5 anos atrás
_ Ainda obcecado por essa nova invenção Rodolfo?
_ Querida, eu prometo que acabarei logo e lhe darei toda a atenção que merece!
Ela saiu chateada pois queria apenas que o marido lhe desse pelo menos cinco minutos do seu tempo.
Alice casou-se com Rodolfo há três anos atrás depois de alguns anos de namoro, apaixonados tudo era lindo entre eles, até Rodolfo ser contratado pelo governo presidencial!
Sua inteligência não passou despercebida a casa branca, sua mentalidade moderna e a frente de seu tempo fez com quê grandes nomes ficassem de olho nele.
Há dois anos ele estava focado nessa máquina que segundo ele faria com que pessoas ruins, assassinos, estupradores, até mesmo psicopatas mudassem, a máquina prometia mexer com o córtex cerebral e transformar qualquer lobo em cordeiro.
Uma notícia fez com quê ele parece esse intento por um tempo, a vinda de seu pai, o grande Paulo, CEO da multinacional em robótica mais conceituada do mundo.
Por dois anos Paulo ficou ao lado do pai, que tinha um grande projeto em mente, uma pequena cidade foi criada, e essa cidade era imperceptível, isso mesmo. Uma cidade invisível! Rodolfo não fazia ideia de para quê serviria aquilo, mas sabia que em se tratando de seu pai não seria para coisa simples.
3 ANOS DEPOIS
_ Rodolfo, corre, Alice entrou em trabalho de parto!
No hospital Alice se contorcia em dores, parecia que algo a queria dilacerar por dentro, seus órgãos estavam a ponto de explodir.
_ Força ! Gritava uma voz que ela não reconhecia.
Mas ela já não tinha forças, queria apenas dormir e esquecer aquela dor .
Rodolfo chega ansioso ao hospital a procura de sua esposa, sai empurrando a todos no caminho e encontra alice quase desmaiando na cama fria de parto. Ele segura a mão dela e a beija com carinho
_ Estou aqui querida. Com vocês duas. Você consegue
A voz dele e o calor deram a Alice a coragem e força que precisava e ela empurrou, empurrou até sentir a cabeça do bebê rasgando sua vagina, a dor era enorme, mas assim que a criança saiu e ela ouviu seu choro forte acabou, não tinha mais dor e nem nada .
_ Ela é tão linda amor!
_ Nossa Marissa.
2 ANOS DEPOIS
Marissa era simplesmente uma criança adorável, nunca deu trabalho e quem a conhecia se encantava com sua doçura e beleza, mais parecia uma criança!
Um dia pouco depois de seu aniversário de dois anos, curiosa ela correu até o laboratório do pai , Rodolfo estava absorto em suas tarefas e não viu a filha entrar, ele havia novamente começado a trabalhar em sua antiga invenção. Mas não mais para o governo, ele ouviu rumores sobre uma intervenção que fariam e sabia que se tivessem ciência de tal invento usariam de forma errada, e Rodolfo nunca quis isso, tudo que quer é ajudar a humanidade, não se aproveitar dela como o governo tem feito.
Rodolfo girou a manivela com cuidado e colocou o líquido químico dentro de uma esfera no centro da máquina, o barulho acabou assustando a pequena Marissa que caiu em cima da alavanca que por sua vez derrubou a esfera a deixando em pedaços, os vidros cortaram a menina a fazendo chorar e gritar, o sangue dela entrou em contato com o líquido e o líquido foi misturado a seu sangue dentro do restante da máquina. Ouve estalos e tudo apagou, para depois reacender em cores mais vividas.
Marissa desmaiou e seu pai correu com ela dali em desespero.
No hospital os médicos disseram que ela estava bem e que não sofreu nenhum dano permanente, Marissa já era inteligente e falante, porém falava errado próprio das crianças de sua idade, depois do acidente no laboratório, a fala dela mudou por inteiro, conversava feito gente grande, suas maneiras eram de alguém que sabia mais que todos.
No começo ficaram assustados com aquilo, sua filha parecia agora uma velha de 40 anos, ciente de tudo.
Rodolfo e Paulo fizeram estudos com ela e perceberam que a máquina de Rodolfo não só funcionava como agora estava ligada a menina para sempre!
_ Temos que esconder isso Rodolfo, se descobrem o que inventou, a humanidade estará perdida e Marissa também.
_ Ninguém vai usar minha filha de cobaia.
A maquina foi guardada a sete chaves em uma Câmara secreta que só os dois tinham acesso, e Marissa foi sendo educada e criada em casa, tendo ótimos professores. Paulo, Rodolfo e Alice grandes nomes da ciência e tecnologia.
1 ANO DEPOIS
_ Vocês não podem fazer isso.
Gritava Rodolfo enquanto dois soldados seguravam seus braços.
_ Já fizemos, o golpe já é fato, é apenas questão de tempo.
Os ditadores militares que planejavam o golpe contra o estado, levaram a máquina de Rodolfo e prometeram voltar para buscá-lo caso não se apresentasse de bom grado.
Eles não podiam saber o que a máquina fazia, quem poderia ter contado? Algum espião em casa? Escutas? Nada espantava vindo desses homens .
Para evitar danos maiores, Rodolfo pegou sua esposa Alice embarcou em um avião e partiu , deixando sua filha aos cuidados do pai, no único lugar seguro para ela, a cidade invisível.
O motivo dele próprio não ter ido com ela era claro, ele precisava achar um meio de parar o golpe antes de acontecer e a filha tinha que estar a salvo, ela era a única que poderia parar a máquina e seus efeitos, pois ela propria fazia parte da inversão.
O avião de Rodolfo caiu e nunca mais foi visto, o que será que aconteceu? E quanto a pequena Marissa?
Esse é só um começo de uma aventura incrível e repleta de emoções. Romance, paixão a flor da pele, drama, suspense, mistério, mortes. Nossa heroína está apenas começando sua jornada.
Em um futuro distante, onde a tecnologia avançada tomou conta da humanidade, robôs quase humanos eram vistos na rua, usados para quase tudo, Marissa filha de um dos cientistas mais renomados da história brasileira e neta do mais famoso empresário do ramo da biotecnologia genética.
Depois de um incidente que sofreu no laboratório do pai, ela se tornou uma espécie de super gênio, por causa deste projeto denominado módulo, seus pais foram perseguidos, e outros mais como eles, deixada sozinha, apenas com robôs, ela foi ensinada a ser e fazer tudo quanto lhe fosse possível, trancada em uma casa que se teletransporta e é invisível, ela terá que testar seus limites e convencer aos outros de fora que ela é a solução para todos, Acuada, sem experiência nenhuma para lidar com outros humanos ela conhece Alonso, juntos eles vão enfrentar o governo amarelo, e também a avassaladora paixão que se instala entre eles.
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Marissa
Fecho os olhos e peço com todas as forças que tenho: _ Que seja Um sonho, que seja um sonho! Mas não é, não entendo o que está acontecendo de cara.
Lá fora ouço gritos, passos, coisas batendo, as pessoas estão morrendo. Não, elas estão sendo assassinadas.
Meu avô foi bem claro:_ Não saia daí Marissa, seja uma boa menina, eu volto logo!
_ Mas vovô, estou com medo! Respondi com minha voz infantil cheia de lágrimas.
Lá fora os soldados matavam pessoas como gados em um abatedouro, aviões lançavam suas bombas e substâncias estranhas por toda a parte, e em algum lugar que já não era perceptível uma menina de olhos cor de mel, longos cabelos avermelhados, pele pálida, assistia a tudo com os olhos vidrados de pavor através de suas janelas. Embora tivesse apenas 5 anos ela já sabia que seu futuro não seria fácil e que teria que acabar com aquilo.
_ Vovô, vovô, onde você está? estou com medo.
E adormeci depois de chorar horas a fio.
Durante seu sono Marissa teve uma pequena lembrança.
" _ Rá, rá,rá, você não me pega mamãe, não me pega. Gritava uma vozinha por trás do sofá.
Era eu um pouco menor, essa é uma das poucas lembranças que eu tenho com a minha mãe.
