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Mais que uma Vingança: Um acordo bilionário

Mais que uma Vingança: Um acordo bilionário

Autor:: Yana _ Shadow
Gênero: Bilionários
Victor Corte Real, um bilionário ambicioso e calculista, cruzou o caminho de uma jovem que estava à beira do desespero. Sem ter para onde ir com a irmã caçula, Clarice foi encurralada por seus problemas financeiros e acabou recebendo uma proposta tentadora: - Um casamento por conveniência? - Clarice arqueou a sobrancelha, incrédula. - Estou oferecendo uma solução para os seus problemas! - Mantendo o semblante austero, Victor salientou. - Tem certeza disso? - Ela sustentou seu olhar. - Mas não se iluda, isso não tem nada a ver com amor. O que começou com um acordo bilionário logo se transformou em um jogo de poder, no qual traições, segredos e algo mais do que uma vingança podem mudar o destino dos dois. O casamento por conveniência pode acabar revelando muito mais do que ambos planejavam. ❛ ━━━━・❪ ❁ ❫ ・━━━❜ Este romance é uma adaptação do livro Entre o Amor e o Ódio da autora Yana Shadow. O livro contém cenas para +18. Aprecie sem moderação!

Capítulo 1 Você precisa casar

Ponto de vista de Clarice.

- Você precisa casar, Clarice. - A minha mãe falou de repente.

Durante o banho, eu passava a esponja com cuidado no corpo dela, enquanto tentava ignorar aquele papo.

A minha mãe adorava repetir que eu não podia viver sem um homem e que precisava de alguém para cuidar de mim.

Há um ano, eu cheguei a ficar noiva, mas ele me traiu. Poucos meses após o término, ele foi embora com outra mulher, deixando-me para trás.

Após secar minha mãe, coloquei a roupa nela e ajeitei o corpo imóvel dela na cama.

- Não vou durar muito tempo. - O olhar dela pairou sobre mim.

Desde que sofreu um AVC, a minha não era mais a mesma. O corpo não se movia como antes, e a vontade de viver parecia ter sumido.

- Para de dizer bobagens, mãe. - Falei num tom brincalhão.

- Vamos ser despejadas e você está rindo, minha filha. - Falou devagar.

- Vou dar um jeito de pagar os aluguéis atrasados. - Apesar de sentir um nó se formando na garganta, eu garanti.

Enquanto eu respirasse, faria qualquer coisa pela minha família.

- Prometa que vai cuidar bem da sua irmã! - Tinha lágrimas nos olhos dela, quando fez o pedido.

- Sempre farei de tudo para cuidar da Alice e da senhora. - Prometi e, então, beijei o dorso da mão dela.

Antes dos dezoito anos, a minha ferramenta de trabalho era a enxada. Ralei, suei, e mesmo assim o dinheiro mal dava para comer.

Nos últimos meses, as chuvas ferraram com a lavoura e eu afundei ainda mais nas dívidas. O dono da mercearia, onde eu também trabalhava, emprestou dinheiro, mas nada do que fiz deu certo.

No fim, só sobraram os boletos e um desespero que não me largava.

Em certo momento, a minha mãe tossiu violentamente.

- A senhora está bem? - Aproximei-me, secando os fios ralos do cabelo dela.

- Estou... - Ela sussurrou, mas o cansaço na voz era evidente.

- Descansa um pouco. - Cobri o corpo magro com o cobertor. - Vou preparar o café da manhã.

Meia hora depois, acordei Alice com um cafuné. Minha irmãzinha se espreguiçou e sorriu de leve. Ajudei Alice a vestir o uniforme da escola e prendi os fios lisos com o laço rosa de que ela tanto gostava. Alguns minutos depois, fui me preparar para o trabalho na mercearia.

Quando estava pronta, eu deixei a minha mãe sob os cuidados da vizinha e levei a Alice para a escola. A estrada de terra era íngreme e a minha irmã já estava diminuindo os passos.

