Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > MUITO MAIS QUE SONHOS
MUITO MAIS QUE SONHOS

MUITO MAIS QUE SONHOS

Autor:: Fabi Dias
Gênero: Romance
Iris deseja casar e ter filhos, mas o seu namorado não parece querer a mesma coisa que ela. Depois de sonhar com um homem que nunca viu antes, ela começa a repensar sua vida amorosa. Por que outro homem, que não o seu namorado, anda a perturbar o seu sono? E se não for apenas o seu subconsciente trabalhando em prol de seus maiores desejos? Ela não tem respostas para as suas perguntas, mas não consegue imaginar seus sonhos sem a presença dele. E se ele parar de invadir o seu subconsciente à noite? Angustiada e sem respostas, Íris começa a pintar os seus sonhos numa clara tentativa de tentar entender o que está acontecendo. Ou será para imortalizar um momento tão etéreo? Uma história romântica, sensual e sem explicações lógicas.

Capítulo 1 UM PEDAÇO DO PARAÍSO

Não sei se era o lugar mais lindo do mundo, mas à primeira vista parecia um pedaço do paraíso. Me sentia dentro de uma pintura impressionista. As pinceladas foram generosas nas cores das flores e nos vários tons de verde, desde os que revestiam a grama até os das folhas das árvores mais altas, em tons mais amarelados por conta da iluminação do sol.

Era uma aquarela e eu estava dentro dela. Meu vestido amarelo contrastava com as flores de pétalas tão azuis quanto um céu de verão. Sentia o tecido esvoaçar enquanto eu corria por entre as flores do campo. Parei e olhei para cima, apesar de muitas árvores, eu conseguia ver o céu claro do meio dia e totalmente livre de nuvens.

Só uma coisa estava muito estranha nesse lugar: não havia som algum. Era como se alguém tivesse apertado a tecla mudo do controle remoto da televisão e tudo ficou em suspenso. Eu via os pássaros sobrevoando no céu, as árvores balançando ao sabor do vento e nada de som.

- Tem alguém? - Gritei, mas a minha voz não saiu.

Senti uma presença. Dei uma volta em torno de mim mesma e não vi ninguém em lugar algum, mas tenho certeza que senti que havia mais alguém além de mim naquele lugar. O mais incrível é que eu não tive medo nenhum, pelo contrário, eu sabia que não havia motivos para temer.

Um vento mais vigoroso fez com que as árvores ficassem ainda mais alvoroçadas e enquanto seus galhos se curvavam e algumas folhas se soltavam deles, um perfume chegou até mim, mas não eram aromas herbais, típicos das florestas. Era um perfume marcante, daqueles que fixa, deixa rastros e chega antes mesmo da pessoa.

Eu me senti inebriada com aquele cheiro que penetrou em minhas narinas e alcançou todo o meu corpo. Senti uma vontade imensa de sorrir e logo depois quis chorar de felicidade, mas o vento ficou mais forte, tão forte que as folhas não se soltavam mais das árvores, elas se desmancham e se dissolvem, pingando na grama feito tinta escorrendo pela tela.

Eu tremia de frio e me sentia só de novo, porque o cheiro havia se dissipado e agora era levado para longe de mim. Comecei a esfregar as minhas mãos pelos meus braços arrepiados diante do vento gelado que destoava do clima ameno de minutos atrás. Meus pés estavam úmidos e, ao olhar para baixo, pude ver que a grama também havia se dissolvido e agora uma poça de tinta verde com pequenas rajadas azuis alcançaram os meus tornozelos, me afundando em um mar de cores e abandono.

- Socorro! - tentei gritar e, novamente, o som não sai.

Me debati em desespero, pois agora a poça havia se tornado profunda e a tinta alcançava o meio de minhas coxas, sujando a barra do meu vestido.

- Socorro, por favor, alguém me ajude!

Acordei assustada e tremendo de frio. A sensação de incompletude me invadiu e eu senti uma saudade de algo que nem sabia o que era. Aqueles sentimentos nostálgicos sempre me invadiam depois de alguns sonhos, mas esse, em especial, me deixou muito mais abalada.

As portas duplas que dão para a sacada do meu quarto estão escancaradas. A cortina flutua pelo quarto tal qual um véu de uma noiva em fuga.

Ainda é muito cedo, olhei para o relógio sobre a mesa de cabeceira ao lado da cama e vi que passava só um pouco das cinco da manhã. Apesar do frio, me levantei e fui até as portas pensando em fechá-la, mas desisti ao ver o sol despontando no horizonte e me encaminhei para a sacada, debruçando-me sobre o guarda-corpo de madeira que a margeava.

