Valentina Torres
Encolho as pernas abraçando os joelhos, apoio minhas costas contra o
azulejo frio da parede. Fecho os olhos sentindo a ardência das lágrimas que
descem por meu rosto. Só peço que pare, por favor. Mais, socos na porta me
fazem pular assustada, amedrontada.
- Por favor, por favor, pare Spencer - imploro.
- Vadia desgraçada. Abre essa porta Cindy. - Socos, e mais socos.
Sinto algo pingando, abaixo a cabeça e vejo as gotas de sangue
manchando o chão de vermelho. Deslizo a mão limpando minha boca, e a
vejo suja com as evidências de mais uma maldita noite.
- Spencer, por favor - suplico, em meio às lágrimas.
- Eu vou te matar, sua puta - grita alto.
Com um último pontapé a porta se abre. Alucinado e fora de controle,
ele entra no banheiro vindo diretamente em mim. Seus dedos enrolam em
meus cabelos e os puxam me levantando do chão. Posso ver em seus olhos
a fúria cega, e tenho certeza de que hoje será meu fim. Grito por socorro,
enquanto sou arrastada como um animal nosso quarto. Os vizinhos não se
intrometem em brigas de casais, não importa para eles se serei morta.
Debato-me tentando fugir de suas mãos, mas é inútil. Além do mais fugir
para onde? Não tenho ninguém, e ele nunca me deixaria partir com vida.
Sou suspensa no ar, e jogada na cama. Seu grande corpo por cima do
meu, me segurando presa entre ele e o colchão. Usando as pernas como
reforço, abre as minhas pernas rasgando em seguida minha calcinha.
Suplico encarando dentro dos olhos verdes, e o sorriso que nasce nos seus
lábios ao enfiar seu pau, me traz a realidade de que ele é um monstro frio e
sem coração.
Suas mãos seguram meu pescoço com força, e a cada arremetida na
minha boceta seus dedos apertam mais forte, me sufocando. Desisto de
lutar, simplesmente aceito o destino.
- Gosta assim, não é? Admite. Eu vi você olhando para o homem que
coleta o lixo. Quer ser fodida igual uma piranha. - Uma mão solta o
pescoço, e desce em direção ao rosto me esbofeteando.
Deus, por favor, acabe com isso. Acabe com isso, por favor. Sem ar,
sufocando aos poucos, pouco a pouco vou perdendo a consciência.
Quando saio na rua, ando sempre de cabeça baixa, ele que escolhe
minhas roupas, só posso sair em sua companhia, sair é quase um milagre.
Quando o conheci na faculdade, gentil, amoroso, bondoso, não fazia
ideia do tipo de pessoa que ele se tornaria. Às vezes acho que o amor me
cegou para enxergar os sinais. Ciúmes, discussões, suas mãos quando
seguravam firme meu braço, mas sempre em seguida um pedido de
desculpas com flores, e lágrimas.
E como uma tola apaixonada, aceitei seu pedido de casamento. Sempre
fui sozinha criada em lares adotivos e ter alguém cuidando de mim desse
jeito era algo maravilhoso, não podia perdê-lo. Os primeiros dias de recém-
casados foram inesquecíveis. Mas quando engravidei tudo mudou. Do dia
para noite meu príncipe encantado se tornou meu carrasco.
Em sua primeira crise me espancou a ponto de perder o bebê.
Sangrando e com fortes dores abdominais fui levada para a emergência e
como uma boa esposa devotada, contei aos médicos como tinha caído da
escada arrumando o sótão. Depois daquele dia as coisas só pioraram.
Violência sexual, agressão física, humilhação verbal.
Perdida em pensamentos, sou pega de surpresa quando Spencer gira
meu corpo me colocando de bruços e monta por cima da minha bunda.
Mordo os lábios a ponto de sangrá-los. Algo duro é enrolado em meu
pescoço e sou montada como se fosse uma égua.
Minha visão vai ficando turva, embaçada. É o meu fim.
Fecho os olhos sentindo alívio, porém uma voz ao fundo sussurra no
meu ouvido que mereço mais, que não posso acabar assim. Reúno forças
que não sabia que tinha, e decido lutar pela minha vida. O ar fugindo dos
pulmões dificultando respirar, me contorço. Distraído com seu ato de
violência, não percebe quando estico o braço até criado mudo e pego a
caneta. Tento mover o abdômen e com um momento de coragem enfio no
seu joelho.
Gritando, Spencer solta a cinta que prendia meu pescoço e rola para o
lado levando as mãos até o ferimento. Respirando fundo, pulo da cama.
