhão de sentimentos e pensamentos que era minha cabeça. Meu estômago embrulhava e terminar de comer a salada de maionese da minha mãe tornou-se impossível. – Eu realmente gosto de estrelas.

– Você podia me levar no planetário. – Karol se intrometeu na conversa; ignorando o clima tenso entre mim e minha mãe como uma típica criança de 5 anos, tentando se livrar das verduras.– Eu gosto de estrelas também.

– Podíamos ir todos, quem sabe... – ele sorriu para Karol, carismático. Revirei os olhos, bebendo um copo de refrigerante e tentando de todo o jeito não olhar naquela direção, ou simplesmente enfiar um garfo na minha testa. Ninguém percebia como isso era desagradável. Que inferno!

– Parece ótimo. Que tal amanhã?

– Amanhã não. – Sem poder me conter, abri minha bocona. Xinguei baixinho quando todos me olharam. Infelizmente minha mãe veio com a pergunta mais difícil:

– Por quê? – vasculhei alguma desculpa boa na minha mente. Infelizmente eu era uma péssima mentirosa.

– Bem... É que... Eu vou sair. – sorri orgulhosa da minha grande desculpa.

– Pra praia? – Ceci se intrometeu, me olhou com um olhar sarcástico. – Você vai todo dia para praia.

– Eu não vou à praia amanhã. Vou a outro lugar.

– Que outro lugar? Que eu saiba todas suas 'amigas' viajaram e o Alexandre também.

– Não conheço só eles. – Eu não conseguia mentir, então só ficava nessas evasivas.

– Você vai. – Minha mãe disse sorrindo, mas eu sabia que ela haveria ameaças depois. Armei uma bela carranca para ela, que ignorou placidamente.

– Podemos ir outro dia. – Igor tentou apaziguar as coisas. Olhei para Igor tentando entender qual era o problema dele. – Aí não tem problema.

– Depois de amanhã! – Ceci disse animada. Senti vontade de desaparecer. Não respondi nada, e eles voltaram a conversar. Assunto? Praia. Eu? Martírio.

– Faz o que no tempo útil?

– Hãn... Eu surfo.

– Surfa?

– Arran.

– Surfa pra manter a forma?

– Não. Na verdade não. Quando comecei a surfar era bem magrelo e tinha horror a academia, sempre achei chato. Mas eu gostava um pouco de esportes, mas não tinha muito jeito. Mas eu amo o mar, achei a solução perfeita. Aprendi a surfar. Manter a forma é apenas um bônus.

– Você deve ter muitas garotas em cima de você.

– Não. Não.

– Como existe gente mentirosa nesse mundo, viu... – Eu disse baixinho. Alguns pares de olhos viraram para mim.

– Você disse algo?

– Não. Claro que não! – Corei e ele sorriu tristonho. A conversa retornou, minha mãe parecia definitivamente conquistada. Eu estava já cansada disso. Me levantei.

– Com licença. Vou dormir.

– Já? Mas nós vamos assistir a um filme.

– Eu aluguei um romance lindo, filha. Você ia amar. – ri ironicamente. Eu não gostava de romances, só quando tinha vontade de chorar. E ainda mais assistir o filme com esses dois? Eram piadas demais pra uma noite só.

– Eu prefiro dormir. Minha cabeça parece que vai explodir e tudo o mais. Boa noite pra vocês;

– Boa noite. – A voz de Igor saiu sussurrada, como antigamente. Até mesmo vislumbrei o sorriso dele se afastando. Dois furinhos nos cantos de suas bochechas quando ele sorria abertamente. Me virei, sem olhar na direção dele, sentindo meu coração sufocar em meu próprio sangue quente. Subi as escadas correndo e tranquei a porta do quarto. Eu estava superconsciente da minha cabeça latejando, ainda sentindo a adrenalina pulsando em meu corpo. Fechei os olhos, procurando pensar em qualquer outra coisa. Formulas matemática, golfinhos, terroristas, um trapiche... Mas estava realmente difícil. Me concentrei no sangue martelando forte na minha cabeça, dos braços pulsando, nas pernas tremulas. E do coração se rebelando. Batendo dez vezes mais forte do que o normal. Péssimo sinal.

