POV CHARLOTTE
O estalo seco do tapa ecoou pelo escritório revestido de jacarandá antes que eu conseguisse prever o movimento.
A força do golpe do meu progenitor foi tão violenta que a minha região cervical estalou e a minha cabeça girou. Perdi completamente o equilíbrio e o meu corpo foi jogado sem nenhum amparo contra o piso de mármore importado. O tecido caro do meu vestido de grife rasgou na lateral do quadril quando bati com força contra a quina da mesa de centro, espalhando uma dor aguda pela minha coxa. No segundo seguinte, o gosto quente e metálico do sangue inundou a minha boca, escorrendo rápido pelo canto do meu lábio inferior.
- Você vai estar naquele almoço amanhã, vai sorrir e vai aceitar o herdeiro dos Zeiberg como o seu marido, sua imbecil.
A voz rosnou acima de mim, fazendo meu estômago revirar em um espasmo violento de náusea e ansiedade. O suor frio brotou instantaneamente na minha testa, colando alguns fios de cabelo no meu rosto. Antes que eu conseguisse me apoiar nos cotovelos para levantar, os dedos grossos dele se cravaram nos meus cabelos castanhos com força, puxando a raiz com uma ignorância que fez o meu couro cabeludo arder como se estivesse em chamas, me suspendendo do chão.
A dor lancinante irradiou direto para a minha nuca, fazendo as minhas lágrimas de raiva arderem nos meus olhos, mas eu cerrei os dentes com tanta força que a minha arcada dentária estalou, recusando-me a dar a ele o prazer de ouvir o meu choro.
- Olhe para mim, Charlotte. Olhe para a desgraça que você está causando com essa sua rebeldia de merda. Olha como você está me fazendo agir.
- Eu não causei porra nenhuma.
Cuspi as palavras junto com o rastro vermelho, sentindo o gosto de ferro na língua.
- Te mandei para a Suíça para você virar uma pessoa de elite, não uma moleca mimada, incendiária que só sabe desobedecer e envergonhar o nosso sobrenome.
Não respondi, apenas fechei os olhos com força, sentindo a queimação da raiz do cabelo se espalhar pelo restante do meu corpo e travar os meus ombros.
- Você vai fazer o que eu mandar você fazer. Vai se casar, abrir as pernas e engravidar de um herdeiro para garantir a porra desse acordo.
- A fraude é sua, Carlos Fronckowiak. A sonegação de impostos foi o seu esquema nojento de corrupção. A Receita Federal descobriu tudo e agora a holding está afundando por causa de uma multa milionária que você não tem como pagar. A culpa não é minha.
O meu progenitor apertou ainda mais os dedos contra a minha cabeça, o hálito dele exalando o cheiro azedo do uísque que ele vinha bebendo desde que a intimação do governo tinha chegado.
- Eu gastei uma fortuna com você e agora você me deve isso. O herdeiro dos Zeiberg é a nossa única salvação. Você vai assinar a porra desse contrato de casamento de uma vez por todas, vai salvar esta família da falência e vai limpar o sobrenome que te dei.
- Solta ela, Carlos. Homem não bate em mulher.
A voz do meu avô Alfonso ecoou na porta da sala, interrompendo a agressão. Desviei o olhar por um segundo e foquei nele. O homem de cabelos grisalhos perfeitamente alinhados segurava um copo de uísque com os dedos firmes, caminhando em direção ao centro do escritório com a frieza de quem avalia o preço de um pedaço de gado antes do leilão. Ele segurou o pulso do meu pai com firmeza, fazendo os dedos dele se abrirem e me deixando cair no chão de mármore novamente.
Carlos Fronckowiak recuou um passo com um empurrão e deu um chute ruidoso contra a base da cadeira de madeira ao lado. O rosto dele estava transfigurado pela fúria.
- Você é uma inútil, Charlotte. Uma desgraçada que só serve para esbanjar o que eu construí. Você devia ter morrido junto com a sua mãe. - Ele me encarou furioso, passando as duas mãos pelos cabelos escuros. - Não. Na verdade, você nem deveria ter nascido.
A frase dele entrou na minha mente como uma lâmina fria, cortando o meu coração por dentro e ferindo o meu ego. Aquilo estraçalhou o restante do respeito que eu ainda tentava manter por aquele homem.
