O cheiro de café e o zumbido dos computadores me recebiam de volta ao escritório após a licença-maternidade. Meu corpo ainda ansiava pelas mamadas e canções de ninar do meu pequeno Léo, de seis meses. Mal sabia eu que a rotina familiar estava prestes a ser despedaçada de uma forma grotesca.
No meio da tarde, uma colega de outro departamento, Dona Sofia, aproximou-se da minha mesa com um olhar estranho. Pensei que pediria ajuda com tarefas, ou talvez uma doação. Mas seus olhos fixos em mim sussurraram algo perturbador:
"Eu soube que você está amamentando... Eu preciso do seu leite."
Minha surpresa foi substituída por um nojo avassalador quando ela, sem hesitar, declarou que seu filho precisava mamar "direto da fonte" .
"Dezoito."
Meu queixo caiu.
Seu filho tinha dezoito anos.
A ideia me encheu de repulsa, mas a calma sinistra de Dona Sofia, uma mulher que parecia completamente centrada em sua loucura, era assustadora.
Ela me assediou abertamente, me emboscou no banheiro e, com seu filho adulto agindo como um monstro infantil, me trancou em um almoxarifado, tentando me forçar a amamentá-lo. Apesar de ter revidado e escapado por pouco, a empresa e a polícia, temendo a lei de proteção a deficientes, a apoiaram.
"Eu te disse. Ninguém acredita na Cinderela quando a Bruxa Má está em uma cadeira de rodas."
As palavras dela eram veneno, um grito de triunfo sobre a injustiça. Eu não seria mais uma vítima. Eu tinha uma avó especialista em Krav Maga e um sobrinho adolescente que sabia como bloquear. Se ela usava sua vulnerabilidade como arma, eu usaria a minha. E a dela.
Eu não seria a presa.
O cheiro de café requentado e o zumbido baixo dos computadores preenchiam o ar, uma melodia familiar que eu não ouvia há seis meses. Voltar ao escritório depois da licença-maternidade era estranho. Meu corpo ainda parecia pertencer a outra rotina, uma de fraldas, mamadas e canções de ninar sussurradas na madrugada. Minha mesa estava exatamente como eu a deixei, coberta por uma fina camada de poeira.
Colegas passavam, sorriam, perguntavam sobre o bebê. "Como está o pequeno Léo?", "Dormindo bem à noite?". Eu respondia com um sorriso cansado, mas feliz, mostrando fotos no celular. Sentia-me dividida entre a profissional que eu era e a mãe que me tornei.
Foi no meio da tarde, enquanto eu tentava me concentrar em uma planilha, que uma mulher que eu só conhecia de vista se aproximou da minha mesa. Ela era de outro departamento, mais velha, com um olhar permanentemente cansado e cabelos grisalhos presos num coque frouxo.
"Com licença, você é a Júlia, não é? A que acabou de ter bebê."
A voz dela era baixa, quase um sussurro.
"Sim, sou eu", respondi, forçando um sorriso amigável.
Ela se inclinou sobre a minha mesa, o olhar dela era intenso, quase suplicante.
"Eu preciso da sua ajuda. É uma coisa muito importante."
Achei que ela ia pedir para eu cobrir alguma tarefa, ou talvez uma doação para alguma campanha interna. Como nova mãe, meu coração estava mais mole. Eu queria ajudar.
"Claro, no que eu puder ajudar."
"Eu soube que você está amamentando", ela continuou, a voz ainda mais baixa, como se compartilhasse um segredo de estado. "Eu preciso do seu leite."
Fiquei um pouco surpresa, mas não chocada. Já tinha ouvido falar de bancos de leite, de mães que doavam para bebês prematuros. Talvez ela tivesse uma neta, uma sobrinha que precisava.
"Ah, entendi. Eu tiro o excesso todos os dias na salinha de amamentação. Posso guardar um pouco para você em um recipiente esterilizado. Para quem é?"
A expressão dela se fechou. Ela balançou a cabeça vigorosamente, como se a minha sugestão fosse um insulto.
"Não, não. Assim não serve."
"Como assim não serve?", perguntei, a confusão começando a tomar conta de mim. "O leite extraído é perfeitamente bom. Eu congelo e o Léo toma quando eu não estou."
"Não para o meu filho", ela disse, a voz ganhando uma ponta de impaciência. "Quando você tira e guarda, ele perde os nutrientes mais importantes. A energia vital. Precisa ser direto da fonte."
Eu a encarei, tentando processar a frase "direto da fonte". A imagem que se formou na minha cabeça era absurda demais para ser real. Eu devo ter entendido errado.
"Direto da... fonte? O que você quer dizer com isso? Você quer que eu...", eu não conseguia nem terminar a frase.
"Sim", ela me cortou, o olhar fixo no meu, sem um pingo de hesitação. "Eu preciso que você amamente o meu filho."
