Ângelo
Angelina estava no jardim. Fiquei pensando em como ela era linda mesmo com uma barriga enorme. Os humanos são realmente criaturas interessantes, se misturam e fazem seres novos, sempre achei isso fascinante neles. Eu sempre observei Angelina, desde que me encontrei com ela por acaso em uma de suas missões, ela sempre me intrigou, ainda mais quando descobri que um dos meus irmãos que veio a minha procura não só a seguia como também desistiu da sua imortalidade e de todo seu conhecimento para ficar com ela. Eu não podia me aproximar muito dela durante todos esses anos, pois sabia dos dons daquela família e do seu envolvimento com aquela organização sombria. Mas agora as coisas eram diferentes, eu sabia que ela havia assumido a organização e que as diretrizes haviam mudado, eu sentia tanta saudade dela e agora era o momento de me aproximar, tinha tantas coisas que eu queria contar, mas ainda não sabia como. Aproximei-me devagar, a última coisa que eu queria era assustá-la, ela parecia inquieta, mas ainda em alerta, mas conforme me aproximei ela fez o gesto peculiar de levantar o rosto para sentir o cheiro, o meu cheiro.
- Você está ainda mais linda grávida. - Eu disse-lhe.
- Ângelo? Como? Eu vi você não morrer. Não pode ser meus sentidos estão me pregando uma peça.
- Acredito que, no fundo, você sempre soube o que eu era...
Sorri ao afagar os seus cabelos, ela não conteve a emoção e me abraçou e confesso que foi uma sensação para lá de reconfortante. Pena que não durou muito, pois ela pareceu compreender o que eu havia dito
- Você também é um anjo?
- Sim, eu sou e como eu já disse, você sempre soube disso, só não queria admitir.
Ela pareceu pensativa por alguns minutos.
- Por que você sumiu por tanto tempo? Você sabia que nunca machuquei os seus irmãos...
- Eu não iria voltar, eu sabia que você pensava que eu estava morto e pensei em deixar as coisas como estavam, mas você precisa saber de uma coisa, por isso estou aqui.
- Estou ouvindo.
Já era hora, ela tinha que saber, eu precisava falar, a tempos eu queria contar-lhe a minha história...
- Angelina, eu sou o motivo da sua organização existir.
- Você está me dizendo que é...
- Exatamente, eu sou ele, o anjo por quem tanto procuraram. - Lhe disse olhando para cima, me recordando de tudo que eu já havia vivido. Ah como eu queria contar tudo a ela, mas eu ainda não estava pronto, pelo menos não para falar sobre tudo.
"Estou aqui a muitos séculos, sua organização sempre me odiou pelo que fiz com aquela humana mesmo sabendo que não foi proposital. Julguei que os humanos nunca me aceitariam, enquanto eu me escondia eu te conheci e vi o que você estava fazendo com meus iguais e seus descendentes, me aproximei de você de início porque fiquei curioso. Todos foram julgados e condenados culpados pelo meu pecado. Mas não você. Você era diferente, você queria ajudar então continuei ao seu lado o quanto pude... Eu só não contava com algumas coisas que aconteceram no percurso".
- Sendo um ser tão poderoso, como você conseguiu se esconder por tantos séculos?
- Além dos Darks, muitos dos meus irmãos me procuraram e não me encontraram, eu sempre suprimia meus poderes quando um deles ou um de vocês se aproximava para que nenhum de vocês conseguissem me sentir, mas o último enviado quase me encontrou, devo agradecer a você por ele não ter me achado.
- Agradecer a mim?
- Sim, confesso que de início fiquei surpreso quando soube que ele resolveu ficar aqui na terra e ficou completamente apaixonado por você. E eu, após conviver com você, entendi o porquê.
- O que você quer dizer?
- Que você tem algo diferente dos outros humanos, algo que te torna especial.
Fiquei sem jeito com a maneira que Ângelo me olhou e tratei de desconversar.
- Você era meu amigo e sabia que eu não queria fazer mal a ninguém então por que foi embora desse jeito? Por que me fez acreditar que estava morto?
- Eu precisei ir embora. Eu tinha que ficar longe de você, diferente dele que se esvaziou de poder para ficar com você, eu não tenho intenção de fazer isso, eu nunca abandonaria meus poderes por ninguém, se eu ficasse, como eu estava me apaixonando por você provavelmente eu acabaria não resistindo em te tocar e seu dias chegariam ao fim assim como os dela... Desculpe por fazer você pensar que eu estava morto, como eu ia te contar que alguém que você gostava tanto era um ser tão egoísta? Nem pelo meu primeiro amor, nem por você eu abriria mão da minha imortalidade, na verdade, eu não entendo como meus irmãos puderam renunciar a tudo sabendo que vão morrer.
