As luzes esterilizadas do Hospital Geral de Chicago pareciam zombar do destino da estagiária de enfermagem Susan Jones. Enquanto ela ajustava o soro de um paciente idoso, por trás da sua simplicidade escondia-se a herdeira de um império em declínio. Filha única de Thomas e Corine Jones, Susan cresceu em um ambiente onde o afeto era medido por status e luxo. Para os Jones, o mundo era dinheiro e luxo. Mas a fonte da fortuna familiar, uma tradicional fábrica de relógios artesanais e uma empresa de aluguéis de carro que outrora fora o orgulho da família, agora enfrentava dias sombrios.
As máquinas silenciavam, os aluguéis de carro não era mais lucrativo, e as dívidas se acumulavam.
Sentindo desesperado, Thomas Jones tomou uma decisão drástica: tratou a própria filha como mercadoria de troca. Em uma sala enfumaçada, ele negociou a mão de Susan em casamento com um influente político viúvo. A proposta veio em uma tarde cinzenta, típica de Chicago. Thomas havia negociado a mão de Susan com o Deputado Arthur Sterling, um viúvo cujas ambições políticas eram tão vastas quanto sua falta de escrúpulos. Para Sterling, Susan era o "troféu de porcelana" que suavizaria sua imagem pública; para Thomas, o casamento era o oxigênio necessário para manter o império respirando.
Susan, no entanto, herdara a tenacidade que seu pai usara para construir negócios. Ao descobrir o arranjo, ela não fez escândalo, mas não se rendeu imediatamente. Em uma jogada desesperada e silenciosa para ganhar fôlego, impôs uma condição: "Só subirei ao altar depois de formada. Meu diploma vem antes da aliança."
Os pais, confiantes de que o tempo voaria a seu favor, aceitaram o acordo. Mas o relógio agora corria contra Susan. A formatura estava marcada para daqui a exatos dois meses, e a festa de noivado já tinha data e local definidos para o dia seguinte à cerimônia.
Então Susan decide usar esses meses para planejar sua fuga definitiva das garras de um casamento com um velho com atitudes repugnantes.
Dois meses depois, o motor do sedã preto murmurava baixo, um contraste absoluto com o turbilhão que devastava o peito de Susan. No banco de trás, a seda branca do vestido de noiva parecia uma mortalha, sufocando-a entre camadas de tule e expectativas que não eram suas. O caminho para a igreja nunca pareceu tão curto e, ao mesmo tempo, tão interminável.
Pelo espelho retrovisor, os olhos cansados e gentis de Paul a observavam. Ele via a maquiagem impecável escondendo a palidez de quem não dormia há semanas, desde que Thomas e Corine Jones decidiram que a felicidade da única filha era uma moeda de troca justa para salvar o império da família.
- Eles não vão me perdoar, Paul!
Sussurrou Susan, a voz falhando.
- O perdão é uma mercadoria cara, senhorita Jones!
Paul respondeu, com sua voz rouca trazendo o conforto de décadas de cumplicidade.
- Sua liberdade não tem preço. Seus pais estão olhando para o dinheiro. Eu estou olhando para você. E o que vejo não é uma noiva, é um pássaro engaiolado.
O Desvio do Destino
Faltavam apenas quatro quarteirões para a igreja, onde o deputado Arthur Sterling, um homem que Susan desprezava com cada fibra de seu ser, a esperava com um sorriso político e um anel de opressão. Paul, no entanto, não virou à direita na Avenida Central. Ele seguiu reto, em direção à zona menos glamourosa de Chicago.
Ele estacionou o carro a uma distância segura, onde o letreiro neon da rodoviária piscava sob a luz do início da noite.
- Chegamos!
Disse ele, desligando o motor. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de adeus.
Susan olhou para o velho motorista. Ele estava ali quando ela caiu da primeira bicicleta. Agora, ele estava ali para vê-la renascer.
- Paul, eles vão tirar tudo de você. O emprego, a casa...
Susan hesitou, a mão na maçaneta.
- Eu já vivi o suficiente para saber que casas podem ser reconstruídas. Mas uma alma quebrada... essa é mais difícil de consertar.
Paul sorriu, um brilho de rebeldia nos olhos.
- Agora vá. Antes que todos sinta que tem algo errado.
Susan não perdeu mais tempo. Ela alcançou a mochila escondida sob o banco e sua bolsa. Com um movimento ágil, ela abriu a porta. O contraste era surreal: uma noiva deslumbrante saltando de um carro de luxo em meio ao movimento caótico da rodoviária.
- Obrigada, Paul. Por tudo. Eu vou te mandar notícias assim que puder.
- Não mande!
Ele alertou com um aceno.
- Apenas viva feliz menina.
