Levanto do chão e arrumo meu lençol e boto na minha mochila junto com meu pequeno travesseiro. Não é tão ruim dormir na rua não quando se tem uma família que te trata feito lixo e para piorar te vende para alguém.
Prefiro nem tocar nesse assunto, não agora. Preciso chegar até minha irmã, para pedir ajuda e se possível um teto para morar, estou faminta. Comer somente pão com água não me enche.
Passei umas duas semanas planejando minha fuga, minha única oportunidade era na ida para o curso de inglês. Como usava apenas uma mochila, deu para trazer apenas pães todos amassados.
Graças a Deus deu tudo certo, e hoje pagarei o ônibus que me levará até Chicago onde minha está morando. A ansiedade é grande, faz 2 anos que não a vejo.
- Quer carona? - estava esperando um táxi, não paguei lugar para dormir para ter que andar.
O rapaz está numa moto simples, e parece gente boa. Mas é melhor não arriscar.
- Não, obrigado!
- Não lhe farei mal algum, moça. Sou do bem.
- É típico as pessoas falarem isso. Cara eu não quero carona.
- Tudo bem! Boa sorte.
Sorriu com os lábios fechados. Ouço alguém chamar meu nome e fico olhando para os lado em busca de saber, olho para trás e mim deparo com o idiota que pensa que é meu dono.
- Moço, eu aceito a carona - bato no braço do rapaz que por sorte ainda estava ali, o sinal ainda estava fechado.
Se ele for maluco, saberei lidar com ele. Mas com esse que está se aproximando, com certeza quero distância.
- Será que dá para você ir logo?
- O sinal ainda está fechado..
O sinal abre, e respiro aliviada.
- Acelera, cara! - digo aflita diante da sua lerdeza.
Ele acelerou, olhei para trás e mostrei um cotoco para Renner o palhaço da cidade (risos). O cara sabe ser sem graça.
- Para onde você irá?
Penso.
- Não lembro o nome, sei que preciso pegar um ônibus.
- Ok...
Melhor confiar num estranho as vezes do que em alguém que já conhecemos. As pessoas próximas têm mais facilidade em te machucar. Desde de que Mayara foi embora as coisas pioraram para meu lado, quando ainda tinha 10 anos era obrigada a lavar roupa fazer faxina. Mayara quase não ficava em casa, desde de nova trabalhava ela não desconfiava de nada que acontecia comigo e eu não podia falar. Mamãe nunca teve muita afeição por mim, e hoje em dia nem ligo para mim tanto faz.
- Entregue!
Para a moto,e olho em volta onde estavam os ônibus parados.
- Valeu cara! - sorriu. - Obrigado por me salvar.
- Salvar do que?
- De andar até aqui! - disfarçou.
- Não precisa agradecer, bom eu tenho que ir. Se cuida menina - beija minha mão.
Aceno com a cabeça, sempre lembrarei desse rapaz por sua gentileza. Vivemos num mundo onde existem tantas pessoas ruins que às vezes julgamos errados quem não é.
[...]
Finalmente dentro do ônibus, na cadeira que é bem confortável perto do chão que dormi. Acredito que coisas boas aconteceram e que tudo ficará bem, Não terei que voltar para aquele lugar que deveria ser minha paz.
Dizem que viajar de ônibus é cansativo, para mim foi bem produtivo. Passei a maior parte do tempo dormindo. Assim não sentir fome durante o percurso, minhas costas doem um pouco mas nada que eu não esteja acostumada
Saiu do ônibus e vou logo para fora da rodovia, não era preciso pegar mala alguma já que eu só tenho minha mochila. O que preciso fazer agora é chegar até a casa da minha irmã, estou cheia de saudades dela.
Tiro da minha bolsa o endereço dela que consegui falar com ela escondido. Toda vez que ela ligava l, eles inventavam uma desculpa só para eu não conversar com ela, acho que por medo de abrir a boca e contar a verdade de tudo que acontecia. Não pretendo abrir o jogo para Mayara, não quero causar problema para ela, aquela família é louca.
Chicago é bem diferente do que eu imaginava, pensei em uma cidade cheia de tiras da pesada ou sei lá, coisas perigosas. Mas tudo que vejo são pessoas bem vestidas e metidas que me olham dos pés à cabeça, vontade de dar uma voadora. Acho que assisti muita série e acabei idealizando Chicago como perigo.
Pego um táxi e dou o endereço para ele, que fala algo que não entendo. O carro entra em movimento e aproveito para admirar os altos prédios arranhando o céu. Isso tudo é demais, agora entendo a euforia de Mayara para vim morar para cá.