Um bolo amargo e sufocante se formou na minha garganta, bloqueando a minha respiração por um segundo, e uma vontade avassaladora de vomitar subiu até o meu peito. Engoli o choro que tentava me esmagar e me levantei do chão devagar, sentindo as pernas bambas enquanto limpava o sangue do lábio com as costas da mão esquerda.
- Vá, menina - meu avô Alfonso disse, a voz mansa, mas cortante, enquanto dava um gole calmo no uísque. - Mas lembre-se: você não tem escolha. Tem uma responsabilidade com o seu sobrenome. Se você recusar esse almoço de amanhã e fizer a família Zeiberg cancelar o acordo, acabou a faculdade de Economia, acabaram os cartões de crédito e a sua vida de luxo. Vamos perder tudo.
Não respondi. Não olhei para trás. Peguei a minha bolsa em cima do aparador e saí daquela mansão pisando firme, deixando o barulho dos meus sapatos ecoar pelo corredor vazio da entrada.
Caminhei até a calçada da avenida, o vento frio de julho batendo contra o meu rosto e ressecando o rastro do sangue na minha pele. O meu corpo inteiro tremia de ódio e humilhação, os meus dentes batendo uns contra os outros. Ergui o braço e parei o primeiro táxi que passou pela guia, pulando para dentro do banco de trás e batendo a porta com força.
- Para qualquer lugar longe daqui.
Falei para o motorista, afundando as costas no estofado gasto do veículo. Tentei respirar fundo várias vezes para que o meu peito se expandisse e eu não morresse sufocada pela raiva, pelo rancor e pelo ressentimento.
- Está tudo bem, senhora? - o motorista perguntou, olhando pelo retrovisor com uma expressão de dúvida.
- Sim... - afirmei com a voz embargada, enquanto limpava as lágrimas com pressa para manter a pose.
O táxi dirigiu por alguns minutos pelas ruas de Porto Alegre.
O meu celular vibrou em cima do meu colo, a tela acendendo com uma notificação de mensagem. Era a Moon Bittencourt, minha amiga da faculdade de Design.
"Lottie, estou indo almoçar no shopping perto do centro. Você quer se encontrar comigo?"
Encarei as letras na tela por alguns segundos. Eu estava sem fome e a náusea do estresse martelava a minha têmpora com batidas dolorosas, mas eu me recusava a voltar para a mansão ou ficar sozinha trancada em um quarto. Digitei a resposta com rapidez.
"Estou a caminho, Moon. Me espera no bar. Preciso de um drink urgente."
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------
🚨 NOTA DA AUTORA: Sejam bem-vindos a mais uma história do nosso universo compartilhado! 💖✨
👉 Para quem está chegando agora e quer se aprofundar ainda mais nesse mundo, esta história é um spin-off de um spin-off! 📚🔥 A obra original que deu início a tudo se chama O BILIONÁRIO OBCECADO PELA BABÁ VIRGEM DO CLUBE PROIBIDO, que faz parte do universo do AMBROSIA CLUB- UM club de BDSM - Dominação e Subimissão de Mulheres. 💥
👉 Depois dela, nós tivemos a história conectada chamada VIRGEM TRAÍDA CONTRATOU UM GIGOLÔ E ELE ERA UM BILIONÁRIO. 👑🔥-- Disponível apenas Bu3n0 N0v3/
👉 Agora, em ME CASEI COM O GIGOLÔ E ELE ERA MEU NOIVO FUGITIVO BILIONÁRIO, nós vamos acompanhar a trajetória caótica e divertida da Charlotte e do Arthur dentro do mesmo ecossistema que muitos já conhecem e amam! 💖🗣️
🔞 ATENÇÃO LEITORES: ESTE LIVRO POSSUI CONTEÚDO ADULTO E cenas que vão quase te matar de tanto rir 🚫🔥
POV CHARLOTTE
O táxi freou em frente à entrada principal do shopping com um rangido leve nos pneus. Paguei a corrida rápido antes de abrir a porta e sair para o ar abafado do meio do dia.
