Chegava para se casar com uma mulher que não conhecia e, portanto, não amava.
Em seu coração havia outra pessoa, com quem já mantinha um relacionamento, apesar de saber que seu destino havia sido unido por alguém a outra mulher, uma mulher da qual mal sabia algo.
Dez anos no estrangeiro, fora da Itália, outros cinco anos no norte da Europa. Bastaram para mudar muitas coisas naquele homem. Um evento doloroso o fez aceitar qualquer coisa que seus pais decidissem sobre sua vida, porque acreditava merecer, merecer qualquer castigo.
Prometê-lo a outra mulher era castigá-lo? Sim, sim, quando ele apenas estava ocupando o lugar de seu irmão, seu irmão gêmeo que havia falecido.
Para Davide Queen, sua vida não era mais do que um castigo, uma lembrança dolorosa para ele e seus pais, para toda a sua família.
Estivera administrando e expandindo os negócios da família depois dos estudos, afastavam-no o máximo possível para não verem seu rosto. Só que ele já não era um jovem que podiam manipular como quisessem; era o mais velho de três irmãos e partira quando tinha apenas vinte e um anos. Há algumas semanas havia completado trinta e seis anos.
Aquele matrimônio tinha que ser realizado por um acordo entre ambas as famílias e, embora houvesse dois irmãos que se aproximavam da idade da noiva, tinha que contrair núpcias com o irmão mais velho, o herdeiro, o futuro chefe da família e do império empresarial.
Durante anos, aquelas famílias se uniram através do matrimônio e, naquela geração, cabia a eles dois unir os laços. Mas a diferença de idade era bastante notável.
Jamais havia visto a noiva. Ainda que a família fosse mais ou menos unida, isso foi quando ambas as famílias residiam na Itália, mas a da noiva já vivia há muito tempo em São Francisco, Estados Unidos; ela havia crescido em um internato, depois que sua mãe faleceu quando tinha apenas três anos e seu pai se casou novamente um ano depois, tendo assim com sua atual esposa duas belas meninas, as gêmeas chamadas Olimpia e Darnelly, com quem não tinha contato algum, já que crescera no internato e depois foi direto para a universidade.
Estava recém-regressando para se casar depois de passar a maior parte de sua vida na França, regressava a São Francisco para cumprir seu dever como a mais velha da família.
Os pais se encarregaram de toda a organização do casamento, nenhum dos noivos teve participação alguma nos preparativos e demais detalhes, até mesmo o vestido foi escolhido por sua madrasta, assim como a decoração e cada pormenor.
A boda não se celebraria em Milão, embora ambas as famílias fossem de lá, porque o pai de Chiara se negou, sem dar nenhuma razão.
Rosario não conhecia muito sua enteada, mas se alegrava bastante com a decisão de seu esposo de enviá-la a um internato desde o casamento, porque não tinha certeza se poderia criar a filha de outra mulher, e acreditava que isso havia sido o melhor para ambas.
Rosario casou-se aos vinte e dois anos com o senhor Moretti e, desde então, tinha o homem em suas mãos, um homem apaixonado, mas ao mesmo tempo controlado.
A vida de Chiara havia sido tão diferente da de suas irmãs.
Enquanto as gêmeas receberam todo o amor de seu pai, ela apenas recebia cheques, presentes pouco pessoais e um cartão em cada Natal, acompanhado de uma foto familiar de seu pai, suas irmãs e sua madrasta.
Aquela seria a primeira vez que os veria. Supunha-se que iriam buscá-la no aeroporto, mas não foi assim. Também não disseram se não chegariam, e ela não se cansava de ligar, esperando uma resposta, de modo que só lhe restava esperar.
O céu escureceu rapidamente e, em um instante, começou a chover. As lágrimas brotaram de seus olhos ao perceber que seu pai não a via em pessoa havia mais de quinze anos e, ainda assim, não era capaz de estar ali para buscá-la no aeroporto. Sabia o endereço da casa, não lhe restaria outra opção senão tomar um táxi.
Pegar um táxi era o de menos, o que realmente doía era estar ali sozinha, confirmando o que sempre soubera: ninguém ali a queria, seu pai não a amava. A única esperança que tinha era poder formar uma família com o herdeiro Queen, criar laços com ele e ser uma boa esposa para que o amor surgisse entre ambos.
Ansiava por uma família, precisava de uma família, afeto, amor. E confiava que, apesar de não ser uma aliança por amor, que seu esposo a recebesse com carinho e que ambos transformassem aquele compromisso em algo belo, real e de ambos.