Meu nome é Marissa Real, tenho 23 anos e sobrevivi ao extermínio.
Voltando ao início, eu tinha 3 anos quando meus pais sumiram, eles foram resolver questões de trabalho e nunca mais ninguém soube deles. Eu ainda lembro o cheiro dela, da mamãe e as vezes parece que ouço sua voz me chamar. Minha família era dona da maior rede de empresas voltadas para a tecnologia biogenética e robótica, junto com outras empresas e com o governo produziam os remédios e curas de todas possíveis doenças que houvesse. O meu pai era o mais inspirador cientista do país, ele descobriu como associar uma toxina a hipnose para que juntos pudessem modificar e redirecionar os pensamentos de pessoas com problemas mentais graves, psicopatas, assassinos, não haveria mais maldade no mundo, aquela descoberta revolucionária o mundo, os mais temidos criminosos agora refeitos, a paz reinaria, era aquilo que meu pai queria, um mundo melhor, livre da crueldade humana. Mas ao verem os resultados dos testes o governo junto com o Centro de Administração de doenças(CDA) resolveu tomar a frente e roubar o projeto do meu pai dando início a uma cruel reviravolta aos planos de meu pai. O governo federal junto com o CDA se intitularam de governo amarelo, e começaram a manipular as pessoas com a toxina, meu pai como tantos outros tentaram impedir, mas foi em vão, foram perseguidos por este governo para serem obrigados a colaborar, ele seria o mais precioso dos prisioneiros, pois se ele inventou aquilo também podia parar.
Meus pais fugiram de avião com outros cientistas, mas logo a notícia de que o avião caiu se espalhou e nós achamos que eles estavam mortos, então fiquei sem meus pais. Vovô cuidou de mim o quanto pode, estava sempre fora, eu passava muito tempo com os empregados e com robôs, especialmente a Penélope a babá robô que vovô me deu, ele nunca tinha tempo pra mim, isso me magoava, mas eu entendia e hoje sei que ele estava simplesmente cuidando de mim e da humanidade, dele dependiam muitas coisas.
Vovô trabalhou durante um ano inteiro em um novo projeto, eu via muitas pessoas na nossa casa e via ela crescer cada vez mais, usou todas as formas de tecnologias, projetou uma enorme cidade rodeando nossa casa, onde robôs faziam de tudo, plantavam, construíam, cavavam poços, cuidavam de animais, enfim uma cidade com todo tipo de coisas possíveis.
Tudo isso ele fez dentro de uma imensa bolha invisível de algum tipo de plástico, incapaz de ser vista e capaz de mudar de lugar instantaneamente, era um lugar assim que precisaríamos, Dentro desta cúpula havia também um hospital, armazéns, celeiros, até rios e riachos, com certeza vovô sabia o que iria acontecer em breve.
Dois anos depois de meus pais sumirem, o governo amarelo resolveu então agir.
Era meu aniversário de 5 anos, eu já havia aprendido a ler, escrever e até já sabia consertar coisas e fazer experimentos. Estava esperando meu avô chegar, ele havia prometido que traria um bolo para mim, estava muito animada.
Mas de repente alguma coisa mudou, a calmaria se desfez, de dentro de casa eu posso ouvir e ver tudo que acontece lá fora até alguns quarteirões depois , devido às câmeras que vovô instalou por toda a cidade, vovô disse que ninguém poderia me ver ou achar desde que a bolha invisível estivesse ligada, eu não entendia bem porque não podiam me ver, até os empregados foram dispensados, apenas eu e ele ficamos na casa com os robôs.
Penélope a robô babá me tirou da janela, não quer que eu veja alguma coisa, mas eu sei que tem alguma coisa acontecendo lá fora.
_Cadê meu avô, Penny? onde ele está? O que tem lá fora?
Mas ela não respondia nada, robô estúpido, pensei em voz alta, a casa começou a fazer um barulho estranho, era como se ganhasse vida, luzes vermelhas piscavam por toda a parte, uma voz robótica me assustou dizendo:
_ MO DO DE SE GU RAN ÇA EX TRE MO A TI VA DO .
Meu medo foi aumentando, aquilo não podia ser bom, apesar de ter um K.I acima da média para minha idade eu era apenas uma criança. Enfim vovô apareceu, mas logo se foi novamente:
_ Fique aí Marissa, seja uma boa menina.
Se eu soubesse que aquela seria a última vez que o veria, e o que ele iria fazer por mim, eu teria o abraçado e dito o quanto o amava, mas como eu podia adivinhar?
_ Vovô o que houve? onde você vai? não me deixe aqui, eu tô com medo.
_ Não se preocupe querida, ninguém pode entrar aqui, vai ficar tudo bem, me prometa Marissa, você vai fazer tudo o que os robôs disserem, pegue fique com isto, faça tudo o que tem nele, eu te amo florzinha.
_ Não vovô, não me deixe.
_ Prometa querida, agora.
_ Eu prometo vovô, mas não vá, fique comigo.
_ Eu tenho que ir, tenho que avisar aos outros que começou, não esqueça Marissa, leia isto.
Eu sabia no fundo que nunca mais iria ver meu avô, fui deixada de novo sozinha por quem eu amo. Tentei no meu desespero infantil seguir meu avô, mas fui impedida por uma espécie de campo de força invisível, que não me deixou passar, ao insistir tomei um choque, foi o suficiente para me fazer parar, chorei por quase dois dias, sem comer ou beber nada, adormeci não sei em que momento, cansada, com fome e sede, sozinha e com medo.
Abro os olhos com esforço, a claridade repentina incomoda os meus olhos, onde estou? um tubo de soro pende sobre minha cabeça. Não lembro direito, é uma espécie de enfermaria. Ah É claro o hospital, os robôs médicos estavam cuidando de mim, mas não falariam nada sem os comandos certos, vovô já me ensinou como falar com eles.
_ Diagnóstico?
_ A senhorita sofreu um leve impacto devido a barreira protetora da casa, mas não teve nenhum dano grave, no entanto se encontrava desidratada devido ao seu choro e falta de líquidos ingeridos, já foi devidamente examinada e hidratada, agora precisa tomar as vitaminas e se alimentar.
_ Dispensado.
Não consigo pensar claramente ainda e aqueles olhos frios me deixavam mais nervosa, o que está acontecendo lá fora é muito sério, não é uma simples simulação do vovô, o que houve? para onde meu avô foi? e por que justo eu tinha que ficar presa aqui com essas latas velhas? Eu só queria brincar, ler um livro e comer quantos doces pudesse.
Fico ali deitada pelo que parece horas, ponderando o tanto quanto uma criança mesmo super dotada de inteligência pudesse, eu não sei o que e nem quando houve, mas sei que um dia alguma coisa mudou em mim e eu passei a pensar mais claramente e entender coisas que antes eu não entendia, e isso foi antes dos meus pais sumirem. Algo despertou em mim e era como se eu fosse capaz de fazer e ser qualquer coisa.
Alguns dias depois estou totalmente regenerada e os robôs me liberam da enfermaria, Sarah é a robô chefe do hospital, ela foi programada para socorrer e fazer qualquer procedimento necessário, desde tratar uma gripe a colar um osso no lugar, Penny minha robô babá, não desgrudava de mim, foi feita para cuidar, mimar, proteger e cuidar de uma criança como uma mãe faria.
No começo me sinto como em um pesadelo sem fim, meu avô não voltava nunca e eu sentia sua falta, de repente um pensamento me toma, o caderno que vovô me deixou, leia Marissa, prometa!
saio correndo do hospital e vou para casa, Penny me segue preocupada com meu rompante, se é que é possível um robô se preocupar. Entro na casa é procuro o caderno, encontro ele na mesinha de centro, no mesmo lugar que o deixei, o pego nas mãos como se fosse uma varinha mágica que fosse me devolver tudo que perdi.
Começo a ler com toda calma e cuidado, nele há muitas folhas, com certeza vovô levou bastante tempo para faze-lo, nas primeiras páginas um aviso, não leia além do que for permitido.
