__Juro que estou bem, Carol.
__Você vai acabar gostando de morar aí.
Me esforço ao máximo para corresponder as expectativas dela e digo:
__Sei que vou.
__Se precisar conversar, pode me ligar quando quiser, okay?
__Okay. Agora preciso desligar, acabei de chegar. Até mais.
__Beijo.
Desligo meu telefone e viro a esquerda para entrar pela segunda vez hoje em meu novo lar.
Uma esquina que mais parece abandonada, com um monte de apartamentos velhos alugados por pessoas que parecem que já desistiram de viver.
Ótimo. Acho que vou me adaptar bem aqui.
Respiro fundo.
Acelero o carro mais uma vez, seguindo em frente para tentar achar um lugar para estacionar.
Parece um lugar para fracassados, mas e daí? Ultimamente eu tenho me sentido assim mesmo, por isso pra mim tanto faz.
A primeira vez que estive aqui pela manhã, confesso que pensei que seria bem pior.
Carol me indicou esse lugar onde ela morou um tempo atrás. Um tempo em que ela não era noiva daquele cara maravilhoso, que a ama e divide um apartamento com ela.
Eu me xingo mentalmente outra vez por estar com inveja dela. E isso me faz lembrar outra vez do fracasso que também é e tem sido minha vida amorosa.
Tento ao máximo afastar esses pensamentos da minha cabeça, senão vou chorar de novo e eu não quero fazer isso.
Respiro fundo outra vez.
Ainda parece um lugar silencioso, por mais estranho que isso pareça. Não tanto quanto pela manhã, mas ainda de uma forma que eu gosto, sem muito barulho.
Talvez algumas pessoas ainda estejam no trabalho, vejo no relógio do meu celular que ainda são sete da noite.
Sigo em direção ao velho estacionamento sem muita pressa. Vejo pelo vidro do carro, em uma janela, um cara sentado olhando para a sua televisão e com uma garrafa de cerveja na mão, ele não parece feliz. É, somos dois. Ignoro e sigo em frente.
Mais adiante, vejo no segundo andar uma garotinha sair correndo pelas escadas e uma mulher correndo atrás dela. Um sorriso quase aparece em meus lábios. Quase.
Um carro passa por mim onde uma mulher com um cabelo preto curto, fuma um cigarro e nem faz questão de olhar na minha direção.
Há alguns carros estacionados de frente a saída dos apartamentos, talvez seus donos tenham preguiça de seguir mais alguns metros e estacionar onde devem.
Mas eu não vou ficar julgando, nem conheço ninguém aqui ainda.
Já chegando ao estacionamento, procuro por uma vaga quando o farol do meu carro ilumina um carro já estacionado de frente para mim e eu posso ver um cara no banco da frente.
Eu só não entendo por que ele está parecendo respirar com dificuldade, enquanto morde o lábio inferior, então paro o carro, mas não desligo e olho atentamente mais uma vez. Esse é meu lado apaixonado por medicina entrando em ação. Observo ele ali.
Ele tem os olhos fechados e parece estar respirando ainda mais pesado, porque vejo seu peito subir através da camisa.
Será que ele está passando mal?
Ele então abre os olhos e olha na minha direção.
Olha em meus olhos, ficamos assim por uns segundos.
Só então ao continuar olhando e descer meus olhos um pouco mais para baixo, é que vejo um cabelo preto aparecer devagar, na verdade, subindo e descendo e...
Merda!
Acho que está estampado na minha cara o constrangimento. O problema é que ele continua me olhando e juro que vi um sorriso no canto da sua boca.
Nem me dei conta que meu carro desligou. Me atrapalho para dar partida outra vez e faço de tudo para não olhar mais na direção deles ali.
Encontro uma vaga um pouco afastado daqueles dois e estaciono meu carro. Sigo em direção as escadas que levam ao meu apartamento, sem olhar para trás. Estou no segundo andar e pelo menos não tenho que subir muitas escadas.
Abro, entro e fecho a porta como se alguém estivesse me seguindo.
Que droga!
Por que eu tive que ver o que eu não devia? Espero nunca mais ver aquele casal na minha vida. Tomara que eles não morem aqui.
Vou direto para a minha mini cozinha.
Tudo aqui é mini.
Mini banheiro, mini cozinha, mini sala, mini quarto, mas para mim está ótimo, pretendo ficar aqui um mini tempo e vivendo uma mini vida.
Mas apesar de tudo, o preço é bem mais em conta do que meu antigo apartamento.
Pelo menos tem alguma mobília e tem espaço para algumas coisas que eu trouxe comigo no carro de manhã.
Abro a geladeira e encontro uma caixa de suco. Coloco em um copo e tomo tudo em um só gole.
Eu quero tirar aquela cena de minutos atrás da minha cabeça. Mas eu não consigo, fico vermelha até mesmo agora que estou no conforto do meu teto e não lá fora encarando eles ali outra vez.
Volto para a sala e pego meu laptop na mochila, sei que fiquei até tarde hoje na faculdade, mas preciso terminar urgentemente esse trabalho pra entregar na sexta de manhã.
Tento ligar o computador várias vezes, mas em vão. Coloco no carregador e decido ir tomar um banho.
Eu preciso de um bom banho para ter coragem para colocar minhas coisas para fora dessas caixas. Não são muitas coisas, mas vão deixar esse lugar um pouco mais parecido comigo.
...
