Alissa
- Por que você sempre faz isso comigo? - não sei ao certo se é um tapa ou um soco, mas é forte o suficiente para me jogar no chão, encolho-me no canto da porta e abraço meus joelhos em uma tentativa falha de me proteger.
- Essa resposta é simples Alissa, você tirou sua mãe de mim, ela não foi forte o suficiente para te abortar e acabou morrendo no parto, você tirou a única mulher que amei, e continuei amando-a mesmo quando me traiu com seu pai.
Depois de tantos anos finalmente consigo compreendê-lo, William sente saudades de minha mãe, sua dor o deixa cego, porém ele não entende que eu também tenho meu sofrimento, eu não pude conhecê-la, saber que eu a matei é algo que irá me atormentar pelo resto da minha vida.
- Você a tirou de mim e merece morrer Alissa - encolho-me ainda mais a cada passo em minha direção, William agarra meus cabelos e grito pela dor de sentir várias mechas de cabelo se soltando, percebo que ele está me arrastando para o porão e arregalo os olhos assustada, eu tenho medo de ficar lá embaixo sozinha, é escuro e frio, eu já deveria estar acostumada, pois já passei inúmeras noites no porão, entretanto sei que é impossível me acostumar ao medo.
Ele abre a porta do porão e me joga, rolo escada abaixo e minha cabeça encontra o chão, gemo de dor e coloco a mão na cabeça, encontro uma pequena quantidade de sangue em minha mão, contudo acho que não é nada preocupante.
Passo a noite com medo e frio, não ouço barulhos indicando que William está em casa, eu tenho medo que ele tenha saído e volte dias depois deixando-me aqui sozinha e com fome.
Não sei exatamente quanto tempo estou aqui, não consigo ter noção das horas, mas em algum momento a porta abre, cautelosamente subo as escadas, isso pode ser alguma brincadeira de William para jogar-me novamente das escadas, mas quando chego no topo apenas encontro o silêncio.
Dou pequenos passos tentando não fazer barulho e chego a sala, encontro William e fico em choque olhando fixamente para a cena, dou vários passos erráticos para trás até que encontro a parede atrás de mim, meu coração bate descompassado, não consigo me mexer, apenas olho para a visão a minha frente atordoada.
Não existe mais Willian, na verdade existem somente pedaços dele.
Alissa
A Polícia disse que a morte do meu padrasto foi causada por um animal, seu corpo estava desfigurado, quase irreconhecível.
O fato mais estranho é que eu não ouvi nenhum barulho indicando que William estava sendo atacado, a casa inteira estava silenciosa, nós moramos em uma cidade grande onde não há florestas, então como um urso ou um lobo poderia entrar na casa e matá-lo? Há algo de errado nessa história.
Eu fui levada para a delegacia no dia seguinte a sua morte, fizeram dezenas de perguntas como se eu tivesse o assassinado, os olhares dos policiais me julgavam, mas como eu poderia fazer uma atrocidade daquelas? Fui liberada, já que não tinham nada contra mim.
Coloquei meus pertences em uma mala assim que cheguei em casa, eu não tinha muito, apenas roupas, meus documentos e alguns livros que tenho para passar o tempo, eu não tive uma boa infância ou uma adolescência maravilhosa, sempre invejava as meninas da escola, elas eram livres e felizes, mas agora isso irá mudar.
Eu decidi ir para Floresta Negra, uma cidade com poucos habitantes e rodeada por uma gigantesca floresta. Semanas atrás eu navegava pela internet atrás de um lugar para fugir, eu não aguentava mais viver desse modo, como um saco de pancadas onde Willian poderia aliviar sua dor, então encontrei a cidade Floresta Negra e me identifiquei com ela, a cidade quase passou despercebida por mim, é um ponto pitoresco no mapa e Willian jamais iria procurar por mim ali.
Mas agora que William morreu eu não preciso fugir, ele ficaria a vida inteira atrás de mim, pelo menos agora eu poderei recomeçar minha vida e viver em paz.
Olho pela última vez a casa onde eu vivi um verdadeiro inferno, dores, tristezas e mágoas, eu nunca mais voltarei aqui, quero um novo começo e vou conseguir isso em Floresta Negra.
Pego minha mala e vou para o ponto de ônibus, daqui irei para a estação de Flamênia e pegarei o ônibus que me levará ao meu novo destino, minha nova casa.