– Droga! – puxei um travesseiro e o apertei junto à cabeça. Fechando os olhos. Lembrei da minha promessa. Sem lágrimas. Sem lágrimas... Difícil. Elas molhavam meus olhos mesmo quando estavam fechados. Sentia como se tivesse areia em meus olhos e as lágrimas seriam para expulsá-las. Abri os olhos olhando o teto e dando de cara com um céu azul que toldava meus olhos e com o cheiro de maresia que inundava meu nariz desde um ano atrás. E confusa, com os cílios molhados, comecei a pensar em uma forma de fugir ao encontro de depois de amanhã.

Claro que antes de dormir prometi a mim mesma não ir a praia, não sair de casa, nem conversar com Ceci, nem nada do tipo. Uma coisa eu tinha conseguido, eu não falei com Ceci. Vi minha mãe no café da manhã que me deu uma bronca sobre ser educada que eu fiz questão de ignorar, mas foi tudo. Claro que eu não consegui cumprir as outras duas promessas. Foi impossível ficar em casa olhando pro teto e tendo pensamentos depressivos, então, fui para praia. Que era meu refúgio. Gostava da agitação e calmaria do mar, do cheiro. Da areia entre meus dedos. De ouvir o mar batendo na areia, ou de encontro com as grandes pedras. De andar pelo píer quando ele estivesse vazio, o mar balançando levemente abaixo de mim e eu ver lá longe minha sombra. Ou apenas sentar em um banquinho afastado, ou numa toalha de praia e ver o mundo passar devagarzinho junto com o tempo enquanto eu lia um livro qualquer.

Eu estava sentada em um banquinho, usando um vestidinho solto e velhinho e um all star no pé, pra não perder o costume de ter conforto. Com o livro de ontem nas mãos. Minha cabeça dava voltas e eu fiquei olhando as pessoas passarem, sem realmente vê-las. Raras vezes eu prestava atenção em alguém e me perguntava intimamente sobre como era sua vida, tentando esquecer a minha. O dia estava estupidamente quente e eu sentia o suor se formar na minha testa em pequenas gotículas, limpei-as com a palma da mão. A manhã estava indo embora para dar lugar a uma daquelas tardes de calor sufocante em que nós, moradores de Santa Bárbara, uma pequena cidade do Rio de Janeiro, já estávamos acostumados. O sol machucava meus olhos e me cegava, me deixando meio sufocada e tonta, e eu estava prestes a me levantar e ir embora, me refugiar na frente do meu ventilador salvador e refrescante lá no meu quarto. Até que uma silhueta surgiu, parando a minha frente e tapando o sol.

– Oi. – Aquela voz feriu meus ouvidos, mas respirei fundo, cansada. Olhei para cima, colocando a mão no rosto para enxergar melhor sua forma. Lá estava ele, as mãos no bolso da bermuda e uma expressão indecifrável no rosto, os cabelos estavam mais curtos do que da última vez, reparei.

– O que você quer? – eu disse, a voz controlada. Mas eu estava meio que surpresa.

– Posso me sentar?

– Não. Melhor você ir embora.

– Quanta delicadeza. – ele disse, ignorando minha recusa e se sentando no banco. Um sorriso irônico ameaçava surgir em seu rosto.

– Obrigada. Agora responda.

– Quero falar com você. – ele se sentou no banco ao meu lado. O encarei pelo canto do olho.

– Sério? Falar comigo? Pensei que você só queria minha permissão para trocar um papinho com o banco.

– Você é uma figura, Malu. – bufei, virando o rosto e abraçando meu livro. Esperando que ele se tocasse e simplesmente fosse embora.

– Vai mesmo continuar tentando ignorar minha presença?

– Estou tendo sucesso? – arrisquei olhá-lo de canto do olho. Um sorriso surgia em seus lábios.

– Não.

– Droga...