Caminhei pelos corredores movimentados, ignorando os olhares de algumas pessoas que passavam por mim. Eu conseguia sentir o rastro do sangue do meu lábio já seco e duro na pele, mas limpei o excesso com o polegar com força, empurrando a ardência para o fundo da minha mente.
Avistei a cafeteria de canto perto da praça de alimentação. Moon Bittencourt estava sentada em uma das mesas do fundo, mexendo no celular. Ajeitei o meu vestido e fui na direção dela. Assim que ela me viu, ela se levantou em um salto e me envolveu em um abraço aberto e apertado.
O calor do abraço da Moon fez o meu peito aliviar um pouco daquela pressão esmagadora. Nós duas fazíamos faculdade de Design juntas. No futuro eu pretendia fazer uma especialização na área de joias e gemologia porque a minha família comanda uma holding gigantesca desse setor, mas faço a faculdade em segredo, porque eles acham que curso Economia.
A minha mãe morreu quando eu nasci. Fui criada por uma linha infinita de babás pagas, pelo meu pai e pelos meus avós Alfonso e Mariza. Para piorar, a minha avó, que era a única que me dava algum afeto real, faleceu quando eu tinha apenas sete anos. Quando completei doze anos, meu pai e meu avô simplesmente me despacharam para um internato tradicional e isolado na Suíça, onde fiquei por um longo tempo, fiz o colegial, me formei e só voltou ao Brasil depois de muitos anos longe após um grande incidente, na verdade um grande incêndio do qual fui considerada culpada, que ocorreu na faculdade de lá.
Eles achavam que eu continuava cursando a faculdade de Economia que me impuseram. Nem imaginavam que eu tinha trancado a matrícula após um ano de tortura e mudado para o Design. Foi nesse curso secreto que conheci a Moon.
- Lottie, o que aconteceu com você? - Moon se afastou do abraço, os olhos arregalados focando direto no meu lábio cortado.
- Não é nada demais - respondi, a minha voz saindo rouca enquanto eu me sentava na cadeira de vime.
- Tem certeza? Você está com uma cara péssima.
- O problema é que meu progenitor quer que eu me case com um herdeiro de uma empresa e eu preciso conhecer minha futura sogra amanhã.
- Nossa, que aristocrático! - ela comentou. - Casamento arranjado?
- Pois é, em pleno século XXI, eu me casar com um cara que eu nunca vi na vida, que não sei quem é, mas aposto que é um babaca, idiota, autoritário e arrogante. Nem entendo o motivo desse casamento direito.
Moon sentou-se logo em frente, segurando a minha mão por cima da mesa com firmeza.
- Sinto muito, se eu soubesse que você estava passando por essas turbulências nem teria te mandado mensagem incomodando.
- Não, eu que agradeço, pelo menos assim eu não enlouqueço - disse a ela, ajeitando o meu cabelo em um coque frouxo. - Mas por que você me chamou logo hoje, Moon? Fazia um tempo que a gente não se falava direito por causa da correria e do seu novo emprego.
Mudei de assunto, tentando afastar a náusea que voltava ao meu estômago.
- Me desculpe, sou uma péssima amiga - ela me disse, coçando os cabelos loiros. - É que tipo... eu estou conhecendo uma pessoa, Lottie. - Moon sorriu de canto, os olhos brilhando com uma emoção contida. - É um cara que tem me ajudado a ver o mundo de outra forma. Ele me disse que eu preciso ser feliz, voltar a ser quem eu era antes e reviver os meus antigos laços. Por causa disso, eu pensei em você. Queria espairecer.
- Fico feliz por você, de verdade - forcei um sorriso, sentindo o bolo na garganta apertar. - Mas a minha vida acabou de virar um lixo completo.
- E o que você vai fazer sobre esse almoço de noivado amanhã? - ela perguntou, preocupada.
- Eu não tenho escolha, Moon. Se eu não for, o meu avô Alfonso corta a minha mesada, cancela os meus cartões, me expulsa da faculdade e me joga na rua da amargura. Eu vou ter que ir. Não sei nada sobre o sujeito, só que o sobrenome dele é Zeiberg.
Moon soltou um riso baixo, tentando quebrar o clima pesado da mesa.
- Vai que o cara é um bilionário absurdamente gostoso e lindo?