[...]
Chego à estação de Floresta Negra as 10:00 da noite, fui a única a descer do ônibus e percebi que o motorista queria ir embora da cidade o mais rápido possível, estranhei sua reação, mas segui em frente.
Eu não sabia para onde ir, estava escuro a não ser pelos pequenos postes que iluminavam a rua e estava fazendo frio, aperto casaco contra meu corpo e pego a mala, ando sem destino até que vejo uma placa escrito hotel em letras maiúsculas.
Abro a porta e uma mulher jovem e elegante olha-me, ela parece me avaliar e abre um sorriso depois da sua inspeção.
- É uma turista?
- Na verdade eu vim aqui para morar, ainda não tenho um lugar fixo e preciso de um quarto - eu espero que não seja caro, minha economia é pouca, William gastou tudo que minha mãe deixou para mim.
- Morar aqui? Boa sorte - ela cheira o ar e sorri ainda mais para mim, essa mulher parece um cachorro farejando o ar, ela vira-se e pega uma chave com o número 12 - Seu quarto é nesse corredor - ela aponta para um corredor estreito perto de um galão de água - Bem-vinda a Floresta Negra.
Sigo para o corredor e ando até o quarto número 12, abro a porta e me deparo com um quarto confortável, há uma estante no canto e uma cama de casal onde caberia três de mim, isso só pode ser um sonho.
Fecho a porta atrás de mim e pulo na cama, a maciez do colchão relaxa o meu corpo, eu nunca dormi em uma cama assim e nunca tive travesseiros, eu definitivamente escolhi bem, por que o conforto aqui é aplausível e barato.
Levanto-me e sigo para o banheiro, vejo toalhas em cima da pia, sabonetes e escovas de dente, abro o box e deixo a água esquentando enquanto tiro a roupa, pego um sabonete, levo ao meu nariz e sinto o cheiro de maça.
Entro debaixo da água que alivia a tensão de ficar sentada em um ônibus por quatro horas, me ensaboo e lavo meu corpo, gostaria de passar a noite inteira embaixo da água, porém acho que a recepcionista chamaria minha atenção por isso.
Desligo e me enrolo na toalha, vou para o quarto e abro a mala, tiro um simples pijama de algodão junto com a calcinha e me visto, apago a luz e deito-me embaixo da camada de cobertas.
Amanhã preciso encontrar um emprego.
[...]
Floresta negra parece uma cidade histórica que está há milênios aqui, fiquei admirada com as lindas casas, entretanto o que mais chamou-me a atenção foi a igreja, ela é linda, tem o toque da antiguidade, com certeza está aqui há muito tempo.
A cidade em si é grande, com certeza não conseguirei ver tudo hoje, já sei onde é o mercado e as principais lojas, mas encontrar emprego está sendo difícil, tanto o mercado quanto as lojas já estão cheias de pessoas empregadas e eu apenas sei fazer isso, não tenho qualificação para trabalhar em uma escola ou em um escritório, mesmo que seja de secretária.
Parei em frente há um restaurante chamado Bob, o cartaz diz que ele está contratando, imediatamente entro e encontro uma mulher negra com um forte batom vermelho, em suas orelhas há grandes brincos de argola, seu cabelo é estilo Black Power, ela tem uma beleza rústica perceptível.
Ela faz a mesma coisa que a recepcionista, cheira o ar e olha para mim, qual é o problema dessas pessoas? Acho que eles tem o olfato apurado.
- Bom dia - digo timidamente e ela sorri.
- Bom dia, como se chama?
- Alissa, eu vi que vocês estão contratando e quero saber se ainda tem vagas, acabei de chegar na cidade e preciso de um emprego - afinal, eu não quero ficar em um quarto de hotel por muito tempo, quero ter minha própria casa com o meu próprio dinheiro.
- Você se mudou para cá? - ela parece incrédula, será que todos vão me perguntar por que eu me mudei para essa cidade?
- Sim, estou em um hotel por enquanto - ela faz a mesma coisa que a recepcionista, ela me avalia de cima a baixo e devo dizer que não gosto disso.
- A única vaga que tenho é para servir mesas.
- Tudo bem, posso fazer isso - eu aprendo rápido e servir mesas não deve ser difícil.
- Eu já volto.
- Você vai falar com Bob? - pergunto, acho que apenas o dono pode me contratar.