- Clarice, estou cansada - a voz infantil reclamou.

- Suba, Alice. - Abaixei-me e ofereci as costas. - Estamos quase lá. - Senti o peso leve e a carreguei pelo resto do caminho.

Ao chegar na escola, beijei a testa da minha irmã e esperei que ela entrasse antes de seguir correndo para o trabalho.

Na mercearia, o chefe me aguardava com aquela carinha fechada de sempre.

- Você está atrasada de novo. - Ele me repreendeu.

- Minha mãe precisa de ajuda para se locomover, senhor. - Mesmo que ele não se importasse, eu continuei a explicar. - A vizinha que cuida dela se atrasou um pouco, não podia deixar minha mãe sozinha. - Concluí, mas o rosto dele continuou impassível.

- Da próxima vez, vou te demitir. - O velho tentou me intimidar com ameaças.

Meus dedos apertaram contra a palma da minha mão ao ponto da unha afundar em minha carne. Queria gritar, mas fiquei quieta. Eu não podia perder aquele emprego. Por isso, coloquei o avental e comecei a organizar as verduras, evitando olhar para o meu patrão.

Mais tarde, ele me chamou.

- Clarice, separe esses pedidos e use a bicicleta para entregar nesses endereços. - Entregando-me uma lista, ele mandou.

- Posso almoçar antes? - perguntei.

- Não. Você chegou atrasada e ficará sem intervalo. Agora, vá trabalhar! - Deu a ordem e saiu.

Era meio-dia e o meu estômago já roncava de fome. Meus olhos arderam, mas segurei as lágrimas. Após me recompor, eu preparei os pedidos e saí.

A luz dourada fazia sombras sinuosas nos degraus da mercearia. Após arrumar as caixas com os produtos na garupa, eu sentei na bicicleta e ajustei o vestido florido que chegava aos joelhos. Inspirei o ar puro e soltei, deixando que a brisa carregasse a fome e as preocupações para longe, mesmo que fosse por alguns instantes.

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Ponto de vista de Victor.

O dia estava calmo e o céu claro mostrava a beleza natural de Valença.

Dentro do automóvel, vi as construções históricas que ficavam pelas ruas do centro.

Enquanto atravessava a cidade, lembrava dos passeios de infância e dos mergulhos nas águas geladas e cristalinas das cachoeiras, mas aquelas lembranças foram ofuscadas pela decisão que me trouxe de volta a este lugar.

Inclinei a cabeça para trás, passei as mãos por meus cabelos curtos e fechei os olhos por um instante. As últimas palavras da minha noiva ainda soavam em minha mente. Carmem era uma linda modelo italiana com quem passei momentos inesquecíveis em Veneza, mas a decisão repentina de meu pai destruiu aquela ilusão. Se eu não voltasse para cuidar dos negócios da família, eu seria deserdado.

Quando abri os olhos, avistei uma garota que andava de bicicleta. Ela sorria e acenava para algumas pessoas enquanto equilibrava caixas cheias de verduras na garupa.

Por um momento, nossos olhares se encontraram. Os olhos esverdeados, o rosto oval e aquele queixo pequeno prenderam a minha atenção. Eu a conhecia de algum lugar.

- Não lembra dela, senhor? - O capataz, que dirigia o carro, perguntou.

Neguei com a cabeça e continuei olhando para a garota que ficou para trás.

- Ela era a filha daquele funcionário que trabalhou na mansão dos seus pais. - Ele coçou a barba negra.

- Era? - Ergui uma sobrancelha.

- O pai dela faleceu há sete anos. Agora, ela cuida da mãe doente e da irmã mais nova.

Enquanto o capataz falava, comecei a lembrar dela, mas não quis comentar. Quando éramos crianças, eu a protegia das humilhações que ela sofria devido à sua pobreza. Era uma amizade pura, que o tempo, a distância e as diferenças de classes sociais apagaram.