- Eu não ligo para isso. Odeio a ideia de ser vendida como uma mercadoria para salvar o pescoço do meu pai.
Moon ficou em silêncio por alguns segundos, batendo os dedos na xícara de café antes de abrir um sorriso travesso.
- Você é obrigada a ir ao almoço, certo? Mas você não é obrigada a fazer a sua futura sogra gostar de você. E se a mãe do noivo não gostar de você, se ela te odiar?
- Como assim? Tenho que ficar feia?
- Lottie, você é linda demais, você nunca vai ficar feia nem se tentar se estragar. Mas sua sogra deve ser tipo toda madame certinha, esperando uma boneca de porcelana.
- Isso significa que tenho que virar um monstro?
- Você tem que sei lá... Faça ela te odiar.
A ideia da Moon bateu na minha mente como um estalo de pura genialidade.
- Eu já sei exatamente o que eu vou fazer.
Levantei-me da cadeira num salto, segurei a Moon pela mão e a puxei pelo corredor do shopping em direção ao terceiro piso.
Entramos direto no estúdio de tatuagens e piercing. Viraria o pior pesadelo de uma madame como nora.
Encaixei uma argola de prata no nariz. A agulha perfurou a carne e a dor física foi imediata, fazendo uma lágrima involuntária escapar pelo canto do meu olho. Ardeu demais.
- Já que estamos no inferno, vamos completar o estrago - falei para o tatuador, apontando para a lateral do meu pescoço. - Quero três passarinhos bem aqui.
O zumbido da máquina de tatuagem preencheu o cubículo. A agulha começou a morder a pele sensível da minha jugular, raspando direto contra a área delicada. A ardência da tinta entrando na minha carne me deixou completamente desconfortável, uma queimação contínua que parecia arranhar o osso. Demorou uma eternidade, cada traço parecia uma lâmina quente cortando o meu pescoço, mas segurei o fôlego até o final.
Para a minha surpresa, a Moon riu alto da minha cara de dor e resolveu entrar na loucura também. Ela perdeu o medo e pediu para a profissional colocar um piercing na pepeka e fazer uma tatuagem pequena no ombro. Eu quase caí para trás quando ela me disse que faria isso.
Saímos de lá direto para uma loja de departamentos e comprei uma roupa preta totalmente esquisita, larga e com um corte bizarro que destruía qualquer pose aristocrática. Se a minha futura sogra queria uma boneca, ela receberia um corvo gótico.
Antes de sair do shopping, arrastei a Moon até a agência do banco no piso térreo. Preenchi uma folha de cheque com um valor alto e descontei direto no caixa, guardando os maços de dinheiro vivo na minha bolsa. Se o meu pai tentasse me matar ou o meu avô tivesse um infarto com o meu visual, eu teria dinheiro para pegar as minhas coisas e fugir para bem longe deles sem depender de esmolas.
Passamos no salão de beleza dos fundos para o toque final. Fiquei horas assistindo ao descolorante agir no meu cabelo castanho. Quando a tinta roxa e azul foi aplicada e lavada, o resultado no espelho me fez soltar uma gargalhada alta.
Mechas grossas, vibrantes e rebeldes moldavam o meu rosto e combinavam com os meus olhos azuis cinzentos, contrastando com o piercing de prata fresco no nariz e a tatuagem de passarinhos que ainda ardia no meu pescoço.
- Meu Deus, Lottie... - Moon riu alto, boquiaberta com o resultado, enquanto se ajeitava na cadeira com uma careta engraçada por causa do piercing novo na pepeka. - Agora você definitivamente não parece a nora mimada e perfeitinha que eles querem. Você parece uma herdeira rebelde e perigosa.
- É exatamente isso o que a mãe do herdeiro dos Zeiberg vai receber amanhã no restaurante - respondi, fechando a minha bolsa cheia de dinheiro com um prazer sombrio. - Vamos ver se a tal ricaça ainda vai querer que o filho dela se case com um pesadelo como eu.
POV ARTHUR
O lustre de cristal pendurado no teto do restaurante espalhava uma luz dourada sobre as mesas cobertas por linho. Meus passos ecoaram pelo granito polido, e o peso das minhas botas quebrou o silêncio daquele ambiente fútil. Um almoço ali valia o salário do mês de um trabalhador médio, o tipo de desperdício que embrulhou o meu estômago.