O carro para na frente de um portão, o homem fala e dessa vez entendo. Ele diz que aqui é o condomínio, pago ele e saiu. Fico olhando para o portão, que parece a entrada de um castelo.
Deve ser o olho da cara morar num lugar feito esse. Eu em.
Chego com o homem que deve ser o porteiro.
- Bom dia tio! Deixa eu entrar aí.
- Bom dia mocinha! Aqui é lugar particular, não posso deixá-la entrar a não ser que tenha autorização.
- Minha irmã mora aí.
- Como é o nome da sua irmã?
- Mayara!
- Do que?
Franzo a testa.
- Do que, o que? O nome dela é Mayara.
- O sobrenome, menina! - rir de mim.
- Ah sim! É Mayara Alves - devo estar vermelha, o cara fica rindo, espero que ele pare se não irei bater nele.
- Oh! Claro. Mayara por isso a semelhança. Eu irei ligar para lá, reze para que ela atenda, geralmente quando o sr Marlon está, ela não atende.
- Não sabia que minha irmã tinha um cachorro.
O homem volta a rir e já estou ficando irritada.
- Não é um cachorro é o....
O homem para de falar e aperta no botão para abrir o portão para um carro que parece bem caro. Aproveito o embalo para entrar.
- Ainda não tem autorização moça.
- Que droga! Já disse que minha irmã mora aí, você já comprovou isso. Não me faça bater em você....
- May? - um homem sai do carro e fala meu nome. Me viro para ele.
- Eu, porque? - nunca vi esse cara, como ele sabe meu nome.
- Sou o namorado da sua irmã.
- Você que é o cachorro da minha irmã?- franzir ainda mais a testa sem entender nada.
- Que história é essa? - parece não ter gostado.
- Senhor! Ela não entendeu o que falei, ela quer entrar, disse que é irmã da senhora Mayara.
Explica o porteiro.
- Porque está suando, Você está bem? - pergunto para ele que está com uma cara estranha.
- Não precisa se explicar, Manoel!
O cara do carro fica me olhando e pega o celular.
- Amor, você esqueceu o seu relógio de novo - ouço aquela voz que cantava todas as noites para mim dormir.
- Mayara!! - a chamo, ela vira para mim, e logo me reconhece seus olhos enchem de lágrimas.
- May, minha princesinha!!
Corre e me abraça apertado, eu não aguento e começo a chorar também. É tão bom ser abraçada por quem amamos, meu coração está transbordando de alegria.
- Como você chegou até aqui? Fizeram alguma coisa com você?
- Eu vim de ônibus e cheguei até aqui de táxi. E agora eu estou bem.
Ela toca meu rosto, meu cabelo e passa as mãos em meus braços, é como se ela estivesse procurando algum machucado.
- Você está tão grande, está uma linda mulher - beija minhas mãos. - Me perdoa por não ter a trago comigo.
Se lamenta, seu rosto já se encontra vermelho pelo choro.
- Tudo bem pimentão! Já que você não foi a até mim, eu vim até você. Espero não incomodá-los muito.
Olho para o homem que é namorado da minha irmã. Ele se aproxima de Mayara e até que fazem um casal bonito, bem que minha irmã é mais linda.
- Na verdade, hoje mesmo iríamos buscar você - limpa as lágrimas.
- Sério? - sorriu boba.
- Sim, havia conversado com Marlon para que ficasse junto com a gente. E ele aceitou.
- Acho que não é uma boa ideia.
- Porque não, May?
- Não quero ouvir os sons estranhos de sexo de vocês não - cruso os braços.
Mayara fica vermelha, e meu cunhado rir discretamente.
- Quanto a isso não se preocupe, eu tenho uns métodos que abafam os gritos dela - fala cinicamente, e Mayara cutuca ele.
Eu faço cara de nojo, eu sei muitas coisas sobre sexo pelo menos a parte que o homem bota o negócio dele no negoçado da mulher. Isso é muito.
- Você ficará conosco e pronto May. Não quero passar mais nenhum minuto longe de você.
Ela me abraça novamente, e me apresenta a Marlon o cara que é importante na cidade. Ele teve que sair para ir para sua empresa, o que dei graças a Deus. Entramos no condomínio que é o maior luxo.
- Quem banca tudo isso? - pergunto assim que entramos na casa onde ela mora.
- Marlon. Eu particularmente não gosto, mas ele é muito chato em questão de moradia e segurança.
- Gente rica é cheia de frescuras - reviro os olhos.
- Sentir tanta falta de você, do seu jeito espontâneo. Quero cuidar novamente de você, você acabou o curso?