Um silêncio pesado caiu sobre nós. O zumbido dos computadores pareceu parar. Eu a olhei, esperando o sorriso, a piada, qualquer coisa que indicasse que aquilo era uma brincadeira de péssimo gosto. Mas o rosto dela estava mortalmente sério.
"Seu... seu filho?", gaguejei. "Quantos anos ele tem?"
Ela respondeu sem pestanejar, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
"Dezoito."
Meu queixo caiu. Literalmente. Senti minha boca se abrir em um "O" mudo de choque. Dezoito. Dezoito anos. A palavra ecoou na minha mente, ricocheteando nas paredes do meu crânio.
Eu olhei para os seios que, naquele momento, estavam cheios e um pouco doloridos, pensando no meu Léo, meu bebezinho de seis meses. A ideia de um homem adulto, um estranho, tocando em mim daquela forma... O nojo subiu pela minha garganta como bile.
A mulher, que mais tarde eu descobriria se chamar Dona Sofia, continuava ali, parada, esperando uma resposta, como se tivesse me pedido um copo de água.
O conflito estava estabelecido. Não era sobre ajuda, era sobre uma violação tão bizarra, tão impensável, que eu não tinha a menor ideia de como reagir.
Levei alguns segundos para encontrar minha voz. O choque inicial deu lugar a uma incredulidade indignada.
"Dezoito anos? Você está falando sério?", minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, atraindo o olhar curioso de um colega da mesa ao lado.
Dona Sofia fez uma careta, irritada com a minha reação.
"Fale baixo! Você quer que todo mundo ouça?", ela sibilou, inclinando-se ainda mais. "Claro que estou falando sério! Você acha que eu brincaria com a saúde do meu filho?"
"Saúde? Que tipo de problema de saúde se cura com... com isso?", eu gesticulava, sem palavras, para o meu próprio peito. "Isso é... doentio! É pervertido!"
"Não é pervertido!", ela retrucou, a voz tremendo de raiva contida. "Meu filho, o Thiago, ele tem uma deficiência. A mente dele não se desenvolveu direito. Ele tem o corpo de um homem, mas a cabeça de uma criança. Eu li em todo lugar, o leite materno tem anticorpos, tem nutrientes que podem regenerar o cérebro! É a minha única esperança!"
A lógica dela era tão distorcida, tão desesperada, que por um momento quase senti pena. Mas a repulsa era mais forte.
"Isso não faz o menor sentido! Leite materno é para bebês! Não é uma cura milagrosa para um adulto! Você deveria procurar um médico, um especialista, não assediar as pessoas no trabalho!"
"Médicos!", ela cuspiu a palavra com desprezo. "Eles não sabem de nada! Só querem entupir meu filho de remédios que o deixam dopado! Eu sou a mãe dele, eu sei do que ele precisa! E ele precisa do seu leite."
A calma sinistra com que ela disse a última frase me deu um arrepio. Ela não estava pedindo, estava afirmando um fato.
"A resposta é não", eu disse, a voz firme, apesar do tremor nas minhas mãos. "Definitivamente não. Por favor, se afaste da minha mesa."
Eu me virei para o meu computador, na esperança de que ela entendesse o recado e fosse embora. Mas ela não se moveu. Senti a presença dela atrás de mim, pesada e ameaçadora.
"Você vai me dar o que eu quero", ela disse, a voz agora um rosnado baixo. "Amanhã. Na hora do almoço. Na sala de amamentação. Esteja lá."
Eu me virei de novo, incrédula.
"Você está me ameaçando? Eu vou chamar a segurança! Eu vou ao RH!"
"E vai dizer o quê?", ela riu, um som seco e sem alegria. "Que uma pobre mãe divorciada, com um filho deficiente, pediu seu leite? Eles vão rir da sua cara. Vão dizer que você está exagerando, que é coisa de mulher. Vão sentir pena de mim, não de você. Pense bem, Júlia. Você não quer criar problemas."
A confiança dela era aterrorizante. Ela já tinha pensado em tudo. Ela se via como a vítima, e sabia como usar essa imagem a seu favor.
"Você é louca", eu murmurei, o coração batendo descontrolado.
"Eu sou uma mãe fazendo o que for preciso", ela corrigiu. "Amanhã. Na hora do almoço."
Ela finalmente se virou e se afastou, caminhando de volta para o seu departamento com uma calma assustadora, deixando-me ali, tremendo, com o estômago revirado. A normalidade do escritório ao meu redor parecia uma piada. Ninguém tinha ideia da insanidade que acabara de acontecer na minha mesa.
Eu olhei para a foto do meu filho na tela do celular. Meu pequeno e indefeso Léo. Um instinto protetor feroz tomou conta de mim. Aquela mulher não chegaria perto de mim. Eu não ia permitir. Mas, no fundo, a ameaça dela ecoava: "Vão sentir pena de mim, não de você". E o pior era que eu sabia que ela podia estar certa.