Eu leria apenas o necessário por dia, e haviam outros diários como aquele que os robôs só poderiam me entregar a cada aniversario.
Naquele primeiro caderno vovô me explicou o que aconteceu lá fora, tomando cuidado com as palavras e termos para não me assustar, disse que eu não poderei sair desta casa até fazer 22 anos, que terei que cuidar de tudo junto com os robôs e que terei que aprender todas as coisas que me forem mandadas, eu não me achei capaz daquilo, mas vovô me disse que eu era a super heroína que iria salvar o mundo, o anjo enviado para restaurar a paz e o amor. Aquilo me fez querer obedecer ao pé da letra tudo que ele me pedia.
O tempo ia passando e eu aprendia muito rápido, cada matéria, cada ciência, cada poesia, lenda e história da humanidade, meu cérebro armazenava as informações com perfeição absoluta e eu jamais esquecia de nada uma vez que aprendia, pelo contrário, encontrava modos de aperfeiçoar o que aprendia.
Pelas minhas janelas eu via o tempo passar incólume, sem se preocupar com a devastação que deixava atrás de si. Vi Tanta desgraça, tanta morte, tantos pedidos de ajuda, me desesperei todas as vezes sem nada poder fazer. Quando isso acontecia Penny desligava as telas e mudava a casa de lugar, para um lugar onde não havia ninguém, mas não importava para onde íamos, a morte nos seguia com seu hálito frio e uma hora ou outra eu voltava a ver pessoas pedindo ajuda na minha frente, sem sequer saberem que eu estava ali.
Hoje fazem exatamente 5 anos desde que tudo começou, e assim aprendendo, vendo, sofrendo e sozinha, passei estes últimos anos, meu avô não voltou e nem poderia me achar já que nem eu sei onde estou exatamente, aprendi observando o que o governo amarelo fazia, entendi coisas e ações que os de fora não entendiam, apenas pessoas escolhidas a dedo eram deixadas vivas, pessoas que pudessem contribuir de alguma forma por bem ou por mal como, médicos, cientistas, guerreiros que pudessem treinar seus soldados, engenheiros químicos ou civis e etc.
As pessoas comuns eram perseguidas e mortas, a menos que se submetessem a lavagem cerebral do CDA, os jovens mais fortes eram levados e lavados a força, mas então comecei a perceber que os soldados não duravam muito, enlouqueciam e tinham que ser substituídos, então começaram a levar grávidas e crianças, todas que encontravam de 5 anos para baixo eram levadas a força, logo esse padrão se estabeleceu, os adultos agora eram mortos ou deixados para morrer, e só as crianças e mulheres grávidas eram levadas, depois começaram a levar jovens mulheres, apenas as mais bonitas.
Construí um robô drone e fiz com que ele fosse perto de um grupo que conversava próximo a minha casa sem sequer notar que ela estava ali, através dele pude ouvir que em adultos o módulo não funcionava perfeitamente, mas em crianças ele tinha 100% de eficácia e 0,02% de chance de danos neurológicos futuros.
Então era isso, os adultos já não eram necessários, apenas aqueles que seriam escravizados, deixavam alguns escapar para ter opção de reposição no futuro. O governo amarelo era terrível e implacável, o que fizeram com o módulo do meu pai foi imperdoável.
Aos 10 anos de idade comecei a fase "Z" que seria a primeira de muitas outras que viriam a seguir, os robôs drones foram liberados para sair em reconhecimento e colher mais informações, eles eram imperceptíveis, a tecnologia da bolha invisível estava neles então ninguém os veria, mas eles não duravam muito tempo, tinham que ser substituídos com frequência. Foi por um deles que descobri, que o governo amarelo possuía inúmeras bases, impenetráveis onde eram mantidas as crianças , presas em salas, vivendo em uma realidade virtual, nelas era injetada uma substância proveniente do módulo, e eram forçadas a ver e ouvir comandos por pelo menos 10 horas por dia, eram alimentadas e faziam exercícios para manterem o corpo ativo, enquanto seu cérebro era moldado de acordo com a vontade do CDA.
Cada criança teria sua utilidade, eram criadas para não sentir amor, compaixão, desejo, nada além de crueldade, feitos para obedecer seja qual fosse a ordem, soldados perfeitos, como aqueles que eu vi matando, e levando pessoas tantas vezes, só que sem riscos de surtos ou recaídas.
Algumas pessoas e crianças eram imunes a toxina, e por mais que o CDA tentasse os induzir, não conseguiam, os usaram como cobaias afim de descobrir o por que de sua imunidade, acabavam matando eles de tanto, abrir, extrair e fazer exames. Alguns mais espertos passaram a fingir, observavam como os verdadeiros soldados agiam e imitavam suas ações, assim muitos conseguiram fugir na primeira oportunidade e se juntar a resistência.
O governo amarelo junto com o CDA, criou outra toxina, capaz de inibir as sensações, para testar aqueles que eram imunes ao módulo quando eram capturados, os que eram pegos preferiam morrer a ser cobaia e logo conseguiam seu intento.
O governo amarelo da Rússia criou uma fumaça tóxica, que envenenava aos poucos o ar, a água, e acabava por matar qualquer coisa viva, inclusive as plantas e árvores, essa fumaça era lançada no ar todos os dias, apenas nos centros e bases deles que eram as cidades isoladas não havia essa fumaça, e ninguém poderia entrar nestas cidades que eram consideradas de segurança máxima. Portanto aqueles que estavam de fora logo morreriam também, os soldados eram os únicos que entravam e saiam das cidades usando trajes especiais para tal coisa, saiam em busca de pessoas e pistas de pessoas que o governo queria do seu lado.
A resistência crescia cada vez mais, de todos os países do mundo se ouvia falar dela, todos os países se juntaram em um só, tanto o partido do governo amarelo, tanto a resistência, eram agora um só lutando um contra o outro.
Enquanto o mundo se desfazia em caos e confusão, eu Marissa crescia intocada na minha própria cidade, sem poder sair para lutar, e sem ninguém nunca chegar perto o suficiente para eu ajudar, se bem que a casa não permitiria, das vezes que tentei ajudar alguém, ou trazer alguém ela mudava de lugar. As instruções eram claras, somente quando eu pudesse me defender e lidar com as pessoas seria viável deixá-las entrar.
Aos 15 anos já MULHER, aprendi todas as ciências humanas e naturais, tecnologia, engenharia robótica, civil, medicina, biologia, química, física, matemática, aprendi a falar as 5 línguas universais, psicologia, diplomacia e tudo quanto era possível aprender, aprender era só o que me restava, coisas que pessoas normais aprenderiam em anos eu levava apenas um mês, semanas. Meu maior passatempo agora era sexologia, minha curiosidade nessa área era enorme, haviam sensações desconhecidas para mim, que surgiram junto com meu corpo de mulher que eu não sabia decifrar.
Mas a solidão me matava, criei alguns robôs mais parecidos com gente, mais inteligentes, que conversavam como jovens da minha idade, as vezes eram legais nossas conversas, eles tinham raciocínio próprio, meu avô ficaria orgulhoso, papai também tenho certeza.
Foi divertido por alguns anos, mas logo o vazio voltava, ou alguma coisa acionava meu gatilho, passei a me concentrar mais ainda no meu corpo e na sociologia, fora as artes maciais e auto defesa, masturbação era meu passatempo preferido, era bom me sentir assim aliviada, até pensei criar um robô que fizesse tudo que aqueles homens dos filmes que vi faziam com as mulheres, mas não queria que minha primeira vez fosse assim, com uma máquina sem sentimento, eu quero me apaixonar e sentir o calor de um homem.
Fiz 18 e a cada dia queria aprender mais. Encantada com meu corpo, e feliz por ser tão bonita quanto as moças dos filmes e novelas, afinal isso contava nos filmes para que os mocinhos se apaixonassem e eu queria meu mocinho também.
Ultimamente tenho trabalhado em aperfeiçoar os drones e robôs, preciso começar a fase 2 e vou ter que visitar cada espaço desta cidade inteira para ver se está tudo em ordem, através das câmeras percebi que as casas estão precisando de manutenção, e que os pomares e fazendas estão meio largados, vou ter que organizar tudo isso antes de trazer alguém até aqui, preciso estar pronta para tudo.