Eu amo a natureza, a vida pulsante que há em cada uma de suas ações, sejam os ventos tórridos ou a leve brisa, seja o calor de verão ou o frio do inverno. É tudo perfeito, tal qual uma obra de arte, pintada pelas mãos do maior de todos os artistas.

Dali de cima eu tinha uma vista privilegiada de Belo Horizonte. Enquanto o sol despontava por trás da Serra do Curral, eu corria os olhos para admirar as torres da igreja de Nossa Senhora da Conceição de um lado e o cemitério do Bonfim, do outro.

Moro em um dos vários sobrados do bairro de Lagoinha, patrimônio da cidade, mas segundo Rafael, o meu namorado, é apenas um bairro pobre que não combina com o nosso futuro estilo de vida, já que pretendemos nos casar assim que ele terminar a residência.

Só quero ver quando isso vai acontecer, visto que ele nunca faz o pedido de noivado e eu não tenho coragem de tomar a iniciativa, já que, das poucas vezes que toquei no assunto, ele mostrou uma certa resistência.

"Amor, não quero passar anos noivando, então só vamos fazer isso quando eu tiver terminado os estudos, aí a gente casa em seguida."

Paro de contemplar o sol e entro no quarto assim que o despertador toca. Pego as minhas coisas e corro para o banheiro que fica no corredor entre o meu quarto e o de Camila, uma amiga que se tornou minha irmã desde que veio morar comigo.

__________

Desço as escadas de madeira escura e me encaminho para a cozinha, guiada pelo aroma delicioso que se expande por todo o ambiente.

- Hum, já disse que você é a melhor amiga do mundo?

- Para de me tapear que sei que o elogio é só por conta do café.

- Seu café é divino, mas você sabe que te amaria mesmo que fizesse um chafé tipo o meu, né?

Camila veio morar comigo assim que meus pais se mudaram para uma cidade do interior.

Depois que todos os meus irmãos casaram e eu, a caçula, entrei na faculdade, meus pais disseram que iriam cuidar da minha avó que acabara de ficar viúva e nem sonhava em voltar para a cidade grande. O sobrado onde moro hoje foi herança dela e de meu avô, uns dos primeiros a formar o bairro. Eles praticamente construíram a própria casa e hoje durmo no quarto que um dia foi deles, antes de ser dos meus pais. O que posso dizer, sou uma garota da cidade grande, mas gosto de tradições.

- O Rafael saiu bem cedo, mandou dizer que preferia tomar banho em casa antes de ir para o hospital. - Camila me avisa.

- Então foi ele que deixou as portas abertas, acordei congelando de frio.

- Ainda não instalou o ar-condicionado no quarto?

- E nem vou instalar, aquilo não combina com a arquitetura do sobrado, amiga - respondo.

- Estamos em janeiro, Íris, pleno verão, tem gente que morre de calor nessa época.

- Rafael pode muito bem dormir com o ventilador, como sempre fiz. E aqui nem é tão quente assim, isso é frescura dele.

Camila sorri de canto, arqueia as sobrancelhas e eu sei que essas expressões sempre vêm acompanhadas de um mas.

- Vocês divergem sobre quase tudo, né? Quero só ver quando se casarem.

Não a respondi, sei para que lugar aquela conversa vai, porque já aconteceu outras milhões de vezes, apenas sento-me e me delicio do café e bolo de fubá feitos por minha amiga incrivelmente boa na cozinha.

- E João?

- Está dormindo ainda, chegou agora há pouco, hoje os nossos horários não se encontram.

- Vou de bicicleta hoje, pode usar o carro se quiser. Ou então - sorrio, já sabendo a sua resposta. -, pode ir de bike comigo, assim endurece essas coxas.

- Tá me chamando de molenga?

- Eu? Jamais diria isso sobre você, amiga, só chamo de sedentária mesmo.

Camila come uma fatia do bolo e revira os olhos de excitação.

- Eu mando bem na cozinha, né?

Eu aceno em confirmação, já que não podia falar com a boca cheia de mais um pedaço de bolo. Ela sorri orgulhosa de si mesma.

- O que lhe falta em modéstia, lhe sobra em preguiça.

- Eu sei que preciso me exercitar, mas subir todas essas ladeiras na volta do trabalho está fora de cogitação. - Toma o café enquanto olha o relógio. - Eu tenho que ir, vou ficar na UTI com aquele paciente misterioso.

- Ainda não encontraram a família dele?

- Nada, ele estava sem documento no momento do acidente e sobreviveu graças a um milagre.

- Acha que ele vai acordar com sequelas?