- Eu vou te matar, Cindy.
Em pé, nua e sangrando. Procuro a arma que ele esconde em um
compartimento secreto atrás do nosso retrato de casamento. Por vezes fingi
estar dormindo e o vi mexendo. Talvez estivesse só esperando o momento
certo para descarregá-la em mim.
Levanto a arma em punho e miro em sua direção. Olhos que antes
tinham fúria, agora tem medo. Está com medo de mim, querido?
- Você não tem coragem de fazer isso. É só uma puta interesseira. Se
me matar, minha família vai acabar com você.
Engatilho a arma.
- Está com medo?
- Não, e quando eu te pegar. Vai se arrepender - berra entre dentes.
- Quatro anos, Spencer. Aguentei por quatro anos - grito
respondendo de volta.
- Sua vad... - Não deixo que complete a frase.
- CALA A BOCA - berro, apertando o gatilho e disparando três
vezes contra seu corpo.
Solto a arma e ouço o som do baque no chão. Minhas mãos estão
trêmulas, uma onda de pânico percorre meu corpo junto com a dor física.
Fraquejando, me ajoelho balançando o corpo para frente e para trás.
O que vou fazer? O que vou fazer?
Coragem Cindy, coragem.
- Preciso fugir - sussurro.
Levanto arrastando o que sobrou de força, abro a gaveta e pego um
moletom. Não tenho coragem de verificar se está morto mesmo, mais com
três tiros impossível estar vivo. Junto uma mochila com mais algumas
peças, meus documentos pessoais e um pouco de dinheiro que consegui
roubar de sua carteira e guardar ao longo dos anos.
Empurro os cacos da porta do banheiro, e me aproximo da pia. Encaro
meu reflexo no espelho, os hematomas, o sangue, são tudo que vejo. Abro a
torneira e encho as mãos com água, e jogo no rosto limpando os resquícios
do que aconteceu essa noite. Amarro os cabelos em um rabo alto, encaixo a
mochila no ombro. Desviando do corpo desfalecido, saio do quarto indo em
direção à rua.
Ergo o capuz do moletom cobrindo meu rosto, enquanto caminho pela
noite. Não sei como, onde e quando, mas terei uma nova vida. E ninguém
nunca mais irá tocar em mim.
Em frente ao espelho ajeito mais uma vez a gravata borboleta. Porra,
Dylan. Quem se casa usando gravatinha igual de pet shop? Noção zero, sua
sorte que gosto de você. Porque isso é pior que levar um tiro na bunda. Não
é como se já tivesse levado, mas conheço alguns policiais que já levaram e
dizem ser o inferno.
E para piorar a situação, me colocaram com aquela Camilly. Sinto até
calafrios só de pensar naquela mulher. Claramente não nos suportamos, ela
é abusada, depravada e sem educação. O estereotipo feminino que não me
agrada nem um pouco. Mas, prometi para Dylan e Alyssa que não iria
discutir com aquela modelo de Dercy Gonçalves. Sim, não é porque sou
americano que não conheço celebridade famosa internacional. Sou culto,
educado, cavalheiro à moda antiga.
Aquela... Criatura de saia, fode meu psicológico. Ela tem o poder de
acabar com meu dia, só por hoje irei ter paciência. Depois não preciso mais
ver a cara dela e nem seu sorriso largo, os lábios carnudos e rosados.
Caralho, foco Brian. Não faz seu tipo, lembra? Esborrifo mais uma vez o
perfume. Ajeito o casaco do terno e sigo em direção a saída para a garagem.
No parafuso da parede, pego a chave pendurada.
Sento-me atrás do volante, e sigo em direção à igreja. O rádio
instalado com a frequência da polícia anuncia várias ocorrências. Hoje
estou de folga, mas não consigo desligar. Preciso saber o que está
acontecendo na minha área, e o que me aguardará no outro dia.
"Assalto armado com vítima no local. Rua: Barrow street, West
village. Q.A.P?"
Ah qual é? Meu amigo vai casar preciso de um tempo. Sinto muito,
mas não vou atender nenhuma ocorrência. Desligo o aparelho e o silêncio
reina dentro do automóvel.
Conforme me aproximo da igreja, noto a movimentação de carros,
pessoas com trajes de festas. Isso porque seria uma pequena cerimônia para
os mais chegados. É meu chapa, nossa percepção de pequeno e íntimo é
totalmente diferente.