Sem olhar para trás, Susan começou a correr. O véu se soltou de seu cabelo e voou pelo asfalto como uma bandeira de libertação do passado. Seus saltos estalavam contra o chão sujo, e as pessoas paravam para olhar a visão diferente de uma mulher vestida de branco correndo em direção aos guichês, a passagem foi comprada para uma cidade no Texas. O ônibus sairia em breve.
Ela não sentia o peso do vestido. Pela primeira vez em dois meses, Susan Jones sentia que podia respirar. Thomas, Corine e o Deputado Sterling não teriam uma festa, mas a noiva, finalmente, pertencia a si mesma. Horas depois, Susan olhava pela janela do ônibus enquanto as luzes de Chicago ficavam para trás. O vestido de noiva, que deveria usar em poucas horas, estava no lixo de um banheiro de rodoviária. Seus pais haviam vendido sua mão para um politico corrupto, mas ela não seria uma mercadoria. Com poucas economias e um diploma de enfermagem na bolsa, ela escolheu o lugar mais improvável no mapa: Oak Ridge, no Texas. Era uma cidade pequena, poeirenta e, acima de tudo, invisível. Ali, entre o cheiro de terra seca e o céu infinito, Susan Jones morreria para que uma nova mulher pudesse nascer. O medo ainda pulsava em seu peito, mas a liberdade tinha um gosto doce que ela jamais sentira antes.
O asfalto tremeluzente sob o sol escaldante do Texas era o oposto exato do cinza gélido de Chicago que Susan Jones deixara para trás. Quando as portas do ônibus da Greyhound se abriram na pequena rodoviária de Oak Ridge, o baque do ar quente em seu rosto pareceu um batismo.
Depois de mais de 22 horas sentada em uma poltrona desconfortável, com o coração acelerado a cada parada temendo ver os capangas de seu pai ou o sorriso arrogante do noivo que ela nunca escolheu, Susan finalmente respirou. Oak Ridge era um ponto minúsculo no mapa, um lugar onde o tempo parecia ter esquecido de passar. Ali, entre o cheiro de poeira e o som das cigarras, ela era apenas mais uma estranha.
Susan caminhou até o Oak Ridge Hotel, um hotel de fachada descascada, mas que prometia o anonimato que ela tanto desejava. Naquele já final de tarde, o silêncio do quarto era tão profundo que ela pôde ouvir seus próprios pensamentos pela primeira vez em meses. Ninguém viria buscá-la.
Na manhã seguinte, com o café forte do Texas ainda amargo na boca, ela abriu o jornal local. Entre anúncios de gado e implementos agrícolas, um destaque em negrito chamou sua atenção:
URGENTE: Hospital Geral de Oak Ridge busca médicos e enfermeiras. Contratação imediata.
Susan não perdeu tempo. Com seu diploma de enfermagem e as referências (que ela torcia para que ninguém checasse a fundo em Chicago), ela se apresentou ao hospital. O prédio era modesto, mas a correria nos corredores era real. A carência de profissionais era tamanha que a entrevista foi breve e prática.
- Você começa agora!
Disse o administrador, entregando-lhe um crachá improvisado.
Foi no posto de enfermagem, entre a troca de um plantão e outro, que ela conheceu Brenda Calton. Com 22 anos e uma energia contagiante que parecia desafiar o cansaço do hospital, Brenda foi a primeira a lhe estender a mão.
- Você não é do Texas, hein?
Brenda sorriu, ajeitando a touca.
- Você parece ter visto um fantasma, mas não se preocupe. Aqui em Oak Ridge, a gente cuida dos nossos. Eu tenho a sua idade, então vou te ensinar o caminho das pedras.
A amizade entre as duas floresceu na velocidade das emergências que enfrentavam juntas. Brenda não fazia perguntas difíceis sobre o passado de Susan, e Susan encontrou em Brenda a irmã que nunca teve.
Semanas se passaram, e o medo de ser encontrada foi substituído pela rotina reconfortante do trabalho. Com o primeiro salário e a ajuda de Brenda, Susan finalmente deu o passo definitivo para sua independência. Ela alugou uma pequena casa de madeira, com uma varanda estreita, a apenas dez minutos de caminhada do hospital. Ao girar a chave pela primeira vez, Susan olhou para a rua tranquila de Oak Ridge. Ela não era mais a noiva fugitiva de Chicago. Era Susan Jones, a enfermeira que, finalmente, era dona do seu próprio destino.
Ethan Genovese não era apenas um homem; ele era o rosto que poucos conhecia de uma dinastia que funcionava como uma fortaleza imbatível. Sob o comando de seu pai, Don Dante Genovese, a família transformou o sobrenome em sinônimo de temor e respeito absoluto em cada palmo do território americano. Se o sol brilhava sobre os arranha-céus de Chicago, era porque a sombra dos Genoveses permitia.