Angelina sorriu.
- Ângelo, fico feliz que esteja vivo, parece ridículo dizer isso para um ser perfeito que esteve na presença do criador, mas você não entende o que é o amor. Renunciamos a tudo, até a nós mesmo pela outra pessoa, sinto te dizer, mas você não amava aquela mulher, e se não estava disposto a desistir de sua imortalidade nem a mim você poderia amar, o que você sentiu foi apenas luxuria ou talvez no meu caso, um imenso amor fraternal que você confundiu com outra coisa.
Eu estava tão imerso na nossa conversa que não percebi que Christopher nos observava.
- Existem pessoas pelas quais valem a pena morrer... - disse ele chamando atenção de nós dois.
- Christopher?! - Angelina disse surpresa.
- Obrigada por aliviar o coração da minha esposa "irmão". - Respondeu ele abraçando Angelina pela cintura.
Eu não era idiota e o seu ciúme estava para lá de nítido. Esse gesto era para me mostrar a quem Angelina pertencia. De início achei engraçado, mas preferi ignorar e me voltei para Angelina continuando a conversa.
- Eu vim aqui para te contar sobre isso, eu sei que houve mudanças na sua organização, espero que essa informação te ajude a completar as respostas que sua família tanto procurou e que isso te faça uma líder mais justa. Além disso, vim me despedir também, você é um dos melhores seres humanos que já conheci, e olha que nesses séculos conheci muitos! Vou sentir sua falta de verdade, mas será melhor para todos nós se nunca
mais nos vermos de novo, já passou da hora de mudar de nome e aparência, então se você me vir por aí não irá me reconhecer, mas eu sempre lembrarei de você enquanto eu existir.
- Então é assim que você consegue vagar por tantos anos sem ser encontrado, você muda de aparência?
Assentiu com a cabeça para Angelina.
- Bem não interessa a forma que você tome, eu te reconheceria mesmo que você se transformasse em um animal, reconheço seu aroma de canela de longe meu amigo.
- De qualquer forma, ficarei bem longe da sua família de agora em diante.
Antes que ela conseguisse responder sua bolsa estourou, ela se apoiou no marido, parecia sentir muita dor.
- Gelado, eu não vou conseguir chegar ao hospital dessa vez.
- Droga, vou te levar para o quarto. - Disse Christopher a pegando no colo.
Segui os dois ajudando a abrir as portas da mansão. Eu imaginei que o bebê nasceria em algumas horas no máximo. Fiquei do lado de fora do quarto com as crianças e com o pai de Christopher que me olhava intrigado, mas não me fez nenhuma pergunta, só permaneci ali por consideração ao casal e também estava curioso para ver a criança.
Uma das crianças era muito quieto, mas o outro menor tinha olhos muito vividos, castanho mel e parecia ser bem travesso.
- E quem é você? - Perguntou o mais novo.
- Sou amigo da sua mãe.
- Eu sou o Pierre, e seu nome é?
- Pierre, pare de incomodar os amigos da mamãe. - Disse o mais velho.
- Está tudo bem, sou Ângelo, muito prazer Pierre.
Ele abriu um sorriso.
- E você como se chama? - Perguntei ao outro.
- Sou o Richard. - Respondeu ele me estendendo a mão.
Esse era bem mais sério que o outro. Não tive tempo de perguntar mais nada, ouvimos o chorinho de um bebê e os meninos se agitaram. Algum tempo depois Christopher abriu a porta do quarto, uma das empregadas estava ajudando a retirar os lençóis da cama e pediu que eu e as crianças e eu entrássemos em seguida. A bebê estava enrolada num lençol branco. Depois das crianças beijarem a irmã e o pai de Christopher deixar o quarto, eu que estava num canto me aproximei de Angelina com muito cuidado.
Eu nunca vi um recém-nascido com uma cor de olhos igual àquela, sei que demora alguns dias para que a cor definitiva dos olhos apareça, mas ela, tinha a íris de uma cor que eu nunca havia visto. Senti-me hipnotizado por aquele olhar, parecia que o universo inteiro dançava naqueles olhos.
- Qual será o nome dela? - Perguntei sem desviar o olhar do bebê que também estava fixo no meu.
- O nome dela é Ângela...