Chiara era muito sonhadora, às vezes entrava em um mundo mágico que sua mente criava, onde era querida por muitas pessoas e repleta de amor, porque sua realidade fora muito diferente daquilo. Não conseguia lembrar o nome de sua mãe, muito menos seu rosto e, desde menina, sempre que chorava só havia uma voz forte e autoritária que lhe ordenava silêncio e, se não obedecia, recebia um castigo.
Precisava de um abraço, de alguém que lhe dissesse que as coisas iam melhorar, mesmo que fosse mentira.
A chuva a encharcava e isso não lhe importava, seu peito doía com cada lágrima e cada minuto que passava.
De repente, a água deixou de cair e ela olhou para o céu, notando que sobre sua cabeça havia um guarda-chuva branco que a protegia.
Virou-se para ver quem era o dono ou a dona do guarda-chuva.
Chiara se deparou com enormes olhos cinza-escuros que a olhavam com intensidade.
-Você não percebe que está chovendo? -perguntou aquela voz, forte, clara e autoritária.
-Eu não tinha guarda-chuva -respondeu Chiara, presa no olhar do homem, em sua barba espessa e na pinta que ele tinha no nariz.
-Você podia ter entrado -reclamou ele, como se realmente importasse se ela se molhava ou não. Segurou-a pelo braço e a levou até a porta do aeroporto, deixando-a dentro enquanto Chiara segurava sua mala e cravava os olhos naquele homem.
-Muito obrigada! -gritou ela, vendo como ele se dirigia a um táxi que acabara de chegar.
O telefone de Chiara começou a tocar e, ao atender, percebeu que era seu pai, mas aquele número não estava registrado.
-Álvaro está chegando para buscá-la -disse a voz de seu pai; esse era o nome do chofer-. Estava com Olimpia em outro lugar, por isso demorou.
-Não se preocupe, pai. Vou pegar um táxi.
-Então deveria ter dito antes, Chiara. O chofer já está a caminho, não saia daí.
Passou meia hora até que o chofer chegasse, já não chovia.
Ela se aproximou timidamente, deixando que o chofer colocasse a mala. Encharcada, subiu ao carro e percebeu a presença de mais alguém.
Sua irmã, mas não poderia dizer qual das duas. Olimpia e Darnelly eram gêmeas idênticas, e Chiara não saberia reconhecê-la. De qualquer forma, só as conhecia por fotos.
-Você está molhada! Não se atreva a chegar perto de mim -gritou a jovem ao seu lado, empurrando Chiara com as mãos. Tinha apenas cinco anos a menos que Chiara, mas já era uma mulher. Seus cabelos eram castanhos, tinha olhos verdes e um rosto muito bonito. O decote deixava ver boa parte dos seios e aquele vestido era tão curto que Chiara jurava ter visto sua roupa íntima.
No fundo, Chiara estava feliz por ver sua irmã pessoalmente, conhecê-la, mas a jovem a ignorava completamente, imersa na tela do celular.
-Você é... Darnelly ou Olimpia? -perguntou Chiara, tímida.
-E quem disse que você podia falar comigo? Por acaso me conhece? Não me interessa saber quem você é e eu não tenho interesse em saber quem sou para você.
-Sou Chiara, sua irmã -a risada que a jovem soltou ofendeu Chiara, e ela já não voltou a dirigir-lhe a palavra.
Ao chegar em casa, a senhora Rosario esperava na porta, recebendo sua filha com um abraço e entrando em seguida, sem esperar para cumprimentar Chiara ou lhe dar as boas-vindas ao país, à sua casa.
Chiara viu aquele rosto que agora lhe dava as costas e não sentiu nenhuma calorosidade por parte dela. Havia um muro gelado, carregado de rejeição.
Quando entrou na casa, não conseguia nem lembrar-se das escadas, pois partira muito pequena daquele lugar. Olhou para os lados para ver se seu pai estava ali, mas o único que havia era uma mulher de meia-idade com um uniforme branco e preto que se aproximou dela.
-Bem-vinda a casa, senhorita.
-O-Olá. Poderia ver meu pai? -Tinha um nó na garganta, como se quisesse chorar.
-Receio que não, ele não está, mas chegará para o jantar. A senhorita está encharcada, permita-me ajudá-la com a bagagem e mostrar-lhe seu quarto.
-Claro, muito obrigada -A primeira coisa que Chiara fez foi dirigir-se às escadas, mas a mulher a deteve.
-Senhorita, não é por aí. Seu quarto é aqui embaixo.