- Não faço ideia, mas todos os sinais vitais estão perfeitos e ele tem uma boa resistência física. Pelo corpo bem trabalhado, parece que pratica algum tipo de esporte.

- Olha aí, tá vendo? - sorrio debochada. - Atividade física pode salvar a sua vida um dia.

- Pode me matar também. Viu o caso do cara que morreu na esteira da academia?

- Aff, Camila, vai pegar um caso isolado para justificar sua total falta de vontade de mexer o corpo?

- E quem disse que eu não mexo? Só que faço isso de forma bem mais prazerosa.

Nós duas rimos e logo depois Camila se levanta, colocando os pratos sujos na pia.

- Eu cozinho e você lava.

- É justo.

Camila sobe as escadas indo em direção ao quarto para pegar as suas coisas. Ela é enfermeira, assim como eu. Nos conhecemos na faculdade e foi amor à primeira vista. Camila e eu somos diferentes em muitas coisas, mas nossa amizade se fortaleceu de forma inexplicável. Ela é carioca, veio para Belo Horizonte ao passar no Enem, morava numa república antes de convidá-la a dividir o sobrado comigo. Como é próprio, só temos gastos com os serviços básicos e necessários de qualquer moradia. Foi uma excelente solução para nós duas.

Ela e João se conheceram no hospital onde trabalhamos e agora ele praticamente mora aqui também. Ele é psicólogo e os dois se combinam em quase tudo, até mesmo na aversão a atividade física, ao contrário de mim e Rafael. Eu o conheci ainda na faculdade, eu estava entrando e ele saindo, mas me apaixonei perdidamente por ele. Entre idas e vindas, alguns términos e recomeços, estamos juntos há quase sete anos.

Rafael é de uma família abastada de Itaúna, que fez dinheiro com o minério de ferro. Apesar de seus pais serem pessoas simples, Rafael gosta de ostentar e não abre mão de uma vida de luxo. Sempre tentou me persuadir a morar com ele, só por não aguentar dormir algumas noites no meu bairro, mas não saio de casa sem estar casada e confesso que gosto da minha casa, da minha vista, da minha vida simples.

Levanto-me e lavo os pratos antes de calçar a sapatilha, pegar a minha mochila subir na moutain bike que me levará para o trabalho.

Lagoinha, como muitos bairros históricos, sofre com o abandono e falta de revitalização, ao pedalar pelas ruas eu percebo a degradação de um bairro que faz parte da minha história e envelhece junto comigo. Desço as ladeiras das ruas mal cuidadas e logo chego ao centro, onde encontra-se o hospital em que trabalho.

Perto do hospital há uma galeria e eu passo bem devagar em frente a ela. Meu sonho sempre foi ser artista, mas meus pais diziam que arte não enche barriga, então, eu fui fazer faculdade de enfermagem, porque também amo cuidar das pessoas. Na época da faculdade, passei a pintar por hobby, mas a correia com o trabalho e o TCC que estou fazendo para finalizar a pós graduação tirou até isso de mim.

Agindo por puro impulso, estaciono em frente à galeria e desço da bicicleta. Fico parada por um tempo, só admirando a fachada quando uma atendente veio até mim e me convida a entrar. Ainda tenho quase uma hora antes de começar o meu turno. Por que não?

O pensamento inicial era entrar só para dar uma olhadinha, mas saio de lá com uma dívida razoável no cartão de crédito. Como vim sem carro e não posso levar as telas, pinceis e tintas comigo, ligo para a minha vizinha confirmando a sua presença em casa e peço que eles entreguem tudo na casa ao lado. Essa é uma das vantagens de se morar num bairro antigo onde os vizinhos são tão próximos e acolhedores que tornam-se parte de nossas famílias.

Olho para o relógio e vejo que tenho poucos minutos, subo na bicicleta e corro até a entrada do hospital. Um dos porteiros torce os lábios em reprimenda, mas guarda a minha bicicleta para que eu não me atrase. Corro para a recepção a tempo de bater o ponto.

Mais um dia de trabalho me espera.

Capítulo 2 O PÁSSARO NA JANELA

Pedalo devagar, quase parando, cansada da subida. Agora quero apenas contemplar a paisagem antes de entrar em casa. Paro, deito a bicicleta na calçada e faço o mesmo com o meu corpo exausto. De onde estou, consigo avistar toda a lateral do primeiro andar da minha casa e me assusto ao ver um pássaro se debatendo na janela do banheiro. Seus gritos ecoam por toda a rua.

Como ele entrou ali? Não sei a resposta, mas sinto o seu desespero por liberdade e resolvo entrar em casa para aliviar o sofrimento do pobre, mas antes mesmo de me levantar do chão, ouço gritos de outras aves, milhares delas, e me encanto com o que vejo no céu.