Sorri ao ouvir o nome e quando dei por mim, estava beijando a testa da criança com tanto amor. Senti que algo estava errado comigo naquele momento. Angelina e Christopher também me olhavam intrigados.
Percebendo aquele sentimento estranho que tomava conta de mim me apressei em sair dali.
- Preciso mesmo ir agora, adeus Ange, que a paz esteja contigo. - Eu disse enquanto saia pela porta ouvindo o sussurro de sua voz chorosa a me dizer.
- Contigo também...
Os meninos estavam a porta, me despedi dos dois e sai daquela casa o mais rápido que pude e um piscar de olhos depois estava do outro lado do mundo, escolhi um deserto gelado na Sibéria, eu não sentia calor ou frio e o vazio sempre me ajudou a refletir melhor, aquela imensidão branca era tão bela...
Angelina
Após o nascimento de Ângela imaginei não que não teríamos mais notícias de Ângelo, doce engano foi o meu. Havia milênios que ele se escondia o que o fazia um especialista, um mestre dos disfarces então quais seria a possibilidade de vê-lo novamente? Quase nenhuma eu diria, porém, as coisas tomaram proporções que eu desconhecia. O primeiro mês após o nascimento de Ângela foi o que passei mais tempo com ela, eu tirei uma espécie de "ferias", até porque eu precisava me recompor fisicamente também, mas esses momentos tão bons com a minha pequena passaram mais rápido do que eu esperava. Ângela era uma criança tranquila e quieta. Isso provavelmente era consequência de sua descendência Angelical. Essas características eram para lá de comuns em crianças descendentes de "ex anjos", mas sabe quando você tem a sensação de que tem algo acontecendo e você não está acompanhando? Pois, é exatamente isso que sinto agora. Ângela parecia nunca chorar por nada, nunca estava com a fralda molhada de xixi demais, ou suja, eu não era boba e sabia ter algo acontecendo, entretanto, eu ainda não sabia o que era.
Quando Ângela completou dois meses precisei voltar aos meus afazeres, mesmo que trabalhasse na maior parte do tempo em home office eu tinha muita coisa para gerenciar, era a empresa, a Organização, a casa, os filhos. Christopher me ajudava em tudo que ele podia, inclusive quando dizia respeito aos Dark Angels. Embora as coisas estivessem mais tranquilas hoje, nas épocas sombrias dos Darks a organização em si, tinha envolvimento com todos os tipos de pessoas, governos e máfias.
Era como se fossemos a máfia dentro da máfia, por assim dizer, um grupo secreto e de elite. Meu sonho sempre foi tornar os Darks uma ONG que fizesse jus a seu propósito que era proteger e realocar os "novos humanos".
Você deve estar se perguntando o que são "novos humanos", bem essa foi a forma que encontramos de nos referir aos anjos que desistiram de seus poderes, antes chamados de caídos e comparados aos demônios, resolvemos adequar o nome para não ser pejorativos.
O que eu não imaginava era que teria que fazer coisas tão ruins quanto na época da organização anterior. A única diferença é que a nova diretriz que eu mesmo havia implantado era que nunca machucaríamos alguém inocente, nunca nos envolveríamos em guerras, mas todo aquele treinamento que recebemos quando criança ainda se fazia necessário atualmente. Alguns fiéis a nossa causa aceitaram a difícil missão de participar dessas "missões especiais" quando necessário, eles sabiam precisar estar prontos para matar. Estávamos treinando os jovens agora, decidimos por manter um grupo seleto, de preferência os que tivessem de alguma forma ligação com a organização e isso me deixava extremamente contristada, alguns deles tinham a idade dos meus filhos e já estavam sendo treinados para ser assassinos de elite. A única coisa que me confortava nisso tudo era saber que caso as coisas saíssem do controle esses jovens e crianças iriam saber se defender e teriam uma oportunidade de viver. Precisei viajar a Washington (EUA) para acompanhar um desses treinamentos (tínhamos bases em quase todos os lugares do mundo) e fiquei surpresa quando Róger descobriu que eu estaria aqui e me convidou para um jantar em sua casa. A sua esposa era bem mais jovem que ele, mas uma mulher encantadora.
Recusei-me a ficar em sua casa alegando ter vindo a negócios e precisar tratar de algumas documentações ainda na capital, Róger não morava na capital e sim em Nova Iorque. Foi uma semana longa sem a minha família e agradeci mentalmente que ela estivesse acabando. Então no que seria meu último dia nos Estados Unidos meu querido amigo Róger resolveu me fazer uma visita. Ele nunca soube exatamente o que eu fazia. Dos nossos amigos apenas Laila sabia da nossa vida no sub mundo.
