PRÓLOGO: A COLISÃO ENTRE A FUGA E A BRUTALIDADE.
Era uma noite fria, de um outono que já se despedia, deixando um ar gélido e cortante pairar sobre a cidade.
O céu estava limpo, cravejado de estrelas indiferentes. Para a maioria das pessoas, era uma perfeita noite para o conforto, para o calor da lareira, para o riso compartilhado com amigos ou a doçura da união em família.
Uma imagem perfeita, de paz e segurança. Só que, para algumas pessoas, essa noite perfeita era apenas o palco de um drama terrível, o prenúncio de algo ruim, muito ruim!!!
Celina não sentia o frio em seu corpo; o pavor que a consumia era uma febre gélida que suplantava a temperatura ambiente.
Ela corria pelas ruas, uma silhueta desesperada e frágil, como se a própria vida fosse um fio tênue dependendo de sua rapidez e agilidade. E, de fato, sua vida realmente dependia daquela fuga frenética.
Estava descalça, os pés pequenos e delicados castigados pelo asfalto e pelas pedras. Seu traje era patético para o rigor do clima: uma camiseta regata fina e uma calça moletom desgastada, sem sequer uma blusa ou agasalho para oferecer um mínimo de proteção.
O vento gelado, um chicote impiedoso, batia em sua pele, fazendo-a estremecer a cada rajada, mas ela não podia parar. Corria pelas ruas escuras, onde as sombras se alongavam e pareciam observá-la, e já estava sem fôlego, o peito arfando dolorosamente a cada inalação.
Sua única meta era tentar fugir, tentar ser livre, e ter sua vida novamente em suas mãos. Ela não aceitava aquele destino que haviam traçado para ela, não suportaria viver aquela vida de opressão e dor.
O pensamento era claro e urgente: qualquer coisa, mas jamais se submeter ao que queriam para sua vida!
Enquanto a jovem corria em um desespero visceral para tentar sobreviver, bem próximo dali, em um galpão abandonado, desenrolava-se um acontecimento bem diferente, uma cena de violência que também destoava daquela noite "perfeita".
- Por favor... - A voz era rouca, um som moribundo que mal escapava dos lábios daquele homem moribundo, que suplicava por clemência.
Estava amarrado a uma cadeira velha, os pulsos e tornozelos presos por cordas grossas.
Seu rosto ensanguentado, quase irreconhecível sob as camadas de dor e sujeira, não era algo que fizesse o temido Kaleb sentir pena.
A frieza do Kaleb era lendária. Além disso, a situação era de sua própria autoria: foi ele mesmo quem deixou o rosto daquele homem, quase desfigurado! A boca, inchada e deformada pelos tantos murros que havia recebido, mal conseguia articular um pedido.
E o que dizer dos seus olhos? Um deles estava quase fechado, ele quase não conseguia enxergar por estar tão inchado, e o outro, com um enorme hematoma acima da sobrancelha e um grande corte, que descia quase chegando ao seu olho, era mais um resultado das violentas surras que levou, para completar o quadro de tortura, seu corpo, que mal se sustentava, mais parecia que tinha sido atropelado por um caminhão.
- Pensou mesmo, que poderia se esconder de mim? - O loiro alto, com sua presença imponente e terrivelmente temida, perguntou ao homem, a voz fria e cortante, enquanto ele permanecia amarrado na cadeira.
Kaleb pegou algo em uma mesa próxima a ele, um objeto que prometia mais dor e se virou, voltando-se para o homem preso, que agora estava à sua frente.
Vendo o que o Kaleb tinha em mãos, o homem sentiu o terror tomar conta de si e entrou em desespero.
- Por favor, eu vou te pagar! Por favor... não bata mais em mim, não me machuque mais! - Mais uma vez, o homem pediu clemência, a súplica se misturando a tosse e a cuspida de sangue, resultado da brutalidade recém-infligida.