– Malu...? – ele sussurrou, a voz me fazendo estremecer. Dei de cara com seus olhos que pareciam abrigar naquele tom de dourado, toda a fúria de um mar de Titãs, mesmo não sendo azuis. Seu olhar firme, mas ao mesmo tempo implorativo me lembrou os livros que eu havia lido sobre o Egito antigo, sobre o milagre das águas e rios, da riqueza e beleza do ouro. Os olhos de Igor eram de um mar banhado em ouro, talvez um riacho límpido que matava a sede de milhões de Malu's, como num daqueles meus sonhos infelizes. Seus olhos me acariciaram inicialmente e em seguida a saudade me deu uma bela bofetada imaginária. O seu cheiro me atingiu com força, misturado com a fragrância de alguma colônia desconhecida por mim. Não sei por que, ou talvez sabendo até demais, senti o sangue ferver. De raiva, era por isso que eu tremia segurando meu livro e sentia meus olhos umedecerem, eu tentava me fazer acreditar. Cerrei os lábios. Só de raiva. Apenas raiva. – Malu...

– Eu.

– É que... Eu só...

– Só o que? – O interrompi, prevendo as palavras que sairiam da sua boca. – Não quer que eu conte para minha irmã sobre as férias do ano passado?

– Ela é uma garota legal.

– Não tanto assim, confia em mim. Ela é legal às vezes, tipo... Nas horas que ela dorme e etc. – Não consegui achar graça na minha ironia. – É, ela é legal... Sei disso porque conheço ela há uns 15 anos.

– Eu juro que não sabia que ela era sua irmã.

– Isso teria mudado alguma coisa?

– Você não faz ideia. – ele olhou na direção oposta que eu. Ficamos por alguns minutos em silêncio. Compartilhando uma intimidade que não deveria existir.

– Não devíamos estar tendo essa conversa. – suspirei. Era estranho, bizarro, irreal, errado, íntimo demais. Esse momento não devia estar acontecendo, não dessa forma. Porque isso já havia acontecido tantas vezes há um bom tempo atrás. Nós dois em um banco, sentados, olhando um para o outro esperando que todas as respostas viessem com um olhar. Antigamente seria com um beijo. O mundo faria sentido quando eu me afogasse no mar dourado de seus olhos, minhas angústias e inseguranças afogadas em um sorriso aberto e aconchegante, fazendo par com seu abraço. Mas agora... O sentido era que éramos dois estranhos que se conheciam bem demais. E não devia ser assim. Não quando ele era meu novo cunhado. Não quando os olhos da minha irmã, que mesmo não tão íntima ou amiga, brilhavam tanto ao mencionarem o nome dele. Como se ele fosse o presente mais bonito, mais desejado e amado. Definitivamente, não devia ser assim. Cravei minhas unhas recém-cortadas na capa do meu velho livro. – Quer saber... Somos dois desconhecidos. É isso que somos.

– Como? – ele parecia surpreso em ouvir a minha voz.

– Você não me conhece, eu não te conheço. Acredite nisso, que todos os outros acreditarão. – proclamei, rindo de mim mesma.

– Mas eu te conheço.

– Conhecia... Agora você não faz ideia do que eu sou.

– Porque você sempre vem com essas conversas confusas?

– Não estou sendo clara o bastante? Não me importa que esteja com Ceci, por mim, que se exploda tudo isso. Só não quero ter que ficar contando isso e aquilo para ela. Tendo que dar qualquer tipo de satisfação ou explicação. Não vou ficar no caminho de vocês, estou falando sério. Quero que você colabore pelo bem da sua namorada. Está claro agora? – ele demorou alguns segundos olhando para mim, me encarando. Como se tentasse me ler. Me mantive firme. Ele soltou um suspiro baixo, o rosto reclinado alguns centímetros para perto de mim.

– Está.

– Ótimo.

– Só porque está claro não signifique que eu goste. – Porque ele simplesmente não calava a boca? Porque diabos eu queria que ele continuasse falando somente para que eu ouvisse sua voz? Céus, eu sou tão estúpida!

– Não precisa gostar, precisa obedecer.

– Desde quando ficou tão autoritária?

– Não sou autoritária.

– Não? Só se for pra você...

– Ninguém está obrigando a ficar perto de mim, a senhora ditadora. – Certo. Talvez eu tenha exagerado um pouquinho... Ou muito. Enfim, eu tinha o direito. Olha o que eu estava passando!