Não quero contar que tive que parar, e que o dinheiro que estava mandando estava servindo para as vaidades e bebidas da mamãe com papai.
- Sim, acabei! - odeio mentir.
- Melhor ligar para mamãe, para dizer que chegou bem.
- NÃO! - Mayara me olha assustada. - Quer dizer agora não, ela está no trabalho ainda.
- Então vamos comer, e depois iremos passear um pouco para conhecer melhor esse lugar.
- Está trabalhando no que, mana? - pergunto enquanto como minha panqueca.
- Não estou trabalhando. É..é uma longa história.
Sorrir amarelo. Alguma coisa aconteceu, ela esconde algo. Prefiro mudar de assunto.
- Você conseguiu superar a mamãe Glória - elogio.
Acabamos de comer.
- Quanto tempo faz que está com Marlon?
- Um ano e meio - sorrir apaixonada.
- Se dá bem com a família dele?
- Sim! Sim!. Todos são um amor, exceto Miguel.
- Quem é esse, ele não gosta de você?
- Ele gosta de mim, quero dizer não no termo "não é um amor" porque ele é sério demais e até me dá medo dele -
rir. - Mas ele é boa pessoa quando quer.
- Seu namorado também é sério, tem cara de pitbull.
- Não fala isso perto dele - gargalha. - Você irá gostar da irmã deles, acredito que do Miguel também.
Sorri maliciosa, e eu mostro cotoco para ela.
Deus me livre de namoro.
O Rio Chicago
Pensar que nesse imenso Rio foi local que recebia lixo e outros descartáveis, corta o coração. Mas quem ver agora a maravilha deste lugar agradável para relaxar.
O sol e o vento. Gosto dessa sensação de liberdade. Aqui consigo pensar somente em coisas boas, pensamentos ruins não conseguem me atingir.
- Você está gostando? - Mayara pergunta.
- Estou Adorando, tudo isso - respondo alegre.
- Realmente não aconteceu nada lá em casa? - ela tinha que tocar nesse assunto.
- Não estou afim de falar sobre isso, Mayara - mudo meu tom.
- Só quero saber, caso tenha acontecido algo - balanço a cabeça. - Tudo bem! Vamos apenas aproveitar o passeio.
Preciso seguir meu próprio caminho, sei que aqui ainda estou correndo perigo. Mamãe a qualquer momento irá ligar para Mayara para informar sobre meu sumiço, e ela dirá onde estou.
Nunca irei me sujeitar a alguém do jeito que aquele homem quer, jamais. Estou decidida a fugir novamente, quando souber onde estou, o que não demorará muito.
Talvez devesse inventar que ele é um doente, que tentou me estuprar ou sei lá alguma coisa. Não estarei mentindo, já que num miserável dia acordei com peso em cima de mim, para meu desespero era ele quem estava.
Na minha "linda" família tem aquela coisa ainda de quando se perde a virgindade com um homem, você será sempre somente dele. Acredite não é algo religioso e sim doentio.Como seria nos dias de hoje se todos adotassem essa "doutrina".
Não acho errado, casar virgem. O questionamento é da escolha que não temos, de ficar com alguém que gostamos. Nossos pais são quem escolhem. Renner tentou de diversas formas me ter a força, só para não haver escapatória para mim. Quando engano o dele, mesmo se tivesse conseguido me estuprar, fugiria ou pior seria capaz de cortar seu pinto.
Sinto nojo só de lembrar.
- Porque está fazendo essa cara de quem comeu limão azedo? - Mayara bate na minha costa.
- Estava lembrando de um cachorro que foi atropelado na frente de casa.
O cachorro nojento vira lata, Renner.
- Ele morreu, tinha dono? - Mayara é um pouco emotiva.
- Se ele morreu eu não sei, e quanto se ele tinha dono, não deu tempo de perguntar para ele - Mayara me olha confusa.
- Porque cachorro não fala sua panga - bato na sua testa.
Ela começa rir feito condenada, parece uma hiena querendo dar o bo....
- Menina doida! - fala ainda rindo.
- Você que é, eu em! - amarro meu cabelo, desleixada minha correntinha cai na água.
- Aaa não!!
- O que foi?
- Minha correntinha, não posso perder ela.
- É só uma corrente, compro outra pra você.
- Não é só uma corrente Mayara, é a MINHA correntinha que ganhei da vovó.
Mayara nada diz, tenta com o remo pegar ela, meu couro cabeludo pinica em agonia. Estranhamente ela não submergiu, somente estava sendo levada pelo balanço da água
Não estou reclamando, paizinho do céu.