- Só lamento por ela! - Falei enquanto endireitava as minhas costas no banco macio do carro.

O meu pensamento se concentrou no motivo do meu retorno. Precisava mostrar ao meu pai as vantagens do investimento que unia os setores imobiliário e hoteleiro antes de convencê-lo a entregar parte da minha herança.

Capítulo 2 Desastrada

Ponto de vista de Clarice.

Enquanto pedalava, eu admirava a paisagem em torno da vasta propriedade que pertencia à família Corte Real. As lembranças dos passeios com meu pai por aquele local trouxeram uma saudade que me aquecia e doía ao mesmo tempo.

Segui em frente, encarando a subida íngreme, enquanto o calor do esforço se espalhava pelo corpo. Não tinha tempo para ficar triste.

Chegando enorme perto do portão, desci da bicicleta com cuidado para não derrubar a caixa com os produtos que estava presa na garupa.

O som do portão de madeira sendo empurrado me fez voltar à realidade. Havia alguns homens conversando ali perto e percebi que eles me olharam.

- Hei, coisa linda! - A voz arrastada do homem barbudo me alcançou, acompanhada de um assobio.

Aumentei os passos enquanto atravessava o portão com o queixo erguido. Continuei andando sem me virar e logo, subi na bike e comecei a pedalar pela estrada no meio da alameda de palmeira.

No jardim da casa principal, vi algumas flores bem bonitas que chamaram a minha atenção. As hortênsias estavam especialmente lindas, mas quando abaixei para pegar uma delas, a presilha escorregou pelos fios soltos do meu cabelo e caiu no meio do jardim. Aí, tentei pegar ela de volta e acabei tombando com a bicicleta e produtos que se espalharam pelo chão.

- Precisa de ajuda, gata? - A voz grave me assustou.

Levantei os olhos para encontrar o homem que baixou óculos escuros para me observar. Sua figura imponente contrastava com minha posição vulnerável no chão. Meu coração disparou, mas não pelo motivo que ele talvez esperasse.

- Não! - Respondi firmemente e então, levantei rápido. - Posso fazer isso sozinha.

Ele não recuou. Senti o olhar dele me observando enquanto recolhia alguns legumes. Olhei de canto e vi as sobrancelhas franzidas, como se estivesse tentando lembrar de algo.

- Você é atrapalhada! - Ele fez o comentário.

Porém, eu não dei espaço para provocações.

- Como caiu desse jeito?

- Não te devo satisfações. - Retruquei, pegando o último tomate.

- Esqueceu a sua educação em casa? - O sorriso no rosto dele ampliou-se. - Uma mulher delicada deveria ser mais doce. - Ele insistiu, com uma malícia que fez meu sangue ferver.

- Se quer tanto doce, então, devia se afogar numa piscina de Nutella. - A raiva subia em meu rosto quando disparei.

O brilho divertido em seus olhos foi uma resposta clara de que ele não esperava por essa.

Victor deu um passo para trás, mas não saiu.

- Talvez eu não aceite essas mercadorias que você derrubou, sua desastrada! - A voz dele assumiu um tom hostil.

Antes que eu pudesse reagir, ele segurou meu braço e me puxou com uma força que me fez colidir contra ele. Sua mão grande envolveu minha cintura.

- Tire as mãos de mim, Victor! - Minha voz saiu tremida.

Usei toda a minha força para empurrar ele, mas seus olhos já estavam fixos nos meus, era como se penetrasse a minha alma.

- Você se lembrou! - Ele falou baixinho, ainda com aquele ar de malícia.

Apesar de tudo, eu não me rendi.

- Victor, o que você está fazendo? - A voz feminina veio de cima da escada. Uma mulher alta, com os cabelos bem arrumados, acenava. - Peça para a garota subir com a encomenda. A cozinheira está esperando.

Ele olhou para mim, mas não disse nada. Apenas jogou o dinheiro na minha direção, sem muita atenção, como se isso fosse encerrar a conversa.

