Kael, aos 25 anos, sempre viveu preso à sombra imponente do pai. Herdeiro de uma rede hoteleira que valia milhões, sua vida parecia perfeita aos olhos de qualquer estranho: viagens pelo mundo, festas luxuosas e um namoro estável que durou cinco anos. Mas a aparência era enganosa. O término inesperado desse relacionamento o dilacerou de um jeito que ele não admitia nem para si mesmo. Entre mágoa e orgulho ferido, uma certeza se instalou dentro dele como veneno: nunca mais se entregaria de verdade a ninguém. Amar havia se tornado sinônimo de fraqueza.
Decidido a se blindar contra a dor, Kael vestiu a máscara do cafajeste. Passou a viver de excessos, sem pensar duas vezes antes de pisar em corações alheios. O prazer imediato parecia mais seguro que qualquer promessa de amor. Porém, sob essa fachada, restava um vazio que nem festas nem mulheres conseguiam preencher.
Agora, diante de uma nova chance, ele precisava provar algo muito maior: mostrar ao pai que era capaz de ser mais que um playboy rico. Assumira um cargo importante e sua primeira missão era clara, viajar até uma ilha paradisíaca, avaliar o mercado local e negociar terrenos para erguer um projeto milionário. Era sua oportunidade de deixar de ser apenas "o filho do dono" e começar a ser visto como um homem de verdade.
Partiu de São Paulo no fim da tarde, atravessando estradas dentro do carro de luxo com motorista particular. Quando finalmente chegou à pousada à beira-mar, a noite caiu junto com uma tempestade feroz. O céu parecia ruir sobre a ilha. Raios iluminavam a escuridão em clarões violentos, e a chuva desabava sem piedade, como se lavasse não só as ruas, mas também os pensamentos caóticos que ele tentava controlar.
Deitado, escutando o rugido incessante da tempestade, Kael percebeu que aquele clima refletia com perfeição o que ele sentia por dentro. Um turbilhão de raiva, frustração e expectativas. Estava decidido: dali em diante, nada nem ninguém desviaria seu foco.
Quando o amanhecer trouxe apenas uma garoa fina e ventos suaves, Kael acreditou que finalmente teria um respiro. Mas, ao sair da pousada, deparou-se com um cenário devastado. Árvores arrancadas pela raiz, destroços espalhados, o paraíso tropical reduzido a um retrato cruel da força da natureza. A cada passo pela cidade costeira, ele sentia a urgência latejar. Não podia esperar. Precisava agir, precisava encontrar respostas, precisava provar a si mesmo que sabia liderar mesmo em meio ao caos.
O problema era que nada em sua postura elegante combinava com aquele ambiente destruído. O terno impecável, os sapatos italianos, a arrogância quase natural herdada de uma vida de privilégios... tudo destoava grotescamente da lama e da precariedade ao redor.
Quando percebeu que não avançaria daquela forma, entrou na única lojinha aberta, uma mistura de suvenires e roupas de praia. Saiu de lá irreconhecível. Vestia uma bermuda florida, uma camiseta amarela berrante que gritava "Eu Amo Surfar", chinelos de borracha baratos e óculos espelhados. Até um boné exótico cobria seus cabelos sempre arrumados.
O reflexo que viu na vitrine o fez rir de si mesmo, mas também trouxe um desconforto real. Havia anos que não se via tão... normal. Tão anônimo. O disfarce o incomodava, mas ao mesmo tempo o libertava. Pela primeira vez em muito tempo, ninguém olharia para ele como o filho do magnata.
Seguiu pela orla castigada, observando o cenário: coqueiros inclinados, areia revolvida em montes irregulares, pedaços de barcos arrastados pela maré. Até que avistou um quiosque de praia ou o que restara dele. Sentiu sede, e talvez curiosidade, e decidiu se aproximar.
O telhado de palha havia desabado em parte, expondo o interior caótico. Uma jovem lutava para mover uma tábua pesada. Loira, pele suada e marcada pela terra, olhos verdes intensos que brilhavam mais de raiva do que de cansaço. Magra, porém firme, trazia no braço uma tatuagem que contrastava com a fragilidade da cena.
