À tarde, Daniela Lawson passou pelos portões da prisão sob o sol forte.
Ela nunca imaginou que sobreviveria a cinco anos de sofrimento atrás das grades, mas agora, estava saindo de lá viva.
O sol forte a atingia sem piedade, deixando sua visão turva.
Cinco anos atrás, ela havia entrado na prisão com a mesma camiseta barata que usava hoje, agora frouxa em seu corpo magro.
Seus dedos se apertaram na carteira de motorista, a única coisa que ela possuía nesse momento.
Quando as autoridades informaram a família Lawson sobre sua libertação, uma semana antes, Daniela sentiu uma ponta de esperança. Apesar do desprezo deles, ela se apegava à ideia de que o sangue que compartilhavam poderia, ao menos, render-lhe um pouco de dignidade.
No entanto, a realidade provou o contrário: nenhum membro da família Lawson apareceu para buscá-la.
Um olhar frio surgiu nos olhos de Daniela.
Afinal, quem daria as boas-vindas a um bode expiatório?
Para os Lawson, ela não passava de uma conveniência. Então, por que raios alguém estaria esperando para recebê-la?
Justo quando ela dava o primeiro passo de volta para a cidade, o rugido ensurdecedor de um motor rasgou o silêncio logo atrás dela.
Um Lamborghini vermelho brilhante se aproximou como uma chama furiosa, e com um guincho agudo, parou bem na frente dela, bloqueando seu caminho.
O vidro fumê desceu devagar, revelando o mesmo rosto que a visitara em sonhos tantas vezes ao longo dos anos, mas que agora só a enchia de pavor.
Erik Oliver, o homem que um dia foi seu noivo.
Um par de óculos escuros cobria seus olhos, enquanto uma expressão sombria e fria estampava seu rosto.
"Entre", ele ordenou em um tom baixo e gélido.
O coração de Daniela disparou.
Ela jamais esperou que Erik viesse buscá-la. Após cinco anos sem uma única visita ou resposta a suas cartas, ela tinha certeza de que ele a desprezava.
Será que a aparição dele hoje significava que ele finalmente estava disposto a ouvir sua versão da história?
Ela esticou a mão trêmula para abrir a porta e soltou a pergunta com um fio de voz: "Como Madeline está?"
Há cinco anos, Khloe Lawson, a filha adotiva da família, atropelou Madeline Oliver, a sobrinha predileta de Erik, enquanto dirigia em alta velocidade, mas em vez de assumir o erro, ela usou Daniela, a filha biológica recém-encontrada, como bode expiatório.
Num arranco violento, o carro disparou, esmagando Daniela contra o assento.
"E você ainda tem a audácia de perguntar sobre Madeline?" A voz de Erik era um fio de gelo, transbordando de puro ódio. "Daniela, cinco anos se passaram. Não me diga que você ainda se recusa a admitir o que fez."
Ao passo que ele falava, o velocímetro subia cada vez mais.
Com o rosto pálido, Daniela segurava com força a maçaneta ao seu lado. "Erik, por favor, vá mais devagar. Só me ouça. Eu não tenho nenhuma culpa pelo que aconteceu. Foi Khloe quem me enganou para..."
"Chega!", gritou Erik, se virando abruptamente para ela. "Khloe quase morreu tentando salvar Madeline! E o que você fez? Você a atropelou e fugiu. Você destruiu o futuro de Madeline! Ela ainda está na UTI como um vegetal, mas você continua tentando culpar Khloe por tudo?"
"Estou dizendo a verdade! Não havia câmeras de vigilância lá naquele dia. Elas se uniram para me incriminar!", exclamou Daniela com os olhos vermelhos, tentando se defender desesperadamente.
"Te incriminaram?" Erik soltou uma risada zombeteira. "Todos testemunharam o que aconteceu, e você ainda está tentando negar?"
Num giro brusco do volante, o carro derrapou, jogando a cabeça de Daniela contra o vidro com um baque pesado.
Apesar de ver o quão miserável ela estava, não havia um traço de compaixão nos olhos de Erik. "Daniela, você realmente acha que vim aqui porque ainda tenho sentimentos por você? Vou te fazer entender uma coisa: uma assassina como você não merece uma segunda chance."
Tomada pelo medo, Daniela ignorou a dor latejante na sua testa. "Para onde está me levando?"
