Salvador, Bahia
É noite e o vento forte balançava meus cabelos para todos os lados deixando os meus cachos embaraçados, o suor colava a minha calça, jeans clara e minha blusa, polo ao meu corpo me deixando desconfortável.
Caminhei a passos largos pelas ruas do comércio, estava tudo tão silencioso. Alguns carros passavam e meu corpo gelava de medo.
O que estou fazendo? Porque eu não dou meia volta?
__ Porque preciso! __ Tento me convencer pela milésima vez.
A vida é uma sucessão de escolhas e eu sinto, sinto em meu íntimo que vou me arrepender dessa minha escolha.
Ou talvez seja só o medo falando.
__ Mas agora é tarde! Não dá para retroceder.
Se dependesse apenas de mim eu estaria em meu quarto, estudando as matérias atrasadas da faculdade.
Contudo, eu não posso! Não tenho dinheiro para pagar minha faculdade, não tenho dinheiro nem para pegar um ônibus para chegar ao meu destino, piorou os materiais que preciso, fora as xerox e impressões.
Eu poderia continuar me lamuriando, porque tudo está dando errado em minha vida, mas cansei.
Cansei de verdade! Aspirei o ar me sentindo emocionalmente cansada.
Outro carro passa ao meu lado e buzina. Meu coração volta a bater rápido. Respiro fundo e olho as horas em meu relógio de pulso. 00:00h. Já faz uma hora e meia que estou andando sem parar, me sinto uma maluca.
Uma maluca cansada.
Viro a esquina na rua Portugal, passando ao lado da empresa Contax, e paro enfrente a Ladeira da Montanha.
Eu deveria dar a volta... Mas nesse caso demorarei mais ainda e meus pés não estão aguentando mais.
Encarei a ladeira mais uma vez e sinto dúvida, mas ela logo se desfaz e me vejo dando mais um passo ao desconhecido.
Diferente das ruas, a ladeira parecia está em festa. Havia uma prostituta por toda a ladeira, elas falavam alto, riam, acenavam para os carros que passavam, alguns paravam, outros buzinavam e seguiam seu caminho.
__ Ei coisa linda, quer se juntar a nós? __ Ouço uma delas me perguntar, mas ignoro completamente.
Sou louca, só pode ser isso.
Ando o mais rápido que posso, até sair da ladeira da montanha, no topo virei à esquerda, na rua Carlos Gomes. Fui andando até chegar na rua Dois de julho, desci o contorno chegando enfim ao meu destino.
O mau cheiro da rua se misturavam ao meu medo, eu não sabia o que era pior. Era um fedor de fezes, maconha, sujeira, tudo junto.
Meu coração batia forte como nunca, a sensação que eu tinha era que ele ia sair a qualquer momento pela minha boca.
Você não pode fazer isso, vai contra todos os teus princípios! Minha consciência me acusou outra vez.
__ O que farei? __ Sussurrei. __ É isso ou morrer de fome. Não é como se eu fosse me prostituir. __ Tornei a sussurrar, mas a dúvida, a sensação de está fazendo algo errado me corroía por dentro.
Meu irmãozinho depende de mim, não temos mais ninguém, o que posso fazer?
Chego em frente ao um grande portão preto que descascava, talvez devido ao tempo. Meus olhos focaram no enorme letreiro a cima do portão, escrito "CASA SENSAÇÃO", em vermelho e azul com letras de imprensa, ao lado um desenho de peitos brilhava em neon vermelho.
Cafonas! Penso contendo um gruído de insatisfação.
Faço a volta para chegar na entrada de serviços como Lourdes havia me explicado. Um dos seguranças me ver e levanta, eles me olhavam como um pedaço de carne e isso fez eriçar todo o meu coro cabeludo. Uma sensação péssima.
Lourdes disse que eles estão me esperando, então não tenho o por que me preocupar. Procurei me convencer.
__ O que faz aqui negona, se perdeu? __ O segurança perguntou parando em minha frente, enquanto outro me observava sentado em uma cadeira giratória, na cor preta.
__ Boa noite! __ Saudei. __ Senhor, tenho uma diária para fazer.
__ Tem certeza? __ Questionou-me confuso. __ Qual o seu nome?
__ Absoluta! Chamo-me Ana Beatriz.
__ Bom, Ana Beatriz, não somos nós que cuidamos de contratar as putas daqui.
Eu deveria me sentir ofendida pelas palavras dele, mas tudo que eu conseguia era me sentir envergonhada.