- Com licença, moça. - A voz grave de Kael saiu com naturalidade, ainda carregada da imponência que costumava abrir portas.
- Você poderia me vender uma água de coco, por favor?
Ela ergueu a cabeça devagar e o encarou. O olhar verde atravessou-o como uma lâmina. Analisou-o dos chinelos à camiseta berrante, com uma expressão que misturava incredulidade e desprezo.
- Água de coco? - a voz dela saiu embargada, quase um riso amargo.
- Sério, moço? Você não tá vendo o estrago?
Antes que ele respondesse, ela explodiu:
- O telhado caiu, a lama tomou conta, tá tudo destruído! E você vem me pedir água de coco, como se eu fosse uma máquina de vendas?
Acostumado a ter sempre a última palavra, Kael sentiu a irritação subir.
- Eu só perguntei se estava atendendo. Não precisava ser tão... grosseira.
A jovem soltou o martelo com força, o baque ecoando no ar pesado.
- Grosseira? - repetiu, se aproximando, o corpo coberto de suor e poeira.
- Grosseiro é você, que chega aqui com cara de turista de propaganda de cerveja e não percebe nada! Tá achando que eu tô limpando isso por hobby? Esse quiosque era tudo o que eu tinha. Agora é entulho. Se eu não colocar as mãos aqui, eu perco até o pouco que restou.
As palavras dela atingiram Kael como socos. Ninguém nunca o tratara assim. Pela primeira vez, não havia deferência, não havia medo, não havia interesse em bajulá-lo. Apenas desprezo cru, genuíno.
Ele abriu a boca para se explicar, mas ela o cortou com um gesto firme.
- Então faz o seguinte, procura sua água de coco em outro lugar. Porque aqui, o único serviço que eu posso oferecer é o de uma mulher tentando não desmoronar junto com o que sobrou da vida dela.
Cássia voltou a empurrar a tábua, os ombros tensos, a respiração pesada. Kael ficou parado, como se tivesse levado um golpe invisível. A sede continuava ali, mas agora havia outra coisa queimando dentro dele: vergonha. Vergonha do pedido insensível, vergonha da roupa ridícula, vergonha da distância abissal entre o mundo dele e o daquela mulher.
Sem conseguir dizer mais nada, deu um passo para trás. O disfarce colorido que antes parecia cômico agora o fazia se sentir patético. Deu meia-volta e se afastou, deixando Cássia sozinha em sua batalha contra a tempestade e levando consigo a estranha sensação de que, pela primeira vez em anos, havia conhecido alguém que não o via como Kael, o herdeiro. Apenas como mais um homem perdido na lama.
Kael se afastou do quiosque, com a imagem da mulher irritada e a sensação de ter sido repreendido ainda frescas em sua mente. Encontrou um tronco caído na areia, a poucos metros de distância, e sentou-se. O sol, que começava a aparecer entre as nuvens dispersas, revelava ainda mais a extensão da destruição.
De onde estava, ele a observava. Apesar do cansaço e da sujeira, havia uma beleza selvagem naquela mulher, uma força bruta que o intrigava. Ela não era uma jovem deslumbrante como sua ex ou as ficantes, mas uma mulher mais simples, talvez nos seus vinte anos, com um corpo normal realçado pelo short jeans curto e a camiseta simples.
O cabelo loiro estava completamente bagunçado, com alguns fios teimosos grudados no rosto suado, mas isso apenas adicionava um charme autêntico à sua aparência. Ela se movia com uma energia quase furiosa, chutando um pedaço de madeira do quiosque e murmurando palavrões. Era evidente que a tempestade havia levado não apenas parte de seu negócio, mas também uma boa dose de sua paciência.
Kael, acostumado a decifrar mentes e comportamentos em reuniões de conselho, tentava entender aquela mulher. A raiva genuína, a resiliência em meio ao caos... algo nela o impedia de simplesmente ir embora. A sede, que ainda o incomodava, tornou-se secundária. Uma curiosidade inusitada o dominou.