Procuro um local para estacionar, mas não encontro. E como se fosse
um milagre divino, vejo quando um carro acende à seta indicando que está
saindo. Imediatamente giro o volante direcionando na entrada, quando um
híbrido branco entra com tudo na vaga, e pior não se deu o trabalho de dar
seta, roubando meu lugar. Anoto mentalmente a placa.
Ah mas isso não vai ficar assim, eu vou pegar esse desgraçado e ele...
Calo-me na mesma hora que a porta se abre.
Seus cabelos negros e soltos caem sobre os ombros criando uma
cortina sedosa sobre a pele. O vestido vermelho justo ao corpo, marcando
cada curva como se fosse uma segunda pele em contraste com a obra
perfeita, bem diante dos meus olhos.
Meus olhos percorrem da ponta do pé até o último fio de cabelo.
Remexo-me inquieto no banco, mas não consigo desviar o olhar daquela
mistura de deusa com filha do capiroto. Por algum motivo desconhecido,
sinto minha calça ficar apertada ou seria a porra do meu pau inchado e
duro?
Amigo, você é um traidor. Está proibido de ficar desse jeito por causa
dela, vai por mim, não vale a pena.
- Oh babaca anda logo. - Ouço o som de buzina e uma voz
gritando.
Encaro o retrovisor e vejo a longa fila que se formou atrás de mim.
Coloco a mão para fora e não resisto o impulso de erguer o dedo do meio.
Babaca é você, cretino. Acelero liberando a passagem. Camilly
definitivamente é problema, além do mais ela foge de mim como diabo foge
da cruz. Será que é meu perfume? Ah que se foda essa maluca.
Depois de dez minutos e três quarteirões abaixo da localização da
igreja consigo estacionar. Enquanto subo a ladeira sinto olhares sobre mim,
cochichos, e de canto de olho consigo ver que são mulheres de bochechas
coradas e sorrisos bobos.
Estão rindo de mim ou para mim? Cada dia que passa entendo menos
essas mulheres. Minha doce Sheron era tão fácil de lidar, amorosa, gentil,
educada. Nunca irei me conformar de como ela escapou por entre meus
dedos. Ainda me pergunto se eu poderia ter feito algo para evitar sua morte.
Sempre carregarei essa incerteza dentro da minha alma, e jamais me
perdoarei.
- Ouuu está garanhão hein? - Ethan se aproxima, sorrindo e
assobiando.
- E aí, poderia não ficar gritando isso? Já não estou me sentindo
confortável e você não ajuda.
- Ahhhhh qual é? Um delegado fodão com vergonha, cena épica.
- Ethan - resmungo entre dentes.
-OK. OK. - Erguendo as mãos em sinal de rendição, anda ao meu
lado. - Cara acabei de ver Camilly, se eu pego uma mulher dessa esfolo a
cabeça do gandalf.
- Gandalf? - questiono confuso. Ou seria melhor não pensar no que
significa.
- É meu pau, sabe, coloquei um apelido carinhoso.
- Você me assusta. Juro, e muito. - Recuo dois passos criando certa
distância entre nós.
Enfim chegamos à frente e longa da escadaria da igreja. Subimos
pulando de dois em dois, a cada passo tenho a sensação de que essa maldita
borboleta irá me sufocar. Contornamos a entrada principal procurando a
porta da lateral para os padrinhos. Encontramos e mais que depressa a
empurramos para fugir do calor escaldante. Assim que colocamos o pé
dentro da sala o ar gélido toca minha face, me fazendo suspirar de alívio
com os olhos fechados.
Ethan parado ao meu lado, me cutuca com o cotovelo. Observo ao
redor percebo o quanto chamamos atenção irrompendo pela porta daquela
maneira. Envergonhado, balanço a cabeça cumprimentando os demais.
Minha acompanhante disfarça rindo. Os meses em que Dylan
permaneceu no hospital em coma, esbarrei várias vezes com essa mulher, e
uma única vez conseguimos conversar por cinco minutos e para ser sincero
não parecia a mesma pessoa.
- Está charmoso senhor delegado. - Colocando um pé na frente do
outro como se estivesse desfilando, Camilly se aproxima puxando meu
braço para entrelaçar ao seu.
E agora, ferrou tudo. Quem desligou o ar condicionado? Está
esquentando aqui dentro também.
- É... Hum... Você está muito elegante, bonita, sabe. Bonita.
O som da sua gargalhada entra por meus ouvidos, desce por meu corpo
penetrando minha pele, causando arrepios.
- Entendi gracinha. Não precisa ficar envergonhado, sei que me acha
uma tentação. - Piscando, ela sorri com seus lábios carnudos pintado de
vermelho.