Meu avô Pedro revolucionou a ciência quebrando as leis de espaço tempo para me salvar, foi seu último feito e eu lhe serei eternamente grata, eu já não achava que vovô voltaria, já era adulta agora e já entendia tudo o que aconteceu, meu palpite era que vovô foi morto como os outros pelos soldados, e se sobreviveu a está altura já estaria morto do mesmo jeito, nunca parei de procurar por ele, depois que aprendi a comandar a casa, sempre que possível voltava até lá, onde tudo começou para ver se tinha alguma pista, mas nunca encontrei nada além de morte e destruição.
Mas algo em mim insistia em dizer que um dia eu saberia exatamente o que acontece, e eu soube naquele dia que minha história seria drástica se não trágica.
Estava na hora de me aventurar, nos seus cadernos vovô deixou claramente o que eu deveria fazer, começo a me preparar para conhecer enfim toda a plenitude da minha casa, eu não iria só conhecer, mas reparar, ajustar, modificar tudo que estivesse gora de lugar, não seria um trabalho fácil, mas eu não podia decepcionar meu avô, ele contava comigo, ele e toda a humanidade.
Minha ansiedade era visível, eu queria não estar mais sozinha, conversar com alguém, sentir alguém me abraçar, comecei então os preparativos para minha viagem, não haviam carros na propriedade, apenas um jatinho e um ônibus que comportavam até 100 pessoas cada, mas eu não usaria nenhum deles para explorar a colônia.
Então decidi resgatar um veículo de fora, enviei alguns robôs, e consegui um carro quase intacto, o resto nos faríamos, em 2 meses o carro estava pronto para usar, aprendi a dirigir e me preparei.
Não seria necessário levar muita comida, os pomares estavam sempre cheios, e nas casas havia comida, mas levei algumas coisas por precaução, e água principalmente, mas caso fosse preciso os robôs voltariam e pegariam o que quer que eu pedisse.
Na manhã que fiz 20 anos já impaciente quis sair para finalmente explorar, mas outros assuntos me prenderam em casa, o governo amarelo fazia novos movimentos, os resistentes se mudavam constantemente, eu tinha que monitorar e saber onde ir e quando ir, isto adiou meus planos por uns meses.
Minha curiosidade sobre sexo crescia, meu corpo estava cada vez mais ansioso por esta experiência, por vezes eu sonhava com isso e acordava com uma deliciosa sensação embaixo das minhas pernas, deliciosa e molhada diga-se por sinal.
Fiz 21 anos e nem percebi o tempo passar, foi um dos poucos anos em que o tempo passou rápido, peguei minhas coisas e parti para minha aventura, a cada lugar que eu conhecia eu me surpreendia, vovô criou uma estrutura digna de aplausos, era não só uma cidadezinha como eu achava, era uma imensa colônia, provida de tudo e todas as empresas que há em um estado.
As casas eram bem organizadas, as ruas, os pomares, na cidade havia uma praça linda, rodeada de árvores e bancos, quiosques, ali seria o local de encontro perfeito para fins de semana, passei pelo mercado, barracas, bancos e garagens com nomes designados, lojas de roupas, de móveis, de comida, tudo bem desgastado, mas lindo, a cada canto que eu passava modificava, restaurava, alguma coisa. Cheguei na metade da colônia e me deparei com uma área de Pinheiros e outras árvores, como uma pequena floresta, então era dali que os robôs tiravam madeira, e no meio da floresta uma pequena serraria, e uma casa ao seu lado.
Depois da floresta havia uma cachoeira, linda, nunca vi nada igual na minha vida, não resisti e pulei naquela água tão convidativa sem pensar, era preciso limpar a área ao redor, então fiquei uns dias ali enquanto os robôs faziam o trabalho. Eu não queria ir embora dali, era tão magico. Continuei minha saga, parando em cada canto, o último lugar era a Fazenda, ela tomava 30% de toda colônia, haviam muitas plantações, de grãos, cereais e sem contar no tanto de animais que haviam lá, bois, porcos, cavalos, galinhas, ovelhas, pássaros, coelhos. Eu imaginava que haveriam animais, mas não tantos, haviam muitos filhotes, era incrível, sempre que eu via um animal nas ruas, mandava os robôs pegarem.
Estava distraída olhando a vastidão daquele lugar, quando um gato amarelo passou correndo por mim, não aguentei e sai correndo atrás dele, qual não foi minha surpresa ao encontrar uma ninhada de gatinhos junto dele. Eram quatro gatinhos, todos amarelos, então haviam mais gatinhos por ali, quem os alimentavam eram os robôs também, eles acostumaram a ser livres e eram quase selvagens, um dos gatinhos se arrastou até mim, e se esfregou na minha perna, era tão pequeno, tão lindo, eu o peguei no colo e me senti tão bem por poder sentir algo vivo, quente, comecei a chorar emocionada, eu não vou mais largar deles, peguei os 4 gatinhos que segundo os robôs responsáveis pela Fazenda já podiam ser desmamados, coloquei em uma caixa forrada e com comida e deixei-os no meu carro, eles vão comigo.
Fiquei tão feliz por poder ver e sentir outro ser vivo que meus medos sumiram por um tempo, levei quase 6 meses viajando pela minha colônia, reparando e melhorando cada coisa, quando voltei para casa, meus gatinhos já haviam crescido um bocado, estavam agora acostumados comigo e me seguiam por toda a parte, nunca se afastavam muito e sempre me encontravam novamente, eu estava apaixonada por aqueles fofinhos.
Chegando em casa comecei a fazer meus planos , agora era a hora certa de trazer alguém aqui, eu procurei por alguns dias, mapiei cada canto que as câmeras eram capazes de alcançar, as pessoas estavam muito bem escondidas, os soldados rondavam com mais frequência e as pessoas tinham que se esconder tanto deles quanto das toxinas no ar. Seria difícil achar alguém eu terei que ficar atenta a qualquer sinal.
Não descobri como sair, mas descobri como ajustar a casa para que eu pudesse me aproximar das pessoas sem risco, e permitir sua entrada sem prejudicar minha localização, afinal caso eles não fossem confiáveis, não saberiam me encontrar.
Os dias seguiam monótonos, nada acontecia, confesso que minha esperança estava caindo por água abaixo, depois de tanto tempo e esforço, será que ninguém apareceria?
Eu estava no estado de São Paulo, não sei por qual motivo a casa mudou repentinamente de lugar, senti a tal conhecida sensação de tremor e logo a paisagem mudou completamente, um beco escuro era tudo que havia a minha volta, porque eu estava ali?
Fui até os painéis de controle possivelmente foi uma pane no sistema, de repente eu o vejo, lá fora um homem aparentemente jovem, alto, forte, moreno claro, com cabelos desgrenhados e mal cuidados, barba por fazer, não saberia dizer se é bonito ou não, o mais importante era descobrir se era confiável.
ouço tiros lá fora e saio do meu transe a tempo de ver ele tropeçar em uma pedra e cair quase sendo atingido, ele se levantou em um pulo e continuou correndo, se escondeu embaixo de uma pedra funda que havia há alguns metros da barreira da casa, mandei dois robôs buscarem ele e corri para o painel de controle, mandei a casa para alguns metros a frente de onde estávamos há uns 3 metros de distância dele, assim seria rápido e nem ele nem os soldados teriam chance de ver o que aconteceu. Ao ver os robôs ele se assustou e bateu a cabeça com Força desmaiando imediatamente, os robôs o trouxeram para dentro em poucos segundos, os soldados passaram confusos e seguiram a procura do rapaz. Os robôs o levaram direto para o hospital onde eu o trataria, corri para lá e apliquei um sedativo nele, não quero ser vista ainda não estou pronta, ele abre os olhos já meio grogue me olha mas torna a fecha-los depois de balbuciar alguma coisa, meu coração quase parou.