Com um suspiro, Kael se levantou do tronco, novamente com a roupa de "turista" parecendo um uniforme de disfarce, e caminhou de volta em direção ao quiosque. A mulher estava agora tentando desenterrar algo da areia, com as mãos sujas e os dentes cerrados em frustração.
- Moça... - Kael tentou, com uma voz mais suave desta vez, quase um murmúrio.
- Eu sei que não está atendendo, mas... você se importaria de me dar uma água? Eu... eu posso pegar, se você disser onde está.
Ela parou, com o corpo tenso, e se virou lentamente, com os olhos escuros cintilando com uma irritação renovada, quase como se ele fosse um mosquito persistente. Ela apontou com o dedo sujo para um tambor azul de plástico, meio enterrado na areia, a poucos metros dela.
- É só pegar, moço! - Ela disse, com a voz áspera e carregada de impaciência.
- Ou vai desidratar e morrer seco. Por acaso é cego? Não está vendo que eu tô ocupada aqui?
Kael piscou, um pouco atônito com a franqueza. Nunca em sua vida alguém havia perguntado se ele era cego. Era uma pergunta absurda, mas, naquele contexto de caos e desespero, soava menos como uma ofensa e mais como um desabafo.
Ele desviou o olhar para o tambor, depois para ela, que já havia voltado à sua tarefa de desenterrar sabe-se lá o quê. Sem dizer mais nada, ele se aproximou do tambor, pegou uma garrafa de água mineral, a última que havia lá dentro, em meio a cervejas e refrigerantes.
Agradeceu com um aceno de cabeça, mas a mulher já estava novamente imersa em sua batalha contra os estragos da tempestade, ignorando-o completamente. Kael bebeu toda a água, sentindo o frescor do líquido, mas também a estranha sensação de ter sido completamente despojado de sua autoridade e status.
Com a garrafa vazia em sua mão, um novo dilema se apresentou. Em sua pressa para o que seria uma breve visita de negócios, ele não havia sequer pensado em levar dinheiro vivo, e a máquina de cartão, obviamente, não funcionaria sem energia ou internet. Ele, o mimado rico, estava sem um centavo no bolso. Olhou para a mulher, que agora tentava içar uma lona pesada sobre o buraco no telhado, xingando em voz baixa.
Com um suspiro, Kael se aproximou novamente.
- Moça... - ele começou, com a voz um pouco mais hesitante.
- Eu... eu não tenho dinheiro aqui comigo, e a máquina de cartão... bem, você sabe. O pix não está passando.
Cássia parou, com a lona quase escorregando de suas mãos, e o encarou novamente, com os olhos estreitados.
- E eu com isso, moço? Não trabalho de graça. Primeiro toma a água, depois diz que não tem como pagar, aí aí.
- Não, claro que não. - Kael tentou se explicar.
- Eu gostaria de pagar pela água. Mas como não tenho dinheiro, e as comunicações estão fora... Eu poderia te ajudar com os reparos. Em troca da água. Parece que está com dificuldades.
Ela o estudou por um momento, com as sobrancelhas arqueadas em ceticismo, o cansaço visível em cada linha de seu rosto. Ele, com aquela roupa ridícula e o jeito de quem nunca havia pegado em um martelo na vida, oferecendo ajuda. A cena era quase hilária, mas ela estava desesperada.
- Ajudar? Você? - Ela riu, um som irônico.
- Ok, moço do comercial de cervejas, me ajude. O telhado quebrou e preciso pregar umas tábuas ali em cima antes que a próxima chuva molhe tudo de novo. A escada está ali.
Kael sentiu uma pontada de orgulho ferido pela forma como ela o chamou, mas ignorou. A escada de madeira, velha e instável, estava encostada na parte lateral do quiosque. Ele a posicionou com certa dificuldade, subiu degrau por degrau, sentindo o olhar da mulher sobre ele.
O martelo era pesado e pouco familiar em suas mãos acostumadas a canetas e contratos. Ele encontrou uma tábua solta e, com uma concentração quase cômica para alguém tão poderoso, ergueu o martelo. Mirou o prego e... PAH! Em vez da madeira, o martelo acertou em cheio o seu próprio dedo.