-Ah... Estou um pouco perdida, praticamente esta é a primeira vez que venho aqui. Se estive alguma vez, não consigo recordar.
Chiara e a empregada cruzaram pela cozinha, pela área de serviço, saíram ao pátio dos fundos e ali viram a piscina, enquanto Chiara se perguntava para onde ela a levava.
No final, havia uma porta desbotada, até pequena, que ao ser aberta deu passagem a um quartinho minúsculo, com uma cama, um ventilador e um armário embutido.
A casa era enorme, poderia ter ao menos sete quartos confortavelmente, mas... dariam aquele a Chiara? Aquilo nem mesmo podia ser considerado parte da casa.
A mulher a olhou, constrangida, não era culpa dela, essa havia sido a ordem de Rosario e assim tinha que ser feito.
-É aqui.
-Oh... -Chiara não podia acreditar-. Muito obrigada por me guiar. Acha que meu pai vai demorar?
-Algumas horas.
-E, sabe algo sobre meu noivo? O casamento é amanhã e gostaria de vê-lo hoje, mas não tenho a mínima informação, não quero chegar ao altar e conhecer seu rosto só naquele momento.
-Lamento, só sei que o nome dele é Davide Queen. Talvez encontre algo sobre ele na internet, talvez uma foto.
-Sim, agora com o nome vai ser mais fácil.
-Ouvi uma de suas irmãs dizer que ele é extremamente bonito, deve ser verdade. -Chiara sorriu, imaginando seu príncipe encantado-. Meu nome é Mildred, para o que precisar estou a um passo de distância.
Mildred se foi, deixando Chiara com um nó no estômago, enquanto entendia perfeitamente a mensagem que lhe davam com aquela recepção.
Ali, ela não era bem-vinda.
Depois de arrumar suas coisas no pequeno espaço, Chiara subiu na cama com seu portátil sobre as pernas. Desde já sentia a dureza daquele colchão, seria uma noite muito longa, mas ao menos seria apenas essa noite. Depois do casamento partiria para a lua de mel com seu esposo e muitas coisas mudariam para ela.
Estava emocionada.
O próximo passo era conhecer o rosto de seu esposo.
Digitou rapidamente seu nome.
Davide Queen.
Apareciam várias páginas com informações sobre empresas e afins, mas nem um único rosto. Entrou em mais de sete sites onde figurava o nome de Davide, como era possível que não houvesse nenhuma foto?
Ampliou ainda mais sua busca, acrescentando para saber sobre a família Queen. Nela apareciam o pai, a mãe e dois irmãos, com nomes e fotos. Mas nada do irmão mais velho.
-Não pode ser! -Desejava ver o rosto do homem que seria seu esposo. Mas parecia impossível. Deixou o portátil na cama e recostou a cabeça no travesseiro-. Quero vê-lo. Não quero chegar lá e só então conhecer o rosto de meu marido. -Sentia que seria estranho, mas tudo em seu casamento era muito estranho, desde aquele e-mail que lhe enviou seu pai, perguntando se ela se lembrava do que ele e sua mãe haviam dito quando era pequena: que se casaria com um dos filhos da família Queen. Como iria se lembrar disso? Se de sua infância não recordava nada, nem de sua mãe, sobretudo porque ninguém lhe falava dela, sendo criança e sem alimentar essas memórias, facilmente foram ficando no esquecimento. Algo que a machucava muito.
Alguém bateu à sua porta e Mildred entrou quando Chiara lhe deu permissão.
Haviam se passado pelo menos duas horas desde que ela chegou à casa, seus olhos se iluminaram ao pensar que seu pai já havia chegado.
-Senhorita.
-Meu pai chegou? -perguntou com ilusão.
-Não, mas a senhora Rosario quer vê-la.
Chiara sorriu debilmente, sem saber se aquilo era algo bom.
-Claro, já vou. Pode ir -Mildred saiu.
Chiara desceu da cama e calçou os sapatos, tinha que perguntar a Rosario muitas coisas, como sobre seu vestido de noiva e mais detalhes que desconhecia. O casamento era amanhã, não queria ficar mais nervosa, mas precisava ter os detalhes.
Fechou a porta de seu quarto abandonado e percorreu o caminho até chegar à cozinha e poder sair à sala.
Ali, elegantemente sentada no sofá, estava a senhora da casa.
Rosario era muito bela e ainda conservava boa parte de sua juventude, disfarçando muito bem os pequenos retoques que havia feito no rosto ou aqueles seios de vinte e poucos anos que havia comprado. Chiara sempre soubera que suas irmãs eram iguais à mãe, agora confirmava. As gêmeas possuíam a maior parte da beleza de Rosario e, talvez, outras coisas menos úteis também.