- Na verdade... Eu já consegui meu objetivo! - Kaleb falou, com convicção inabalável. O objetivo não era apenas o pagamento, mas a demonstração de poder. - E é claro que vai me pagar! Tem três dias, nenhum dia a mais. - Ele disse ele, caminhando lentamente como um predador, os passos medidos, calculados, chegando a centímetros de distância do rosto do homem amarrado. A proximidade era uma ameaça. - Você teve a prova que não pode fugir de mim, Baltazar. Te encontrarei no inferno se for preciso. - Disse ele e, o homem aprisionado, Baltazar, sentiu seus ossos tremerem, porque, pelo olhar assustador do Kaleb, ele sabia que era verdade, não havia margem para dúvidas. Não era um blefe, e não existia lugar para fugir! - Se tentar fugir outra vez, vai pagar com sua vida, mas caso não tenha entendido... vou deixar bem claro para você. - Falou, segurando a mão do homem que se debatia em desespero, aterrorizado, sabendo o que o Kaleb iria fazer com aquele alicate.
- Por favor, não... - O homem se debatia, lutando contra as amarras, tentando escapar, o pânico em seus olhos ao perceber o que o Kaleb estava prestes a fazer.
- Me ajuda aqui, Scott! - Kaleb pediu, para um outro homem que estava ao fundo, quase escondido nas sombras, para que o ajudasse.
O homem, Scott, se aproximou e segurou com toda sua força o braço do outro, que permanecia amarrado na cadeira. Mesmo amarrado, Baltazar tentava se soltar, se debatendo e gritando, mas era tudo em vão, culminando em um grito de dor tão lancinante que poderia ser ouvido a quilômetros de onde estavam.
O homem loiro, Kaleb, sem esboçar qualquer emoção, com um alicate, arrancou o dedo indicador da mão direita do homem amarrado, sem nenhuma misericórdia. A crueldade era fria e calculada.
O grito de dor daquele pobre homem, podia ser ouvido muito longe dali, uma nota dissonante na noite, mas ninguém iria ajudá-lo! Aquele galpão era usado sempre para casos como aquele, um local isolado para acertos de contas sangrentos.
- Agora sim, vai ter consciência e não tentará fugir de mim. - Kaleb falou, com um sorriso diabólico nos lábios, uma expressão de satisfação sombria. - Esse foi só um lembrete. - Disse ele, com indiferença, olhando o dedo do homem, caído no chão a sua frente, em uma poça vermelha.
Enquanto os dois homens pareciam se divertir com o acontecido, o outro, chorava em desespero, tomado pela dor tão terrível de ter seu dedo arrancado daquela maneira horrenda. As lágrimas caíam pelo rosto do homem, misturando-se ao sangue em sua pele, e escorrendo pelo pescoço.
- Espero não haver próxima vez, mas se houver. Será sua cabeça que estará no chão! - Kaleb falou, olhando profundamente nos olhos daquele homem, reforçando a ameaça final. - Agora pode ir e lembre-se... Três dias e nenhum a mais! - Lembrou ele, com a voz grave, antes de começar a desamarrar o Baltazar.
Kaleb foi desamarrando o homem, o qual, assim que se viu livre, correu em desespero até a saída, sem ousar olhar para trás. Deixou um rastro de sangue da sua mão ferida, por onde foi passando e logo sumiu em meio a escuridão da noite.
- Esse com certeza não vai mais tentar fugir. - Scott comentou, rindo, com uma satisfação cúmplice, olhando o homem desaparecer pela porta do galpão.
Scott era o braço direito do Kaleb. Era moreno, alto, forte, e possuía quase as mesmas simetrias corporais do amigo, Kaleb. A única diferença era, um ser loiro e o outro moreno claro, e Scott tem o tom dos cabelos castanhos escuros.
- Ele não vai! - Kaleb falou, convicto de suas palavras, certo de que havia quebrado o espírito do Baltazar. - Não sei por que ele pensou que poderia fugir da gente! - Kaleb comentou, achando uma idiotice o que o homem fez, uma afronta imperdoável. - Vai carregar esse peso pelo resto da vida. Por ter tentado fugir, devendo dinheiro a mim, Kaleb Donovan! - Falou, rindo do acontecido, o riso sem humor, tingido de poder.
- Você se supera a cada dia. - Scott comentou, orgulhoso, lançando um olhar de aprovação para o dedo do homem, caído ao lado da cadeira, em uma poça de sangue.
Kaleb, apenas sorriu satisfeito por ter sido tão cruel. A crueldade era sua ferramenta de trabalho. Pegou a bolsa ao lado na mesa, colocando suas "ferramentas", os instrumentos de tortura e os dois saíram do galpão.
Seguiram caminhando, conversando sobre os negócios, por uns dois quarteirões até próximo ao carro, quando de repente, algo surgiu.