Periquitos jandaias aos montes sobrevoam em círculos antes de pousarem em várias árvores que surgem ao meu redor. De repente, não estou mais em minha rua, mas aquele lugar não me parece desconhecido.

Com o apoio das mãos, ergo o meu tronco do chão e percebo que estou numa floresta, sentada na grama densa e macia. Levanto-me e começo a caminhar pelo lugar. Algumas das aves me seguem, seus sons são ensurdecedores e, por mais que eu acelere o passo até começar a correr, tentando fugir delas, elas sempre me alcançam.

De repente as aves começam a se dissipar até sumir do meu campo de visão. Ouço apenas seus sons ao longe, mas agora são harmoniosos e se misturam com um barulho novo. Paro de correr a tempo de ver que estou na beira de um precipício.

O som da água caindo em cascatas me convida a fechar os olhos e relaxar. Os pássaros cantam ao fundo, a água sussurra em meus ouvidos e uma melodia começa a se formar em meu íntimo. Sinto uma leveza que me acolhe de forma surreal. Será que eu morri e estou no paraíso?

O que é isso?

Me assusto com um estalo atrás de mim. É como se fossem passos sobre gravetos. Tenho receio de olhar, mas não por medo de me assustar e sim pelo imprevisível. Seja lá o que for que me segue, não é ruim, sinto isso.

Subitamente, um perfume toma conta do ambiente. Eu já senti esse cheiro antes, mas onde?

Abraço o meu corpo querendo chorar. Eu quero me virar, quero ver o que ou quem está ali, mas não consigo. O que me impede de olhar? Não há nada me segurando, mas minhas pernas não obedecem a minha vontade. Estou travada no mesmo lugar como quando brincava de estátuas com os meus irmãos, na infância.

"Você não me pega, você não me pega."

Escuto um deles caçoar de mim e meu lado desaforado me estimula a virar, mas me arrependo na hora, pois tenho a cabeça golpeada por uma bola que surge não sei de onde. Olho para a frente e já estou de volta à minha rua, a mesma em que moro desde que nasci.

Minha cabeça dói, levo a mão à testa e mal tenho tempo de alisá-la quando outra bola é jogada em minha direção. De repente são várias bolas, muitas delas, e eu grito:

- Mãe!

Abro os olhos assustada e viro-me para o lado, guiada pelo som do ronco de Rafael. Foi só um sonho, mas o estranho é que parece ter sido no mesmo lugar do sonho que tive semana passada.

Eu, hein!

Levanto-me da cama e me direciono à sacada do meu quarto, que novamente está aberta. Ah, Rafael!

O sol já nasceu, algumas pessoas caminham pelas ruas, provavelmente se dirigindo ao trabalho. Volto para o quarto e olho para o cavalete de pinturas imprensado ao lado da cômoda de mogno. Ele está ali há muito tempo. Comprei as tintas na semana passada, mas não abri nenhuma delas até hoje. Talvez seja o momento de aproveitar o dia de folga para recomeçar a fazer o que tanto amo.

Tento puxar o cavalete, mas ele está bem preso entre a cômoda e a parede, melhor deixar para fazer isso quando Rafael acordar. Olho para o relógio e percebo que ele não demorará a despertar. Hora de fazer um café, dessa vez a minha gênia da cozinha não poderá me salvar.

Dou uma olhada em Rafael antes de sair do quarto. Ele está com o lençol cobrindo apenas parte do seu quadril. Rafael é muito calorento, sempre dorme com pouca ou nenhuma roupa. Admiro o seu abdômen bem trabalhado. Apesar de não gostar de esportes ao ar livre, sempre que tem um tempo, corre para a academia.

Ele se remexe, claro que seu organismo já está se preparando para levantar. Ele é muito disciplinado com o trabalho. Seu rosto bonito arqueia uma das sobrancelhas. Confesso que foi a beleza estonteante que me atraiu até ele. Que homem!

Abaixo o meu corpo, me debruço sobre ele e toco meus lábios nos seus, bem de leve. Não quero acordá-lo antes da hora, mas bem que poderíamos fazer uma atividade na cama antes dele ir para o hospital, pena que a vida real de médico não é que nem nas séries de televisão, onde o povo transa mais do que trabalha. A gente só falta marcar um horário entre um plantão e outro. Como será quando tivermos filhos? Não quero ser a mãe ausente, mas também não quero deixar de trabalhar.

Mas por que estou pensando nisso? Ainda nem somos noivos e até casar e ter filhos, vai demorar tanto que as coisas podem se ajeitar até lá.