-Olá, Rosario -cumprimentou, sendo esse o primeiro contato direto entre as duas.
-Chiara, você está muito crescida. -Chiara sorriu, sem notar o significado oculto daquelas palavras. Era a filha mais velha de seu marido, por isso, apesar de sempre ter estado no estrangeiro, para Rosario não deixava de ser a sombra da primeira esposa do senhor Moretti-. Como foi sua viagem? -Chiara começou a se sentir mais tranquila, vendo que a senhora se mostrava amável. Talvez pudesse mencionar um pedido de mudança de quarto.
-Foi muito boa.
-Amanhã é seu casamento, não está nervosa?
-Não. Ou sim. Suponho. Tudo isso foi muito inesperado.
-Quer dizer que não deseja se casar?
-O estranho de tudo isso é que eu quero me casar. -Rosario levantou a mão e Chiara se aproximou devagar, sentando-se ao seu lado-. Obrigada.
-Entenderia completamente se não quisesse se casar. Os Moretti e os Queen em algum momento da história voltariam a se unir outra vez, sempre foi assim. Mas não precisa ser você.
-Não?
-Você tem outras duas irmãs -disse com um sorriso desdenhoso.
-Achei que...
-Que se casavam os irmãos mais velhos com as filhas mais velhas de cada família? Eu sei disso. Mas se você não quiser se casar, há duas irmãs que podem fazê-lo. E os Queen têm filhos mais novos que Davide. Algumas coisas podem mudar, esta é outra geração e é representada pelas mudanças.
-Mas eu quero me casar. Eu aceitei. E amanhã é meu casamento -Chiara se levantou, mas Rosario segurou sua mão, empurrando-a para que voltasse a sentar.
-Está lhe faltando modos, foi isso que ouvi? Um tom elevado de voz dirigido a mim? Não se supõe que estava em um dos melhores internatos? Ou era apenas caro? Porque todos os anos meu marido desembolsava uma enorme quantia para sua educação, mas vejo que carece dela.
-Eu não gritei.
-E agora me responde! Isso é um insulto!
-Então, me desculpe.
-Sua estúpida desculpa não me serve de nada se não for sincera, quem diabos você pensa que é? -Rosario se levantou-. Talvez você não mereça ser a que vai se casar com Davide Queen.
Não, para Rosario ela não merecia. Tinha duas filhas muito belas, que destilavam beleza e elegância, aptas e dignas para serem as que unissem novamente os Moretti com os Queen. Mas escolheram Chiara, só porque já estava decidido. E suas filhas? Não mereciam também esse privilégio? Rosario entendia que para Chiara era um privilégio, um que não merecia apenas por ser a filha mais velha de seu marido.
-Sou a esposa escolhida -Na voz de Chiara notou-se um pouco de orgulho e segurança que Rosario se encarregaria de esmagar. O casamento ainda não se realizara, por isso ainda havia tempo para que Chiara Moretti mudasse de opinião.
-Olimpia -Rosario apertou os dentes sem deixar de olhar para as sobrancelhas franzidas de Chiara. Ela parecia muito tranquila, aquela expressão tão nobre e calma, apesar de as sobrancelhas quererem se unir e em sua testa se desenharem três linhas, sendo o único indício de que a jovem estava irritada. Uns saltos ressoaram à distância, mas se aproximavam com rapidez-, Darnelly.
A senhora voltou a sentar-se, suas filhas entraram em cena como se estivessem em uma passarela de moda.
A primeira, Olimpia, chegou com um belo vestido branco de noiva, era tão lindo, tão tudo, que fez Chiara se levantar, sabendo naquele momento exato que era o seu vestido de noiva.
Levantou-se, incapaz de entender o que estava acontecendo. Rosario a segurou com mais força, devolvendo-a ao assento.
Darnelly fez sua maravilhosa entrada com o vestido da festa. Este também era branco, rodeado de pérolas na cintura, com um pequeno caimento atrás, suas mangas eram pequenas, discretas, assim como o decote, mas era perfeito para a celebração.
Seus olhos se encheram de lágrimas, vendo que suas irmãs usavam seus vestidos.
-São meus -soluçou-. São meus vestidos. Quero que tirem, por favor.
