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Mamãe de mentira

Mamãe de mentira

Autor:: Barbara P.Nunes
Gênero: Romance
Ela o despreza, mas ele depende dela desesperadamente. Uma mentira está prestes a ser revelada, questionando o oposto do amor: seria o ódio? Antônio está à beira da ruína financeira e sua funcionária o culpa por seu estilo de vida promíscuo. Daniela sente uma aversão profunda por tudo o que seu chefe representa, então, quando ele ameaça demitir em massa, ela decide iniciar uma greve. O conflito começa no ambiente de trabalho, mas rapidamente se espalha para suas vidas pessoais, causando um verdadeiro caos. Por acaso, a jovem descobre o maior segredo de seu chefe: ele está escondendo a verdade sobre sua ex-esposa. Um mal-entendido leva Daniela a se passar pela mãe da pequena Duda, oferecendo a garantia de que os empregos serão mantidos. Assumindo o papel de sua homônima, eles se veem envolvidos em uma rede cada vez maior de mentiras para sustentar essa farsa. Bárbara P. Nunes nos apresenta uma história em que um verdadeiro amor pode surgir a partir de uma pequena mentira.

Capítulo 1 A grevista

Daniela

Estou furiosa, meu chefe está ameaçando demitir todo o setor em que eu trabalho, com exceção de mim e outras duas moças.

Antônio é um dos seres mais asquerosos que eu conheço, trata todos como objetos que podem e serão comprados.

Desde que me filiei ao sindicato temos nos estranhado pelos corredores. Sim, ele mantém uma fábrica de costura em seu escritório, diz que é para não esquecer de onde veio.

Um populista com ar de empreendedor, é o que ele aparenta ser; mas, se realmente não tivesse esquecido a pobreza, não demitiria as pessoas no auge desta crise - Daniela, - Stephanie me chama, interrompendo meu devaneio, - ele está te esperando, anda...

A sigo pelo corredor de mármore, ela abre a porta e o observo falar no celular, o cabelo escuro cai suavemente pelo pescoço, os olhos escuros encontram os meus e ele sorri aquele sorriso sacana tão característico enquanto faz um gesto para que eu entre.

Obedeço e ergo uma sobrancelha em sinal de que não vou ceder um milímetro sequer.

- Eu já te ligo, estou com a orquestradora da greve aqui...

Ele desliga o aparelho e ficamos nos encarando em silêncio por alguns minutos.

- Quer dizer que a senhora está armando uma greve?

- Quer dizer que o senhor está demitindo essas pessoas sem qualquer consideração? - Ele franziu o cenho e eu cruzei os braços.

- Já falei sobre isso, o país está em crise... Prefere que eu abra falência e não pague ninguém?

- Você poderia, por exemplo, rever a diretoria e parar de colocar as mulheres com as quais se relaciona e não entendem nada de mercado para cuidar da empresa. Ou então tirar todos os puxa-sacos que você tem e contratar uma boa equipe de marketing...

- Agora você entende até mesmo de marketing?

- Claro que sim, eu consumo e sei muito bem que ver uma mulher só de calça jeans em um anúncio não me dá vontade de comprar a tal bendita calça. Acha que preciso de uma pós-graduação para saber o que uma propaganda me inspira?

- Por que você tem que ser tão difícil? Já sei, é o seu nome. A partir de agora evitarei toda e qualquer Daniela que cruzar o meu caminho. É isso, deve ter a ver com o nome...

- Meu nome? - Sentei-me enquanto ele passou as mãos pelos cabelos, visivelmente desestabilizado.

- Daniela, não tem como... Me entenda; eu, mais do que ninguém, queria que fosse diferente e...

- Eu já te pedi uma chance, deixe-me tentar do meu jeito?

- Eu não posso! Se der errado, essa gente vai para a rua sem nada... É leviano de sua parte!

- Não foi leviano colocar as estudantes de moda que te mostravam mais do que linha e agulha para comandar esse povo até a ruína...

- Você está insinuando algo?

- Eu não!

- Daniela, me entenda, por favor, eu não tenho condições de fazer isso. Vamos fechar essa fábrica e pronto, você será transferida para a unidade do Brás e...