"Hoje é o dia em que vou ficar noivo de Khloe", disse Erik devagar e com clareza, e cada palavra que ele proferia atingia Daniela como uma facada no coração. "Diante de todas as famílias de elite de Kladbert, você se ajoelhará diante de Khloe e admitirá tudo o que fez. Se sua atitude for boa o suficiente, posso considerar te mostrar um pouco de misericórdia e te dar uma saída."
Daniela estacou como se tivesse sido atingida por um raio, sentindo o sangue nas veias congelar instantaneamente.
Cinco anos de prisão injusta e tortura desumana... E agora, Khloe, a verdadeira culpada, não só roubou sua identidade, mas ainda queria tirar dela o seu único amor?
"Você vai ficar noivo dela mesmo?", perguntou Daniela, com a voz carregada de descrença.
"Que outra opção há?" Virando-se para ela, Erik a olhou com um desgosto evidente, como se ela fosse algo sem valor algum. "Você realmente espera que eu te perdoe e me case com alguém como você? Daniela, esses cinco anos na prisão foram o que você devia a Khloe. Também foi o que você devia à família Oliver. E, de agora em diante, farei com que seu sofrimento continue."
O Lamborghini que Erik dirigia parou bruscamente em frente à Propriedade Lawson.
Daniela abriu a porta, mas, antes que pudesse sair, sentiu-se empurrada para fora com violência.
"Saia! Não suja meu carro!", disse Erik num tom gélido.
Sem conseguir se equilibrar, Daniela foi ao chão com um baque surdo.
A entrada da propriedade estava enlameada por causa da chuva da noite anterior. Ao cair, a camiseta velha de Daniela encharcou instantaneamente, salpicando água suja em seu rosto pálido.
Daniela apoiou as mãos no chão para se levantar, completamente desalinhada e enlameada. Antes que conseguisse ficar de pé, ouviu uma risada abafada vinda de cima e a voz de um homem: "O que foi isso? Você acabou de sair da prisão e já está fazendo uma entrada tão dramática assim?"
Erguendo a cabeça, Daniela viu seu irmão mais velho, Jeff Lawson, parado nos degraus, a olhando de cima com uma expressão cheia de desprezo.
"Oi, Daniela!" Em seguida, uma mulher elegante vestida de branco se aproximou dela.
Khloe usava um vestido luxuoso sob medida, cujas camadas de renda brilhavam sob o sol, fazendo-a parecer pura e intocável.
Ela estendeu a mão como se quisesse ajudar Daniela, mas, ao ver a lama, recuou com um leve estremecimento de nojo. Em um piscar de olhos, seus olhos já estavam vermelhos e marejados. "Daniela, o que aconteceu com você? Erik, por que deixou Daniela cair? Ela acabou de sair da prisão e já está tão fraca assim..."
Erik desceu do carro e foi direto até Khloe, passando o braço por sua cintura. "Khloe, você é gentil até demais. Alguém tão cruel como Daniela merece ser jogada na lama."
Daniela limpou a lama do rosto e, ao se erguer lentamente, um sorriso amargo curvou seus lábios.
"Khloe, ainda está fazendo esse teatrinho?", perguntou Daniela com os olhos calmos e a voz rouca, sem demonstrar muita emoção. "Nos últimos cinco anos, ninguém da família Lawson me visitou na prisão. Mas agora que voltei, todos vocês estão fazendo questão de me receber. Só para terem mais uma oportunidade de me humilhar, não é?"
"Daniela, por que acha isso?" Com uma expressão magoada no rosto, Khloe mordeu o lábio inferior e apontou para o enorme bolo de três andares atrás dela. "Hoje não é só minha festa de noivado. É também seu..."
Antes que Khloe pudesse terminar de falar, Jeff a interrompeu num tom de impaciência evidente. "Por que está dando atenção para ela? Khloe, não deixe que uma pessoa como ela estrague seu dia especial. Vamos terminar a cerimônia, cortar o bolo e depois mandá-la para se limpar. Ninguém quer vê-la assim."
Com gestos graciosos, Khloe pegou uma taça de vinho tinto e a ofereceu a Daniela com as duas mãos, sorridente. "Daniela, beba um pouco. Desejo a mim mesma a felicidade, e desejo a você... um novo começo."