- Por aqui, senhor. A sua mesa reservada fica na ala privativa dos fundos. - O garçom se aproximou, abaixando a cabeça.
- Não me chama de senhor. - Cortei de imediato, a voz saindo grossa.
As mangas da minha camisa de linho preta estavam dobradas até os cotovelos, deixando o braço esquerdo inteiro com as tatuagens à mostra, além dos primeiros botões abertos expondo o peito. Eu não pertencia a esse mundo de aparências e nem fazia questão de me esconder para agradar ninguém. Cruzei o salão com passos largos e avistei o alvo.
Betânia Zeiberg ocupava o centro do espaço reservado, com aquela postura impecável de quem se julgava dona do mundo. Ela não estava sozinha. Dois homens de terno escuro dividiam a mesa com ela; um homem mais velho com cabelos grisalhos e cara de bilionário e um mais novo segurando uma pasta sob o peito.
A presença desses dois urubus fez o meu maxilar travar na hora.
- Arthur, meu filho. Você veio. - Betânia se levantou, abrindo os braços e inclinando o corpo para me dar um beijo no rosto.
Girei o pescoço de leve, desviando do contato. Os lábios dela alcançaram apenas o ar frio. Sentei-me na cadeira vaga da ponta, apoiando os braços no tampo e encarando a mulher que tinha me largado na infância.
- Desembucha o que você quer, Betânia. Achei que era um almoço entre nós dois, não uma reunião com sei lá quem.
- Quanta agressividade, Arthur. Eu queria te apresentar esses dois senhores aqui, eles representam a holding dos Fronc...
- Eu não quero ouvir o sobrenome de ninguém e nem me interessa quem eles são. - Interrompi, e o homem mais velho se mexeu na cadeira, desconfortável. - Fala logo o motivo de ter me procurado.
Betânia parou as duas mãos espalhadas na mesa com os olhos fixos nos meus, recuperando a postura autoritária.
- Nós temos um acordo comercial de muito tempo atrás, Arthur. O seu pai Hendrik Zeiberg faleceu alguns anos atrás e agora está na hora de você assumir os seus negócios e o legado das pedras preciosas.
- Não chama aquele sujeito de meu pai. - Apontei o indicador na direção dela, sentindo o sangue ferver. - O único homem que me criou, que me deu um teto e a quem eu chamava de pai não é aquele sujeito.
- Você sabe muito bem que o seu tio é apenas o seu tio, Arthur. Você é um Zeiberg. Mesmo que você tenha tirado o sobrenome paterno, você continua sendo o meu filho. - Minha mãe respondeu, passando a mão na cabeça do seu cachorrinho de estimação que estava dentro da bolsa ao lado.
- Eu não quero o dinheiro. Pega essa riqueza e some da minha vida, Betânia. Faz exatamente o que você fez quando eu era uma criança.
Ela continuou me encarando com uma seriedade gélida.
- Até quando essa birra, Arthur? Para você assumir o seu legado e a empresa, o contrato exige uma cláusula. Você precisa se casar.
Soltei uma gargalhada sarcástica, o som ecoou pela área reservada.
- Você só pode estar ficando louca.
- Eu estou falando muito sério. Você vai se casar, e vai se casar com a filha dele. - Ela apontou para o homem que segurava a pasta.
Me levantei da cadeira num salto, o móvel arrastando contra o chão com um ruído estridente. O ódio comandou os meus movimentos.
- Você perdeu o juízo. Eu não vou me casar com ninguém... Estou saindo. - Virei as costas e comecei a andar.
- Eu estou com câncer, Arthur. - A frase dela saiu num sussurro, travando os meus passos.
Girei o corpo devagar. O rosto de Betânia estava um pouco mais pálido que o normal.
- Estou com câncer de mama, estágio dois. Eu vou morrer se o tratamento não funcionar. Só quero deixar você encaminhado antes de partir.
O ar travou na minha garganta por um segundo, mas controlei a reação de imediato. Sorri de lado, cínico. Ignorando as batidas aceleradas e desconfortáveis do meu coração.
- Você é mestre em manipulação, Betânia. Acha que vou cair nessa história de doença para aceitar casamento arranjado?