- Essas pessoas são minha família e eu não posso deixar de fazer alguma coisa, ainda mais quando é possível.

- Não é, eu vetei.

- Então estamos em greve!

- Hoje é aniversário da minha filha, eu preciso sair mais cedo, eu tenho um mar de problemas..., vamos nos acertar amanhã?

- Você não está se importando nem um pouco com as filhas e problemas dessas pessoas, por que eu deveria me importar com a sua?

- Ela tem só sete anos... Aliás, - ele olhou no relógio - ela fez oito enquanto você cuida da minha vida sexual. - Corei enquanto ele arrumava papéis sobre a mesa.

- Não estou nem aí para a sua vida sexual, só quero que você trate os seus funcionários com o mesmo respeito que eles têm por você.

- Eu sempre os respeitei. Infelizmente o país está numa crise e não parece que sairá tão cedo. Daniela, amanhã eu converso com você, e juro que com todo o cuidado e delicadeza que a situação exige...

- Antônio, eu...

- Eu só quero dar isso a ela. - Ele me estendeu uma pequena caixa e fez sinal para que eu abrisse, era uma espécie de cubo onde haviam fotos da pequena e dele e de um anjo...

- A mãe dela morreu?

- Não, ela é uma médica a serviço dos Médicos sem Fronteira, uma mulher totalmente abnegada que não pensa em dinheiro e...

- Você vai buscá-la no aeroporto?

- Não, ela não vem este ano...

- Está certo, vá ver sua filha - ponderei. Minha vida toda eu passei com o coração na mão nos dias de aniversário, sonhando em ver pelo menos um dos meus pais.

- Eu prometo que amanhã cedo a gente vai sentar e entrar num acordo, quem sabe eu repasse a oficina? Eu não sei...

- Eu prometi que a gente entraria num acordo hoje ou em greve! Eu te entendo, Antônio, mas ou você suspende a demissão ou nenhuma máquina trabalhará mais. Não haverá um ponto dado por nenhuma máquina e eu te juro que farei com que todas as máquinas que estão a seu dispor fiquem na mesma situação.

- Vamos comigo, então! Eu vou até minha filha e nós comemoramos, eu a coloco na cama e a gente vai entrar em um acordo, nem que viremos a noite até achar um meio-termo.

- Está certo.

Desci com o patrão e fiz um sinal positivo para as meninas que me esperavam no caminho, algumas pessoas o cumprimentavam, mas a grande maioria não olhava em sua direção.

Em alguns minutos estávamos no carro, o trajeto todo só não foi em absoluto silêncio porque o rádio do carro tocava uma música melodiosa e triste.

A casa era algo que eu apenas vira em novelas, as paredes brancas eram imponentes, o jardim serpenteava o caminho e uma empregada boliviana veio até nós.

- Senhor Antônio, a sua mãe levou a pequena Duda. Disse que ia comprar presentes de aniversário, eu fui contra, mas ela me ignorou e saiu. - O sotaque era forte, mas o tom de voz estava repleto de carinho; ela era uma mulher forte, e seus cabelos caíam em duas tranças até a altura da cintura.

- Tudo bem, Remédios. Essa é a Daniela, uma moça da empresa. Aproveitarei que Duda não está e vou fazer uma reunião, não me interrompa a não ser que seja Maria Eduarda chegando. E não se preocupe, mamãe cuida bem dela...

Remédios girou nos calcanhares e saiu com uma expressão de desagrado, como se não concordasse com a atitude do patrão, Antônio entrou logo em seguida e eu fui atrás dele. Mal sabia que minha vida viraria do avesso depois de entrar naquela casa.

Capítulo 2 Tudo por ela

A casa cheirava a riqueza, móveis e eletrodomésticos de última geração estavam espalhados de maneira encantadora por toda a sala.

O segui até o escritório, que ficava atrás de uma porta lateral; era um lugar colorido e alegre, alguns quadros de modelos famosas vestindo as roupas de sua marca.

-Sente-se, Daniela... Como vê, a indústria é muito importante para mim e não vejo os funcionários apenas como um meio de produção, eu já fui um funcionário...