Daniela encarou a taça de vinho com repulsa, mas foram as palavras dela que cravaram uma dor aguda em seu peito.
Há cinco anos, neste mesmo dia, ela era espancada na prisão até não aguentar mais viver.
Hoje, cinco anos depois, eles a forçavam a comparecer à festa de noivado de sua rival e ainda exigiam que ela bebesse o vinho que a própria Khloe lhe oferecia.
"Fique com esse vinho, Khloe!" Daniela a encarou com um olhar penetrante e, num movimento brusco, arremessou a bebida em seu rosto.
O vinho encharcou o cabelo de Khloe e escorreu por seu rosto, destruindo em segundos sua maquiagem impecável, enquanto manchas escuras se espalhavam pelo vestido caro.
"Daniela! Você foi longe demais!", gritou Jeff, avançando e erguendo a mão para lhe dar um tapa.
Por puro instinto, Daniela se afastou rapidamente, evitando o ataque. "Eu fui longe demais? Cinco anos atrás, Khloe atropelou Madeline enquanto dirigia em alta velocidade e me pediu para assumir a responsabilidade por ela. Quando todos vocês se uniram para me mandar para a prisão só para proteger a reputação da família Lawson, algum de vocês parou para pensar que também havia ido longe demais?"
"Já chega!" Com o rosto tomado pela raiva, Erik agarrou Daniela pelo pescoço e a pressionou contra a parede fria. "As evidências estavam bem diante de todos, e você ainda continua culpando Khloe? Uma pessoa como você deveria ficar na prisão pelo resto da vida, Daniela!"
Ofegante, Daniela o encarou sem recuar. Apesar da falta de ar, sua voz soou firme: "Erik, pense com cuidado. Madeline ainda está viva. Se me deixar ajudá-la, ela poderá acordar."
O silêncio tomou conta do local por um momento, depois foi quebrado por uma risada alta e cheia de zombaria.
"Você pode ajudá-la?", perguntou Jeff com escárnio, como se tivesse acabado de ouvir algo absurdo. "Daniela, esses cinco anos na prisão acabaram com a sua cabeça? Os melhores médicos de Kladbert não encontraram uma solução. Você acabou de sair da prisão. O que te faz pensar que pode dizer algo tão ridículo?"
A repulsa no olhar de Erik era palpável. Ele a soltou de uma vez, empurrando-a para longe como se ela fosse algo nojento. "Você diz qualquer coisa só para ficar com a família Lawson. Você é repugnante."
Daniela desabou no chão, tomada por uma tosse violenta.
Lentamente, seus olhos varreram os rostos à sua frente - pessoas que deveriam ser sua família. Entre eles, Erik, o homem que ela amara mais que a própria vida.
Nesse momento, tudo o que restava para ela era o desespero.
Após um longo silêncio, Daniela se levantou, sua postura ereta. "Está bem. Se nenhum de vocês acredita em mim, então não há mais nada a dizer. De hoje em diante, não tenho mais nada a ver com a família Lawson."
Dito isso, ela se virou e começou a caminhar em direção aos portões da Propriedade Lawson.
"Daniela! No momento em que você sair daqui, não venha rastejando e implorando pelo nosso perdão depois!", Jeff gritou furiosamente atrás dela.
O segundo irmão de Daniela, Cade Lawson, jogou uma mochila preta desgastada no chão à frente dela. "Pegue seu lixo e saia!"
Gavin Lawson, seu irmão mais novo, a olhou com um rancor evidente. "Vá se foder."
Sem olhar para trás, Daniela continuou andando. Não perderia mais um segundo nesse lugar que já não era seu lar!
Quanto àquilo que lhe deviam, um dia ela faria cada um deles se ajoelhar e implorar por seu perdão.
Daniela parou em uma loja para comprar roupas novas e carregar o celular.
Ao trocar as vestes sujas, sentiu como se um peso saísse de seus ombros, e seu ânimo finalmente melhorou.
Mal Daniela saiu da loja, o celular tocou. Ao ver o número familiar na tela, ela suspirou aliviada e atendeu. "Alô."
"Daniela! É você?" A voz do homem do outro lado da linha tremeu, e ele tentou segurar a emoção. "Aqui é Shawn. Fiquei sabendo que te soltaram hoje... Me perdoa. Não consegui ir te buscar."