Lembrei de minha mãe falando:
__ "Bea, quem se mistura com porcos, farelo come."
Ela acreditava que se a pessoa tem uma má companhia, acaba realizando as mesmas coisas ruins também.
Porque ela não conheceu a fundo a história de Lourdes. Volto a cogitar.
Eu não o culpo por pensa que sou uma prostituta, se alguém passasse agora e me visse nesse lugar pensaria o mesmo.
__ Não, estou aqui para diária como camareira, vim por indicação da Lourdes. __ Respondi séria.
__ A puta aposentada? __ O outro perguntou saindo de seu lugar. __ Cara, essa mulher é famosa aqui. __ Continua a dizer com um largo sorriso. __ Como ela está?
__ Bem!
__ Terminou a faculdade? Lembro que ela estava estudando... __ Ele parou de andar fazendo uma expressão estranha, como se tivesse tentando lembrar de algo e empertigou-se, fechando o primeiro botão de seu blazer.
Os seguranças a minha frente usavam a típica farda social, calça, blazer, sapatos, gravatas na cor preta e camisa social branca. Pareciam seguros e altivos. Estava claro estarem acostumados com as mulheres que vem aqui em busca de trabalho.
__ Ciências Sociais? __ Perguntei-lhe.
__ Isso!
__ Ela está sim, senhor! Hum! Os senhores podem ver se está tudo certo?
__ Ah, sim! O pedido de Lourdes é uma ordem para mim. __ O entusiasta disse caminhando novamente até a sua mesa, abre um caderno, olha por um instante e depois volta a olhar para mim. __ Aqui! Ana Beatriz, uma diária como camareira, oito horas de relógio.
__ Sim!
__ Ligarei para Cláudia, ela que resolve essas coisas.
Enquanto ele ligava para senhora Cláudia, o rapaz que me atendeu não tirava os olhos de mim, eu não sabia para onde olhar.
__ Você daria uma bela de uma puta. __ Ele diz como se tivesse me elogiando. Ignorei.
Troglodita.
Meu coração voltou a bater forte e eu fiquei com raiva de mim por ser tão medrosa.
Eu não tenho nada contra as putas, mas eu não gosto de ser chamada assim, me parece ofensivo.
Lourdes disse que isso é coisa de minha cabeça, ela ama ser chamada assim.
__ Estamos em uma época muito careta, qualquer palavra que falamos torna-se ofensa para os mimizentos. Sou puta, uma filha puta, um dia serei mãe, avó e não deixarei de ser uma puta. __ Ela disse toda orgulhosa em uma conversa que tivemos um dia desses.
Eu não sabia o que dizer, não fui ensinada assim. Aprendi que putas são mulheres prostitutas, que faz relações sexuais por dinheiro, não tem pudor, meretrizes. Eu não sou assim, nunca me vi assim!
Contudo, você também nunca imaginou que aceitaria conselhos de uma. A minha mente me lembra.
O homem ainda me olhava como se fosse um pedaço de carne, talvez esperando uma resposta. Ele estava para falar algo, mas o grande portão ao lado foi acionado, olhei para trás e vi um carro chegando.
__ É o tal ricaço, Lucas, avisa logo a Cláudia.
__ Porra, espero que hoje não tenha confusão. __ O que falava ao telefone, que sei agora se chamar Lucas, esbravejou.
O carro buzinou assustando a mim e deixando o segurança a minha frente com o olhar amedrontado.
__ SAI DA FRENTE, MENINA. __ Gritou me deixando mais assustada ainda. __ Pensa que ele está buzinando para quem? Para mim? __ Diz com grosseria. Dou um passo para o lado, quase entrando no cubículo que o tal do Lucas estar.
__ Ata, desculpa. __ Respondi nervosa. Mas o idiota me ignorou completamente, só olhava para o carro que parecia andar em câmera lenta.
O carro passou por mim com as janelas fechadas, ele é todo escuro, não se podia ver nada do outro lado. Meu corpo voltou a se arrepiar, isso tem acontecido muito, mas não é uma sensação nada boa.
Seja quem for que está lá dentro, não seria uma boa pessoa. Pela forma que os dois agiram.
__ Você tem sorte! __ O segurança disse tirando-me de meus devaneios.
__ O que disse?
__ Você tem sorte de não ser uma puta, na mão desse aí, você sofreria. __ Voltei a me arrepiar da cabeça aos pés.
O que ele quer dizer com isso? Fiquei preocupada.