Ela enfiou a mão em uma bolsa de couro, puxou un envelope pardo e entregou na minha direção. Peguei o papel. Meus dedos abriram o lacre e arrancaram as folhas lá de dentro. Meus olhos correram pelas imagens escuras da ressonância e travaram direto nas palavras impressas do laudo técnico: carcinoma, nódulo, estágio dois.
O ar sumiu dos meus pulmões por um segundo e a minha garganta fechou por completo. Engoli em seco, apertei os papéis com força entre os dedos e forcei o meu olhar de volta para o rosto pálido dela, prendendo o tremor que ameaçava subir pelos meus ombros.
- Se você vai morrer, Betânia, pega esse dinheiro da mina e doa tudo para a caridade ou enterra junto com você dentro do caixão. Eu não ligo para a porra do seu dinheiro. Você não manda na minha vida e eu só vou me casar quando eu quiser, com a mulher que eu escolher.
Empurrei o envelope de volta na mesa com brutalidade e dei dois passos firmes em direção à saída da ala privativa.
- Arthur! Volta aqui! - Betânia se levantou, a voz subindo de tom e perdendo a pose aristocrática. - Você não pode fugir das suas responsabilidades! Você não pode simplesmente fugir de mim!
Parei bem na divisa do corredor, olhando por cima do ombro. Dei um riso curto, cortante e carregado de desprezo.
- Eu já estou fugindo. E se você me incomodar de novo com essa palhaçada, eu sumo de um jeito que você nunca mais vai me achar.
Dei as costas em definitivo, deixando ela falando sozinha na mesa. A minha cabeça latejou com força perto das têmporas. Meus passos aceleraram pelo piso de granito polido, e o falatório das outras mesas virou um zumbido confuso e acelerado nos meus ouvidos. Sempre a mesma coisa. Só aparecia para me dar notícia ruim ou encher a porra do meu saco.
Eu segui de cabeça baixa, completamente perdido nos próprios pensamentos, marchando em direção à saída do restaurante.
Senti quando algo bateu em mim e me molhou, uma bandeja de metal bateu violentamente contra o meu peito, arrancando o ar dos meus pulmões e me fazendo cambalear um passo para trás. No mesmo instante, copos, talheres e pratos voaram para todos os lados. Um líquido escaldante escorreu pela gola da minha camisa aberta, atravessando o tecido e queimando minha pele. O estrondo de vidro se partindo contra o granito ecoou pelo salão inteiro.
Ergui o rosto tentando entender que porra aconteceu.
Um garçom de jaleco branco estava ajoelhado no chão encharcado, cercado por cacos de vidro e bandejas espalhadas.
- Me desculpa. Me desculpa. Senhor. - A expressão dele era de completo desespero.
Virei a cabeça ainda atordoado pelo susto e vi, alguns metros adiante, uma garota disparando pelo corredor. Ela tinha passado correndo e esbarrado no garçom com tanta força que praticamente o lançou contra mim.
- Olha por onde anda, seu idiota! - ela gritou, sem sequer diminuir o passo, a voz fina carregada de uma audácia irritante.
Eu já estava com os nervos estourados.
- Sua louca! - berrei de volta.
Nem sei se ela ouviu. Continuou correndo em direção à ala das mesas como se nada tivesse acontecido.
Mas, por um breve segundo, uma lufada do perfume dela ficou no ar.
Amêndoas... flores silvestres... um aroma doce e diferente que cortou o cheiro forte do álcool derramado.
Estreitei os olhos, registrando apenas o suficiente para guardar a imagem daquela maluca: uma roupa preta larga e esquisita, parecendo um espantalho gótico, enquanto os cabelos castanhos cacheados balançavam revelando mechas roxas e azuis escondidas entre os fios.
Que desastrada abestalhada.
Entrei no banheiro praguejando baixo. Joguei água gelada no peito para aliviar a ardência, mas bastou olhar para a camisa encharcada para concluir que ela estava completamente perdida.
Enfiei a mão no bolso, peguei o celular e digitei uma mensagem rápida para Betânia.
"Uma desastrada derramou bebidas em mim no corredor. Vou para casa. Depois a gente termina essa conversa."
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
#O que acharam do nosso protagonista?