Foi apenas um vulto de pânico e velocidade, colidindo com o corpo do Kaleb, um impacto que o pegou de surpresa e que o precisou levar um pé atrás para não cair com tudo no chão.
Kaleb, apesar do susto momentâneo, reagiu instintivamente e segurou o corpo tão pequeno que se chocou ao dele.
- O que você pensa que está... - Kaleb começou a repreender, a irritação pela interrupção evidente em sua voz.
- Por favor, não deixe ele me levar. - A garota pediu, implorando, sua voz um sussurro desesperado, se segurando mais forte ao corpo dele, como se ele fosse a âncora em meio a um mar revolto.
Kaleb não entendeu o que estava acontecendo, a cena era inusitada, mas, ao olhar para a garota, ele ficou sem reação. Ele já havia torturado tantos homens, até mesmo mulheres, mas nunca viu um olhar assim, carregado com tanto medo, pavor...
- Quem está tentando te levar? - Perguntou, a voz levemente alterada pela estranheza da situação, mas nem mesmo teve tempo para uma resposta, quando surgiu um homem correndo atrás dela e parou bruscamente ao vê-los.
Scott prontamente pegou sua arma na cintura, num movimento rápido e treinado, para proteger o amigo e a si mesmo. Não sabiam ao certo o que estava acontecendo, mas a ameaça era palpável.
- Senhor Kaleb. - O homem falou, assustado por vê-los ali à sua frente. Ele nunca pensou em encontrar com eles, ainda mais, naquela situação! Kaleb era, sem dúvida, a última pessoa que o Jorge gostaria de ver naquele momento.
A garota se apertou mais ao corpo do Kaleb, fazendo-o olhá-la. Ela se mantinha com o rosto escondido em meio a sua camisa e se segurava forte a ele, paralisada com medo de ser tirada dali.
- Quem é você? - Scott perguntou, a voz tensa, ainda apontando sua arma para o homem que chegou correndo atrás da garota, a qual se mantinha grudada ao Kaleb.
- Peço perdão, pelo inconveniente. - Disse o homem, levantando as mãos, inofensivo, numa clara postura de rendição. - Senhor Kaleb, se puder me entregar a garota, eu já vou indo. - Pediu ele, olhando para o Kaleb, com um sorriso amarelo, forçado, e amedrontado por quem estava à sua frente.
A garota se apertou ainda mais ao corpo do Kaleb e ele ficou pensativo, processando a cena. Ele observava aquela garota se segurar a ele como fosse seu porto seguro, uma ironia cruel, justo ele, que despertava os piores pesadelos de muitos. Mas ela, em sua inocência ou desespero, estava confiando nele, para ajudá-la!
- Não deixe ele me levar, por favor. - Implorou ela, olhando mais uma vez para ele e desta vez, Kaleb notou seu olho com um tom roxo, um hematoma recente e um pequeno corte no lábio. E, acima de tudo, aqueles olhos verdes, tão expressivos, tão amedrontados. Dessa vez não era por ele que ela sentia pavor. Aquele pavor todo era direcionado ao homem atrás dela. Ela estava confiando nele para ajudá-la, protegê-la!
- Por que quer a garota? - Olhando para o homem, Kaleb queria uma resposta. Ele exigia uma explicação plausível para a violência.
- Ela é minha! Se me devolvê-la, irei embora. - Falou o homem, amedrontado, mas tentando impor alguma autoridade, afinal de contas, ele sabia quem eram aqueles dois homens à sua frente.
- E o que lhe dá o direito de machucá-la? - Kaleb perguntou, desafiador. A frieza de sua voz se intensificou, tingida por uma raiva inesperada. Ficou muito bravo, por ver aquela pobre garota machucada.
- Olha... eu... - O homem se atrapalhou, ao tentar se explicar, as palavras sumindo. - Ela fugiu de mim e preciso levá-la de volta. - Disse ele, mantendo-se afastado, o medo o paralisando perante a arma que o Scott mantinha apontado para ele.
- Não! Eu não vou voltar. - A garota gritou assustada e tentou correr, mas o Kaleb segurou seu pequeno corpo junto ao dele, impedindo o movimento.
- Ele não vai te levar! - Afirmou, olhando para a garota com uma convicção que a tranquilizou. Ela ficou mais tranquila e se manteve junto a ele, abraçando-o.