-Tecnicamente não são seus. Eu os comprei. -Razão não lhe faltava. Chamou suas filhas para que se aproximassem, elas exibiam brilhantes sorrisos, bastante confortáveis com toda a situação-. Veja, olhe de perto. Uma delas pode ser a noiva amanhã. Qualquer uma delas é melhor que você, perfeita. Só precisa dizer que não vai se casar.
-É meu casamento. Fui eu a escolhida.
-Um direito que não lhe pertence! A esposa sou eu! Eu sou a senhora Moretti! E estas são minhas filhas, então deveria ter sido escolhida uma delas. Não você.
-Quero que tirem os vestidos, por favor.
-Eu os paguei.
-Com certeza quem pagou foi meu pai! Então são meus vestidos, eu sou quem vai se casar.
-Isso pode mudar -disse uma das gêmeas-. Só diga que não vai se casar.
-Nem sequer... são maiores de idade -respondeu Chiara.
-Davide tem cerca de quinze anos a mais que você, ele esperou até que fosse maior de idade, então pode esperar até que minhas filhas também sejam. Ou acha que é a única que pode ser esperada?
-Toda essa situação... é ridícula. Que horas meu pai chega? Preciso falar com ele.
-Não é seu pai, órfãzinha -disse a que estava mais próxima, era Olimpia.
-Órfã? Órfãzinha?
-Não são apenas os órfãos que mandam para internatos, longe, em lugares cheios de freiras para ver se delas recebem algum amor? Já que não há mais ninguém que as queira.
-Tenho um pai!
-Mas ele não te quer!
Sem pensar se aquilo era bom, ruim, correto ou impulsivo demais, Chiara empurrou fortemente Olimpia, fazendo a jovem cair para trás. Em seguida, Darnelly praticamente saltou contra Chiara, agarrando uma grande porção de seu cabelo entre os longos dedos e puxando-a para trás. Olimpia se recompôs muito rápido, cheia de ira, tentando fazer Chiara pagar por tê-la empurrado. Entre as duas, atacavam a irmã mais velha: uma puxava seus cabelos, a outra golpeava seu rosto freneticamente.
Chiara não ficava de braços cruzados, mas a posição em que estava, com a cabeça para baixo e submetida pela cabeleira, a deixava em total desvantagem. Com as mãos, tentava se defender, mas as gêmeas sabiam manter distância delas. Chiara queria recuar, mas isso só lhe trazia mais dor. Sentia que todo seu cabelo era arrancado do couro cabeludo, chorava, mas não deixava de lutar. Caiu ao chão sem que Darnelly soltasse seu cabelo, deitada de costas, Olimpia tentou ir sobre ela, mas Chiara a chutou para trás. Darnelly pôs um pé sobre seu peito, cravando ali aquele salto. Chiara soltou um grito dilacerante quando sentiu aquilo em seu peito, rasgada pela dor. Agarrou a perna de Darnelly e a mordeu, fazendo com que ela a retirasse, mas caiu sobre ela, sobre seu peito, deixando a cabeça de Chiara entre suas pernas e seus braços presos embaixo.
-Vou matar essa vadia! -gritou Olimpia atrás.
As irmãs haviam subjugado Chiara.
Ao lado, ainda sentada no sofá, Rosario apenas observava, desfrutando da surra que suas filhas davam em Chiara.
Com todo o alvoroço, Mildred e Canela, que era a outra empregada, apenas olhavam de longe, escondidas sem fazer nada.
Sabiam que a chegada da filha mais velha do senhor traria caos, mas jamais imaginaram que as coisas aconteceriam dessa forma já no primeiro dia.
-Meninas, deixem um presente no rosto dela, já que insiste em se casar. Que o noivo a veja mais horrenda do que é.
-Não! Não! Me soltem! Me soltem agora mesmo! -a única coisa que tinha mobilidade eram suas pernas. Com elas tentava de tudo, mas o peso da irmã não lhe permitia fazer muito mais-. Por favor... -começou a suplicar, sabendo que lutar era impossível- Por favor, não!
-Calma. De qualquer modo, você já é feia.
-Senhora! -Canela correu até ali, incapaz de apenas ficar olhando enquanto faziam aquilo com a senhorita Chiara. Canela a viu nascer, cuidou dela à noite quando sua mãe estava muito cansada e foi o colo no qual Chiara Moretti chorou quando sua mãe morreu.
Rosario levantou o olhar para Canela, a única do serviço que estava ali havia todos esses anos e a quem seu esposo não deixava que ela despedisse.
Canela era uma senhora de uns sessenta e tantos anos, cabelos já grisalhos e olhar enrugado. Rosario não tinha queixas dela, salvo o fato de que também servira à primeira esposa do senhor Moretti.