Puta merda! Foco Brian, lembre-se que ela não faz seu tipo.
Encaro sua boca, imaginando como seria tê-los em volta de algo
grosso e grande, sentindo a maciez e suavidade. Não, não, agora. Tento
afastar os pensamentos para coelhinhos fofos na fazenda. Engulo em seco,
sem saber o que responder, na verdade sei bem o que gostaria de fazer.
Colocá-la de joelhos e observar sua boca engolindo meu pau. PORRA
BRIAN! Não.
Seus olhos escuros e brilhantes encaram os meus de um jeito profundo
e sensual. E sou salvo pela cerimonialista que surge com a prancheta em
mãos, organizando os casais para a entrada. Seguimos a organizadora até a
porta de entrada e ficamos em fila, aguardando o sinal para cada um entre
com seu par.
Mantenho o olhar firme para frente, mas o perfume de Camilly atingi
em cheio meu nariz. Adocicado, suave.
Qual é Brian? Esqueceu Sheron, sua esposa?
Como um flash de memória, relembro o dia do nosso casamento. A
empolgação dela era contagiante, a dedicação com cada detalhe. Fez
questão de acompanhar os decoradores, o Buffet, ela era muito detalhista.
Todos amavam minha Sheron. Usando vestido branco de renda, com um
detalhe singelo no cabelo e um simples buquê de flores do campo.
- Brian. Brian. Vamos. - A voz feminina me traz dos pensamentos
perdidos.
- Sim, vamos - respondo, afastando as dolorosas lembranças.
Como todos os casamentos a noiva está atrasada e pude sentir a agonia
de Dylan enquanto aguarda no altar. O clima tenso impregnou o ambiente.
Ando alguns passos sutilmente e me aproximo o suficiente para que
ele possa me ouvir. - Desfaz essa cara, sua mulher está chegando ok. Ou
vou te dar um soco.
Objetivo alcançado com sucesso. Consigo tirar um sorriso tímido do
famoso agente do FBI.
De repente a marcha nupcial soa alto dentro da igreja, as portas se
abrem. Alyssa está maravilhosa usando seu vestido branco. E ao lado da
noiva dona Emilia, a sogra. Não sei como, mas com o passar do tempo Aly
conseguiu convencer Dylan sobre sua mãe ser tão inocente quanto eles, e
aparentemente fizeram as pazes.
Inquieto ao ver sua mãe, o pequeno Dominic se remexe no colo de
uma senhora e estica os braços na direção dos seus pais. O pequeno está
crescendo rápido.
Percorro meus olhos pela igreja enquanto a marcha ainda toca para a
entrada triunfal da noiva, me pego encarando a senhorita encrenca. E para
minha surpresa, ela me encara de volta com um brilho especial no olhar.
Fique longe tentação, bem longe.
Alyssa está maravilhosa em seu vestido especial de noiva. Lembranças
dolorosas invadem meus pensamentos, engulo em seco sentindo o sabor
amargo da saliva. Mas, minha amiga teve sorte, reencontrou seu grande
amor do passado e mesmo com tudo que aconteceu, agora, estão juntos e
serão felizes para sempre ou até que dure. Depois de tudo que passei só
quero viver minha vida em paz, e sozinha. O amor entre um casal é só um
sentimento ilusório da mais plena satisfação. Infelizmente descobri isso de
uma forma cruel, com muita dor e sofrimento. Mudar de nome, país e fugir
das consequências dos meus atos me custaram um alto preço. Com sorte
uma amiga da época da faculdade conseguiu me emprestar um dinheiro, e
pude recomeçar em um país novo, mas como nada vem fácil, por vezes
adormeci sentada no banco da praça por não ter onde passar à noite. Fome,
às vezes uma refeição por dia ou até mesmo nenhuma.
Já tinha perdido minhas esperanças e só desejava que a morte viesse ao
meu encontro, aquele mundo não tinha mais nada para me oferecer. Nunca
acreditei em milagres, mas a senhora Josefy foi um anjo enviado até mim
como um grande milagre. Ela estava caminhando na praça com seus
filhotes, ao me ver praticamente desmaiada no banco, suja, com fome, e
semiviva. Sentou-se ao meu lado. Permaneci com os olhos fechados, não
tinha força suficiente para reagir. Suas mãos enrugadas ergueram uma
garrafa d'água e um sanduíche na minha direção. Relutei por uns minutos
para aceitar a ajuda de um estranho, mas o que mais eu poderia fazer?