Ele tinha uma arma que eu resolvi confiscar, se ele decidir ir embora eu a devolvo, o quadro clínico dele não era ruim, a bala o atingiu de raspão no ombro eu limpei e ponteei o ferimento com cuidado, depois examinei a cabeça dele, havia uma leve contusão, ele era cabeça dura, procurei com a ajuda dos robôs por outros ferimentos mas não encontrei nada além de muitas cicatrizes, não quis ir mais a fundo no exame, já estava quente o bastante com aquele homem ali na minha frente.
Tirei as digitais e sangue dele para fazer exames, dei as vitaminas necessárias e a antitoxina que corta o efeito da toxina lá de fora, mandei os robôs usarem a digital e o sangue para descobrir quem ele era, aparentemente ele tinha entre 20 e30 anos ou seja teria dados no sistema.
Deixei o homem aos cuidados do robô Suzana e fui pra casa preciso sair dali com urgência, reprogramei a casa para o sul e esperei para ver o que descobrimos.
A pesquisa foi um sucesso , descobrimos muito a respeito do nosso hóspede, ele fazia parte dos revolucionários, o que era bom, parte de um grupo no sul, com a digital dele descobrimos seus dados físicos:
Alonso Vidal de Lima, 30 anos de idade, nasceu no Paraguai e fugiu para o Brasil com os pais durante o extermínio está aqui desde então, conseguimos imagens por reconhecimento facial, de lugares onde ele esteve, alguns bem recentes, ele estava com 2 homens mas chegou aqui sozinho.
Ele é solteiro, mas isso não quer dizer que não tenha alguém, há um tempo status civil já não importa. Não havia nenhuma alteração feita pelo módulo em seu sangue, nenhuma doença encontrada, além da anemia comum e falta de vitaminas de quem vive lá fora, isso resolveremos rápido, se ele deixar. Alonso dormiu por um dia e meio, mesmo depois que passou o efeito do sedativo ele continuou dormindo, acho que estava muito cansado, o corpo dele precisava disso.
Minha mente não parava de pensar nele, eu queria saber se ele gostaria de mim, se nos ficaríamos juntos, se ele me acharia bonita, eram pensamentos fúteis e sem graça alguma. Pedi para Suzana a robô tirar os acessos dele, para que ele não se assustasse quando acordasse.
Não deu muito certo já que ele acordou sobressaltado como se estivesse saindo de um pesadelo, ele gritava e derrubava tudo que via pela frente, pedi para os robôs apenas bloquearem a porta até ele se acalmar, ele achava que havia sido capturado pelos soldados, mas estava grogue ainda e não raciocinava direito, eu sabia que logo ele poria a cabeça em ordem, assustado e indefeso era assim que eu o via, mas com meus estudos de psicologia eu sei bem que o medo é aliado de quem o sente.
Quando ele parou seu ataque e se sentou novamente olhando para todos os lados eu pedi que os robôs deixassem ele passar pela porta e andar pelo hospital, mas não sair dele.
Ao ver os robôs se afastarem da porta ele olhou desconfiado mas levantou e saiu, deu alguns passos testando as pernas e olhou para as máquinas, a cada passo ele olhava para eles parados ali sem mover nada, aquela pose defensiva dele não me enganava era pura estratégia, ele sabe que não tem como fugir, está cercado por robôs e desarmado.
O rapaz parece confuso mas ele está testando os limites, descobrindo até onde pode ir, ele é muito inteligente eu percebo isso de cara, por trás daqueles trapos rasgados e sujos havia um homem lindo.
Ele observava a mudança de postura dos robôs com desconfiança analisando tentando descobrir algo, as vezes perguntava alguma coisa e não tinha resposta alguma, por vezes se aproximava das janelas como um gato querendo pular, mas nada fez, as janelas estavam escuras ele não via nada lá fora, ele logo percebeu que não estava em uma base do governo amarelo, os soldados não o tratariam com tanta complacência e nunca viu esses robôs os deles eram diferentes, mas frios e feios. Ele olhou seu ombro e viu seu ferimento muito bem cuidado, e percebeu que estava se sentindo muito bem de saúde, respirava melhor, se sentia mais forte, como há muito não sentia, o governo não faria isso, ele não era um dos importantes, lembrou da perseguição eles atiraram pra matar, não me capturariam, se não fosse aquela pedra eu estaria morto.
Mando os robôs o levaram a um banheiro e lhe dar o que ele precisar para fazer sua higiene, inclusive um aparelho de barbear. Suzana a robô médica chefe fala:
_ Por favor, me acompanhe senhor.
Ele se sobressalta espantado com a voz metálica dela, chega a ser muito engraçado.
_ P ppra onde?
Ele gagueja.
_ Acho que o senhor gostaria de tomar um banho antes do jantar não?
Acho que ele não lembrava que estava com fome, mas instintivamente pôs as mãos na barriga.
Ele olhou ainda desconfiado para Suzana, acho que pensava se era possível ter sido salvo pelos robôs, mas suas ações diziam que havia alguém por traz daquilo, a curiosidade e a fome, junto com a certeza que não seria molestado o fizeram seguir Suzana.
Alonso entrou no box surpreso de haver um chuveiro, sabonete, shampoo e barbeador, desliguei a câmera, eu não me rebaixaria a espiar ele naquela situação embora eu quisesse muito.
Uma hora depois sou avisada de que ele está pronto. Religo a câmera e me deparo com um novo Alonso, limpo, barbeado e com uma roupa que combinou perfeitamente com ele, eu sabia que serviriam, como eu desconfiava ele era lindo, seus olhos verdes contrastavam com seus cabelos negros e sua pele queimada de sol, seus lábios carnudos lembravam um jambo pronto pra ser mordido. Minha temperatura subiu instantaneamente, tenho que me concentrar.
Peço para os robôs o levaram para casa, para a sala de jantar e subo para o quarto, não acho que seja bom nos encontrarmos assim logo de cara, não estou pronta. Ele chega a sala e fica surpreso ao ver a mesa, ele esquece de tudo a sua volta e ataca a comida a sua frente, um verdadeiro banquete, eu não sabia o que ele gostava então servi um pouco de tudo, arroz, feijão, macarrão, carne, frango assado, salada, molho, sucos, frutas, Alonso não recusou nenhum dos pratos, depois de comer quase tudo que havia na mesa ele sentou. Eu nunca havia rido tanto na minha vida, a cada "hummmmmm, hammmmmm" entre outros ruídos que ele fazia eu gargalhava tanto que cheguei a chorar. Aquilo era novidade pra mim.
De repente ele olhou para as câmeras e disse:
_ Quem é você? Eu sei que tem alguém aí, o que você quer? por que me ajudou?
Era agora eu tinha que encarar ele, eu percebi que ele por vezes olhava para uma foto minha com meus pais e meu avô que havia ali, haviam fotos nossas por toda a casa, eu me sentia próxima deles assim.
Liguei o interfone e disse:
_ Oi, eu sei que você deve estar confuso, mas por favor confie em mim, eu não vou lhe fazer mal, meu nome é Marissa Real, estou aqui a quase 17 anos só com meus robôs.
_ Espera aí. Disse Alonso. Você está dizendo que está aqui sozinha esse tempo todo? e como você tem tudo isso? parece meio impossível.
_ Tão impossível quanto uma toxina que muda os sentimentos e controla as pessoas.
_Pensando por este lado, pode ser verdade.
_ Meu avô e meus pais eram donos da maior empresa de tecnologia robótica do país, meu avô fez essa casa para me manter a salvo, protegida, meus pais sumiram quando eu tinha 2 anos e meu avô sumiu no dia que tudo começou e nunca mais eu soube nada deles.
_Como uma criança se manteve aqui? e como você conseguiu tantas coisas?
_ Você viu meus robôs? eles cuidaram de mim, eu nunca fui uma criança normal, sempre fui independente.
_ Você tá me dizendo que ficou todos esses anos aqui, e porque não saiu?
_ Isso você vai saber depois, meu avô sabia que algo iria acontecer por isso criou este lugar para que eu ficasse bem e para ajudar todos os que merecessem.