- Mas ela é minha. - Disse o homem com raiva, ao ouvir as palavras decisivas do Kaleb.
- Não é mais! - Kaleb respondeu, com convicção absoluta. A decisão estava tomada: Ninguém iria tirá-la dele.
- Mais ela...
- Não ouviu o que o Kaleb falou? - Scott entrou na conversa, falando com o homem, em tom ameaçador. O perigo era evidente em sua voz.
O homem continuou parado, se negando a deixar a garota ali. A ganância falava mais alto que o medo.
- Mais o que eu ganho, deixando ela com você? - Perguntou o homem, querendo negociar.
Kaleb sentia o corpo da garota tremer cada vez mais, junto ao seu. Em parte, ele sabia que era pelo frio, a exposição a tinha castigado, mas também sabia que era pelo medo. Ela estava apavorada com a presença daquele homem que a perseguia.
- Que tal sua vida? Se não sair daqui agora, vai ficar aqui mesmo, morto! - Kaleb falou, sem muita paciência. A ameaça era real e imediata. Paciência nunca foi seu forte!
O homem se assustou pelas palavras e sabia que quem falou, dizia a verdade. Com medo, ele se afastou e foi voltando de onde veio. Ele pensava que, por agora, devia deixar as coisas se acalmarem, mas tarde, daria um jeito de pegar a Celina de volta e conseguir um bom dinheiro com ela. Já que, era por aquele motivo que ele estava atrás dela.
- Está tudo bem agora. - Kaleb falou, erguendo a mão até as costas da garota, num gesto surpreendente de conforto. - Ele já foi embora.
Kaleb percebeu que a garota já não o segurava com tanta força e, subitamente, sentiu o corpo dela ficar mole em seus braços. Antes que ela caísse no chão, Kaleb a segurou pela cintura, impedindo a queda.
- Droga! Ela desmaiou. - Kaleb praguejou, a preocupação em seu tom, vendo a garota desacordada em seus braços.
Rapidamente, Scott se posicionou ao seu lado, guardando a arma na cintura, também preocupado com a garota.
- Deve ser por causa do frio. Ela está sem blusa e ainda está descalça. - Scott falou, dando uma leve analisada na garota. - Ela está sangrando. - Disse ele, notando os pulsos da garota ensanguentados.
Kaleb se preocupou ainda mais, ao ver o tamanho do corte nos pulsos tão frágeis daquela garota. Ele sabia o que ela havia tentado fazer, tirar a própria vida, um ato de desespero máximo, mas Kaleb não iria deixá-la fazer algo tão irresponsável. Ele iria ajudá-la e protegê-la de qualquer coisa que pudesse machucá-la. Incluindo, e principalmente, aquele homem que estava atrás dela.
- Ligue para o doutor Lorenzo. Ele precisa estar lá em casa, em cinco minutos. - Kaleb falou, pegando a garota em seus braços com cuidado.
Ele percebeu a leveza do corpo. Não sabia direito quantos anos a garota tinha, mas devia ao menos ter uns vinte anos, mas seu peso parecia de uma criança. A dura realidade era que ela estava muito magra.
Scott pegou o celular, ligando rapidamente para o doutor, sem se preocupar por ser tão tarde da noite, pois as ordens do Kaleb eram lei. Enquanto, Kaleb caminhava rapidamente com a garota em seus braços, tentando chegar o mais rápido até seu carro.
(Olá a todos, sou a Nanda, escritora de e-books de romance. Minha primeira história aqui e se estiverem gostando, me segue no i.n.s.t.a.g.r.a.m: nanda_livros01, tenho algumas outras histórias)
CAPÍTULO UM: A CHEGADA DA REDENÇÃO
O silêncio na vasta sala de estar da mansão do Kaleb era pesado, rompido apenas pelos passos inquietos do dono da casa.
Kaleb andava de um lado para outro, num ritmo frenético e repetitivo, cruzando a imensidão do luxuoso ambiente.
Ele estava irreconhecível, tomado por uma tríade de sentimentos que há muito havia exilado de sua vida: ansioso, consumido pela espera; aflito, pela incerteza da vida que resgatou; e nervoso, uma tensão palpável que jamais admitiria.
Seu foco estava fixo na escadaria, esperando o doutor descer e falar sobre a garota que ele levou até sua casa, desacordada.