Esquecendo quaisquer resquícios de educação, tomei de suas mãos
rapidamente o que estava oferecendo. Sem cerimônias devorei em pouco
tempo o sanduíche.
- Obrigada - agradeci educadamente com a voz trêmula.
- Não precisa agradecer querida. Faz dias que há vejo sentada aqui
nesse mesmo banco. - Seu olhar terno e gentil, aqueceu meu coração.
- Hum... É obrigada novamente. - Abro um sorriso tímido e
envergonhado.
- Querida, por que está morando na rua? - Calada, encaro o rosto da
senhora. - Desculpe minha intromissão, mas uma mulher jovem e bonita,
assim na rua.
- Tudo bem, é complicado. Problemas familiares. - Colocando sua
mão marcada pela idade por cima, me surpreendi. E pela primeira vez, sinto
vontade de contar o que aconteceu para alguém.
Comecei a história desde o primeiro dia que conheci o Spencer, as
agressões, o cárcere privado, a perda do bebê, mas pulei a parte do
assassinato. Não queria que essa senhorinha bondosa sentisse medo de
mim, a assassina do próprio marido.
Então, um milagre chamado Josefy Carter surgiu na minha vida. Sem
filhos, irmãos ou parentes, ela era uma pessoa sozinha. Comovida, abriu seu
grande coração e as portas de sua casa para mim. Ajudou-me a mudar de
nome acrescentando seu sobrenome, assim me tornando sua filha. Durante
três anos pude sentir como era ter o amor de uma mãe, infelizmente Josefy
morreu com câncer de pulmão. O que tinha em abundância de bondade
tinha em teimosa. Pedi inúmeras vezes para fazer o tratamento e largar o
vício do cigarro, mas ela só respondia.
"Filha estou velha e cansada, quero morrer feliz fazendo algo que
gosto."
Como sua única herdeira, sou responsável pelo dinheiro e seus
investimentos. Camilly Carter, dona de uma pequena fortuna.
Só posso agradecer por ter encontrado um anjo em meu caminho,
graças a ela tive um recomeço. Confesso que tenho medo, sinto como se a
qualquer momento a polícia fosse invadir o apartamento e me prender pela
morte daquele cretino. Quando deito na cama e fecho os olhos, ainda posso
vê-lo com o cinto na mão. O ódio queimando em seus olhos, suas mãos
estrangulando meu pescoço enquanto me violentava. Já se passaram cinco
anos, mas tenho a impressão de que mesmo morto aquele desgraçado nunca
irá me dar paz.
Ergo a cabeça e sinto o olhar do delegado Brian sobre mim. Como não
iria notar um Deus em formato de homem? Moreno, alto, forte e com um
sorriso que molharia a calcinha de qualquer mulher. Seu único defeito é ser
policial. Impossível se envolver com aquilo que venho fugindo por anos, e
sei como esses policiais podem ser persuasivos quando querem descobrir
algo. Então, melhor manter distância e torcer a calcinha no banheiro.
Minha nova personalidade é descontraída, apaixonada pela vida. E
sim, descobri a sensação de gozar, coisa que o Spencer jamais conseguiu. É
típico a mulher fingir que está satisfeita para agradar o companheiro, mas se
tem algo que aprendi nisso tudo, jamais finja um orgasmo, deixe o homem
saber que ele fode mal, quem sabe assim aprende não pensar só no prazer e
satisfação pessoal.
Encaro os olhos escuros do delegado que desconfortavelmente se
remexe desviando sua atenção. Sinto um calor crescente percorrendo meu
corpo, não consigo evitar percorrer os olhos desde a ponta do seu sapato
másculo até o último fio de cabelo.
Como dizia Josefy: Filha tem que transar muito. Porque depois a
terra vai comer mesmo. Homem é objeto de prazer filha, o deixe pensar
que está te usando, mas na verdade quem está usando alguém é você.
Acatei cada conselho, Josefy era sábia. Em pouco tempo aprendi muita
coisa com ela, desde como investir o dinheiro até como ser feliz na vida
sexual, sem me machucar.
Dominic inquieto estica seus pequenos braços para os pais a todo o
momento, o que faz o padre acelerar os votos matrimoniais. Meus pés doem
dentro do sapato apertado, e logo ouvimos o sonoro SIM do casal de
pombinhos e o DECLARO MARIDO E MULHER. Aplausos seguidos de
gritos de felicitações ecoam dentro da igreja.
A cerimonialista surge das profundezas com sua prancheta e o cabelo
lambido, relembrando com gestos como devemos proceder. Aguardamos a
saída dos noivos, em seguida cada padrinho se encontra no meio do altar
com sua parceira dando os braços para seguir em direção a saída.