__ O que o senhor... __ Eu estava para perguntar, mas fui impedida pela voz do tal do Lucas.
__ Ana Beatriz, Cláudia mandou você entrar e encontrar com ela em sua sala. Entra por aqui mesmo. __ Ele apontou para garagem.
O quê? Se eu encontrar o tal carro? Pior, se eu encontrar o dono dele?
__ Vire à esquerda, você entrará por um corredor largo, segue reto que no final é a sala da gerência. __ Ele finalizou alheio às minhas preocupações.
__ Tá esperando o quê menina? __ O grosso volta a se manifestar.
__ Deixa a menina Genilson.
Genilson? Um nome feio para um homem feio.
Genilson é um homem branco, baixo, gordo e calvo, já o Lucas não era tão ruim, negão, alto, careca e forte, mas o problema é que ele é forte demais e não me atrai homens assim.
Ignorei o tal do Genilson, olhei para Lucas e sussurrei um obrigada. Respirei fundo e seguir o meu caminho.
Demorou um pouco até eu encontrar a sala que o segurança havia falado. Virei à esquerda, logo encontrei o corredor largo que ele disse, seguir reto, mas o corredor parecia que não tinha fim.
- Puta que pariu. - Esbravejei baixo parando por alguns segundos. Minhas pernas queimavam de um jeito absurdo. - Como trabalharei 08h00 de relógio assim?
Trabalhando. Penso.
-Você não tem escolha, Ana Beatriz! Você não tem escolha. - Murmurei. Mesmo não querendo, o ressentimento estava lá em minha voz.
Eu não me arrependo de ter deixado meus planos ou a mim mesmo de lado pelo meu irmão, Levi. Longe disso, ele não tem culpa. Mas, não consigo deixar de ficar triste por tudo que estamos vivendo.
Respiro profundamente com um pesar no peito e volto a caminhar, sentindo como se estivesse levando o mundo nas costas.
Após andar por quase cinco minutos, cheguei em frente a duas salas.
Isso ele não me contou.
Olhei para a sala da esquerda e estava escrito novamente em letras de imprensa "COORDENAÇÃO", olho para a sala da direita e vejo escrito "GERÊNCIA DO PROSTÍBULO". Parecia uma piada ler algo assim.
Eu poderia rir se a porta da gerência não se abrisse de repente e uma loira de meia-idade toda elegante, usando um conjunto de terno tubo listrado preto e branco aparecesse em minha frente.
-Até que enfim, pensei que você havia se perdido. - A sua voz não era de uma pessoa chateada, mas sei lá, eu não a conheço, por isso, sem querer, fico na defensiva.
- Desculpa, eu não imaginei que o corredor fosse tão longo. - Logo que falei isso, me arrependi.
Ela pode pensar que estou dando desculpas. Cogitei com raiva de mim em ter dado essa mancada. Mas, ela apenas sorriu com diversão no olhar. Quase respirei aliviada.
- É, nem me fale. Entre, conversaremos um pouco... Beatriz, não é?
- Sim, Ana Beatriz. - Respondo entrando na sala. - É um prazer conhecê-la, senhora Cláudia. A Lourdes me contou muito sobre a senhora.
- Lourdes aquela linguaruda. - Rir ao dizer. - Sente-se querida.
A sala era bem estreita, mas confortável, só havia uma estante de livros com poucos livros disposto na mesma e a mesa de escritório com duas cadeiras.
- Senhora Cláudia, a Lourdes me explicou um pouco sobre o trabalho que farei aqui...
- Ela explicou serem apenas diárias? - Afirmei com a cabeça. - A menos que queira mudar de profissão. Você é linda, gostosa.
Onde é que ela está vendo isso? Questionei-me envergonhada.
- cheia de carne.
Nisso ela tem razão! Torno a pensar escondendo minha insatisfação com esse detalhe sobre meu corpo.
- Do jeito que os homens aqui gostam. - Arregalei os meus olhos, assustada com suas palavras.
- Senhora, eu...
- Calma menina, quem olha esse nervosismo todo pensa até que você é virgem. _l- Voltei a arregalar meus olhos. - Ah! Não acredito! __ Ela exclamou surpresa. - Não me diga que você realmente é virgem. - A senhora começou a rir de mim a ponto de perder o fôlego.