Scott por sua vez, estava sentado no sofá, um móvel de couro escuro e imponente, e com a mão firme, levava à boca um bom uísque, um líquido âmbar que refletia as luzes da sala. Contudo, ele também permanecia esperando o doutor, mantendo uma vigilância discreta, para saber da garota.
Sua preocupação, nem se comparava ao do Kaleb. Scott observava o amigo com uma curiosidade velada; nem mesmo o Scott estava reconhecendo seu amigo, tamanha a intensidade daquele nervosismo. Mas era claro que ele nunca faria tal comentário! Jamais desafiaria Kaleb naquele estado. Nunca o viu tão nervoso, tão exposto, mas não seria louco de falar uma palavra sequer.
De repente, a espera terminou. O médico, Doutor Lorenzo, apareceu nos primeiros degraus do andar de cima, uma figura experiente e austera. E, sem hesitar, Kaleb subiu de encontro a ele.
Ele não podia esperar mais um segundo. Subiu a escadaria imponente de dois em dois degraus, com a agilidade de um predador, chegando rapidamente ao lado do médico.
- Como ela está? - Perguntou, sem conseguir esconder sua preocupação. A voz, habitualmente fria e controlada, estava ligeiramente áspera, aflita, por uma resposta imediata.
A cara do médico era preocupante, carregada de seriedade, um mau sinal que não aliviava a tensão. Isso fez com que o coração do Kaleb, o qual, ele nem mesmo lembrava que tinha se apertasse dentro do peito.
Kaleb estava perplexo, não sabia o que estava acontecendo, nem o que o dominava, pois nunca se sentiu assim antes.
Os dois homens desceram os degraus lentamente, o médico em silêncio, chegando até a sala onde o Scott continuava esperando por notícias também.
Kaleb olhava para o doutor Lorenzo, apreensivo, mal piscando, querendo saber logo o estado da garota. Mas Lorenzo ainda se sentou no sofá, com uma calma calculada, e Kaleb se manteve ao lado dele, de pé, querendo ouvir logo sua resposta.
O silêncio se prolongava, e o médico ainda não disse nada. Kaleb estava a ponto de explodir, sem conseguir esperar mais pela informação vital.
- Vai falar logo? - Kaleb perguntou, sem muita paciência.
A irritação borbulhava. Paciência nunca foi seu ponto forte e agora então, naquele estado de nervos, estava por um fio!
O médico olhou para o Kaleb, sem dar muita importância, habituado por seu tom ríspido. Lorenzo já aprendeu a lidar com o Kaleb e suas explosões, afinal de contas, o conhecia desde criança e trabalhou sua vida inteira com o pai dele. Era um dos poucos que ousavam desafiá-lo ou ignorar seu temperamento, mas era claro que o Lorenzo sabia muito bem seu limite.
- A garota vai ficar bem. - Lorenzo contou, a frase simples liberando uma tonelada de tensão. Ele percebeu que o Kaleb respirou aliviado. Pôde ver até mesmo seu semblante suavizar, uma mudança quase imperceptível, mas que não passou despercebida. - O corte não foi muito profundo. Felizmente, as tentativas de automutilação não foram fatais. Está muito magra, em um estado de desnutrição preocupante, desidratada e, infelizmente, os cortes em seus pulsos, fez com que ela perdesse muito sangue. Ela vai precisar de muito repouso, de descanso absoluto, mas vai ficar bem. - Contou ele, com a voz clara, vendo o Kaleb, olhá-lo com atenção e absorver cada detalhe. - O corpo da garota está cheio de hematomas, como se tivesse sido torturada. É um caso de violência grave. Aquela pobre menina, deve ter sofrido bastante! - Lorenzo contou tudo o que viu, os sinais visíveis de abuso, enquanto a examinava.
Kaleb, pela primeira vez em muito tempo, sentiu um aperto doloroso no peito, uma pontada de empatia e raiva, pelas palavras do médico, em saber o quão terrivelmente era o que tinha acontecido com a garota.
- Quem machucaria uma garota tão frágil daquela?! - Scott perguntou, irritado, a indignação colorindo sua voz, tomando um gole do seu uísque com um gesto brusco. - Ela não faria mal a uma mosca! É pura inocência.