Neste instante Alonso ficou vermelho de raiva, seus olhos se encontraram com os meus através das câmeras como se ele soubesse exatamente onde eu estava, meu coração acelerou.
_ Como assim merecerem? Vocês se acham melhores que os outros? Vocês riquinhos são uns babacas mesmo.
Fiquei sem ação, porque ele estava tão nervoso, porque ele me falou essas coisas? antes que eu pudesse falar alguma coisa ele continuou.
_ Você deve ser do CDA, ou até pior que eles , você não presta, fica aí no luxo, comendo e bebendo do bom e melhor, enquanto os outros morrem de fome, doença e assassinados. Isso é uma injustiça. Riquinha babaca.
Fiquei chocada com tamanha ingratidão, como ele podia me acusar quando eu o salvei, alimentei e cuidei de seus ferimentos? quem ele pensa que é? Eu não vou deixar ele falar assim comigo.
_Não, você é um grosso, ignorante, bronco, tosco, não entendeu nada do que falei , babaca é você.
-Apareça aqui, fale isso na minha cara, sua ,sua...
Eu não ouvi o que ele disse ou ele desistiu de falar, o que foi isso? Eu preciso me acalmar, pensar direito, não posso por tudo a perder por que não sei dialogar, porque é tão difícil?
Respiro fundo e tento pensar no que eu fiz de errado ou disse para que ele tenha se ofendido tanto.
Religo o alto falante, mas antes que eu possa falar alguma coisa ele disse :
_ Olha, me desculpa, eu não sei o que me deu, é que eu tenho visto e vivido tanta coisa que é difícil acreditar em alguém, eu sei que você não é má e nem do CDA. Mas é que você tem tanta coisa sem precisar perder nada, sem esforço e lá fora tem tanta gente que precisa e não tem nada, algumas até perdem suas vidas e de seus amigos para conseguir alguma coisa.
Então foi isso, ele acha que eu desdenhei das pessoas lá fora, que eu não me importo e não ajudo porque quero, tenho que reverter isso.
_ Eu sei o que acontece lá fora, eu tenho visto isso ano após ano, é injusto eu estar aqui? ter comida e casa? estar livre do CDA? Eu não escolhi isso, eu não quis ficar presa em uma casa com robôs sem poder sair nunca, sem ter outra pessoa perto nunca, eu cresci sozinha, tive que aprender e tentar saber o que é sentir, para não ser só mais uma lavada do módulo, eu tinha 5 anos apenas, e tudo que me deixaram foi um caderno e robôs.
Ele pareceu sentir remorso, então disse
_ Como você conseguiu Se manter aqui com essa idade?
_ Eu nunca fui normal, eu tinha e tenho uma capacidade de aprender muito rápido, aos 5 anos eu tinha idade mental de 12, os robôs foram programados pelo meu avô, eles me construíram e cuidaram de mim.
_ Eu não queria parecer ingrato, eu sei que você me ajudou muito, outra pessoa não teria arriscado perder isso tudo por um desconhecido.
_ Eu preciso que você saiba e me entenda. Conto tudo para Alonso assim mesmo, sem olhar nos olhos dele, quando tem dúvidas ele me interrompe e faz perguntas, quando acabei de contar o mais resumidamente possível tudo ele aquiesceu
_ Porque, você não ajudou outras pessoas, antes de mim? você poderia ter salvo muita gente, se aqui é como você diz.
_ Eu não posso sair como, e eu não podia deixar ninguém entrar antes de aprender tudo que me foi deixado. Há três anos eu tive acesso aos controles da casa, menos ao escudo que me impede de sair, desde então eu tenho mandado robôs com caixas para todos os grupos que vejo no mapa, eu deixo remédios, comida, roupas, o que posso. Todas as semanas eu tenho feito isso.
Alonso abriu a boca surpreso, pela cara dele ele já viu alguma dessas caixas.
_ Eu não acredito, era você que deixava as caixas? você não sabe o quanto ajudou.
_Ajudei?
Alonso percebe então a injustiça que estava cometendo ao me acusar, ele começou a acreditar em mim.
_ Sim, muito, lá fora nós temos que lutar contra a fome, as doenças sem remédio, os soldados e os apocalípticos.
_ O que são? apocalípticos?
_ São aqueles que ficaram loucos, maus, que não respeitam ninguém, roubam, matam, fazem coisas horríveis, mantemos eles fora dos esconderijos, eles podem acabar com uma comunidade inteira com sua loucura.
_ Então você entende o conceito de "merecedores"?
Alonso ficou vermelho de novo, dessa vez envergonhado, porque viu que pensávamos igual e que eu não merecia as palavras duras dele.
Ele pediu licença para ir ao banheiro, mandei os robôs o levarem e esperei para terminar nossa conversa, estava decidida agora a conversar cara a cara, Alonso iria me conhecer.
Meus pensamentos davam voltas e mais voltas, o que será que eu disse de errado? porque motivo ele teria ficado tão ofendido com o que eu disse?
Sei que não tive com quem treinar linguística, mas eu teoricamente deveria saber lidar com qualquer tipo de pessoa, meus estudos em sociologia, psicologia, deveriam me fazer ser capaz de lidar com pessoas, mas a prática em si era diferente, os sentimentos que abrangiam uma conversa eram intensos, medo, raiva, uma palavra mal dita, uma expressão na hora errada torna impossível um diálogo.
Tento me acalmar, agora que parece que contornei a situação, preciso tomar cuidado com o que falo, para não ofende-lo, como ele vai me ajudar se eu não tiver sua confiança.
Enquanto eu esperava Alonso acabar sei lá o que ele foi fazer no banheiro, meus pensamentos pairavam entre duas linhas opostas, tentar abertamente me apaixonar e seduzir ele para enfim conseguir me sentir uma mulher, ou fingir que tais pensamentos sequer passaram por minha cabeça. Era a primeira opção que eu queria tentar, mas eu sequer tenho coragem de aparecer para ele ainda, mesmo já tendo decidido quem dirá seduzi-lo, chegaria a ser cômico se não se tratasse da minha vida.
Fazem exatos 30 minutos desde que Alonso entrou no banheiro, ou toda a comida caiu mal ou ele está protelando, seria possível que ele estivesse tão nervoso quanto eu?
Aquiesço, no meio da sala de controle caminho de um lado para o outro pensando no que fazer, de repente um movimento em uma das telas me chama atenção, lá fora um grupo de soldados persegue uma mulher, ela corre desesperada, assustada, são quatro ou cinco soldados no máximo, eu nem penso direito, ela está perto da casa, eu posso chegar até ela, enquanto eu corro grito ordens aos robôs, dois robôs são enviados para distrair os soldados, eu chego a porta o escudo está projetado a uns 200 metros depois da mulher, ela está dentro dele mas não pode vê-lo.
Eu não sei em quantos milésimos de segundos tudo aconteceu, mas pareceu uma eternidade, dois soldados encontraram ela e a arrastaram pela rua, foi quando eu percebi em pânico que ela estava grávida e muito próximo de dar a luz seu bebê. Meu coração parecia um motor prestes a voar, eu não acreditei nos meus olhos, já vi tantas crueldades neste mundo, mas há algum tempo já não via dessas coisas, homens enormes e armados arrastando uma mulher indefesa e grávida pela rua, era uma visão que com certeza eu lembraria por muito tempo.
Em um segundo eu estava ali vendo aquela cena, no outro eu estava agarrada a um soldado com uma arma na mão e olhando para Alonso. Não sei em que momento ou quando ele entrou na cena, mas recordo de ver uma sombra passar por mim correndo em direção a mulher, ele deve ter visto de alguma tela e veio ajudar, será que ele a conhecia? minha mente trabalhava tão rápido com tantas situações novas a analisar que eu não sabia o que estava fazendo, mas fiz mesmo assim.