- Pode ficar com o troco. - Disse, virando-se para ir embora.

- Não quero o seu dinheiro. - Retruquei, empurrando o dinheiro de volta para ele, mas ele não olhou para trás.

Ele continuou andando direto para a mansão e eu fiquei observando a camisa branca que se moldava às costas largas e aos músculos de seus braços. Ele estava bem mais alto e mais forte do que da última vez que o vi.

- Babaca! - Xinguei em voz baixa enquanto pegava a bicicleta e então pedalei para longe.

O meu coração ainda estava acelerado devido ao reencontro. "Por que o Victor voltou para a cidade?" A pergunta assaltou os meus pensamentos.

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Ponto de vista de Victor.

A Fazenda Bela Vista era um lugar que parecia ter o peso do tempo e das tradições. O vale ao redor, cercado por serras e matas, parecia esconder a imponente casa grande de todos os olhares curiosos da estrada. A mansão possuía uma fachada branca e estilo neoclássico. Riquezas e poder se perpetuavam em nossa família há gerações, mas a realidade exigia sacrifícios para preservar aquele legado.

Desde pequeno, eu sabia que a família Corte Real me daria responsabilidades. Meu pai, por exemplo, lutou por trinta anos para manter o patrimônio de pé, assim como os antepassados haviam feito antes dele. Tentei escapar do peso de carregar essa responsabilidade, mas eu nunca me importei.

Na Itália, eu vivia sem pensar no futuro, gastando muito dinheiro, acreditando que a fortuna da família seria o suficiente para sustentar meu estilo de vida. Mas, quando olhei o saldo da minha conta, vi que era difícil lidar com a minha realidade.

Levantando-me da cama, ajustei a camisa enquanto observava pela janela o pomar e o gramado verde que cercavam a casa. O sol se escondia, deixando para trás uma penumbra que engolia as folhas das laranjeiras. No reflexo do espelho oval, ajeitei meus cabelos negros e lisos, jogando-os para trás com os dedos. Minha aparência estava impecável, mas minha mente fervilhava.

- Se eles pensam que vou ficar nesse lugar, estão muito enganados! - disse em voz alta, permitindo que a irritação transparecesse.

Com um único movimento, ajustei o cinto e segui pelo corredor. Minhas botas ecoavam pelo assoalho de madeira enquanto subia as escadas. Ao abrir a porta do escritório, deparei-me com a figura austera do meu pai, Carlos Corte Real. Atrás da mesa de madeira envernizada, ele tirou o charuto da boca e soprou a fumaça, encarando-me com olhos indecifráveis.

- Olha só quem apareceu! - disse com a voz grave e cheia de ironia. - Eu sabia que você voltaria, mas não tão cedo. Beba um pouco. - Ele apanhou um copo e encheu de conhaque.

Peguei a bebida que ele ofereceu e senti o cheiro forte, e tomei um gole. O conhaque desceu queimando minha garganta, mas não amenizou o meu desconforto.

- O senhor sabe que não gosto desta cidade - fui direto ao ponto.

Meu pai se levantou rápido, batendo com o punho na mesa. Felizmente, a minha mãe entrou no escritório com uma serenidade que contrastava com o clima carregado.

- Contenha-se, Carlos! - Ela se posicionou entre nós. - O que está acontecendo?

- Esse garoto é um irresponsável, Olívia. - Os olhos do meu pai estavam faiscando de raiva quando falou com minha mãe. - Pensa que vou sustentar a boa vida que ele leva com aquela vadia no exterior?

- Retire o que disse! - repliquei, dando um passo à frente,

- Acalme-se, Victor. - A minha mãe segurou meu braço, evitando um confronto direto.

- A minha noiva é uma modelo famosa na Itália! - Ressaltei, encarando meu pai com veemência.

Ele apertava o copo de bebida na mão direita quando sorriu com desdém.