- Conheço esse seu discurso meritocrata e até o admiro por ter vencido, mas essas pessoas vão passar fome, consegue entender? Talvez uma pessoa com uma casa tão grande não entenda o que é não ter o que comer amanhã, mas...

- Eu entendo mais do que você, menina, por isso sei que o melhor é fechar e pagar a todos, uma pequena reserva pode mudar a vida deles... Imagina como seria se essas pessoas simplesmente não tiverem nada como reserva por um capricho seu?

- Capricho? - O encarei.

- Sim, você é jovem, pode depender dos pais...

- Não posso! - Saí do sério.

-Tem gente lá que é responsável por si mesma...

- Olha aqui, seu Antônio, eu...

- Me chame apenas de Antônio - Ele me interrompeu com a sobrancelha erguida num sinal de imposição.

- Olha aqui, Antônio. Eu sou uma pessoa que sempre se sustentou, ao contrário de você que tem boa vida. Eu sei o que é a fome e não acho que deixar de lutar seja uma opção, a fábrica pode crescer, mas se você a fechar, como tanto quer, na crise que o país enfrenta, a maioria daquelas pessoas não terão um emprego tão cedo.

- Com as indenizações terão tempo para procurar.

- Você cresceu sem ao menos se arriscar? - Ergui a sobrancelha.

- Eu não coloco ninguém em risco...

- Colocou quando colocou aquelas moças para cuidar da produção. Você há de convir que onde se ganha o pão não se come a carne, certo?

- Daniela, eu não comi nem pão, nem carne...

- Até parece... Vai nos dar os dois meses ou não? Você me enrolou demais...

- Eu já disse que não!

- O que esperar de patrão que não isso? - Ele deu dois passos em minha direção e coçou a barba, ele era tão bonito quanto egoísta.

- Você está sendo injusta comigo...

- Eu gostaria de estar mesmo.

- Daniela, me ouça, eu...

E a porta foi aberta tão rápido que eu mal percebi! Uma menina sorridente de janelinha entre os dentes estava parada na porta.

- Você disse Daniela, papai? É ela? - Ela era menor do que eu imaginava, e se jogou nos meus braços. - Mamãe, eu rezei tanto para você vir! Eu sabia, papai do céu me ouviu... Como você cheira bem...

Olhei para Antônio antes de falar a verdade que simplesmente se instalou em minha garganta, o olhar dele parecia vitrificado.

Eu poderia jurar que ele estava em pânico. A menina continuava a me puxar, como se quisesse colo, e ali notei que havia algo muito errado.

- Você está aí! Venha, Duda, temos de tomar banho...

- Olha vó Hilda, é a mamãe! Olha como a mamãe é linda! - O olhar dela procurou o do filho, que assentiu.

- Deixe a mamãe e venha tomar banho. Acha que sua mãe ficaria feliz em te abraçar suja de sorvete? Venha...

A menina me soltou, concordando com a avó.

- Verdade, vó Hilda, ela não me abraçou... - Ela já ia em direção à avó, mas ao sair parou na porta e me encarou. - Mamãe, não vá embora, eu já volto limpinha.

Quando a pequena saiu, fechando a porta, senti que meu pulmão respirava novamente.

- Ela não conhece a mãe? - perguntei para meu chefe e notei que ele chorava sem se dar conta. - Antônio?

- Não, não há nada para conhecer...

- Mas a sua esposa não está nos Médicos sem Fronteiras?

- Não. - Ele passou a mão pela barba. - Não faço ideia de onde ela possa estar... Daniela, eu aceito não fechar a fábrica. - A voz soou distante e fria. - Finja que é a mãe dela, apenas hoje, eu nunca vi minha filha tão feliz como nesse momento.

- Eu não entendi. Por um momento pensei que queria que me passasse por mãe de sua filha.

- É exatamente isso...

- Ela não vai notar?

- Não há retratos ou qualquer outra coisa que ela possa comparar. Além do mais, será só até ela adormecer...

- Antônio, você está me dizendo que ela não conhece a mãe?

- Não sou de falar da minha vida, mas quero que faça isso por mim, estou disposto a tudo. Daniela foi embora quando minha filha tinha apenas duas semanas de vida. Ela não podia viver com esse estorvo. Eu protegi minha filha até aqui; estava pensando em uma atriz, mas você serve...