Enlaço o antebraço do gostosão, seu perfume atingi meu nariz me
deixando entorpecida. De canto de olho consigo ver sua barba grossa por
fazer, e imagino como seria senti-la no meio das pernas roçando na minha
boceta. Respiro fundo tentando manter o controle.
Lembre-se P.O.L.Í.C.I.A.
Droga, a voz da minha deusa da depravação grita alto como sinal de
alerta vermelho.
OKAY! Não precisa gritar, já entendi. Brian Garcia tem uma enorme
placa grudada nas costas com os dizeres: MANTENHA DISTÂNCIA.
Os convidados se agitam na escadaria da igreja dificultando a
passagem dos padrinhos, tento desviar das pessoas para me aproximar dos
noivos, mas só ouço gritos de mulheres desesperadas para pegar o buquê.
- Vai lá Cami. - Não sei de onde e nem como Ethan surgiu ao meu
lado me empurrando no meio da bagunça.
Empurra, empurra, pisam no pé, cotoveladas. Parece que estou em
uma zona de guerra, e a missão se chama AGARRE O BUQUÊ.
Determinada a fugir do olho do furacão, empurro algumas mulheres até que
algo acerta meu rosto. Involuntariamente ergo as mãos me defendendo, e
então, o vejo. Droga, envolto com uma fita de cetim vermelha e flores
brancas, o infeliz caiu diretamente em mim. Isso não é sorte, é azar puro e
simples.
Semicerro os olhos com vontade de jogá-lo de volta para Alyssa. E
como se entendesse minhas intenções, minha amiga balança a cabeça em
sinal de negativa. Sei o que essa noiva safada está pensando, e não quero
destruir seu momento de felicidade. Revirando os olhos, saio pela lateral da
igreja, pisando em todos os pés que estão no caminho. Pisando duro e
resmungando baixo, sigo em direção do carro. Chega dessa coisa, quero só
ir para festa, beber, comer e me divertir.
Enfio a chave na porta e sento no banco do motorista, encaro o buquê,
e o jogo no banco de trás, em casa seu destino será o lixo.
Procuro a mesa com meu nome, e como já esperava estou sentada com
Ethan, Brian e mais uma pessoa que não conheço. Puxo a cadeira e me
sento. Aos poucos os convidados entram no salão. Boquiaberta, vislumbro o
delegado caminhando com um pé na frente do outro. Uauuuu esse homem
podia ser modelo de cueca, ou talvez nu, mas só para mim.
- É aqui. Hum, legal. - Qual é senhor policial? Posso sentir a tensão
sexual emanando do seu corpo.
Apoio os cotovelos na mesa apertando meus seios com os braços
deixando o decote em evidência. Incomodado com a situação, ele se remexe
na cadeira afrouxando o nó da gravata. Posso ver seu pomo de adão subindo
e descendo enquanto engole em seco.
Levanto sensualmente ficando em pé. Deslizo as mãos esticando o
tecido do vestido mais ao mesmo tempo acariciando meu corpo para
provocá-lo. Como se não conseguisse desviar os olhos, ele me observa com
desejo estampado no rosto. Sorrindo maliciosamente, umedeço os lábios
com a ponta da língua.
Brian empurra a cadeira para trás com violência, derrubando-a.
Esfregando as mãos no rosto e de cabeça baixa, se afasta seguindo em
direção do banheiro.
Covarde! Sinto vontade de rir. Se soubesse que causa o mesmo efeito.
- Servida, senhorita? - Pego uma taça de champanhe com o garçom
e a viro de uma vez, devolvendo-a para a bandeja.
Por que esse homem foge de mim desse jeito? Eu sei por que fujo dele,
mas e ele? Alyssa me contou em uma de nossas conversas o quanto é
conservador, turrão. Agora quero saber, algo nele me instiga ao desafio e
gosto disso.
- Oh! Aonde você vai? - Esbarro em Ethan que chega à mesa.
- Já venho - respondo.
Encosto na parede da porta do banheiro masculino, e espero que abra a
porta. Ouço o som do trinco e logo Brian surgi na minha frente. Espalmo as
mãos no seu peito grande e largo, empurrando-o para dentro de novo. Sem
entender nada permanece calado. Giro a chave na fechadura, e a tranco.
- Camilly o que está fazendo? - Como até a voz desse homem pode
ser sexy. Grossa, máscula, firme?
- Shiii. - Coloco um dedo por cima dos seus lábios silenciando-o.