Kaleb só conseguia ouvir, as palavras do médico e do amigo ecoavam em sua mente. Ele não tinha o que falar! Também pensava como o Scott, com a mesma fúria silenciosa, mas, as palavras não saíram de sua boca. Sua raiva foi internalizada, se transformando em um juramento.
Quem teria tanta crueldade e coragem de maltratar aquela doce garota? Se fosse, de fato, aquele homem que estava atrás dela, o tal Jorge, ele pagaria muito caro por ousar encostar as mãos em uma garota tão frágil. Kaleb jurou a si mesmo que iria encontrar o culpado que a machucou. A proteção dela se tornava uma obsessão repentina.
- Amanhã eu voltarei, preciso examiná-la quando estiver acordada, para uma avaliação mais completa, mas, por agora, descansar vai fazer bem. Ela precisa recuperar as energias. Aquela garota parece muito cansada. Exausta. Parece que não dorme a dias. Está em um sono tão profundo que nem mesmo acordou, quando eu a examinei. - Lorenzo contou um pouco mais, sobre sua paciente, indicando o nível de exaustão física e emocional da jovem.
- Obrigado por enquanto, Lorenzo. - Kaleb agradeceu, o reconhecimento de sua gratidão era raro, e se levantando do sofá, para acompanhá-lo até a porta.
- Sabe que sempre estarei aqui, pronto para ajudar, assim, como sempre estive por seu pai! - Lorenzo falou, atencioso, com a familiaridade de um antigo amigo, se levantando. - E falando nisso. Mudando de assunto, soube que sua tia está tentando casar você? - Falou rindo, uma risada suave, se divertindo, pelo rumo inesperado da conversa.
- Ela vai precisar de muita sorte! - Scott comentou, sarcástico. Ele riu, conhecendo muito bem seu amigo e sua aversão ao compromisso.
- Há se vai! - Lorenzo concordou com o Scott, achando graça da situação.
- Vão se foder, vocês dois! - Kaleb falou irritado, com um grunhido, por eles estarem se divertindo, zombando por sua desgraça e vida pessoal.
Kaleb acompanhou o doutor Lorenzo até a porta e, logo depois, o Scott também foi embora, saindo com seu carro.
Kaleb ficou ali sozinho, com seus pensamentos tumultuados e a casa silenciosa.
Olhando para o fim da escada, para o andar superior, ele conseguia ver a porta do quarto, o local seguro onde a garota estava.
Calmamente foi caminhando, o ritmo agora lento e deliberado, subindo os degraus um a um até chegar à porta do quarto onde a Celina estava.
Meio indeciso, hesitando por um breve instante, ele pegou no trinco da porta. Nunca se sentiu assim, com tal mistura de sentimentos, mas ele estava estranho, preocupado pela garota.
Finalmente, abriu a porta, suspirou fundo e ficou encarando a garota deitada na cama.
Seus cabelos loiros e claros estavam espalhados pelo travesseiro, como um raio de sol dourado.
Ela dormia tão serenamente, com uma paz que contrastava com sua fuga, que por um segundo, Kaleb acreditou ser um anjo dormindo. Seu rosto delicado, de traços finos, dava mais impressão ainda de ser um anjo deitado sobre a cama.
Ele entrou no quarto, os passos silenciosos, indo até a cama e sentou-se ao lado dela calmamente, tomando todo o cuidado para não acordá-la.
Ficou olhando, absorvendo a imagem, pensando no que aconteceu horas antes, em como ela havia pedido por sua ajuda, segurando sua cintura tão forte. Ele se maravilhou com a força daquele ato: Alguém tão frágil como ela, lutou com todas suas forças para se manter segura ao lado dele.
Celina não teve medo dele, o temido Kaleb. Ela se agarrou em seu corpo como se soubesse que ele a protegeria. Um sorriso involuntário saiu de seus lábios com o pensamento. Era a mais pura ironia: Todos o temem, sentem pavor, têm medo dele, ao menos, os que o conhecem, mas aquela garota não teve, pediu por sua ajuda, confiando nele!
- O que aconteceu com você, pequena? - Perguntou, a voz baixa, quase um sussurro no silêncio do quarto, passando seu dedo suavemente, com uma ternura inesperada, tirando uma mecha de cabelo do rosto dela, delicadamente.
Ele ficou encantado por ver o quão bonita ela é, mesmo com os hematomas. Kaleb não conseguia entender seu afeto por ela, aquela necessidade súbita de cuidar, mas sabia que devia proteger aquela garota, de tudo e de todos, e ele faria isso a todo custo!
