O barulho da torcida fazia o chão vibrar.
Helena Martins apertou o cachecol do clube contra o peito enquanto observava as arquibancadas lotadas. Milhares de pessoas vestiam as mesmas cores, cantavam os mesmos cânticos e compartilhavam a mesma expectativa.
Era impossível não se arrepiar.
Desde criança, ela sonhava em assistir a uma partida daquele estádio. Cresceu vendo jogos pela televisão ao lado do pai, decorando escalações, comemorando gols e chorando derrotas como se estivesse dentro de campo.
Mas ingressos nunca foram baratos.
Por isso, quando a escola onde trabalhava recebeu alguns convites para uma ação beneficente organizada pelo clube, Helena mal acreditou quando seu nome foi sorteado.
E agora ali estava ela.
Na terceira fileira de um dos setores laterais.
Tão perto que conseguia enxergar os jogadores aquecendo.
- Você está sorrindo igual uma criança no Natal - brincou Camila.
Helena nem tentou negar.
- Porque isso é praticamente o Natal.
A irmã mais velha riu.
- Eu devia ter vendido esse ingresso.
- Se você falar isso mais uma vez, eu te empurro da arquibancada.
- Violenta.
- Merecidamente.
As duas caíram na gargalhada.
O sistema de som anunciou a entrada das equipes.
O estádio explodiu.
Helena se levantou imediatamente junto com os outros torcedores.
As luzes refletiam sobre o gramado impecável.
Os jogadores surgiram pelo túnel.
E então ela o viu.
Lucas Andrade.
O camisa nove.
O ídolo nacional.
O atacante que aparecia em propagandas, capas de revistas e programas esportivos praticamente todos os dias.
Ao vivo, parecia ainda mais impressionante.
Alto.
Atlético.
Confiante.
Mas havia algo em sua expressão que chamava atenção.
Enquanto os outros atletas acenavam para a torcida, Lucas mantinha um semblante concentrado, quase sério.
Como alguém carregando um peso invisível.
- Lá está seu favorito - provocou Camila.
- Cala a boca.
- Você fala dele há anos.
- Eu falo do futebol dele.
- Claro.
Helena ignorou a irmã.
Ou pelo menos tentou.
Porque era verdade.
Lucas sempre fora seu jogador favorito.
Não por causa da aparência.
Ou da fama.
Mas porque jogava com paixão.
Cada partida parecia importar.
Cada gol parecia significar alguma coisa.
E isso era raro.
O apito inicial interrompeu seus pensamentos.
O jogo começou.
Os primeiros minutos foram equilibrados.
As equipes disputavam cada bola.
Os torcedores gritavam sem parar.
Helena acompanhava tudo com atenção.
Até que, aos vinte e sete minutos do primeiro tempo, aconteceu.
Lucas recebeu um passe na intermediária.
Girou sobre o marcador.
Avançou.
Driblou mais um.
Invadiu a área.
E chutou.
A rede balançou.
O estádio inteiro explodiu.
Helena se viu pulando junto com milhares de desconhecidos.
Abraçando pessoas que nunca tinha visto.
Gritando até ficar sem voz.
- GOOOOOL!
Camila ria enquanto tentava manter o equilíbrio.
- Você está completamente surtada!
- FOI UM GOLAÇO!
Lucas correu em direção à arquibancada.
Abriu os braços.
Sorriu.
Pela primeira vez naquela noite.
E por um segundo, apenas um segundo, Helena teve a sensação absurda de que ele estava olhando diretamente para ela.
A ideia desapareceu tão rápido quanto surgiu.
Claro que não estava.
Havia quarenta mil pessoas naquele estádio.
Ela era apenas mais uma.
O restante da partida passou voando.
O clube venceu por dois a zero.
Quando o árbitro encerrou o jogo, os torcedores permaneceram nas arquibancadas comemorando.
Helena não queria ir embora.
Não ainda.
Queria aproveitar cada segundo daquela experiência.
- Vamos? - perguntou Camila.
- Mais cinco minutos.
- Você disse isso há dez minutos.
- Agora são mais cinco de verdade.
A irmã revirou os olhos.
Mas ficou.
Enquanto os jogadores davam a volta olímpica agradecendo o apoio da torcida, Helena observou o campo mais uma vez.
Talvez demorasse anos até conseguir voltar.
Talvez nunca voltasse.
Por isso queria guardar aquela memória.
O estádio.
As luzes.
Os cantos.
A sensação de pertencer àquele lugar.
Quando finalmente decidiram sair, os corredores já estavam lotados.
Centenas de pessoas caminhavam em direção às saídas.
O fluxo era lento.