Alonso matou um dos homens que arrastava a mulher, eu rendo o outro e ela se arrasta para longe a alguns metros da briga, pensei em levar o soldado prisioneiro para obter informações, e tentar cura-lo do módulo se fosse o caso. Mas antes que eu pudesse ordenar que os robôs o prendesse Alonso agarrou ele e quebrou o seu pescoço, senti o peso do homem esmorecer e seus movimentos de tremor enquanto a vida lhe deixava, entrei em choque, eu nunca havia visto alguém morrer, assim, sempre que estava havendo massacres lá fora eu não me permitia olhar, e agora tinha um homem morto nos meus braços, eu não podia deixar de sentir, ele talvez estivesse sendo controlado, Briguei comigo mesma para sair daquele transe, eu tinha que despertar, "vamos ,garota, você vai ter que matar também alguma hora embora não queira", "levanta agora Marissa" uma voz gritou pra mim. Levantei a tempo de desviar de um golpe de um soldado, o atingi com um chute bem no peito e o desmaiei com outro golpe na nuca, Alonso lutava com mais dois homens, um deles o agarrou por traz, e quando o outro ia atingi-lo com uma faca eu o parei. Alonso os matou, mas dessa vez eu não olhei, corri para o lado da mulher enquanto Alonso fazia seu trabalho, ela estava desacordada, tinha muitos hematomas, mas nenhuma contusão grave, dei ordem aos robôs que a levassem para o hospital, enquanto eles a carregavam, olhei para Alonso, ele me olhava de volta com um olhar perturbador, de raiva?, de mágoa? eu não fazia ideia, mas não gostei, ele me olhou com nojo?
Segui para casa, o deixando livre para decidir se vinha ou não.
_ Eu preciso ajudar a moça, você não é meu prisioneiro, se quiser ir vá, está livre, mas saiba que eu preciso de sua ajuda, e que assim que eu entrar nunca mais você me achará.
Dito isso entro na casa e sequer olho para ele, o modo como ele me olhou ainda dói em mim.
Eu espero sinceramente que ele fique, eu preciso da ajuda de alguém como ele, sei que não começamos bem, e que ele me odeia por eu ser quem eu sou e ter o que ele não teve, mas não é hora para isso tem uma mulher a minha espera e eu tenho que ajudar ela custe o que custar.
Me arrasto sem forças para o hospital, sinto meu corpo inteiro doer, não sei mais quanto tempo aguento essa pressão. Ao chegar no hospital meu coração dispara, a mulher está na emergência, entubada, ligada à todas as máquinas de monitoramento cardíaco. "que merda é essa" lembro de ter pensando, pego meus instrumentos médicos e vou checar eu mesma ainda descrente de que ela esteja tão mal a ponto de Suzana entubar. Mas infelizmente ela estava certa e com certeza sua rapidez a salvou, minha demora lá fora com Alonso pôs a vida dela em risco.
_ Obrigada Suzana.
Digo, mesmo sabendo que estou falando com uma máquina. A saturação da moça está caindo muito rápido, e sua pressão está altíssima, provavelmente ela está em choque pois não tem reflexos ativos, continuo meu exame minuciosamente, uma cesariana de emergência tem que ser feita se eu quiser ter chance de salva-la.
Mando os robôs preparem a sala de cirurgia, trêmula pois será minha primeira paciente de verdade, fora Alonso é claro. A simples menção do nome dele me deixa nervosa. Me concentro no que tenho que fazer.
_ Suzana adrenalina por favor.
Injeto no soro dela para que ela possa reagir, ela não está sedada ainda, não tem nenhuma lesão grave, apesar da saturação baixa e da pressão alta, não encontro outro motivo a não ser o choque para a falta de reação dela.
Enquanto eu a examinava, notei o quanto ela era bonita, mesmo tão desgastada e mal cuidada, ela tinha a pele branca ao que me parecia queimada de sol e marcada por muitas cicatrizes, seus cabelos eram longos, enrolados e pretos como carvão, com certeza ela deve ter fugido de alguma base do CDA para salvar seu filho do destino cruel que o aguardava, e conseguiu aqui ninguém fará mal a ele.
Me viro para ver se a sala está pronta, mas não chego nem a porta, o barulho do monitor me chama a atenção, o bip dispara de repente e acelera, sinal que o coração dela ganhou um pouco de força, ao me virar fico surpresa ela abriu seus grandes olhos verdes e tentava falar alguma coisa, corri para o seu lado e pedi que ficasse calma.
_ Ei, calma, está tudo bem, você está salva, não sou do CDA.
Ela tentava falar alguma coisa desesperadamente, mas o tubo em sua traqueia não permitia, ela fez um movimento de tirar.
_ Não faça isso, você precisa respirar direito.
Grito para que Suzana traga um sedativo para ela, ela fecha os olhos novamente como se tivesse voltado a dormir, era o que eu achava.
Me viro novamente e vou até o armário de remédios buscar o sedativo eu mesma, vejo a máquina apitar novamente agora com mais vigor, corro de volta para o lado da cama e vejo com pavor que ela arrancou o tubo da garganta.
Meus olhos quase saltaram da órbita, ela é louca, ela podia ter deslocado a traqueia, quebrado alguma vértebra, ou coisa pior.
_ Você não pode fazer isso, por favor, você pode se machucar entenda.
Ela agarrou meu braço com uma força que eu jamais imaginaria alguém no estado dela ainda ter.
_ Você, me ajudou. Você e ...
Ela engasgou um pouco e puxou o ar profundamente, eu peguei uma mascara de oxigênio o liguei e dei para ela, ela aceitou a máscara inspirando novamente. O que eu faço? ela precisa ser sedada e entubada de novo.
_ O- o- obrigada, vo- você foi um anjo.
_ Você tem que descansar, por favor, respire. Eu tenho que cuidar de você, sua pressão está alta, eu tenho que fazer uma Cesária para salvar você e seu bebê.
_ N-Não, eu já morri. Salve ele.
Ela parou de novo, respirou fundo e sorriu com ironia, talvez uma piada interna ou desespero.
_ Você não morreu! Está viva, vai ficar bem.
_ Não, eu sei que não vou, eu já dei três crianças para eles, esse é o último, eu-eu ia morrer de qualquer jeito, eles sabiam, só queriam ele.
_ Do que você está falando? Você não precisa falar nada agora, me deixe...
Ela não me deixou acabar de falar, apertou um pouco mais meu braço e me olhou com raiva por um instante, mas logo seu olhar mudou e virou uma súplica.
_ P-por f-favor, não diga a ele que eu sou mãe dele, nunca deixe ele saber. C-cuide dele como se fosse seu, eu dou ele pra você, pra eles não. Prometa por favor.
Eu não entendia o que ela dizia, como assim meu? ela me deu ele? Mas ele não era uma coisa para ela me dar, era o filho dela, como eu logo eu, que nem era mulher ainda, ia ser mãe? aquela palavra agora mudou para mim, meu coração tremeu por dentro e eu senti um calor invadir meu corpo, não um calor do jeito que me dava quando olhava para Alonso, outro tipo, um que eu também nunca havia sentido.
_ Você não pode dizer isso, você vai ficar boa, agora eu vou cuidar de vocês. Suzanaaa, a sala tá pronta? preciso de ajuda aqui.
Suzana apareceu na porta dizendo que sim, estava tudo pronto para a cirurgia. Pedi para que os dois robôs auxiliares a transferissem para a sala, mas antes que isso acontecesse, o monitor disparou, a princípio achei que ela tinha arrancado o medidor também, mas não, o coração dela parou, eu corri para perto dela e comecei a massagem cardíaca, 1, 2, 3, 4, 5, sopro, de novo, e de novo, mas ela não reagia.
_ Suzana, adrenalina rápido.
1,2,3,4 ,5 sopro. " não, você não vai morrer. Eu não sei ser mãe." O desespero começou a tomar conta de mim, o tremor voltou, meu coração disparou, cinco minutos se passaram, mas para mim foram horas.
_ Suzana, desfibrilador. Carregue em 150, vai.
Esfrega, e choque, de novo, 200, esfrega e choque, " Volta, volta, pelo amor de Deus," 250 Suzana vai. Quarenta minutos depois exausta física e mentalmente me dou por vencida, declaro o óbito e desabo no chão.