- A que devo a honra da sua visita meu amigo querido.
- Tenho dois motivos especiais, o primeiro é te ver, o segundo e mais importante é te fazer um pedido especial. Eu não conseguia imaginar o que eu poderia oferecer a Róger que ele já não tivesse.
Meu amigo era um empresário, sua rede de cafés e bomboniere estava presente em quase todos os estados americanos além de começar a expansão pela América do Sul agora.
- Ficarei feliz em ajudar se eu puder. - Respondi.
- Quero que treine meu filho, o John.
Tomei um grande susto, esse pedido era um tanto estranho, será que ele havia descobrido algo sobre a organização? Vendo minha expressão surpresa Róger continuou:
- Eu sei que é um pedido estranho e inusitado, mas quero te explicar o porquê estou te pedindo isso. John e Richard são muito amigos e ele acabou contando que desde muito pequenos eles treinam diversos tipos de artes marciais. Seus filhos são calmos e concentrados, mas John, ele tem me dado muito trabalho nos últimos anos, ele é um garoto agressivo e não mede as consequências de seus atos, talvez o treinamento lhe traga a disciplina que ele precisa. O que me diz?
Róger me pegou de surpresa com esse pedido, ninguém que não tivesse relação com os "novos homens" havia sido treinado desde que eu assumi a organização.
- Róger como você disse meus filhos treinam desde muito cedo, seu filho já irá completar dez anos, não sei se conseguirei resultados com ele...
- Apenas tente é só o que te peço.
Róger parecia desesperado, como eu poderia negar um pedido tão simples de um amigo? Bom o que eu tinha a perder, não é?
Aceitei a missão de treiná-lo. Acabei voltando para o Brasil com o menino junto. Embora fisicamente não se parecesse com Christopher era reservado e muito sério assim como meu Gelado era quando criança e adolescente.
Foram dias difíceis, mas eu me surpreendi com os resultados do garoto, com três meses ele alcançou o nível de Richard e Beatriz. O garoto era promissor. A algum tempo eu me peguei pensando que nenhum dos meus filhos pareciam aptos a assumir meu lugar na organização no futuro (afinal eu não viveria para sempre) e isso me preocupava muito. Contudo, ao ver esse menino comecei a ter um fio de esperança, parecia que eu encontrara o meu futuro sucessor. Ainda era cedo para dizer, mas eu ficaria atenta a ele.
Nesse tempo acabei me distraindo um pouco e alguns detalhes sobre Ângela passaram despercebidos.
O filho de Róger morou conosco por cerca de um ano e passou a vir todas as férias sem exceção para o Brasil. Por sorte ele falava bem nosso idioma perfeitamente por sua mãe ser uma brasileira.
Aos dois anos de Ângela julguei que perderia a minha menina. Ela ficou muito doente, nem mesmo Christopher ou outros médicos achavam o problema, portanto, não havia como curar algo que se desconhece a causa. A febre insistente não cedia totalmente e assim que os efeitos dos antitérmicos passava ela voltava, estávamos exaustos afinal quem conseguiria dormir bem com um dos filhos numa situação dessas? Lembro-me que um desses dias acabei caindo num sono profundo e de acordar de madrugada em desespero. Assim que despertei senti no quarto um aroma peculiar, não era o cheiro de Ângela, pois se tivesse que descrever seu cheiro seria o de maçã verde, doce e cítrico em simultâneo. Era o aroma de canela... Seria possível?
Christopher e Ângela não estavam no quarto e isso me deu uma sensação ruim, será que o pior havia acontecido enquanto eu dormia?
Depois de muito procurar pela casa encontrei Christopher com Ângela no colo balançando a pequena enquanto ela dormia em paz.
- O que houve? Por que não me chamou?
- A febre de Ângela subiu, você estava dormindo tão bem e sei o quanto estava cansada. Levei ela para banheira na esperança que sua febre baixasse um pouco até chegar a hora de dar o próximo antitérmico, mas para a nossa alegria, parece que a febre cedeu dessa vez. Aproximei-me de ambos e aquele cheiro que inundava meu quarto estava em Ângela também. Olhei para Christopher interrogativa.
- Tem algo que eu precise saber acontecendo? - Perguntei olhando fixamente para ele com uma das sobrancelhas levantadas.
- Não amor, por quê? - Respondeu ele desviando o olhar do meu.
Não acredito que ele tentou mentir para mim!
- Vocês podem enganar meus outros sentidos, mas não meu nariz Chris, o que está acontecendo?