Barulhento.
Caótico.
- Eu sabia que seria uma péssima ideia esperar - reclamou Camila.
- Você reclama de tudo.
- Porque alguém precisa fazer isso.
As duas continuaram avançando entre a multidão.
Foi quando Helena percebeu uma movimentação estranha alguns metros à frente.
Seguranças.
Funcionários.
Pessoas correndo.
- O que aconteceu? - perguntou.
- Não faço ideia.
Um homem passou apressado.
Outro apareceu logo atrás.
A agitação aumentava.
Helena tentou ignorar.
Mas algo naquela cena chamou sua atenção.
Algo que parecia anunciar que a noite ainda não tinha terminado.
Ela não fazia ideia de que, em poucas horas, sua vida inteira começaria a mudar.
E que o responsável por isso era justamente o homem que acabara de marcar o gol da vitória.
- Tem certeza de que quer ir por aqui?
Camila apontou para um corredor lateral quase vazio.
Helena observou a multidão espremida na saída principal e respondeu sem pensar:
- Absoluta.
- Isso me preocupa.
- Você reclama demais.
- E você confia demais no próprio senso de direção.
Mesmo assim, seguiram pelo corredor.
O local parecia servir para funcionários e fornecedores do estádio. Não estava completamente vazio, mas havia poucas pessoas circulando.
Pela primeira vez desde o fim da partida, Helena conseguiu respirar sem ser empurrada por dezenas de torcedores.
- Muito melhor - comentou.
- Admito que talvez você esteja certa.
- Talvez?
- Não se acostume.
Helena sorriu.
O som da torcida ainda ecoava ao longe.
Mesmo com o jogo encerrado, era possível ouvir cânticos e comemorações vindos das áreas externas.
A energia daquele lugar parecia impossível de apagar.
Elas continuaram caminhando até que uma voz firme interrompeu o percurso.
- Senhoritas, essa área está temporariamente bloqueada.
Um segurança surgiu alguns metros à frente.
Camila imediatamente levantou as mãos.
- Eu sabia.
- Não começou - murmurou Helena.
- Vocês precisarão retornar pelo corredor principal.
Antes que pudessem responder, uma movimentação chamou a atenção de todos.
Vários funcionários passaram correndo.
Um deles carregava uma caixa de equipamentos médicos.
Outro falava apressadamente ao telefone.
O segurança desviou o olhar por um instante.
- O que aconteceu? - perguntou Helena.
- Nada grave.
O tom dele indicava exatamente o contrário.
- Tem certeza?
- Apenas um pequeno incidente na área de acesso dos veículos.
Helena percebeu que o homem claramente não pretendia dar mais explicações.
Então assentiu.
- Tudo bem.
Ela e Camila se viraram para retornar.
Foi nesse momento que ouviram um grito.
- Cuidado!
O som veio de trás.
Helena virou a cabeça instintivamente.
Uma estrutura metálica usada para iluminação havia sido deslocada.
Nada enorme.
Mas suficientemente pesada para causar um belo acidente.
Um dos funcionários tentava segurá-la sozinho.
Sem sucesso.
A peça começou a tombar.
Diretamente na direção de uma mulher distraída olhando o celular.
Tudo aconteceu rápido.
Helena largou a bolsa e correu.
- Sai daí!
A mulher ergueu os olhos sem entender.
Helena a puxou pelo braço.
As duas tropeçaram.
A estrutura caiu no chão com um estrondo ensurdecedor.
Por um segundo, ninguém se moveu.
Nem respirou.
Depois vieram os gritos.
- Meu Deus!
- Alguém se machucou?
- Chamem ajuda!
Helena ainda estava sentada no chão.
O coração disparado.
As mãos tremendo.
A mulher que ela havia puxado parecia tão assustada quanto ela.
- Você está bem? - perguntou Helena.
- Acho que sim.
- Se machucou?
- Não.
As duas respiraram aliviadas.
Várias pessoas se aproximaram.
Os funcionários começaram a organizar a área.
O segurança que as havia parado voltou correndo.
- Está tudo bem?
- Sim - respondeu Helena.
- Por pouco.
- Eu vi.
Ele passou a mão na nuca.
Claramente nervoso.
- Obrigado pelo que fez.
- Eu só reagi.
- Mesmo assim.
Camila apareceu logo depois.
- Você perdeu completamente o juízo?
- Ela podia se machucar.
- E você também!
Antes que Helena respondesse, outra movimentação surgiu no corredor.
Desta vez diferente.
Os seguranças se afastaram.
Funcionários abriram passagem.
E um grupo de jogadores apareceu vindo de uma área interna do estádio.