Aos 28 anos, Ethan operava no centro de um furacão de influência. De dia, ele era o implacável CEO do Grupo Genovese, uma potência tecnológica com sede em Chicago que revolucionava o mercado global como referência na fabricação de carros elétricos. Mas o brilho do aço inoxidável e das energias limpas era apenas a fachada de um ecossistema muito mais sombrio:
O Grupo Genovese dominava o setor automobilístico e de infraestrutura. Eles eram donos de vasta rede de hospitais e planos de saúde que garantia que a família tivesse nas mãos a vida e a morte de milhares, até mesmo de seus inimigos. Mas seu império também se estendia a boates exclusivas e redes de postos de gasolinas que serviam como o sistema circulatório para a lavagem de dinheiro e o fluxo de informações do submundo.
O destino, porém, não se importa com cronogramas corporativos. Quando Don Dante foi morto num atentado pela mafia rival. Ethan foi convocado pelo conselho a deixar as salas de reuniões climatizadas para assumir o trono de sangue.
Ele não hesitou. Ethan não foi apenas treinado para liderar; ele foi forjado para dominar. A transição não foi um pedido, foi uma sucessão inevitável. Agora, aos 28 anos, a dualidade chegou ao fim para dar lugar à unidade: Ethan tornou-se o Don de Chicago. Os inimigos agora via nele algo muito mais perigoso que um bilionário da tecnologia. Ele era o novo patriarca de uma organização que não conhecia fronteiras, o soberano de um império que se estendia de costa a costa do continente americano.
Para Ethan, o peso da coroa de Don mal se compara ao fardo que carrega no peito. Agora, despido de qualquer outra ambição, ele é guiado por uma obsessão única e sombria: caçar, custe o que custar, Declan Lucchese, o homem que manchou suas mãos com o sangue de seu pai.
O ar no escritório da mansão Genovese era espesso, saturado pelo cheiro de carvalho antigo e pelo fumo do charuto que queimava lentamente entre os dedos de Ethan Genovese. O novo Don mantinha o olhar fixo na janela, observando a linha do horizonte de Chicago, enquanto as engrenagens da organização mais poderosa do país giravam sob seu comando silencioso.
John, o conselheiro de confiança e estrategista da máfia Genovese, quebrou o silêncio com uma voz contida, mas carregada de gravidade.
_ Don...
Começou John, ajustando os óculos.
_ Os relatórios finalmente batem. Não foi um acidente, nem uma emboscada aleatória. Foi Declan Lucchese quem deu a ordem. Ele comandou pessoalmente o ataque que tirou a vida de Don Dante, seu pai.
Ethan não se moveu, mas a mandíbula travada denunciou a fúria contida. John continuou:
_ Os Lucchese não pararam por aí. Eles estão sufocando nossas rotas nas fronteiras. Estão jogando sujo, atravessando mercadoria e subornando os contatos que seu pai levou décadas para cultivar.
Ethan finalmente se virou, os olhos frios como o aço de uma lâmina.
- Já localizaram o paradeiro desse verme?
A pergunta saiu seca, letal.
- Desde a morte de seu pai, Declan desapareceu de Nova York.
Explicou John.
- Ele abandonou os domínios ao norte de Manhattan, deixando apenas testas de ferro no comando. Ele sabe que a retaliação da nossa parte seria o fim dele se ficasse por perto.
John fez uma pausa dramática, consultando um mapa digital sobre a mesa.
- Nossa inteligência o rastreou. Ele cruzou o país. Declan Lucchese foi localizado no Texas, em uma cidadezinha chamada Oak Ridge.
Um sorriso lento e predatório surgiu no rosto de Ethan. Não era um sorriso de alegria, mas de destino selado.
- Texas, então é lá que ele está operando ultimamente seus negócios...
Murmurou Ethan.
- Prepare tudo, John. Eu iria até o inferno para arrancar a língua daquele homem e vingar o meu pai. Mas não vamos fazer um espetáculo.
Ethan caminhou até a mesa, apagando o charuto com uma calma perturbadora.
- Se eu chegar com comboios e soldados, ele foge antes de eu cruzar a fronteira do estado. Eu quero chegar em Oak Ridge como um ninguém. Um homem comum, um viajante, um fantasma. Alguém que busca uma oportunidade no nada.
_ Prepare uma identidade limpa, um carro que não chame atenção e uma estadia discreta, e o melhor, compre um bar e o reforme, esse será meu local de disfarce. Declan acha que está seguro no isolamento do deserto. Ele vai descobrir que o alcance de um Genovese não conhece limites.
John assentiu, já mentalizando a logística necessária.