- Alissa, eu sou Bob - fico confusa, como assim ela Bob? - Estranho? - assinto - Não sei o que minha mãe tinha na cabeça quando decidiu colocar esse nome, eu irei falar com o meu marido - assinto e sento em uma das banquetas enquanto a vejo sair do meu campo de visão.
Eu espero conseguir esse emprego.
[...]
Bob
Não posso negar e dizer que não fique com pena da menina, ela escolheu a cidade errada para morar e parece tão esperançosa em conseguir esse emprego. Assim que ela entrou na loja eu senti o cheiro da sua virgindade e isso faz os homens de Floresta Negra completamente insanos.
Abro a porta e encontro meu companheiro olhando as finanças do bar.
- Amor - chamo-o, ele levanta os olhos do papel e sorri para mim - Preciso te falar algo - me sento na cadeira frente a mesa e digo - Uma menina está aqui atrás de um emprego.
- É da nossa espécie?
- Não, é uma humana e o pior é que ela é virgem - ele arregala os olhos e nega veementemente com a cabeça.
- Bob, não vamos contratá-la, o que essa menina está fazendo aqui? Estamos em tempo de acasalamento e os lobos estão em um cio do inferno, essa cidade é um pesadelo nessa semana do mês, houve três casos de estupro!
- Mas o alfa os puniu matando-os, eu tenho certeza que eles não irão se aproximar, eu vou ficar de olho nela.
- A decisão é sua Bob e a responsabilidade também - assinto, eu me fragilizei com a situação da garota.
- Obrigado por entender.
- Cuide dela - ele me alerta mais uma vez e assinto.
[...]
Alissa
- Você está contratada, mas com uma condição - levanto-me prontamente e assinto, não importa a condição, eu consegui um emprego e é isso que importa.
- Claro, qual condição?
- Você vai morar aqui, no andar de cima tem uma suíte e você ficará lá.
- Como assim? Eu vou ter que morar aqui? - isso só pode ser Deus na minha vida!
- Sim.
- Obrigado - em um impulso eu a abraço e ela ri, sinto o seu braço em torno de mim e ela me aperta tirando-me o ar - Eu vou pagar o aluguel - digo com certa dificuldade, ela me solta e respiro aliviada.
- Não precisa, apenas trabalhe corretamente.
- Irei fazer isso.
- O Restaurante começa a funcionar as 7:00 horas para o jantar e 12:00 para o almoço, deixarei seu uniforme no quarto, agora você vai no hotel pegar sua mala e voltar rápido, pois o horário da janta em breve irá começar. - assinto, Bob é uma pessoa maravilhosa e não vai se arrepender de ter me contratado.
Akira
Não posso negar a profunda inveja que sinto do meu irmão, ele encontrou sua companheira há quase cem anos, eu sendo o irmão mais velho ainda não encontrei aquela que irá me completar, sempre o vejo feliz com o seu bando de filhotes, meus sobrinhos. Eu tenho que me contentar com relações consensuais que não são satisfatórias quando sei que apenas irei me satisfazer com a minha companheira, mas onde está ela?
Eu desisti de procurar por ela há muito tempo, e foi quando desisti que eu aceitei a oferta de ser o Alfa da Floresta Negra, nesse meio tempo meu irmão encontrou sua companheira Caroline, uma linda e inteligente mulher, e desde então não param de fazer filhotes.
A inveja sempre esta presente, porém não demonstro diante dele, tenho que ser centrado, eu sou o Alfa e não posso demonstrar fraqueza diante das pessoas.
Olho para os meus sobrinhos brincando no chão, eu desejo ter os meus filhotes com minha companheira e não poderia ser diferente, a fêmea pode engravidar apenas do seu companheiro assim como o macho apenas consegue engravidar a sua alma gêmea, a sua companheira de alma.
- Alexander, eu preciso ir - levanto e passo a mão na cabeça de cada um dos seus filhos - Até mais crianças.
- Tchau tio Akira - eles dizem juntos fazendo-me sorrir, Alexander leva-me até a porta e o observo, ele está ridículo com um avental de chefe e segurando uma espátula.
- Vamos ao restaurante hoje?
- Por que você quer ir ao restaurante? - dou de ombros, se eu tivesse minha companheira e os meus filhotes eu não iria querer sair de casa para ir beber.