Ele respirou fundo e me contou que desde o nascimento de Ângela, Ângelo nunca partiu totalmente. Contou que a algum tempo atrás Pierre também o viu no quarto de Ângela e que por esse motivo havia mudado o berço dela para nosso quarto. Christopher já havia percebido essas visitas a meses, mas nunca comentou nada comigo por não achar necessário me preocupar.
- Eu não ficaria preocupada, Ângelo não é perigoso para nossa filha. Só queria que você tivesse me contado antes.
- Engano seu pensar que Ângelo não é perigoso. Pode não ter sido proposital, mas agora sei porque Ângela estava doente, ela sentia falta de Ângelo. Hoje depois que ele passou um tempo com ela a febre cedeu, sua doença era mais emocional que física. Ela só tem dois anos e sente falta dele, nessa proporção, imagina quando tiver vinte?
Fiquei em silêncio, essa história de treinar o filho de Róger havia tirado o meu foco da minha pequena.
- E onde ele está agora?
- Ângelo se foi a meu pedido, Ângela irá crescer e o afastamento se tornara cada vez mais difícil para ambos, então pedi que ele não voltasse agora que ela é pequena e não terá lembranças dele, ele me prometeu que o faria e espero que dessa vez ele cumpra a sua palavra.
Suspirei triste. O que eu mais queria era poder ter meu querido amigo por perto, mas eu sabia que Christopher tinha razão, crescer ao lado de um ser como Ângelo não seria bom para nossa menina e se ela se apaixonasse por ele como aconteceu comigo e seu pai? Infelizmente eu não tinha mais esperanças de que Ângelo desistisse de sua imortalidade e egoísmo o que significaria sofrimento para ela.
Depois desse episódio, e só depois não tivemos mais notícias de Ângelo e Ângela pareceu esquecê-lo.
Ângela
Vinte anos depois...
Sabe, a vida é engraçada. Eu nunca imaginei que estaria seguindo os passos dos meus pais ou fazendo nada parecido com o que eles já fizeram...
Quando eu tinha catorze anos minha mãe me deu um diário, achei aquilo ridículo. Quem em pleno século vinte e um escreve diários? Temos Vlog, Blogs, Instagram, Facebook, um milhão de mídias e tecnologias para discutir nossos pensamentos com outras pessoas, até de forma anônima se quisermos e minha mãe me dá um diário, que cringe!
Eu cresci cercada de vários homens. Meus dois irmãos, meu primo e os filhos dos amigos dos meus pais. Além de ter um pai e tios super protetores (de sangue ou não), era a caçula, a princesinha da casa. Quando eu era pequena achava isso um máximo, pois todos tentavam me agradar, mas isso foi me incomodando bastante quando comecei a crescer.
No dia que ganhei o diário meus irmãos (como em todos os meus aniversários estavam lá).
- Ei maninha, quer dizer que você foi a escolhida para continuar a "história da nossa família"?
- Que história, Pierre? Só se for para contar o desastre que é o casamento dos nossos pais isso sim.
- Angelinha, o casamento dos nossos pais nem sempre foi assim tão ruim, você nunca leu os diários da família Huberman? - Perguntou Pierre surpreso.
- Eu nunca nem ouvi falar disso! Que diários são esses?
- Claro que ela não sabe Pierre, ela só tem catorze anos, tem coisas que ela não deveria ler neles. - Respondeu Richard, sempre protetor!
- Aí Richard pelo amor de Deus né? O que tem escrito lá que eu não possa ler? Sexo, drogas e rock n' roll? - Perguntei rindo. - Nosso pai é ginecologista e nossa mãe completamente maluquinha, acredito que sei mais sobre sexo do que gostaria.
- Mas se a mamãe não disse nada sobre isso talvez não seja a hora de você conhecer a nossa história, não ainda. - Disse Richard.
- Só que agora vocês me deixaram hiper curiosa e terão que me ajudar a convencer a mamãe, eu quero ler.
- Isso não me parece uma boa ideia.
- Vai maninho, é meu aniversário, considere isso como mais um presente.
- É Richard, se você pedir para a mamãe ela com certeza vai aceitar, você sempre tem créditos com ela. - Disse Pierre.
Richard suspirou.
- Tudo bem, então esperamos o fim da festa e conversamos com a mamãe ok?
Pierre e eu demos um toque high five com as mãos e sai saltitando do lugar, meus irmãos nunca diziam não para mim.