Termino meu banho. O espelho está embaçado, ótimo, não tenho tido mesmo vontade de olhar meu reflexo há um bom tempo.
Seco meu cabelo com a toalha, enrolo em volta do meu corpo e vou novamente para a sala para tentar ligar o laptop, em vão novamente.
Choramingo. Sei que essa merda está com defeito outra vez.
Procuro em uma caixa no meio da sala, um pendrive que sei que coloquei esse trabalho, pelo menos posso terminar o que falta pra digitar lá no meu trabalho amanhã.
Trabalho meio expediente como recepcionista em um laboratório de análises clínicas. Não é o emprego dos meus sonhos, mas tem um horário compatível com as minhas necessidades e tenho que me virar com minhas contas.
Ainda mais agora que tenho que arcar com tudo sozinha, depois de muito tempo.
...
Às onze e meia da manhã, assim que saí da clínica onde digitei secretamente o que faltava do meu trabalho, segui direto para a casa do Pierre.
Ele faz faculdade comigo e disse que poderia dar um jeito em meu laptop, ele é ótimo com tecnologia.
No caminho de volta pra casa, decido parar para fazer umas compras, não tenho nada na geladeira e preciso de mais comida congelada.
São práticas e mais fáceis para quem leva uma vida como a minha, sem muito tempo para nada.
Estaciono meu carro, coloco meu celular no bolso de trás da calça e sigo adiante.
Ainda caminhando pelo estacionamento, ouço alguém dizer atrás de mim:
__Moça! Seu celular!
Fecho meu olhos e sinto um frio em todo meu corpo. Vou ser roubada de novo?
Congelo.
A voz diz outra vez:
__Moça?
Me viro devagar, já com as mãos no ar, para dar de cara com um homem com a touca do agasalho de cor escura na cabeça.
Ele me encara meio confuso olhando para as minhas mãos no ar e eu desço meus olhos para ver que ele segura meu celular e aponta na minha direção.
Olho por um tempo para o celular na mão dele e ele balança o celular depois de um tempo e diz:
__Isso é seu, não é?
Olho para seu rosto. Ele espera uma resposta. Eu desço de seus olhos de um tom verde claro e encaro o piercing preto em forma de círculo no canto esquerdo dos seus lábios.
Ele continua:
__Vi cair do seu bolso, enquanto você andava.
Droga, isso deve ter acontecido quando coloquei a mochila nas costas, depois de ter conferido onde estava minha carteira.
Eu finalmente abaixo minhas mãos me sentindo meio idiota agora. Ele ergue mais o braço em minha direção, eu finalmente pego meu celular e digo:
__É sim. Obrigada.
Ele sorri de forma estranha. Acho que ele acha que sou meio maluca.
Ele coloca as mãos no bolso e passa por mim seguindo em direção ao supermercado à frente.
Uau. Isso foi estranho.
Mas eu não tenho culpa, não conheço ninguém por aqui e fora que já fui roubada dessa forma umas duas vezes depois que vim morar nessa cidade.
Sigo adiante e finalmente me sinto melhor quando vejo várias pessoas e começo a fazer minhas compras. Não vejo o cara em nenhum dos corredores onde passei.
Não que eu esteja querendo ver ele outra vez e sua beleza exótica, mas é que sinto que não agradeci o suficiente.
Meu pendrive estava pendurado no chaveiro do meu telefone. Ele meio que salvou minha vida, de certa forma.
Procuro, mas em vão, ele deve ter ido embora já.
Pego algumas embalagens na seção de frios e sigo em direção ao caixa. Pelo menos não tem muitas pessoas na minha frente.
Um caixa ao lado é liberado e uma senhora na minha frente passa para o lado me deixando atrás de um cara com...
A touca do agasalho cinza na cabeça.
Sorrio. Vou finalmente poder agradecer a ele por...
__Eu posso trazer depois.
__Não, não pode senhor.
__Mas eu sempre venho aqui, vai me dizer que não me conhece, Whitney?
A garota do caixa para um instante olha pra ele, depois diz:
__Mas eu não posso fazer isso, Noah.
Algumas pessoas olham na nossa direção.
Ele parece irritado.
Separa algumas coisas, joga o dinheiro em cima do balcão, pega uma sacola plástica, coloca suas coisas e sai.
A garota parece frustrada ao ver ele saindo assim, mas coloca um sorriso no rosto ao me ver. As coisas que ele deixou ainda estão em um canto sobre o balcão.
...
Estou andando no estacionamento e de longe o vejo. Ando um pouco mais rápido e grito:
__Hey!
Ele olha para trás, me olha meio sem entender e eu ando mais rápido e o alcanço. Entrego uma sacola e digo:
__Suas coisas.
Ele me olha ainda mais confuso.
Eu digo com um sorriso para ele se sentir melhor:
__Você esqueceu no caixa.
Ele entende, mas parece sem graça e diz:
__Olha você não precisava mesmo...
Eu o interrompo:
__Você salvou minha vida quando me entregou o celular com aquele pendrive. Era o mínimo que eu podia fazer.
Ele ainda não parece convencido e diz:
__Juro que te pago de volta.
__Okay.
Se ele acha melhor assim. Estendo minha mão:
__Sou Parker.
__Noah.
Ele retira o capuz e eu vejo perfeitamente seu rosto e seu cabelo agora e me dou conta de que já o vi antes.
Meu rosto está queimando de vergonha.