Saio do quarto e, do alto da escada, eu sinto cheiro de café. Camila voltou mais cedo do plantão?

- Oi, bom dia!

João, o namorado de Camila, encontra-se na cozinha com uma samba canção e um avental que parece pequeno em seu corpo.

- Bom dia! - respondo. - Então é você que vai me salvar hoje?

Ele sorri simpático. Todos sabem que o meu forte não é café. Na verdade, sou um zero à esquerda na cozinha, e olha que minha avó e minha mãe tentaram muito me ajudar, porque eu implorava, mas não tinha jeito.

- Obrigada Deus! - Brinco com as mãos unidas. - Quer ajuda?

- Não precisa, já fiz tudo. - Apontou para o forno. - Tem um bolo no forno, já está assado, mas mantive lá dentro para ficar quentinho. Tem pães de queijo também, tá no ponto.

- Meu Deus, que homem perfeito minha amiga arranjou. - Visto uma luva e tiro as coisas do forno, colocando-as sobre um descanso de panela que já estava sobre a mesa. - Já pode casar. - Brinco.

João fecha a garrafa térmica e vira-se para mim.

- Então, queria falar com você sobre isso. - Puxa uma cadeira e senta-se na mesa, despejando café em sua caneca e estendendo a garrafa em minha direção. - Eu não consegui dormir direito, por isso acordei cedo e vim cozinhar.

- Que terapia maravilhosa. - Sorrio para ele enquanto coloco café em minha caneca também. -E o que isso tem a ver com casar?

João toma um gole generoso do café e eu o acompanho. Está maravilhoso, tão bom quanto o de minha amiga. Ele olha para o alto da escada e depois para a porta dos fundos, certificando-se de que ninguém o escutará.

- Eu comprei a aliança.

Meus olhos se arregalaram diante do segredo.

- E quero pedi-la em noivado ainda hoje. - Ele parece nervoso. - Será que ela vai aceitar?

- Que mulher não aceitaria casar com você, João? - Meneio a cabeça. - Você é lindo, com todo o respeito, cozinha divinamente, uma das melhores características, e ainda desperta os melhores sorrisos em minha amiga. Ela não poderia ter um marido melhor.

- Mas ela não fala em casar, não parece ter essa vontade toda assim como... - pigarreia.

- Nossa, pareço tão desesperada assim?

- Não acho desespero, a gente já espera isso quando namora por tanto tempo e já tem a vida estabilizada.

- Pena que o Rafael não pensa dessa forma. - Sorrio sem humor.

João levanta-se e corre para subir as escadas, sem dizer nada. Eu fico só imaginando o sorriso de Camila ao ser pedida em noivado. Ela e João parecem almas gêmeas, combinam em tudo, ou quase, ele é muito mais romântico do que ela, mas sempre tem alguém que é assim no casal, normal.

Ouço passos apressados descendo as escadas e não me surpreendo quando vejo João entrando esbaforido na cozinha.

- O que você acha? - Me mostra a caixinha aberta.

Pego o anel e me emociono com os seus traços. Ele é lindo, simples como minha amiga gosta, mas fino e muito discreto.

- É lindo, João, ela vai amar. - Entrego o anel a ele.

Não consigo evitar que os olhos fiquem marejados.

- Se ele te fez chorar assim só de olhar, deve ser lindo mesmo. - João brinca. - Espero que Camila aprove.

- Aprovar o que? - Por trás da cadeira, Rafael beija o alto da minha cabeça. - Bom dia!

Eu estava tão distraída que nem percebi a aproximação do Rafael.

- O anel de noivado. - Apontei para a caixinha na mão de João. - Ele vai pedir a Camila em noivado.

- Vai se amarrar mesmo, cara? - O puxa para um abraço. - Meus parabéns!

- Obrigada! - João sorri e me olha sem graça. - Mas não me sinto amarrado, me sinto feliz, vai saber disso quando chegar a sua vez.

Rafael sorri, mas nada comenta. Ele pega uma caneca no armário e serve-se de café, sentando-se para nos fazer companhia.

- Vai demorar um pouquinho para chegar a nossa vez, né amor? - Estende a mão dele, alcançando a minha. - A gente quer fazer algumas coisas antes?

- A gente? - Sorrio ironicamente e me arrependo na hora, mas não consegui evitar.

- Estou atrasado, tenho que me arrumar. - Rafael levanta-se da mesa. - Obrigada pelo café, João, estava maravilhoso.

Ele sai da cozinha e logo depois, sobe as escadas.

- Como ele sabe que fui eu que fiz o café e não você?

- É porque ele já tomou o meu.