Curtimos a festa com todos os nossos amigos, o único de todos que frequentava a nossa casa que eu não gostava era um garoto chamado Lorenzo. Ele é filho do tio Bruno e da tia Laila. Eu não sei bem como foram as coisas, só sei que ele foi adotado com três anos. Eu tinha dois anos quando isso aconteceu por isso não me lembro bem.
A antipatia entre nós, era mútua. Quando eu era pequena eu até gostava dele, mas ele sempre me ignorou, e uma tarde enquanto eu procurava meus irmãos para brincar ouvi ele dizer-lhes que eu era estranha e que lhe causava calafrios. Ele disse que o que mais o incomodava eram meus olhos. A maioria das pessoas achava a cor dos meus olhos fascinantes, já cheguei a ser chamada de olhos de gato na escola, eles eram castanho mel, mas às vezes ficavam verdes, eu era loirinha igual à tia Angélica.
Todos me abraçaram e me disseram palavras doces, menos o Lorenzo, mas eu não me importei com isso. Vi quando tio Bruno o obrigou a falar comigo. Ele veio com os pais, eu era apaixonada pelo tio Bruno e pela tia Laila então os abracei feliz. Lorenzo me estendeu a mão assim que os soltei. Revirei os olhos e estendi a minha mão também afinal meus pais me deram uma excelente educação.
- Feliz aniversário Ângela! - disse ele em um sorriso forçado.
- Obrigado. - Sorri tão forçado quanto ele.
Ele estreitou os olhos para mim e me puxou para um abraço. Fiquei imóvel, sentia as minhas bochechas queimarem. Quando voltei dos meus devaneios me afastei e disse entre dentes num sorriso:
- Eu ainda não gosto de você.
Ele sorriu e se afastou.
O resto da festa foi animada. Dançamos, comemos, teve o tradicional bolo, muitas fotos com meus pais, irmãos e amigos. Esperamos até o final para falar com a mamãe sobre o tal diário. Assim que todos os convidados se foram fomos até a biblioteca da mansão Huberman e ficamos extremamente surpresos quando ela respondeu:
- Não!
- Como assim mãe, por que não?
- Isso mesmo que vocês ouviram, não. Ângela não precisa ler nada, ela tem que criar suas próprias memórias e não se apegar a memória dos outros.
- Mas mãe eu e o Richard já...
- Vocês são adultos Pierre, mas eu não vou aceitar desobediência de nenhum dos dois, eu sei o que é melhor para Ângela ouviram?
- Sim, mãe. - Responderam Richard e Pierre em simultâneo.
Mas é claro que os meus irmãos não iam obedecer, não dessa vez. Eu estava tão curiosa e convenci os dois a me ajudar a encontrar, o que não foi difícil já que ele ficava no mesmo lugar que sempre esteve, segundo meus irmãos. Estava num alçapão no teto da biblioteca, acima das imensas instantes de livros. Encontramos apenas um deles, descobri serem dois naquele dia. O diário de Christine, minha querida avó de quem meu pai falava tão bem e com tanta saudade a minha infância inteira.
Estava tão empolgada que li ele inteiro na mesma noite. Demorei para digerir tudo que estava escrito, isso parecia a coisa mais maluca do mundo, minha família pertencia a uma organização secreta chamada Dark Angels? Caçadores de anjos? Meu pai, um anjo? Isso era impossível. As fotos da minha avó Rebeca ainda estavam lá, minha avó materna e era impressionante como eu me parecia com ela e aquele homem que estava com ela era muito parecido mesmo com meu pai mais jovem, fiquei realmente balançada, acreditava ou não em tudo aquilo?
Eu amava meu pai, afinal ele era meu pai, mas um anjo? Meu pai era um homem amoroso e atencioso quando éramos crianças, mas conforme fomos crescendo... muita coisa aconteceu. Ele mudou muito quando perdemos a Beatriz..., na verdade, todos nós...
High five é a expressão em inglês que significa o mesmo que "chegue batendo" ou "bate aqui". High significa em português: "alto" e Five: "cinco" (de cinco dedos). O high five consiste em uma batida de mãos entre duas pessoas de palmas abertas no alto.
Beatriz, a filha do tio Piter e da tia Angélica tinha dezesseis anos quando tudo aconteceu. Eu só tinha oito anos mais me lembro como se fosse hoje, a descoberta do câncer, nossa família fazendo de tudo para ajudá-la, ela definhar a cada dia, mas o que eu mais me lembro era do sorriso que nunca saía do seu rosto. Ela tinha um namorado, ele ficou ao lado dela durante todo tempo que lhe restou. Meus tios se apegaram muito a ele e nós também e ele ainda trabalha com meu tio até hoje, acabamos perdendo a Bia, mas ela nos deixou o Rafa e ele é da nossa família.