Helena reconheceu alguns imediatamente.
Era impossível não reconhecer.
Os uniformes ainda estavam completos.
Alguns carregavam mochilas.
Outros conversavam entre si.
Mas apenas um chamou sua atenção.
Lucas Andrade.
Ele caminhava alguns passos atrás dos demais.
Parecia cansado.
Mais cansado do que qualquer entrevista ou reportagem mostrava.
Quando se aproximou da confusão, diminuiu o ritmo.
- O que aconteceu? - perguntou a um funcionário.
- Uma estrutura caiu.
- Alguém se feriu?
- Não. Uma torcedora evitou que acontecesse algo pior.
O funcionário apontou.
Diretamente para Helena.
Ela congelou.
Por um instante absurdo.
Completamente absurdo.
Lucas olhou para ela.
Não para a multidão.
Não para os funcionários.
Para ela.
Helena sentiu o estômago virar.
Porque agora estava vendo o jogador de perto.
Muito perto.
Sem câmeras.
Sem televisão.
Sem a distância confortável das arquibancadas.
Ele era real.
E isso era estranhamente desconcertante.
Lucas se aproximou.
- Você está bem?
A voz dele era mais grave do que parecia nas entrevistas.
Helena demorou um segundo para responder.
- Estou.
- Tem certeza?
- Sim.
- Bom.
Ele observou rapidamente a área.
Depois voltou a encará-la.
- Foi corajoso da sua parte.
- Eu não pensei muito.
- Às vezes isso é o que salva alguém.
Helena não soube o que dizer.
Felizmente, Camila parecia não sofrer do mesmo problema.
- Ela sempre faz essas coisas.
- Camila!
- O quê? É verdade.
Lucas soltou uma risada curta.
A primeira expressão genuinamente leve que Helena viu nele.
E, por um momento, ele pareceu apenas um homem comum.
Não um astro do futebol.
Não uma celebridade.
Apenas alguém cansado depois de um longo dia.
- Bem... fico feliz que ninguém tenha se machucado - disse ele.
- Eu também.
Um assessor apareceu ao lado dele.
- Lucas, precisamos ir.
O jogador assentiu.
Então voltou a olhar para Helena.
- Boa noite.
- Boa noite.
Ele seguiu pelo corredor.
Os seguranças o acompanharam.
Em poucos segundos desapareceu atrás de uma porta de acesso restrito.
E foi só então que Helena voltou a respirar normalmente.
Camila cruzou os braços.
- Então.
- Nem começa.
- O homem mais famoso do estádio conversou com você.
- Por menos de um minuto.
- Ainda conta.
- Não conta.
- Conta sim.
Helena pegou a bolsa do chão.
Tentando ignorar o calor estranho que ainda sentia no rosto.
Era apenas um encontro casual.
Nada mais.
Ele provavelmente esqueceria aquilo antes mesmo de chegar em casa.
E ela também deveria esquecer.
Mas enquanto caminhavam em direção à saída, uma sensação insistente permaneceu em seu peito.
Como se aquela conversa de poucos segundos fosse apenas o começo de algo muito maior.
Na manhã seguinte, Helena acordou atrasada.
O despertador havia tocado três vezes.
Ela simplesmente não ouvira nenhuma delas.
- Ótimo. Perfeito. Maravilhoso.
Saiu da cama correndo.
Em menos de vinte minutos, tomou banho, vestiu-se, arrumou o cabelo da forma mais apresentável possível e pegou a bolsa.
Enquanto saía do apartamento, o celular vibrou.
Camila: "Já superou o encontro com seu namorado?"
Helena revirou os olhos.
Helena: "Ele não é meu namorado."
A resposta chegou imediatamente.
Camila: "Ainda."
Helena bloqueou temporariamente as notificações da irmã.
Por questão de sobrevivência.
---
A Escola Municipal Primavera ficava a poucos quarteirões de sua casa.
Quando chegou, várias crianças já corriam pelo pátio.
Algumas brincavam.
Outras conversavam.
Outras simplesmente gastavam energia de maneiras que Helena jamais entenderia.
- Professora!
Um pequeno furacão chamado Gustavo surgiu correndo.
- Bom dia, Gustavo.
- Você viu o jogo ontem?
- Vi.
- O Lucas Andrade fez um golaço!
- Fez mesmo.
- Eu vou ser igual a ele quando crescer.
- Então precisa estudar também.
O garoto fez uma careta.
- Essa parte eu não gosto.
Helena riu.
- Eu imaginei.
O restante da manhã passou rapidamente.
Entre atividades, desenhos e pequenas crises infantis sobre lápis desaparecidos, ela conseguiu esquecer completamente o encontro da noite anterior.