-O que quer, Canela?
-Se os Queen perceberem que suas filhas causaram tal dano, desfigurando o rosto dela antes do casamento, acredito que ficariam bastante irritados com as culpadas. Provocar uma vergonha desse tipo não seria o mais indicado agora.
Rosario pensou por alguns segundos.
-Deixem-na. E entreguem o vestido.
-Mas, mamãe! -reclamaram ao mesmo tempo. Mas obedeceram de imediato à ordem da mãe. Darnelly foi a primeira a baixar o zíper do vestido ali mesmo, ficando de roupa íntima. Jogou-o sobre Chiara e saiu resmungando, lançando insultos contra ela.
Olimpia também obedeceria, mas não com a mesma facilidade que a irmã.
-Oh, meu Deus! Olhe o que fez! -exclamou, pegando um pedaço de tecido fino do vestido. Esticou com as duas mãos e o tecido fez aquele típico som ao rasgar-. Você devia ter tido mais cuidado, Chiara -abaixou o zíper e tirou o vestido, também o jogando sobre Chiara.
Chiara apertou seus vestidos contra o peito, sem parar de chorar. Não conseguia levantar o olhar, tampouco se sentia capaz de ficar de pé.
-Tirem-na da minha vista! -ordenou Rosario.
Mildred e Canela ajudaram Chiara a se levantar, levando-a de volta ao quarto.
Deixaram-na em sua pequena habitação e se foram.
Chiara se jogou ao chão, soltando os vestidos e tocando com cuidado o rosto. Tudo doía: o peito pelo salto que sua irmã cravou contra ela, a cabeça, o rosto.
Só lhe restava chorar, esperando que seu pai chegasse em casa ou que chegasse o dia seguinte para finalmente se casar e ir embora dali.
Cada vez tinha mais confiança em seu casamento, em tomar essa saída.
Canela havia levado o jantar, mas ela não quis comer nada, nem beber. Sentia o rosto inchado, os hematomas nas faces, as bochechas doloridas por todos os golpes que Olimpia lhe dera. Esperava que para o dia seguinte tivesse melhor aspecto, por isso deixou de chorar, seus olhos já estavam muito vermelhos e não queria estragar ainda mais o rosto.
Contaria ao pai tudo o que suas irmãs haviam feito ou o que Rosario pretendia ao desejar que fossem suas filhas as que se casassem com o herdeiro Queen.
Jamais pensou que a situação tomaria esse rumo; mesmo que não fosse bem recebida, tampouco imaginou que sua "família" quisesse humilhá-la.
Eles a odiavam por razões que Chiara nem compreendia, mas tinha certeza de que a odiavam.
Pediu a Canela que, por favor, falasse com seu pai quando ele chegasse, para que passasse a vê-la, porque Chiara não tinha como perceber sua chegada.
Por volta das onze da noite, sua porta se abriu de golpe.
Era seu pai.
Chiara levantou-se de um salto da cama, estudando o rosto do pai, absorvendo cada detalhe: as novas rugas que ele tinha, o olhar, coisas que não se podiam notar em uma foto.
Mas tudo o que viu foi um cenho franzido que, conforme os segundos passavam, se transformou em um rosto irado.
Onde estava a alegria de vê-la?
Onde estava o primeiro sorriso ao tê-la diante de si depois de tanto tempo?
-Pai... É bom vê-lo.
Seu pai caminhou lentamente até ela e se aproximou, pousou as mãos em seus ombros. Chiara pretendia abraçá-lo, mas... suas mãos a mantiveram longe. Tentou uma segunda vez, queria verdadeiramente abraçar aquele homem, seu pai, mas ele a impediu novamente.
Por alguns segundos, o olhar daquele homem se suavizou, reconhecendo naquele rosto, naquela expressão, parte da essência de sua falecida esposa. Mas não havia afeto por Chiara. Passara a vida inteira afastando-a, agora não seria diferente.
-Espero que tudo isso acabe logo, para que já vá embora -deixou uma mão em seu rosto, mas rapidamente a retirou, virando-se de costas.
-Pai... Eu... -o que dizer a um homem que, depois de anos sem vê-la, aquelas eram as primeiras palavras que saíam de sua boca? Decidiu não implorar amor, afeto, pelo menos por enquanto, mas sim falar do que havia acontecido-. Olimpia e Darnelly usaram meus vestidos, Olimpia rasgou meu vestido de noiva.
-Que palavras mais ridículas. Você as ataca e agora as culpa de terem estragado seu vestido?