Rebeca, Beatriz e eu éramos as únicas meninas no meio de uma porção de garotos e meu pai amava a nós três com a mesma medida, mas o ponto onde eu queria chegar era que meu pai nunca mais foi o mesmo depois que ela se foi. Acredito que ele se sentiu muito culpado como médico por não conseguir salva lá, Beatriz era como filha para ele.
Depois da morte dela, meu pai mudou, ele começou a fazer coisas estranhas, coisas que ele nunca havia feito pelo que me lembro, ele sempre fora um médico competente, mas parecia estar sempre ocupado com o trabalho, parecia que ele fazia questão de pegar todos os plantões possíveis para não ficar em casa. Quando não era o trabalho ele não voltava para casa no horário, sempre estava cheirando a álcool quando o encontrávamos, começou a jogar e até perdeu a nossa casa no interior numa partida de pôquer, me lembro da mamãe furiosa quando tivemos nos hospedar na mansão Huberman e depois acabamos nos mudando para mansão Montevidél, pois não aguentávamos mais as brigas entre o vovô Kevin e meu pai por conta da situação em que meu pai chegou.
Eu raramente tinha uma conversa com o meu pai, nos mal nos víamos, apesar de tudo ele não deixou de ser um excelente médico, nunca bebia quando estava de plantão, mais nunca estava presente com a família. Na verdade, ele passou a nos evitar cada dia mais.
Minha mãe, bem eu nem sei como ela dava conta de tudo, era vice-diretora do grupo M & F (nome dado a nossa empresa depois da abertura de capital) ao lado do tio Piter que era o diretor-geral, gerenciava a ONG Dark Angels financiada pelo grupo e por alguns parceiros comerciais, eu nunca soube muito bem o que a ONG fazia até ler o Diário de Christine e adoraria questionar a minha mãe sobre como as coisas estavam agora, mas não podia, pois, seria o mesmo que entregar a nossa travessura. Mesmo com toda essa carga, mesmo com todo o trabalho que meu pai dava, ela conseguia sempre estar lá para nós, criou seus filhos, sobrinhos e alguns afilhados também, ela era a minha inspiração, queria um dia ser como ela.
Claro que com todo o afastamento do meu pai a relação dos dois se desgastou bastante e sempre ouvíamos eles brigando. Mas sabíamos que eles se amavam profundamente e minha mãe sempre estava lá para ele mesmo quando ele a afastava com suas atitudes.
Quando eu completei dezoito anos não quis uma festa como em todos os outros anos, preferi sair com os homens da minha vida para nos divertir, dançamos, bebemos e conheci um cara lindo. Consegui me desvencilhar dos meus irmãos e tive uma noite incrível com ele. Não era a minha primeira vez, eu era até bem sapeca, mas minha mãe sempre me orientou muito bem. Se eu tinha medo de sair com desconhecidos de vez em quando? Nenhum pouco, pois, se tinha uma coisa que eu sabia bem era me defender, afinal a bisa Tereza nos deu treinamento militar. Eu sempre pensei que íamos para a guerra um dia.
Voltei no outro dia umas dez da manhã, já estava preparada para receber uma bronca épica já que não atendi as ligações dos meus irmãos, não estava muito preocupada com meus pais, pois surgiu um assunto emergencial e minha mãe havia viajado para o Rio de Janeiro e o meu pai, o provável é que ele nem se lembrasse que era meu aniversário.
Subi as escadas da entrada e ouvi uma gritaria na casa, entendi porque que as ligações cessaram pela manhã, tinham coisas mais importantes acontecendo na minha casa.
Dava para ouvir os gritos e as coisas quebrando do lado de fora da casa, eu nunca vi minha mãe tão descontrolada daquele jeito. O que será que aconteceu aqui?
A nossa sala estava toda quebrada, Pierre e Richard estavam na porta de entrada sem saber muito bem o que fazer e a mamãe gritava.
- JÁ CHEGA DE RELEVAR TUDO QUE VOCÊ FAZ CHRISTOPHER, VOCÊ DESTRUIU A NOSSA VIDA! EU TENTEI DE TUDO, MAS ESTOU CANSADA DE LUTAR SOZINHA PARA MANTER ALGO QUE VOCÊ NÃO QUER, ACABOU!