Nunca mais ela iria passar por aquilo, ele prometeu. Kaleb olhou os pulsos dela, agora enfaixados, e a promessa se solidificou em seu coração de gelo.
CAPÍTULO DOIS: A LUTA CONTRA O LEGADO.
DUAS SEMANAS ANTES...
A cena se passava no imponente escritório do Kaleb, um espaço dominado por madeiras escuras e a aura de poder.
- Já disse que não irei me casar, tia! Eu já tomei minha decisão. Quando a senhora vai entender isso? Quando esta ideia sairá da sua cabeça? - Kaleb tentava se manter calmo, usava toda a sua força de vontade, mas falar de casamento era algo que o tirava do sério, o levava ao limite, ainda mais, seu próprio casamento. Era uma afronta à sua natureza solitária.
- Não vou entender nunca! Eu nunca vou desistir. Você sabe que merece ser feliz, Kaleb. Você tem direito à felicidade. - Daiana falou atenciosa, a voz carregada de amor, não se importando pela malcriação do seu sobrinho. Ela o amava incondicionalmente. - Estou velha e não estarei aqui para sempre, cuidando de você. Preciso saber que você terá alguém ao seu lado.
Suas palavras fizeram o Kaleb se manter mais calmo, pois tocavam em um ponto sensível do seu coração. Ele pode ser desalmado, sem coração, como todos diziam, mas sua tia é muito importante para ele. Ela era o último vestígio de calor em sua vida. Então ele se sentou em sua cadeira do escritório, respirando fundo, com um gesto de resignação, pronto para ouvi-la com atenção forçada.
- Sei que não quer se casar pelo que aconteceu a nossa família. Sei que o passado pesa sobre você. Sei que lembra de como sua mãe sofreu, as mágoas que ela carregou, mas você é diferente do seu pai. Você tem sua própria alma. - Disse ela, tentando convencê-lo com a lógica do afeto.
- E se eu não for, tia? E se eu for exatamente igual? - Kaleb perguntou, com peso em sua voz, uma angústia profunda, olhando para sua tia, sentada à sua frente.
Ele não conseguia se convencer. Ele não acreditava ser diferente do seu pai, pensava ser a cópia exata, era o mesmo desalmado e sem coração que seu pai sempre foi. Afinal, ele mesmo quem o ensinou ser daquela maneira!
- Você não é Kaleb! E isso basta. Sei que meu irmão fez de você alguém que sua mãe não queria. Ela tinha sonhos diferentes para você. Ela queria te criar com todo amor e carinho, cercado de afeto, mas seu pai fez de você o seguidor dele em seus negócios sombrios e desde pequeno você só conhece tortura e morte. É a única vida que meu irmão te mostrou. Você Aprendeu com seu pai a ser alguém sem sentimentos. - Daiana falou emotiva, a memória do sofrimento voltando, lembrando de como seu irmão era um homem desumano e cruel.
- Esse sou eu, tia Daiana! A verdade nua e crua. - Admitiu ele, aceitando a própria escuridão.
- Mas você é muito mais, Kaleb. Eu sei disso. - Disse ela atenciosa, com um carinho maternal, se levantando, chegando a frente do seu sobrinho. Ela estendeu a mão. - Não posso nem imaginar o que você carrega aqui. - Falou, colocando a mão na cabeça dele com carinho. - Mas aqui dentro... sei que pode deixar alguém entrar. - Ela Colocou a mão no peito dele, sobre a camisa do Kaleb, onde seu coração estava. - Você só precisa se deixar amar e ser amado e amar com a mesma intensidade. Você merece isso. Você precisa ser feliz, sua mãe queria muito isso! - Disse ela, batendo no ponto fraco, usando a memória mais dolorosa do Kaleb.
Kaleb não tinha muita recordação de sua mãe, apenas fragmentos. Ela morreu quando ele tinha dez anos. E o pouco que se lembrava, era das brigas constantes com seu pai, discussões violentas. Às vezes ele até batia nela, quando ela tentava impedir ele de levar o Kaleb, de tirá-lo dela, para aprender tudo o que aprendeu sobre o mundo do crime, mas ainda se recordava do quão amorosa ela era.