A gente sorri, mas o clima já não é mais o mesmo. Não quero ser a garota chata que pressiona o namorado a casar, mas já namoramos há tanto tempo, praticamente moramos juntos e temos as nossas vidas estabilizadas, então não entendo essa negativa de Rafael.

Desde o começo eu falei que esse era o meu maior sonho. Se ele sabe disso, por que me cozinha em banho Maria? Por que não desiste de nós logo e diz que não quer? Não é só pelo fato de não querer casar que penso assim, é por tudo. Somos muito diferentes, mas foi por ele que me apaixonei.

- O que é isso? - Um barulho me tira de meus devaneios.

João se levanta e aponta para a janela acima da pia.

- Olha isso. - Há um pássaro bicando o vidro do lado de fora. - Acho que tem alguém querendo entrar aqui.

- Deve estar atrás do seu bolo abóbora, aposto.

Levanto-me e fico atrás de João, mas assim que o susto passa, eu consigo dar um passo à frente e abrir a janela. O pássaro fica parado lá, parece nos encarar.

Não sou grande entendedora de pássaros, mas lembro que meus irmãos gostavam e, pelas penas marrons avermelhadas e cabeça um pouco cinza, esse me parece uma rolinha

Me aproximo dele, que vem para a minha mão com a maior facilidade Coloco-o bem diante do meu rosto, analisando-o e sinto como se ele me olhasse de volta.

João liga a torneira para lavar as mãos e o sonho vem com tudo à minha mente. O barulho dos pássaros, o som da cachoeira, o estalido às minhas costas. Eu encaro o passarinho e me arrepiei por completo.

- Acho que ele gostou de você - João comenta.

Eu sorrio para ele e volto a encarar o passarinho, quando percebo que há um machucado em uma de suas asas.

- Gosta nada, veio atrás da enfermeira para cuidar dele. - Seus olhos transmitem medo. - Tadinho!

Subo as escadas com o pássaro na mão, vou em busca do meu kit de primeiros socorros. Não sou veterinária, mas acho que não custa cuidar do pobre até que eu o leve a algum médico especialista em cuidar de bichos.

- Qual o seu nome, hein?

Claro que ele não me respondeu e nem eu esperava isso.

- Já vi que os meus planos de pintar vão ficar para outro dia, né?

Converso com o pássaro enquanto pego os curativos para tentar ajudar o meu mais novo inquilino.

Capítulo 3 SEUS OLHOS E SEU SORRISO

Eu o seguro com as duas mãos, ergo-as para o alto e as abro, soltando o pássaro na natureza. Faz uma semana que ele chegou em minha casa, machucado e pedindo socorro, mas agora está livre e saudável, posso ver pelo bater das asas e pela potência com que grita junto aos outros pássaros que sobrevoam o céu.

Protejo os olhos da luminosidade impetuosa do sol do meio da manhã e o vejo partir até sumir de vista. Torço para que fique bem e, no meu sonho de criança egocêntrica, que lembre-se de mim e venha me visitar um dia.

Arqueio o meu corpo para a frente, apoiando as mãos nas coxas para descansar as pernas enquanto sorrio ao me sentir tão importante e inesquecível a ponto de almejar fazer parte da memória de um pássaro que conviveu comigo por apenas alguns dias.

- Patética - digo a mim mesma, e me assusto imediatamente ao perceber que não estou sozinha, pois escuto o impacto de passadas pesadas se encontrando com o chão.

Os passos atrás de mim chegam cada vez mais perto. Posso ouvir a sua respiração ofegante, deve ser alguém que estava correndo e agora está desacelerando.

Aquele lugar inspira movimento, eu mesma tenho vontade de correr, mas não vim preparada para tal, já que a minha única missão ali era soltar o pássaro e por isso saí de casa, ainda descalça, vestida apenas por uma leve camisola. Eu tinha receio de perder a coragem de me despedir dele.

Os passos cessaram e agora sinto uma presença atrás de mim. Eu começo a sentir frio, mesmo com o sol a pino, e percebo os pelos do meu corpo se eriçarem diante de um sentimento desconhecido por mim. Algo preenche a minha traqueia e toma conta de cada partícula de pele, até alcançar as camadas mais profundas, chegando ao sistema nervoso.

Eu quero me virar, quero ver quem é, mas não consigo me mexer. Sinto que não devo ter medo, mas a minha percepção é tomada por uma sensação sem nome ou desconhecida, e eu cerro as pálpebras, tentando me esconder dentro de mim mesma.

Ouço a gritaria dos pássaros, olho para o horizonte e os vejo retornando sejam lá de onde estavam, também escuto o barulho da cachoeira e percebo que estou no mesmo lugar que estive outro dia. Como vim parar aqui? Por que estou sempre voltando para esse mesmo lugar?