-Eu não as ataquei -disse pausadamente-. Rosario quer que sejam elas as que se casem em meu lugar.
-São meninas! Como ousa dizer isso?! -A voz forte de seu pai a estremeceu e, de imediato, suas lágrimas se tornaram visíveis. Ele continuou falando coisas que eram mentiras, provavelmente ditas por Rosario ou por uma de suas filhas. Ela não se defenderia; ele não a deixaria e, provavelmente, só acrescentaria mais raiva naquele homem.
Apenas ficou ouvindo, como se toda a culpa fosse dela.
Ao terminar seu longo e furioso discurso, o senhor Moretti se dirigiu até a porta.
-Espere, pai. Ainda não vá, por favor.
-Estou cansado, tenho que ir para a cama.
-Não posso me casar com este vestido rasgado. Preciso de outro.
-Então por que o estragou? Vai ter que usá-lo assim.
-Não... não fui eu. Foi Olimpia! Não quero usar esse vestido amanhã.
-É meia-noite! O que está me pedindo?! Você o rasgou! Assuma e resigne-se!
-Se minha mãe estivesse viva, não permitiria que isso acontecesse. Meu casamento seria algo especial, não onde suas filhas tentam tomar meu lugar ou sua esposa me humilha. As coisas seriam muito diferentes.
E foi só isso que disse antes que o caos tomasse conta do quarto.
Moretti se aproximou da filha e, quando levantou a mão contra seu rosto, Chiara rapidamente percebeu a intenção e tentou se proteger. Ele mudou a trajetória da mão, não aceitando ficar com o desejo de lhe dar um pouco de "educação". Empurrou-a contra a parede, mas sua força não foi medida. A cabeça de Chiara bateu com força e, olhando para o pai, foi deslizando lentamente até o chão, com um fio de sangue escorrendo da cabeça.
Os lábios de Chiara se separaram para emitir um gemido, os olhos ardiam, mas seu coração doía mais do que o corpo.
-Não devia ter voltado, Chiara. Aqui você não tem nada -disse, saindo rapidamente dali.
-Nem em nenhum outro lugar... simplesmente não tenho nada -soluçou, caída.
(...)
Para a família Queen, que havia se trasladado completa a São Francisco, o casamento de Davide Queen e Chiara Moretti era a união que esperavam há anos. Mas não era precisamente Davide quem deveria se casar, por isso havia um certo amargor em toda aquela situação.
Se bem ele fosse o irmão mais velho, antes não era assim, não quando ainda estava vivo seu gêmeo, que era de fato o primogênito.
-Enfim chegou o dia -havia certa tensão em toda a situação, perceptível na voz do pai, porque a família duvidava que Davide aparecesse no casamento. Durante quase vinte anos haviam castigado o filho pela morte do irmão. Davide aceitara cada castigo, cada rejeição, mas há algum tempo as coisas começaram a mudar quando encontrou o amor.
-Sim, já é o dia -sua mãe olhava pela janela do hotel onde toda a família estava hospedada, sem saber nada sobre o paradeiro de Davide, salvo que já havia chegado a São Francisco.
-Duvido muito que essa jovem possa mudar o coração de Davide -disse seu pai.
-E quem espera que ela mude aquela fera? O único que espero dele é o casamento. E dela? Herdeiros.
-Chiara. Tem um belo nome.
-E tenho certeza de que é tão bela quanto a mãe.
-Foi uma mulher linda -o senhor Queen se aproximou da esposa, rodeou-a com o braço, puxando-a para junto de si-. E se ele não vier?
-Hoje haverá um casamento, com ele ou sem ele. Teremos casamento -respondeu Fiorella friamente.
-Você pensa em...?
-Ainda temos dois filhos.
-Dante e Nico? Mas, Fiorella...
-O que quer que eu diga, Gian? Davide tem tentado nos subestimar desde que está com aquela prostituta sueca. Se não se casar, perde o controle das empresas e um deles se casa com a Moretti.
-Talvez isso não importe a Davide -disse Gian.
-Está brincando? É o que mais lhe importa! Seu único orgulho é esse, não tem mais nada. Se não chegar hoje ao casamento, um de seus irmãos ocupará seu lugar.
O senhor Queen engoliu seco, pouco animado com toda a situação.
-Chamarei os meninos para dizer que é provável que um deles se case com Chiara Moretti.
Enquanto ele saía do quarto, ela se permitiu chorar agora que estava sozinha.
Poderia ser o casamento de seu belo filho, o dono de seu coração, mas ele já não estava vivo.