Como ela chegou a essa conclusão? Não falei nada.
- Você não sabe nem disfarçar. - Diz com ironia no tom de sua voz. - Não me diga que decidiu esperar? - Questionou-me rindo.
- Eu...
Eu nem sabia o que falar, a vontade que eu tinha era em ser grosseira, dizer-lhe em alto e bom som um não te interessa, mas estou precisando do serviço, então não podia fazer isso.
Nunca que imaginei que seria motivo de riso de alguém só porque sou virgem.
Puta que pariu, devia era ter ficado calada.
- Isso nunca foi a minha preocupação, senhora. - Respondo me sentindo ofendida e envergonhada em simultâneo, pois a mesma ainda esperava uma resposta minha.
- Calma querida, não estou debochando de você, estou rindo porque achei graça essa situação.
- Situação? Não entendi! - Retruquei sincera.
- Nesse instante um dos clientes me pediu uma virgem e você aparece. Ele quer pagar meio milhão, topa?
- Eu não! - Respondi rápido a fazendo rir mais uma vez. - Vim trabalhar de camareira, apenas. Ela estava para me responder alguma coisa, mas alguém bate a porta a impedindo e eu respiro aliviada.
- Entre! - Ela avisou com sorriso na voz. Provavelmente rindo de mim por dentro. A porta se abriu e ela olhou em direção da mesma. - Diga Carla. - Olho em direção a porta. A mulher por nome Carla parecia está cansada e assustada.
Ela aparentava ser um pouco mais velha que a senhora Cláudia, seu cabelo loiro estava cortado em chanel, ela não parecia se importar com roupas, usava calças, jeans surrada e uma blusa de malha na cor preta, com alças tão finas que poderiam se partir a qualquer momento, e um decote tão aberto que deixavam metade de seus seios amostra.
Encarei a tal da Carla por alguns segundos, a cumprimentei com um sorriso e voltei a olhar para frente. Constrangida, foquei os meus olhos em dona Cláudia outra vez.
- Senhora, ele chegou e quer falar com a senhora. - Ao ouvir as palavras o sorriso da senhora Cláudia morreu na hora.
Uma coisa que sou boa é ler as expressões das pessoas, seja lá quem for esse cara a deixou bastante aborrecida.
- Agora?
- Sim! Com urgência.
- Ok, já estou indo. - A senhora Cláudia balançou a cabeça em negativo e se levantou visivelmente irritada. - Beatriz, me aguarde uns instantes que já volto.
- Sim, senhora!
- Senhora? Melhore, viu? - Volta a rir e sai da sala ainda com o semblante aborrecido.
Assim que ela saiu com a moça chamada Carla, voltei a respirar aliviada.
Minha mãe nunca que me deixaria trabalhar aqui, nunca. Suponho que por isso a voz em minha cabeça tema em dizer ser errado. Agora, se essa voz colocasse comida na mesa para me alimentar e alimentar meu irmão, eu já teria escutado ela.
O tempo foi passando lentamente e nada da senhora Cláudia voltar. Tirei meu celular da bolsa e olhei as horas. Já era um pouco mais de uma da manhã.
Será que ela não vai me deixar trabalhar hoje?
- Meu Deus! Como voltarei para casa? Andando eu não terei condições. - Gemi angustiada com meus pensamentos negativos.
- Me perdoe pela demora Beatriz, voltei. - Dona Cláudia surge vindo de trás da estante de livro que só agora notei ser uma porta falsa. Quase pulo da cadeira pelo susto.
- Misericórdia dona Cláudia, quase morri do coração.
- Ô querida, desculpa, não foi a minha intenção te assustar. Só quis usar um atalho, não imaginei que te assustaria. Vim da cozinha e quando venho de lá para minha sala, uso esse atalho.
As palavras dela pareciam uma desculpa de última hora e me fez cogitar se a saída dela não foi uma estratégia para ela me testar, talvez julgando que eu fosse roubá-la.
Atrás da mesa dela tem um vidro enorme. Pode ser um espelho falso, em minha faculdade tem, então não duvido nada que aqui também possa ter. Minha mente fica cheia de ideias.
Ignorando os meus pensamentos, limpei a minha garganta, esperei dona Cláudia se acomodar em seu assento, só então voltei a falar.
- A senhora está bem? Parece nervosa.
- Estou sim, não se preocupe.
- Senho... Dona Cláudia?
- Sim?