Os passos atrás de mim se movimentam e contornam o meu corpo, distribuindo um aroma já conhecido, indo parar logo a minha frente.

É um homem. Então é a ele que pertence aquele perfume?

Ele me olha de forma doce e intensa, fico presa naquele instante e só desvio a atenção do seu olhar quando escuto o seu sorriso e encaro os seus lábios. É um sorriso sincero, posso sentir isso, assim como sinto que os seus lábios estão desejosos dos meus. Ou seria o contrário?

Coro de vergonha ao imaginar desejar beijar um desconhecido sem rosto. Eu consigo ver o seu olhar, sentir o seu sorriso, mas não há um rosto definido. São como peças de um quebra-cabeça. Eu sei que no final verei algo lindo, consigo enxerga-lo como um todo, mesmo sem vê-lo.

O céu, antes limpo e azul, começa a se encher de nuvens carregadas e cinzentas. Os pássaros já não são mais ouvidos e o frio penetra em meus ossos.

Ele sorri para mim, um sorriso levemente triste, mas embutido de promessas. Seus olhos parecem não ter mais vida e aos poucos seu corpo vai se dissolvendo com a força do vento e sendo levado por ele, juntamente com as pétalas de flores que são arrancadas dos caules finos que não conseguem mais segurá-las no chão.

Meu coração parece esmagado de tanta dor. Levo a mão ao peito enquanto me debruço na grama encharcada da chuva que despenca do céu. Choro copiosamente e minhas lágrimas parecem solvente derretendo as cores de tudo ao meu redor, formando uma lama de tinta que me afunda na solidão.

Trovões gritam acima de minha cabeça e eu fecho os olhos, pedindo socorro.

- Íris, acorda!

Mesmo com medo, abro os olhos e vejo Camila sentada na beirada da minha cama. Olho em volta e não estou mais onde queria estar.

- Foi só um sonho? - pergunto.

- Eu diria que foi um pesadelo, olha só o seu estado. - Camila se aproxima, tentando me acalmar.

Apesar da sua presença, me sinto tão vazia, tão sozinha. Ela tenta secar as minhas lágrimas, mas é como se enxugasse gelo, já que elas não param de verter.

Me assusto com o barulho que estronda lá fora e só então percebo que chove aqui também. Eu ainda estou com frio, então sento-me na cama, trazendo o edredom comigo, e recosto-me na cabeceira de espaldar alto, abraçando as minhas pernas enquanto tento assimilar o que houve.

- Não foi só um sonho - falo em voz alta o que deveria ser apenas um pensamento.

Camila me olha concentrada, mas sem julgamentos.

- O que você sonhou que te deixou desse jeito?

- Com um homem.

A minha amiga sorri debochada, mas logo se recompõe ao perceber que eu não achei graça.

- Um sonho tipo...erótico?

- Não! - A corrijo. - Há algumas semanas venho tendo sonhos sempre no mesmo lugar e tem um perfume que vem não sei de onde. - paro para tentar organizar as ideias e parecer o mais clara possível. - E essa noite eu vi um homem, o perfume é dele, mas tem algo mais que não sei o que é.

- Amiga, os sonhos têm vários significados e não sou a pessoa mais capacitada para te ajudar com isso - explica-me calmamente como se falasse com uma criança -,mas a minha avó dizia que sonhos são mensagens para o nosso eu, tanto do futuro, quanto de um passado mal resolvido.

- E você acredita nisso?

- Eu acredito que os sonhos são o nosso subconsciente trabalhando tudo o que nos afeta na vida real. - Dá uma pausa antes de continuar. - Por exemplo, essa sua relação com o Rafael, ela tem te afetado negativamente, porque você espera dele muito mais do que ele está disposto a oferecer.

- Não tem nada a ver com Rafael.

- Sério? Olha só pra você, está chorando por causa de um homem que nunca viu.

- Mas não era qualquer homem.

- Claro que não, Íris, com certeza é o homem que você sonha em ver no Rafael.

Paro para refletir sobre o que ela acabou de falar e me pergunto se ela pode estar certa.

- Você acha que eu não amo mais o Rafael e por isso estou sonhando com outro homem?

- Não foi isso o que eu disse. - Levanta-se da cama e coloca as mãos na cintura, exibindo, sem querer, o anel de noivado que ganhara recentemente. - Mas talvez o Rafa não esteja suprindo você de tudo, e encontrou no sonho uma maneira de conseguir isso.

Choro, agora não mais pelo sonho, e sim pela vida real.