As lágrimas não vem, minha cabeça está girando, a chegada de Alonso, o que eu senti, o desejo, o medo, a briga, as coisas que ele me disse, o resgate da moça, os soldados mortos, o soldado morto nos meus braços, o olhar de Alonso, o que a moça me disse, e vovô, o que aconteceu com vovô? a confusão se apoderou do meu cérebro. Eu não sei onde estou, quantos anos tenho, esqueci de tudo não sinto nada, estou dormente.
Uma voz na minha cabeça começou a me chamar de volta, " levanta, não acabou, você tem um mundo inteiro pra salvar, anda, levanta" . É a voz da minha mãe?
_ Mamãe? mamãe, eu tô com medo.
As alucinações continuavam, e eram sinal de que eu estava guardando coisas demais dentro de mim e era hora de expeli-las. " Marissa, acorde, Marissa"
Desperto do meu estado mais uma vez, e Suzana está me chamando.
_ Marissa, Marissa.
_ O que é Suzana? acabou, acabou.
_ Os batimentos cardíacos do bebê estão ficando fracos, acho que ele está sem oxigênio!
O quê? como assim? que merda eu esqueci do bebê, como eu pude esquecer ? Levanto correndo, corro até a cama da mulher, e peço o bisturi, ela já está morta, mas mesmo assim a corto com respeito e cuidado e medo de que ela ainda possa sentir. Ao romper a barreira de três camadas de pele chego ao útero, posso ver o bebê, abro o útero e o tiro de lá, nos meus braços, sinto seu corpinho minúsculo, seus traços são lindos e aparentemente ele está saudável, passo o que parece um longo tempo olhando aquele pequeno e esqueço de algo importante, ele não chorou, corto o cordão umbilical e o coloco de cabeça para baixo, dou duas palmadinhas leves no bumbum dele, espero, ele não chora. "Não, não, você não vai morrer também, anda, respira."
Repito de novo o mesmo movimento, dessa vez ele engasga e chora, foi o som mais lindo que já ouvi em toda minha vida, o coloco de volta na posição certa e o enrolo com uma manta.
Ele é perfeito, o examino com cuidado escuto o coração os pulmões, examino a barriguinha, o pênis, os olhinhos , tudo perfeito. Ele mediu 50 centímetros, pesou 3:900, a pele é branca, os cabelos pretos, ele é um anjinho lindo, um milagre, que veio para me dar esperança de novo, o sol depois da tempestade.
Peço uma das manjedouras do quarto de recém nascidos pra Suzana, o coloco ali perto de mim enquanto cuido da mãe dele, depois de costura-la e limpar eu fecho seus olhos e lhe digo:
_ Me desculpe, eu não sei seu nome, nem quem você era, eu sinto muito por tudo que você teve que sentir e passar lá fora, e sinto mais ainda por não ter salvado sua vida, você me confiou seu bem mais precioso, e eu prometo por tudo que é mais sagrado, eu juro pela minha vida que ele nunca vai saber o que é dor, sofrimento, fome, frio ou violência, ele vai crescer muito amado, bem cuidado e feliz. Você me agradeceu por tê-la salvo dos soldados, eu agradeço você por ter me salvado de mim.
Eu sei que não tenho culpa do que te aconteceu, e nem de ter ficado aqui sozinha por anos no conforto e segurança enquanto tantos outros como você sofriam todo tipo de privação. Eu lamento muito por isso, e desejo que você esteja em um lugar muito bonito e que daí você cuide e olhe pelo seu filho e se der por mim também. Descanse em paz.
Acabado meu discurso, peço a dois robôs que a coloquem em um caixão e a enterre lá fora, embaixo da árvore mais bonita que houver.
Emocionada, desgastada mais uma vez, tomada por um misto de alegria, tristeza, medo, dor e esperança, desejo e raiva meu corpo ameaça entrar em colapso, minha mente é uma mistura de coisas e sentimentos sem sentido, só aquele serzinho agora me prende ali a realidade, eu esqueci ele uma vez e quase o perdi por isso, não farei de novo.
Graças ao Meu avô ali no armazém haviam móveis, e todos os tipos de coisas que bebês e crianças precisam, pedi a Penélope para levar alguns robôs com ela o mais rápido possível até lá, e trazer tudo que o bebê precisaria, fraldas, leite, roupas, todo o enxoval possível, mamadeiras tudo.
Pego bebê que está dormindo calmamente como se nada houvesse acontecido e me viro para ir para casa, Alonso estava parado a porta com os olhos arregalados de surpresa e cheios de lágrimas, ele disfarçou quando olhei mas foi em vão. Eu não conseguia encara-lo não agora, mas percebi que ele já não me olhava com raiva e rancor, um quê de admiração brilhava em seus olhos, a quanto tempo será que ele estava ali me olhando?
Não importa, vou em frente e digo apenas:
_ Que bom que você não partiu, obrigada.
Não espero ele responder e me apresso corredor a fora, cubro bem o bebê com a manta ainda ensanguentada e vou para casa, chegando lá os robôs já estão acabando de guardar as coisas do bebê, o bercinho já está montado no meu quarto, um carrinho de bebê ao seu lado, uma poltrona branca ao lado da minha cama. Uma cômoda branca estava ao lado do meu closet, os robôs não eram os melhores decoradores, eu dava as ordens, mas sem mim ficou um desastre, não tem problema depois eu mesma arrumo tudo. As roupinhas de bebê estavam em caixas em cima da cama, ainda com ele no colo , procuro uma toalha, sabonete, pego um macaquinho azul a coisa mais linda e uma fralda, e deixo na cama, para por Embaixo do macaquinho uma calça e uma camisetinha minúsculas, uma meinha que mais parece um dedal e uma colônia que eu adorava porque lembrava o cheiro da mamãe.
Coloco o bebê em cima de uma manta na cama para não sujar nada com sangue e restos de parto e vou encher a banheira com água morna, coloco o sabonete no apoio da banheira, o shampoo e coloco as roupas no trocador, pego o pequeno com cuidado o desenrolando da manta quentinha, ele parece não ter gostado, dou banho nele limpando toda a sujeirinha, depois de vestido, preparo seu leite e o ofereço a ele, ele tomou exatos 100 mg de leite, é um guloso, depois de faze-lo arrotar o ar, o coloco limpinho no seu berço.
Ver aquele serzinho ali me da uma paz, no momento que ele abre os olhinhos e me olha bem nos olhos como se dissesse obrigado, eu quase desmaio, sim, eu não posso mais negar, eu sou sua mãe, e ele meu filho de agora em diante para sempre, meu milagre, minha esperança, a razão pela qual eu quero lutar por um mundo melhor.
Preciso me lavar, meu corpo está quase entrando em choque também, e minha mente eu nem falo, o único motivo de eu me manter de pé é agora esse pequeno.
Vou para o banheiro tiro minhas roupas abro o chuveiro e deixo a água lavar de mim, o sangue, a sujeira e rezo para que leve também, a dor, a mágoa, a tristeza, mas o calor da água e o fato de estar ali sozinha liberou um gatilho em mim, já sem poder conter, derramo ali naquele chuveiro toda a minha agonia, meu corpo começa a tremer loucamente, minhas pernas parecem que vão me deixar cair a qualquer momento, as lágrimas caem dos meus olhos na mesma intensidade que as gotas do chuveiro, os soluços saem da minha garganta contínuos, eu não aguento mais, tenho que por pra fora toda minha dor, como mamãe disse na alucinação.
No ápice da minha dor, com meu corpo todo em colapso, minha mente cheia de imagens e sentimentos, solto um grito de pura agonia e dor, sinto minhas pernas fraquejarem e antes que eu possa cair sinto antes de ver Alonso me segurar, ele se agarra a mim me virando de frente para ele me abraça forte se deixando molhar também embaixo do chuveiro.
Fico surpresa, assustada , mas logo essa sensação passa, sinto o calor do corpo dele se espalhar pelo meu, o que será que ele pensou para vir até aqui e me agarrar desse modo, será que ele agora gosta de mim? ou será que ele ficou com pena de uma menina boba tendo uma crise de pânico.
Mas nesse instante decido não pensar em nada e me render a esse momento era o que eu queria