- Desculpa a pergunta, mas quero muito saber se a senhora irar querer os meus serviços hoje?
- Por quê? Não poderá ficar?
- Pelo contrário, preciso e muito dessa diária.
- Quero sim! __ Ela volta a sorrir. - Contudo, antes quero conhecê-la. Já sei que você é virgem, quero saber o resto. - Sorriu envergonhada não sabendo onde enfiar a cara.
- O que a senhora quer saber? - A questiono limpando a garganta outra vez.
- Tudo! - Ergo as minhas sobrancelhas.
Nunca vi isso, estou fazendo uma entrevista em uma casa de prostituição e ainda tenho que contar a minha vida toda...
Aff!
- A senhora precisará perguntar, não tenho muito o que contar. - Aviso.
Sou péssima quando se trata de falar sobre mim.
- Comece me contando a sua idade e como conheceu a Lourdes.
- Ah! Sim... Bem, tenho vinte e quatro anos...
- Novinha ainda. - Ela diz recostando em sua cadeira me encarando pensativa. Ignorando a vontade de desviar os olhos, voltei a falar.
- Eu e a Lourdes fazemos aula na mesma faculdade, na UFBA. Ela Ciências Sociais e eu fisioterapia. - Entortei a boca escondendo a minha contrariedade.
- Não gosta do que faz?
- Como assim?
- Não quer ser fisioterapeuta?
- Para dizer a verdade, eu quero mesmo é estudar moda, quem sabe um dia focar na moda plus size. Observo o empenho da indústria têxtil diante a inclusão de pessoas gordas na moda, contudo, há um longo caminho a ser trilhado. Espero um dia trilhar-lo.
- Por que não faz?
Sério que ela me fez essa pergunta? Não é óbvio?
- Porque não tinha essa opção de curso quando concorri a bolsa pelo Sisu.
E como uma pessoa que nem tem condições em comprar roupas decentes fará moda? Questionei-me em pensamento.
Quero ser uma, "design", ditar a moda, criar roupas que todos queiram usar, mas parece um sonho tão grande para mim.
Sim, eu poderia começar costurando, colocando meus desenhos em prática, mas tecido está caro, eu não tenho condições e Mainha nunca tinha o suficiente, então deixei esse sonho de lado.
- Ah! Você fez pelo Enem.
- Sim, não tenho condições de pagar uma faculdade. - Digo com pesar.
- Entendo! - Ela fica em silêncio e eu me sinto no dever de quebrar o silêncio constrangedor que se formou entre nós.
- Eu e Lourdes fazemos... Quero dizer, fazíamos a aula de saúde pública juntas, no início eu e ela nos sentíamos deslocadas, ela por ser a mais velha e eu por ser a única negra cotista na sala. Nós meio que criamos uma proximidade e ficamos amigas. Ela só me contou ser uma... - Calo-me sem saber como continuar.
- Uma puta aposentada? Não tenha vergonha em falar Beatriz, a Lourdes não tem.
- Sei disso, ela sempre falava abertamente, mas confesso que no início pensei que fosse brincadeira dela. - Rir ao lembrar de minha cara quando ela afirmou ser verdade. - Eu nem acreditei de início. - Confessei ainda sorrindo.
- Imagino. - Ela rir também. - Mas, me diga, você realizar as diárias aqui, não vão te atrapalhar nos estudos?
- Não, eu tranquei, estou no último ano, talvez consiga terminar ano que vem. - Eu nem acreditava em minhas palavras, sinto que nunca mais estudarei.
- Mas porque isso menina?
- Perdi a minha mãe a seis meses, ela tinha câncer, fiquei com a guarda de meu irmão, ele só tem nove anos, meu pai também é falecido, então fiquei com a responsabilidade de cuidar dele e da casa. Serviço está difícil, não sei mais o que fazer, então falei com a Lourdes e pedir ajuda.
- Você queria trabalhar como puta? - Afirmei com a cabeça, sentindo-me sem graça e ela me olhou surpresa.
- Mas a Lourdes disse que antes eu poderia tentar outra coisa, talvez limpeza, ou camareira. Admito que fiquei bastante aliviada. Eu sempre fui uma menina centrada nos estudos, nunca fui de me importar com sexo, minha mãe dizia: Bea, só abra as pernas para um homem que te faça se arrepiar da cabeça aos pés, se te fazer arrepiar, pode te fazer gozar. Nunca encontrei essa pessoa, então não liguei muito.