- Eu amo tanto o Rafa, só queria que ele me amasse na mesma intensidade.

- Amiga - Camila volta a sentar na cama. - Sinto tanto por te ver sofrendo, mas nem acho que a culpa seja só do Rafael. Em toda a relação há alguém que sempre ama mais, o problema é que o amor do Rafa não é suficiente para você.

- E o que eu faço?

- Eu não posso lhe dizer o que fazer. - Vira-se para a porta ao perceber que João saiu do quarto e solta-lhe um beijo. - Isso é você quem tem que decidir. Está feliz com a relação de vocês? Será mesmo que quer viver assim para sempre?

- E o que eu vou fazer? Jogar sete anos de namoro fora? Acredito no amor e acho que devo lutar por ele. Sete anos não são sete meses, Camila.

- Íris, tempo não define as boas relações. - Levanta-se da cama. - Eu queria muito te ajudar, mas tenho que ir, daqui a pouco começa o meu turno.

Se afastou do quarto, mas parou ao olhar o cavalete montado ao lado da cômoda.

- Tá na hora de tirar o branco dessa tela. - Alisa a textura do algodão cru. - Talvez pintar te ajude a pensar. Aproveite o dia de folga.

Camila sai do quarto e eu também, Não adianta ficar presa na cama o dia todo. Visto um roupão quentinho e desço as escadas. O cheiro do café chega até mim.

- João, meu amigo, jura que quando casar não vai embora dessa casa? Não vou conseguir viver sem você e Camila.

- Sua interesseira de uma figa. - Coloca o café na mesa e só então olha em meu rosto. - O que houve?

- Ah, isso? - Aponto para os olhos que sempre ficam vermelhos quando choro. - Não é conjuntivite, lhe garanto.

Adoro o João e sinto-me muito à vontade ao conversar com ele, mas não quero apadrinhá-lo com os meus problemas logo cedo. O coitado atende o dia todo, escuta sobre os mais diversos problemas que angustiam todos os tipos de pessoas, atender em casa é sacanagem.

- Tive um sonho bobo e acordei chorando, foi só isso.

- Sabe o que Freud diz sobre os sonhos?

- O que?

- Ele explica que os sonhos são manifestações dos desejos e ansiedades mais profundos. Com o que você sonhou?

Como dizer que sonhei com um homem quando tenho um namorado? Como explicar que o olhar, o sorriso e até o perfume desse homem me fez acordar em prantos pela sua ausência?

- Com um lugar bem bonito. Eu sinto a energia e até o aroma da vegetação. Não é estranho? - Não menti, só não contei tudo. - Tenho sonhado com esse mesmo lugar há algumas noites e sempre acordo instigada.

- Olha, ainda pegando o gancho de Freud, ele acreditava que os sonhos, não importava quais fossem, tinham a ver com a liberação da tensão sexual. - Sorriu timidamente. - Talvez devesse acampar com o seu namorado em algum lugar paradisíaco. O que acha?

- Acho que Rafael não aceitaria um convite para dormir em um lugar que não envolvesse colchões macios e lençóis de milhões de fios.

João fica levemente sem jeito e se afasta, indo até o forno pegar umas torradas com alho e manteiga. Eu não resisto a perguntar.

- Você também acha que eu e o Rafael não combinamos?

João morde o canto inferior dos lábios e meneia a cabeça, notadamente desconcertado.

- Se você tomou a coragem de me fazer essa pergunta, é porque já sabe a resposta. - Ele coloca as torradas sobre uma cesta de vime forrada com um tecido e me encara antes de levar a forma vazia para a pia. - Sinto muito, Íris.

- Não sinta. - Mordo uma das torradas, tentando controlar a vontade de chorar. - Obrigada pela sinceridade.

Mastigo cada uma das torradas apenas para alimentar o corpo, mas não sinto o seu sabor, só um amargor que parece vir de dentro contamina tudo o que coloco na boca.

Agradeço pelo café e subo as escadas. A chuva cai em demasia lá fora, os trovões se revezam entre os mais tímidos e os mais escandalosos e eu resolvo que não vale a pena disputar com o céu para ver quem chora mais.

Pego as tintas, os pincéis, os trapos e posiciono tudo sobre a mesa da sacada. Tiro o cavalete do quarto e o levo para lá também. Apesar da chuva e da umidade, resolvo que pintar ao ar livre pode me fazer bem. Visto um avental e começo a dar as primeiras pinceladas. O verde em seus vários tons começam a tomar conta da tela, fazendo o branco desaparecer aos pouquinhos.

Uma sensação de bem-estar me invade e, pela primeira vez desde que acordei, eu sorrio de verdade.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022