- Eu quero tomar uma cerveja com o meu irmão, não há nada de errado nisso.
Meu irmão olha-me com certo receio, ele tem suas desconfianças, eu estou tenso por estarmos em época de acasalamento, apreensivo com os lobos dessa cidade, no mês passado ouve casos de estupros contra humanos e eu não aceito isso, os lobos que cometeram essa atitude desonrosa contra mulheres já estão a sete palmos debaixo da terra. Apenas não quero que aconteça novamente, estará chamando atenção desnecessária para a minha cidade.
- Eu te espero lá, até mais Alexander - digo e caminho em direção ao meu carro.
- Não vai furar comigo maninho! - ele grita e reviro os olhos.
- Não vou.
[...]
Alissa
Desço em direção ao restaurante completamente nervosa, eu não quero fazer nada errado para que Bob se arrependa de mim, esse é o meu primeiro trabalho e não quero ser despedida na primeira noite.
Respiro profundamente e abro a porta que separa o andar de cima do restaurante, assim que abro vejo vários homens bonitos, eles levantam a cabeça cheirando o ar e olham para mim, agora eu tenho certeza que as pessoas dessa cidade tem o olfato apurado.
Eles olham fixamente para mim fazendo-me ficar mais tímida e nervosa do que já estou, eles lambem os lábios e um deles dá um passo em minha direção, imediatamente fico tensa, todavia a tensão desaparece quando Bob aparece do meu lado.
Ela olha fixamente para eles, parece falar telepaticamente com eles, talvez mandando-os se afastar.
- Venha Alissa, vou te ensinar - ela me ensina como segurar a bandeja com os copos e vejo que é fácil, definitivamente eu posso fazer isso. Passo uma hora andando de um lado para o outro com aqueles homens me olhando, eu já estava ficando incomodada e com medo dos olhares que eles davam em minha direção, entretanto começo a pensar que é coisa da minha mente.
[...]
Akira
Assim que chego ao bar um odor repugnante enche minhas narinas deixando-me enjoado, esse restaurante cheira a excitação dos lobisomens machos, acho melhor Alexander aparecer logo para irmos para outro lugar.
A porta abre e vejo Bob carregando o lixo para fora, ela percebe minha presença e anda até mim.
- Meu alfa - ela abaixa a cabeça em reverência - O senhor vai entrar?
- Não suportaria ficar dentro do seu restaurante com esse odor.
- É a nova menina.
- Nova? - que eu saiba nós não temos turistas aqui há um bom tempo.
- Ela veio para morar aqui, eu fiquei surpreendida, pois é uma humana e virgem, o resultado foi esse odor que o senhor está sentindo.
- Virgem Bob? Como você a deixa trabalhar aqui?
- Senhor, eu não poderia negar esse emprego a ela, Alissa veio atrás de uma vida melhor - então devo dizer que ela escolheu o lugar errado - Eu vou cuidar dela Alfa.
- Vou ficar aqui essa noite para garantir que nenhum macho chegue perto dela - eu tenho medo de que ela seja mais uma humana estuprada, não quero que isso aconteça mais, pelo menos não no meu território.
Entro no restaurante seguido por Bob, dentre o odor um cheiro gostoso toma conta das minhas narinas, uma mistura de camomila e frutas vermelhas, é ela! Finalmente!
Sigo o cheiro e encontro minha fêmea, ela é a criatura mais linda em que coloquei meus olhos até hoje, tem perfeitos cabelos loiros ondulados, seus olhos são escuros como a noite e seu corpo é um pecado.
O meu pecado.
- Minha - rosno baixo para todos os machos do recinto ouvir, minha, apenas minha!
Eles se afastam assustados e lanço um olhar mortal sobre cada um no recinto, eles abaixam a cabeça e se afastam dela, é melhor assim, pois quem encostar na minha fêmea a pena será a morte.
Ela está distraída colocando os copos usados na bandeja, em seguida olha para mim e nosso olhar se conecta, um tremor passa pelo meu corpo e começo a sentir suas emoções, é verdade o que diziam sobre o macho sentir as emoções da sua fêmea.
Ela olha para mim e vejo o seu corpo estremecer, sorrio internamente, agora que eu encontrei minha fêmea ela jamais escapará de mim. Eu irei reclama-la para mim, mordê-la e fazer dela a minha esposa e mãe dos nossos futuros filhotes.