- Uma atriz?

- Sim, vestida de médica. Era isso que eu vim fazer mais cedo, queria uma mãe postiça só por hoje, mas ela chegou antes da hora e confundiu as coisas...

- Uma mãe postiça? Olha, essa é a pior coisa que já ouvi na minha vida. Eu nunca faria isso...

- Ela precisa ver a mãe, eu juro que essa situação não é permanente e...

- Você vai fazer o quê?

- Talvez uma morte? Ela é órfã mesmo... Por favor, só o bolo, a gente corta e você vai embora...

- Isso é horrível. Meu Deus, eu nem sei o que falar...

- Por favor, Daniela, é apenas uma noite. Eu faço o que você disse sem reclamar. - Revirei os olhos e virei o rosto. - Olhe para mim, Daniela. Saiba que estou desesperado, não sou de implorar nada, mas estou te implorando.

Engoli em seco e o encarei.

- Minha filha é tudo para mim. - Ele mordeu os lábios. - Não ligo se tiver de me ajoelhar a seus pés, faço tudo o que for necessário.

- Tudo? Você vai manter os empregos que não podia bancar há meia hora para enganar uma criança? Por orgulho? Você vai mentir hoje por orgulho?

- É aniversário dela. - Ele parecia distante.

- Aniversário? Pelo que entendi essa criança vive uma mentira desde que nasceu... Essa menina vai crescer como? Achando que a mãe é um anjo e o pai é perfeito, sendo que nenhum se importa com ela? Eu não farei parte disso...

Girei nos calcanhares, ele correu e parou na minha frente.

- Está bem, você está certa, falarei a verdade, mas não hoje. - Para minha surpresa ele me abraçou apertado. -Me ajude, por favor, eu te imploro. Eu não sou um pai perfeito, mas amo a minha filha.

- Fale a verdade, ou contrate uma atriz, mas não conte comigo nisso.

Abri a porta e antes que pudesse sair Duda veio até mim.

- Mamãe, eu estava te esperando!

Capítulo 3 Mamãe!

- Você ia embora sem me dar tchau? Não ia nem ficar para me ajudar a cortar o bolo? - Os olhos amendoados estavam cheios de lágrimas.

- Não, eu ia exatamente atrás de você.

- Eu tomei banho, mamãe. - Ela cheirou o próprio pulso e me estendeu para que eu fizesse o mesmo. - A vovó me fez prometer que eu não ia aborrecer você com perguntas, e disse que você só veio para me ver rapidinho.

- Eu nunca perderia a oportunidade de ver você. - Ajoelhei-me diante dela, em um momento insano de coragem, e assumi o lugar da mãe que nunca tive. Eu a entendia, eu sabia o que aquelas lágrimas representavam.

- Eu te amo, mamãe. - E choramos juntas, uma dor que só quem não teve mãe entende. Estava dando a ela um abraço que esperei a minha vida inteira.

- Não vamos chorar, não é? - Sequei os olhos dela e em seguida fiz o mesmo com os meus.

- Eu morava na sua barriga. - Ela me olhou cheia de sabedoria infantil. - Foi a única vez que ficamos juntas.

A ergui no colo, enquanto um nó de sentimentos conflitantes me inundava o corpo e calava a minha voz.

Ela me arrastou até o quarto dela no andar superior, haviam variantes infinitas de bonecas e unicórnios.

Ela me mostrou uma boneca velha que estava em sua cama.

- Mamãe, eu sei que coisa velha não é presente, mas essa é a Lucinda, minha boneca de nanar. Eu quero que leve ela com você; a gente tem o mesmo cheiro, quando tiver saudade de mim, você vai poder sentir meu cheiro.

Ela era muito esperta. Isso não havia como negar.

- A mamãe não pode aceitar...

- Você não sente minha falta? - Ela lambeu o lábio inferior num gesto de nervoso.

- Sim, a mamãe sente, é que...

Ela pegou minha mão e me fez sentar com ela na cama.

- Você não ama mais o papai? É por isso que você não fica aqui?

- O quê?

- A mãe do Joaquim não ama o pai dele e foi embora com um homem que não usa camisa.

- Não é isso, foram outras coisas e...