Shawn Marsh era presidente do Grupo Marsh e herdeiro da família Marsh, uma das famílias mais respeitadas de Kladbert. Anos atrás, na prisão, Daniela havia salvado a vida dele.
"Tudo bem", respondeu Daniela, sem demonstrar qualquer emoção.
"Daniela, meu avô está morrendo", continuou Shawn em um tom baixo. "Os especialistas do mundo inteiro disseram que ele está em estado grave. Acreditam que ele não aguentará até esta noite. Sei que este não é o momento certo, mas... se há alguém que pode salvá-lo, essa pessoa é você."
Um sorriso leve e frio surgiu nos lábios de Daniela.
Enquanto a família Lawson a odiava e Erik a considerava uma assassina, um dos homens mais influentes do mundo estava implorando por sua ajuda.
"Me mande o endereço", disse ela.
...
Na manhã seguinte, Daniela chegou à mansão do Condomínio Skyline, um empreendimento de alto padrão.
Assim que ela entrou no corredor, uma mulher elegante se aproximou dela com vários seguranças.
Janice Marsh, a mãe de Shawn, a analisou de cima a baixo, até que seu olhar pousou nos tênis gastos dela.
"Shawn, é essa a médica maravilhosa que você tanto elogiou?" Janice soltou uma risada sarcástica, apontando o dedo para Daniela e descontando a raiva no filho. "A cadeia te deixou maluco? Trouxe uma garota de vinte e poucos anos para tratar o seu avô? Olha pra ela! Parece que está passando fome! Duvido muito que essa aí já tenha segurado num bisturi!"
"Mãe, cuidado com o que fala!" Shawn deu um passo à frente, protegendo Daniela atrás de si, e fuzilou a mãe com o olhar. "Daniela é aluna da senhorita Foster. Eu vi com meus próprios olhos do que ela é capaz!"
"Ianna Foster?", perguntou Janice com uma risada fria. "Aquela tal de 'Mão Fantasma' que desapareceu há sete anos? Como você tem certeza de que ela é aluna dela mesmo? Shawn, seu avô está tendo um ataque cardíaco agora. Os melhores especialistas do mundo estão lá dentro fazendo tudo o que podem para salvá-lo. Você quer mesmo trazer uma ex-presidiária para lá e colocar toda a família Marsh em risco?"
Sem demonstrar a menor emoção, Daniela tirou do bolso do casaco um frasco de porcelana branca, abrindo a tampa com a ponta dos dedos.
"Este é o Elixir da Vida, feito pela senhorita Foster." Olhando fixamente para Janice, Daniela continuou: "Se você me deixar aqui por mais três segundos, o monitor cardíaco do paciente parará. E quando isso acontecer, você será a responsável por causar um desastre para a família Marsh."
"O quê?!" A pressão que Daniela emanava pegou Janice desprevenida. Antes que ela percebesse, já havia dado um passo para trás.
Nesse momento, um alarme agudo de um aparelho soou de dentro da sala onde o avô de Shawn estava.
O médico que cuidava do velho gritou, tenso: "O paciente parou de respirar! Preparem o desfibrilador!"
Sem dizer mais nada, Daniela passou direto por Janice e abriu a porta.
"Quem é você? Saia agora mesmo!", gritou o médico, com o suor escorrendo pelo rosto.
"Shawn, tire todos da sala", disse Daniela, sem se virar enquanto ia em direção à mesa de cirurgia.
Um olhar severo surgiu nos olhos de Shawn. Com um gesto seco, ele ordenou aos seguranças que tirassem da sala todos os médicos que haviam se oposto a Daniela.
Sob as luzes cirúrgicas, a postura de Daniela mudou por completo.
Após colocar uma máscara, pegou o bisturi, e seus olhos ficaram firmes.
"Corte", ela disse em um tom calmo e sem qualquer emoção.
Com o peito aberto, o coração de Shawn estava à vista. À beira do colapso e coberto de cicatrizes, o órgão já não batia, parecendo apenas um pedaço de carne inerte.
"O coração dele já está destruído. Ele não sobreviverá a mais um procedimento", explicou o assistente ao lado dela com a voz trêmula. "Senhorita Lawson, não há como continuarmos..."
Daniela respondeu, com a voz firme e absoluta: "Enquanto eu estiver aqui, ele não morrerá!"