Droga! Aqui tem muita gente não para a gente passar. Vejo novamente minha correntinha que está próximo a uma canoa, ou sabe se lá o que é aquilo, parece o Titanic em versão pequena.
- Ei! Ei! EI! - falo mais alto para o bobão que está falando no seu celular, e a namorada está que nem besta olhando para o horizonte, se fosse eu já tinha batido nele pelo desrespeito de deixar ela "sozinha".
O bobão finalmente me olha e faltou me fazer xixi na calsinha, que homem sem plástica (zoando) ele é muito bonito, seu cabelo se move com o soprar do vento e parece estar num ensaio fotográfico ou no filme com Brad Pitt (não sei se é assim).
- Até aqui os mendigos, perturbam - mesmo falando baixo consigo ouvir o que esse cretino falou
- Oh Latrell versão branca e sem graça, não vim pedir esmola. Seu mané.
Digo irritada, pessoas desse tipo dão uma pena.
O bobão fica me olhando, parece inacreditável o que falei para ele. Tô nem aí que se exploda esse rostinho lindo de quen.
- Você é algum tipo de atração por aqui? Uma palhaça. Não irei te pagar por sua piada ridícula.
- Seu jumento! Sr jumento - mostro língua para ele.
Ele franze a testa e não diz nada só me encara, começo a ficar um pouco constrangida por seu olhar estranho sobre mim. Olho para água e ele também, o filho da mãe pega minha correntinha, fico com esperança dele me entregar.
- Que linda correntinha - fala olhando para mim, como se sua frase fosse para mim e não para corrente.
- Você poderia me dar - peço.
- O que ruivinha?
- Minha corrente - reviro os olhos por seu apelidinho.
- Ah! Ela é sua? Não irei lhe dar - fecha as mãos.
- Me dê seu idiota!
- Ah, garotinha! - seu tom é baixo.
O olho intrigada e com um pouco de esperança. Vovó me deu ela quando criança, antes de morrer pediu para que eu cuidasse dela. Pois assim como ela, através dessa correntinha também encontraria meu verdadeiro amor.
Isso é bobagem "verdadeiro amor" vovô no começo do relacionamento espancava minha vó, e só veio ficar um docinho depois de velho. E eu não quero isso para mim.
Vejo de relance o otário jogar longe minha correntinha. Pelo menos foi o que pareceu.
- SEU BABACA! - grito. Ele abre um sorriso que acharia lindo se não viesse desse sujeito. - Vou te matar, seu filho de cruz credo!
- Calma, May! - Mayara puxa meu braço, nem parecia que ela estava aqui até uns minutos atrás.
- Não me admiro que você conheça essa selvagem, Srta Alves! - eles se conhecem.
- Desculpa...
- Desculpa é o caramba, eu quero.minha correntinha seu porco.
- O rio a engoliu, ruivinha - ainda tá rindo. - Reclame com ele.
Minha paciência com esse mauricinho foi para o além. Olho para dentro da canoa e vejo um balde médio. Tenho uma brilhante ideia.
- MAS O QUE! - fala alterado quando com muita classe lhe jogo a água gelada que estava dentro do balde.
- Para você esfriar um pouco, está muito calor - começo a rir descontroladamente.
- VOCÊ irá se arrepender disso, RUIVA- ameaça, e eu dou de ombros. E começo a dançar.
- Seu namorado é um idiota, moça! -
falo para ela que está na canoa com ele, rindo horrores.
Mayara parece perplexa com a cena. Pego o remo dela e começo a nos afastar deles. Olho para trás e o ogro ainda olha para mim.
******
Quando chegamos perto da ponte, saímos de dentro e começamos a andar. E até agora Mayara nada disse.
- Tem noção do que fez? - porque fui falar.
- Foi pouco.
- As coisas não se resolvem assim, May.
- Vai falar isso para aquele homem, que jogou minha única herança no mar - ela se cala. - Porque defende esse urubu?
- Ele é meu cunhado May - paro de andar. - Ele é o Miguel Lombardo!
Por essa eu não esperava. Não mesmo.
- Posso fazer mas nada, e não tenho com o que me preocupar não sou nada dele.
- Você não tem nada e nem é nada dele, mas eu sou o que acaba sendo algo para ele.
Dou de ombros, fazendo pouco caso.
- Faria de novo e de novo.
Mayara não aguenta e começa a rir.
- Se prepare, acabou de declarar guerra ao Rei de Chicago - bate no meu ombro.
- Como se eu ainda fosse ver esse brucutu - reviro os olhos.
- Amanhã..
- Quê?
- Iremos jantar, com os Lombardo.
Aaaaaaaaaaaaaa! NÃO!!!!!