A porta se abriu e Antônio entrou, me deixando aliviada.

- Duda, o papai estava preocupado com você. A vovó te deixou na sala de TV e você saiu...

- Estou com a minha mãe; sabia que minha mãe ama você, papai?

Senti meu rosto queimar quando ele me lançou um sorriso.

- Também amo a mamãe e nosso amor te trouxe para a terra. Duda, você pode deixar a mamãe se vestir e tomar um banho antes da festa?

Antônio me estendeu a mão, que aceitei de bom grado. Saímos do quarto e fomos em direção a outro, este maior e mais espaçoso. Os tons sóbrios emprestavam uma masculinidade que combinava com o perfume que tornava o ambiente altamente atraente.

Só percebi que ainda estava de mãos dadas com meu chefe quando ele me soltou e fechou a porta.

- Obrigado, estou tão aliviado que não sei sequer como agradecer...

- Ela disse que vai ter uma festa?

- Sim, só para familiares e amigos íntimos.

- Essas pessoas não conhecem a verdadeira Daniela?

- Não, a Daniela nasceu aqui em São Paulo, eu sou de Ipiaú, uma pequena cidade no sul da Bahia. Meus parentes que moram aqui agora só conhecem a mesma Daniela que a minha filha conhece, uma moça tímida que detestava fotografias e que me deixou para seguir a vocação.

- Você engana todo mundo? É isso?

- Eu mataria todo mundo pela minha filha, quanto mais mentir. Minto e não me arrependo, meu arrependimento maior foi não ter dito que a mãe tinha morrido, mas pensei que se ela voltasse isso seria complicado.

- E se ela voltar agora? Vier para a festa, por exemplo?

- Daniela se casou com um turco e vive na Europa. Pelo que sei, há filhos e a menor vontade de lembrar que existe alguém aqui com seu sangue...

- Agora a pouco você me disse que não fazia ideia de onde essa mãe estava e...

- Eu menti, gostou? Eu teria te contado qualquer história que fizesse você fingir que era a mãe dela. Você tem o mesmo nome, isso é um trunfo...

- Você me trouxe aqui com esse objetivo? - O encarei e ele riu.

- Não, mas cheguei a pensar nisso enquanto estávamos no carro. Tem mais...

- Mais? - Meneei a cabeça.

- Eu sou apaixonado por minha esposa, qualquer mulher nesse período foi apenas necessidade física, por isso nunca casei, nem tive namoradas. Na realidade não quero que minha filha tenha uma madrasta.

- E a Daniela te largou? E você sofre por isso, sei...

- Não, eu pinto nosso relacionamento como uma espera, então vou ter de colocar a mão na sua cintura durante a festa...

- Você o quê?

- Te abraçar, te olhar assim... - Ele se aproximou de mim e o olhar dele foi tão carregado de desejo que quase caí sentada no chão.

- Nada de abraços... - Tentei me manter segura.

- Dois meses e você contrata e demite quem quiser. Pode cuidar de cada detalhe do seu projeto para a empresa.

- Quem eu quiser?

- Se minha mão puder ficar assim durante alguns momentos... - A mão dele acarinhou minha cintura, meu olhar pousou na boca rosada. - Você pegou o espírito. Quem te vê agora até acha que você quer me beijar.

- Você está louco! - Soltei a mão dele da minha cintura e senti que ainda queimava com o toque, naquele momento parecia uma adolescente tola e impressionável.

- Apenas te elogiei.

- Sua mão na minha cintura só quando tiver gente presente. Eu quero três meses para apresentar lucro e você demite aquelas modeletes que você contratou.

- Certo. - Ele estendeu a mão num gesto de acordo, que eu correspondi. - Há um banheiro ali, naquela porta, nesse lado do closet tem algumas peças femininas, agulha e linhas, ajuste alguma que combine com seus sapatos. Quero ver se você é tão boa costureira quanto é chantagista. Eu te espero lá embaixo e, mais uma vez, obrigado.

Ele saiu fechando a porta atrás de si, peguei um dos vestidos e comecei a ajustá-lo na minha cintura.

Mal sabia naquele momento que a gente só escolhe começar a mentir. Não há o menor controle sobre quando parar.

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