Um grito abafado escapou de Kael, um som inesperado. Ele soltou o martelo, que caiu fazendo barulho, e levou a mão ferida à boca, se mexendo com dor, de repente perdeu o equilíbrio. Com um berro, ele despencou na areia, com a bermuda florida subindo e revelando suas pernas pálidas.
Cássia, que o observava, explodiu em uma gargalhada alta e descontrolada. Ela ria tanto que teve que se apoiar no quiosque, com a barriga doendo, as lágrimas escorrendo pelo rosto sujo.
- Ai meu Deus! - ela conseguiu dizer entre as risadas.
- Eu não acredito! Que desastre! Machucou?
A risada dela se intensificou, misturada com um som de exasperação. Ela se recompôs um pouco, secando as lágrimas.
- Tá vendo? Eu sabia que você não era do tipo que pegava no pesado! Vem cá, deixa eu ver essa mão. Tudo bem? Eu te conheço, não é? Você surfa com o Nando?
Rindo, ele disse que sim, surfava às vezes.
Ela se aproximou, ainda com um sorriso divertido no rosto, e o ajudou a se sentar. Com uma agilidade que surpreendeu Kael, ela correu até um pequeno tambor, pegou um pouco de gelo e o entregou.
- Coloca isso aí. Vai ficar roxo. - Ela disse, com uma voz mais suave agora, a irritação substituída por uma preocupação genuína.
- Que beleza, hein? Primeiro a chuva, agora o meu ajudante quase se quebra.
Ela suspirou, olhando para o quiosque destruído e depois para a figura desamparada de Kael.
- É pra rir para não chorar. Se o tempo não melhorar logo e o movimento não voltar, vou quebrar de vez. Não sei como vou fazer para reconstruir isso tudo. Moço, você tá bem?
Kael segurava o saco de gelo contra o dedo latejante, a dor física servindo como um estranho contraponto à sua mente sempre acelerada. Ele observou a mulher, que já havia voltado a tentar mover os destroços, com a frustração novamente visível em seu rosto. Apesar do acidente cômico, a sinceridade dela o intrigava. Ele se aproximou dela.
- Sim, dolorido mas bem. Você disse que vai quebrar... Seu quiosque vende bem normalmente? - Kael perguntou, com a voz um pouco rouca pela dor, mas com seu tom investigativo habitual.
Ela parou, exausta, apoiando-se em uma banqueta quebrada.
- Ahh se vende bem? - Ela deu uma risada amarga.
- Dá para sobreviver, moço. Dá para colocar comida na mesa e pagar as contas mais básicas. Quando o tempo ajuda e o movimento tá bom. Mas a vida aqui não é só sol e mar, não. Eu tenho outro emprego e nem sempre consigo abrir.
Ela o olhou, com um brilho de ressentimento em seus olhos.
- Para ter esse quiosque, eu tive que aceitar um bico na pousada, ali ó. Trabalho como faxineira, né?! Mas lá, eles me tratam como escrava. - Ela cuspiu as palavras, com a voz cheia de desdém.
- A gerência é podre, moço. Exploradora. Você rala o dia inteiro, limpa a sujeira dos turistas ricos e não ganha quase nada. E se reclama, te mandam embora sem pensar duas vezes. Não tem horas extras, nem gorjetas, maior desaforo.
Kael, como um bom empresário, conhecia cada detalhe da gestão de grandes empreendimentos, sentiu um estranho interesse. Ele havia mandado uma equipe de confiança fazer a vistoria no financeiro da pousada, porque queria comprar ela também, mas a perspectiva de uma funcionária de base era algo que ele raramente tinha acesso, e que poderia ser valioso.
- Sério? - Kael incentivou, com a voz suave, dando a ela a corda que precisava.
- Como assim a gerência é podre? O que eles fazem? E os outros comércios aqui perto, como é a renda, vocês ganham bem?
Cássia, sentindo que tinha um ouvinte, mesmo que fosse aquele moço atrapalhado, desabafou.
- Ah, eles fazem de tudo! - Ela gesticulou com as mãos sujas.
- Cortam diárias, exigem que a gente trabalhe em dobro sem pagar hora extra, ameaçam demitir por qualquer bobagem. E os alojamentos dos funcionários são uma pocilga, horrível. Cozinha nojenta, banheiro mofado.