A cada passo que avanço me aproximando, ele recua dois até não ter
como fugir.
- Você está louca. - Sua mão grossa segura meu braço me puxando
para mais perto.
- Quer tanto quanto eu. - Ergo uma perna, e esfrego o joelho no
meio das suas pernas, roçando no seu pau.
Com os lábios apertados de raiva e os olhos injetados de desejo. Brian
toma minha boca em um beijo desesperado e ardente. Minhas mãos abrem
os botões da camisa dele de forma desesperada, então, decido fazer algo
diferente. Posso tornar esse jogo bem interessante, vou amaciar primeiro.
Rapidamente abro os botões da calça. Afasto-me dos seus braços
musculosos, posso ver a expressão confusa no seu rosto. Ergo a barra do
vestido para cima ganhando mobilidade. Ajoelho-me no pequeno espaço.
Puxo a cueca para baixo liberando seu membro duro e excitado.
Seguro seu pau entre as mãos, aperto os dedos envolvendo-o
fortemente. Lentamente começo fazer movimentos subindo e descendo.
- Camilly? - ofegante, me chama.
Sem se importar com o que está ao redor, coloco ponta da língua para
fora e lambo a cabeça rosada, descendo suavemente. Seus gemidos me
instigam a continuar. Substituo as mãos pela boca, engolindo seu pau.
Grande, grosso, sinto batendo no fundo da garganta. Mãos fortes agarram
meus cabelos entrelaçando os dedos no emaranhado do penteado.
Meus lábios envolvem o membro com força, chupo devagar, rápido,
com força. Com uma mão acaricio suas bolas inchadas. A cada sugada
Brian remexe o quadril arremetendo minha boca.
- PORRA! Boca gostosa do caralho - resmunga alto.
Quem diria que o senhor puritano sabia falar palavrões. A cada
estocada fico mais excitada, molhada, imaginando seu pau me fodendo.
Mais algumas sugadas e ouço seu alerta, mas ignoro sentindo seu líquido
quente jorrando na garganta. Engulo até a última gota. Antes que possa
esboçar qualquer reação, mãos fortes seguram meus braços me levantando.
Brian gira nossos corpos pressionando meu rosto contra o azulejo frio.
Excitado, esfrega seu pau na minha bunda por cima do vestido.
- Quero você - ronrona.
- Estou aqui, não é - respondo ofegante.
Empurrando meus joelhos com os seus, afasta minhas pernas. Como
um animal feroz prendendo sua presa, Brian ergue a barra do vestido,
deslizando as mãos na bunda. Sinto o ardor de uma tapa na minha pele.
Molhada, excitada e querendo muito transar com ele, empino o quadril
contra o seu. Enrolando a mão nos meus cabelos, puxa minha cabeça para
trás deslizando a língua por meu pescoço.
- Tem alguém aí?
Batidas na porta nos traz de volta a realidade. Afastamo-nos
rapidamente trocando olhares, enquanto arrumamos nossas roupas.
Outra pancada impaciente na porta me traz de volta a realidade. Por
que deixei isso acontecer? Como pude manchar a memória de Sheron desse
jeito, pior ainda, com Camilly. Deixei-me levar por desejos primitivos, mas
porra como resistir a essa diaba provocadora? Com as mãos tremendo, ergo
o zíper da calça ajeitando meu pau duro dentro da cueca.
- Brian, é o brinde cara anda logo. Está com dor de barriga? - Ethan
bate novamente enquanto gira a maçaneta tentando abrir a porta.
Camilly permanece calada com um sorriso vitorioso nos lábios. Encaro
dentro dos seus olhos e balanço a cabeça negativamente demonstrando o
quanto me arrependo do que aconteceu. Na mais pura ousadia, ela ergue sua
mão e toca meu rosto acariciando com as pontas dos dedos. Agarro seu
braço com força e a puxo para mais perto, Ethan nos ver saindo juntos do
banheiro já é suficientemente ruim.
- Nunca mais faça isso - digo entredentes.
- Você gostou senhor delegado puritano. - Piscando, desliza a
língua nos lábios carnudos e deliciosos.
- Já avisei. - Esbarro no seu corpo para destrancar a porta, e sinto
que Camilly encostar nas minhas costas roçando os seios fartos,
provocando-me. Ela não cansa desses joguinhos?
Abro de supetão a porta. Ethan me encara de boca aberta, mas quando
nota que atrás de mim tem uma mulher, melhor ainda Camilly, seus olhos se
arregalam como se fossem saltar da órbita. Até mesmo alguém desatento
como ele sabe o que um casal pode fazer dentro de um banheiro privado.