E ainda não ligo.
Porém, isso não digo em voz alta, ela não precisa saber que tenho uma baixa auto estima que só fez piorar no decorrer dos anos, às vezes eu me sinto uma mulher assexuada, não sinto atração por ninguém, nem mesmo me tocando sinto algo.
Só pode ter algo errado em mim, só pode! Mas, dona Cláudia não precisa saber disso também.
- Você cogitou em se entregar por dinheiro? - A voz dela me traz de volta a realidade.
- Isso vai contra tudo que a minha mãe me ensinou, mas pelo meu irmão, eu faria, ele é mais importante que qualquer coisa.
- Você é tão novinha, querida, deveria estar estudando, curtindo, transando muito por aí.
- Eu não sou assim dona Cláudia, sou careta demais, não sei flertar. Acredito que me perdi no tempo, perdi meu tempo de juventude.
- Credo, garota, você fala como se fosse uma velha. - Riu sabendo que ela está certa.
- Agora sou mãe dona Cláudia, irmã e mãe.
- Isso não quer dizer que você tem que se descuidar. Acredite, você ainda pode fazer a faculdade que quer, conhecer alguém e ainda cuidar de seu irmão, positividade sempre. - Diz levantando às duas mãos para o céu e rindo.
Diferente de mim, ela age mais como jovem do que eu.
- Ultimamente não tenho sido muito positiva, a realidade me pegou em cheio.
- Otimismo é tudo! Agora chega desse negativismo, ficarei de olho em meus contatos, se eu souber de algum emprego te digo.
- A senhora faria isso? - Perguntei com um largo sorriso surpresa por suas palavras. Sorrir com alívio pela primeira vez após meses.
- Claro, gostei muito de você! Agora venha, ela se levanta e eu a imito. - Vou te mostrar o lugar. - Afirmei. - Hoje quero que você apenas limpe às duas suítes principais.
- E como faço quando os clientes tentarem algo comigo? - Perguntei não escondendo o meu medo.
- Eles são avisados para não tocar nas domésticas daqui.
- E eles o fazem?
- Às vezes eles tentam algo, mas se acontecer você chuta as bolas dele e me avisa para eu tomar providências.
- Certo, farei isso!
- Olhe, às duas suítes serão ocupadas hoje, mas os cavaleiros vão demorar um pouco, estão em uma reunião muito importante. Um deles é muito exigente, gosta de tudo certo, então você limpa o quarto dele primeiro.
- Certo! Hum! Aqui também é hotel?
- Mais ou menos, a maioria dos clientes vem, faz a putaria e vai embora, mas os senhores, os clientes em questão, às vezes gostam de marcar suas reuniões de negócio aqui, então quando isso acontece, ele pede o local só para ele e seus acompanhantes. Ele sempre paga muito bem, muito bem mesmo.
- Ele deve ser bem rico. - Comentei acompanhando ela que saia pela porta que entramos a pouco.
O cara deve ser um velho gordo e asqueroso. Penso não freando a minha cara de nojo. Ainda bem que dona Cláudia está andando na frente e não viu.
- Rico? Esse homem transborda dinheiro. - Ela para de andar e me fita. - Um gostoso que transborda dinheiro.
Sei! Volto a pensar não acreditando nas palavras dela. Ela parece exagerar um pouco... Sei lá.
- Qualquer dúvida você me fala, tudo bem?
- Sim, senho... - Ela me encara séria e eu me calo. - Desculpa, esqueço. - Sorriu envergonhada pela quinta, décima vez? Nem sei mais. - Agradeço dona Cláudia, pela oportunidade.
- Por nada menina, te ajudarei no que eu puder.
Quando Lourdes me contou sobre dona Cláudia, avisou que ela é uma ótima pessoa, eu fiquei na dúvida, acredito que pelo preconceito de ela ser uma espécie de cafetina e eu assisto a muitos filmes para tirar a conclusão que essas pessoas são más, contudo paguei com a minha língua, ela não me parece uma má pessoa.
Tirando a parte que ela riu de mim por ser virgem, não tenho do que reclamar.
Ela prometeu tentar me ajudar e eu acredito, acredito de verdade, mesmo que ela não consiga fazer muito por mim.
Afirmei com a cabeça para dona Cláudia e sorriu aliviada, sabendo que no outro dia teria dinheiro para comprar algo para Levi comer. Só esse pensamento renovou todas as minhas forças.