- TEM CERTEZA QUE TENTOU DE TUDO? VOCÊ NUNCA ESTAVA AQUI PARA MIM, ERA A EMPRESA, ESSA MALDITA ONG, TUDO ERA MAIS IMPORTANTE QUE NÓS E AGORA SE QUER ME DA OPORTUNIDADE DE EXPLICAR...
Gritou meu pai tão descontrolado quanto a nossa mãe, mas ela não permitiu que ele continuasse.
- EXPLICAR O QUÊ? EU VI!
Ela parecia com um nó na garganta.
- QUANDO VOCÊ SE TORNOU ALCOÓLATRA FUI ATRÁS DE TRATAMENTO COM VOCÊ, ATÉ AS REUNIÕES DO AA (Alcoólicos Anônimos) EU PARTICIPEI CONTIGO, QUANDO VOCÊ PERDEU A NOSSA CASA E TODO NOSSO DINHEIRO NO PÔQUER EU FIQUEI MUITO, MUITO NERVOSA, MAS PENSEI "DINHEIRO PODEMOS CONSEGUIR MAIS COM TRABALHO", MAS ISSO, O QUE VOCÊ FEZ, EU NUNCA VOU TE PERDOAR POR ME TRAIR!
Eu e meus irmãos ficamos de olhos arregalados, meu pai fez muita merda, mas trair minha mãe? Ele parecia ama-la tanto e a minha mãe era linda mesmo sendo cinquentona, ela parecia no máximo ter trinta. Não acredito que meu pai seria tão burro.
- EU JÁ DISSE QUE NÃO FIZ ISSO, EM TODO RESTO VOCÊ TEM RAZÃO, MAS NÃO VOU ASSUMIR UMA CULPA QUE NÃO TENHO.
- ESSA DISCUSSÃO NÃO VAI LEVAR A NADA, ADEUS CHRISTOPHER, ESPERO NÃO TE VER NUNCA MAIS.
- SE É O QUE VOCÊ QUER.
Minha mãe subiu as escadas e meu pai saiu pela porta da frente sem se quer falar conosco.
Richard olhou em seu relógio:
- Merda, meu plantão vai começar (ele era médico como nosso pai só que era pediatra)
- Eu vou atrás da mamãe e Pierre você vai falar com o papai. Richard quando tiver um tempinho faremos uma chamada de vídeo para passar a situação.
Os meninos assentiram e cada um foi cumprir o seu papel.
Subi ao quarto da nossa mãe e ela estava fazendo as malas, para onde ela iria?
- Mãe, isso é sério? Para onde você vai?
- Estamos com problemas na filial do Rio de Janeiro e estou voltando para lá.
Ela acabara de chegar de lá.
- Por quanto tempo pretende ficar?
Ela parou de costas para mim, e pareceu pensar antes de me responder.
- Eu não vou voltar... - falou entre lágrimas. - Você e seus irmãos já são adultos, Richard é médico e Pierre está quase terminando a faculdade de Direito, você acabou de completar dezoito anos. Vocês sempre poderão contar comigo mais agora chegou a hora de resolver a minha própria vida.
Fiquei sem saber o que dizer.
- Mamãe o que realmente aconteceu entre vocês? O que a senhora viu?
- Seu pai deveria estar de plantão aqui em são Paulo e adivinha onde eu o encontrei? Fui ao Rio de janeiro a pedido do seu tio resolver alguns problemas com o CEO regional de lá e ao sair pela manhã vejo seu pai com uma garota mais ou menos da sua idade, aos beijos, próximo de um dos hotéis Ferrara. Ele pode negar mais eu vi.
A minha mãe estava sofrendo, por mais que eu achasse essa história muito estranha eu jamais duvidaria dela, e de certa forma eu entendia a sua dor, foram anos de dedicação lutando para manter nossa família unida para sofrer uma decepção dessas. Mesmo sabendo que ela estava apenas fugindo de tudo e o quanto isso era importante para sanidade dela, eu não queria ficar longe dela, segurei em sua mão.
- Eu posso ir para o Rio com você?
Ela me olhou surpresa e assentiu com a cabeça se desmanchando em lágrimas.
Algumas horas depois, meus irmãos e eu conversamos por chamada de vídeo e contei-lhes a decisão da mamãe e também a minha, que eu iria com ela, Pierre esteve com o papai que não bebia a algum tempo e nesse dia bebeu até apagar. Conversamos com Richard e decidimos que por ele trabalhar no mesmo hospital que o pai ficaria de olho nele. Pierre estava para se formar em Direito e decidiu que assim que acabasse o semestre se mudaria para o Rio de Janeiro conosco.