- Então, cadê ela? Por acaso, ela te largou quando o dinheiro acabou? - O sarcasmo na voz do meu pai foi a gota d'água.

- Você está cansado da viagem, vá descansar um pouco, meu filho! - Antes que a discussão ficasse mais grave, minha mãe interferiu de novo.

- A culpa é sua, Olívia! - Meu pai esbravejou. - Se o Victor não me ajudar a cuidar dos negócios da família, vou tirá-lo do testamento. - Ameaçou em voz alta. - Ouviu bem? - Berrou a pergunta para mim.

No entanto, eu saí sem falar nada, e eles ficaram lá discutindo.

Peguei meu celular do meu bolso, e rapidamente, liguei para um número da Itália. Uma voz de homem atendeu, deixando-me encabulado.

- Onde está Carmem? Como assim, está no banho? Quero falar com a minha noiva! - Aumentei o tom enquanto descia as escadas em passos largos, irritado com a evasiva do outro lado da linha.

A chamada foi encerrada. Tentei ligar outra vez, mas caiu na caixa de mensagens.

Chegando ao meu quarto, joguei-me na cama, sentindo o peso da minha frustração. O teto de madeira parecia zombar de mim.

Clarice... foi o nome que surgiu na minha mente. "Será que ela ainda é virgem?" Divagando em pensamentos, eu me perguntava.

Fechei meus olhos e comecei a fantasiar com a imagem dela deitada sobre a grama, e então, as minhas mãos passeavam pela curva de seu corpo antes de reerguer o tecido de malha de seu vestido florido e depois, os meus quadris encontrarem as suas coxas abertas.

De imediato, o meu corpo estava reagindo ao pensamento. Eu tinha que reencontrar a Clarice. Teria que seduzir aquela garota para colocar o meu plano em prática.

Capítulo 3 Uma pobretona

Ponto de vista de Clarice.

- Acorda, já amanheceu!

No dia seguinte, despertei com a voz da minha irmã no meu ouvido.

- Clarice, você precisa acordar - ela insistiu, e eu só queria descansar por mais alguns minutinhos.

Eu me encolhi, puxando o cobertor de retalhos sobre o corpo, na tentativa de prolongar o momento de descanso. Mas a Alice, com seus cabelos desgrenhados, pulava na cama sem parar.

- Você disse que me levaria até a cachoeira! - Ela insistia, cheia de entusiasmo, como quem acredita em tudo que ouve.

- Tá bom. - Respondi, meio sem forças pra protestar. - Vai se arrumar. Penteia o cabelo e escova os dentes!

Ela saiu da cama toda feliz e eu fiquei ali, ainda tentando acordar. Mal abri os olhos e o Victor já estava em meus pensamentos. Não conseguia entender como um cara tão legal podia virar um homem arrogante e frio.

- Como ele ousa?

Ao sentar na cama, eu senti o meu corpo tenso quando relembrei da última vez que o vi. Como pude esquecer aquilo? Anos atrás, o Victor tinha quinze anos quando chegou com uma amiga na fazenda.

Naquela tarde, fui procurá-lo para andar a cavalo como fazíamos diariamente. Eu tinha apenas treze anos quando peguei ele aos beijos com uma garota da escola.

Na ocasião, fiquei muito mal e ele ainda me expulsou de lá. Eu era tão nova, tão sensível, que corri para longe, magoada e confusa. Desde então, mantive distância.

Trabalhei ao lado do meu pai e continuei cuidando dos cavalos, evitando passar perto da mansão. Algumas semanas depois, vi o Victor indo embora. Ele não se despediu de mim. Ele foi com o avô para a Itália. Não via ele há um tempão, por isso, eu achei que ele tivesse construído uma vida com a esposa e os filhos no continente europeu.

- Vamos morar na rua? - A voz da Alice me arrancou dos meus devaneios.

Ela estava tentando amarrar os cabelos com elástico rosa.