– Uau, seu exagero me encanta

– Cala a boca. – Nos calamos. Olhei pelo canto do olho, ele ainda estava me encarando. Os cabelos castanhos claros, quase caramelo, fazendo contraste com os olhos, possuíam algumas esparsas mechas aloiradas por causa do sol balançavam por causa do vento. Os olhos castanhos adquiriam um tom de ouro queimado, que acontecia quando ele ficava preocupado, isso também não mudou.-

– Olhe, vamos fazer do seu jeito. Só não quero que, sei lá, as coisas fiquem estranhas entre nós.

– Isso é possível?– engasguei com um riso de escárnio. – É possível essa situação não ser estranha?

– Vamos ao menos tentar.

– Tentar o que?

– Nos dávamos bem.

– Sem chance. Definitivamente não. Essa eu passo. Não vou ser sua amiga.

– Por quê? Não vamos fingir que não nos conhecemos, não quero isso. É criancice. Você é uma garota legal e eu quero me redimir por tudo. Não que faça alguma diferença, mas... Veja, vamos ali na lanchonete, comer algo, conversar...

– Não dá, Igor. – balancei a cabeça, suspirando. Minhas mãos foram parar no meu cabelo, fechei os olhos. Deixando as palavras escaparem, como sempre faço. – Se eu to conversando agora com você é por causa da minha irmã. Não posso me fazer de sua amiguinha. Eu não esqueci tudo, sabe... Não se preocupe com o que minha irmã vai achar se eu me afastar do convívio com o namorado dela, bem... Você entendeu. Ela já esta acostumada com minha natureza antipática.

Abri os olhos, desviando o olhar em seguida. Me levantei, sentindo a atmosfera carregada. O vento mais forte do que antes. Quanto tempo estávamos nesse banco? Comecei a andar, mal sentindo meus pés, mas com o peso do mundo nas costas.

– Malu?

– O que é agora?– falei alto, irritada com sua voz. Ofendida pela sua presença. Indignada com minhas atitudes, porque parei. Olhei para ele acidamente, que parecia imune ao meu pior olhar. Ele carregava arrependimento nos olhos e imaginei o quão isso devia pesar para ele. Eu era um estorvo tão grande. Para todos, querendo ou não.

– Eu tenho alguma chance de você me desculpar? Por mais remota que ela seja?-

– Eu...

– Por favor. – Minha voz embargou, tudo girou rapidamente, fora de órbita e parou. Por favor, ele havia dito antes. Por favor, eu havia pedido quando meu coração fora quebrado, um dos clichês mais odiados por mim. Por favor, era o que eu pedia quando fechava os olhos. Um pouco mais de sonho, por favor. Um sonho doce, por favor, com ares de passado. Queria também, por gentileza, por desejo e necessidade, conseguir olhar para ele e não sentir raiva. Arrancar a amargura do peito, mas algo arranhava as bordas do meu coração, o orgulho gritava em minha cabeça. Eu não superava.

– Não dá. Eu não consigo. – arrastei as palavras, marcando elas cansativamente na minha língua com um gosto esquisito e poeirento. Bebi do orgulho e do despeito. Virei as costas, os olhos cheios de lágrimas, a garganta inchada. Deixei-o para trás. Novamente... Andei sem rumo pela praia, parando em um lugar em que o vento atingia meu rosto com força. Vi as nuvens escurecerem e a chuva vir de mansinho, as nuvens escuras tomando conta do céu rapidamente. Procurei pensar que era noite, que eu olharia para cima e veria um caminho de estrelas e que assim não doeria. Não doeria porque eu sabia que era uma noite de mentira, assim como as estrelas. Não me decepcionaria, porque não esperava nada. Como eu não esperava que Igor me machucaria um dia... O mar se agitou e eu senti algo em mim estremecer. Me abracei antes o vento frio. Sentei na areia, olhando o mar. A agitação, os surfistas correndo animadamente para o mar em menção das possíveis grandes ondas. Algumas garotas na praia rindo e acenando para seus namorados mais corajosos. As mães tirando os filhos de perto do mar e alguns lamentando a tempestade que se aproximava estragando sua tarde de sábado. Me deixei ficar lá, o pescoço dolorido, o peito sofrido estendido diante da minha noite de mentira. Só lembrando...