A raiva por ter cedido aos meus desejos me consome. Trêmulo,
suando, sinto que estou sufocando. Lembranças dos momentos íntimos com
Sheron invadem meus pensamentos. Minha esposa perfeita. Pisando duro,
caminho rápido para a saída. Ouço vozes chamando meu nome, mas só
ouço zumbidos.
Afasto-me do salão indo em direção ao estacionamento. Procuro por
meu carro e uma maldita coincidência, o carro dela está ao lado do meu.
Paro em frente ao híbrido branco, encarando através do para-brisa escuro.
Apoio às mãos no capô do carro, deixando minha cabeça baixa. Fecho os
olhos, e só vejo os olhos ardentes de desejo de Camilly ajoelhada na minha
frente. A maciez dos lábios, a garganta aveludada e gulosa sugando cada
centímetro do meu pau. A fragrância do perfume suave.
- PORRA! - Fecho as mãos em um soco, mas antes que possa socar
o carro dela, chuto o pneu várias vezes tentando descontar minha raiva e
frustração.
Respiro fundo recobrando o pouco de sanidade que ainda me resta
dessa noite, aperto o alarme do carro destravando a porta. Sento atrás do
volante, e acelero desviando dos carros estacionados, e saio fora daquele
lugar, fugindo de mim mesmo.
Inconscientemente dirijo até o cemitério. Preciso estar com minha
esposa, não importa como. Estaciono o carro de qualquer jeito, talvez
pegando duas, ou três vagas, não importa. Não é como se as pessoas
viessem ao cemitério às nove horas da noite. Como esperava os grandes
portões dourados da entrada estão trancados. Dou a volta no quarteirão
procurando um espaço mais baixo no muro, e sem pensar nas
consequências pulo para dentro.
Percorro o caminho de tijolos cinza contando somente com a
iluminação da lua. A paz, e o silêncio é como um bálsamo para a dor que
estou sentindo. Mais alguns passos e paro em frente à lápide com nome de
Sheron Garcia. Minhas pernas fraquejam me colocando de joelhos. Sinto
lágrimas descendo e molhando meu rosto. Engasgado com as palavras não
consigo achar um jeito de pedir perdão por tudo. Principalmente por não a
ter salvo daqueles bandidos.
- Perdoe-me, por favor. Prometi cuidar de você, amá-la e não cumpri
minha promessa. Desculpa Sheron, me desculpa. Por favor. - Debruço o
corpo apoiando as mãos no gramado. - Desculpa.
Sinto algo aquecendo meu rosto, levo as mãos até os olhos cobrindo-os
e com dificuldade, os abro. Os primeiros raios de sol da manhã despontam
no meio das árvores. Estava tão atordoado que não percebi quando cai no
sono ali mesmo. Levanto passando a mão pela calça, camisa, me livrando
da sujeira do gramado. Enfio a mão no bolso, e confirmo que carteira e
celular permanecem intactos. Abaixo para pegar a chave do carro que está
jogada no gramado. Lanço um último olhar na direção do túmulo, e com
pesar me despeço.
- Como entrou aqui? - Sou surpreendido pelo coveiro e sua pá
ameaçadora.
- Longa história, senhor. Já estou de saída, não sou ladrão. Minha
esposa é a dona dessa lápide, e sou delegado. - Enfio a mão no bolso e
puxo o distintivo. Empurro o distintivo e confirmo que não estou mentindo.
- Certo, é proibido, devia chamar a polícia. Espera você é a polícia.
- Posso ver a confusão em seus olhos cansados e com marcas de idade.
- Sim - respondo com o esboço de um sorriso.
Gentilmente o senhor se prontifica para abrir o portão lateral de
funcionários para que eu possa sair sem precisar pular o muro de novo.
Trocamos algumas palavras no percurso e ouço atentamente o seu relato de
quantos casais jovens se perdem para a morte. De uma forma estranha e
egoísta saber disso me traz certo consolo.
Despeço-me sem delongas, e fico indignado como deixei o carro
estacionado. No mínimo levaria três multas por infrações diferentes.
- Porra! - resmungo, abrindo a porta do motorista.
Sentado e desperto para mais um dia de trabalho, ligo o rádio de
comunicação da delegacia. Sonoramente os códigos e ocorrências tomam o
espaço do silêncio. É isso, essa é a minha vida, ajudar pessoas que precisam
e nada mais.
- Só meu trabalho - repito baixo.