- Claro que não! - Fiz o possível para mascarar a preocupação quando respondi. - Quem disse isso?

- O filho do capataz falou pra todo mundo da escola que sou uma pobretona e que vou morar na rua.

Puxei a minha irmã pela mão e sentei no meu colo. Meu coração apertou, mas procurei manter a calma.

- Não dê ouvidos para essas bobagens. - Passei a mão pelos cabelos da minha irmã enquanto tentava acalmá-la. - Na segunda-feira, eu vou lá conversar com a sua professora.

Eu odiava ver que ela sofria com as maldades que eu já passei. Era complicado ir para a escola com a mesma mochila surrada dos últimos anos e ainda tinha aquele tênis com a sola descolando, além do meu uniforme com tecido puído. Foram tempos difíceis. Nenhuma criança deveria passar por isso.

Trancei o cabelo dela e, depois, fiz cócegas até ela rir. Isso fez minha irmãzinha esquecer um pouco da tristeza.

Depois de alguns minutos, eu tirei a camisola e entrei rápido no banheiro, onde Alice escovava os dentes. Tomei um banho rápido antes de me secar e colocar a roupa. Meia hora antes de sair, eu cuidei da minha mãe e, em seguida, limpei a casa.

Quando tudo estava pronto, deixei a minha mãe sob os cuidados da vizinha e fui passear com minha irmã caçula.

A cachoeira ficava a cinco minutos de caminhada, e, embora sempre fosse um local calmo, naquele dia estava diferente. Alguns carros estavam estacionados, e a tranquilidade havia sido substituída por risos e música alta. Fiquei tentada a voltar, mas Alice estava empolgada demais.

- Vamos ficar por aqui! - Escolhi um canto mais afastado, onde ainda havia silêncio.

Coloquei uma toalha no chão e preparei um lanche para minha irmã.

- Posso pegar peixinhos? - Esboçando um sorriso, Alice pediu.

- É melhor ficar aqui. - Sugeri enquanto olhava ao nosso redor e percebi que mais pessoas se aproximavam.

Aos poucos, a tranquilidade desaparecia.

- Por favor, mana, eu só quero pegar um peixinho. - Alice insistiu.

- Está bem. - Embora eu quisesse evitar, acabei cedendo. - Não vá para longe.

Eu me levantei e sentei na beira do rio, molhando os pés na água gelada. Olhei para minha irmã, que estava pulando na parte rasa, feliz da vida. Alice pegou um peixinho, que escorregou de suas mãos e sumiu na água e então rimos juntas.

Meus olhos focaram na silhueta do homem que tirava a blusa e exibia um corpo esculpido por árduo exercício físico. Foi nesse instante que ele me viu. Corada, baixei a cabeça e tentei me distrair com o livro que tirei da bolsa. Sacudi a cabeça, tentando afastar os pensamentos que assolavam.

Logo, o Victor sumiu rapidinho na multidão, e meu coração ficou mais tranquilo. Ele devia estar paquerando alguma das moças da cidade.

Estava tentando focar na leitura do livro quando, de repente, escutei o grito.

- Socorro! - A voz infantil pediu.

Os meus olhos se arregalaram quando vi Alice se afogando. Ela lutava, mas as correntezas eram fortes demais.

- Socorro! - Desta vez, a voz de Alice se perdeu na agonia da luta contra as águas turbulentas.

Já estava pronta para entrar, mas ele foi mais rápido. Victor mergulhou, sem hesitar. Com braços fortes e precisos, ele nadou até Alice. Num instante, a minha irmãzinha já estava nos braços dele, mas os olhos estavam fechados. Alice não respirava.

- Alice, acorda - em meio ao desespero, gritei.

- Sai daqui, sua tonta! - Victor ordenou com frieza quando colocou minha irmã caçula sobre a toalha vermelha.

Impotente, recuei. Com o coração apertado, eu só podia assistir enquanto ele a socorria.

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