Arrumei minha cadeira de praia nova; firmando seus pés com firmeza na areia. Totalmente desajeitada coloquei minha bolsa e sacolas na cadeira ao lado, igualmente firmada no chão. Ajeitei me na cadeira e me estiquei, satisfeita com a brisa gostosa do fim de tarde no rosto. O sol havia abrandado e o céu tinha a coloração de um azul anil calmante, as nuvens passavam devagarzinho como que dançando sobre o céu e o mar parecia sorrir para mim.

Eu estava de férias com meu pai, sua namorada e o irmão dela. Eles decidiram vir para a praia, bem longe da capital, para passar o Ano Novo então estávamos hospedados em um hotel. Um hotel bem legal na verdade, novo, com um bom atendimento e com grande movimentação de turistas. Olhei para frente, avistando o surfista que eu tinha visto mais cedo. Ele se equilibrava com facilidade entre ondas numa intimidade assustadora. O invejei, não gostava de entrar no mar. Gostava de senti-lo em minhas canelas, seu cheiro e adorava olhá-lo. Mas morria de medo de mergulhar naquela imensidão azul, aparentando muitas vezes fúria, como se me convidasse para me perder lá dentro. E eu tinha pavor de me afogar. Evitava piscina e o mar, então? Inimigo, mas ao mesmo tempo amigo querido e conhecido.

Pra ser sincera, a única coisa com grande concentração de água que eu encarava era a banheira, adorava minha banheira. Talvez eu só tivesse medo das ondas e em como elas arrastavam tudo por perto. Convidando-os devagarzinho para embarcar dentro do mar. Assim como aquele surfista. Comecei a observá-lo por distração, apenas. Só distração... Não o olhava porque ele parecia maravilhosamente lindo e atlético. É claro que não! O olhava porque ele surfava bem. Bem demais! Depois de algum tempo me 'distraindo' acabei sentindo fome e fui vasculhar minha bolsa. Abrindo nada mais nada menos que... Um lanche do Mc Donalds. Eu sabia que era porcaria, fazia um mal tremendo para a saúde, eu até gostava de salada, sempre comia verduras desde pequena. Mas; céus, não resistia a um bom lanche do Mc Donalds! Eu parecia uma caipira da cidade, no meio da praia com minha caixinha do...

– Mc Lanche Feliz? – Uma voz rouca disse acima de mim.

Dei um pulo na cadeira. Olhei para cima, dando de cara com o garoto da prancha. Ele respondeu a pergunta em meus olhos de forma rápida, como se realmente soubesse o que eu estava pensando. – Você estava sozinha e seus olhos pareciam me chamar, então... Aqui estou eu.

– Meus olhos te chamando? – controlei uma risada. Começamos bem nosso contato, pensei. Uma cantada desse calibre? Uau. Me apaixonei. – Nossa, cara... Essa foi realmente péssima.

– Tem razão. – ele fez uma careta momentânea, mas sorriu diante da minha sinceridade. Ainda molhado; e céus, como ele estava bem só de sunga. Firmou a prancha no chão ao lado da outra cadeira, tirou minhas bolsas e sacolas e colocou no chão e sentou-se ao meu lado. Olhando o mar...

– Ei, essa cadeira é minha. – reclamei, ele sorriu luminosamente, se ajeitando na cadeira.

– Eu sei, não achei que você se importaria.

– Mas eu me importo.

– É só um pouco, para eu pensar.

– Pensar em que?

– Numa cantada boa o suficiente para te convencer a ficar comigo. – ele inclinou a cabeça, olhando em minha direção.

– Entre as duas cantadas, escolho a primeira.

– Isso é um sim?

– Não... Isso é um: cale a boca e volte para o mar, amigo golfinho. – ele soltou uma risada alta e melodiosa. O encarei, ele continuou largado na cadeira. Eu não podia negar que ele era bonito com seu porte físico atlético; cabelos curtos e castanho-aloirados e sorriso aberto. Sem poder me conter sorri de volta.

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