- E o pior é que eles se aproveitam da necessidade da gente. Muita gente aqui só tem esse emprego, não tem para onde ir. É um inferno! E essa pousada... esse lugar é uma fachada. Bonito por fora, mas por dentro é tudo podre. Eles não investem na estrutura, só querem saber de lucro e cortar custos. Gritam e humilham os funcionários. Acusam de roubo sem provas.
Kael absorvia cada palavra, com o dedo latejante, mas sua mente funcionando a todo vapor. Aquilo ia muito além de uma simples pesquisa. Se as informações daquela mulher fossem verdadeiras, a compra de tudo seria fácil demais. A amargura que ele carregava não o impedia de ser um homem de negócios com uma reputação a zelar. Ele precisava de mais detalhes. A conversa com a mulher, de repente, se tornara muito mais interessante do que qualquer reunião de diretoria.
Kael ainda estava ali, sentado com o saco de gelo no dedo, enquanto Cássia se virava para continuar a árdua tarefa de arrumar o quiosque. Ela murmurava sozinha, mais para extravasar a frustração do que para ser ouvida, quando uma figura magra e desgrenhada, de bermudão e camiseta de banda de rock, se aproximou. Era Natan, o irmão mais novo de Cássia. Ela tinha dezenove anos e ele, quinze. Ele tinha os cabelos longos loiros e uma expressão de tédio e irritação no rosto.
- Mana, de novo isso? - o garoto resmungou, sem sequer olhar para Kael.
- A gente vai ter que limpar essa porcaria de novo? Eu tô cansado disso!
Cássia parou o que estava fazendo e o encarou, as mãos na cintura, com os olhos cintilando em exasperação.
- Natan! Que jeito é esse de falar? Essa porcaria é o que nos sustenta, idiota! Anda, vem ajudar aqui em vez de ficar reclamando.
Natan revirou os olhos, um gesto de impaciência que Kael reconheceu de longe, algo que já havia visto em jovens mimados.
- Ajudar para quê, mana? Para daqui a pouco vir outra tempestade e levar tudo de novo? Eu tô exausto de trabalhar nesse fim de mundo. Eu quero ir embora dessa ilha!
A voz de Cássia se elevou, carregada de desespero e raiva.
- Ir embora para onde, Natan? Você tem dinheiro para ir para onde? Acha que é fácil assim? Sem o quiosque, a gente passa fome! Você quer passar fome, moleque? É isso que você quer?
Natan chutou um pedaço de madeira com força, com o olhar fixo no horizonte.
- Necessidade eu já passo aqui, mana! Trabalhando feito um burro de carga e não tendo nada! Eu quero uma vida de verdade, não ficar preso nessa ilha mofada, nessa porcaria de quiosque que não dá em nada! Todo mundo que eu conheço que foi para a cidade grande se deu bem.
Cássia disparou, com o rosto contorcido pela preocupação.
- Se deu bem como, Natan? Trafi cando? Virando marginal? Você não sabe o que é a vida lá fora! Aqui pelo menos a gente tem um teto, comida na mesa e não precisa se preocupar com bala perdida! Todo mundo se conhece.
Kael, que estava ouvindo a discussão com uma atenção quase profissional, percebeu a profundidade do desespero de Cássia e a ambição ingênua de Natan. A cena era um microcosmo de tantos conflitos que ele havia presenciado em outros contextos, mas que, ali, na simplicidade da ilha destruída, ganhavam uma intensidade visceral.
Natan se virou para a irmã, com os olhos marejados de raiva.
- Eu não quero saber, mana! Eu não aguento mais! Essa ilha me sufoca! Eu preciso sair daqui. Se você não for, eu vou sozinho!
Cássia levou as mãos à cabeça, um lamento escapando de seus lábios.
- Vai sozinho para onde, meu Deus? Você é só um moleque! E quem vai me ajudar aqui, hein? Quem vai reconstruir o quiosque? Seu pai te abandonou, e agora você também quer me largar nessa situação? Ele não vai cuidar de você não, seu idiota.