Seu esposo voltou com os dois filhos mais novos.
Dante tinha vinte e nove anos, era um homem tranquilo, às vezes pouco sociável e, em ocasiões, seu mau humor o dominava, afastando-o ainda mais do que pretendia. Mas amava sua mãe de todo coração, porque via a tristeza nela e como ainda não superava a morte do filho. Poderia se dizer que era o mais compreensivo de todos. Embora sua personalidade não fosse a mais alegre, seu físico fazia um equilíbrio perfeito. Aqueles olhos verdes diziam muito mais que sua expressão e, no fundo, era um homem alegre, mas que não sabia como expressar isso. Seu cabelo castanho estava sempre curto, era tão alto quanto o irmão mais velho e compartilhavam certo parecido, sobretudo na forma da boca e do nariz. Era magro, de ombros largos e pernas fortes, mas magro. Quando sorria, o fazia de maneira sincera.
Ao contrário de seus dois irmãos, apesar de ter se preparado para a gestão empresarial, o que apaixonava Dante eram as artes culinárias. E a isso se dedicava. Sua mãe o considerava um dos maiores fracassos como filho, mas ele não era de se deixar levar pelas opiniões alheias. Estava mais do que preparado para as críticas.
Nico, o caçula dos irmãos, era como um sol, mas não caloroso e reconfortante, e sim ardente e abrasador. Fogo era provavelmente o que corria em suas veias.
Era um homem de cabelos negros, olhos cinzentos, lábios grossos e sobrancelhas espessas, tinha uma risada chamativa e, assim como os irmãos, era de uma beleza invejável. Destilava sensualidade até em sua maneira de falar, olhar, sorrir, até em sua respiração. Tinha apenas vinte e cinco anos e se considerava um homem sem amarras, ainda que de vez em quando desse ouvidos aos pais, o que não acontecia com tanta frequência.
Era tão imprevisível, que tê-lo por perto deixava os pais muito nervosos. Nunca fazia nada que se pudesse imaginar; prever seu comportamento era praticamente impossível. Dava-se muito mal com os irmãos, e isso ia em várias direções: detestava de forma direta cada coisa que eles faziam.
Para Nico, Davide era sério demais, Dante entediante demais, e não via sentido em viver a vida desse jeito. Uma vida sem aventuras, para ele, era um suplício. Sua mente não seguia regras, muito menos as respeitava.
Aquele homem era um completo boêmio.
-Pode ser que um de vocês dois se case hoje com Chiara Moretti -A risada de Nico foi o que seguiu às palavras da mãe.
-Espera... está falando sério?
-Sim, não me importa qual dos dois, mas quem o fizer estará no comando das empresas. Algum dos dois se oferece voluntário?
-Porra! Já podia ter facilitado, mamãe. Duas coisas que não suporto: responsabilidades e casamento.
-E você, Dante?
-Mãe... é o que deseja? -Se fosse o que ela queria, ele estava disposto.
-Não acredito! -exclamou Nico, vendo que o irmão aceitava-. Ao menos já viu a noiva?
-Posso lhe assegurar que é uma mulher linda, completamente linda -disse a mãe.
Essa afirmação já fazia Nico reconsiderar.
-Bom... -estava mesmo pensando nisso?-. Se for uma autêntica beleza italiana, posso fazer o sacrifício. Importa-se, Dante?
-Não, só o farei se não houver outra opção.
-Quão leviano você trata o casamento -bufou Nico.
-Você se baseia só na beleza, e eu é que sou o leviano?
-Chega! Não quero discussões, só queria que levassem isso em conta caso seu irmão não apareça no casamento. De qualquer forma, temos que ir, já estamos atrasados.
-Tanto faz! Pode ser que eu me case hoje -disse Nico com um sorriso.
-Você é realmente imprevisível -resmungou Dante, incapaz de imaginar o irmão mais novo casado com qualquer mulher.
A família Queen se dirigiu para a igreja.
A primeira coisa que notaram foi a ausência do irmão, apesar de todos os convidados já estarem ali. Embora a igreja não estivesse cheia, havia pelo menos umas cinquenta pessoas.
-Já estou com dor de cabeça -disse a mãe-. Por favor, Dante e Nico, vejam se seu irmão está por perto. Se supõe que ele deve chegar antes da noiva!
-Calma, mamãe, vamos procurá-lo.
O noivo não havia chegado, enquanto o carro da noiva já estava estacionado em frente à igreja, esperando a indicação de que Davide Queen já estava ali.