Ou quase.
Porque durante o intervalo, uma das professoras apareceu segurando um celular.
- Helena!
- Oi?
- Não era você no estádio ontem?
- Era.
- Então olha isso.
A colega mostrou a tela.
Uma reportagem esportiva.
Na foto principal aparecia Lucas deixando o estádio.
Ao fundo.
Quase escondida.
Estava Helena.
- Ah.
- Você apareceu numa matéria.
- Apareci metade do meu braço.
- Continua contando.
Helena devolveu o celular.
- Tenho coisas mais importantes para fazer.
- Como negar que conheceu o homem mais bonito do país?
- Exatamente isso.
As outras professoras começaram a rir.
Helena apenas voltou para a sala.
Determinada a não alimentar aquela história.
---
Do outro lado da cidade.
Lucas Andrade observava a fisioterapeuta encerrar uma sessão de recuperação muscular.
- Pronto.
- Acabou?
- Por hoje.
- Finalmente.
A profissional sorriu.
- Você reclama mais que os iniciantes.
- Porque os iniciantes ainda têm esperança.
Ela balançou a cabeça.
- Descansa algumas horas.
- Vou tentar.
Lucas deixou o centro de treinamento.
O corpo estava cansado.
Mas sua mente parecia ainda mais exausta.
A temporada vinha sendo intensa.
Jogos.
Viagens.
Entrevistas.
Patrocinadores.
Compromissos.
Cobranças.
Sempre cobranças.
Às vezes sentia que não existia espaço para simplesmente ser Lucas.
Todos queriam algo.
Um gol.
Uma foto.
Uma declaração.
Uma polêmica.
Qualquer coisa.
Enquanto caminhava pelos corredores internos do clube, algo chamou sua atenção.
Dois funcionários conversavam próximos à recepção.
- Foi muita sorte ninguém ter se machucado.
- Aquela moça salvou a situação.
- Verdade.
Lucas lembrou imediatamente.
A torcedora do estádio.
A garota que havia puxado outra pessoa para fora da trajetória da estrutura metálica.
Helena.
Ele não sabia por que recordava seu nome.
Mas recordava.
Talvez porque ela tivesse sido diferente.
Não pediu foto.
Não tentou prolongar a conversa.
Não parecia interessada na fama dele.
Parecia preocupada apenas em ajudar alguém.
E isso era raro.
Muito raro.
- Pensando em alguma coisa?
A voz interrompeu seus pensamentos.
Rafael Costa aproximou-se.
Companheiro de equipe.
Melhor amigo.
- Nada importante.
- Mentira.
- Por quê?
- Porque sua cara de "nada importante" é diferente da sua cara de "nada aconteceu".
Lucas soltou uma risada.
- Você passa tempo demais comigo.
- Infelizmente.
Os dois seguiram pelo corredor.
- Então? - insistiu Rafael.
- Conheci alguém ontem.
- Interessante.
- Não desse jeito.
- Claro.
- Estou falando sério.
- E eu também.
Lucas balançou a cabeça.
Sabia que não venceria aquela discussão.
---
Naquela noite.
Helena estava sentada no sofá assistindo a uma série quando o telefone tocou.
Era Camila.
Novamente.
- O que foi agora?
- Liga a televisão.
- Por quê?
- Só liga.
- Camila...
- Liga.
Helena suspirou.
Pegou o controle remoto.
Mudou para um canal esportivo.
Uma reportagem sobre o jogo da noite anterior estava sendo exibida.
Lances.
Entrevistas.
Comentários.
Nada fora do comum.
Até que uma imagem apareceu.
A gravação da área próxima ao corredor onde o acidente acontecera.
O vídeo mostrava exatamente o momento em que Helena puxava a mulher para longe da estrutura.
- Ah, não.
- Ah, sim - respondeu Camila.
- Isso está passando na televisão?
- Está.
- Meu Deus.
- Você ficou famosa.
- Por dez segundos.
- Ainda conta.
Helena afundou no sofá.
Desejando desaparecer.
A reportagem durou menos de um minuto.
Mas isso já parecia mais do que suficiente.
Quando terminou, ela desligou a televisão.
- Vai sobreviver - disse Camila.
- Espero que sim.
- Boa noite, celebridade.
- Tchau, Camila.
A ligação encerrou.
O apartamento ficou silencioso.
Helena acreditou que o assunto finalmente morreria ali.
Ela não sabia que, naquele mesmo instante, alguém observava aquele mesmo vídeo em outro lugar da cidade.
E sorria ao reconhecer a garota que parecia completamente alheia ao impacto que havia causado.