Ele lembrava do toque. Quando sua mãe ia até o quarto dele dar um beijo de boa noite escondido, murmurando o quanto o amava.
Na época, Kaleb não ligou muito aos fatos, não entendia a gravidade, mas hoje, ele acreditava que sua mãe morreu de desgosto pelo o homem que ele se tornou. A dor a consumiu. Ela não suportou viver sabendo do monstro que seu marido iria criar.
- Eu não sei como, tia! Não me ensinaram isso. - Disse ele, cabisbaixo, sua voz denotando a impotência.
E Kaleb não sabia mesmo! Sua vida foi um treinamento brutal. Foi criado por seu pai. Aprendeu como torturar, até mesmo matar, como ferir sem remorso, mas nunca como amar. As mulheres com quem andava, eram apenas distração, sexo sem afeto.
Ele nunca foi carinhoso, sempre bruto e frio, e ele não sabia como ser diferente. E uma esposa, ele não queria que tivesse a mesma vida que sua falecida mãe.
Kaleb não queria ser um monstro com sua esposa, nem com a mãe dos seus filhos. Não queria que outra pessoa sofresse tudo o que sua mãe sofreu. Esse medo era seu maior bloqueio.
- Você vai aprender, filho. O amor é um instinto. Só precisa encontrar a pessoa certa no momento certo e você vai ver. A mudança virá. Vai aprender a amar e será mais forte o amor do que todo o resto que aprendeu. A bondade prevalecerá. Só se permita viver. - Disse ela, abraçando-o com ternura, carinho puro e genuíno.
Kaleb não era muito afetuoso, a rigidez era sua segunda pele, mas permitiu o abraço da sua tia, sentindo-se estranhamente em paz, abraçando-a, meio sem jeito.
Não era acostumado a fazer aquilo, a expressar sentimentos, mas, de certa forma, gostava de como ela não se afetava pela maneira, em como ele sempre a tratava, com sua frieza, sem muito sentimento.
(...)
O tempo se arrastava. De volta à realidade, no quarto luxuoso, Kaleb se mantinha sentado na cadeira à horas, uma vigilância incansável, esperando a garota acordar.
Seu novo objetivo. Ele não se importava em ficar olhando para ela, pelo contrário, a observação era fascinante!
Ela chamava sua atenção, como ninguém nunca o fez. Era um ímã irresistível. Passou a noite toda ali e nem se importou, por estar no mesmo lugar quando o sol nasceu.
- Bom dia. - Kaleb falou, tentando ser simpático, suavizando a voz, ao ver que a garota abriu os olhos lentamente.
Ela se moveu, se levantou, sentando-se, assustada, os olhos arregalados, por ver aquele homem ao lado da cama.
- Por favor, fique calma. Está tudo bem. Não vou te machucar. Eu sou seu protetor. - Kaleb se levantou, caminhando até ela com lentidão, tentando acalmá-la.
Ela o observou, seu corpo inteiro em alerta, e se encolheu, abraçando as pernas, escondendo a cabeça no meio dos joelhos.
Celina ficou apavorada ao ver aquele homem enorme, a memória do padrasto ainda fresca.
- Por favor, não me machuque. Eu imploro. - Disse ela, em um sussurro de medo, aterrorizada pelo que aquele homem poderia fazer a ela.
- Não vou te machucar. De forma alguma. - Disse ele, triste, uma dor que o surpreendeu, por ela pensar aquilo. Pela primeira vez, Kaleb se sentiu mal, em ver alguém com medo dele.
Causar medo, pânico, pavor, era algo que sempre o deixou bem, que definia seu poder, mas agora, ele não queria que ela tivesse medo dele. Queria confiança.
- Eu te ajudei ontem, se lembra? Eu estava lá. Eu protegi você. - Falou, tentando acalmá-la com a lembrança da noite anterior.
Ela ergueu seu rosto calmamente, lentamente, olhando para o Kaleb parado a sua frente. Parecia que finalmente ela tinha se recordado dele, o vulto da salvação.
- Você não vai me machucar? - Perguntou ela, um pouco receosa, a dúvida ainda presente, olhando timidamente para ele.
- Não! Eu prometo. - Confirmou ele, com firmeza.
Kaleb percebeu os ombros dela relaxarem, uma pequena rendição ao alívio.
Celina o encarava, agora com mais atenção, se recordando da noite passada, e de como ele lhe ajudou.
Continua...